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A arte da alegria

Page 1


“Um

relato triunfante.”

The New Yorker

“Uma obra-prima.”

Sandro Veronesi

Goliarda Sapienza

A arte da alegria

Goliarda Sapienza

A arte da alegria

tradução

Igor de Albuquerque e Valentina Cantori

Copyright © 1996 The Estate of Goliarda Sapienza

Publicado na Itália em 2008 como L’arte della gioia, pela Giulio Einaudi Editore, Turim. Esta edição é publicada mediante acordo com o titular dos direitos por intermédio da Piergiorgio Nicolazzini Literary Agency (PNLA) e acordo com a LVB & Co. Agência e Consultoria Literária.

Copyright desta edição © 2026 Autêntica Contemporânea

Título original: L’arte della gioia

Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora Ltda. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

Este livro foi traduzido com uma contribuição do Ministério das Relações Exteriores e da Cooperação Internacional da Itália.

Questo libro è stato tradotto grazie a un contributo del Ministero degli Affari Esteri e della Cooperazione Internazionale italiano.

diretora editorial

Rejane Dias

editora responsável

Rafaela Lamas

assistente editorial

Marina Guedes

preparação

Sonia Junqueira

revisão

Marina Guedes

Diogo Droschi

fotografia de capa

Agneta Fischer, traje de banho da Schiaparelli, 1931, por George Hoyningen-Huene. © George Hoyningen-Huene Estate Archives 2026. Todos os direitos reservados.

verso da capa

Detalhe do manuscrito de Goliarda Sapienza para A arte da alegria. © Archivio Sapienza Pellegrino.

diagramação

Guilherme Fagundes; Waldênia Alvarenga

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Sapienza, Goliarda, 1924-1996

A arte da alegria / Goliarda Sapienza ; tradução de Igor de Albuquerque e Valentina Cantori. -- 1. ed. -- Belo Horizonte, MG : Autêntica Contemporânea, 2026.

Título original: L'arte della gioia

ISBN 978-65-5928-667-6

1. Ficção italiana I. Título. 25-322494.1 CDD-853

Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura italiana 853

Cibele Maria Dias - Bibliotecária - CRB-8/9427

A AUTÊNTICA CONTEMPORÂNEA É UMA EDITORA DO GRUPO AUTÊNTICA

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capa

Apresentação

Igor de Albuquerque e Valentina Cantori

A arte da alegria

11

Primeira parte

163

Segunda parte

341

Terceira parte

491

Quarta parte

Apresentação

Quando terminou de escrever este livro, quase dez anos após a primeira linha, Goliarda Sapienza tinha nas mãos um calhamaço de mil páginas datilografadas. Para ela, A arte da alegria não representava apenas um romance de ficção de cunho histórico-político, era uma obra que condensava uma filosofia, uma razão de vida. Nessas páginas, Sapienza transmitiu e celebrou os ideais que a formaram e nos quais acreditava firmemente: alegria laica e libertina contra todos os fascismos. Modesta, a protagonista, é mais que uma personagem: é um símbolo de resistência que não teme a anarquia das contradições, um espírito vivo e contemporâneo (ainda hoje). E este livro foi ignorado pelas principais editoras da Itália até os anos 2000, quando foi redescoberto postumamente. Trata-se de um percurso editorial tortuoso. Contar a vida de Modesta foi a principal atividade de Sapienza entre as décadas de 1960 e 1970, causando-lhe grave prejuízo financeiro, visto que era ela a única fiadora da sua rotina de escrita metódica e obstinada. Em 1978, está pronta uma versão revisada, que é apresentada aos editores e sistematicamente recusada: da Rizzoli à Einaudi, da Mondadori à Rusconi, passando também pela Feltrinelli e pela Editori Riuniti. Sapienza acionou amigos escritores, críticos e agentes literários; pediu ajuda até a Sandro Pertini, que à época era o presidente da República Italiana (na Segunda Guerra, o pai de Goliarda o tinha ajudado a fugir da prisão, salvando-o do corredor da morte). Mesmo assim, o material não foi aceito – muito experimental (ou muito tradicional); extenso demais (seria preciso reduzi-lo à metade); não se encaixava nas propostas dos catálogos (talvez pela alta carga de erotismo) etc. Além dessas justificativas, é importante lembrar que, naquele momento, Sapienza não era

uma autora reconhecida: tinha publicado Lettera aperta (1967) e Il filo di mezzogiorno (1969), ambos pela Garzanti, mas não havia conseguido se inserir na cena literária.

