ROGÉRIO FARIA TAVARES
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O RGANIZADO R
CONTOS
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SOBRE A PANDEMIA DE
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Rejane Dias Cecília Martins revisão
Aline Sobreira capa
Diogo Droschi diagramação
Guilherme Fagundes
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) 20 contos sobre a pandemia de 2020 / organizador Rogério Faria Tavares. -- 1. ed. -- Belo Horizonte, MG : Autêntica ; Academia Mineirade Letras, 2020. ISBN 978-65-88239-75-9 1. Contos brasileiros I. Faria Tavares, Rogério. 20-46007
CDD-B869.3
Índices para catálogo sistemático: 1. Contos : Literatura brasileira B869.3 Aline Graziele Benitez - Bibliotecária - CRB-1/3129
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Apresentação Rogério Faria Tavares
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Felicidade crocante Carla Madeira
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Faminta, feroz, irreprimível Carlos de Brito e Mello
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Duas irmãs Cristina Agostinho
37
A praça Carlos Herculano Lopes
43
Dois pontos Ana Elisa Ribeiro
57
Senhora do Fogo Azul, farol na tempestade Cidinha da Silva
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47 segundos Cris Guerra
63
Arma branca Eliana Cardoso
73
Feliz aniversário, Wainer Francisco de Morais Mendes
87
Diálogo virótico Frei Betto
Medo de respirar Ivan Angelo
93
103
O outro outro Jacques Fux
117
Canção de fim de mundo Jacyntho Lins Brandão
133
O sono que eles dormem Laura Cohen Rabelo
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Solstício de inferno Luís Giffoni
167
Memória além da quarentena Olavo Romano
203
Força maior Afonso Henriques Neto
223
A sinfonia Ana Cecília Carvalho
231
Amor de quarentena Paula Pimenta
259
Dentro de casa Stella Maris Rezende
271
Autores
Apresentação Rogério Faria Tavares
No exato dia em que redijo estas linhas – 22 de setembro – a primavera ainda não chegou, como era o previsto. Chegará? Já não tenho mais tanta certeza... Talvez tenhamos de aceitar esse ano assim como ele veio, repleto de acontecimentos estranhos. Será que acaba em 31 de dezembro? Inclemente, a pandemia de 2020 persiste em sua agenda destrutiva, atingindo centenas de seres humanos ao redor do globo, insensível a apelos de qualquer natureza. Sem divindade ou cientista capaz de contê-lo, o coronavírus segue em frente, insaciável, a despeito dos números impressionantes que sua atrevida circulação pelo planeta já ostenta. Sorrateiro, engana a pretensa argúcia humana, vencendo todo tipo de resistência ao seu poder. Zombeteiro, reserva o ridículo àqueles que o desprezam, desmoralizando os que, maliciosa ou ingenuamente, negam a sua letalidade ou até a sua existência. Aos discursos inconsistentes opõe os fatos 7
incontestáveis: a coleção expressiva de óbitos e as sequelas atestadas pelos médicos. De quantas será possível livrar-se? Seguramente nunca da dor e da tristeza pela perda de entes queridos e da saudade que deixaram. Dos poucos recursos capazes de enfrentar a covid-19, o distanciamento social e a quarentena vieram para alterar radicalmente nosso modo de ser, de viver e de conviver, para muitos inaugurando um estilo totalmente inédito de estar no mundo. Começando em março e sem prazo de validade, o isolamento a que tivemos de nos submeter acabou por gerar material farto para a comunicação digital, a experimentação artística e, em especial, para a Literatura, companheira leal da humanidade desde tempos imemoriais. O reencontro consigo mesmo, sem chance de escapar ou distrair-se, resultou em reflexão e, em muitos casos, em texto. Consciente da força da produção literária como estratégia de abordagem do Real e do Imaginário, como testemunha da História e espaço da Memória, animei-me a convidar um grupo de vinte contistas mineiros para que fabulassem “a quente” sobre a peste, na temperatura do momento, sem direito à visão serenada que talvez o futuro forneça. A intenção foi a de montar um rico painel a respeito do tema, capaz de instigar a inteligência e a fantasia das pessoas e de atrair, daqui a algumas décadas, o interesse daqueles que pesquisarão sobre como passamos por tudo isso. A seleção dos nomes consagrou o princípio da diversidade, em toda a sua extensão. O time aqui reunido é absolutamente heterogêneo, abrigando representantes de gerações, origens, trajetórias e estilos bem distintos, providência capaz de dotar a coletânea de caráter abrangente, inclusivo e, por isso, democrático. 8
Para o presente empreendimento – contribuição cultural da Academia Mineira de Letras a essa difícil quadra da vida brasileira –, contei, desde o primeiro minuto, com o pleno acolhimento de Rejane Dias dos Santos e de toda a equipe do seu excelente Grupo Autêntica, ao qual sou imensamente grato. Por meio deles, exalto todos os que integram a cadeia produtiva do livro no país: editores, ilustradores, diagramadores, livreiros, críticos, jornalistas especializados. Ela merece ser defendida sempre, sobretudo dos ataques à sua sobrevivência e à sua integridade. Agradeço, finalmente, a um de seus elos mais preciosos: os autores. Sem a sensibilidade demonstrada pelas duas dezenas de colegas que aceitaram colaborar, generosamente, com esse projeto, ele não teria ido adiante. É um privilégio estampar os prestigiados nomes de cada um deles na quarta capa deste volume. Que os leitores embarquem nessa viagem com o mesmo prazer que tivemos, todos nós, em concebê-la.
