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O QUE NOS TROUXE ATÉ AQUI NÃO SERÁ SUFICIENTE
A
suinocultura brasileira conquistou protagonismo mundial. Ciência, sanidade, genética, nutrição, manejo e capacidade empresarial sustentaram esse avanço. Mas a posição alcançada traz uma responsabilidade: compreender que os fatores que nos conduziram até aqui não serão suficientes para sustentar a próxima etapa de crescimento. Essa foi uma das reflexões que apresentei no PorciFórum, realizado no SIAVS 2026. Dentro da porteira, eficiência continua sendo o nome do jogo. Dispomos de conhecimento comparável aos melhores sistemas produtivos. O desafio é convertê-lo em resultado, porque nenhum discurso permanece em pé se não gerar resultado. Eficiência não se resume a produzir mais. Significa fortalecer a biosseguridade, melhorar a conversão alimentar, qualificar pessoas, utilizar dados e reduzir desperdícios. Também significa agregar valor, ampliar a presença da carne suína in natura nos mercados doméstico e internacional e avançar além da competição baseada em carcaças e commodities. Fora da porteira, nossa competitividade continua pressionada por crédito, tributação, trabalho, infraestrutura e logística. São gargalos que não se resolvem apenas com o esforço de produtores e agroindústrias e limitam a transformação da eficiência em investimentos e desenvolvimento. O estudo liderado por Marcelo Miele publicado nesta edição acrescenta outra dimensão ao debate. A suinocultura brasileira combina mercado independente, contratos de comercialização, contratos de produção,
cooperativismo e integração vertical. Cada modelo distribui diferentemente riscos, capital, autonomia e responsabilidades. Essa diversidade confirma que não existe resposta única para realidades produtivas distintas.
EDITOR AGRINEWS PUBLICIDADE Natália Sitanaka +55 19 997755351
O trabalho aponta uma tendência internacional de relações mais formalizadas diante da volatilidade e das exigências de qualidade e rastreabilidade. Para o Brasil, o essencial não é escolher um modelo universal, mas compreender nossas relações produtivas e criar condições para que cada arranjo gere maior competitividade e resiliência.
comercial.suinobrasil@agrinewsgroup.com
Esta revista reúne diferentes partes dessa discussão. Mercado, organização da cadeia, nutrição, reprodução, diagnóstico e sanidade não são assuntos isolados. São decisões que se encontram no resultado e ajudam a definir a capacidade da suinocultura de atravessar os próximos ciclos.
Henrique Cancian
É com esse propósito que a agriNews Brasil constrói espaços qualificados de debate. Em 2026, o PorciFórum estreou no SIAVS. Em outubro, o Pork Pinnacle aprofundará discussões estratégicas da atividade. Em 2027, essas agendas convergirão em Foz do Iguaçu, durante a Pork Expo, conectando conhecimento técnico, estratégia empresarial e os diferentes elos da suinocultura. Não podemos permanecer sentados sobre o sucesso que nos trouxe até aqui. Amadurecer o crescimento significa transformar conhecimento em resultado, enfrentar os gargalos da cadeia e preparar, desde agora, as condições para o próximo ciclo. José Antonio Ribas Jr. Diretor Executivo de Agro e CIEX da Seara/JBS Diretor da agriNews Group
A direção da revista não se responsabiliza pelas opiniões dos autores. Todos os direitos reservados. Imagens: Magnific e Dreamstime.
DIREÇÃO TÉCNICA José Antônio Ribas Jr.
COORDENAÇÃO TÉCNICA E REDAÇÃO Natália Sitanaka suinobrasil@grupoagrinews.com
ANALISTA TÉCNICO
DESIGN Capa: Alan Pio Diagramação: Ariane Leite
COLABORADORES Flavia Stievano de Souza Natália Sitanaka Antônio Leomar Eugênio Tavares Rafaella Fernandes Guilherme Brandt Carnevale Lucas Rocha Valfré Erich Herzogenrath Cavaca Thiago Bernadino Inácio Aline Cristina Sant’Anna Iris Alves de Jesus Luiz Fernando de Souza Bruno Bracco Donatelli Alves Muro Marcelo Miele Cesar A.P.Garbossa Lisa Le Clerc Huillian Zecchin Nobert Potori Carlos Carrijo Robert Hoste Clarice Speridião Silva Neta
ADMINISTRAÇÃO Priscila Beck +55 (15) 9 9682-2274 Rua Dias da Cruz, nº 148, GRP 402 Méier – Rio de Janeiro/RJ CEP: 20720-012 priscila@agrinewsgroup.com www.porcinews.com
Preço da assinatura anual: Brasil 30 $ Internacional 90 $ Periodicidade: trimestral ISSN 2965-4238
1 SuínoBrasil 3º Trimestre 2026
04
Papo de granja: sua granja está pronta para trabalhar em bandas? Antonio Leomar Eugenio Médico veterinário e Gerente de Granja
14
Enriquecimento Ambiental para leitões: da teoria à aplicação nas granjas Lucas Rocha Valfré, Thiago Bernardino, Aline Cristina Sant’Anna
08
Saúde locomotora de matrizes suínas: fatores de risco, nutrição e manejo Clarice Speridião Silva Neta
Grupo de estudos e pesquisa em Etologia e Ecologia Animal (ETCO), Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinária (FACV), Universidade Estadual Paulista ‘’Júlio de Mesquita Filho’’ (UNESP), Jaboticabal, SP, Brasil.
Nutricionista de suínos Agroceres Multimix
porcinews.com
2 suínoBrasil 3º Trimestre 2026
22
Lactação em foco: como a condição corporal das fêmeas suínas determina a produção de leite e o sucesso da leitegada Flavia Stievano de Souza Tavares¹, Rafaella Fernandes Carnevale¹,², Erich Herzogenrath Cavaca¹, Iris Alves de Jesus¹, Bruno Bracco Donatelli Muro¹, Cesar A.P. Garbossa¹ ¹Departamento de Nutrição e Produção Animal, Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, Universidade de São Paulo, Pirassununga - BR ² Faculty of Veterinary Medicine, Ghent University, Ghent - BE
28
46
Huillian Zecchin Médico Veterinário , especialista em Sanidade de Suínos e Mestre em Produção e Nutrição Animal
52
60
Da exigência ao comedouro: nutrição de precisão na suinocultura Dr. Luiz Fernando de Souza Alvez Doutor em Zootecnia
66 36
Opinião do especialista: Leitegadas cada vez mais numerosas: até onde pode chegar o pontecial da fêmea suína? Guilherme Brandt Consultor
Estreia do porciFÓRUM consolida a força da suinocultura no SIAVS Priscila Beck
Leitegadas maiores, leitões menores: onde está o próximo ganho da suinocultura Entrevista
Panorama da Organização na Suinocultura Mundial Marcelo Miele¹, Lisa Le Clerc², Nobert Potori³, Robert Hoste ⁴ ¹Pesquisador da Embrapa Suínos e Aves, Brasil ²Pesquisadora no Instituto do Porco, IFIP, França ³Diretor do Instituto de Economia Agrícola, AKI, Hungria ⁴Economista Sênior da Universidade de Wageningen, Países Baixos
Streptococcus suis sorotipo 9: Desafios e estratégias de controle
72
Saúde da matriz suína: uma visão sistêmica Carlos Carrijo Médico Veterinário
3 suínoBrasil 3º Trimestre 2026
Papo de granja
SUA GRANJA ESTÁ PRONTA PARA TRABALHAR EM BANDAS?
Sistemas de produção
Antônio Leomar Eugênio Médico-veterinário, gerente na Granja 5 Estrelas, consultor técnico em suinocultura e sócio da Pig3 Consultoria
O sistema em bandas costuma ser apresentado por seus benefícios. Mas qual é a primeira pergunta que o gestor deveria responder antes de decidir implantá-lo?
Antônio Leomar Eugênio,
Antes de pensar nos benefícios, o gestor precisa
médico-veterinário, gerente
entender qual é a necessidade da granja de
na Granja 5 Estrelas, consultor
migrar do fluxo semanal para o sistema em
técnico em suinocultura e sócio
bandas.
da Pig3 Consultoria, explica o que precisa ser avaliado antes de mudar o fluxo semanal para o manejo em bandas e porque estrutura, dimensionamento, reposição e pessoas podem definir o sucesso ou o fracasso da implantação.
Ou seja: quais problemas queremos resolver e quais ganhos esperamos obter com essa mudança?
4 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Papo de Granja: sua granja está pronta para trabalhar em bandas?
O que precisa ser dimensionado conjuntamente para que o calendário não
O manejo em bandas é uma
entre em conflito com a capacidade das
ferramenta que pode ser utilizada
maternidades, da creche, da reposição e
tanto em granjas menores quanto em sistemas de maior escala. Hoje, na minha gestão, trabalhamos com aproximadamente 500 matrizes, mas é perfeitamente possível aplicar o sistema em granjas maiores, por exemplo, com 1.500 a 2.000 matrizes.
da equipe? Um dos pontos que não pode ser negligenciado é o alvo de cobertura. Neste sistema, a banda é dimensionada de acordo com a capacidade das instalações, principalmente da maternidade.
dimensionado de acordo com a realidade e os objetivos de cada granja.
Se, em determinado momento, fizermos um número de coberturas muito acima da capacidade da maternidade, teremos um problema algumas semanas depois, quando essas fêmeas chegarem ao parto.
Quais características da granja podem tornar a mudança inviável ou mais arriscada — mesmo quando o modelo parece tecnicamente interessante?
Por isso, é necessário olhar o sistema como um todo: número de fêmeas, taxa de parto, capacidade da maternidade, creche, reposição
Um dos principais pontos é a equipe.
e disponibilidade de mão de obra.
Não adianta o sistema ser tecnicamente
O calendário precisa ser construído
adequado se as pessoas que estão na
considerando a capacidade real da
operação não comprarem a ideia ou não estiverem
granja, e não apenas a meta produtiva.
preparadas para executar os novos manejos. Antes da mudança, é fundamental conversar com a equipe, entender o nível de conhecimento, avaliar o comprometimento e identificar se as pessoas estão aptas a trabalhar dentro da nova rotina. O manejo em
Pela sua experiência na operação, onde esses projetos mais falham: no desenho técnico ou na capacidade de manter disciplina e execução ao longo do tempo?
bandas muda a dinâmica da granja e exige Eu diria que o primeiro grande desafio está no
organização e disciplina.
desenho da implantação: definir qual intervalo de Por isso, eu considero que a preparação da equipe deve estar entre as primeiras etapas do
bandas será utilizado e como será feita a migração do sistema semanal para o sistema em bandas.
projeto.
5 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Papo de Granja: sua granja está pronta para trabalhar em bandas?
Sistemas de produção
O importante é que o modelo seja
Depois da implantação, quais indicadores revelam rapidamente que o fluxo melhorou e quais os principais pontos de
É preciso planejar se a transição será natural, mista ou artificial e entender as consequências de cada estratégia para o fluxo da granja.
atenção para que o sistema funcione?
Em relação aos indicadores que revelam rapidamente uma melhora no sistema, eu destacaria, em primeiro lugar, os indicadores sanitários, principalmente na maternidade.
Quando você sai de um fluxo semanal e passa a trabalhar em bandas, seja de Depois que o sistema é implantado, outro ponto crítico é a continuidade do
Sistemas de produção
planejamento, principalmente em relação à reposição. No sistema semanal, temos
14, 21 dias ou outro intervalo, é possível perceber uma melhora significativa no status sanitário da granja, especialmente da maternidade, já nas primeiras bandas.
uma determinada necessidade de leitoas a cada semana. Quando passamos para uma banda de 21 dias, por exemplo, essa programação muda completamente.
O segundo ponto é a organização do trabalho. No fluxo semanal, todos
Por isso, não podemos falhar no
os manejos reprodutivos acontecem
planejamento e na preparação das leitoas.
praticamente toda semana: temos parto,
Uma falha na reposição pode comprometer
desmame e cobertura de forma contínua.
todo o fluxo das bandas e gerar reflexos por
Quando migramos, por exemplo, para
vários ciclos.
uma banda de 21 dias, essa rotina fica mais organizada e os manejos passam a ser concentrados. Em uma semana, você tem partos; na seguinte, coberturas; e na outra, desmame. Isso reduz a sobreposição de atividades e permite uma organização muito maior da equipe e da rotina da granja.
6 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Papo de Granja: sua granja está pronta para trabalhar em bandas?
Por outro lado, um ponto crucial após a mudança — e que não pode ser negligenciado — é o manejo reprodutivo. O fluxo de entrada de leitoas e a organização das coberturas precisam ser muito bem planejados, porque funcionam de maneira completamente diferente do sistema semanal. No fluxo semanal, existe uma certa coberturas em uma semana e fazemos 90, por exemplo, podemos acabar compensando na semana seguinte, realizando 110. Não é o ideal, mas o sistema semanal permite essa compensação.
Para finalizar, qual mensagem você deixaria para o produtor que está pensando em adotar o manejo em bandas?
Sistemas de produção
flexibilidade. Se o alvo é realizar 100
Eu vejo o manejo em bandas como mais uma ferramenta que o produtor pode utilizar para melhorar a eficiência da No manejo em bandas, principalmente em um intervalo de 21 dias, essa flexibilidade praticamente desaparece. É preciso trabalhar muito próximo do alvo de cobertura de cada banda.
granja. Mas não existe um modelo único que funcione da mesma maneira para todas as propriedades. É preciso avaliar a estrutura, o dimensionamento, os objetivos e, principalmente, as pessoas que vão
Por isso, o planejamento
executar esse sistema.
reprodutivo, o fluxo de entrada de leitoas e a programação das
Quando bem planejado e executado, o manejo
coberturas são fundamentais para
em bandas pode contribuir para melhorar o
que a granja não apenas mude o
desempenho, organizar o trabalho da equipe e
calendário, mas realmente obtenha
favorecer a sanidade do plantel. Mas o sucesso
os ganhos esperados com o sistema
começa antes da mudança do calendário:
em bandas.
começa no planejamento da granja e na preparação das pessoas.
Papo de Granja: sua granja está pronta para trabalhar em bandas?
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7 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Papo de Granja: sua granja está pronta para trabalhar em bandas?
Fêmeas suínas
SAÚDE LOCOMOTORA DE MATRIZES SUÍNAS: FATORES DE RISCO, NUTRIÇÃO E MANEJO Clarice Speridião Silva Neta Nutricionista de suínos na Agroceres Multimix
A
saúde do aparelho locomotor é
Essa combinação faz com que alterações
um dos pontos críticos para a
nos cascos, membros e articulações possam
longevidade e a produtividade das
comprometer a movimentação, o acesso
matrizes suínas. Em sistemas intensivos, as
à água e à alimentação e, consequentemente,
fêmeas apresentam elevado peso corporal
a produtividade e a permanência da fêmea no
e são mantidas sobre pisos com diferentes
plantel.
características de dureza, abrasividade, umidade e capacidade de drenagem. Ao mesmo tempo, os cascos possuem pequena área de contato para suportar esse peso.
Dessa forma, a saúde locomotora deve ser entendida como resultado da interação entre genética, crescimento, nutrição, alojamento e ambiente (KRAMER et al., 2024;
ENGILES et al., 2022).
8 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Saúde locomotora de matrizes suínas: fatores de risco, nutrição e manejo
A ocorrência de lesões de casco merece atenção especial. Em estudo realizado em 129 rebanhos comerciais brasileiros, envolvendo 12.364 matrizes avaliadas entre 2013 e 2023, Kramer et al.
(2024) observaram que o crescimento e a erosão da almofada plantar apresentaram a maior prevalência, seguidos pelas lesões da linha branca e rachaduras horizontais da parede do casco.
A distribuição do peso entre os membros também deve ser considerada, uma vez que as unhas laterais dos membros posteriores estão submetidas a maior carga, o que pode contribuir para a maior ocorrência de lesões nessa região. O ambiente exerce papel importante na manutenção da integridade dos cascos. Piso excessivamente abrasivo, escorregadio, irregular ou úmido, além de falhas de limpeza e drenagem, pode favorecer a ocorrência de lesões.
Os autores também verificaram sistema de produção, à paridade e ao alojamento durante a gestação, reforçando o caráter multifatorial da saúde dos cascos
(KRAMER et al., 2024).
Em sistemas de gestação coletiva, a movimentação e as interações sociais também
Fêmeas suínas
influência de fatores relacionados ao
devem ser consideradas. No entanto, os efeitos do sistema de alojamento não são uniformes. Em estudo conduzido em rebanhos comerciais brasileiros, matrizes alojadas em grupo durante a gestação
Principais alterações e fatores de risco
apresentaram menor índice global de lesões de casco em comparação às mantidas individualmente, embora os
Entre as alterações mais observadas estão o crescimento excessivo e a erosão da almofada plantar, rachaduras de parede, lesões de linha branca, rachaduras de sola, bem como o sobre
próprios autores ressaltem a necessidade de novas avaliações para confirmar essa relação em diferentes condições de produção (KRAMER et al., 2024).
crescimento das unhas. Essas lesões podem provocar dor, inflamação e claudicação, principalmente quando atingem estruturas mais profundas ou apresentam infecção secundária.
Assim, recomenda-se avaliar o conjunto de fatores presentes na granja, evitando atribuir a ocorrência de claudicação ou lesões a um único elemento.