Entre começar a escrever A arte da alegria e o dia de sua morte, Sapienza lançou outros livros, foi presa por roubar as joias de uma amiga abastada que a denunciou, aprendeu com a vida no presídio, deu aulas de atuação no Centro Sperimentale di Cinematografia em Roma, casou-se pela segunda vez, foi morar numa casa de praia em Gaeta, mas nunca conseguiu ver seu romance publicado na íntegra.

Após quase duas décadas de recusas, em 1994, a pequena Stampa Alternativa imprimiu uma versão parcial do livro, com apenas 39 de seus 95 capítulos. Dois anos depois, Goliarda Sapienza morreu de ataque cardíaco, em Gaeta. Em 1998, Angelo Pellegrino, seu viúvo, decide arcar com os custos editoriais e lança, pela mesma editora, a versão integral da obra, com uma tiragem humilde de mil exemplares. Foi apenas mais tarde, e longe dali, que o reconhecimento chegaria: em 2005, quando a editora francesa Viviane Hamy decidiu fazer uma aposta.

Com tradução de Nathalie Castagné, o livro logo se tornou sensação, sendo bastante comentado por resenhistas de diversos periódicos e alcançando vendas expressivas. Esse acontecimento rendeu a Sapienza a atenção e o prestígio que lhe foram negados em vida e em sua terra natal. A partir daí, o romance começa a ser divulgado em outras línguas e países: Alemanha, Espanha (em espanhol e catalão), Portugal e Estados Unidos. Em 2008, depois do sucesso no exterior, finalmente a italiana Einaudi se convence, e, na sequência, outras obras de Sapienza são reeditadas. Em pouco tempo, boa parte de sua produção chega às livrarias italianas; A arte da alegria atinge a marca de mais de um milhão de exemplares vendidos no mundo e, em 2025, vira série de TV. No mesmo ano, L’università di Rebibbia (1983), seu romance autobiográfico sobre o período que passou na prisão, é adaptado para o cinema. Semelhante à vida da escritora, A arte da alegria se estende como uma aventura grandiloquente, arriscada e vertiginosa que atravessa o

século XX. Modesta nasce no dia primeiro de janeiro de 1900 e tem diante de si o desenrolar dos eventos históricos que transformaram drasticamente o mundo durante as décadas seguintes, mas a partir de um ponto de vista insular siciliano – os italianos que moram na península, inclusive, são referidos como “o povo do continente”. Essa particularidade localizada, em vez de reduzir, tem o efeito de ampliar a compreensão da realidade a partir dos sentidos e ideias de um corpo desejante em meio ao caos da história.

Este é, portanto, um romance imperfeito. Heterogêneo, por vezes denso e labiríntico, registra uma linguagem extremamente elaborada na sintaxe e no léxico, nas oscilações repentinas – na voz da protagonista, da primeira pessoa, passa-se bruscamente à terceira, tratando-se, porém, da mesma personagem –, nos momentos de repetição e elipse. É nessa configuração verbal contraditória e mutável que está o mecanismo da imperfeição: a linguagem encontra um raro equilíbrio entre densidade e leveza, humor e tragédia, tradição e inovação. Assim como acontece na vida, o fluxo dos eventos se desdobra progressiva e erraticamente através das inúmeras metamorfoses que a protagonista vivencia ou testemunha e das relações que estabelece com o outro.

A arte de criar personagens marcantes e complexas está entre os maiores trunfos de Sapienza. Ela não se limita a dar-lhes vida e desenvolvê-las, mas trabalha com maestria a orquestração das suas vozes – tão distintas nos timbres e nas alturas – para compor a textura polifônica do arranjo literário em curso. Alguns capítulos centrais são compostos apenas por contrapontos de diálogos, e é sobretudo na dimensão da fala que essas entidades ficcionais se revelam, tornando-se presença e, de certa forma, refletindo a prática artística da escritora, que sempre foi uma mulher de teatro e de cinema. Trabalhar a riqueza dos diálogos e das falas das personagens foi uma das preocupações centrais em nossa tradução. O texto em português precisa acompanhar a densidade e a irregularidade da escrita de Sapienza e, antes de tudo, é importante modular o uso variado que se faz do siciliano: palavras da geografia e da cultura local, frases pronunciadas pelo povo da roça, cantigas de ninar. Esse dialeto

