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Edição e sociabilidades intelectuais

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LUCIANO MENDES DE FARIA FILHO

A publicação das obras completas de Rui Barbosa (1930-1949)


U N IVERSIDADE F ED ERA L D E M IN A S G ERA I S

Reitor Jaime Arturo Ramírez Vice-Reitora Sandra Regina Goulart Almeida E DITORA UFMG

Diretor Flavio de Lemos Carsalade Vice-Diretora Camila Figueiredo Co n s e l h o E d i to r i a l Flavio de Lemos Carsalade (Presidente ) Camila Figueiredo Eduardo de Campos Valadares Élder Antônio Sousa Paiva Fausto Borém Lira Córdova Maria Cristina Soares de Gouvêa


Luciano Mendes de Faria Filho

Edição e sociabilidades intelectuais A publicação das obras completas de Rui Barbosa (1930-1949)


Copyright © 2017 Luciano Mendes de Faria Filho Copyright © 2017 Editora UFMG Copyright © 2017 Editora Autêntica Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora e pela Editora UFMG. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia das Editoras.

coordenação editorial

revisão de textos

editora responsável

Camila Figueiredo

Roberta Paiva

Rejane Dias

direitos autorais

montagem de capa

editora assistente

Anne Caroline Silva

Fernando Freitas (sobre caricatura de Rui Barbosa feita por Mirella Spinelli)

Cecília Martins

coordenação de textos

Lira Córdova preparação de textos

diagramação

Waldênia Alvarenga

produção gráfica

Talita Corrêa preparação de apêndice

Warren Marilac

e notas

Maria do Carmo Ribeiro Leite

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Faria Filho, Luciano Mendes de Edição e sociabilidades intelectuais : a publicação das obras completas de Rui Barbosa (1930-1949) / Luciano Mendes de Faria Filho. -- 1. ed. -- Belo Horizonte : Autêntica Editora : Editora UFMG, 2017. Bibliografia. ISBN 978-85-513-0200-2 (Autêntica Editora) ISBN 978-85-423-0199-1 (Editora UFMG) 1. Barbosa, Rui, 1849-1923 - Contribuições em educação 2. Educação Brasil - História 3. Produção editorial 4. Publicação de livros I. Título. 17-02301 CDD-370.981 Índices para catálogo sistemático: 1. Rui Barbosa como pedagogista : Educação : Brasil : História 370.981

Av. Antônio Carlos, 6.627 | CAD II | Bloco III Campus Pampulha | 31270-901 | Belo Horizonte-MG | Brasil Tel.: (55 31) 3409 4650 | Fax: (55 31) 3409 4768 www.editoraufmg.com.br | editora@ufmg.br

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Agradecimentos

Quando comecei a pesquisa que, agora, constituiu este livro, eu não tinha a mínima noção de onde ela me levaria. O que eu tinha eram inícios, intuições, vislumbres que, uma vez objetivados muito mais na fala do que na escrita, eram compartilhados e enriquecidos por um grande número de pessoas com as quais mantive contato ao longo do trabalho. Foi graças à generosidade, à curiosidade e à disponibilidade delas que, em boa parte, este livro ficou pronto. Lá em casa, na nossa Casa, não fosse a grande disponibilidade das mulheres que comigo convivem quotidianamente, a pesquisa e o texto não sairiam. Se não bastasse terem que conversar sobre Rui Barbosa um sem-número de vezes, tiveram também que participar ativamente da feitura da pesquisa e do texto: foi a Isabella quem baixou todos os tomos das Obras Completas de que fiz uso na pesquisa; a Anna Carolina e a Isabel leram e corrigiram o texto; a Alice me convidava sempre e sempre a não perder o fluxo da vida; a Maria José mantinha a casa funcionando. À Isabel devo, ainda, a escuta atenta e respeitosa sobre os rumos da pesquisa e a organização do texto. Foi no interior do Historiar – Ensino, Pesquisa e Extensão em História da Educação, um dos grupos de pesquisa que compõem o Centro de Pesquisa em História da Educação (GEPHE) da Faculdade de Educação da UFMG, que a pesquisa tomou corpo. Foi por meio de uma generosa escuta e ativa interlocução no interior do projeto de pesquisa Moderno, modernidade, modernização: a educação nos projetos de Brasil (1820-1970), desenvolvido por esse grupo, que pude elaborar as interrogações que sustentaram a pesquisa e vislumbrar algumas das possíveis maneiras de respondê-las. A todos, especialmente às minhas orientandas (e ao orientando!), agradeço, também, a compreensão pelas ausências.


