Skip to main content

Revista suínoBrasil - 1º Trimestre de 2026

Page 1


pág. 36

DA NANOESCALA AO CAMPO:

COMO A NANOTECNOLOGIA PODERÁ REDEFINIR A SUINOCULTURA MODERNA

Ronise F. R. Depner

CEO da Gaia Nanoscience

Médica Veterinária, Dra.

Asuinocultura brasileira chega a 2026 em uma posição mais robusta do que em ciclos anteriores, mas isso não torna o ano mais simples. Ao contrário: quanto maior o espaço conquistado pelo setor, maior também a exigência por coordenação, competitividade e capacidade de resposta diante de um ambiente internacional mais sensível.

A consolidação do Brasil entre os principais exportadores mundiais de carne suína é um marco importante. Mas, mais do que celebrar posição, é hora de compreender o que esse novo patamar exige da cadeia. Um ano eleitoral, por si só, já impõe a necessidade de vigilância institucional. O setor precisa garantir que suas pautas estejam contempladas em temas decisivos para a competitividade, como infraestrutura, logística, ambiente regulatório e condições para produzir e exportar com eficiência.

Ao mesmo tempo, o cenário internacional passa por mudanças profundas. A lógica da geopolítica global está em transformação. Conflitos, tarifas, instabilidade entre blocos e reorganização dos fluxos comerciais afetam diretamente os mercados e alteram oportunidades. Para a suinocultura, isso significa um ambiente externo mais sensível, em que não basta ter produto: é preciso saber como o Brasil está posicionado para transformar problemas em oportunidade.

Mas esse movimento também exige uma reflexão interna. Antes de tudo, o setor precisa olhar para sua própria organização. Qual é o nosso papel? Como estamos nos estruturando para responder a um mercado mais exigente? Em momentos de maior pressão geopolítica, crescem também as exigências qualitativas. Barreiras não tarifárias, condicionantes

sanitárias e regras comerciais tendem a ganhar peso, e isso cobra consistência de toda a cadeia.

A sanidade, nesse contexto, permanece como ativo central. Mas ela não atua sozinha. É preciso atenção igualmente rigorosa a custos, produtividade, padronização e coordenação entre os elos. A dinâmica dos grãos continua sendo uma variável determinante para a margem, e a leitura de oferta e demanda precisa ser feita com responsabilidade. O setor não pode criar desequilíbrios que depois se transformem em problema de mercado.

Há, sim, fundamentos para confiança. A suinocultura brasileira avançou em competitividade, profissionalização e inserção internacional. O mercado interno também ganhou relevância como suporte em períodos de maior volatilidade externa. Mas 2026 não se apresenta como um ano de automatismos. Será um ano para estratégia, cautela e capacidade de adaptação.

Mais do que crescer, o desafio será crescer com consistência. Mais do que ocupar espaço, será preciso sustentar reputação e previsibilidade. E mais do que reagir aos movimentos do mercado, será necessário antecipá-los.

A suinocultura brasileira chega forte a este novo ciclo. Mas os melhores resultados virão para aqueles que conseguirem unir visão de cenário, disciplina de gestão e capacidade de execução.

Antonio

EDITOR AGRINEWS

PUBLICIDADE

Luiz Carlos de Sousa Júnior +55 15 99121-2081

comercial.suinobrasil@agrinewsgroup.com

DIREÇÃO TÉCNICA

José Antônio Ribas Jr.

COORDENAÇÃO TÉCNICA E REDAÇÃO

Cândida P. F. Azevedo suinobrasil@grupoagrinews.com

ANALISTA TÉCNICO

Henrique Cancian

COLABORADORES

Cândida Azevedo

Priscila Beck

Vitória Karolina Timbola

Heckler

Gabriela Miotto Galli

Carlos Kippert

Marcos Kipper

Ines Andretta

Fernanda F. Abranches

Felipe N. A. Ferreira

Clarice S. Silva Neta

ADMINISTRAÇÃO

Priscila Beck +55 (15) 9 9682-2274

Jeferson P. Santana

Gabriel C. Rocha

Bruno Silva

Ronise Depner

Cleandro Pazinato Dias

Jade Pellenz

Fabricio Murilo Beker

Lia Coswig

Ygor Henrique de Paula

Suzana Cortiano Stubert

Matheus de Oliveira Costa

Avenida: Adalgisa Colombo, 135. Jacarépaguá. Rio de Janeiro – RJ. Cep.: 22775-026 priscila@agrinewsgroup.com www.porcinews.com

