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Último lance

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AVERY KEELAN

SÉRIE REGRAS DO JOGO 2

TRADUÇÃO

: Natália Chagas Máximo

Copyright © 2023 Avery Keelan

Copyright desta edição © 2026 Editora Gutenberg

Publicado mediante acordo com Tor Publishing Group. Todos os direitos reservados.

Título original: Shutout

Todos os direitos reservados pela Editora Gutenberg. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

Classificação indicativa: para maiores de 18 anos.

editora responsável

Flavia Lago

editora assistente

Natália Chagas Máximo

preparação de texto

Julia Sousa revisão

Flavia Lago

ilustração de capa

Andra Murarasu

adaptação de capa

Alberto Bittencourt

diagramação

Guilherme Fagundes

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil

Keelan, Avery Último lance / Avery Keelan; tradução Natália Chagas Máximo. -- 1. ed. -- São Paulo: Gutenberg, 2026. -- (Série Regras do Jogo; 2)

Título original: Shutout

ISBN 978-85-8235-861-0

1. Romance canadense I. Título.

25-324724.0

Índices para catálogo sistemático: 1. Romances : Literatura canadense C813

Cibele Maria Dias - Bibliotecária - CRB-8/9427

A GUTENBERG É UMA EDITORA DO GRUPO AUTÊNTICA

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Para todos que já sentiram demais.

1

Sob pressão

Tyler

– Concentra, Tyler! – O grito do meu treinador ecoou pela arena vazia.

As férias de inverno com minha família em Los Angeles passaram longe de ser descanso. Eu vinha levando uma surra quase todos os dias e, logo mais, ia pegar um avião de volta para casa… e, no dia seguinte, tudo ia recomeçar.

Sacudi a cabeça, voltei à posição e esperei pelo chute. Mark vem me fazendo repetir esse treino de rastreamento de disco pelo que parecia uma eternidade. Chute, rebote, chute. Sem parar. Meu equipamento estava encharcado de suor, e meu cérebro desligou dez minutos atrás.

Bloqueei sua tentativa de backhand, mas no rebote ele enfiou o disco pra dentro. Merda! Cerrei os dentes e lancei um olhar rápido para as arquibancadas, de onde meu pai e meu irmão assistiam. O problema não era ele ficar bravo se eu não tivesse um bom desempenho no gelo – era ficar decepcionado. E, de algum modo, isso era bem pior.

Mark deslizou até o gol para pegar o disco.

– Acompanhe o chute até o fim – ele me lembrou, em tom firme. – Quando o disco rebate, mantenha o foco e siga o lance até a conclusão. Não tire os olhos dele, mesmo que pareça uma defesa rotineira.

Eu tinha mantido os olhos nele – e isso era o que mais irritava. Mas, em vez de discutir, só assenti.

Do centro da área, observei enquanto ele patinava de volta para o topo do círculo e começava a manejar o disco branco de treino. Segui cada movimento. Ele se confundia com o gelo, e era preciso muita concentração para distingui-lo da superfície. Perto disso, os discos pretos de jogo pareciam brilhar no escuro.

As próximas defesas saíram mais limpas, e encerramos o treino no gelo antes de seguir para a área de condicionamento físico. O que veio depois foi um borrão exaustivo de agachamentos unilaterais, stiffs unilaterais, puxadas no cabo e saltos laterais sobre barreiras. Eu já sabia que mais tarde ficaria todo

dolorido e, quando passamos para os arremessos com a bola medicinal, fiquei tentado a lançar a maldita bola de quase vinte quilos na cabeça do Mark.

– Bom trabalho. – Ele me deu um tapinha no ombro e se levantou. – Pode fazer uma pausa de cinco minutos antes da liberação miofascial e do alongamento.

Ofegante, passei a toalha branca na testa. Meu olhar foi até o outro lado da sala, onde meu pai estava em pé, com o celular no ouvido. Como empresário esportivo, ele representava alguns dos maiores nomes do esporte profissional. Foi assim que me apaixonei pelo hóquei: ele me levou a um jogo de um cliente quando eu tinha 4 anos, e fiquei obcecado.

De repente, me dei conta e senti um arrepio. Se ele estivesse em uma ligação normal de trabalho, sobre outro jogador, teria ido para o corredor. O fato de não ter saído me fez achar que o assunto era eu.

Minhas suspeitas se confirmaram quando meu pai chamou Mark com um aceno, e os dois se juntaram para conversar. Estavam longe demais para que eu conseguisse ouvir, mas o papo foi rápido.