restitui ancestralidade, fragmentos de repertório popular, além de lembranças individuais que remetem a tempos antigos da memória coletiva. Em raros casos transcrevemos as frases em siciliano no corpo do texto, apresentando uma tradução na nota de rodapé; na maioria das ocorrências, optamos pelo uso de termos brasileiros que evocassem sensações correspondentes – como acontece com as vozes de Pietro, Tuzzu, Carmine e Nina, esta última no dialeto de Roma. Inclusive, com o objetivo de não interromper o fluxo da leitura, decidimos não colocar notas explicativas nos termos relativos às especificidades históricas e/ou regionais presentes no texto. Nosso maior desafio, no entanto, certamente foi transcriar as estranhezas da sintaxe e dos construtos verbais particularíssimos, que tantas vezes tendem a desafiar a lógica preestabelecida da língua.

A arte da alegria é a segunda obra de Sapienza a ser publicada no Brasil. A anterior, intitulada Ancestral (tradução de Valentina Cantori, Âyiné, 2020), reúne poemas escritos nos anos 1950 e publicados pela primeira vez na Itália em 2013. A autora é mais conhecida pela narrativa em prosa, mas seria oportuno lembrar que ela começou na poesia. Seu estilo é movido por um lirismo vulcânico, concebido entre altas temperaturas, explosões em cadeia, excessos, rochas ígneas – não esqueçamos que o Etna está no horizonte assim como a história, que é experimentada através dessa perspectiva poética eruptiva.

A voz que narra A arte da alegria, ou seja, Modesta, perpassa os grandes temas do século passado: as guerras, a ascensão do fascismo, a luta antifascista, o feminismo, a psicanálise, as revoluções tecnológicas, as ilusões perdidas; além, é claro, daquelas questões elementares e atemporais: a família, os relacionamentos amorosos, os dilemas de uma sexualidade livre e não heteronormativa, o desejo, a violência e a morte. Tudo como um magma que escorre e vai arrastando o que encontra pela frente: a vida, a natureza, a beleza no extraordinário romance de transformação escrito por Goliarda Sapienza.

Igor de Albuquerque e Valentina Cantori Janeiro de 2026

PRIMEIRA PARTE

1.

E aqui estou eu, com quatro, cinco anos, arrastando um imenso pedaço de madeira por um espaço lamacento. Não há nem árvores nem casas ao redor, apenas o suor do esforço de arrastar aquele corpo duro e a queimação aguda na palma das mãos feridas pela madeira. Afundo na lama até os tornozelos, mas preciso arrastar, não sei por quê, mas preciso fazer isso. Deixemos essa minha primeira lembrança assim como está: não quero fazer suposições ou inventar. Quero dizer a vocês como foi, sem alterar nada. Então, eu arrastava aquele pedaço de madeira; e, depois de escondê-lo ou abandoná-lo, entrei no grande buraco na parede, fechado apenas por um véu preto cheio de moscas. Encontro-me agora no escuro do quarto onde dormíamos, comíamos pão e azeitonas, pão e cebolas. Cozinhava-se apenas aos domingos. Minha mãe, com os olhos dilatados pelo silêncio, costura em um canto. Minha mãe nunca fala. Ou grita, ou fica calada. Os cabelos, um véu preto e pesado, estão cheios de moscas. Minha irmã, sentada no chão, olha para ela através de duas fendas negras enterradas na gordura. A vida inteira, pelo menos enquanto a vida delas durou, sempre a seguiu com esse olhar. E se minha mãe – fato raro – saía, precisava trancá-la no quartinho do banheiro, porque não queria se desgrudar dela de jeito nenhum. E naquele quartinho ela gritava, arrancava os cabelos, batia a cabeça contra as paredes até que minha mãe voltasse e a pegasse no colo para acariciá-la em silêncio. Durante anos a ouvi gritar dessa maneira sem dar muita trela, até o dia em que, cansada de arrastar aquele pedaço de madeira

largado no chão, ouvindo-a gritar, senti algo parecido com uma doçura no corpo inteiro. Uma doçura que em seguida transmutouse em arrepios de prazer, tanto que, aos poucos, todos os dias comecei a esperar que minha mãe saísse para poder escutar – os ouvidos na porta do quartinho – e me deliciar com aqueles gritos.