Preço da assinatura anual: Brasil 30 $ Internacional 90 $ Periodicidade: trimestral

ISSN 2965-4238

04

Ração eficiente começa na matéria-prima: o papel estratégico dos grãos

Cândida Azevedo

Coordenadora Técnica suínoBrasil

08

Ganho compensatório: estratégia nutricional ou risco produtivo?

Vitória Karolina Timbola Heckler¹, Gabriela Miotto Galli², Carlos Kippert³, Marcos Kipper4 e Ines Andretta5

¹Zootecnista | Nutrição animal | Qualidade de Rações | UFRGS

²Zootecnista | Nutrição Animal | Pesquisa e Desenvolvimento | UFRGS

³Zootecnista | Nutrição Animal | Consultoria | UFRGS

4 Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul | UFRGS

5Professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul | UFRGS

14

Efeitos do uso de aditivos nutricionais sobre o desempenho reprodutivo, fisiológico e produtivo de matrizes suínas durante gestação

Fernanda F. Abranches¹, Felipe N. A. Ferreira², Clarice S. Silva Neta², Jeferson P. Santana¹, Gabriel C. Rocha¹ ¹Departamento de Zootecnia, Universidade Federal de Viçosa (UFV)

²Agroceres Multimix

22

Menos poesia, mais tecnologia: ambiência como fator decisivo na eficiência da produção

Bruno Silva

Professor e Pesquisador Universidade Federal de Minas Gerais

28

Com R$ 80 milhões, Agroceres Multimix lança divisão agCare e mostra à suinocultura como transformar prolificidade em desmame

Priscila Beck

Diretora de Comunicação agriNews Brasil

52

36

42

Da nanoescala ao campo: como a nanotecnologia poderá redefinir a suinocultura moderna

Ronise Depner

CEO da Gaia Nanoscience Médica Veterinária, Dra.

54

Estratégias de biosseguridade pós-PSC no Brasil

Lia Coswig

Chefe Divisão de Sanidade de Suídeos - DISS/CGPS

46

TechnoSpore: Probiótico

Estratégico para Integridade Intestinal de Suínos

Equipe Técnica Biochem

58

Transição das celas individuais para baias coletivas no Brasil

Cleandro Pazinato Dias¹, Jade

Pellenz² e Fabricio Murilo Beker³

¹Sócio Proprietário da Akei Animal Research e da Fazenda Seis Amigos.

Consultor de bem-estar de suínos (cleandro@ cleandrodias.com.br)

²Especialista em Bem-estar animal do Fomento Agropecuário da Pamplona Alimentos S/A (jade.pellenz@pamplona. com.br)

³Gerente de Fomento Agropecuário da Pamplona Alimentos S/A (fabricio.beker@pamplona.com.br)

Eficiência produtiva e rentabilidade: a visão estratégica das curvas de consumo

Jefferson Bastos Alves

Consultor técnico comercial na Agroceres Multimix

Disenteria suína: A complexidade por trás de um controle ainda desafiador

Ygor Henrique de Paula¹; Suzana Cortiano Stubert² ; Matheus de Oliveira Costa³

¹Pesquisador de pós-doutorado - University of Saskatchewan – Canadá.

²Mestranda - University of Saskatchewan –Canadá.

³Professor associado - University of Saskatchewan – Canadá.

porcinews.com

RAÇÃO EFICIENTE COMEÇA NA MATÉRIA-PRIMA: O PAPEL ESTRATÉGICO DOS GRÃOS

Coordenadora

Produtor: Bom dia! Tenho ouvido muito falar sobre controle de qualidade dos grãos usados na ração, mas confesso que, na prática, ainda vejo isso como algo distante da rotina da granja. Afinal, por que esse tema é tão importante para a produção de suínos?

