Marcio Pitliuk
bela Hannelore Schultz escolhera ainda jovem a vida que queria para si: uma que não envolvesse o desconforto e os modos rudes da vida rural, que ela conhecia tão bem. Mas mais do que isso, Hannelore desejava a elegância, o luxo e a opulência que ela só podia imaginar haver em Berlim. Para sua sorte, enquanto ela deixava a adolescência, o Nazismo tomava conta da Alemanha e da Europa. Dona de beleza e poder de sedução incomparáveis, a jovem lançará mão desses atributos desde muito cedo para, degrau por degrau, alcançar seus objetivos. Impelida por uma ambição sem limites, Hannelore irá descartar os homens em sua vida tão logo as possibilidades daquele “degrau” sejam esgotadas, sem qualquer traço de remorso e, às vezes, por meio de tramas maquiavélicas. Sua longa e perigosa escalada a leva do pequeno vilarejo alemão em que nasceu para a capital, onde se vê finalmente envolvida com altos oficiais do Terceiro Reich. A Segunda Guerra, Berlim e os campos de extermínio nazistas na Polônia são alguns dos cenários desse romance sensual e cheio de reviravoltas, que conduz o leitor pelos caminhos da política imperialista e genocida de Hitler até sua queda e a consequente responsabilização dos causadores dos horrores do nazismo. Marcio Pitliuk, um dos maiores especialistas do Brasil em Holocausto, constrói uma eletrizante narrativa histórica que se passa em várias décadas e fisga o leitor do início até o desfecho surpreendente.
A ALPINISTA
Luiz Rampazzo
A
MARCIO PITLIUK é escritor, cineasta e palestrante, especialista em Segunda Guerra Mundial e Holocausto. Realizou a primeira documentação em livro e filme do evento educacional mundial Marcha da Vida, que leva, anualmente, milhares de pessoas para conhecer os campos de concentração nazistas. É codiretor e coprodutor de Sobrevivi ao Holocausto (2014), primeiro longa-metragem em que um sobrevivente mostra pessoalmente onde viveu os anos da Guerra. Com Luiz Rampazzo, dirigiu e produziu o filme Não mais silêncio (2020), no qual dez sobreviventes que resistiram a esse trágico período relatam suas emoções. É curador do Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto, em São Paulo, para o qual realizou uma trilogia de livros e filmes sobre a imigração judaica no Brasil. No livro Retratos dos sobreviventes do Holocausto que vivem no Brasil (2018), narra as histórias de dezessete sobreviventes fotografados por Luiz Rampazzo. Também é autor do romance O homem que venceu Hitler (2012).
Marcio Pitliuk
Um romance empolgante sobre a ascensão social ambientado na Alemanha Nazista
A ALPINISTA SEXO E CORRUPÇÃO NA ALEMANHA NAZISTA r o m a n c e
ISBN 978-85-5412-675-9
9 788554 126759
“‘Os judeus que moravam aqui não puderam levar muita coisa’, pensou Hannelore. O apartamento estava todo montado. Era como se os antigos moradores simplesmente tivessem deixado de existir de uma hora para a outra – o que de certa forma era verdade. Ela abriu os armários, examinou as gavetas, olhou cada detalhe e apalpou tudo com delicadeza. Seda, veludo, algodão, cetim, porcelana, cristal, aço, prata, madeiras, ágata, espelho, tapetes: queria ter a experiência sensorial de cada milímetro da sua nova casa. Ao deitar-se na cama, enfiou a cara no travesseiro e chorou de alegria. Tudo aquilo pertencia a ela agora, exatamente como sempre havia desejado. Seus sonhos se realizavam, e ela não conseguia conter a emoção. A moça simples de Lilienthal era agora uma mulher de Berlim. Não havia mais limites para sua ambição. Ela tinha certeza de que galgaria cada degrau que havia planejado. Após aquele momento de contemplação, Hannelore se recompôs e foi até a janela da sala. Olhando para a esquina, viu o movimento dos carros, as pessoas elegantes passeando pelas calçadas, e pensou que aquilo era apenas o começo, o primeiro passo da sua ascensão.”