Nesse grupo, de forma especial, gostaria de agradecer à Cleide Maciel, pela inestimável colaboração na elaboração das resenhas biográficas apresentadas, como apêndice, no final do livro. Não poderia, também, deixar de agradecer à Alexsandra Borges, que, nos últimos anos, tem contribuído, de maneira ímpar, para que nossos projetos funcionem adequadamente. No Rio de Janeiro, não fosse a acolhida da família do Gondra, da Vânia, do Thales e do Vinicius, não seriam a pesquisa e a estadia na cidade momentos tão confortáveis e produtivos. As nossas saídas, jogos e brincadeiras trouxeram mais leveza e alegria às viagens ao Rio, sensações que ultrapassam em muito o horizonte da pesquisa e que remetem ao fundamental do viver. Do mesmo modo, somente foi possível realizar a pesquisa pelo concurso muito ativo dos(as) funcionários(as) da Sala de Consulta (Leonardo e Cláudio), da Equipe Ruiana (Rejane Magalhães e Laura do Carmo) e do Arquivo da Fundação Casa de Rui Barbosa (Lúcia Maria e Claudia Resende). Esses, de forma profissional, sem deixarem de ser camaradas, não apenas me receberam para a pesquisa, mas me deram muitas instruções e informações que facilitaram o meu trabalho e possibilitaram encontrar documentos que me eram fundamentais. À Rejane e à Laura devo, ainda, algumas das muitas conversas que ajudaram a colocar a pesquisa no eixo. As conversas e a ajuda de Donatila Arruda Câmara e Eduardo Gomes Câmara, filha e filho de José Gomes Bezerra Câmara, foram fundamentais para a localização de documentos e informações sobre um dos principais participantes do projeto político-editorial das Obras Completas de Rui Barbosa. A eles agradeço a disponibilidade e a disponibilização de documentos de que dispunham. À Ângela de Castro Gomes, Márcia Abreu, Marcos Cezar de Freitas, Maria de Lourdes Fávero, José Gondra, Ana Cristina Mignot, Yolanda Lobo, Eneida Maria, Maurilane Biccas, Carlos Cury, Libânia Xavier e Ana Waleska devo a indicação de preciosa bibliografia e algumas conversas muito agradáveis e enriquecedoras para a pesquisa. De modo especial, é necessário lembrar que a professora Lucília Neves acolheu, em primeira mão, o meu Plano de Trabalho para a realização de um estágio pós-doutoral no Departamento de História da UnB. As conversas que tivemos ao longo do período – presenciais


e via mensagens eletrônicas – trouxeram contribuições valiosas sobre os caminhos a serem tomados, os livros a serem lidos, as pessoas a serem consultadas. Para alguém não versado no período sobre o qual se desenvolvia a pesquisa, tal acolhida foi fundamental e definidora do percurso tomado pela investigação. A realização da pesquisa somente foi possível porque eu estava liberado para a realização do estágio pós-doutoral. Isso se deu graças ao apoio das colegas do setor de história da educação do Departamento de Ciências Aplicadas à Educação (DECAE) da FaE/UFMG – Cynthia Greive Veiga e Thaís Fonseca – e do GEPHE. A esse grupo tão especial e competente de pesquisadoras (es) e alun@s devo um agradecimento que ultrapassa em muito, no tempo e na intensidade, a feitura deste livro. À Ana Galvão, ao Marcus Taborda e ao Marcus Vinicius Carvalho agradeço, ainda, as leituras e sugestões. As viagens e alguns dos gastos que tornaram possível a realização da pesquisa tiveram menos impacto no meu orçamento pessoal devido ao apoio financeiro do CNPq e da Fapemig. E assim tem sido desde a iniciação científica, nos anos de 1980, o que me possibilita dizer, com grande certeza, que outro teria sido o meu percurso acadêmico, intelectual e, no conjunto, pessoal, não fosse o fundamental apoio recebido dessas agências ao longo das últimas décadas. Também foram as últimas décadas marcadas pela convivência quase que diária com o amigo Tarcísio Mauro Vago. Sua sensibilidade e escutas sem par estão neste livro de forma indelével. Foi a partir de uma conversa com ele, em dezembro, que pude organizar um primeiro esquema de exposição da pesquisa. As nossas já tradicionais caminhadas pela lagoa da Pampulha foram, também, fundamentais para clarear as ideias e distender o corpo! At last but no least, gostaria de dizer que, talvez como nunca, é justo afirmar que este livro não teria ganhado corpo não fosse a inestimável colaboração da minha amiga Eliane Marta. Por meio de ações as mais variadas – de escuta, de pesquisa, de elaboração, de correção, de ideação, de subversão do tema e da ordem… –, ela se constituiu não apenas em uma interlocutora intelectual privilegiada, mas, sobretudo, numa instigante e cuidadosa companheira na feitura mesma do texto.