Técnico: Bom dia! Essa é uma dúvida comum. O controle de qualidade dos grãos é fundamental porque eles representam a maior parte da ração e, consequentemente, do custo de produção.

Papo de granja

Mais do que custo, estamos falando de desempenho zootécnico, sanidade, bem-estar animal e até segurança alimentar. Um grão de baixa qualidade pode comprometer todo o sistema produtivo.

Produtor: Quando falamos em “qualidade do grão”, o que exatamente devemos observar?

Técnico: Qualidade envolve vários aspectos. Começa pela qualidade nutricional, como teor de energia, proteína e digestibilidade.

Mas também inclui fatores físicos, como grãos quebrados, impurezas e umidade, e fatores sanitários, principalmente a presença de fungos e micotoxinas. Todos esses pontos impactam diretamente o consumo de ração e o desempenho dos suínos.

Produtor: Vamos por partes. Em relação à nutrição, como a qualidade do grão interfere no desempenho dos animais?

Técnico: Grãos mal armazenados ou colhidos fora do ponto ideal podem perder valor nutricional. Um milho com menor densidade energética, por exemplo, reduz o ganho de peso diário dos suínos ou aumenta a conversão alimentar. Na prática, o produtor acaba gastando mais ração para produzir o mesmo quilo de carne.

Produtor: E quanto aos aspectos físicos, como grãos quebrados ou impurezas, isso realmente faz tanta diferença?

Técnico: Faz sim. Impurezas como palha, terra e sementes de plantas daninhas diluem o valor nutricional da ração.

Já os grãos quebrados aumentam a superfície de contato, facilitando o crescimento de fungos durante o armazenamento.

Além disso, eles prejudicam a moagem e a homogeneidade da ração, o que afeta o consumo uniforme pelos animais.

Produtor: Você mencionou fungos e micotoxinas. Esse é um assunto que preocupa bastante. Qual é o real risco para a suinocultura?

Técnico: É um dos maiores riscos. As micotoxinas são substâncias tóxicas produzidas por fungos que se desenvolvem nos grãos, tanto no campo quanto no armazenamento.

Mesmo em baixas concentrações, elas podem causar redução de consumo, queda de ganho de peso, problemas reprodutivos, imunossupressão e aumento da mortalidade.

Muitas vezes, o produtor não percebe de imediato, mas os prejuízos vão se acumulando.

Produtor: Então o problema não é só quando o grão está visivelmente mofado?

Técnico: Exatamente. Esse é um erro comum.

Grãos aparentemente normais podem conter micotoxinas, que não alteram cor, cheiro ou sabor de forma perceptível. Por isso, o controle de qualidade não pode ser apenas visual; ele precisa incluir análises laboratoriais e manejo adequado desde a compra até o armazenamento.

Produtor: Falando em compra, o controle de qualidade começa já na aquisição dos grãos?

Técnico: Sem dúvida. O ideal é trabalhar com fornecedores confiáveis, exigir laudos de qualidade e estabelecer padrões mínimos de umidade, impurezas e contaminação.

Quando possível, fazer uma análise de amostras antes de fechar grandes volumes de compra ajuda a evitar problemas futuros.

Papo de granja

Produtor: E no armazenamento dentro da propriedade, quais cuidados são essenciais?

Técnico: O armazenamento é um ponto crítico. É preciso controlar:

Umidade

Manter silos limpos

Evitar infiltrações e

Monitorar a temperatura dos grãos.

Grãos úmidos e quentes são o ambiente perfeito para fungos. Além disso, o sistema “todos dentro, todos fora (all in, all out)” ajuda a evitar que grãos fiquem armazenados por tempo excessivo.

Produtor: Muitos produtores usam aditivos, como sequestrantes de micotoxinas. Isso substitui o controle de qualidade?

Técnico: Não substitui, apenas complementa. Os sequestrantes são ferramentas importantes, principalmente em regiões com maior risco de contaminação, mas eles não resolvem um problema grave de qualidade do grão.

Se a matéria-prima estiver muito comprometida, nem o melhor aditivo consegue neutralizar todos os efeitos negativos.

Produtor: Existe diferença na importância do controle de qualidade conforme a fase de produção dos suínos?