9 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Saúde locomotora de matrizes suínas: fatores de risco, nutrição e manejo
Nutrição e formação da futura matriz A prevenção dos problemas locomotores começa antes da entrada da leitoa no plantel. A formação corporal equilibrada desde a fase fetal e, posteriormente, durante a recria é fundamental para que o desenvolvimento muscular ocorra de forma compatível com o crescimento das estruturas ósseas, articulares e dos cascos.
A biotina também apresenta importante participação na formação dos tecidos queratinizados. Entretanto, o efeito da nutrição deve ser interpretado dentro do equilíbrio da dieta, uma vez que a integridade do casco resulta da interação entre nutrição, genética, crescimento e condições ambientais (KRAMER et al., 2024;
PIERDON; PARSONS, 2026).
Fêmeas suínas
Dessa forma, a nutrição deve acompanhar o potencial genético do animal, com atenção ao fornecimento
Estudos recentes reforçam a relação
de energia, proteína, vitaminas e
entre saúde locomotora, integridade dos
minerais e, principalmente, à taxa de
cascos e longevidade das matrizes. Rohrer
crescimento ao longo da formação da
et al. (2025), avaliando mais de 3.600 leitoas,
futura matriz.
demonstraram que medidas objetivas de mobilidade e características relacionadas à estrutura dos membros podem auxiliar na
Entre os nutrientes relacionados à integridade do aparelho locomotor, destacam-se cálcio, fósforo, zinco, cobre, manganês, aminoácidos sulfurados e vitaminas envolvidas na diferenciação celular e na queratinização.
O zinco, o cobre e o manganês participam de processos relacionados à formação e manutenção dos tecidos córneos, enquanto cálcio e fósforo são fundamentais para a mineralização óssea.
identificação de animais com maior risco de apresentar problemas locomotores, por exemplo.
Esses resultados reforçam a importância de acompanhar a estrutura locomotora ainda durante a formação das futuras reprodutoras.
Do ponto de vista nutricional, evidências recentes indicam que a fonte dos microminerais pode influenciar alguns aspectos da integridade dos cascos, embora os resultados não sejam uniformes para todos os indicadores.
10 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Saúde locomotora de matrizes suínas: fatores de risco, nutrição e manejo
Em estudo longitudinal publicado por Pierdon e
Parsons (2026), a substituição parcial de fontes inorgânicas por fontes orgânicas de zinco, cobre e manganês reduziu a probabilidade de lesões e a perda de peso durante a lactação, mas não alterou a ocorrência de claudicação ou a longevidade das matrizes. Esses resultados reforçam o potencial da estratégia nutricional, mas também demonstram que seus efeitos devem ser avaliados de acordo com o tipo de lesão e as condições de produção. Resultados anteriores em matrizes hiperprolíficas também demonstraram
Fêmeas suínas
que a substituição parcial de fontes inorgânicas por fontes orgânicas de Zn, Cu e Mn pode modificar respostas relacionadas ao metabolismo mineral e ao desempenho das fêmeas e de suas leitegadas. Entretanto, esses resultados não devem ser extrapolados diretamente para a saúde locomotora, reforçando a necessidade de avaliar cada estratégia nutricional de acordo com o objetivo proposto (SOLÀ-ORIOL et al., 2021).
11 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Saúde locomotora de matrizes suínas: fatores de risco, nutrição e manejo
O que podemos fazer na prática para prevenir problemas locomotores? Monitorar rotineiramente a locomoção, a condição dos cascos e as lesões dos membros, estabelecendo critérios de intervenção antes da evolução para quadros mais severos; Avaliar as condições do piso, considerando umidade, abrasividade, limpeza, drenagem e presença de irregularidades, relacionando esses fatores ao padrão de lesões observado no rebanho;
Fêmeas suínas
Na recria, controlar a taxa de crescimento e garantir o atendimento das necessidades de minerais, vitaminas e aminoácidos, considerando o objetivo de formar uma futura matriz estruturalmente adequada; Revisar o programa mineral considerando fonte, nível e equilíbrio entre os nutrientes; Registrar as lesões por tipo, severidade, idade/paridade e localização, permitindo identificar padrões do rebanho e direcionar as medidas corretivas; Considerar a claudicação como uma condição multifatorial. Quando o problema estiver presente, devem ser investigados simultaneamente casco, articulações, piso, alojamento, manejo, nutrição e possíveis causas infecciosas.
A saúde locomotora das matrizes é resultado da interação entre nutrição, genética, manejo, alojamento e condições ambientais. A prevenção e o monitoramento contínuo das lesões são fundamentais para reduzir impactos sobre a produtividade, longevidade e bem-estar das fêmeas. Assim, estratégias integradas e direcionadas às condições de cada rebanho são essenciais para a manutenção de matrizes saudáveis e produtivas.
Saúde locomotora de matrizes suínas: fatores de risco, nutrição e manejo
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12 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Saúde locomotora de matrizes suínas: fatores de risco, nutrição e manejo
ENRIQUECIMENTO AMBIENTAL PARA LEITÕES: DA TEORIA À APLICAÇÃO NAS GRANJAS
Bem estar
Lucas Rocha Valfré; Thiago Bernardino e Aline Cristina Sant’Anna Grupo de Estudos e Pesquisas em Etologia e Ecologia Animal (ETCO), Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV), Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Jaboticabal, SP, Brasil.
A
suinocultura moderna evoluiu significativamente nas últimas décadas, e o bem-estar animal passou a ocupar
papel central nos sistemas de produção. Nesse contexto, o enriquecimento ambiental
No Brasil, a Instrução Normativa nº
deixou de ser uma prática complementar
113/2020 do Ministério da Agricultura
e tornou-se uma estratégia essencial para
e Pecuária (MAPA) estabelece a oferta
permitir a expressão dos comportamentos
de materiais manipuláveis ou outras
naturais dos suínos e promover
formas de enriquecimento ambiental nas
comportamentos e emoções positivas.
granjas comerciais (Brasil, 2020).
14 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Enriquecimento ambiental para leitões: da teoria à aplicação nas granjas
Entretanto, sua eficácia depende da escolha dos materiais, da forma de disponibilização e da renovação periódica, fatores fundamentais para manter o interesse dos suínos (Beaudoin et al., 2019;
Clark et al., 2023; Valfré et al., 2026). Essa estratégia é especialmente importante no período pós-desmame, quando os leitões enfrentam mudanças na alimentação, no ambiente e na composição
O que já sabemos sobre o enriquecimento para leitões? Por que alguns objetos funcionam melhor que outros?
social, tornando-se mais suscetíveis ao
Nem todo material utilizado como
estresse e aumentando a manifestação de
enriquecimento desperta o mesmo
comportamentos indesejáveis.
interesse dos leitões. Objetos manipuláveis, mastigáveis, deformáveis e parcialmente
enriquecimento bem planejados estimulam a exploração, reduzem agressões e mordeduras, favorecem a adaptação dos animais e promovem melhorias consistentes no bem-estar (Luo et al.,
2020; Oliveira et al., 2023; Lee et al., 2025; Hasan et al., 2026).
destrutíveis estimulam melhor o comportamento exploratório e permanecem atrativos por mais tempo, enquanto materiais rígidos ou pouco interativos tendem a perder rapidamente sua
Bem estar
Estudos demonstram que programas de
eficácia (Beaudoin et al., 2019). Isso ocorre porque os suínos, em condições naturais, exploram o ambiente
Neste artigo, reunimos as principais
principalmente com o focinho e a boca,
evidências científicas recentes e
manipulando e modificando os materiais
apresentamos recomendações práticas
durante a interação (Kuczaj, 2002).
para auxiliar produtores, técnicos, médicos-veterinários e zootecnistas
Entre os diferentes tipos de
na implementação de programas de
enriquecimento, a palha é considerada o
enriquecimento ambiental para leitões
padrão-ouro para suínos, pois permite que
em granjas comerciais.
os animais expressem um amplo repertório de comportamentos naturais, como fuçar, mastigar, revirar e manipular o material, mantendo o interesse por longos períodos. Entretanto, seu uso em granjas comerciais ainda é limitado por questões relacionadas ao manejo, à higiene, ao sistema de piso ripado e ao manejo dos dejetos, tornando necessária a utilização de alternativas mais compatíveis com a realidade da produção intensiva.
15 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Enriquecimento ambiental para leitões: da teoria à aplicação nas granjas
Além das características do material, fatores como altura de instalação,
A Tabela 1 resume as principais características
facilidade de acesso, limpeza, quantidade
dos materiais mais utilizados como
de objetos disponíveis e renovação
enriquecimento ambiental, destacando
periódica também influenciam diretamente
atributos que influenciam sua atratividade e
a utilização do enriquecimento pelos leitões
potencial para estimular o comportamento
(Beaudoin et al., 2019).
exploratório.
Bem estar
Tabela 1. Características dos principais materiais utilizados como enriquecimento ambiental.
Material
Maleabilidade
Mastigabilidade
Durabilidade
Atratividade
Correntes metálicas
Média
Baixa
Alta
Média
Corda de sisal
Alta
Alta
Média
Alta
Madeira
Alta
Alta
Baixa
Alta
Mangueira de borracha
Alta
Média
Alta
Alta
Palha/Feno
Muito alta
Alta
Baixa
Muito alta
Fonte: Adaptada de Beaudoin et al. (2019); Hasan et al. (2026).
Como evitar que os animais percam o interesse? Disponibilizar um objeto de enriquecimento é apenas o primeiro passo. Com o tempo, os leitões podem se habituar aos materiais, reduzindo gradativamente o interesse e a interação e, consequentemente, os benefícios do enriquecimento ambiental.
Estudos em sistemas comerciais mostram que objetos mantidos continuamente na baia tendem a perder atratividade, enquanto a renovação ou alternância periódica dos materiais prolonga o interesse dos animais e estimula a exploração (Vargas et al., 2021; Clark et al., 2023). Assim, além da escolha de objetos adequados, o sucesso do enriquecimento
Esse processo ocorre porque o caráter
depende de um manejo que mantenha os
de novidade diminui, assim como a
estímulos atrativos ao longo do período
motivação para explorar o ambiente e os
de creche.
objetos (Kuczaj, 2002).
16 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Enriquecimento ambiental para leitões: da teoria à aplicação nas granjas
O que priorizar: a diversidade de itens ou a quantidade de um mesmo item? Uma dúvida frequente é se é mais interessante para os animais oferecer muitos objetos iguais ou diferentes tipos de enriquecimento.
Como consequência, os animais passam mais tempo explorando o ambiente e
As evidências indicam que a diversidade de estímulos é mais eficiente do que aumentar a quantidade de um único material, pois amplia as possibilidades de exploração, reduz a monotonia e mantém o interesse dos leitões por mais tempo
menos tempo realizando comportamentos associados à frustração, ao estresse e às interações agonísticas, contribuindo para um ambiente social mais estável e com menor prevalência de lesões (Lee et al., 2025;
Oliveira et al., 2023; Luo et al., 2020).
Além disso, materiais apresentam diferentes níveis de atratividade e desgaste, tornando necessária sua renovação periódica para preservar a eficácia do programa (Clark et al.,
2023). Na prática, a combinação de objetos também favorece uma distribuição mais homogênea da interação entre os animais e reduz disputas pelo mesmo recurso.
Além do comportamento, o que mais pode haver de benefícios para os leitões? Os benefícios do enriquecimento ambiental vão além da redução de comportamentos indesejáveis. Evidências científicas mostram que programas bem planejados podem favorecer a adaptação dos leitões ao período pós-desmame, reduzir a ocorrência de lesões decorrentes de agressões, estimular comportamentos positivos, como a brincadeira, e contribuir para uma melhor
Como o enriquecimento melhora o bem-estar dos leitões?
qualidade de vida dos animais (Steinerova et al., 2024). Em algumas situações, esses efeitos também podem refletir em melhores
O enriquecimento ambiental promove benefícios que vão além da ocupação dos animais. Programas bem planejados estimulam a expressão de comportamentos naturais, reduzem
condições de saúde e desempenho produtivo, embora os resultados dependam das características do sistema de produção e da estratégia de enriquecimento adotada.
agressões, mordeduras e outros comportamentos prejudiciais, além de favorecerem uma melhor adaptação dos leitões ao período pós-desmame
(Beaudoin et al., 2019; Hasan et al., 2026).
17 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Enriquecimento ambiental para leitões: da teoria à aplicação nas granjas
Bem estar
(Beaudoin et al., 2019).
Essas evidências reforçam que o enriquecimento ambiental deve ser encarado como uma ferramenta de manejo capaz de promover benefícios para os animais e também para a granja, contribuindo para sistemas de produção mais sustentáveis e alinhados às exigências atuais de bem-estar animal.
Quais os benefícios do enriquecimento para a granja como um todo? Os benefícios do enriquecimento ambiental vão além do bem-estar dos leitões. Ao reduzir
Bem estar
comportamentos indesejados, contribui para
Se há diversos benefícios, por que a implementação do enriquecimento nas granjas ainda é desafiadora? Apesar dos benefícios do enriquecimento ambiental, sua implementação em granjas comerciais ainda enfrenta desafios práticos. O uso de materiais orgânicos, como palha e feno, considerados o padrão-ouro para suínos, é limitado em sistemas com piso ripado, pois pode obstruir a drenagem de dejetos, dificultar o manejo e aumentar a necessidade de manutenção das instalações
(Beaudoin et al., 2019; Hasan et al., 2026).
diminuir lesões, melhorar a uniformidade dos
Outro desafio é a rotina operacional da granja.
lotes e reduzir perdas associadas a problemas
Programas eficientes exigem inspeção, limpeza
comportamentais.
e substituição periódica dos materiais para evitar a habituação e manter o interesse dos
Além disso, sua adoção reforça o
leitões.
compromisso da granja com práticas sustentáveis e com os padrões de bem-
Além disso, objetos contaminados por
estar exigidos por consumidores e
fezes ou urina perdem rapidamente sua
mercados (Brasil, 2020).
atratividade e podem comprometer a biossegurança quando não são manejados adequadamente (Clark et al.,
Assim, o enriquecimento ambiental deve ser visto não como um custo, mas como um investimento na qualidade ética, na sustentabilidade e na eficiência da produção, sendo esses requisitos fundamentais para a produção animal contemporânea.
2023; Vargas et al., 2021). Por isso, o sucesso do enriquecimento ambiental depende da escolha de materiais compatíveis com a infraestrutura da granja e de um manejo que equilibre bem-estar animal, viabilidade operacional e custo-benefício.
Mais do que oferecer objetos, é essencial manter os estímulos atrativos e seguros ao longo de todo o período de creche (Beaudoin et al., 2019; Clark et al., 2023).
18 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Enriquecimento ambiental para leitões: da teoria à aplicação nas granjas
Recomendações práticas para implantação nas granjas O sucesso de um programa de enriquecimento ambiental depende da
Além disso, a renovação periódica dos
qualidade do planejamento e do manejo,
estímulos reduz a habituação, enquanto a
e não apenas da quantidade de objetos
combinação de diferentes materiais amplia
disponíveis.
as oportunidades de exploração e favorece o bem-estar dos animais (Kuczaj, 2002; Vargas et al., 2021;
A escolha de materiais adequados, sua correta
Hasan et al., 2026).
distribuição, a manutenção da atratividade e o monitoramento contínuo do comportamento dos
Alguns exemplos de tipos de itens e materiais
leitões são fundamentais para garantir resultados
que podem ser usados como enriquecimento
duradouros (Beaudoin et al., 2019; Clark et al., 2023).
na fase de creche são: (Tabela 2).
Tipo de material
Exemplos
Principais características
Referência
Correntes metálicas ou plásticas
Correntes suspensas simples ou ramificadas
Duráveis, de fácil instalação, estimulam manipulação oral e tátil
Beaudoin et al. (2019); Oliveira et al. (2023); Valfre et al. (2026)
Cordas de fibras naturais
Sisal, algodão, cânhamo
Mastigáveis, deformáveis e atrativas; exigem substituição periódica
Beaudoin et al. (2019); Clark et al. (2023); Valfre et al. (2026)
Mangueiras de borracha
Mangueiras flexíveis suspensas
Resistentes, deformáveis e de fácil higienização
Oliveira et al. (2023); Hasan et al. (2026)
Madeira
Blocos, toras ou tábuas de madeira macia
Permitem mastigação e desgaste gradual
Beaudoin et al. (2019); Hasan et al. (2026)
Materiais orgânicos
Palha e feno
Considerados o padrão-ouro por favorecerem fuçar, mastigar e explorar; uso limitado em pisos ripados
Beaudoin et al. (2019); Hasan et al. (2026)
Objetos de PVC
Tubos e dispositivos manipuláveis
Alta durabilidade, fácil limpeza e adaptação às instalações
Oliveira et al. (2023); Valfre et al. (2026)
Brinquedos de borracha
Bolas e objetos suspensos
Favorecem exploração e manipulação quando associados a outros materiais
Lee et al. (2025)
Combinação de materiais
Correntes + cordas + madeira + mangueiras
A diversidade de objetos aumenta o engajamento e reduz a monotonia do ambiente
Clark et al. (2023); Hasan et al. (2026); Valfre et al. (2026)
19 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Enriquecimento ambiental para leitões: da teoria à aplicação nas granjas
Bem estar
Tabela 2. Exemplos de materiais utilizados como enriquecimento ambiental para leitões descritos na literatura científica.
