A casa dos sonhos de
Tradução: Márcia Soares Guimarães
Copyright © 2021 Autêntica Editora Título original: Anne’s House of Dreams Fonte impressa: MONTGOMERY, L. M. Anne’s House of Dreams. Londres: Arcturus Publishing Limited, 2017. Fontes digitais: https://www.globalgreyebooks.com/annes-house-of-dreams-ebook.html / https://www.gutenberg.org/files/544/544-h/544-h.htm Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora Ltda. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.
edição geral e preparação de texto
capa
Sonia Junqueira
Diogo Droschi (sobre esculturas de papel de Marcelo Bicalho)
revisão
Carolina Lins
diagramação
Christiane Morais de Oliveira
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Montgomery, Lucy Maud, 1874-1942 A casa dos sonhos de Anne / Lucy Maud Montgomery ; tradução Márcia Soares Guimarães. -- 1. ed. -- Belo Horizonte : Autêntica, 2021. -- (Clássicos Autêntica / coordenação Sonia Junqueira) Título original: Anne's House of Dreams ISBN 978-65-5928-024-7 1. Literatura infantojuvenil I. Junqueira, Sonia II. Título III. Série. 21-61202 CDD-028.5 Índices para catálogo sistemático: 1. Literatura infantojuvenil 028.5 2. Literatura juvenil 028.5 Maria Alice Ferreira - Bibliotecária - CRB-8/7964
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Para Laura, em memória dos velhos tempos.
Nossos parentes construíam templos para neles aos deuses que conhecemos orar; mas eram as pequenas casas adoráveis que eles escolhiam para morar. Rupert Brooke*
* Tradução livre de versos de: “The song of the Pilgrims”, do poeta inglês Rupert Chawner Brooke (1887-1915). (N.T.)
Sumário
capítulo i
No sótão de Green Gables................................................... 11
capítulo ii
A casa dos sonhos................................................................. 17
capítulo iii
Os preparativos..................................................................... 23
capítulo iv
A primeira noiva de Green Gables...................................... 31
capítulo v
A chegada ao novo lar.......................................................... 35
capítulo vi
O capitão Jim....................................................................... 39
capítulo vii
A noiva do professor............................................................. 45
capítulo viii
A senhorita Cornelia Bryant faz uma visita......................... 54
capítulo ix
Uma visita ao farol de Four Winds...................................... 66
capítulo x
Leslie Moore........................................................................ 77
capítulo xi
A história de Leslie Moore................................................... 85
capítulo xii
A visita de Leslie................................................................... 95
capítulo xiii
Uma noite fantasmagórica................................................... 98
capítulo xiv
Dias de novembro.............................................................. 103
capítulo xv
O Natal em Four Winds.................................................... 107
capítulo xvi
O Réveillon no farol........................................................... 115
capítulo xvii
Inverno em Four Winds.................................................... 120
capítulo xviii
Dias de primavera.............................................................. 127
capítulo xix
Aurora e crepúsculo........................................................... 135
capítulo xx
Margaret desaparecida....................................................... 141
capítulo xxi
A queda das barreiras......................................................... 144
capítulo xxii
A senhorita Cornelia resolve uma questão........................ 151
capítulo xxiii
Owen Ford chega............................................................... 157
capítulo xxiv
O livro da vida do capitão Jim........................................... 162
capítulo xxv
A escrita do livro................................................................. 170
capítulo xxvi
A confissão de Owen Ford................................................. 174
capítulo xxvii Na barreira de dunas.......................................................... 179 capítulo xxviii Acontecimentos diversos.................................................... 185 capítulo xxix
Gilbert e Anne discordam.................................................. 193
capítulo xxx
Leslie decide...................................................................... 200
capítulo xxxi
A verdade liberta................................................................ 206