Técnico: Sim. Leitões na fase inicial são muito mais sensíveis a variações nutricionais e à presença de micotoxinas.

Matrizes também merecem atenção especial, pois grãos de baixa qualidade podem afetar fertilidade, taxa de parto e vitalidade dos leitões.

Já na terminação, o impacto aparece mais claramente na conversão alimentar e no tempo até o abate.

Produtor: Do ponto de vista econômico, como justificar o investimento em controle de qualidade?

Técnico: O controle de qualidade deve ser visto como investimento, não custo. Quando o produtor reduz perdas, melhora a conversão alimentar, diminui problemas sanitários e aumenta a uniformidade do lote, o retorno é claro.

Muitas vezes, um pequeno gasto com análises e manejo evita prejuízos muito maiores ao longo do ciclo produtivo.

Produtor: Para quem está começando ou quer melhorar esse processo, por onde você recomenda iniciar?

Técnico: O primeiro passo é a conscientização: entender que a qualidade do grão é estratégica.

Depois, estabelecer rotinas simples, como:

Inspeção na chegada do grão

Controle de umidade

Limpeza dos silos e, sempre que possível,

Análises laboratoriais.

Contar com apoio técnico também faz muita diferença para interpretar resultados e tomar decisões corretas.

Produtor: Muito obrigado! São muitas informações para considerar e aplicar na rotina da granja!

Técnico: A principal mensagem é que a ração começa no grão. Não adianta investir em genética, sanidade e manejo se a base alimentar não tiver qualidade.

O controle de qualidade dos grãos é um dos pilares da suinocultura moderna, eficiente e sustentável. Quem cuida bem dessa etapa colhe resultados em desempenho, saúde animal e rentabilidade.

Ração eficiente começa na matéria-prima: o papel estratégico dos grãos BAIXAR EM PDF

Papo de granja

GANHO COMPENSATÓRIO: ESTRATÉGIA NUTRICIONAL

OU RISCO PRODUTIVO?

Vitória Karolina Timbola Heckler1, Gabriela Miotto Galli2, Carlos Kippert3, Marcos Kipper4 e Ines Andretta5

1Zootecnista | Nutrição animal | Qualidade de Rações | UFRGS

2Zootecnista | Nutrição Animal | Pesquisa e Desenvolvimento | UFRGS

3Zootecnista | Nutrição Animal | Consultoria | UFRGS

4Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul | UFRGS

5Professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul | UFRGS.

Oganho compensatório, também denominado crescimento compensatório, refere-se à capacidade dos animais de apresentarem taxas de crescimento superiores às esperadas após um período prévio de restrição.

Esse fenômeno ocorre quando, após a retomada de condições adequadas de alimentação e manejo, os suínos passam a apresentar respostas adaptativas no metabolismo e na utilização dos nutrientes, resultando na aceleração do ganho de peso.

Em determinadas situações, isso permite a recuperação parcial ou total do desempenho anteriormente perdido.

Apesar de amplamente discutido, o ganho compensatório permanece um tema controverso na literatura científica e na prática da suinocultura, com resultados variáveis e fortemente dependentes das condições em que a restrição e a realimentação são aplicadas.

Ao longo deste artigo, serão discutidos os principais conceitos, mecanismos fisiológicos, evidências experimentais e limitações associadas ao ganho compensatório em suínos, com foco em suas implicações práticas para o manejo nutricional e produtivo.

Um primeiro aspecto a ser considerado diz respeito à natureza da restrição nutricional, que pode ocorrer tanto pela limitação da quantidade de ração ofertada (restrição quantitativa), quanto pela alteração de aspectos específicos da dieta (restrição qualitativa), geralmente energia, proteína ou aminoácidos essenciais.

Além disso, é importante reconhecer que reduções de consumo relacionadas a desafios sanitários ou ambientais configuram um contexto distinto, cujas respostas produtivas e fisiológicas não deveriam ser automaticamente interpretadas sob a lógica do ganho compensatório.

Durante o período de restrição, é esperado que os suínos apresentem redução das taxas de crescimento, acompanhada por adaptações fisiológicas e hormonais.