– O que ele disse? – perguntei quando Mark voltou para a área de alongamento.

Ele pegou um rolo de espuma preto na prateleira.

– O gerente-geral do Nova York queria confirmar se você estava treinando o rastreamento de disco. Parece que estavam meio preocupados com isso antes do Natal.

O cansaço desapareceu em um turbilhão de adrenalina e apreensão. Eu tinha sido recrutado pelo Nova York aos 18 anos, e o time acompanhava de perto meu desempenho e evolução.

– Meu rastreamento está ótimo. – Inclinei a cabeça para trás e tomei um longo gole d’água. – Foi só uma sequência de jogos ruins. Azar com o disco.

No mês anterior, eu tinha deixado o psicológico me dominar e meu desempenho caiu vários jogos seguidos. Eu continuo sendo o melhor goleiro da liga, mas isso traz uma pressão enorme para a segunda metade da temporada. Se um atacante ou defensor da primeira linha tivesse uma fase ruim, o pior que podia acontecer era ser rebaixado para a segunda ou terceira linha por um tempo. Se eu vacilasse, ia direto para o banco.

Mark fez um gesto impaciente.

– Adutores, Ty.

Obedecendo à ordem, me posicionei de bruços sobre o colchonete, apoiado nos antebraços. Depois redistribuí o peso para um lado e coloquei o rolo de espuma embaixo da coxa interna.

– Você não sai de uma má fase na sorte – ele acrescentou.

Senti um nó dolorido perto da virilha e soltei o ar com força.

– Eu sei. É por isso que tô me matando de treinar.

Existe uma linha muito tênue entre se matar de treinar e chegar ao limite físico e mental, e eu vivo me equilibrando nela. Eu sou humano, mas o time não liga para isso. A concorrência também não. Sempre tem alguém querendo tanto quanto você – ou até mais – e, se tirasse o pé do acelerador por um segundo que fosse, esse alguém o ultrapassaria em um piscar de olhos.

Depois de tomar banho e me vestir, encontrei Jonah e meu pai me esperando no corredor para me levar ao aeroporto. Minha mãe e minha irmã, Elise, estavam em casa, em Beverly Hills, e eu já tinha me despedido delas. Com menos de noventa minutos para o voo, o tempo estava apertado. Mesmo morrendo de fome, teria que esperar passar pela segurança para comer alguma coisa.

Meu pai guardou o celular no bolso do paletó e me lançou um olhar de aprovação.

– Revi umas gravações dos seus treinos desta semana. Você está afiado.

– Nada mal, mano. – Jonah deu um soco no meu bíceps. – Quem sabe um dia você aprende a fazer a borboleta?

– Ah, é? – Passei o braço em volta do pescoço dele e o puxei para uma gravata, esfregando os nós dos dedos no couro cabeludo. Aos 16 anos e medindo um metro e oitenta e oito, ele era seis anos mais novo do que eu e quase da minha altura, mas ainda levaria um tempo para ganhar massa suficiente para conseguir reagir. – Quem sabe um dia você aprende a patinar.

Deixei ele se debater por mais um segundo antes de soltá-lo com um empurrão. Jonah se endireitou com um sorriso de canto e passou a mão no cabelo loiro desgrenhado. Era um ponta direita de elite nas categorias de base, uma força da natureza no gelo – e um pentelho metido pra caramba. Se eu for sincero, talvez essa última característica seja de família.

– Você tá segurando melhor a postura – comentou meu pai.

Fiquei aliviado por ele ter notado.

– É, tenho treinado isso com o Mark.

Mark McNabb era um dos melhores treinadores de goleiros da América do Norte – tinha uma lista de espera quilométrica e cobrava uma pequena fortuna por um ano de treino particular. Eu treinava com ele por fora, já que o Boyd não tinha um técnico exclusivo para goleiros. Somando tudo isso, o dinheiro que meus pais já tinham investido na minha carreira era absurdo – dava para comprar uma casa pequena. Um dos muitos privilégios que ganhei graças à profissão do meu pai.

Mas o trabalho dele também tinha seus lados ruins. Mesmo tentando não forçar a barra, às vezes ele saía do modo “pai” e entrava no modo “agente”.

A linha entre o que era melhor para mim e o que era melhor para minha carreira vivia borrada. Eu já nem sabia mais distinguir uma coisa da outra.