capítulo xxxii A senhorita Cornelia discute o caso................................... 211 capítulo xxxiii Leslie volta para casa.......................................................... 215 capítulo xxxiv O navio dos sonhos chega a seu porto............................... 220 capítulo xxxv
Política em Four Winds..................................................... 226
capítulo xxxvi “Uma bela coroa em vez de cinzas”.................................. 233 capítulo xxxvii A senhorita Cornelia faz um comunicado surpreendente.....241 capítulo xxxviii Rosas vermelhas................................................................. 246 capítulo xxxix O capitão Jim cruza a barreira........................................... 251 capítulo xl
Adeus à casa dos sonhos..................................................... 255
capítulo i
No sótão de Green Gables
–F
inalmente, não preciso mais lidar com a geometria, nem para aprender, nem para ensinar – disse Anne Shirley, com um ar ligeiramente vingativo, enquanto colocava em um baú de livros um volume já bem desgastado de Euclides.* Em seguida, fechou a tampa triunfalmente e sentou-se sobre a arca, olhando para Diana Wright, no outro lado do quarto do sótão leste de Green Gables. Os olhos de Anne estavam acinzentados como o céu da manhã. O cômodo era pouco iluminado, sugestivo e encantador como todos os sótãos deveriam ser. Pela janela aberta, perto de Anne, entrava o ar doce, perfumado e morno da tarde de agosto. Lá fora, os galhos dos álamos balançavam e farfalhavam, movidos pelo vento. Mais adiante ficavam o bosque – por onde a Vereda dos Apaixonados serpenteava sedutoramente – e o antigo pomar de macieiras, que ainda exibia generosamente seus frutos rosados. Acima de tudo isso, uma cordilheira de nuvens brancas contrastava com o céu anil. Pela outra janela avistava-se a distância um mar azul salpicado de branco: o belo Saint Lawrence Gulf, no qual flutuava, como uma joia magnífica, a ilha Abegweit, cujo antigo nome indígena, * Pouco se sabe sobre Euclides, um matemático, professor e escritor provavelmente grego que, aparentemente, viveu em Alexandria, no Egito, durante o século III a.C.; é conhecido como o “pai da geometria”. (N.T.) . 11 .
mais suave e doce, tinha sido abandonado para ceder lugar ao menos charmoso título de Prince Edward Island. Diana Wright, três anos mais velha que na última vez em que a vimos, havia adquirido uma aparência levemente matronal. Entretanto, seus olhos permaneciam tão negros e brilhantes, suas bochechas tão coradas e suas covinhas tão fascinantes quanto nos velhos tempos, naquele dia em que ela e Anne Shirley prometeram solenemente, no jardim de Orchard Slope, que seriam eternamente amigas fiéis. Ela segurava nos braços uma pequena e adormecida criatura de cachos negros que há dois anos felizes era conhecida como “a pequena Anne Cordelia”. Os moradores de Avonlea sabiam o motivo de Diana ter escolhido “Anne”, claro, mas todos ficaram intrigados com “Cordelia”. Nunca tinha havido ninguém com esse nome entre os familiares e amigos dos Wright ou dos Barry. E quando a senhora Harmon Andrews disse supor que Diana tinha encontrado esse nome em algum romance fajuto e que se perguntava por que Fred havia sido insensato o suficiente para permitir que o desse a sua filha, as duas amigas apenas se entreolharam e sorriram: ambas sabiam bem a razão de a pequena Anne Cordelia ter sido batizada assim. – Você sempre detestou geometria – Diana comentou, lembrando-se do passado. – E eu diria até que está bem contente por não lecionar mais. – Sempre gostei de dar aulas, Diana, exceto as de geometria. Esses últimos três anos em Summerside foram muito prazerosos. Quando voltei para casa, a senhora Harmon me avisou que, contrariando minhas expectativas, era bem provável que eu não achasse a vida de casada muito mais interessante que a de professora. É evidente que ela compartilha da opinião de Hamlet de que pode ser melhor aceitarmos os males conhecidos em vez de buscarmos refúgio naqueles sobre os quais nada sabemos. A risada de Anne, tão jovial e irresistível quanto antigamente, mas com um acréscimo de maturidade e doçura, atravessou as paredes do sótão. Marilla, no andar de baixo preparando uma conserva de ameixas, escutou e sorriu. Depois, suspirou ao pensar que nos próximos anos aquela risada tão querida raramente ecoaria nos cômodos de Green Gables. Nada em toda a sua vida tinha trazido mais felicidade a Marilla do que saber que Anne se casaria com Gilbert Blythe. Contudo, toda alegria traz sempre consigo uma sombra de pesar. Durante os três anos que . 12 .