Cinco passos para implantar um programa eficiente de enriquecimento ambiental
01 02
Bem estar
03
Escolha materiais apropriados: priorize objetos manipuláveis, mastigáveis, deformáveis, seguros e acessíveis aos leitões (Beaudoin et al., 2019). Ofereça diversidade: combine diferentes materiais para ampliar a exploração e reduzir a monotonia (Hasan et al., 2026). Mantenha os materiais limpos: objetos sujos ou desgastados perdem rapidamente sua atratividade (Beaudoin et al., 2019; Clark et al., 2023).
04
Renove periodicamente os estímulos: alterne ou substitua os objetos para reduzir a habituação e manter o interesse dos animais (Vargas et al., 2021; Clark et al., 2023).
05
Observe o comportamento dos leitões: a interação frequente com os objetos é o principal indicador da eficiência do programa e orienta possíveis ajustes.
Erros mais comuns na utilização do enriquecimento ambiental Embora o enriquecimento ambiental seja de fácil implementação, alguns equívocos comprometem sua eficácia. O uso de materiais pouco atrativos reduz o interesse exploratório dos leitões (Beaudoin
et al., 2019), enquanto a permanência do mesmo objeto por longos períodos favorece a habituação e diminui sua utilização ao longo do tempo (Vargas et al.,
2021; Clark et al., 2023). Além disso, a oferta insuficiente de objetos pode aumentar a competição entre os animais, podendo aumentar comportamentos agonísticos e lesões nos animais. Por isso, o enriquecimento deve ser continuamente monitorado e ajustado de acordo com a resposta comportamental dos leitões.
Na prática, diferentes materiais podem ser utilizados como enriquecimento ambiental,
Perspectivas futuras
desde que sejam seguros, acessíveis e capazes de estimular a exploração dos leitões. A Figura 1 apresenta alguns exemplos de dispositivos empregados em sistemas comerciais.
A avaliação do enriquecimento ambiental tem evoluído, incorporando indicadores comportamentais, cognitivos, fisiológicos e produtivos que permitem uma compreensão mais ampla do bem-estar animal. Esse avanço tem fortalecido o desenvolvimento de
Figura 1. Implantação prática do enriquecimento ambiental na creche. ( A ) Corrente ramificada; ( B ) Dispositivo de PVC com mangueiras; ( C ) Corda de sisal. Fonte: Valfré et al. (2026).
programas cada vez mais baseados em evidências científicas, capazes de promover sistemas de produção mais sustentáveis, eficientes e éticos, alinhados às crescentes demandas da sociedade.
20 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Enriquecimento ambiental para leitões: da teoria à aplicação nas granjas
Conclusão
Na prática, programas de enriquecimento
O enriquecimento ambiental é uma estratégia fundamental para promover o bem-estar de leitões em sistemas intensivos de produção, indo além do cumprimento das exigências legais.
bem estruturados devem fazer parte da rotina de manejo das granjas, com escolha criteriosa dos materiais, monitoramento contínuo da interação dos animais e renovação periódica dos estímulos para evitar a habituação.
Quando planejado com materiais e renovação periódica, o uso do enriquecimento ambiental favorece a expressão dos comportamentos naturais, reduz comportamentos indesejáveis e melhora a adaptação dos animais no período pós-desmame, um período conhecidamente estressante para os leitões. Portanto, a adoção de tal estratégia contribui para um ambiente de criação mais compatível com as necessidades da espécie.
Dessa forma, o enriquecimento deixa de ser apenas uma exigência normativa e passa a representar um investimento em bem-estar animal, sustentabilidade e eficiência produtiva, trazendo benefícios tanto para os leitões quanto para a produção.
Enriquecimento ambiental para leitões: da teoria à aplicação nas granjas
Bem estar
adequados, diversidade de estímulos
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Referências sob consulta janto ao autor
21 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Enriquecimento ambiental para leitões: da teoria à aplicação nas granjas
LACTAÇÃO EM FOCO:
Fêmeas
COMO A CONDIÇÃO CORPORAL DAS FÊMEAS SUÍNAS DETERMINA A PRODUÇÃO DE LEITE E O SUCESSO DA LEITEGADA Flávia Stievano de Souza Tavares¹, Rafaella Fernandes Carnevale¹,², Erich Herzogenrath Cavaca Inácio¹, Iris Alves de Jesus¹, Bruno Bracco Donatelli Muro¹, Cesar A. P. Garbossa¹ ¹Departamento de Nutrição e Produção Animal, Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, Universidade de São Paulo, Pirassununga – BR; ²Faculty of Veterinary Medicine, Ghent University, Ghent - BE.
A
condição corporal das matrizes suínas é um indicador de seu estado nutricional e metabólico,
diretamente relacionada aos resultados produtivos e reprodutivos, desde a função ovariana, até o peso ao nascimento dos leitões e posterior produção leiteira (Muro et al., 2023).
Considerando que o leite é a principal fonte de energia e nutrientes para os leitões durante a fase inicial da vida (Schenkel et al., 2010), sua qualidade e quantidade são determinantes críticos para a sobrevivência e desempenho da leitegada
Assim, reflete a quantidade de reservas
(Klobasa et al., 1987), podendo ser modulados
corporais que podem ser mobilizadas para
pelo estado metabólico das porcas
atender períodos de elevada demanda
(Costermans et al., 2020).
energética, como a lactação (Muro et al., 2023).
22 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Lactação em foco: Como a condição corporal das fêmeas suínas determina a produção de leite e o sucesso da leitegada
Diante disso, este artigo discute como variações na condição corporal das fêmeas suínas impactam a produção e composição do leite, resultando em repercussões no crescimento e uniformidade dos leitões.
No que se refere às matrizes, a produção de leite pode representar até 80% de suas exigências nutricionais durante a lactação (De
Bettio et al., 2016), sendo essas demandas Em sistemas modernos de produção,
ainda mais intensificadas à medida
caracterizados pelo aumento do tamanho
que aumenta o número de leitões
das leitegadas decorrente do avanço
desmamados (Costermans et al., 2020).
genético, observa-se também uma maior pressão sobre a sobrevivência
Entretanto, a seleção genética voltada à
neonatal, com incremento nas taxas de
eficiência alimentar tem sido associada
mortalidade.
à redução do consumo voluntário de ração (Bergsma et al., 2009), tornando a ingestão
de manejo sanitário mais eficientes, a produção de
frequentemente insuficiente para sustentar a síntese láctea.
leite tem sido apontada como um dos principais fatores limitantes do crescimento, desenvolvimento e sobrevivência dos leitões (Gu e Li, 2003).
Como consequência, ocorre a mobilização de reservas corporais para
Hojgaard et al. (2020) demonstram que tanto o volume
suprir o déficit energético (Schenkel et
quanto a composição do leite materno exercem
al., 2010; Costermans et al., 2020). Quando a
efeito direto sobre o ganho de peso da leitegada
energia metabolizável proveniente da
até o desmame, sendo a taxa de crescimento
dieta e da mobilização dessas reservas
durante a lactação amplamente explicada pela
não atende às exigências da fêmea,
ingestão de leite.
observam-se prejuízos no crescimento e desenvolvimento da leitegada.
Adicionalmente, leitões com maior consumo de leite apresentam maior
Dessa forma, o manejo nutricional voltado
deposição de gordura corporal e maior
à obtenção de uma condição corporal ideal
peso ao desmame, características que se
das matrizes ao parto é fundamental para a
refletem em maior consumo de ração e
rentabilidade da produção suinícola, estando
melhor desempenho na fase de creche.
relacionado ao aumento da sobrevivência
Como consequência, esses animais
dos leitões (Farmer, 2022), retorno à atividade
também apresentam redução no tempo
reprodutiva após o desmame (Schenkel et
necessário para atingir o peso de abate,
al., 2010) e maior longevidade das fêmeas (Monteiro et al., 2025)
estimada em média em 8,6 dias (Hojgaard et
al., 2020; Wolter et al., 2001).
23 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Lactação em foco: Como a condição corporal das fêmeas suínas determina a produção de leite e o sucesso da leitegada
Fêmeas
Nesse contexto, mesmo com a adoção de práticas
Entre as técnicas utilizadas para essa avaliação, o escore de condição corporal (ECC) é um método visual composto
Embora a literatura reporte intervalos
por uma escala de 1 a 5, amplamente
distintos de ET considerados ideais, valores
empregado na rotina produtiva por sua fácil
extremos são associados à prejuízos
aplicação, apesar de sua natureza subjetiva
produtivos e reprodutivos (Wang et al.,
(Maes et al., 2004).
2016; Muro et al., 2023). Nesse contexto, uma recomendação conservadora baseada na
De acordo com a revisão conduzida por Muro
et al. (2023), valores intermediários de ECC, entre 3,0 e 3,5 ao parto, são considerados
comparação entre estudos seria manter as porcas e leitoas com ET entre 16 e 20 mm e 15 e 19 mm, respectivamente (Muro et al., 2023).
ideais. No entanto, pequenas variações nesses valores podem ocorrer em função da genética das
De forma complementar, a profundidade
matrizes e estratégia nutricional adotada, sem
de lombo (PL) é outro parâmetro
necessariamente comprometer o desempenho
relevante, já que é um indicador
dos animais (Muro et al., 2023).
objetivo da massa muscular que fornece
Fêmeas
informações importantes sobre o estado Por sua vez, uma avaliação mais precisa
metabólico das fêmeas (Muro et al., 2023).
e objetiva da condição corporal pode ser realizada por meio de parâmetros quantitativos, destacando-se a espessura de toucinho (ET). Tal variável reflete a quantidade de gordura corporal e está diretamente relacionada ao desempenho lactacional das porcas (Wang et al., 2016).
Durante a lactação, a captação de aminoácidos pelo tecido mamário é intensificada, de modo que o metabolismo proteico assume um papel importante tanto na síntese de proteínas do leite como na manutenção das funções metabólicas e hormonais (Trottier et al., 1997).
24 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Lactação em foco: Como a condição corporal das fêmeas suínas determina a produção de leite e o sucesso da leitegada
Contudo, a mobilização excessiva de proteína corporal está associada a prejuízos na produção e na composição do leite, além de comprometer os resultados reprodutivos subsequentes das porcas (Muro et
al., 2023).
Tal resultado pode ser atribuído tanto à fatores atuantes no período gestacional, quanto ao maior percentual de gordura total no leite e ao seu perfil mais insaturado, refletindo a composição do tecido adiposo materno (Amdi et al., 2013).
Apesar de seu potencial como variável preditora do desempenho das matrizes, ainda são escassos os estudos que definem limites ideais de PL.
A importância de ter reservas suficientes de ET já está bem estabelecida, bem como os prejuízos do excesso de
reservas corporais no início da lactação dispõem de maior capacidade de mobilização energética, sustentando altos níveis de produção leiteira (Costermans et al., 2020).
espessura de gordura dorsal. Fêmeas consideradas obesas têm um aumento da exigência energética de manutenção
(Costermans et al., 2020), redução do consumo voluntário de ração (Thongkhuy et al., 2020)
Fêmeas
Em teoria, fêmeas com maiores
e substituição do tecido mamário por gordura (Muro et al., 2023).
Thongkhuy et al. (2020) demonstraram que o aumento de 1 mm de espessura de gordura durante a gestação resultou em um incremento de 271 g/dia na síntese de leite nos dez primeiros dias de lactação.
Como consequência, têm-se uma diminuição dos recursos disponíveis
Outros autores também relataram maior teor
e queda no desempenho lactacional
de gordura no leite de porcas com maior ET
desses animais (Costermans et al., 2020).
ao parto, repercutindo em maior peso dos leitões ao desmame e maior ganho de peso
Uma ET exacerbada também
diário da leitegada (Amdi et al., 2013; Muro et al.,
tem sido associada ao aumento
2023).
da ocorrência de distocias, redução da taxa de ovulação subsequente e aumento do intervalo desmame-estro
(Schenkel et al., 2010; De Bettio et al., 2016; Thongkhuy et al., 2020).
25 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Lactação em foco: Como a condição corporal das fêmeas suínas determina a produção de leite e o sucesso da leitegada
Além disso, fêmeas gordas apresentam maior mobilização de reservas corporais durante a lactação, refletida em perdas acentuadas de ET, também prejudicial ao desempenho subsequente, uma vez que está associado ao aumento de leitões natimortos e redução do tamanho da próxima leitegada (Schenkel et al., 2010,
Dumniem et al., 2025).
Nos estágios iniciais do período lactacional, a produção de leite e sua composição estão mais associados às reservas corporais acumuladas pelas matrizes ao longo da gestação do que ao nível de ingestão alimentar (King, 2000). À medida que a lactação avança, os substratos utilizados para a síntese passam a depender tanto do consumo de ração quanto da mobilização de reservas (Thongkhuy et al., 2020).
Em contrapartida, porcas com uma condição corporal abaixo do ideal, consideradas magras, apresentam reservas corporais insuficientes para atender às elevadas exigências energéticas do período lactacional, resultando em menor produção de leite e maior mortalidade neonatal (Zhou
Fêmeas
et al., 2018; Muro et al., 2023).
Dessa forma, restrições no consumo de alimento ou mobilização excessiva de tecidos resultam não apenas em redução do volume total de leite produzido, mas também nos teores de proteína e gordura do leite, comprometendo o crescimento dos leitões
(Costermans et al., 2020).
Thongkhuy et al. (2020) demonstraram que uma baixa espessura de toucinho ao final da gestação (ET = 11,5 ± 1,1 mm,
O leite apresenta, em média, 18,2% de
aos 109 dias) pode comprometer o
sólidos totais, sendo aproximadamente
desenvolvimento adequado da glândula
6,4% de gordura, 5,9% de lactose e 5,1%
mamária, resultando em reduções
de proteína total (Klobasa et al., 1987).
significativas na produção média de leite, que podem atingir até 19% em comparação a fêmeas em condição corporal adequada ao parto (King, 2000).
No que se refere ao perfil lipídico do leite, Amdi et al. (2013) demonstraram diferenças qualitativas associadas
A mobilização de reservas corporais,
à condição corporal das fêmeas. De
bem como a dieta, também influenciam a
forma comparativa entre as categorias
composição do leite (Costermans et al., 2020). A síntese
avaliadas experimentalmente aos 110 dias
dos principais componentes do leite tem início
de gestação, fêmeas magras (ET = 14,4
nas semanas finais de gestação e se estende por
mm) produziram leite com menor teor de
toda a lactação (Thongkhuy et al., 2020), refletindo as
gordura total e maior proporção de ácidos
características do tecido mobilizado em relação à
graxos saturados, enquanto porcas gordas
proporção de gordura e proteínas (Costermans et al.,
(ET = 19,0 mm) apresentaram um perfil
2020).
lipídico mais insaturado (Amdi et al., 2013).
26 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Lactação em foco: Como a condição corporal das fêmeas suínas determina a produção de leite e o sucesso da leitegada
Essas diferenças refletem a origem da gordura utilizada na síntese láctea, uma vez que porcas magras dependem predominantemente da dieta como fonte lipídica, ao passo que fêmeas gordas utilizam uma combinação de fontes exógenas e endógenas, por meio da mobilização do tecido adiposo (Amdi et al., 2013).
Considerando a dependência do metabolismo neonatal em relação à gordura como principal fonte de energia
(Metzler-Zebeli, 2021) e limitada capacidade digestiva dos leitões para esse tipo de molécula (Gu e Li, 2003), um leite com maior proporção de ácidos graxos insaturados
Fêmeas
favorece o aproveitamento energético e crescimento inicial da leitegada, em função de sua maior digestibilidade (Gu e
Li, 2003; Amdi et al., 2013; Muro et al., 2023).
Leitões de porcas que iniciam a lactação em condição corporal adequada apresentam melhor desempenho, com efeitos que se estendem da
Portanto, a condição corporal
fase pré-desmame ao tempo de abate, além de
configura-se como fator central
um melhor desempenho reprodutivo nos ciclos
na determinação do desempenho
subsequentes.
lactacional das fêmeas suínas, influenciando diretamente o volume e composição do leite produzido.
Assim, estratégias de manejo nutricional que assegurem uma condição corporal compatível com as elevadas são essenciais para otimizar a produção e
Ao longo da lactação, a mobilização de reservas
a composição do leite e maximizar o
corporais, associadas ao consumo alimentar,
desempenho da leitegada.
modula a síntese láctea e reflete o estado nutricional e metabólico das fêmeas, bem como sua capacidade de atender às exigências nutricionais da leitegada.