Quando isso acontecia, eu fechava os olhos e imaginava que ela dilacerava a própria carne, ferindo-se. E foi assim que, seguindo minhas mãos levadas pelos gritos, descobri que, tocando-me ali onde sai o xixi, dava para sentir um prazer maior do que comer pão fresco, frutas. Minha mãe dizia que minha irmã Tina, “A cruz que Deus com razão nos mandou pela maldade do seu pai”, tinha vinte anos; mas tinha a mesma altura que eu e era tão gorda que, se tirassem a cabeça dela, ficaria parecendo o baú do meu avô, que estava sempre fechado, “Alma condenada, pior que o filho…”, que era marinheiro. Que ofício era esse, o de marinheiro, eu não conseguia entender. Tuzzu dizia que era gente que morava nos navios e saía pelo mar… Mas o que era o mar?

Tina parecia exatamente a caixa de meu avô; quando eu ficava entediada, fechava os olhos e arrancava sua cabeça. Se ela tinha vinte anos e era mulher, todas as mulheres com vinte anos certamente ficariam como ela ou como minha mãe. Com os homens era diferente: Tuzzu era alto e não lhe faltavam os dentes, como a Tina; os dele eram fortes e brancos como o céu de agosto na hora de levantar cedo para fazer o pão. Seu pai também era como ele: robusto e com dentes que brilhavam como os de Tuzzu quando ria. Ria sempre, o pai de Tuzzu. Nossa mãe nunca ria, isso também porque era mulher, sem dúvida alguma. Mas, apesar de nunca rir e de não ter dentes, eu queria ficar igual a ela; pelo menos era alta e seus olhos eram grandes e doces, e tinha os cabelos pretos. Tina não possuía nem isso: apenas uns poucos fios que minha mãe espalhava com o pente tentando cobrir o topo daquele ovo.

Os gritos cessaram, certamente minha mãe voltou e está tentando acalmar Tina fazendo um carinho em sua cabeça. Será que ela descobriu que dá para sentir tanto prazer acariciando-se naquele lugar? E Tuzzu, será que Tuzzu sabe? Deve estar cortando capim.

O sol está alto, preciso procurá-lo e perguntar sobre as carícias e também sobre o mar, preciso perguntar. Será que ele ainda está lá?

A luz queima meus olhos. Quando saio do quarto, a luz sempre queima meus olhos; quando entro, o escuro me cega. A quentura baixou e as montanhas ficaram pretas de novo, como os cabelos de minha mãe. Quando a quentura baixa, as montanhas sempre ficam pretas como os cabelos dela, mas, quando a quentura sobe, ficam azul-claras como o vestido de domingo que minha mãe está costurando para Tina. Para ela, sempre vestidos e laços! Comprou-lhe até sapatos brancos. Para mim, nada: “Você tem saúde, minha filha, os meus vestidos que ajusto pra você já bastam. Pra que vestidos se você tem saúde? Agradeça a Deus, em vez de reclamar, agradeça a Deus!”. Ela sempre fala desse Deus, mas, quando pedem explicações, nada: “Reze pra que te proteja e nada mais! O que você quer saber? Reze e pronto”.

A quentura foi mesmo embora e o ar está fresco. A lama secou em poucas horas, o vento secou, o capinzal está quieto e não grita como ontem. Preciso olhar bem, o capim está se mexendo ali: é Tuzzu.

– O que você tá fazendo aí com essa cara de boba? Olhando pras moscas?

– Eu tava te procurando, e não sou boba! Tava te procurando. Você já terminou?

– Ainda não. Estou descansando e aproveitando pra fumar um cigarro. Além de idiota como a sua irmã, você também é vesga? Não tá vendo que estou deitado na sombra com um cigarro na boca?

– Agora você fuma? Nunca tinha visto.

– Fumo, sim, faz dois dias. Estava na hora, não é?