passou em Summerside, Anne tinha estado frequentemente em Avonlea, nas férias ou em fins de semana, mas a partir de agora o máximo que se podia esperar eram duas visitas por ano. – Você não pode deixar que as coisas que a senhora Harmon diz a preocupem – afirmou Diana, com a segurança tranquila de quem já tinha quatro anos de casada. – Obviamente, a vida conjugal tem seus altos e baixos; não se deve ter a expectativa de que tudo vai sempre correr maravilhosamente bem. Mas posso lhe garantir, Anne, que é uma vida feliz se você está casada com o homem certo. Anne reprimiu um sorriso. Os ares de vasta experiência de Diana sempre a divertiram. “Ouso pensar que também vou assumi-los quando já estiver casada por quatro anos”, ela pensou. “Se bem que com certeza meu senso de humor vai me poupar disso.” – Vocês já sabem onde vão morar? – Diana perguntou, acariciando a pequena Anne Cordelia com o gesto maternal inimitável que sempre despertava no coração de Anne – cheio de fantasias e esperanças doces e nunca relatadas – uma emoção que era, em parte, uma felicidade sublime e, ao mesmo tempo, uma dor estranha, indefinível. – Sim, era isso que eu queria contar quando telefonei e pedi que você viesse aqui hoje. A propósito, ainda não me acostumei com a ideia de que agora temos telefones em Avonlea. Isso parece tão absurdamente inovador e moderno para um lugar antigo e adoravelmente pacato como este! – Podemos agradecer à Sociedade para Melhorias em Avonlea – Diana explicou. – Nós nunca teríamos conseguido as linhas se ela não tivesse assumido e lutado até o fim por esse progresso. Houve bastante oposição, e muitos moradores tentaram desencorajar os membros da sociedade. Contudo, eles se mantiveram firmes em seu propósito. Você realizou algo esplêndido para Avonlea quando fundou essa organização, Anne. Como nos divertimos nas reuniões! Algum dia você vai se esquecer do azul profundo e brilhante com que o clube foi pintado, ou do plano de Judson Parker para colocar anúncios de pílulas e curativos ao longo de sua cerca? – No caso do telefone, tenho dúvidas se sou totalmente grata à Sociedade para Melhorias – disse Anne. – Ora, sei que ele é muito conveniente... Bem mais que nosso antigo método de nos comunicarmos por flashes de luz de vela! E, como a senhora Rachel costuma dizer, . 13 .
“Avonlea precisa acompanhar a procissão; essa é a verdade”. No entanto, de alguma forma, sinto-me como se não quisesse que nossa comunidade fosse estragada por aquilo a que o senhor Harrison, quando quer ser espirituoso, se refere como “inconveniências modernas”. Eu gostaria que ela permanecesse para sempre como era nos velhos e bons tempos. Mas entendo que é um desejo tolo, sentimental, impossível, e que agora preciso ficar sábia, prática e realista. O telefone, como o senhor Harrison admite, é “uma coisa terrivelmente boa”, apesar de estarmos cientes de que, provavelmente, uma meia dúzia de pessoas esteja sempre ouvindo atentamente nossa conversa. – Esse é o lado ruim – Diana suspirou. – É tão irritante perceber que há vizinhos escutando tudo o que falamos ao telefone! Dizem que a senhora Harmon Andrews insistiu que seu aparelho fosse instalado na cozinha unicamente para que ela possa ouvir todas as conversas enquanto prepara as refeições. Hoje, quando você me ligou, escutei nitidamente aquela batida esquisita do relógio dos Pye. Certamente Josie ou Gertie estavam ouvindo o que dizíamos. – Então foi por isso que você indagou se tínhamos um relógio novo em Green Gables?! Eu não havia entendido sua pergunta. Escutei um clique imediatamente depois que você falou isso. Suponho que tenha sido o telefone dos Pye sendo desligado com um vigor profano. Bem, vamos deixá-los de lado. Como a Sra. Rachel Lynde diz, “Pye eles sempre foram, e Pye eles sempre serão até o fim do mundo, amém”. Quero falar de coisas mais agradáveis. Está tudo resolvido quanto a onde minha casa nova vai ser. – Oh, Anne, onde? Espero que seja perto daqui. – Nã... não, esse é o único inconveniente. Gilbert vai se estabelecer em Four Winds Harbor... a quase cem quilômetros daqui. – Cem?! Ora, poderia muito bem ser mil – Diana suspirou novamente. – Não faria diferença, pois o mais longe que posso ir agora é até Charlottetown. – Pois você vai ter de ir a Four Winds. É o porto mais bonito de toda a ilha. Atrás dele tem uma vila chamada Glen Saint Mary, onde o doutor David Blythe vem atendendo pacientes há cinquenta anos. Ele é tio-avô de Gilbert e vai se aposentar. Gilbert vai herdar seu consultório. Porém, o doutor Blythe quer continuar morando na mesma casa, e por isso vamos precisar encontrar outra para nós. Ainda não sei como nem onde ela vai . 14 .