Prefácio

A história da edição das obras de Rui Barbosa que este livro nos traz é fascinante e conta com aspectos riquíssimos, aos quais não faltam muitos lances de poder, que podem ajudar na melhor compreensão da cultura, da política e da produção memorialística no Brasil. A trajetória de Rui Barbosa como homem público, recuperada em diferentes variantes, raramente esteve afastada da ênfase no seu trajeto também intelectual e da sua representação como um erudito, um cultor de leituras e livros, à qual não deixou de adicionar sua própria contribuição pessoal. Quando do seu retorno do exílio em 1895, em tempos da presidência de Prudente de Morais, Rui Barbosa recebeu a visita do mais alto representante diplomático da Argentina no Brasil daquele momento, o escritor D. Martín García Mérou, acompanhado do filósofo Tobias Barreto. Ao deixar registrada essa visita no seu livro El Brasil Intelectual, de 1900, Mérou – depois de destacar a conversação amistosa entre ambos, a qual teria versado sobre livros, autores, sucessos históricos, questões diplomáticas, entre outros – acrescenta que Rui lhe teria honrado com uma visita à sua admirável biblioteca, da qual disse ser “a coleção particular mais numerosa e completa que creio existe em Sud América”. Para além dos títulos dos mais ilustres autores ingleses e americanos que não faltavam nas estantes de Rui Barbosa, o que Mérou mais enfatizou é que os livros teriam sido folheados e lidos, tendo deixado suas marcas na obra do publicista e escritor, que conhecia cada um, falava de qualquer um deles e não se enganava do seu lugar nas estantes, tampouco das páginas e dos parágrafos por ele assinalados. Se essas observações ajudaram a corroborar o mito, não importa. O certo é que o registro de Mérou se constituiu em um reforço a mais ao fato de que a biblioteca de Rui Barbosa foi parte complementar da sua tarefa de escritor, que exerceu a escrita de cartas, 11


EDIÇÃO E SOCIABILIDADES INTELECTUAIS

opúsculos, discursos, artigos de jornal e livros de forma compulsiva, e que não vacilou em empregar o tinteiro e a pena frente aos desafios do mundo público no Brasil entre a segunda metade do século XIX e a primeira década do século XX. Não por acaso a decisão de edição de suas obras, que congregou intelectuais, correligionários e também seus familiares, foi precedida da iniciativa, após sua morte em 1923, da transformação da sua casa em museu e depois em museu-biblioteca. Todos esses atos foram políticos, integrantes de um projeto político-cultural com forte carga simbólica, como bem mostra Luciano Mendes neste livro. Com um texto agradável, uma análise cuidadosa, um manuseio teórico rigoroso e criativo aliados a uma pesquisa pioneira, o autor encaminha o livro de forma a mostrar ao leitor como se deu a construção de Rui Barbosa como um “pedagogista brasileiro”. O tema do livro é relevante para a história da educação; para a história do livro, da edição e da leitura; para a história dos intelectuais como grupo e categoria política; para a história intelectual, ou seja, das obras, dos itinerários, dos percursos, das fronteiras disciplinares, bem como dos debates, dos conflitos, de suas mudanças de sentido, como nos lembra Carlos Altamirano. Nessa chave este livro é também relevante para a história política do Brasil. A opção do autor em trabalhar as articulações dos intelectuais envolvidos com a edição das obras de Rui Barbosa pela via aberta pela história intelectual na linha de François Sirinelli, na França, e Ângela de Castro Gomes, no Brasil, foi bem realizada e convence o leitor do seu acerto. Essa escolha conduziu o olhar escrutinador do autor sobre os movimentos feitos por sujeitos de uma história afeitos ao cultivo de experiências e relações em comum, os quais agiram coletivamente na direção da seleção dos títulos de Rui Barbosa; da organização das obras a serem editadas e das decisões sobre sua cronologia e sequência; da preparação e revisão dos originais, incluindo aí seus vários paratextos, como os prefácios e as notas; dos convites a intelectuais de reputação, para colaborarem nas edições de forma a dar densidade e legitimidade ao trabalho editorial proposto e contribuírem para a consagração e reafirmação da importância de Rui Barbosa e do seu legado, então objeto de culto naqueles anos de 1930-1940. O autor não descuidou do exame e da exploração das iniciativas de mobilização no interior 12