Marcio Pitliuk
A ALPINISTA S E XO E CORRUPÇÃO NA ALEMANHA N A Z I S TA
R O M A N C E
Copyright © 2020 Marcio Pitliuk
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editor responsável
capa
Arnaud Vin
Diogo Droschi (sobre imagem de Magdalena Russocka / Trevillion Images Dmitrijs Mihejevs / Shutterstock)
editor assistente
Eduardo Soares
diagramação
preparação e revisão
Larissa Carvalho Mazzoni
Eduardo Soares Samira Vilela
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil
Pitliuk, Marcio A alpinista : sexo e corrupção na Alemanha nazista / Marcio Pitliuk. -- São Paulo : Vestígio, 2020. ISBN 978-85-5412-675-9 1. Ficção brasileira 2. Guerra Mundial, 1939-1945 - Ficção 3. Holocausto judeu (1939-1945) - Ficção 4. Nazismo - Ficção I. Título. 20-34776
CDD-B869.3
Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura brasileira B869.3 Maria Alice Ferreira - Bibliotecária - CRB-8/7964
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Não existem coincidências: os fatos se entrelaçam porque estavam determinados a acontecer. Rebe de Lubavitch
Esta é uma obra de ficção. À exceção dos personagens reais e notórios que participaram do período histórico retratado neste livro, qualquer semelhança entre nomes e fatos reais é mera coincidência.
Janeiro de 1945, interior da Polônia
Hannelore apontava a arma para os dois prisioneiros e ordenava que caminhassem floresta adentro. Era noite sem lua, breu total. O vento, de gelar os ossos, penetrava até mesmo no casaco de pele de raposa que ela vestia. Era um manteau comprido, verdadeira obra de arte costurada à mão. Tinha sido feito sob medida, mas não para Hannelore, e sim para uma judia. Os dois prisioneiros vestiam apenas o uniforme de algodão rústico listrado de azul e branco, insuportavelmente fino para aquele inverno. Na camisa havia um número costurado e um triângulo amarelo apontado para baixo. O número identificava o prisioneiro, e o triângulo, sua origem judaica. Ela usava botas de cano alto, feitas de pelica delicada e forradas com pele de coelho, enquanto os homens calçavam apenas tamancos de madeira. As botas também tinham sido feitas sob medida, mas para outra judia. Mesmo naquela situação peculiar, Hannelore estava bem maquiada e bem alimentada, num contraste chocante com os dois homens exaustos e famintos, quase congelados. Mas ela não se importava. Um dos prisioneiros carregava duas pás, e o outro, uma mala tão pesada que precisava ser arrastada. Dentro dela havia diamantes, joias e dentes de ouro – uma pequena fortuna. Tensa, Hannelore verificava 7
sempre se estavam sendo seguidos. Tiros de canhão e metralhadora podiam ser ouvidos à distância. – Parem! – gritou ela bruscamente, como se ter de falar com eles fosse algo repugnante, pior do que se dirigir a um animal. A alemã havia escolhido aquele local alguns dias antes, quando soube que a guerra estava perdida e que o exército soviético poderia chegar a qualquer momento. Seu marido, o comandante Joseph Muller, já tinha recebido ordens de Himmler para destruir todos os documentos comprometedores e todas as provas dos massacres que aconteciam do lado de dentro das cercas de arame farpado de Wodospad Niebieski, um dos muitos campos de concentração e extermínio controlados pelos nazistas. Hannelore queria estar preparada para o difícil período do pós-guerra, após a derrota alemã. – Cavem embaixo dessa árvore – ordenou. Com dificuldade, os dois prisioneiros começaram a bater as pás no chão duro, semicongelado. Depois de muito esforço, conseguiram penetrar o barro solidificado. Quando o buraco estava suficientemente fundo, ela mandou que colocassem a mala dentro e cobrissem com terra. Terminado o serviço, deu ordens para os dois caminharem de volta para o campo. Esperou que se distanciassem cerca de cem metros do esconderijo e acertou um tiro na nuca de cada