Quando saímos para o calor do fim de tarde, o Lamborghini Urus preto do meu pai estava parado em uma área proibida, com o motor ligado, perto da entrada. Colocamos meu equipamento no porta-malas e entramos. Deixei Jonah ir no banco da frente e me acomodei atrás. Encostei a cabeça no banco de couro macio e fiquei olhando pela janela, vendo as palmeiras passarem num borrão. De vez em quando, até sentia falta da Califórnia – mas sempre era um alívio voltar para a faculdade.

Não me entenda mal – eu amava minha família, mas eram tão perfeitinhos que pareciam coisa de seriado. Pai empresário esportivo famoso; mãe dermatologista das celebridades; dois irmãos mais novos que eram alunos-modelo. Às vezes era sufocante – como se não houvesse espaço para errar. Um deslize meu e pronto: deixava de ser um verdadeiro Donohue.

Quando meu pai entrou na saída que levava para o Aeroporto Internacional de Los Angeles, ele me encarou pelo retrovisor.

– Lembra do que a gente conversou, Ty.

– Eu sei.

Manter o foco.

Hóquei. Treino. Faculdade. Sem distrações.

Este ano tenho sido mais rígido comigo do que nunca. Sono em dia. Alimentação impecável. Treino seguido à risca. Isso não deixava muito tempo livre – o que significava que eu quase não saía e me limitava a alguns lances casuais. Sem vínculos, sem sentimentos e sem promessas. Com tanta coisa acontecendo, eu não tinha nada além disso para oferecer.

– Há uma diferença enorme entre jogar na faculdade e jogar na liga. – Meu pai parou na frente do terminal, ligando o pisca-alerta. – Tem cara que leva uma surra no primeiro ano como profissional. A confiança some, e é difícil se reerguer. Quero ter certeza de que vai estar preparado.

Para ser justo, ele não estava no modo “agente” agora. Era o pai falando. A voz dele tinha um tom protetor, e eu sabia que estava tentando me ajudar do jeito que sabia.

– Eu sei. E agradeço.

– Você tá quase lá – completou ele. – Daqui a um ano e meio, tudo isso vai ter valido a pena.

Um nó se formou no meu estômago, e engoli em seco, tentando disfarçar. Outros atletas matariam para estar no meu lugar – então qual é o meu maldito problema?

No fundo, eu sabia a resposta.

Quando te dão o mundo, todo mundo espera que você o domine.

2 Hades

Seraphina

Não sabia se ficava preocupada ou irritada. Meu irmão devia me encontrar à 1 hora da tarde para me ajudar a descarregar o carro, mas eu tinha acabado de estacionar na frente da casa dele – e a garagem estava vazia. Nada da caminhonete preta.

Confusa, coloquei o carro em ponto morto e deixei o motor ligado enquanto conferia o número da casa. Como imaginei, era o mesmo que o Chase tinha me mandado por mensagem. O mapa confirmava que eu estava no endereço certo. Então, onde diabos ele tinha ido parar?

Quando peguei o celular para ligar, a tela acendeu com uma mensagem:

Chase: Mal aí, Sera. Passei por um prego e o pneu furou. Tô indo o mais rápido que consigo.

Chase: Se chegar antes de mim, pode entrar. O código é 4938.

Embora o atraso não fosse culpa dele, ainda assim fiquei irritada. Não exatamente com meu irmão, mas com a vida em geral - ou talvez com o universo. Desde o diagnóstico de câncer da nossa mãe, eu vinha comendo pouco, dormindo menos ainda e minha sanidade estava por um fio. Ultimamente, até o menor contratempo parecia o fim do mundo. Será que uma coisa, só uma, não podia dar certo?

Soltando um suspiro, respondi à mensagem dele e deixei o celular de lado. Então, estiquei o pescoço e dei uma espiada na minha nova casa temporária.

Árvores altas, cobertas de neve, emolduravam uma construção de dois andares, cinza, com acabamento preto e janelas grandes e modernas. Por fora, parecia bem bonita. Torci para que, por dentro, não tivesse cheiro de meia suada e equipamento de hóquei, como eu imaginava. Jogadores de hóquei eram nojentos - e por isso eu receava morar com três deles. O banheiro devia ser um pesadelo.

Deixei o motor ligado enquanto tomava meu latte de baunilha descafeinado, pensando se devia ou não entrar. Mesmo que Chase tivesse garantido que não tinha problema, eu ainda me preocupava que os colegas de casa dele ficassem ressentidos por eu chegar sem aviso. E, sem meu irmão ali, a mudança parecia ainda mais intimidadora - mas, se ele demorasse, eu acabaria ficando um tempão dentro do carro.