Lactação em foco: Como a condição corporal das fêmeas suínas determina a produção de leite e o sucesso da leitegada
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27 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Lactação em foco: Como a condição corporal das fêmeas suínas determina a produção de leite e o sucesso da leitegada
Mercado
PANORAMA DA ORGANIZAÇÃO NA SUINOCULTURA MUNDIAL Marcelo Miele1; Lisa Le Clerc2; Norbert Potori3; Robert Hoste4 1 Pesquisador da Embrapa Suínos e Aves, Brasil, marcelo.miele@embrapa.br 2 Pesquisadora no Instituto do Porco - IFIP, França, lisa.leclerc@ifip.asso.fr 3 Diretor do Instituto de Economia Agrícola - AKI, Hungria, potori.norbert@ aki.gov.hu 4 Economista Sênior da Universidade de Wageningen, Países Baixos, robert. hoste@wur.nl
A
chave para compreender a organização e
Segundo a literatura sobre governança da
o desempenho das empresas e dos países
cadeia de suprimentos, a coordenação
produtores de carne suína.
vertical diz respeito à forma como
s relações dos suinocultores com os demais elos da cadeia de suprimentos são dimensões-
O objetivo deste estudo é apresentar um panorama da organização na suinocultura mundial, com foco nas formas de coordenação vertical mais representativas em 21 países a partir da opinião de especialistas das redes InterPIG e agri benchmark Pig.
Acesse nossos sites agri benchmark Pig InterPIG https://interpig.org www.agribenchmark.org/pig/
28 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Panorama da organização na suinocultura mundial
produtores e empresas legalmente independentes alinham e governam suas atividades. Isso envolve um conjunto de formas que varia de transações de mercado spot ou à vista (independente) em um extremo à integração vertical plena (propriedade total dos ativos) no outro, passando por diversas formas híbridas, como os contratos de comercialização, de produção e com cooperativas (Figura 1).
Participação das formas de coordenação vertical
Independente Mercado spot (atores independentes) O suinocultor controla os ativos e as decisões de produção e recebe um preço negociado no momento da venda.
suinocultores e agroindústrias (Figura 3), ocorrendo em todos os países estudados, exceto em um, sendo que em nove representa 50% ou mais da
A suinocultura na Áustria e na República Tcheca é essencialmente baseada no mercado spot (75% ou mais), enquanto na África do Sul, Bélgica, China, Holanda,
Contratos de produção A agroindustria contratante controla alguns ativos e as principais decisões de produção, enquanto que o suinocultor recebe uma remuneração pelas atividades realizadas ou instalações ocupadas.
Hungria, Irlanda e Vietnã ele representa a
Integração vertical (propriedade total) Uma única empresa controla os ativos e as decisões de produção em etapas adjacentes à criação de suinos, as transferências ocorrem por decisões gerenciais. Integração plena Figura 1. Formas de coordenação vertical. Fonte: adaptado pelos autores a partir da bibliografia consultada com uso do NotebookLM. A publicação completa com todos os resultados, metodologia, bibliografia e a lista de profissionais e instituições participantes está disponível no portal da Embrapa ou no QR code
≥75% < 25% Áustria (AT) ≥75% < 25% Rep. Tcheca (CZ) ≥ 50% < 75% < 25% < 25% Holanda (NL) Irlanda (IE) ≥ 50% < 75% < 25% < 25% ≥ 50% < 75% < 25% < 25% < 25% China (CN) ≥ 50% < 75% < 25% < 25% < 25% Vietnā (VN) ≥ 50% < 75% < 25% < 25% < 25% < 25% Bélgica (BE) ≥ 50% < 75% < 25% < 25% < 25% < 25% Hungria (HU) ≥ 50% < 75% ≥ 25% < 50% ≥ 25% < 50% África do Sul (ZA) Polônia (PL) ≥ 25% < 50% < 25% ≥ 25% < 50% < 25% < 25% Alemanha (DE) ≥ 25% < 50% ≥ 25% < 50% < 25% ≥ 25% < 50% ≥ 50% < 75% < 25% Canadá (CA) ≥ 25% < 50% < 25% ≥ 50% < 75% Portugal (PT) ≥ 25% < 50% < 25%< 25% Brasil (BR) ≥ 25% < 50% < 25% ≥ 25% < 50% ≥ 25% < 50% < 25% ≥ 50% < 50% < 25% Dinamarca (DK) < 25% < 25% ≥ 75% < 25% Suécia (SE) < 25% ≥ 50% < 75% < 25%< 25% < 25% Estados Unidos (US) < 25% ≥ 75% < 25% Itália (IT) < 25%< 25% < 25% < 25% ≥ 50% < 75% ≥ 25% < 50% Espanha (ES) ≥ 75% França (FR) < 25%< 25%< 25% ≥ 75% Finlândia (FI) < 25%
Mercado spot
Contratos de comercialização
Contratos de produção*
Contratos (não especificados)
Contratos com cooperativas
Integração vertical plena
Figura 3. Participação das formas de coordenação vertical na produção de suínos. Fonte: autores, baseados na opinião de membros das redes InterPIG e agri benchmark Pig. * Chamados de “contratos de integração”, o que não deve ser confundido com integração vertical plena. 29 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Panorama da organização na suinocultura mundial
Mercado
maior parcela (entre 50% e 75%).
Contratos com cooperativas O suinocultor é membro de uma cooperativa e decide coletivamente sobre sua direção estratégica (um membro = um voto).
Acesse a publicação completa “Vertical coordination in the pig sector: InterPIG and agri benchmark overview “
comum de coordenação da transação entre
produção.
Contratos de comercialização O suinocultor controla os ativos e as decisões de produção e recebe um preço negociado antes ou durante o periodo de produção.
a seguir (Figura 2).
O mercado spot (independente) é a forma mais
Os contratos estão presentes em todos os 21 países, mas geralmente com uma participação de até 25%. No entanto, em cinco países eles representam 50% ou mais. Nos Estados Unidos e na Suécia predominam
Entretanto, é significativa a participação de
os contratos de comercialização, enquanto que
transações ocorridas no mercado spot e no
no Canadá, Espanha e Itália predominam os
cooperativismo nos três países.
contratos de produção (chamados de “contratos de integração”).
Tendências esperadas nos próximos 10 anos
O cooperativismo e a integração
Em geral, os especialistas consultados
vertical plena não são relevantes em
esperam que a participação do mercado
um terço dos países; no entanto, em
spot (independente) diminua ou permaneça
quatro países representam 50% ou
estável, que os contratos (de comercialização e
mais da suinocultura.
produção) aumentem ou permaneçam estáveis,
Mercado
que o cooperativismo permaneça estável ou diminua e que a integração vertical plena Na Dinamarca, Finlândia e França, a
(propriedade total) aumente (Figura 4).
produção baseia-se essencialmente em
Mercado spot 5% 5%
cooperativas, enquanto em Portugal ela se fundamenta na integração vertical plena, onde a agroindústria é proprietária das
52%
38%
granjas de suínos.
Contratos 10% 57%
33%
Embora os países apresentem uma grande variedade de padrões de
Cooperativas
coordenação vertical, a maioria possui
9%
uma ou duas formas predominantes.
19%
Alemanha, Brasil e Polônia se destacam com pelo menos quatro formas distintas
48%
de coordenação vertical, sendo que nenhuma atinge 50% da produção. A suinocultura nesses países “mistos” se baseia principalmente em contratos de comercialização no primeiro caso, e em contratos de produção nos outros dois (chamados de “contratos de
24%
Diminuição
Integração vertical 5% 29%
9% 57%
Estabilidade
Aumento
Não sei
Figura 4. Tendências na participação das formas de coordenação vertical na produção de suínos nos próximos 10 anos. Fonte: autores, com base nas opiniões individuais dos membros das redes InterPIG e agri benchmark Pig; as opiniões colhidas não representam posições oficiais nem compromissos vinculativos.
integração”).
30 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Panorama da organização na suinocultura mundial
Entre os nove países onde predomina o mercado spot, a maioria espera uma diminuição na participação dessa forma e Vietnã), juntamente com um aumento na participação dos contratos e da integração vertical.
A tendência apontada é de estabilidade nos outros
Em quase todos esses oito países, prevê-se uma redução na participação do mercado spot e um aumento na integração vertical
Mercado
de coordenação (Áustria, Bélgica, China, Hungria
plena, com exceção da Itália e da Suécia.
quatro países deste grupo (África do Sul, Holanda, Irlanda e República Tcheca).
A maioria desses países prevê estabilidade no cooperativismo,
Entre os três países com coordenação
exceto a Suécia (redução) e o Brasil e
vertical “mista” e os cinco países onde
a Alemanha (aumento).
os contratos representam 50% ou mais do mercado, apenas um deverá reduzir a participação dos contratos (Estados Unidos), enquanto nos demais a mesma deverá aumentar (Alemanha, Brasil, Canadá, Itália e Suécia) ou permanecer estável (Espanha e Polônia).
Nos três países onde as cooperativas representam 50% ou mais do mercado, prevê-se estabilidade (Finlândia e França) ou declínio (Dinamarca) dessa forma de coordenação vertical. Por fim, em Portugal, é esperado um aumento na integração vertical plena, que é a forma predominante naquele país, juntamente com estabilidade das transações no mercado spot e nos contratos e uma diminuição das cooperativas.
31 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Panorama da organização na suinocultura mundial
Considerações finais As transações no mercado spot (independente) e os contratos são as formas mais comuns de coordenação vertical nos países pesquisados, seguidos pelo cooperativismo e a integração vertical plena. Do ponto de vista dos suinocultores, o tipo de organização da cadeia de suprimentos implica em diferenças claras na magnitude e composição dos custos da granja, na exposição ao risco, na necessidade de capital de giro e, sobretudo, na sua
Mercado
capacidade de influenciar as decisões técnicas e gerenciais. Embora existam configurações específicas de organização em cada país – dependendo das características nacionais, da legislação, da estrutura agrária, da organização industrial e do desenvolvimento histórico – as formas de coordenação vertical não são mutuamente exclusivas e podem ocorrer simultaneamente na mesma região ou até na mesma empresa ou cooperativa. Muitos países apresentam modelos de coordenação combinados, com cooperativas, integração vertical plena e contratos interligados na mesma cadeia de suprimentos. Portanto, uma diversidade de situações subjaz à visão geral qualitativa deste estudo.
32 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Panorama da organização na suinocultura mundial
Além disso, a coordenação pode ter diferentes definições entre países e dentro deles, com terminologia semelhante
É importante destacar também que,
usada para descrever formas distintas.
neste estudo, a integração vertical plena
Os contratos abrigam duas formas
se refere a uma cadeia de suprimentos
fundamentalmente diferentes.
de propriedade total de uma empresa (ração-granja-abate-processamento), mas suinocultores independentes de ciclo completo também podem ser considerados “integrados verticalmente”
Os contratos de comercialização
a montante quando dispõem de produção
complementam as transações no mercado
de grãos e fábrica de ração, ou a jusante
spot para gerenciar riscos, enquanto
quando realizam o próprio abate em
os de produção são uma extensão das
agroindústrias rurais ou comercializam
agroindústrias para organizar a produção.
diretamente com o consumidor em açougues e casas de carnes próprias.
A integração vertical plena e os contratos
Mercado
de produção também são formas distintas; no entanto, na prática cotidiana, ambos são frequentemente chamados de “integração vertical” ou “integração" pelos participantes do mercado ou mesmo na própria legislação voltada a essa temática (ver no Brasil as definições na Lei da Integração, n.º 13.288). Em contrapartida, os contratos com cooperativas em muitos países são quase idênticos aos contratos de comercialização ou de produção com empresas, com a diferença de que os produtores têm maior influência através do direito a voto.
De um modo geral, os especialistas preveem um aumento nos contratos e na integração vertical plena em detrimento do mercado spot nos próximos dez anos, juntamente com a relativa estabilidade do cooperativismo. Há certa lógica por trás da transição para uma coordenação mais formal na cadeia de suprimentos, tendo em vista que a volatilidade das commodities forçou produtores e indústrias a buscarem estabilidade e resiliência.
33 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Panorama da organização na suinocultura mundial
Além disso, outros fatores se destacam, como a
Os produtores austríacos e alemães
crescente complexidade dos padrões de qualidade
cooperam horizontalmente, resultando
e rastreabilidade e as limitações de recursos
em um mecanismo de fixação de
humanos e financeiros em estabelecimentos rurais
preços mais equilibrado do que em
de menor escala.
outros países com predominância do mercado spot. Isso também ocorre em estados brasileiros
Por fim, é importante destacar que países e
onde a suinocultura independente
cadeias de suprimentos caracterizados pela
promove bolsas de suínos e ações
predominância das transações no mercado
colaborativas.
spot (independente) não necessariamente carecem de coordenação, que também pode assumir formas horizontais, como associações de produtores bem organizadas, normativas e regulamentos públicos e privados, relações de longo prazo baseadas em reputação e instituições atuantes na defesa da
Mercado
concorrência.
Agradecimentos Aos especialistas das redes InterPIG e agri benchmark Pig que contribuíram com informações e a Mariël Benus, da Wageningen University & Research, e Joseane Padilha da Silva, da Embrapa Suínos e Aves, por suas contribuições na elaboração do questionário e na metodologia. Panorama da organização na suinocultura mundial
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34 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Panorama da organização na suinocultura mundial
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PorciFórum
ESTREIA DO PORCIFÓRUM CONSOLIDA A FORÇA DA SUINOCULTURA NO SIAVS Primeira edição do porciFÓRUM dentro do SIAVS consolida uma nova arena de discussão para a suinocultura e reúne mercado, ciência, produção e sanidade em torno das decisões que definirão os próximos passos da cadeia Priscila Beck
A
do SIAVS 2026 transformou em êxito
Ao longo da manhã, representantes da
uma missão inédita confiada pela ABPA
produção, indústria, pesquisa, entidades e
(Associação Brasileira de Proteína Animal) à
serviço veterinário oficial discutiram dados
suínoBrasil.
de mercado, robustez produtiva, reprodução,
primeira edição do porciFÓRUM dentro
diagnóstico, eficiência, redução do uso de No auditório Celso Furtado, principal
antimicrobianos e defesa sanitária.
espaço técnico do evento, o porciFÓRUM reuniu alguns dos principais nomes
O conjunto revelou uma cadeia que
da cadeia para discutir os desafios e
alcançou protagonismo mundial, mas que
as decisões que definirão o futuro da
sabe que seu próximo salto exigirá decisões
suinocultura.
mais qualificadas.
36 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Estreia do porciFÓRUM consolida a força da suinocultura no SIAVS
A validação institucional veio de forma direta. Ao interromper por alguns minutos a primeira palestra, o presidente da ABPA, Ricardo Santin, recordou que a realização do porciFÓRUM havia começado como um desafio feito à equipe da agriNews Brasil e reconheceu o resultado alcançado.
UM ESPAÇO CONSTRUÍDO COM O SETOR Embaixador do porciFÓRUM, José Antonio Ribas Júnior também dimensionou o significado da estreia. Para ele, realizar um evento técnico de suinocultura dentro do SIAVS é desafiador, mas permitiu começar a “firmar esse espaço” e discutir, em um momento decisivo para a atividade, os seus próximos passos. Diretor executivo de Agro e CIEX da Seara/ JBS, Ribas observou que os fatores que conduziram o Brasil à condição de terceiro maior exportador mundial não bastarão, sozinhos, para sustentar a próxima etapa de crescimento. A diretora técnica da ABCS, Charli Ludtke, ressaltou o fortalecimento da presença da
Santin destacou que a nova programação fortaleceu o seminário que a ABCS (Associação Brasileira dos Criadores de Suínos) já realiza no SIAVS, ampliando as discussões técnicas destinadas à cadeia.
suinocultura no SIAVS e atribuiu esse avanço à união entre produtores, indústrias, consumidores, entidades e imprensa especializada. Também destacou o desafio contemporâneo de prender a atenção do público e selecionar assuntos que tenham impacto real sobre a atividade.
Ao situar o Brasil como primeiro exportador mundial de carne de frango e terceiro de carne suína, lembrou que o protagonismo internacional depende de produção eficiente, informação de qualidade e espaços de discussão tecnológica.
“Vocês estão de parabéns na construção deste painel, trazendo temas que realmente estão fazendo a diferença”, afirmou.
Essa unidade não surgiu por acaso. A programação foi construída pela suínoBrasil em diálogo com as duas entidades nacionais diretamente envolvidas no evento e na representação da cadeia.
37 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Estreia do porciFÓRUM consolida a força da suinocultura no SIAVS
PorciFórum
“Obrigado a vocês que aceitaram o desafio quando a gente chamou para trazer também o porciFÓRUM aqui (para o SIAVS)”, afirmou Ricardo Santin em seu discurso. “O porciFÓRUM já é uma realidade e sei que veio para ficar”, completou.
DADOS PARA ENXERGAR O MERCADO COMO FILME, NÃO COMO FOTOGRAFIA A primeira discussão técnica já colocou em evidência uma das questões mais urgentes da cadeia: como tomar decisões em um mercado que muda rapidamente e cujo ciclo produtivo limita correções imediatas. Representando o presidente da ABCS, Marcelo Lopes, Iuri Pinheiro Machado, consultor de mercado da entidade, “Desde o início, nossa preocupação foi construir uma programação com unidade editorial, conectada
PorciFórum
aos desafios que realmente estão mobilizando a suinocultura”, explica Natália Sitanaka, Coordenadora Técnica e Comercial da suínoBrasil. Segundo ela, o eixo das discussões foi alinhado com a ABPA, por meio de sua diretora técnica e coordenadora da Programação do SIAVS, Sula Alves, e com a ABCS, em uma
apresentou a plataforma ABCS Data Insights. A ferramenta reúne, em um mesmo ambiente, dados oficiais sobre cotações, custos, exportações, abates, empregos, crédito, empresas e indicadores de mercado. Para Iuri, informação abundante não é sinônimo de inteligência. O valor está em conectar fontes, acompanhar séries históricas e interpretar movimentos.
articulação conduzida com sua diretora técnica, Charli Ludtke. “Não queríamos reunir palestras isoladas, mas estabelecer uma sequência capaz de percorrer mercado, eficiência produtiva, reprodução, diagnóstico e sanidade, mostrando como essas decisões se conectam dentro do sistema”, concluiu.