prisioneiro. Os estampidos ecoaram entre as árvores, mas nada que chamasse a atenção. Naquela floresta, era mais comum se ouvirem tiros do que o canto dos pássaros. Hannelore pegou as pás, andou por mais algumas centenas de metros e as escondeu no meio das folhagens, voltando em seguida para Wodospad Niebieski. O lugar estava um caos. Os oficiais gritavam para os prisioneiros jogarem documentos, papéis, fotografias e memorandos nos fornos crematórios. Centenas de pessoas corriam de um lado para o outro. Os soldados já haviam explodido as câmaras de gás com granadas e esperavam apenas que os papéis fossem completamente carbonizados para explodir também os fornos crematórios. Dois médicos alemães selecionavam os prisioneiros que estavam em condições de andar, encaminhando-os para uma longa fila. Seriam usados como escravos nos campos de trabalhos forçados na Alemanha e na Áustria. 8
Os que estavam fracos demais eram colocados em barracões, onde seriam fuzilados. Em seguida, os lança-chamas destruiriam tudo, eliminando qualquer vestígio. Quem fosse pego pelos oficiais tentando aproveitar a confusão para fugir era morto na hora. Os cachorros, treinados para matar, também eram lançados contra eles, dilacerando seus corpos esqueléticos. Mesmo em meio à bagunça, Hannelore não demorou a encontrar seu marido, o comandante Muller. Muito agitado, ele ordenava aos outros oficiais que colocassem todos os objetos de valor – casacos de pele, joias, castiçais de prata, dentes de ouro, obras de arte – em um caminhão que partiria para Berlim. – Escondeu a nossa parte? – ele perguntou ao vê-la. – Sim, enterrei no local combinado – mentiu Hannelore. – Ótimo. Temos o suficiente para fugir da Alemanha e recomeçar a vida na América do Sul. E nossa filha? – Deixei aos cuidados de uma freira no convento – mentiu mais uma vez, sem deixar escapar qualquer emoção na voz.
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PRIMEIRA PARTE
Lilienthal
Primavera de 1937
O professor Hans Schmidt andava por entre as carteiras escolares do pequeno ginásio de Lilienthal durante sua aula de história germânica. Parou ao lado de Hannelore Schultz: uma série de desenhos no caderno da aluna havia chamado sua atenção. Eram vários “Hs” entrelaçados, desenhados em formatos diferentes, com uma caligrafia cuidadosa. Alguns eram unidos por um coração. O professor logo entendeu que aquelas iniciais só podiam significar uma coisa: Hans e Hannelore. A aluna agia como se não tivesse percebido a presença do professor ao seu lado. Hans tinha 30 anos e ainda era solteiro. Apenas dez centímetros mais baixo do que Hannelore, que media um metro e oitenta, era bem magro, tinha ombros estreitos e a pele tão branca que parecia anêmico, por trás dos óculos de aro de tartaruga. Os cabelos castanhos estavam bem penteados, sem um fio fora do lugar. Hans vestia um terno de lã escura já gasto, mas muito limpo, assim como os sapatos, muito bem engraxados. A bela alemã era um desastre como aluna: ia mal nas provas, não prestava atenção nas aulas e, displicente, não realizava os trabalhos de casa. Ainda assim, o professor fazia o possível para ajudá-la a passar de ano. Não sem segundas intenções. Hannelore Schultz tinha apenas 17 anos, mas o corpo, perfeito, era o de uma mulher adulta. Pernas longas, cintura fina, seios fartos, cabelos dourados e olhos azuis como o céu de outono. Era, sem dúvida, a aluna 13