Parou de falar e tirou o cigarro da boca. Não falaria mais. Sempre que Tuzzu fechava a boca, não a abria mais durante horas,

como dizia seu pai. E se já fazia isso antes, imagina agora que fumava. E como ficava adulto, deitado daquele jeito! Tinha crescido, ou era o cigarro que fazia ele parecer mais velho? Como posso falar com ele, agora que se tornou tão adulto? Vai rir da minha cara e dizer que sou uma criancinha boba, como sempre. A única coisa a fazer era sentar ao seu lado e ficar parada, pelo menos poderia observá-lo. E fiquei observando-o por um bom tempo e olho para ele agora: o rosto queimado de sol parecia cortado por duas feridas imensas e claras – aquilo não eram olhos – que lacrimejavam uma água azul, profunda e fresca. Eu olhava para o movimento seguro que levava o cigarro à boca e depois o retirava, como seu pai fazia.

Aquela confiança me fez tremer.

Não, não falaria mais comigo, e talvez nunca mais me deixasse observá-lo. Com esse pensamento, o frio tornou-se tão intenso que tive de fechar os olhos e me deitar, até porque fiquei tonta como daquela vez que tive febre. Fechei os olhos à espera da condenação.

Ele nunca mais deixaria que eu o observasse.

– O que está fazendo, sua bobinha, pegou no sono?

– Não, não estou dormindo. Estava pensando.

– Ah, então você pensa? Uma bobinha que pensa, hein! E no que estava pensando? Posso ter a honra de saber?

– Pensei em te perguntar…

– O quê? Fala logo! Você parece uma galinha que vão torcer o pescoço! E o que será tão importante assim, fala!

– Ah, nada, nada. Queria te perguntar o que é o mar.

– De novo essa prosa de mar! Como você é cabeçuda! Já te expliquei cem vezes, cem vezes! O mar é uma superfície de água funda, como a água do poço que fica entre nosso sítio e aquele casebre que é a casa de vocês. Só que é azul, e, por mais que você olhe, não consegue ver onde termina. Mas como você vai entender? Você é muito tonta, e, mesmo que não fosse tonta, as mulheres, como diz meu pai, desde que o mundo é mundo, não entendem nada.

– Eu entendo, sim: uma água funda como aquela do poço, só que azul.

– Parabéns, você conseguiu! Então, levanta e olha ao redor! Está vendo a campina? Como se chama essa campina, hein? Vamos ver se você merece aprender.

– Essa campina se chama Campina do Boi.

– Então, o mar é uma campina de água azul, mas sem as montanhas de lava que vemos lá no fundo. Olhando para a campina do mar não dá pra ver nada no fundo, nada que feche o olhar, ou melhor, dá pra ver uma linha fina que é o próprio mar se misturando com o céu. E essa linha se chama horizonte.

– E o que é o horizonte?

– Falei pra você, é toda uma campina de água azul que termina no céu, bem no fundo, até onde o olhar alcança.

– Uma campina de água azul como seus olhos, que se juntam com o céu da sua testa.

– Olha só esses pensamentos! Você parece uma contadora de histórias, juro por Deus que você parece uma contadora de histórias! Será que está com esses pensamentos poéticos porque caiu da cama hoje de manhã?

– E você, será que está fumando como adulto porque caiu da cama? Você fuma e eu… deixa eu olhar bem nos seus olhos?

Se eu olhar, vou entender melhor como é o mar.

– Então olha! Quem é que vai dizer alguma coisa? Se entender como é o mar te deixa tão feliz, fica à vontade. Parece que isso te deixa muito feliz, você ficou toda vermelha. Você é bonita. Tonta, mas bonita mesmo! Com quem será que sua mãe te gerou?

– Certamente, com um homem, e marinheiro também, pelo que me conta.

– Muito bem, está ficando até engraçada! O que foi? Da última vez você parecia uma múmia! De repente, esta noite resolveu acordar?

– Sim, acordei, e não foi esta noite, e também queria te perguntar sobre isso…

– O quê? O que eu posso saber sobre você acordar! Pergunta pra sua mãe. O mar é uma coisa, mas… ah, o que você bebeu hoje de manhã? Está vermelha como um bêbado! O que mais você queria

perguntar? Fala e para de me olhar! Chega, cansei, e, juro por Deus, o tanto que você me olha está me deixando zonzo. Que olhos bonitos você tem assim de perto, não tinha percebido. Parecem mel… Com quem será que sua mãe te gerou? Agora vou voltar pro trabalho, cansei! Ei! Por que você está me segurando assim? Ficou maluca?