38 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Estreia do porciFÓRUM consolida a força da suinocultura no SIAVS
“O mercado precisa ser analisado não como uma fotografia, mas como um filme”, resumiu.
PRODUZIR MAIS NÃO BASTA, O SISTEMA PRECISA RESISTIR A busca por eficiência avançou da leitura do mercado para dentro da granja. O professor Cesar Augusto Pospissil
A lógica é especialmente relevante na
Garbossa, coordenador do Laboratório de
suinocultura. Entre a inseminação de
Pesquisa em Suínos da FMVZ/USP (Faculdade de
uma fêmea e a entrega dos animais decorrem
Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade
aproximadamente dez meses. Esse fluxo contínuo
de São Paulo), questionou a associação automática
dificulta respostas rápidas aos desequilíbrios de
entre produtividade e resultado.
oferta, mas também oferece possibilidade de antecipação.
A hiperprolificidade ampliou fortemente o número competição intrauterina, a variabilidade de
está justamente o desenvolvimento
peso, a exigência metabólica sobre a matriz e
de dados preditivos capazes de apoiar
a necessidade de tecnologias e manejos para
produtores, empresas e entidades antes
sustentar os animais.
PorciFórum
de leitões nascidos, mas também aumentou a Entre os próximos objetivos da plataforma
que os movimentos se convertam em crises Por isso, o indicador mais importante pode
profundas.
não ser um pico isolado, mas a quantidade de Ao analisar os números disponíveis, Iuri chamou atenção para o crescimento de quase 7% no peso das carcaças abatidas no primeiro trimestre de 2026 em comparação com o mesmo período do ano anterior. Segundo ele, a crise de preços discutida naquele momento não se originava do custo de produção, mas do avanço da oferta em ritmo superior à capacidade de absorção do mercado. A apresentação mostrou, na prática, como reunir dados permite substituir percepções isoladas por diagnósticos mais consistentes.
leitões viáveis produzidos ao longo da vida da fêmea e capazes de chegar ao frigorífico. Garbossa distinguiu produtividade, eficiência, robustez e resiliência. Um sistema robusto mantém desempenho diante de desafios; um sistema resiliente recupera-se rapidamente depois deles. Isso exige visão integrada de nutrição, ambiente, manejo e sanidade. “Robustez não é um ingrediente da dieta”, advertiu. Antes da busca por uma solução milagrosa, é necessário fazer bem o básico: garantir água, conforto térmico, biosseguridade, condição corporal e diagnóstico correto do problema.
39 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Estreia do porciFÓRUM consolida a força da suinocultura no SIAVS
MAGAPOR: A EFICIÊNCIA REPRODUTIVA COMEÇA MUITO ANTES DA GRANJA Em uma das apresentações mais densas da manhã, Raquel Ausejo Marcos, gerente de Reprodução Suína da Magapor, ampliou a noção de eficiência reprodutiva. O resultado observado no parto não começa na granja nem no momento da inseminação. Ele é construído desde a definição da estratégia genética, a seleção e o manejo
Outro eixo da apresentação foi a
dos reprodutores, a produção da dose
padronização. Sistemas de visão artificial
seminal e a preservação de sua qualidade
já permitem analisar doses com maior
até a correta aplicação no campo.
precisão, reduzir o erro humano e aumentar a homogeneidade.
PorciFórum
Segundo Raquel, cada falha nesse percurso reduz uma eficiência que não poderá ser recuperada nas etapas seguintes. O macho reprodutor, embora muitas vezes receba menos atenção que a matriz, pode representar metade do potencial genético da granja e produzir
Laboratórios centrais, por sua vez, podem receber material de diferentes unidades, concentrar especialistas e produzir doses sob processos uniformes.
milhares de descendentes. Isso torna os centros de inseminação pontos críticos de biosseguridade, qualidade e difusão genética.
A qualidade dos insumos também é decisiva. Raquel apresentou evidências
A especialista mostrou que a eficiência também depende do bem-estar. O estresse interfere no eixo hormonal, reduz o fluxo sanguíneo para os órgãos reprodutivos e pode comprometer a viabilidade do sêmen, a duração do parto e a capacidade leiteira posterior.
de que embalagens com componentes reprotóxicos podem provocar perdas expressivas de fertilidade e explicou que o diluente não é um simples veículo: precisa manter o potencial fértil do espermatozoide até a inseminação e favorecer a qualidade embrionária.
A inseminação pós-cervical foi Nos centros de inseminação, os efeitos
apresentada como uma das principais
alcançam motilidade, concentração e
ferramentas para ampliar o uso
alterações espermáticas. Instalações
dos melhores reprodutores sem
adequadas e menor densidade de animais,
comprometer os índices da granja.
portanto, não são apenas exigências éticas: participam diretamente do resultado reprodutivo.
40 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Estreia do porciFÓRUM consolida a força da suinocultura no SIAVS
Ao permitir doses com menor concentração, a técnica reduz o número de machos necessários e aumenta a difusão do ganho genético. Mas Raquel fez uma ressalva essencial: reduzir concentração exige processos mais robustos, materiais de qualidade, conservação correta e equipes capazes de executar a técnica sem falhas.
Raquel chamou essa conexão de “efeito dominó”: quando centro de inseminação e granja trabalham de forma coordenada, cada ejaculado avaliado, cada dose produzida e cada inseminação corretamente executada contribuem para gerar descendentes mais uniformes e robustos.
Para demonstrar o impacto sistêmico, ela apresentou o caso de uma empresa norteamericana que, ao implementar a inseminação pós-cervical, reduziu o plantel de 250 para 164 machos.
“Quando a origem é excelente, o restante da cadeia tem muito mais chances de alcançar seu potencial máximo”, concluiu.
PorciFórum
A economia anual com reprodutores, vacinação, medicamentos e alimentação foi estimada em US$ 130 mil. A possibilidade de selecionar animais
O efeito dominó da reprodução
de maior índice genético teria acrescentado benefício próximo de US$ 600 mil, enquanto a redução do tempo empregado nas inseminações representou
Quase US$ 600 mil/ano: benefício estimado associado ao avanço genético.
aproximadamente US$ 170 mil. Somados, os ganhos potenciais se aproximaram de US$ 1 milhão por ano.
250 para 164: redução do número de reprodutores no estudo de caso apresentado.
US$ 130 mil/ano: economia estimada com machos, vacinas, medicamentos e alimentação.
Quase US$ 1 milhão/ano: benefício potencial total apresentado para a empresa analisada.
US$ 170 mil/ano: ganho estimado com a redução do tempo de inseminação.
41 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Estreia do porciFÓRUM consolida a força da suinocultura no SIAVS
DIAGNÓSTICO: REDUZIR INCERTEZAS ANTES DE ESCOLHER O TRATAMENTO
Da mesma forma, o antibiograma não substitui o diagnóstico: apenas aponta
Se a reprodução mostrou que o resultado
qual molécula tem maior chance de
começa antes da granja, a palestra seguinte
funcionar caso aquela bactéria seja
demonstrou que o diagnóstico também
efetivamente responsável pelo quadro. A
começa antes de a amostra chegar ao laboratório.
síntese foi direta: “O melhor antibiótico para a bactéria errada continua sendo o tratamento errado.”
Carlos Damián Segovia, responsável técnico pelo setor de Microbiologia do Centro de Diagnóstico de Sanidade Animal (CEDISA), partiu de uma pergunta provocativa: quantos tratamentos
EFICIÊNCIA DENTRO DA PORTEIRA E REINVENÇÃO FORA DELA
PorciFórum
são realizados sem que se saiba exatamente o que está sendo
Ao ampliar o debate para a estratégia da
tratado?
cadeia, Ribas organizou sua análise em três dimensões: o que está sob controle dentro da propriedade, o que precisa ser
Para Segovia, medicar deixou de ser apenas uma decisão técnica. A resistência antimicrobiana, as exigências de mercado e as perdas provocadas por escolhas equivocadas transformaram a precisão diagnóstica em fator de competitividade. Clínica, necropsia, histopatologia, PCR, microbiologia e antibiograma respondem a perguntas diferentes e devem ser combinados para eliminar incertezas.
enfrentado pelo Brasil e como o setor deve se posicionar em um comércio global cada vez mais complexo. Dentro da porteira, repetiu quatro vezes a palavra que considera o nome do jogo: eficiência. O Brasil já dispõe de ciência, genética, nutrição, manejo e conhecimento comparáveis aos melhores sistemas do mundo. O desafio é converter esse acervo em resultado em cada granja.
A escolha do animal, a coleta, a conservação e o tempo de envio interferem diretamente no resultado. Isolar uma bactéria, advertiu, não prova que ela seja a causa da doença. É necessário verificar lesões compatíveis e caracterizar fatores de virulência.
“No final do dia, não há discurso que fique em pé se não gerar resultado”, afirmou.
42 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Estreia do porciFÓRUM consolida a força da suinocultura no SIAVS
Fora da porteira, Ribas apontou como oportunidade estratégica a ampliação da presença da carne suína in natura, tanto no mercado doméstico quanto internacional, e superar a competição apenas como fornecedor de carcaças e commodities. O espaço aberto pela menor disponibilidade e pelo maior custo da carne bovina pode ser ocupado pela suinocultura, mas isso exigirá rever genética, nutrição, sistemas de criação, apresentação dos produtos e comunicação com o consumidor.
MENOS INTERVENÇÃO COMEÇA COM UM SISTEMA MAIS FORTE A reta final conectou a experiência da indústria à responsabilidade sanitária de toda a cadeia. Isabella Lourenço, gerente executiva de Saúde Animal da MBRF, apresentou uma trajetória de quase sete anos voltada ao uso prudente de
A reinvenção também depende de gargalos
A empresa tornou sua produção de suínos
nacionais. Ribas citou o custo do crédito,
livre de promotores de crescimento em
a complexidade tributária, as relações de
2019 e alcançou redução de 30% no uso de
trabalho e a dependência do transporte
antibióticos administrados por água ou via
rodoviário. Segundo o executivo, apenas Santa
injetável.
Catarina movimenta cerca de R$ 7 bilhões em logística para trazer grãos e levar carne suína aos portos.
O processo não se apoiou em uma simples retirada de medicamentos. Foram definidos indicadores, metas, prioridades, moléculas homologadas,
Uma economia de 10% representaria R$ 700 milhões. Ao considerar os três estados do Sul, o potencial poderia chegar a R$ 2 bilhões por ano. Sua advertência final retomou o espírito do fórum: o setor não pode permanecer sentado sobre o sucesso que o trouxe até aqui. Parte da solução está na eficiência da propriedade; outra parte está na
programas vacinais e critérios de biosseguridade. Propriedades passaram a ser classificadas conforme o risco sanitário, permitindo direcionar ações aos pontos mais críticos. A pergunta central, para Isabella, não é se o setor deve eliminar antibióticos, mas por que determinados sistemas se tornaram tão dependentes deles.
capacidade de cuidar de tudo o que acontece entre a porteira e a mesa do
“Muitas vezes, o antibiótico é usado não para
consumidor.
tratar o animal, mas para compensar a falha do sistema”, observou. Reduzir intervenções exige corrigir fatores predisponentes,
“O que nos trouxe até aqui não será suficiente. A suinocultura precisa amadurecer seu crescimento e reinventar a cadeia.” — José Antonio Ribas Júnior
fortalecer imunidade, ambiência, manejo, treinamento, diagnóstico e biosseguridade. A ferramenta continua necessária para o tratamento terapêutico, desde que utilizada de forma consciente, com prescrição veterinária e evidências.
43 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Estreia do porciFÓRUM consolida a força da suinocultura no SIAVS
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antimicrobianos.
Chefe da Divisão de Sanidade dos Suídeos do MAPA (Ministério da Agricultura e Pecuária), Lia Coswig encerrou a programação demonstrando que a condição sanitária brasileira resulta de uma construção coletiva. O país permanece livre de enfermidades que impõem perdas e bloqueios comerciais a importantes concorrentes, entre elas a PRRS (síndrome reprodutiva e respiratória dos suínos) e a PSA (peste suína africana). Também alcançou o reconhecimento de livre de febre aftosa sem vacinação, condição com efeitos positivos para todas as proteínas animais. A posição, porém, não é definitiva.
PorciFórum
Lia alertou para o risco de ingresso de agentes por produtos de origem animal trazidos informalmente, para o papel dos javalis na disseminação da PSA e para o impacto de pequenas quebras de biosseguridade.
UMA REALIDADE QUE VEIO PARA FICAR Ao reunir temas tão diferentes sob uma mesma linha de raciocínio, a primeira edição do porciFÓRUM dentro do SIAVS demonstrou que a evolução da suinocultura depende menos de soluções isoladas e mais da conexão entre decisões. Dados ajudam a antecipar o mercado. Nutrição, reprodução e manejo constroem robustez. Diagnóstico qualifica o tratamento. Biosseguridade preserva a sanidade. Estratégia transforma eficiência produtiva em acesso a mercados e valor para o consumidor. Foi essa capacidade de organizar as perguntas relevantes da cadeia, e colocar no mesmo palco entidades, indústria, pesquisa, empresas e serviço oficial, que deu dimensão à estreia.
O Ministério estabelece normas,
O desafio lançado pela ABPA foi
conduz a vigilância e responde às
respondido não apenas com uma
notificações, mas são produtores,
agenda técnica, mas com uma
empresas e profissionais que
plataforma de discussão capaz de
transformam essas regras em
acompanhar uma suinocultura que
proteção cotidiana.
cresceu e agora precisa definir, com maturidade, seus próximos passos.
A biosseguridade comportamental, incorporada às discussões internacionais, resume esse desafio. Não basta possuir estruturas e protocolos; é preciso repetir o procedimento correto todos os dias. “A biosseguridade não pode quebrar nunca”, reforçou Lia. Uma falha aparentemente pequena pode bloquear uma propriedade, uma região e
Estreia do porciFÓRUM consolida a força da suinocultura no SIAVS
até o país, com consequências econômicas que
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alcançam toda a cadeia.
44 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Estreia do porciFÓRUM consolida a força da suinocultura no SIAVS
O mineral bioativo da Elanco que está revolucionando os resultados da suinocultura. Com foco em sustentabilidade, viabilidade econômica e na saúde do plantel, Proteck™ representa o futuro já disponível no presente. Consulte o time Elanco para acesso aos resultados em matrizes e leitões.
Proteck TM, Elanco e o logo da barra diagonal são marcas da Elanco ou sua afiliadas. PM-BR-26-0841.
STREPTOCOCCUS SUIS SOROTIPO 9: Sanidade
DESAFIOS E ESTRATÉGIAS DE CONTROLE
Huillian Zecchin Médico Veterinário, especialista em Sanidade de Suínos e mestre em Produção e Nutrição Animal
S
Nos últimos anos, o sorotipo 9 vem
especialmente pela capacidade de
principalmente em leitões na fase de creche.
treptococcus suis é um dos agentes de maior importância sanitária
na produção intensiva de suínos, provocar quadros de rápida evolução,
adquirindo maior relevância nos sistemas de produção, com ocorrência de surtos
aumento de mortalidade, perdas de
Na região Oeste do Paraná, a
desempenho e necessidade frequente
experiência de campo demonstra
de intervenções terapêuticas.
a importância desse agente, sobretudo em sistemas com elevada concentração de animais, múltiplas origens e maior pressão sanitária.
46 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Streptococcus Suis Sorotipo 9: Desafios e estratégias de controle
A presença de S. suis no rebanho, entretanto, não significa obrigatoriamente ocorrência de doença clínica. A expressão da enfermidade depende da interação entre diferentes fatores relacionados ao microrganismo, ao animal e ao ambiente.
Outros componentes de superfície e proteínas envolvidas na interação com estruturas do hospedeiro contribuem
Situações de estresse, mistura de lotes,
para adesão, colonização e disseminação
falhas de fluxo, alta densidade, variações
bacteriana, favorecendo, em determinadas
de temperatura, ventilação inadequada,
condições, a ocorrência de doença sistêmica e o
mudanças nutricionais, coinfecções, com
comprometimento do sistema nervoso central.
destaque para a influenza e redução da imunidade dos leitões podem favorecer/
Além disso, Miguélez-Pérez et al. (2024) demonstraram
agravar a manifestação clínica da doença.
elevada capacidade de formação de biofilme in vitro em isolados de S. suis pertencentes ao
Streptococcus suis é um coco Grampositivo, encapsulado, frequentemente disposto em cadeias e de metabolismo facultativamente anaeróbio.
sorotipo 9. O estudo também evidenciou que
Sanidade
Do ponto de vista microbiológico,
a interação com outros patógenos bacterianos associados ao complexo respiratório suíno pode modificar e, em determinadas combinações, intensificar a formação desses biofilmes, condição potencialmente relacionada à maior
Entre os fatores associados à sua
persistência do agente no hospedeiro.
patogenia destaca-se a cápsula polissacarídica (CPS), importante
Clinicamente, os quadros relacionados a
para a evasão da resposta imune e
S. suis tipo 9 podem apresentar diferentes
determinante para a diferenciação
formas de manifestação. Em muitos
sorológica, além da suilisina (SLY),
casos, observa-se uma evolução aguda e
uma citotoxina hemolítica relacionada
grave durante o surto, com presença de
à interação com células do hospedeiro
hipertermia, apatia, redução do consumo,
e à virulência de determinadas cepas.
claudicação e artrite séptica.