mais bonita e sensual da escola. Mais do que isso, era a mulher mais bela da cidade. A natureza tinha sido pródiga com aquela garota. Não havia um centímetro fora do lugar, nada para ser retocado. O professor Hans não tinha coragem de convidá-la para um encontro. Mas em casa, após as aulas, ele se entregava a sonhos românticos com a aluna. Desde que menstruara pela primeira vez, Hannelore entendeu que provocava fascínio no sexo oposto – o professor não era exceção. Ela sabia disso e tirava proveito. Na escola, sempre conseguia uma nota melhor do que merecia. Todos os homens queriam agradá-la. Lilienthal era um vilarejo pequeno, com pouco mais de trinta mil habitantes e a uma hora de trem de Berlim. Hannelore morava em um pequeno sítio, como a maioria das pessoas ali. Era a caçula de três irmãos que trabalhavam duro na enxada e eram pouco letrados. Fizeram só o primário. Seu pai também trabalhava no campo, e a mãe cuidava do resto: cozinhava, lavava a roupa, limpava a casa. Eram todos broncos e rudes. Todos exceto Hannelore, que fugiu ao padrão da família. Queria ser alguém, sair daquela miséria. Sonhava com grandes festas importantes, vestidos de gala, maquiagens, a vida sofisticada e cosmopolita de Berlim, aonde ia duas vezes por ano. Foi lá que entrou pela primeira vez na perfumaria do Sr. Wolf, deliciando-se com o aroma dos perfumes franceses. Entendeu que era aquilo que desejava: estar cercada daquela elegância, e não da lama, do mato e dos bichos da sua cidade natal. Faria o que fosse preciso para subir na vida. Prometeu a si mesma que não teria limites. Sua mãe tinha dois vestidos, um para trabalhar nos dias de semana e outro para ir à igreja aos domingos. A filha queria mais do que apenas dois vestidos. Sua vaidade era maior do que Lilienthal. Para conseguir incrementar seu guarda-roupa espartano, Hannelore fazia pequenos serviços por fora. Com o dinheirinho que ganhava, comprava tecidos e costurava uma saia ou uma blusa. Quando completou 16 anos, fez um vestido que valorizava seu corpo. Era decotado além da conta para os padrões da pequena cidade e justo na cintura, o que realçava os seios. O tecido branco de algodão destacava as curvas. Sua 14
família não gostou da roupa, mas Hannelore era decidida: ninguém a impediria de usar o que bem entendesse. Não havia uma pessoa em Lilienthal que não reparasse na menina, que gostava de atrair a atenção dos homens e a inveja das mulheres. Em uma cidade provinciana como aquela, onde todos se conheciam, os relacionamentos surgiam de apresentações familiares. O namoro era recatado; o noivado, rigidamente controlado, e as noivas quase sempre se casavam virgens. Ela ainda não havia experimentado o sexo, mas sua intuição dizia que ele poderia lhe trazer grandes benefícios. O sexo, ela logo entendeu, era uma grande arma. Em uma viagem a Berlim com a avó, para comprarem artigos que não existiam em Lilienthal, sua vida começou a mudar. Enquanto a avó fazia compras, Hannelore foi dar uma volta. O Café Germânia chamou sua atenção, cheio de homens e mulheres elegantíssimos. Não havia nada igual em sua cidade. Parou à porta para ver melhor o ambiente. Contra a luz, seu vestido branco ficou transparente, revelando a silhueta de suas pernas longas e sensuais. Todos os olhares se voltaram para ela, até mesmo os femininos. Um homem de aproximadamente 40 anos não perdeu tempo e a convidou para se sentar. A jovem até pensou em recusar e ir embora, mas, no fundo, era aquilo que ela queria. Acabou aceitando, e os dois sentaram-se à mesa. Seu anfitrião era alto, tinha olhos azuis escuros e cavanhaque, os cabelos loiros e lisos muito bem penteados para trás com glicerina. Não tinha a aparência abrutalhada dos homens de Lilienthal, mas não era afeminado. Ela observou que as mãos e as unhas dele estavam limpas, bem aparadas. Tinha os dedos finos de quem nunca pegou em uma enxada na vida. Seu terno se ajustava perfeitamente ao corpo e, o melhor de tudo, ele exalava um perfume delicioso. – Garçom, sirva a esta linda moça um apfelstrudel com creme e um chocolate quente. E mais um conhaque para mim. – Não, obrigada – recusou a ingênua Hannelore, que pensou que teria de pagar pela bebida, sem um centavo no bolso. O homem abriu um sorriso cheio de segundas intenções, colocando sua mão sobre a dela. Hannelore reparou que ele era casado. Havia uma grossa aliança de ouro no anelar da mão esquerda. 15