Prefácio

das redes de sociabilidade e de amizade às quais pertenciam os intelectuais e demais homens públicos envolvidos com o projeto político e editorial aqui estudado, tampouco dos modos de pensar a educação e as posições frente à escolarização que esses homens compartilharam, mesmo que divergindo. Também são dignos de nota, entre vários outros exemplos, as subversões e os deslocamentos a que o autor submete os seus marcos temporais ao tratar da história, nem um pouco linear, dessa obra monumental de publicação completa da obra de Rui Barbosa, na qual os sujeitos de sua história delinearam eles mesmos os constructos temporais do seu projeto cultural e político, os quais ilustram tão bem o que já foi chamado de cruzamento da experiência e da espera, que é o que esses homens, assim o parece, se puseram a experimentar. Ao longo do texto é possível identificar, sim, algumas das dimensões sugeridas por Sirinelli, e outros, aos praticantes da história intelectual, ainda que nem sempre elas venham qualificadas e explicitadas enquanto tais neste livro. Nem por isso elas deixaram de permeá-lo e dar organicidade ao seu conjunto. Eu me refiro, repetindo, sobretudo, esse autor, a uma dimensão mais arqueológica, com a pesquisa das solidariedades e as estratificações geracionais; a uma dimensão mais geográfica, com a reconstrução dos lugares e das redes de produção e sociabilidade intelectual – a esta o autor dedicou mais esforço –; por fim, à dimensão genealógica, que permite colocar em evidência as relações de filiação, nesse caso, aquelas capazes de religar o presente das edições da obra de Rui ao passado que se queria vivo nas lembranças da atuação de Rui como homem público, de seus escritos sobre educação, capazes de animar projetos para aquele presente. Esse é o caso das disputas retóricas e políticas que envolveram pensadores da educação como José Veríssimo, Lourenço Filho, Fernando Azevedo, Afrânio Peixoto. A estratégia de explorar um pouco mais as redes de sociabilidade intelectual e política nas suas várias dimensões e interações poderia ter sido útil para responder a algumas dúvidas. Um exemplo é o da Academia Brasileira de Letras, cuja inserção e cujo engajamento na publicação das Obras Completas de Rui Barbosa através da presença de dois de seus secretários talvez pudessem ter sido mostrados de forma um pouco mais incisiva, indo além da participação, sem dúvida significativa, dessa dupla colaboração. Afinal fica a pergunta: como a passagem de Rui Barbosa pela ABL, e sua marca na história dessa 13