Dedico este livro à memória dos dois mestres do conto que nos deixaram em 2020: Rubem Fonseca e Sérgio Sant’Anna.
R o g é r i o Fa r i a Tava r e s
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Felicidade crocante Carla Madeira
Quarenta e sete dias de isolamento. Sinara acordou com os olhos inchados. Tinha chorado na noite anterior. Que ela se esquecesse de dar água para as louças que se acumulavam na pia, tudo bem, mas para a samambaia? Único ser vivo ao lado dela no isolamento? Aquilo foi a gota d’água. Naqueles dias, sempre que olhava para a samambaia, vibrava certa promessa (nunca diria a ninguém) de que não lhe faltaria ar. Sinara chorou de gratidão. Poucos dias antes, tinha chorado de desconcerto. Decidira fazer as unhas para levantar o astral. Encontrou, no balaio de coisas torturadas que imploravam para serem jogadas fora, um esmalte velho. Vermelho escarlate. Ótimo: cor quente, energia, luta, igualdade social. Passou o esmalte na mão esquerda. Depois, veio o desafio da direita. Um desastre. Nunca suportou a direita. Deu merda. Enrolou o algodão no pauzinho de laranjeira e, mal começou a consertar as coisas, derramou a pouca acetona que ainda tinha, virando o vidro sobre a mesa. Nesse caso, chorou dias seguidos enquanto durou o mandato. 11
Uma eternidade. Só parou de chorar por esse motivo quando arranjou outro. O vizinho. O vizinho de cima morreu de covid, soube pelo porteiro. O vizinho que escarrava em sua varanda e a chamara de putinha, justamente quando ela não transava há meses. Nunca o perdoou por lembrá-la disso. O idiota saíra em carreata de verde e amarelo gritando: fora, gripezinha. Ela não ia ser falsa, queria, sim, que ele morresse, mas mordendo a própria língua, não de covid. Chorou, nesse caso, pelas estatísticas. A considerar o nível das motivações, não faltariam lágrimas… até aquela manhã em que completava 47 dias de isolamento e 47 anos de idade. Só podia ser um sinal. Não a coincidência propriamente dita, mas o fato de que ela a notara (andava tão sem pé nem cabeça). “Vou extrair felicidade do dia de hoje a fórceps”, encheu-se de propósito. Depois considerou fórceps bruto demais para se metaforizar com felicidade. Palavra fagueira que não suporta alicates. Refez a promessa: “Vou extrair felicidade do dia de hoje como quem encontra agulha no palheiro”. Achou linda a visão. Bater o olho no risco prateado, rútilo, em meio a uma montanha de palha. Depois suspeitou (insegurança) evocar uma imagem desanimadora, mas manteve, nunca tolerou ilusões adocicadas. Coisas como oásis, em tempos de pandemia, desaparecem ao toque da primeira linha do noticiário. Alucinados! Teve vontade de chorar pelos elefantes, 47 no jogo do bicho. Mas se controlou. Saiu da cama, antes arredou para o lado a manta de piquet que já, há alguns dias, dormia com ela. O inverno estava vindo… teve ânsias de adiá-lo. Outros vírus, senhor! Esse, sim, seria um bom motivo para chorar, mas Sinara sacudiu o corpo em descarrego. Decididamente: hoje não! 12
Começou a abrir gavetas. Lembrou-se de um sabonete líquido, de espuma macia, que comprara antes de tudo começar. Que sorte: achou no armário do banheiro debaixo da pia. Para Sinara, era sempre impressionante achar as coisas onde elas deveriam estar. Levou a espuma ao rosto e começou a girar, de leve, as bolhinhas aeradas com cheiro de alecrim. Depois abriu a torneira e viu a felicidade jorrar em estado de água. Farta. “Posso até viver sem felicidade, mas como viver sem água?”, pensou, enxugando o rosto e se lembrando das estatísticas nacionais. Nunca a falta de água alheia fora suficiente para que Sinara chamasse de felicidade sua sorte. Mas hoje… água