Não precisou pensar muito para entender o que ele queria. – É um prazer atender uma jovem tão bonita. Hannelore achou uma ousadia ele segurar sua mão, mas não fez nenhum movimento contrário. Sua intuição lhe dizia para deixar as coisas acontecerem. Os homens no Café Germânia fumavam cigarros, charutos e cachimbos. Para a surpresa de Hannelore, muitas mulheres também fumavam, e todas se vestiam como ela sonhava em se vestir um dia. Joias, sapatos de salto alto, meias de seda: aquele era o mundo que a jovem desejava. Apesar da simplicidade de seu vestido branco, Hannelore demonstrava tanta sensualidade que parecia parte daquele sofisticado ambiente. Tinha brilho e luz próprios, que dispensavam joias e outros apetrechos. Naquele dia, ela teve certeza de seu poder de atração sobre os homens. E aqueles não eram caipiras de Lilienthal, eram senhores de Berlim. – É a primeira vez que vem aqui? – perguntou seu anfitrião, que agora deslizava a mão sobre a dela. – Sim. – Se você quiser, podemos pegar meu carro e dar uma volta por Berlim. “Ele tem um carro! Com certeza é muito rico!”, ela pensou. Podia contar nos dedos de uma mão as vezes em que tinha entrado em um automóvel. – Daqui a pouco tenho que encontrar minha avó – disse Hannelore. O cavalheiro então percebeu que nem tinha se apresentado. – Me desculpe, fiquei tão maravilhado com sua beleza que esqueci de me apresentar. Meu nome é Rudolf von Huss. – Hannelore Schultz – ela respondeu. – Antes de se encontrar com sua avó, gostaria de visitar algumas lojas? – ele ofereceu, conquistador. Sua vontade era dizer que sim, mas ela sabia que isso era impossível. Não poderia chegar em casa com as compras. Frustrada, foi obrigada a recusar o melhor convite que já recebera na vida. Ainda assim, aquela pergunta mudaria sua vida para sempre. Hannelore começou a jogar. Comia o doce, passava a língua sensualmente nos lábios e observava a reação de Rudolf. Ele não conseguia tirar os olhos de sua boca. 16
Quando terminou de comer, a garota se levantou. Precisava ir embora, encontrar a avó. – Me deixe seu telefone – ele pediu. “Telefone? Ele acha que eu tenho telefone?”, ela pensou, surpresa. – Não. – Como eu faço para vê-la de novo? Rudolf não estava pedindo, estava implorando por um novo encontro. – Quem sabe da próxima vez que eu vier a Berlim – ela respondeu com descaso. – Fique com o meu contato – insistiu Rudolf, entregando-lhe um cartão de visitas. Era o primeiro cartão de visitas que ela via. – Promete me ligar? Sem responder, ela deixou o café. Estava feliz da vida. No trem de volta para Lilienthal, Hannelore não parava de relembrar o encontro no café. Os vestidos maravilhosos, as joias, a infinidade de brilhos e cores. O jeito sensual como as mulheres sopravam a fumaça dos cigarros. As pessoas conversavam, se abraçavam e riam, tudo tão diferente de sua pequena cidade! Parecia outro planeta. E era nesse planeta que ela queria viver, não naquele cheio de terra e lama, de gente bruta e ignorante. Pegou o cartão de visitas. Dr. Rudolf von Huss, advogado. Seu escritório ficava na Kurfürstendammm Strasse, a principal e mais sofisticada avenida de Berlim. Ele não era um caipirão de Lilienthal, um bronco, um ninguém. Era um advogado rico. “E mesmo assim foi seduzido por mim”, pensou, confiante. Quando o trem parou na estação de Lilienthal e Hannelore desceu, sentiu um nó na garganta. As pessoas malvestidas e sujas, as ruas de terra cheias de excrementos, as charretes velhas caindo aos pedaços – tudo era o oposto de Berlim, da sofisticação e do luxo. “Não ficarei aqui, custe o que custar. Não vou passar minha vida neste fim de mundo”, prometeu a si mesma mais uma vez.
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