A quentura subia de novo, a terra fumegava e as montanhas se afastavam, de novo azuis. Não podia deixá-lo ir, precisava perguntar por que – quando o observava antes, e agora que segurava seu braço – nascia em mim aquele desejo de me acariciar ali onde…

– Isso é pergunta que se faça? E com essa idade! Você é uma peste! Meu pai tem razão, uma peste! Você não tem vergonha?

– E por que eu deveria ter vergonha? Se eu descobri sem ninguém me dizer nada, significa que todo mundo descobre.

– Esperta, você! Lógica fina! Cuidado, guria, solta meu braço ou você vai ver. O sangue está subindo até meu cérebro, cuidado!

– Cuidado por quê? Não tenho medo de você, e você tem que me responder. Me diga, você também sabia disso?

– Claro que sabia! O que você acha, que sou um idiota? Eu sou homem, e, se você não me soltar, vou te acariciar mesmo, e aí vamos fazer besteira.

– Então vamos fazer essa besteira! Eu não tenho medo! É você que tem medo. Você não é homem! Está se tremendo todo. Ele se desvencilhou e já estava se levantando. Curiosamente, eu não tinha mais forças nos braços, mas quando o vi novamente em pé, recolhendo a boina do chão sem me olhar, não consegui me levantar e me atirei no chão, agarrando-o pelos tornozelos. Tive medo de que ele me desse um chute, mas, ao contrário, com a boina na mão, primeiro se curvou com as mãos para frente, como para se esquivar, depois caiu ajoelhado e, depois, ficou em cima de mim. Estava com os olhos fechados. Teria se machucado ao cair? Desmaiou? Passou-se um século. Não me atrevia a falar. Tive medo de que ele se afastasse. E também, mesmo que quisesse, agora eu não tinha forças nem para mexer os lábios. Não conhecia aquele cansaço estranho, um cansaço doce, cheio de arrepios que me deixavam

boiando. Atrás das minhas costas, certamente havia se escancarado um precipício que me dava tontura, mas aqueles arrepios me deixavam suspensa no vazio. Abri os olhos e ouvi minha voz dizendo:

– Agora sei o que é o mar.

Ele não respondeu e, olhando para mim sem se mexer, baixou minha saia, levantou a anágua e arrancou minha calcinha. Não se mexia, mas com os dedos, sempre me olhando, começou a me acariciar como eu fazia quando Tina gritava. De repente, com um impulso, afastou o rosto. Ia embora?

– Não, estou aqui, aonde quer que eu vá? Agora vou ter que ficar aqui.

Tranquilizada, fechei os olhos. Tina gritava, e meu corpo todo era sacudido por aqueles arrepios que eu conhecia. Depois, as carícias se tornaram tão profundas que … como ele fazia? Olhei para ele. Abriu minhas pernas, e seu rosto afundou entre minhas coxas: acariciava-me com a língua. É claro que eu não conseguiria entender se não olhasse: eu não podia fazer isso sozinha. Esse pensamento me provocou um arrepio tão profundo que os gritos de Tina sumiram, e fui eu quem gritou alto, mais alto do que ela quando minha mãe a trancava no quartinho… Desmaiei ou adormeci? Quando abri os olhos havia um grande silêncio na campina.

– Agora temos que parar por aqui, garotinha. Mesmo sendo malcriada, não quero arruinar você. Põe a calcinha e vai embora. Aproveita que consegui colocar em ordem a minha cabeça, depois de você me deixar louco. Juro por Deus, você me deixou louco mesmo. Quem diria? Atraente, você é atraente mesmo, mas não quero te arruinar. Levanta e sai daqui! 3.

Levantei, vesti a calcinha, mas não fui embora, mesmo que sua voz fosse ameaçadora e ele não me olhasse. Já não era como antes. Ele já não me assustava, tanto que nem me despedi. E me pus a caminho de casa, devagar, cambaleando por causa do cansaço

e da lembrança daqueles arrepios que me faziam tropeçar a cada passo. Tinha sido maravilhoso.