Essas adaptações geralmente incluem diminuição das concentrações plasmáticas de insulina e do fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1 (IGF-1), além de aumento relativo da secreção do hormônio do crescimento.

Esses ajustes favorecem a mobilização de reservas corporais e a redução do gasto energético associado à mantença. No nível tecidual, a restrição alimentar afeta principalmente o crescimento muscular.

Paralelamente, órgãos mais metabolicamente ativos, como o fígado e o trato gastrointestinal, podem apresentar redução de tamanho e da atividade funcional, contribuindo para a diminuição das exigências de mantença do animal durante o período restritivo (Ryan et al., 1993).

Com a retomada do fornecimento adequado de nutrientes, em alguns contextos, pode ocorrer aumento do consumo voluntário e/ou melhora da eficiência alimentar, com priorização da deposição de tecidos corporais.

Essas respostas resultam das adaptações metabólicas desenvolvidas durante a fase de restrição e caracterizam o ganho compensatório (Hornick et al., 2000).

No entanto, a magnitude dessa resposta depende diretamente da intensidade e duração da restrição, da idade dos animais e da qualidade da dieta na fase de realimentação, de modo que restrições severas podem limitar a recuperação completa do desempenho produtivo.

A recuperação do desempenho também está associada à normalização do perfil hormonal, com elevação das concentrações plasmáticas de insulina e IGF-1 e ajustes na regulação endócrina e metabólica associados à retomada do crescimento e da atividade metabólica anteriormente reduzida de órgãos como o fígado e o trato gastrointestinal (Ryan et al., 1993).

Esses mecanismos podem contribuir para alterações temporárias na eficiência de uso dos nutrientes ingeridos e para taxas de crescimento superiores às observadas em animais que não passaram por restrição.

Em um estudo conduzido com 280 fêmeas suínas (Heckler et al., 2026, dados preliminares), foram avaliados os efeitos da restrição nutricional de lisina digestível sobre o desempenho produtivo e as características de carcaça.

Diferentes estratégias nutricionais foram testadas, incluindo um programa alimentar referência (Basal), um programa com suplementação de 10% da lisina digestível (Sup10), e outros com redução de 10% da lisina digestível em relação à dieta basal durante todo o período (Red10) ou aplicada durante 30% do período inicial (Rest30) ou durante 60% do período inicial (Rest60).

Os resultados preliminares indicaram que, quando adequadamente planejadas, restrições moderadas de lisina digestível podem ser aplicadas sem prejuízos evidentes ao peso final (P = 0,305).

Da mesma forma, o rendimento de carcaça não foi afetado pelos tratamentos (P = 0,534; Figura 1), embora a confirmação de ganho compensatório exija avaliação detalhada da dinâmica de crescimento ao longo do período de realimentação.

Figura 1: Rendimento de carcaça (%) de suínos submetidos a distintos tratamentos restritivos1

1Basal (programa alimentar referência), Sup10 (incremento de 10% da lisina digestível), Red10 (redução de 10% da lisina digestível em relação à dieta basal), Rest30 (redução de 10% da lisina digestível aplicada até 30% do período inicial) e Rest60 (redução de 10% da lisina digestível aplicada até 60% do período inicial). Fonte: Autor

Esses resultados corroboram com os achados de Therkildsen et al. (2004), que observaram melhora do ganho de peso diário e da eficiência alimentar em suínos submetidos à restrição alimentar seguida de realimentação adequada.

Além disso, a fase fisiológica em que ocorre a restrição é considerada um fator crítico, uma vez que restrições aplicadas em fases iniciais de crescimento, antes de os animais atingirem seu máximo potencial de deposição proteica (PDmax), tendem a apresentar maior capacidade de recuperação total quando comparadas às restrições realizadas em fases mais avançadas de crescimento. Rendimento de carcaça

De acordo com Menegatt et al. (2020), a recuperação do desempenho produtivo após a restrição de lisina ou proteína na dieta depende diretamente da intensidade da restrição e da qualidade da dieta fornecida na fase de realimentação.