ser, mas tenho uma pequena casa dos sonhos, toda mobiliada, em minha imaginação... Um pequeno e adorável castelo na Espanha. – Para onde vocês vão viajar na lua de mel? – Lugar nenhum. Oh, não faça essa expressão de pavor, Diana querida. Parece uma atitude da senhora Harmon Andrews. Ela, sem dúvida nenhuma, vai me olhar assim e depois observar arrogantemente que as pessoas que não podem arcar com as despesas de uma viagem de “niúpcias” têm de ser sensatas e abrir mão desse luxo. Porém, logo em seguida vai me lembrar de que Jane passou sua lua de mel na Europa. Pois eu quero a minha em Four Winds, na casa de meus sonhos. – Você decidiu mesmo não ter nenhuma madrinha? – Não há nenhuma disponível. Madrinhas têm de ser solteiras, não é? Ora, você, Phil e Priscilla se casaram antes de mim, e Stella mora e leciona em Vancouver. Não tenho outra “alma irmã”, e não quero uma madrinha qualquer. – Mas vai usar um véu, não vai? – Diana perguntou ansiosamente. – Sim, claro. Sem um véu eu não me sentiria uma noiva autêntica. Nunca vou me esquecer de quando eu disse a Matthew, naquele dia em que ele me trouxe para Green Gables, que não tinha nenhuma esperança de ser uma noiva no futuro, porque eu era tão sem graça que ninguém jamais iria querer casar comigo... a não ser, talvez, um missionário estrangeiro. Eu achava que os missionários não podiam ser muito exigentes quanto à aparência de suas esposas, já que elas teriam de arriscar sua vida entre canibais. Diana, você precisava ter visto o missionário estrangeiro com quem Priscilla se casou. Ele é tão bonito, dono de um olhar tão impenetrável quanto aqueles com quem planejávamos nos casar nos devaneios que tínhamos antigamente, Diana. É o homem mais bem-vestido que já conheci, e venera a “beleza sublime e dourada” de Priscilla. E, além do mais, é lógico que não há canibais no Japão. – Anne, seu vestido de noiva é um sonho! – Diana exclamou, encantada. – Você vai parecer uma verdadeira rainha com ele... É tão alta e esbelta! Como consegue se manter magra assim? Estou mais gorda do que nunca... Logo, logo, não terei mais cintura nenhuma. – Parece que a magreza é uma predestinação – disse Anne. – Em todo caso, pelo menos a senhora Harmon Andrews não pode falar com você o que ela me disse quando voltei de Summerside: “Bem, Anne, você . 15 .
continua magricela como sempre”. Acho até romântico ouvir que sou “esbelta”, mas “magricela” não soa nada agradável. – A senhora Harmon tem feito comentários a respeito de seu enxoval. Ela admite que é tão lindo quanto o de Jane, embora faça questão de ressaltar que a filha se casou com um milionário e que seu noivo é “apenas um pobre médico jovem, sem nenhuma posse”. Anne riu. – Meus vestidos são lindos. Gosto de coisas belas. Eu me lembro do primeiro vestido bonito que tive... Ele tinha um tom de marrom suave, e o tecido era macio e brilhante como a seda. Foi Matthew que me deu, para eu ir ao nosso recital na escola. Todas as roupas que tive antes disso eram muito feias. Naquela noite, me senti como se estivesse entrando em um mundo novo. – Foi a noite em que Gilbert recitou “Bingen no Reno”* e olhou para você quando disse o verso: “E existe outra, que não é uma irmã”. Você ficou furiosa porque ele pegou a rosa que tinha caído de seu cabelo e pôs no bolso do casaco! Você não tinha nenhuma ideia de que um dia se casaria com ele. – Bem, esse é outro tipo de predestinação – Anne riu enquanto elas desciam a escada.
* “Bingen on the Rhine”, poema da autora inglesa Caroline Sheridan Norton (18081877). (N.T.) . 16 .
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