As carícias de antes me pareciam um pão seco comparadas com as de Tuzzu. Eu tinha feito bem em perguntar a Tuzzu. Ele sabia tudo e, mesmo que ficasse um pouco bravo, depois respondia. Agora, também, encarando aquele muro torto que minha mãe chamava de casa, eu sabia que havia outras casas grandes, e estradas, e, lá longe, o mar, além daquelas montanhas que ora desapareciam, ora reapareciam como os espíritos dos mortos.

A velha que vinha uma vez por mês falava sempre sobre os espíritos… Hoje ou amanhã a velha deve aparecer. Deve ser isso, porque minha mãe hoje de manhã acendeu o forno e fez pão. Toda vez que a velha vem, ela faz pão e, junto com o pão, coloca biscoitos para assar, que depois oferece com licor.

Atrás do véu, ouve-se uma conversa. Deve ser a velha com sua bolsa cheia de trapos pequenos, que depois minha mãe vai costurar um ao lado do outro.

Retirando o véu preto, fiquei petrificada na soleira. Bem diante de mim, como se estivesse me esperando, sentado atrás da mesa, estava um homem alto e robusto, mais alto e robusto que o pai de Tuzzu. Um gigante com uma massa de cabelos desgrenhados na testa e um casaco azul-claro de um tecido que eu nunca tinha visto, brilhante e peludo. Ele me encarava, sorrindo com seus olhos azuis como o casaco. Os dentes eram brancos como os de Tuzzu e de seu pai.

– Olha só, que pitéu de filha que eu tenho! Fico feliz, feliz mesmo! Achava que da sua mãe só nascessem Tinas. Vejo com prazer que não é assim, filha. É uma grande satisfação ver a carne da própria carne virar esse pitéu.

– Para com isso! Não fala assim, e deixa Modesta em paz! Não é um pitéu, é uma criança ainda, uma criança! Vai embora! Estou te falando isso a noite inteira. Vai embora, vai, ou chamo a polícia! – Olha só! A polícia! E onde vai encontrá-la? Atrás da porta? Vai embora, vai! Corre pela campina que vai te fazer bem! Você ficou gorda que nem uma vaca. Olha como estou em forma, passei a vida inteira correndo!

Dizendo isso, levantou-se, esticando-se em toda a sua altura, tocando-se no peito e no quadril robusto, sem um pingo de gordura. E, depois de dar uma voltinha para se mostrar melhor, começou a vir na minha direção, rindo. Tinha uma voz macia como o tecido de seu casaco. Eu nunca tinha tocado um tecido assim. Ele pegou meu queixo entre as mãos e me olhou fixamente, continuando a rir.

– Você é alta também, e cheia e vermelha como uma romã. Eis com quem minha mãe havia me gerado! Gostei de falar e rir com ele. Minha mãe e Tina não falavam nunca. Agora, com ele, eu poderia falar, em vez de ir desabafar com o vento, como sempre tinha feito… Sua mão levantava meu queixo, e eu levantei os olhos para ver melhor aquela risada, quando minha mãe, gritando – nunca a tinha ouvido gritar desse jeito –, atirou-se entre mim e aquele homem e começou a me puxar para um canto, para me afastar dele. Aqueles gritos me fizeram desejar os beijos de Tuzzu, e fechei os olhos. Minha mãe, com a voz de Tina, puxava e gritava, e ele ria. Eu a empurrei com todas as minhas forças. Não queria me mexer. Queria ficar lá e ouvi-lo.

– É inútil gritar, sua cretina! Não vê que ela quer ficar aqui perto do papai? Pois é, a voz do sangue não mente nunca, nunca! Não é verdade que você quer ficar pertinho do seu papai? Fala pra sua mãe que quer ficar perto do seu pai.

– Sim, quero ficar com ele!

Não tinha terminado de dizer isso e minha mãe, sempre gritando, jogou-se em cima de mim, agarrando-me pelos cabelos. Mas ele, com sua mão grande, a arrancou de mim, dizendo suavemente: – Não se atreva a tocar a carne da minha carne! Solta as mãos dela, ou vou arrancar esse seu pescoço seco de galinha.