Restrições moderadas podem permitir compensação parcial ou total do ganho de peso e da eficiência alimentar, enquanto restrições severas podem comprometer a recuperação completa do crescimento e da composição da carcaça.

Os autores destacaram que, quando a restrição não foi excessiva e quando o período de recuperação foi suficientemente longo em relação ao período de restrição, pode ser possível obter recuperação total do peso corporal, sem prejuízos relevantes ao rendimento e à qualidade da carcaça.

Uma limitação recorrente nos estudos que avaliam crescimento compensatório é o foco, quase exclusivo, em ganho de peso e desempenho zootécnico, sem a devida avaliação das consequências desses programas sobre a composição corporal dos animais.

relevante, uma vez que o aumento do peso corporal não reflete necessariamente maior deposição de tecido muscular, podendo estar associado ao incremento de tecido adiposo, massa visceral ou peso de órgãos, o que compromete a interpretação dos resultados produtivos e metabólicos.

Conforme destacado por Lovatto et al. (2006), alterações no padrão nutricional afetam de forma diferenciada a deposição dos diversos tecidos corporais, reforçando a importância de se avaliar não apenas o crescimento em termos quantitativos, mas também qualitativos.

Embora o ganho compensatório possa representar um mecanismo adaptativo relevante na suinocultura, a recuperação do desempenho não é garantida em todas as situações, devendo ser considerada dentro de limites fisiológicos que preservem o potencial produtivo e o bem-estar dos animais (Menegatt et al., 2020; Lovatto et al., 2006).

Nesse contexto, condições adequadas de sanidade, ambiente e manejo, apropriados são determinantes para o sucesso da resposta compensatória, uma vez que distúrbios sanitários, desafios entéricos ou estressores ambientais podem comprometer a eficiência de utilização dos nutrientes e limitar a retomada do crescimento.

Estratégias de restrição de lisina digestível podem ser mais favoráveis quando limitadas entre 10 e 30% da quantidade fornecida.

Além disso, a duração da restrição não deve ultrapassar aproximadamente 40-45% do tempo total da fase, sendo recomendável que o período de recuperação (realimentação) corresponda a, no mínimo, 55-60% dessa fase (Menegatt et al., 2020).

Essas estratégias devem ser aplicadas com cautela, respeitando os limites fisiológicos dos animais e considerando o PDmax, que varia de acordo com a genética e o sexo. Assim, práticas de restrição são mais indicadas nas fases de crescimento e terminação, evitando períodos iniciais de vida (como maternidade e creche), nos quais o potencial de recuperação é mais limitado.

Curva de crescimento com restrição Curva de crescimento sem restrição

Desempenho Produtivo

Restriçãorestriçãonutricional/ alimentar

Tempo

Recuperação/ganho compensátorio

Um aspecto de elevada relevância nesse contexto refere-se ao custo de produção, uma vez que, quando o mecanismo de recuperação é adequadamente explorado durante a fase de realimentação, os animais podem em determinadas condições atingirem o final do ciclo produtivo com peso corporal e desempenho de carcaça semelhantes aos de animais alimentados continuamente à vontade, com potencial redução no custo alimentar total.

Essa resposta pode resultar em melhor eficiência econômica e, consequentemente, em possível redução do custo por unidade de produto gerado, considerando que a alimentação representa a principal fração dos custos na suinocultura.

O ganho compensatório representa um importante mecanismo adaptativo e pode contribuir para a eficiência produtiva em determinadas condições, porém não deve ser interpretado como uma estratégia de manejo aplicável indiscriminadamente.

É fundamental que os efeitos destes manejos sejam estudados a nível de deposição de tecidos específicos, avaliando detalhadamente a partição da composição corporal final (e não apenas o peso final).

A adequada compreensão de seus mecanismos fisiológicos, limites nutricionais, variabilidade de resposta e possíveis riscos produtivos é fundamental para embasar decisões técnicas mais seguras, economicamente viáveis, sustentáveis e alinhadas aos princípios de bemestar animal e eficiência produtiva na cadeia suinícola.

Referências Bibliográficas Sob consulta aos autores.