Proteínas como MRP e EF também têm sido utilizadas como marcadores
Nos animais com comprometimento do
associados à virulência, embora sua
sistema nervoso central podem ocorrer ataxia,
distribuição e importância possam variar
incoordenação, decúbito lateral, nistagmo,
entre diferentes sorotipos.
movimentos de pedalagem e opistótono.
47 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Streptococcus Suis Sorotipo 9: Desafios e estratégias de controle
Casos septicêmicos podem apresentar evolução bastante rápida, inclusive com morte antes do aparecimento de sinais clínicos característicos e sem tempo para intervenções medicamentosas efetivas.
Entre os principais diagnósticos diferenciais devem ser considerados Glaesserella parasuis, doença do edema associada a Escherichia coli produtora de Stx2e, desbalanços nutricionais e outras condições capazes de produzir quadros neurológicos, locomotores ou septicêmicos.
Sanidade
A apresentação clínica não segue necessariamente uma sequência padrão.
A interpretação deve considerar
Alguns animais apresentam inicialmente
principalmente a idade dos
alterações locomotoras, enquanto outros
animais, o padrão de mortalidade, as
desenvolvem sinais neurológicos ou
lesões encontradas e a evolução do
septicêmicos.
problema dentro do lote.
Na necropsia, animais com evolução hiperaguda podem apresentar poucas alterações macroscópicas. Nos demais casos podem ser observadas pericardite, pleurite e peritonite fibrinosas, artrite fibrinossupurativa e alterações inflamatórias envolvendo o sistema nervoso central.
Para aumentar a possibilidade de um diagnóstico confiável, sempre que possível, devem ser selecionados leitões em fase aguda da doença e ainda não submetidos ao tratamento antimicrobiano.
Esses achados, associados ao histórico e aos sinais clínicos, auxiliam no
Para bacteriologia, devem ser
direcionamento do diagnóstico, porém não
priorizadas amostras do sistema
devem substituir a confirmação laboratorial
nervoso central, líquido articular, serosas
sempre que ela for possível, pois são
afetadas e órgãos parenquimatosos.
lesões compatíveis também com outras
Para histopatologia, o envio do encéfalo
enfermidades.
e de fragmentos representativos dos principais órgãos auxilia na caracterização das lesões e na exclusão de diagnósticos diferenciais.
48 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Streptococcus Suis Sorotipo 9: Desafios e estratégias de controle
Outro cuidado importante está na interpretação dos resultados laboratoriais. Como S. suis pode ser encontrado em animais clinicamente saudáveis, especialmente no trato respiratório superior e nas tonsilas, a simples detecção do agente nesses locais não confirma sua participação como causa exclusiva do problema. Por isso, o resultado laboratorial deve sempre ser interpretado em conjunto com os sinais clínicos, as lesões e o local de isolamento.
estar baseado em uma única ferramenta. Trata-se de um problema multifatorial e, portanto, exige uma abordagem integrada. O trabalho deve começar ainda na maternidade, garantindo adequada ingestão de colostro
Em integrações que trabalham com múltiplas origens, a organização de fluxos ou pirâmides sanitárias também pode facilitar a rastreabilidade e permitir a identificação de determinadas origens ou combinações de lotes relacionadas a maior risco.
pelos leitões, bom estado sanitário e nutricional das matrizes, correta execução dos manejos
A ambiência deve ser considerada
neonatais, higiene das instalações e redução de
parte da estratégia sanitária. Oscilações
procedimentos que possam aumentar portas de
térmicas, temperatura inadequada,
entrada para infecções.
ventilação insuficiente, excesso de gases, elevada densidade e competição por água e alimento aumentam o estresse
Na creche, a biosseguridade e a organização dos fluxos assumem papel ainda mais importante. Sistemas todosdentro/todos-fora, quando possíveis, adequada limpeza e desinfecção, vazio sanitário, redução da mistura entre
e reduzem a capacidade dos leitões de responder aos desafios infecciosos. Pequenas falhas de manejo podem se tornar importantes quando associadas a elevada pressão de infecção.
diferentes origens e controle do fluxo de pessoas e animais contribuem para reduzir
Da mesma forma, a nutrição deve ser
a pressão de infecção.
entendida não apenas como ferramenta de desempenho, mas também como componente da resiliência sanitária.
49 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Streptococcus Suis Sorotipo 9: Desafios e estratégias de controle
Sanidade
O controle de S. suis sorotipo 9 não deve
O período pós-desmame provoca mudanças importantes no trato gastrointestinal e na composição da microbiota intestinal. Uma dieta adequadamente formulada auxilia na manutenção da integridade da barreira intestinal, no equilíbrio da microbiota e na modulação da resposta imune.
Medidas de suporte podem ser adotadas conforme o quadro clínico, incluindo antitérmicos e polivitamínicos para melhorar o conforto dos animais e estimular o consumo de água e alimento.
Alterações nessa relação entre dieta, microbiota e imunidade podem comprometer a capacidade do leitão de enfrentar desafios sanitários. Dessa forma, estratégias nutricionais voltadas à saúde intestinal devem fazer parte do conjunto de medidas utilizadas na prevenção, sem serem interpretadas isoladamente como solução para a doença.
As vacinas autógenas têm participação importante no controle da enfermidade. Entretanto, sua eficácia pode variar entre granjas e depende de diversos fatores, incluindo as cepas utilizadas, o método de produção, o adjuvante, o protocolo de vacinação, a categoria imunizada e a
Sanidade
situação epidemiológica do rebanho. Essa relação entre nutrição, microbioma e imunidade também reforça a importância do
Outro desafio relevante no controle de
uso criterioso de antimicrobianos. Embora sejam
Streptococcus suis 9 está relacionado à elevada
ferramentas fundamentais diante de infecções
diversidade antigênica e genética existente entre
bacterianas, tratamentos repetitivos ou mal
os isolados. Essa variabilidade contribui para
direcionados podem interferir na microbiota e
diferenças na resposta às estratégias de prevenção
favorecer a seleção de resistência.
e controle entre os sistemas de produção.
Assim, a antibioticoterapia deve ser empregada de maneira racional, baseada
Dessa forma, conhecer os isolados envolvidos nos quadros clínicos e
na avaliação clínica e, sempre que possível,
acompanhar sua dinâmica ao longo
em isolamento bacteriano e teste de
do tempo torna-se fundamental para
suscetibilidade.
direcionar medidas preventivas mais assertivas.
Nos animais clinicamente acometidos, a intervenção precoce continua sendo um dos fatores mais importantes para melhorar a resposta terapêutica. Animais identificados nas fases iniciais geralmente apresentam melhor possibilidade de recuperação do que aqueles já em decúbito ou com sinais neurológicos avançados.
Outro ponto fundamental é compreender que os programas sanitários devem ser constantemente reavaliados. Mudanças na origem dos animais, no perfil dos isolados, na suscetibilidade antimicrobiana, na ambiência, na alimentação ou na pressão de outros agentes podem alterar de forma significativa o comportamento da doença dentro de uma integração.
50 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Streptococcus Suis Sorotipo 9: Desafios e estratégias de controle
Mais do que combater o agente após o Estratégias que apresentaram bons
aparecimento dos casos, o desafio está
resultados em determinado período podem
em construir sistemas capazes de reduzir a
perder eficiência à medida que a realidade
pressão de infecção e aumentar a capacidade
epidemiológica se modifica.
dos animais de enfrentar os desafios sanitários.
A experiência observada em sistemas intensivos de produção demonstra que os melhores
Considerando sua ampla
resultados são obtidos quando
disseminação e capacidade de
diagnóstico, manejo, biosseguridade,
persistência nos rebanhos, a
ambiência, nutrição, vacinação e uso racional
perspectiva mais realista é de que
de medicamentos são conduzidos de forma
S. suis 9 permaneça presente nos
conjunta.
sistemas de produção, tornando seu controle, e não sua erradicação, o
da capacidade de identificar os fatores que permitem a expressão da doença dentro de cada sistema.
principal objetivo sanitário. Nesse contexto, a combinação entre
Sanidade
O controle efetivo depende principalmente
prevenção, monitoramento e intervenção precoce permanece como a estratégia mais consistente para reduzir os impactos
Quanto melhor for o entendimento da origem dos animais, do momento em
produtivos e econômicos associados à enfermidade.
que os casos começam, das condições ambientais, do status imunológico, da alimentação, dos agentes concomitantes e do perfil dos isolados circulantes, maior
Streptococcus Suis Sorotipo 9: Desafios e estratégias de controle
BAIXAR EM PDF
será a possibilidade de desenvolver uma
Referências sob consulta junto ao autor
estratégia eficiente e sustentável.
Diante da crescente importância do sorotipo 9 na produção intensiva de suínos, o diagnóstico precoce, a vigilância epidemiológica e a revisão constante dos programas sanitários tornam-se cada vez mais importantes.
51 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Streptococcus Suis Sorotipo 9: Desafios e estratégias de controle
LEITEGADAS MAIORES, LEITÕES MENORES:
ONDE ESTÁ O PRÓXIMO GANHO DA SUINOCULTURA?
Matrizes hiperprolíficas
Da prolificidade à viabilidade: transformar o potencial genético em leitões mais uniformes, saudáveis e preparados para a próxima fase é um dos principais desafios da suinocultura moderna
A
evolução genética das matrizes suínas elevou de forma expressiva o número
de nascidos vivos por leitegada. Mas, à medida que a prolificidade avança,
O desafio não está apenas em
surge uma questão que ganha cada
aumentar a quantidade de animais
vez mais relevância dentro das granjas:
produzidos por matriz, mas em garantir
como transformar um número maior
que esses leitões tenham condições
de nascidos em mais leitões viáveis ao
para sobreviver, desenvolver-se e
desmame?
chegar à creche preparados para enfrentar uma nova etapa.
52 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Leitegadas maiores, leitões menores: onde está o próximo ganho da suinocultura?
A discussão foi tema de uma entrevista com Murilo Mora de Assis e Renato Delgado Barbosa, da Biochem, no estúdio agriNews Play, durante o 18° Simpósio Brasil Sul de
MAIS NASCIDOS NÃO SIGNIFICA, NECESSARIAMENTE, MAIS RESULTADO
Suinocultura, que abordaram os principais pontos O aumento do número de nascidos
dessa equação:
representa um avanço genético importante, mas não encerra a conta. Um leitão que nasce com baixo peso apresenta maiores desafios ao
Nutrição da matriz
longo da maternidade e pode ter dificuldade para alcançar o peso esperado ao desmame.
Qualidade do colostro e do leite
Na prática, isso pode resultar em animais que permanecem mais tempo na
Saúde intestinal
maternidade ou que chegam à creche com isso, a meta precisa ser mais ampla: produzir
Estresse oxidativo
uma leitegada numerosa, mas também
Longevidade das fêmeas Uso estratégico de tecnologias nutricionais.
viável e uniforme.
Essa mudança de olhar é importante porque o desempenho da matriz deve ser avaliado ao longo
Segundo Murilo, gerente técnico LATAM
de sua vida produtiva. Uma fêmea
da Biochem, a genética tem avançado
geneticamente superior, mas que não
geração após geração na busca por maior
consegue sustentar bons resultados
prolificidade. Entretanto, existe um limite
reprodutivos por problemas sanitários,
fisiológico para a capacidade da matriz
metabólicos ou locomotores, pode não
de gestar e, principalmente, nutrir uma
entregar o retorno esperado sobre o
leitegada cada vez maior.
investimento realizado na sua aquisição e manutenção.
“Cada vez mais, leitegadas maiores” também significam maior ocorrência de leitões de baixo peso e menor viabilidade. O ponto central passa a ser, portanto, preparar fisiologicamente a matriz para que ela consiga oferecer colostro e leite suficientes e de qualidade, além de criar condições para que os leitões, mesmo quando menores ao nascimento, cheguem ao desmame saudáveis e aptos para a creche.
53 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Leitegadas maiores, leitões menores: onde está o próximo ganho da suinocultura?
Matrizes hiperprolíficas
menor peso e maior vulnerabilidade. Por
Nesse contexto, os microminerais ocupam Para Renato, gerente de vendas da Biochem, a longevidade da matriz precisa estar associada à lógica econômica
Matrizes hiperprolíficas
da granja. A fêmea deve permanecer produtiva pelo período necessário para que o investimento realizado seja recuperado, enquanto o sistema mantém uma reposição genética adequada.
A MATRIZ COMO PONTO DE PARTIDA A capacidade da matriz de sustentar a leitegada não depende de um único fator. Ambiência, estresse térmico, estresse oxidativo, inflamação e nutrição estão entre os elementos que precisam ser considerados de maneira integrada.
uma posição estratégica. Durante a entrevista, Murilo apresentou o BCH Organic Mix, um blend de microminerais que reúne zinco, manganês, cobre e ferro na forma de glicinatos, além de selênio, cromo, iodo e cobalto. De acordo com a empresa, a proposta é atuar nos pilares de saúde e nutrição, oferecendo suporte ao animal em diferentes fases produtivas.
Um dos pontos destacados foi a observação de resultados de campo relacionados à qualidade de patas e aprumos de matrizes. Essa característica tem impacto direto sobre a permanência da fêmea no plantel, uma vez que problemas locomotores podem reduzir sua capacidade de completar o ciclo produtivo esperado.
O ambiente de produção, especialmente em sistemas intensivos, impõe desafios constantes. A pressão produtiva pode favorecer processos pró-inflamatórios e pró-oxidativos, tornando importante oferecer suporte para que o animal consiga lidar com essas condições sem comprometer sua capacidade produtiva e reprodutiva.
O produto também é apresentado como uma solução multifases, podendo ser utilizado desde a preparação de marrãs até gestação, lactação, creche e terminação, com ajustes de dose realizados de acordo com a formulação e as necessidades de cada sistema.
54 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Leitegadas maiores, leitões menores: onde está o próximo ganho da suinocultura?
SAÚDE INTESTINAL: O DESAFIO CONTINUA DEPOIS DO NASCIMENTO
Segundo os resultados apresentados, trabalhos realizados em leitões identificaram efeitos relacionados à
Se a matriz representa o primeiro elo dessa
modulação da microbiota, com redução
estratégia, a saúde intestinal do leitão é
da presença de bactérias potencialmente
um dos principais pontos para garantir
patogênicas, incluindo E. coli, além de
que o potencial obtido no nascimento seja
resultados relacionados a Clostridium.
convertido em desempenho.
Foram avaliados indicadores como escore de fezes e presença dos microrganismos
na creche, representa um período crítico. A mudança da composição das dietas pode provocar desequilíbrios na microbiota intestinal, aumentando a predisposição a problemas como diarreia e comprometendo o aproveitamento dos nutrientes.
nas fezes. No campo, entretanto, nem sempre há disponibilidade para análises laboratoriais. Por isso, indicadores simples continuam sendo fundamentais para o acompanhamento das estratégias: ocorrência e intensidade de diarreia, ganho de peso, conversão alimentar e uniformidade dos animais. A proposta é estabelecer uma conexão
Nesse cenário, a modulação
entre aquilo que é observado no laboratório
da microbiota ganha espaço
e aquilo que acontece efetivamente dentro
como ferramenta preventiva.
da granja. A tecnologia precisa apresentar
Durante a entrevista, Murilo
uma resposta que seja percebida pelo
destacou o trabalho realizado
produtor.
com o TechnoSpore®, probiótico à base de Bacillus coagulans, desenvolvido para atuar sobre o ambiente intestinal.
55 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Leitegadas maiores, leitões menores: onde está o próximo ganho da suinocultura?
Matrizes hiperprolíficas
A transição alimentar, especialmente
PREVENÇÃO COMO ESTRATÉGIA A discussão sobre saúde intestinal também está diretamente relacionada ao uso racional de antimicrobianos. Mudanças regulatórias, exigências de mercados e decisões estratégicas dos próprios produtores vêm estimulando a busca por ferramentas que permitam reduzir intervenções sem comprometer a saúde e o
Renato reforça que produtos desenvolvidos ou introduzidos no mercado precisam ser testados nas condições brasileiras, pois os desafios encontrados em diferentes regiões podem variar significativamente. Um resultado obtido em outro país nem sempre representa a realidade encontrada em uma granja brasileira.
desempenho dos animais. Essa validação local também ganha importância quando se considera a diversidade da produção brasileira. Os
Matrizes hiperprolíficas
desafios encontrados no Sul podem ser diferentes daqueles observados em São Paulo, Minas Gerais ou no Nordeste. Por isso, a tecnologia precisa ser adaptada à realidade de cada sistema. A proposta, conforme ressaltado durante a entrevista, não é eliminar o uso de antibióticos, mas trabalhar com racionalidade, estratégia e prevenção. O princípio defendido é que o desafio sanitário deve ser enfrentado antes que ele provoque perdas de desempenho.