Minha mãe desabou entre as mãos dele como um vestido vazio: parecia mesmo um amontoado de trapos. E, como se fosse um amontoado de trapos, aquelas mãos grandes a agarraram para jogá-la no quartinho da latrina. Quando abriu a porta, vi Tina encolhida em um canto. Ele certamente tinha estado lá antes. E, um trapo após o outro, minha mãe se juntou a Tina. Depois, com

calma, ele trancou o quarto e, dirigindo-se a mim, fez o gesto ridículo de lavar as mãos. Meu sangue ria, orgulhoso da sua força.

Quando me pegou entre os braços, minhas carícias e as carícias de Tuzzu desapareceram, comparadas com o prazer que sentia entre as pernas, vindo daquelas mãos pesadas e leves, cheias de pelos macios e loiros. Eu esperava. Pelo jeito que me olhava, sabia o que ele queria.

– Você não ficou com medo, não é? Não fiz nada de ruim pra ela. Só me livrei dela um pouco. É chata demais, e eu quero aproveitar em paz este pitéu de filha que não sabia que tinha. Um verdadeiro presente da sorte… Você está com medo?

– Não tenho medo. Você fez bem. Assim ela vai aprender a não gritar o tempo todo e a não me castigar toda hora por qualquer coisa.

– Muito bem. Vejo que temos o mesmo sangue e isso me deixa feliz, feliz mesmo…

Continuando a repetir “feliz”, com a voz cada vez mais baixa e cada vez mais rápida, me pôs na cama sem esforço. Era tão forte que eu me sentia leve como o novelo de lã que sempre tinha que levar para minha mãe quando ela trabalhava. Agora não estava trabalhando. Após ficar calada por um tempo, ela começou a gritar atrás da porta com Tina, ou era Tina? Talvez fossem as duas, mas nada daquilo me importava. Eu também tinha chorado assim muitas vezes, agora era a vez dela, não me importava. O que me importava era acompanhar as mãos grandes e cheias de pelos loiros que me despiam. Quando fiquei completamente nua, ele tocou meu peito, parando de sussurrar e começando a rir de leve:

– Estão crescendo dois botõezinhos aqui. Dói se pegar?

– Não.

– Você sabe o que são esses pequenos inchaços?

– Não. Furúnculos, talvez?

– Que bobinha! São os seios que começam a crescer. Aposto que vai ter seios grandes e duros como minha irmã Adelina. Quando ela tinha a sua idade, os mamilos da tia Adelina eram dessa mesma cor, bem cor-de-rosa.

– E onde está essa Adelina que eu nunca vi?

– Tia Adelina, tem que chamar de tia Adelina. Se fizer o que estou dizendo, levo você lá. Está numa cidade grande, com lojas, teatros, feiras…Tem um porto grande também.

–Se tem o porto, então também tem mar? –Claro que tem mar, e navios também, edifícios. Adelina virou uma madame! Se fizer o que estou dizendo, levo você comigo aonde ela está, e te apresento não só essa tia grã-fina, mas também coisas que você não pode nem imaginar, coisas maravilhosas. Você quer? Quer fazer o seu papai feliz? Se fizer ele feliz, depois ele vai fazer você feliz.

4.

E ele parecia feliz deitado ao meu lado, completamente nu. Nunca tinha visto um homem nu. Sem o casaco azul-claro, os ombros pareciam as rochas brancas do riacho na estação das amoras, quando o sol a pino ficava cravado no meio do céu dias e meses a fio. Eu abria os olhos e ele estava lá, parado. Fechava-os, mas ele permanecia lá, imóvel, atrás dos vidros da janela. Estava espiando? Eu precisava dormir. Mesmo de olhos fechados, as espadas reluzentes do sol furavam minhas pálpebras, e para dormir precisava me enrolar toda, como um novelo, para me esconder dele, que me espiava.

–O que você está fazendo assim, toda encolhida? Está querendo se esconder? Tem medo de seu papai?

Como ele percebeu? Tão nu e tão branco, me dava medo, mas eu não queria que ele soubesse. Precisava ser forte como ele. Se se der conta de que estou com medo, vai pensar que sou igual a minha mãe e não vai me levar para longe.

–Não estou com medo. São aquelas idiotas chorando que fazem meu sangue ferver. Se você é mesmo meu pai e se parece comigo, bata nelas, aí elas calam a boca.

As rochas ao meu lado agora se moviam devagar. Ele ardia, e sua penugem tênue e loira como um campo de centeio subia dos pulsos até os ombros. O centeio incendiava-se. Quando foi que

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