Meu celular tocou antes que eu conseguisse decidir o que fazer. Em vez de ser o Chase, como eu esperava, era a Abby. Reprimi um bocejo e atendi pelo Bluetooth.

– Você vai sair com a gente hoje, né? – A voz aguda da Abby ecoou pelo alto-falante. Eu a conhecia desde o Ensino Fundamental e, embora tivesse apenas um metro e meio de altura, a personalidade era mais forte que um shot de destilado. – A Kendra e a Rachel vêm pra cá às 17 horas pra começar o esquenta.

– Adoraria, Abbs, mas preciso desfazer as malas.

Abby soltou um resmungo.

– Você é tão sem graça.

– Deixa eu me ajeitar primeiro, depois vejo.

Toda aquela mudança tinha me deixado com a sensação desconfortável de estar à deriva. No Arizona, eu tinha um grupo sólido de amigos, conhecia a maioria dos professores e conseguia andar pelo campus de olhos fechados. Era fácil. Confortável. Familiar.

Agora, eu estava começando tudo de novo.

Uma pressão apertou meu pescoço, e tomei mais um gole do latte, que não ajudou em nada a aliviar a tensão. Pensando bem, talvez sair naquela noite não fosse uma má ideia. Pelo menos, ajudaria a distrair a cabeça, nem que fosse por um tempo.

– Vamos lá, Sera! – A voz da Abby subiu um tom. – É sua primeira noite, a gente precisa comemorar! Você pode desfazer as malas amanhã. Além disso, vai rolar uma festa fechada no XS, e eu consigo colocar a gente na lista. Quem sabe você não reencontra o seu diabo sexy do Halloween?

– Hades – corrigi, sentindo o rosto queimar. O cara mascarado com quem fiquei em uma festa à fantasia tinha virado uma lenda entre as minhas amigas. Provavelmente porque tinha me feito gozar três vezes numa rapidinha sobre a pia imunda do banheiro do bar.

– Tá bom – disse ela. – O seu Hades gostoso. – Ah, duvido que eu o veja de novo. Quais as chances?

Nosso encontro deixou muito a desejar no quesito troca de informações pessoais. Tudo o que levei daquela noite foi que ele era gostoso (óbvio), tinha várias tatuagens (o que só aumentava o fator gostosura) e sabia exatamente onde ficava o ponto G. De algum modo, não chegamos a falar sobre onde ele morava, onde estudava ou qualquer outra coisa… inclusive o nome dele. Em toda a minha vida, eu nunca tinha feito nada parecido. Nem depois, na verdade.

De qualquer forma, fiquei com a impressão de que, diferente de mim, aquele encontro anônimo não tinha sido nada fora do comum para ele. Provavelmente nem devia se lembrar de mim. Só queria poder dizer o mesmo. Aquela noite não saía da minha cabeça desde então: lembranças que faziam os dedos dos pés se curvarem, os lábios se apertarem e a calcinha molhar, e às quais eu voltava nas madrugadas em que estava sozinha na cama, com um brinquedinho a pilha na mão.

– Pensa com carinho, vai? – implorou Abby, me tirando do devaneio safado. – O XS vai ser bem mais divertido do que abrir caixas.

Era difícil discordar. Por mais pouco prático que fosse, sair para uma noitada soava bem mais atraente do que me afogar em um mar de papelão.

– Tá bom – cedi, sabendo que não devia. – Eu vou lá um pouquinho.

Nesse momento, meu irmão estacionou ao meu lado e saiu da caminhonete. Deu a volta pela frente e bateu no meu vidro com impaciência, os olhos castanho-escuros fixos em mim.

– Anda logo, Sera. Tenho treino daqui a pouco. – A voz dele saiu abafada pelo vidro.

– Tenho que ir – disse à Abby, soltando o cinto de segurança. – Te mando mensagem depois pra combinarmos.

Encerrando a ligação, saí do carro e cruzei os braços sobre o peito para me proteger do vento cortante que uivava nas minhas costas. Nota mental: comprar um casaco de inverno gigante logo. Quanto maior, melhor.

Chase arqueou as sobrancelhas escuras.

– Deixa eu adivinhar. Era a Abby?

Nem dá pra chamar de adivinhação quando ela fala alto o bastante pra não precisar de megafone.

– Aham.