encanada, esgoto, despensa cheia e toalha limpa deram um soco nela. Depois gritaram: encontre a porra da agulha. Sinara tinha pão de sal no congelador. Ligou o forninho e, em segundos, tinha um pão crocante capaz de derreter uma bela lambida de manteiga. Fora um rapaz que entregara o pão, de bicicleta, pedalando sem garantias. Tanto morro pra subir, que não restava a ele fôlego para ter direitos. Sinara mordeu o pão crocante que fez um barulho crocante, e ela, de súbito, absorveu um aspecto físico da felicidade. Mesmo confusa sobre se deveria ou não comer com tanto prazer um pão tão suspeito que segurava com a mão tão direita, Sinara se agarrou à descoberta: a felicidade é crocante. Depois, ligou o computador. Tinha emprego e tinha sorte: podia trabalhar a distância. Achava seu trabalho muita palha para pouca agulha. Mas, mesmo assim, não esmoreceu. Hoje o dia estava repleto de propósito. E depois, se bem se lembrava, seu office já era desanimador bem antes do seu home, mas… ela tinha plano de saúde, vale-refeição e CLT. Felicidade, felicidade, felicidade. Concluiu, provisória. Carla Madeira
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E assim o dia foi passando. Já desembaraçada das estroboscópicas videoconferências que, em dias anteriores, a levaram ao pranto diurno, Sinara foi atrás de um pouco de distração. Passou longe do noticiário e nem chegou perto do grupo da família, onde não faltava amor, mas sobrava contrariedade. Sequelas eleitorais. Caiu nas redes sociais. Todas as liquidações começaram a perseguir Sinara. Tudo pela metade do preço. “Logo agora, que não tenho aonde ir, esses sapatos querem andar comigo?” Sinara resistiu e, depois de ver pela sétima vez um vestido de linho branco, caimento perfeito, teve necessidade de falar em voz alta com a samambaia: “Serei feliz nos trapos, mas serei feliz, hoje”. Talvez ajudasse se Sinara tirasse o pijama. E foi o que ela fez. Vestiu um vestido novo, bem passado, e enfrentou com coragem a mãe onipresente: hoje não, mamãe! Hoje vou usar roupa de sair, em casa! Agora, Sinara também falava com os mortos. Com dedos frenéticos, ela caminhou pelo mundo. E distraída, já quase em estado de agulha, foi vítima da crueldade dos algoritmos: deu de cara com ele. Eugênio. Tremeu dos pés à cabeça e gemeu: hoje não! Há muito não podia mais beijá-lo. Nem ficar a seguros dois metros dele. Estavam isolados há um ano, dois meses e seis dias. Não era culpa do vírus, foi outra mulher. Fatal. “Farei um pudim”, decidiu Sinara. Quebrou os ovos, a receita levava oito gemas. Detestava separar a clara das gemas, e, então, se concentrou na primeira colherada. Outro aspecto da felicidade: é cremosa. Já estava entardecendo, e Sinara sentiu que havia espetado o dedo na agulha que procurava. Doía. Eugênio parecia feliz na foto e não escondia mais, nem ela nem a felicidade. 14
“Ela é feia”, vingou-se Sinara. “Quer saber? Posso sentir a crocância dessas palavras: ela-é-muito-feia.” Pronto: gemas separadas, amarelinhas como o sol. “Há de brilhar mais uma vez…”, cantarolou Sinara, invocando, sem convicção, uma esperança de luz para seu coração. Foi até a despensa buscar uma lata de leite condensado, e aí sim, aí sim, a vida apelou! Aconteceu o insuperável, o abalo monumental, o desmoronamento estupendo: não tinha leite condensado na despensa. Sinara começou a chorar. “Que se dane a felicidade!”, bradou. Chorou de perder o fôlego, chorou de fazer barulho e sacudir o ombro, chorou de escorrer na roupa de sair. Chorou de molhar todo o palheiro. Chorou. Depois faria um omelete. Mas por hoje, chorou.
Carla Madeira
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