COLOSTRO: UM SUPORTE ADICIONAL PARA OS PRIMEIROS DIAS Quando o assunto são leitões pequenos, os primeiros dias de vida assumem importância ainda maior. É nesse período que o animal precisa superar desafios relacionados
Nesse sentido, a avaliação de uma tecnologia
à imunidade, desenvolvimento intestinal e
precisa ir além de seu custo de inclusão. O
capacidade de aproveitar os nutrientes disponíveis.
que importa é o resultado econômico gerado por ela.
Na entrevista, Murilo apresentou também o Bimulac® Pré, produto composto por colostro bovino em pó, microminerais orgânicos, pré e probióticos e ovo em pó.
56 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Leitegadas maiores, leitões menores: onde está o próximo ganho da suinocultura?
O INDICADOR FINAL É O SUÍNO PRODUZIDO Em meio a tantas possibilidades tecnológicas, uma pergunta permanece essencial: como saber se determinada estratégia realmente vale a pena? A resposta passa por indicadores zootécnicos e econômicos. Na maternidade, mortalidade, peso e uniformidade ao desmame são importantes. Na creche, diarreia, É importante destacar que a
ajudam a mostrar se o leitão conseguiu
proposta não é substituir a
transformar o investimento realizado no
colostragem materna, mas atuar como
início da vida em desempenho.
complemento nos primeiros dias de vida. As imunoglobulinas podem oferecer suporte à proteção contra determinados desafios, enquanto os fatores de crescimento estão relacionados ao desenvolvimento do epitélio intestinal.
Mas a análise não deve terminar na fase em que a tecnologia foi aplicada. Como destacou Renato, o resultado precisa ser acompanhado ao longo da cadeia. O objetivo final é entregar um suíno com bom desempenho e rendimento adequado ao frigorífico.
A composição também contempla pré e probióticos e microminerais orgânicos, buscando oferecer suporte simultâneo à saúde intestinal e ao desenvolvimento dos tecidos. O ovo em pó acrescenta uma fonte nutricional e de lecitina, relacionada ao suporte à digestão das gorduras presentes no colostro e no leite materno.
Por isso, o retorno sobre investimento, ou ROI, aparece como um dos principais critérios para a adoção de novas soluções. Em um cenário de margens apertadas e alta competitividade, uma tecnologia precisa apresentar resultado suficiente para justificar sua permanência no programa nutricional ou sanitário.
Os resultados apresentados na entrevista incluem redução de diarreia e de intervenções com medicamentos, além da busca por maior uniformidade e viabilidade ao desmame.
57 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Leitegadas maiores, leitões menores: onde está o próximo ganho da suinocultura?
Matrizes hiperprolíficas
ganho de peso e conversão alimentar
O PRÓXIMO SALTO É TRANSFORMAR POTENCIAL EM RESULTADO A suinocultura já mostrou que é capaz de produzir leitegadas cada vez maiores. O próximo desafio é fazer com que esse potencial genético seja convertido em mais leitões viáveis, uniformes e preparados para as etapas seguintes. Isso exige olhar para a cadeia de maneira integrada. A preparação da matriz, a nutrição,
Matrizes hiperprolíficas
a ambiência, a saúde intestinal, a imunidade e os manejos da maternidade não podem ser tratados como estratégias isoladas. Também exige uma mudança de perspectiva sobre tecnologia. Em vez de buscar apenas produtos que aumentem determinado indicador, a tendência é trabalhar com soluções que contribuam para a estabilidade do sistema e reduzam perdas ao longo do ciclo.
No fim, a pergunta deixa de ser simplesmente “quantos leitões nasceram?” e passa a ser “quantos leitões chegaram ao desmame com qualidade para continuar produzindo?”
Leitegadas maiores, leitões menores: onde está o próximo ganho da suinocultura?
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58 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Leitegadas maiores, leitões menores: onde está o próximo ganho da suinocultura?
Diferenciais
Resultados
Glicinatos + selenometionina
Suporte para cascos mais saudáveis
Maior absorção e menor excreção
Apoio para o sistema imune
Melhor aproveitamento metabólico
Melhor desempenho reprodutivo
Mais eficiência nutricional
Mais rentabilidade!
DA EXIGÊNCIA AO
COMEDOURO:
NUTRIÇÃO DE PRECISÃO NA SUINOCULTURA
Nutrição
Luiz Fernando de Souza Alves Doutor em Zootecnia
N
a nutrição de suínos, precisão significa aproximar, ao longo do tempo, dois valores que estão
em constante mudança: o que o animal exige e o que ele efetivamente ingere. A exigência nutricional varia com peso, sexo, potencial de deposição proteica, consumo, ambiente, estado sanitário e fase fisiológica. Ao mesmo tempo, o aporte de nutrientes também se modifica conforme a composição e a digestibilidade dos ingredientes, o processamento da ração e o consumo real.
60 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Da exigência ao comedouro: Nutrição de precisão na suinocultura
Também ganha importância trabalhar Trabalhar com nutrição de precisão é
com sistemas que representem melhor o
acompanhar essas variações e ajustar
aproveitamento biológico dos nutrientes, como
o fornecimento com maior frequência,
aminoácidos digestíveis ileais estandardizados e
reduzindo situações de excesso ou
energia líquida. (Rostagno et al., 2024).
deficiência (Pomar et al., 2019). Boa parte das informações necessárias para dar esse passo já existe em muitas fábricas e integrações, mas costuma Esse raciocínio pode ser resumido em duas estimativas que precisam se encontrar:
estar distribuída entre planilhas, laudos e registros de campo.
quanto o suíno necessita e quanto a dieta realmente fornece.
Organizar os resultados por ingrediente, fornecedor, safra e período do ano permite
a exigência do lote ou do indivíduo. Do outro lado, a matriz nutricional precisa representar com fidelidade os ingredientes que entram na formulação. Entre essas duas estimativas estão a fabricação, a distribuição da ração e o consumo no comedouro. É nesse percurso que a precisão deixa de ser apenas um cálculo de formulação e passa a depender da qualidade da informação em cada etapa.
enxergar padrões que um laudo isolado não mostra. Assim, a equipe passa a reconhecer quais matérias-primas são mais estáveis, onde estão as maiores oscilações e quais nutrientes exigem
Nutrição
Peso, consumo e desempenho ajudam a estimar
acompanhamento mais frequente.
Essa leitura é especialmente importante porque milho, farelo de soja e coprodutos não têm composição fixa. Cultivar, região, safra, secagem, armazenamento e processamento industrial alteram seu valor nutricional.
A matriz nutricional é uma das primeiras bases desse processo. As tabelas de composição e exigências, como as Tabelas Brasileiras para Aves e Suínos, seguem como referências técnicas fundamentais para a formulação no país.
No farelo de soja, origem, extração de óleo e tratamento térmico podem afetar a disponibilidade de aminoácidos; em coprodutos como o DDGS, diferenças no processo industrial alteram proteína, fibra, gordura, energia e digestibilidade.
Na rotina da empresa, esses valores podem ser complementados pelo histórico dos próprios ingredientes: origem, fornecedor, safra, laudos bromatológicos e resultados de NIRS.
61 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Da exigência ao comedouro: Nutrição de precisão na suinocultura
Na nutrição de precisão, conhecer essa variabilidade ajuda a ajustar a matriz, definir margens de segurança mais coerentes e utilizar cada ingrediente de acordo com o que ele efetivamente entrega (Forero Salamanca et al., 2025;
Wang et al., 2025).
A ISO 6497:2002 estabelece procedimentos para a amostragem de alimentos destinados à alimentação animal, considerando inclusive as diferentes características físicas dos produtos.
Para que essa informação seja confiável, a amostragem precisa representar o lote recebido. Uma análise sofisticada perde valor quando a amostra foi mal coletada.
Cargas de grãos podem apresentar diferenças de umidade, finos, impurezas e grãos avariados entre diferentes pontos. Por isso, a coleta de incrementos em diferentes posições, sua reunião e a obtenção de uma
Nutrição
amostra laboratorial representativa são etapas fundamentais.
A partir de uma amostra representativa, tecnologias como a espectroscopia no infravermelho próximo (NIRS) tornam o controle mais dinâmico, permitindo avaliar mais lotes em menos tempo. Quando as calibrações são adequadas e o preparo da amostra é bem conduzido, o NIRS permite obter estimativas mais confiáveis da composição dos ingredientes, tornando essas informações mais úteis para a tomada de decisão na formulação (Leiva et
al., 2022).
62 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Da exigência ao comedouro: Nutrição de precisão na suinocultura
Do lado do animal, a lógica é igualmente dinâmica. Um suíno em crescimento não apresenta a mesma exigência durante todo o período produtivo. O consumo aumenta, a composição do ganho se modifica, a deposição proteica muda e a relação entre energia e aminoácidos precisa
O princípio é o mesmo; mudam a frequência de ajuste, o volume de informação disponível e o grau de automação do sistema (Camargo et
al., 2026).
acompanhar esse movimento. Nas matrizes, a aplicação segue a mesma lógica. A exigência de uma fêmea não depende apenas da fase
representou um avanço importante ao reduzir o tempo em que uma mesma dieta é fornecida. A nutrição de precisão leva essa lógica adiante: quanto menor o intervalo entre a mudança da exigência e o ajuste do fornecimento, maior a possibilidade de aproximar a dieta da necessidade real do animal.
de gestação ou lactação. Ordem de parto, peso, condição corporal, tamanho de leitegada, consumo voluntário e perda de condição durante a lactação interferem na estratégia alimentar. Curvas mais ajustadas para diferentes perfis de fêmeas, aplicadas por grupos ou por sistemas de alimentação individual, permitem acompanhar melhor essas diferenças ao longo do ciclo produtivo
(Durand et al., 2023). Em crescimento e terminação, isso pode ser feito em diferentes níveis. A
A aproximação entre fornecimento e
alimentação multifásica é uma base
exigência também melhora o uso dos
importante, porque reduz o intervalo
nutrientes. Quando a dieta acompanha
entre mudanças na exigência e
melhor a necessidade do suíno, diminui
mudanças na composição da dieta.
a tendência de fornecer aminoácidos, proteína, fósforo ou energia em excesso.
Curvas por grupo permitem ajustes mais
Isso reduz desperdícios, melhora a
frequentes e podem utilizar a mistura de dietas-
eficiência alimentar e pode diminuir a
base para gerar concentrações intermediárias
excreção de nutrientes não aproveitados.
de nutrientes. Em sistemas mais tecnificados, alimentadores eletrônicos e modelos matemáticos possibilitam ajustes diários e até individualizados.
Em um cenário de ingredientes caros, pressão ambiental e margens produtivas estreitas, essa é uma das contribuições mais importantes da nutrição de precisão (Llorens et al., 2024).
63 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Da exigência ao comedouro: Nutrição de precisão na suinocultura
Nutrição
A alimentação por fases
A formulação passa, então, a trabalhar com uma informação mais qualificada dos dois lados: o valor nutricional dos ingredientes e
Até chegar ao comedouro, a nutrição ainda
a exigência estimada dos animais.
encontra o manejo. Transporte, silos da granja, linhas de distribuição, regulagem
O menor custo continua sendo um critério essencial, mas pode ser analisado junto com estabilidade dos ingredientes, variabilidade e risco nutricional. Uma margem de segurança maior pode ser necessária quando há pouca informação; à medida que o sistema conhece melhor suas matérias-primas e seus lotes, essa margem pode ser
Nutrição
ajustada com mais critério.
dos comedouros, disponibilidade de água e competição entre animais influenciam o consumo real. Uma dieta nutricionalmente adequada pode não expressar todo o seu potencial se houver desperdício, segregação, restrição de acesso ou baixa ingestão. O comedouro é, portanto, o ponto em que a precisão calculada se encontra com o comportamento do animal. É também no desempenho que se verifica se a estratégia funcionou. Ganho médio diário,
A precisão construída na formulação precisa ser preservada na fábrica. Dosagem, mistura, moagem, peletização, segregação e armazenamento interferem no alimento produzido.
conversão alimentar, consumo, uniformidade, mortalidade, escore corporal, desempenho reprodutivo e rendimento de carcaça fornecem informações que podem retornar à equipe de nutrição.
Uma matriz bem caracterizada e
Esses dados ajudam a revisar curvas
uma exigência bem estimada só se
de fornecimento, níveis nutricionais,
transformam em resultado quando a
matérias-primas e condições de
ração mantém coerência com o que
fabricação, mantendo o sistema
foi formulado.
conectado ao que acontece de fato na produção.
Por isso, homogeneidade de mistura, granulometria, qualidade física do pellet e comparação entre o formulado e o analisado fazem parte do mesmo processo.
64 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Da exigência ao comedouro: Nutrição de precisão na suinocultura
Para uma empresa que pretende avançar ser simples. Conhecer a variabilidade dos
No fim, a precisão está em reduzir
principais ingredientes, acompanhar peso
continuamente a distância entre
e consumo dos lotes, revisar a duração das
o nutriente que o suíno necessita
fases alimentares e comparar o formulado
e aquele que efetivamente chega ao
com o produzido já cria uma base
comedouro. Quanto melhor conhecemos
importante.
esses dois lados, mais precisas se tornam
Nutrição
nesse caminho, o ponto de partida pode
as decisões sobre matriz nutricional, A partir daí, é possível aumentar a frequência das análises, trabalhar com curvas de alimentação mais ajustadas e, quando houver estrutura e retorno econômico, incorporar sensores, alimentadores automáticos e modelos de predição.
formulação, fabricação e manejo alimentar. É essa integração, da caracterização dos ingredientes à resposta dos animais, que transforma a nutrição de precisão em uma ferramenta prática para melhorar eficiência produtiva, econômica e ambiental na suinocultura.
A nutrição de precisão não exige que todas essas ferramentas sejam adotadas ao mesmo tempo; exige que os dados disponíveis sejam usados para tomar decisões cada vez mais próximas da realidade do animal.
Da exigência ao comedouro: Nutrição de precisão na suinocultura
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65 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Da exigência ao comedouro: Nutrição de precisão na suinocultura
Opinião do Especialista
OPINIÃO DO ESPECIALISTA
Guilherme Brandt Consultor em Suinocultura
Leitegadas cada vez mais numerosas: até onde pode chegar o potencial da fêmea suína?
N
os últimos anos, a suinocultura tem acompanhado resultados reprodutivos que, até pouco
tempo, pareciam distantes da realidade das granjas: Partos com números recordes de leitões e leitegadas extremamente numerosas têm chamado a atenção do setor.
Mas resultados excepcionais também precisam ser analisados com cuidado. Afinal, a suinocultura não produz leitões apenas para aumentar números. O objetivo é transformar potencial reprodutivo em viabilidade, desempenho e resultado econômico.
A evolução é inegável. O complexo de fatores como o avanço genético, associado ao aprimoramento dos manejos reprodutivos, nutricionais,
Quando tudo funciona ao mesmo tempo
sanitários, os investimentos em
Na rotina da produção, estamos
melhores instalações e o fator
acostumados a investigar problemas.
importante da gestão direcionada,
Quando a taxa de parto cai, as perdas
dentre outros permitiu que as fêmeas
aumentam ou o número de nascidos fica
expressassem uma capacidade de
abaixo do esperado, buscamos as causas e
produção de leitões cada vez maior.
estabelecemos planos de ação.
66 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Leitegadas cada vez mais numerosas: até onde pode chegar o potencial da fêmea suína?
Mas o raciocínio também deveria ser
O resultado começa muito antes do parto
aplicado aos resultados extraordinários. Quando observamos uma leitegada muito Quando uma fêmea apresenta uma
numerosa, é natural direcionarmos nossa atenção
leitegada excepcionalmente numerosa,
para a maternidade. No entanto, aquele resultado
dificilmente existe uma única explicação. É
começou a ser construído muito antes.
muito mais provável que estejamos diante de uma combinação de fatores que funcionaram de maneira adequada e, principalmente, simultaneamente.
A qualidade do sêmen, a coleta, a preparação das doses, o transporte, a conservação e o manejo da inseminação são fundamentais para o desempenho reprodutivo.
A nutrição também ocupa papel central. A A seleção de linhagens cada vez mais
fêmea precisa receber nutrientes em quantidade
prolíficas elevou o potencial de ovulação e,
e qualidade adequadas para cada etapa do ciclo
consequentemente, o número de leitões que uma
produtivo. A qualidade das matérias-primas, o
fêmea pode produzir. Mas possuir esse potencial
consumo de ração e a disponibilidade de água são
genético não significa, necessariamente, expressá-
fatores básicos, mas determinantes.
lo. Um ponto fundamental nesta equação Entre a ovulação e o nascimento existe uma longa
é a preparação da leitoa, futura matriz
sequência de eventos.
que deverá além de finalizar sua fase de puberdade, também ser capaz de
A fêmea precisa apresentar boa fertilização, baixa mortalidade embrionária,
expressar todo seu potencial e ter uma taxa de retenção otimizada nos plantéis.
baixa perda fetal e condições adequadas para manter os fetos durante toda a gestação. Cada uma dessas etapas contribui para o resultado final. Por isso, uma leitegada excepcional pode ser entendida como um momento em que diversas peças do sistema se encaixaram perfeitamente.