Apertei o botão para abrir o porta-malas, observando-o pelo canto do olho. Ele chegou a abrir a boca para falar, mas desistiu antes da primeira palavra. Nós dois sabíamos o que Chase pensava sobre a Abby. Dizia que ela era má influência, o que era bem irônico, vindo de quem vinha.

– Por que não entrou? – ele perguntou, com um tom mais leve. – Agora essa também é sua casa.

– Não sei. Quis esperar por você.

Demos a volta até a parte de trás do meu SUV e encontramos o porta-malas e o banco traseiro abarrotados até o teto… Vamos ter muito trabalho pela frente. Pensando bem, eu não ia precisar tão cedo dos vestidos de festa cheios de glitter nem das calças de linho fora de estação. Devia ter deixado metade daquilo na casa da minha mãe, mas agora já era.

– Brr. – Estremeci, pulando no mesmo lugar para me aquecer. Era aquele tipo de frio que penetrava os ossos. Assim que terminasse, eu ia me afundar em uma banheira fervendo por uma hora, ouvindo um audiolivro.

– Vamos acabar logo com isso. Se a gente for rápido, talvez não congele até a morte.

Meu irmão beliscou a manga da minha jaqueta branca, leve demais, e me lançou um olhar de reprovação.

– Um casaco de verdade ajudaria.

– Tô com um moletom por baixo.

– Um corta-vento não vai dar conta do inverno de Massachusetts.

– Esqueceu que tô vindo do Arizona? Me desculpa se tô um pouco despreparada.

– Não se preocupe. – Ele ergueu uma caixa grande com um grunhido. – Vou te apresentar a Shiv, namorada do Dallas, e vocês podem ir ao shopping até os cartões derreterem. A Bailey vai adorar ser poupada da função.

– Combinado.

Fazer novas amizades parecia uma boa ideia. Eu adorava a Abby, mas ela podia ser meio intensa - beirando a mandona às vezes -, e isso acabava afetando o grupo todo. Além disso, ela ia para festas sete noites por semana, o que significava que, para acompanhá-la, eu teria que fazer o mesmo.

Quando entramos, Chase fez um tour rápido pelo andar principal e pelo de cima - ambos razoavelmente limpos. Alguns controles de videogame largados na sala e uma caixa de suco de laranja esquecida no balcão da cozinha, mas, felizmente, o cheiro de meia suada que eu temia não apareceu.

Depois seguimos para o meu quarto temporário. Ficava ao lado da sala e costumava servir de escritório que, suspeitei, nunca tinha sido usado. Mas a porta de vidro deixava muito a desejar em termos de privacidade. Também não tinha armário, o que era um problema sério, considerando meus hábitos de consumo. Mas o preço compensava (ou seja, quase de graça), e esses dois detalhes davam para resolver com uma ida à IKEA.

Ao passarmos pelo banheiro do andar principal, enfiei a cabeça para dentro e encontrei apenas uma pia e um vaso.

– Hã… cadê o chuveiro? Eu perdi?

– Os dois banheiros de cima são suítes, então o mais próximo fica no andar de baixo. Você vai ter que dividir com o Ty – disse Chase, com um tom de desculpas. – Mas relaxa, ele é organizado.

Acertou. Pesadelo de banheiro confirmado.

Depois de mais duas viagens para descarregar o carro, o andar principal estava tomado por caixas de papelão, sacolas reutilizáveis e um monte de coisas soltas que eu tinha empilhado no banco da frente. Misteriosamente, o portamalas continuava tão cheio quanto no começo.

O peso da realidade me acertou de uma vez, e meu estômago se encolheu. Agora que eu tinha chegado, tudo estava caindo sobre mim mais rápido do que conseguia processar. Tinha tanta coisa para resolver em tão pouco tempo: desfazer as malas, concluir as matrículas, preencher formulários, atualizar o endereço, aprender a me virar num campus novo, fazer amigos, acompanhar o máximo possível as consultas da mamãe…

– Sera. – Chase tocou de leve o meu braço, e só então percebi que estava chorando.

Assoei o nariz e limpei uma lágrima teimosa com o dedo.

– Hã?

Ele se aproximou e me envolveu em um abraço, me apertando contra seu corpo.

– Sei que é muita coisa pra lidar. Eu tô aqui, e a gente vai fazer o que puder como família. Mas, se eu me atrasar para o treino, Miller vai acabar comigo, então vamos continuar.