EDIÇÃO E SOCIABILIDADES INTELECTUAIS

instituição, favoreceu a presença acadêmica nessa rede que o edita via a atuação desses secretários? E qual a atualidade do interesse da ABL na retomada do tema da educação brasileira na obra de Rui Barbosa? O estudo das sociabilidades intelectuais, e das instituições como seus espaços materiais, realizado pelo autor em torno do eixo do projeto da publicação das Obras Completas, evidencia, por sua vez, muito bem o tripé necessário à análise social e cultural dos intelectuais: as formas do recrutamento dos aliados, as estratégias de reconhecimento e os procedimentos de estratificação os quais não ficaram alheios às configurações da sociedade e da cultura do Brasil à época. É bastante ilustrativa a passagem em que Luciano Mendes mostra os laços que Américo Jacobina Lacombe – então diretor da casa de Rui Barbosa e principal artífice da publicação completa das obras de Rui – buscou estreitar com alguns intelectuais de renome, e ocupantes de posições-chave na República das Letras ou no aparelho de Estado, por meio do envio afeiçoado das publicações parciais da obra de Rui então finalizadas. Essa foi uma prática comum, utilizada pela maioria dos intelectuais à época, caso de Oliveira Vianna, que, embora recluso, fazia o mesmo enviando “presentes de papel”, como bem mostra a historiadora Giselle Venâncio ao estudar a biblioteca e as práticas intelectuais desse autor. Também quando explora as contradições de Lacombe na sua relação com um dos seus colaboradores mais dedicados – o revisor das obras de Rui Barbosa, o advogado, José Câmara –, as quais são exemplares de certo padrão de atuação social das nossas elites, marcado pela rigidez e superioridade hierárquica. Essas contradições se revestem de outras formas e significados quando presentes nas ambivalências das posições de Lacombe frente aos comentadores escolhidos para apresentar as várias obras de Rui Barbosa. E esses não foram poucos e incluem homens do naipe de Pedro Calmon, Lúcia Miguel Pereira, Thiers Martins Moreira, Hélio Viana, San Tiago Dantas, Hermes Lima, Lourenço Filho, Austregésilo de Ataíde e inúmeros outros. Afinal a questão aqui é de disputa de autoridade, ou melhor, em torno da leitura autorizada das obras, dada a presença inevitável do exercício da mediação cultural dos prefaciadores que atualizam e atribuem novos e, por vezes, inesperados sentidos e significações aos textos de Rui, além de tentarem disciplinar as interpretações e a correta apropriação da obra. A análise dos prefácios 14


Prefácio

realizada por Luciano Mendes é um dos pontos altos deste livro, que também tem o mérito de, durante todo o tempo, buscar demonstrar os limites, as tensões, as dissonâncias, os contrastes envolvidos com o imenso e trabalhoso projeto editorial articulado em torno das obras de Rui Barbosa. Um exemplo é quando o autor assinala que a mobilização realizada voltada para atualização de Rui Barbosa não se fazia apenas como política de Estado, a qual envolveu, sobretudo, o Ministério da Educação e da Saúde, mas também contra o Estado. Isso se deu em vários embates protagonizados pelos envolvidos com a coordenação do projeto de publicação em torno dos custos de impressão, do preço e da importação de papel, da disponibilização de pessoal dos ministérios para o trabalho de edição, bem como de pesquisa e localização de textos de Rui em diversas instituições e bibliotecas particulares, das verbas para pagamentos dos prefaciadores, dos contratos com a Imprensa Nacional e também na escolha e no acolhimento no interior do projeto, com forte marca estatal, de prefaciadores de posição ideológica contrária ao poder do Estado, a exemplo de Astrogildo Pereira, e da colaboração indireta de Cecília Meireles, entre outros. Nessa linha dos desencontros e enfrentamentos forçam presença no livro as dubiedades, seja de Capanema com os intelectuais, seja entre os próprios intelectuais. Os católicos e os escolanovistas aparecem nesse quesito em um retrato de corpo inteiro, o que não pode ser dito, entretanto, no tocante a outros grupos e outras correlações, como o dos modernistas, por exemplo. Sérgio Buarque de Holanda, Carlos Drummond de Andrade e vários outros, embora lembrados e identificados, ficam em uma zona de sombra, sobretudo porque boa parte dos autores, aliás fundamentais, invocados no livro deixam de lado, nas suas análises sociológicas e políticas, uma questão fundamental: a de que o Estado Novo foi também um projeto intelectual gestado na longa duração e que estava na pauta política e intelectual desde os anos de 1910. Vargas o realizou com apoios, é certo, mas não sem desacordos. As idas e vindas e as disputas em torno da concretização do projeto de edição das Obras Completas de Rui Barbosa que este livro nos traz elucidam muito mais os conflitos e menos a propalada homogeneidade dos projetos do governo e dos intelectuais. É inegável a existência de um ambiente favorável ao projeto de publicação das Obras Completas de Rui Barbosa. Basta que nos lembremos 15


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