Da mesma forma a sanidade tem um papel fundamental. Uma fêmea que atravessa a gestação em boas condições sanitárias tem maiores possibilidades de expressar seu potencial. Também fazem parte dessa equação os manejos diários, o acompanhamento individual das fêmeas, os registros, a movimentação dos animais, a transferência para a maternidade e a preparação para o parto.
67 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Leitegadas cada vez mais numerosas: até onde pode chegar o potencial da fêmea suína?
Opinião do Especialista
A genética é um deles.
E existe um elemento que conecta tudo isso: as pessoas. Resultados reprodutivos excepcionais
A pergunta mais importante
também são resultado de uma
talvez seja outra: o que fazemos
equipe treinada, capaz de identificar
com todo esse potencial?
alterações, executar protocolos e tomar decisões no momento correto.
Já conhecemos o limite?
Mais leitões não significa automaticamente mais eficiência
A evolução da prolificidade naturalmente levanta Esse é o principal ponto de atenção quando
Provavelmente, ainda não sabemos.
discutimos hiperprolificidade.
Opinião do Especialista
outra questão: será que já chegamos ao limite?
Durante muito tempo, a capacidade
Uma leitegada numerosa é, sem dúvida, um
uterina foi apontada como um dos
excelente resultado reprodutivo. Porém,
principais fatores limitantes para o
o número de nascidos vivos é apenas o
número de fetos que uma fêmea poderia
primeiro indicador de uma longa trajetória.
manter. E, de fato, continua sendo uma questão central.
Ao longo dos anos, as leitegadas se tornaram maiores. Ao mesmo tempo,
Mas a evolução genética tem mostrado que os limites podem ser continuamente deslocados. A cada geração, observamos fêmeas com maior capacidade reprodutiva. Os resultados extraordinários registrados recentemente reforçam a percepção de que ainda podemos estar
observamos uma redução no peso individual dos leitões, conforme Figura 1.
1,50 1,45 1,40
conhecendo apenas uma parte do potencial da
1,35
fêmea moderna.
1,30
Isso não significa, entretanto, que devemos buscar simplesmente números cada vez maiores.
1,20
2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 2019 2020 2021 2022 2023 2024 2025
1,25
Peso ao nascer Fonte: Compilado Por GBR Consultoria
68 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Leitegadas cada vez mais numerosas: até onde pode chegar o potencial da fêmea suína?
Nascidos total
16,00 15,50 15,00 14,50 14,00 13,50 13,00 12,50 12,00
Isso significa que aumentar a quantidade de animais por leitegada pode vir acompanhado de novos desafios relacionados ao peso ao nascimento, capacidade de sobrevivência e especialmente uniformidade em fases específicas de desmame e mais importante ainda no peso final de abate.
Por isso, não podemos avaliar uma fêmea apenas pelo número de leitões
O desafio da viabilidade
que ela consegue produzir. Precisamos acompanhar o que acontece depois.
Quanto maior a leitegada, maior também é o todos os leitões.
Quantos leitões chegam ao
A assistência ao parto passa a ter
desmame? Com qual peso? Qual é
importância ainda maior. O fornecimento
a uniformidade da leitegada? Como
de colostro, o acompanhamento das
esses animais desempenham na creche
primeiras horas de vida, o acesso ao leite
e na terminação? Quantos chegam ao
e os cuidados com os animais menores
abate dentro do padrão esperado?
são fundamentais. Não basta nascer. É preciso sobreviver, desenvolver-se e apresentar desempenho.
Essas respostas são fundamentais para entender se a hiperprolificidade realmente se converteu em
Esse conceito é particularmente
eficiência.
importante em um cenário de hiperprolificidade. A genética pode entregar um número extraordinário de leitões, mas o sistema de produção precisa estar preparado para transformar esse potencial em animais de qualidade. É por isso que a evolução do setor deve ser conjunta, a genética “puxando” o potencial e os demais fatores sendo ajustados para permitir esta real expressão.
69 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Leitegadas cada vez mais numerosas: até onde pode chegar o potencial da fêmea suína?
Opinião do Especialista
desafio de garantir condições adequadas para
O próximo passo da hiperprolificidade Os resultados reprodutivos extraordinários que estamos observando devem, sim, ser comemorados. Eles representam anos de evolução genética, conhecimento técnico e melhoria dos sistemas de produção e gestão. Mas também devem servir como ponto de partida para uma nova reflexão. O futuro da suinocultura não está baseado simplesmente em produzir cada vez mais leitões por parto. O verdadeiro desafio é
Opinião do Especialista
encontrar o equilíbrio entre prolificidade, viabilidade, uniformidade, desempenho e retorno econômico. E este é um tema a ser discutido individualmente em cada granja (ou sistema), cada um com suas particularidades. A genética continuará avançando. Os números provavelmente continuarão surpreendendo. E aquilo que hoje parece excepcional pode se tornar parte da realidade das granjas no futuro.
O verdadeiro avanço acontece quando conseguimos transformar maior potencial reprodutivo em mais suínos viáveis e uniformes ao abate. Maior desempenho e eficiência e maior retorno financeiro para toda a cadeia. Leitegadas cada vez mais numerosas: até onde pode chegar o potencial da fêmea suína?
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70 suíno Brasil 3º Trimestre 2026 | Leitegadas cada vez mais numerosas: até onde pode chegar o potencial da fêmea suína?
SAÚDE DA MATRIZ SUÍNA: UMA VISÃO SISTÊMICA
Saúde de Matrizes
Carlos Carrijo Médico veterinário
O
s dados do relatório de 2025 da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA)
indicam que a suinocultura brasileira conta com aproximadamente 2,25 milhões de matrizes suínas em sistemas tecnificados de produção. Esses ganhos de produtividade A evolução da produtividade dessas matrizes, foi de aproximadamente 13,59%, passando de 27 para 30,67 leitões desmamados/fêmea/ano (Agriness, 2025). Além disso, tornou-se frequente a existência de plantéis nos quais este mesmo indicador aproxima-se de:
40
demonstram a elevada eficiência técnica dos rebanhos brasileiros e, ao mesmo tempo, impõem novos desafios a manutenção da saúde das matrizes, especialmente diante de maiores exigências nutricionais – metabólicas e dos desafios sanitários associados a hiperprolificidade e intensificação dos sistemas de produção.
leitões desmamados / fêmea / ano.
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Nesse contexto, a saúde da matriz não deve ser avaliada apenas pela presença
O objetivo deste artigo é contribuir, sem
ou ausência de doença clínica, mas
a pretensão de esgotar o tema, para uma
compreendida de forma sistêmica,
abordagem sistêmica do monitoramento
considerando sua capacidade de manter
do estado de saúde das matrizes suínas,
o equilíbrio fisiológico, metabólico,
contemplando desde a anamnese e a
reprodutivo e sanitário ao longo dos
avaliação clínica e produtiva do rebanho até
sucessivos ciclos produtivos.
a utilização de exames complementares e laboratoriais, conforme ilustrado na Figura 1.
Anamnese Outros
Avaliação de indicadores zootécnicos/KPIs DIAGNÓSTICO
Avaliação clínica
Análises laboratoriais
Saúde de Matrizes
Avaliações em frigoríficos
Necrópsias Coleta e envio de material para análises laboratoriais
Figura 1. Fluxo de monitoramento sistêmico do estado de saúde das matrizes suínas
Anamnese e avaliação dos indicadores zootécnicos / KPIs A anamnese constitui-se em ação fundamental ao entendimento do estado de saúde das matrizes, uma vez que serão obtidas informações que poderão direcionar as demais etapas da investigação. Torna-se relevante, neste momento, reunir informações qualitativas e quantificas, objetivando compreender a magnitude,
A avaliação dos indicadores zootécnicos complementa a anamnese e possibilita identificar alterações que, direta ou indiretamente, podem estar relacionadas a saúde das matrizes, estando alguns desses indicadores listados na tabela 1.
a distribuição, a frequência e a evolução temporal dos eventos tratados.
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Tabela 1 – Alguns Indicadores que podem estar relacionados a saúde das matrizes suínas.
Grupo
Indicador Taxa de cobertura (%) Taxa de concepção aos 35 dias (%) Taxa de partos (%) Taxa de partos ajustada (%)
Reprodutivos
Taxa de retorno ao cio – regular (%) Taxa de retorno ao cio – irregular (%) Taxa de retorno ao cio – precoce (%) Taxa de retorno ao cio – tardio (%) Taxa de abortos (%) Corrimentos pós-inseminação (%) Corrimentos pós-parto (%)
Saúde de Matrizes
Intervalo desmame-cio (dias)
Sobrevivência e permanência no plantel
Dias não produtivos (dias) Taxa de mortalidade de matrizes (%) Taxa de eutanásia de matrizes (%) Taxa de reposição de matrizes (%) Taxa de descarte de matrizes (%) Distribuição da mortalidade por ordem de parto Distribuição dos descartes por ordem de parto
Desempenho ao parto
Nascidos totais/parto Nascidos vivos/parto Mumificados/parto ou mumificados (%) Natimortos/parto ou natimortos (%) – tipos 1, 2 e 3 Duração do parto (minutos) Partos com intervenção obstétrica (%) Partos com uso de ocitocina (%)
Consumo
Lactação e desempenho da leitegada
Mortalidade pré-desmame (%) Ganho médio diário de peso dos leitões na maternidade (g/dia) Matrizes com interrupção da produção de leite (%) Mães de leite (%) Consumo médio diário de ração na gestação (kg/matriz/dia) Consumo médio diário de ração na lactação (kg/matriz/dia) Consumo médio diário de ração por fase produtiva (kg/matriz/dia)
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AVALIAÇÃO CLÍNICA DAS MATRIZES
A identificação de sinais clínicos envolvendo os diferentes sistemas orgânicos, bem como
Nesta etapa, a integração entre os achados da anamnese e a avaliação dos indicadores zootécnicos/KPIs é fundamental para direcionar o exame clínico das matrizes.
alterações no comportamento, consumo de alimento, condição corporal, locomoção e desempenho reprodutivo, contribui para uma compreensão mais abrangente do estado de saúde individual e coletivo.
Embora as informações obtidas nas etapas anteriores permitam identificar possíveis
A tabela, a seguir, ilustra alguns pontos
alterações e estabelecer hipóteses, a avaliação
importantes para observação durante
clínica deve ser realizada de forma ampla e
a avaliação clínica de matrizes suínas
sistemática, considerando as diferentes fases
e sempre devem ser mensurados
do ciclo produtivo.
quantitativamente para uma compreensão
Saúde de Matrizes
da saúde de rebanho.
Tabela 2 – Alguns pontos relevantes a serem observados durante a avaliação clínica das matrizes suínas.
Sistema / aspecto
Principais avaliações e sinais clínicos
Avaliação geral
Condição corporal das matrizes; apetite e consumo de ração; consumo de água.
Condição corporal
Escore de condição corporal; espessura de toucinho no ponto P2; perda de condição corporal, especialmente na lactação.
Aparelho locomotor
Claudicação; dificuldade para levantar e deitar; lesões de cascos; artrites; alterações de aprumos.
Tegumentar
Lesões de pele; lesões de decúbito; úlceras e feridas; abscessos; coloração da pelagem.
Respiratório
Tosse; espirros; secreção nasal; dispneia; frequência respiratória.
Digestório
Consistência das fezes; diarreia; constipação; vômito; alterações do consumo.
Urinário
Frequência da micção; cor da urina; odor da urina; presença de pus ou sangue na urina.
Reprodutivo
Corrimentos vulvares; alterações da vulva; retornos ao cio; abortos; prolapsos; alterações gestacionais/puerperais.
Glândula mamária
Edema; hiperemia; aumento de temperatura; dor; endurecimento; lesões de tetos; alterações na produção de leite.
Parto e pós-parto
Duração do parto; distocia; intervenção obstétrica; retenção de placenta; secreções pós-parto; temperatura corporal.
Neurológico
Tremores; incoordenação; alterações de equilíbrio; paresia; paralisia; alterações comportamentais.
Temperatura corporal
Hipertermia; hipotermia; alterações no periparto; alterações associadas a processos infecciosos/ inflamatórios.
Mortalidade/eutanásia
Sinais clínicos antecedentes; evolução do quadro clínico; fase produtiva; ordem de parto; provável causa clínica.
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poral
Avaliação geral e condição cor
NECRÓPSIAS E AVALIÇÃO EM FRIGORÍFICO Uma reflexão importante sobre a realização de necropsias e o acompanhamento do abate de matrizes suínas refere-se ao número de oportunidades disponíveis para a obtenção de informações sobre a saúde
Aparelho locomotor
do plantel.
Considerando uma taxa anual
Saúde de Matrizes
de mortalidade de matrizes de aproximadamente 8,9%, conforme o último
Urinário
relatório da Agriness, em um plantel de 1.000 matrizes ocorreriam cerca de 90
Digestório
mortes ao longo de um ano, representando potenciais oportunidades para a realização de necropsias.
A esse número somam-se as matrizes selecionadas para eutanásia, nas quais a avaliação m também
Glândula mamária
pode ser realizada. Além disso, considerando as taxas de reposição e descarte observadas nos sistemas tecnificados de produção, aproximadamente 400 matrizes desse mesmo plantel poderiam ser encaminhadas anualmente ao frigorífico, criando outra importante oportunidade para a avaliação de órgãos, tecidos e lesões.
Temperatura corporal
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Além disso, a realização sistemática de necropsias possibilita a construção de um banco de dados de achados anatomopatológicos que, quando associado às informações clínicas, produtivas e epidemiológicas, constitui Diante desse volume de informações
uma importante ferramenta de apoio à
potencialmente disponíveis, cabe uma
tomada de decisão.
reflexão inicial: quantas dessas matrizes estão, de fato, sendo submetidas à necropsia ou avaliadas sistematicamente no frigorífico como parte do programa de
Saúde de Matrizes
monitoramento da saúde do plantel?
Da mesma forma, o acompanhamento do abate de matrizes pode revelar alterações que dificilmente seriam identificadas apenas pela observação clínica dos animais na granja. Em avaliações realizadas a campo,
É sabido que tanto a necropsia quanto o acompanhamento de matrizes no frigorífico apresentam limitações operacionais para sua realização rotineira. Entretanto, alguns aspectos merecem destaque. Em condições de campo, podem ocorrer divergências entre as causas de mortalidade registradas na granja e aquelas identificadas durante a necropsia.
têm sido observadas, com relativa frequência, lesões hemorrágicas na bexiga de matrizes enviadas ao abate, com prevalências variando entre 35% e 65% (dados pessoais não publicados). Adicionalmente, a avaliação histopatológica desses animais tem identificado processos inflamatórios em aproximadamente 25% a 50% das amostras avaliadas (Figura 2).
Essa discrepância pode resultar em interpretações inadequadas sobre os principais problemas sanitários do plantel e, consequentemente, direcionar ações preventivas ou corretivas que não atuem efetivamente sobre as causas envolvidas.
Figura 2: Bexiga com lesões hemorrágicas e processo inflamatório cronico através da histopatologia.
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interpretados considerando as características e limitações de cada levantamento, sua elevada frequência reforça a importância da investigação post mortem como ferramenta complementar para a compreensão do estado de saúde das matrizes.
ANÁLISES LABORATORIAIS
Essas observações demonstram que a ausência de sinais clínicos evidentes não necessariamente representa ausência de alterações orgânicas, reforçando a necessidade de integrar informações produtivas, avaliação clínica, achados de necropsia, avaliações em frigorífico e exames laboratoriais na construção de um diagnóstico mais abrangente da saúde do plantel.
De maneira geral, no caso das matrizes suínas, os exames laboratoriais contemplam a investigação
O Brasil dispõe de uma excelente rede de
de falhas reprodutivas — como natimortos,
laboratórios e universidades dedicados
mumificados e abortos — por meio de um kit
à realização de análises laboratoriais
reprodutivo (parvovirose, leptospirose, erisipela,
para a monitoria do estado de saúde dos animais,
entre outros), além da investigação da saúde
atuando em estreita colaboração com os
geniturinária, incluindo a avaliação de descargas
profissionais de campo e oferecendo importante
vulvares e infecções urinárias.
suporte técnico. Essa rede laboratorial disponibiliza orientações sobre os materiais que devem ser coletados, bem como os exames mais indicados de acordo com o direcionamento técnico de cada
Um aspecto que merece reflexão é o crescimento, ainda que discreto, da utilização de análises sanguíneas — como o hemograma — na monitoria do estado de saúde das matrizes.
investigação. Essas informações podem ser consultadas nos sites oficiais de cada instituição.
Essa ferramenta tem contribuído significativamente para a rotina dos profissionais de campo, ampliando a capacidade de identificação e acompanhamento de alterações que nem sempre são evidentes apenas pela avaliação clínica.
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Saúde de Matrizes
Embora esses achados devam ser
Saúde de Matrizes
CONSIDERAÇÕES FINAIS O monitoramento do estado de saúde das matrizes, por meio das ações sistêmicas e complementares apresentadas ao longo deste artigo, deve ser cada vez mais intensificado e disseminado entre todos os profissionais envolvidos na produção de suínos. Para que essa abordagem seja efetivamente incorporada à rotina das granjas, a capacitação contínua de profissionais e operadores torna-se fundamental. Cuidar da saúde das matrizes é, portanto, uma ação que transcende o indivíduo e repercute sobre todo o sistema produtivo.
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