Era o jeito delicado de me mandar engolir o choro. Ao contrário dele, eu não tinha nascido com a habilidade de compartimentalizar sentimentos em nível profissional. Qualquer preocupação que eu tivesse se espalhava por todas as áreas da minha vida, até resolver… ou explodir.

Dei uma risada engasgada no ombro dele.

– Tá bom.

– Você comeu? Tomou seu remédio? – Chase me soltou e me analisou de cima a baixo, com expressão preocupada.

– Sim e sim. – É uma meia-verdade. Tecnicamente, eu não tinha comido nada, a menos que um latte como café da manhã contasse, mas, pelo menos, tinha lembrado de tomar minha medicação para TDAH.

Ele cutucou uma bolsa da Lululemon estufada com a ponta do tênis branco. – Ótimo. A gente pode pedir jantar mais tarde. Mas vai demorar um bom tempo pra você terminar de desempacotar. Tem secador e babyliss suficientes pra abrir um salão.

– Isso se chama autocuidado, Chase. Minha coleção de produtos profissionais para cabelo valia cada centavo. Além do mais, bem-estar não tem preço. Pelo menos não um baixo.

– Aham. – Ele deu um sorriso de canto de boca, e o olhar deslizou até o monte de sapatos masculinos enormes na entrada. Um lampejo de reconhecimento passou pelo rosto dele. – Espera aí. Achei que não tinha ninguém em casa.

Passando por mim, ele foi até uma porta fechada ao lado da escada e a escancarou. Levou a mão à boca e se inclinou pelo vão.

– Ei, Ty! Tá aí? Vem me ajudar a trazer as coisas.

Um frio na barriga me tomou. Eu conhecia o Dallas havia anos, mas o outro colega do Chase era um completo mistério.

Virando-se para mim, Chase balançou as chaves.

– A gente termina de esvaziar seu carro enquanto você organiza as coisas no seu quarto. Assim fica aqui dentro, no quentinho, floco de neve.

Peraí. Quem ele estava chamando de “floco de neve”?

A porta da frente bateu atrás dele antes que eu conseguisse bolar uma resposta à altura. Era impossível acompanhar a agilidade verbal dele. Eu vinha tentando desde que tinha aprendido a falar.

Pendurei minha jaqueta, dei uma observada no cômodo e tentei organizar a sequência de tarefas. Começava pelas roupas ou pelos sapatos? Ou talvez pelo meu arsenal de maquiagem. Eu tinha um monte de produtos novos que ainda nem tinha tirado da embalagem.

Estava me apegando a detalhes para me distrair de tudo que não podia controlar na minha vida? Sim. Ia continuar fazendo isso? Com certeza.

Passos pesados ecoaram na escada do andar de baixo. O nervosismo disparou quando ergui o olhar e um cara apareceu no batente da porta. Ele era alto, com tatuagens fechando o braço esquerdo, visíveis mesmo de longe.

Nossos olhos se encontraram e eu travei, segurando uma bolsa rosa-choque da Lululemon com uma das mãos.

Santo Deus! Meu novo colega de casa era quente o bastante para derreter o gelo de um ringue. Olhos cinza-chumbo penetrantes; maxilar forte e bem-marcado; lábios carnudos com um leve ar de mau humor. O cabelo, em um tom escuro, era raspado nas laterais e bagunçado em cima, do tipo que convidava você a passar os dedos.

Esqueça tudo que eu já disse sobre jogadores de hóquei não serem atraentes. Ele era a própria definição de atraente.

Também havia algo familiar nele, mas eu não conseguia identificar o quê.

Meu olhar se demorou no rosto dele e, depois, desceu, procurando algum traço que o denunciasse. A camiseta preta, justa, se esticava sobre os ombros

largos e moldava o tronco em “V”, com as mangas destacando os bíceps e antebraços definidos. A calça de moletom cinza realçava as coxas grossas de jogador de hóquei - o que já era esperado, já que Chase tinha dito que ele era goleiro.

Percebendo que eu estava o encarando, forcei o olhar de volta para os olhos dele. Ele se aproximou, passando a mão pelos cabelos, e o gesto atraiu minha atenção para os desenhos escuros e detalhados que percorriam todo o comprimento de seus braços fortes. Meu olhar se prendeu à bússola tatuada no dorso da mão, e meu coração parou.

Aquela tatuagem. Eu me lembrava dela.

Ele podia até estar sem máscara agora, mas eu reconheceria aquelas mãos em qualquer lugar.

Hades.

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