Figura 2: Conceito de ganho compensatório em suínos. Fonte: Autor
Ganho compensatório: estratégia nutricional ou risco produtivo?
BAIXAR EM PDF

EFEITOS DO USO DE ADITIVOS

NUTRICIONAIS SOBRE

O DESEMPENHO REPRODUTIVO, FISIOLÓGICO E PRODUTIVO DE

MATRIZES

SUÍNAS DURANTE GESTAÇÃO E LACTAÇÃO

Fernanda F. Abranches1, Felipe N. A. Ferreira2, Clarice S. Silva Neta2, Jeferson P. Santana1, Gabriel C. Rocha1

1Departamento de Zootecnia, Universidade Federal de Viçosa (UFV)

2Agroceres Multimix

Introdução

O avanço genético da suinocultura elevou, significativamente, a prolificidade das matrizes, e isso exige que a fêmea trabalhe metabolicamente muito mais para sustentar leitegadas maiores. O maior número de fetos aumenta a pressão metabólica, oxidativa e imunológica, tanto na gestação quanto na lactação.

Nesse cenário, cresce o interesse por aditivos nutricionais que ajudem a manter a matriz saudável, sustentem a produção de leite e reduzam perdas produtivas. Os aditivos podem atuar diminuindo o estresse oxidativo, fortalecendo a imunidade e melhorando a saúde intestinal e a eficiência placentária.

Assim, entender seus mecanismos de ação ajuda a definir quando usar probióticos, prebióticos, fitogênicos, ácidos graxos ou aminoácidos funcionais para melhorar desempenho reprodutivo e produtivo das granjas.

Fisiologia e Metabolismo das Matrizes Suínas

A gestação é dividida em três fases funcionalmente distintas, sendo caracterizadas por demandas específicas:

No terço inicial ocorre a implantação embrionária e o início da organogênese

No terço nal ocorre o maior acúmulo de massa fetal, responsável por mais de 60% do peso nal ao nascimento

No terço intermediário há crescimento fetal progressivo

Ao longo dessas fases, a matriz modifica seu metabolismo energético, proteico e lipídico, ajustando parâmetros hemodinâmicos, hormonais e imunológicos fundamentais ao sucesso gestacional.

Em linhagens hiperprolíficas, o aumento do número de fetos está associado ao maior estresse oxidativo, limitação da capacidade uterina e maior competição por nutrientes, resultando em menor peso ao nascer, leitegadas mais heterogêneas e maior taxa de natimortalidade.

Por isso, ajustes placentários, maior vascularização e transferência eficiente de nutrientes tornam-se essenciais para bons resultados.

No período de transição, que compreende cerca de 5 dias antes do parto e 3 dias após o parto, a fisiologia da fêmea sofre modificações substanciais, como o rápido crescimento da glândula mamária e produção de colostro.

Fêmea

Na fase de lactação a matriz apresenta balanço energético negativo, pois a produção de leite aumenta mais rápido do que o consumo de ração.

Probióticos e Prebióticos

Probióticos e prebióticos, amplamente estudados em matrizes, se destacam pelos:

Isso leva à mobilização de gordura e proteína corporal, com impacto direto no retorno ao cio e na eficiência reprodutiva do próximo ciclo. Simultaneamente, ocorrem alterações endócrinas destinadas a priorizar o direcionamento de nutrientes às glândulas mamárias para sustentar a produção de leite.

Efeitos sobre a microbiota

Melhorar a imunidade materna

In uenciar a qualidade do colostro e do leite

A composição do colostro e do leite, especialmente os teores de gordura, proteína e imunoglobulinas, determina em grande parte o desempenho inicial dos leitões, sua sobrevivência e seu ganho de peso.

Aditivos Nutricionais

Os aditivos nutricionais são ferramentas importantes para modular o metabolismo, imunidade, microbiota e desempenho produtivo das matrizes. Sua função engloba desde a regulação da barreira intestinal até o suporte antioxidante e o aprimoramento da qualidade do colostro e do leite.

Embora atuem de maneiras diferentes — os probióticos fornecendo microrganismos benéficos e os prebióticos servindo de alimento para essa microbiota —, ambos acabam gerando efeitos muito semelhantes na matriz: aumentam a produção de ácidos graxos de cadeia curta, fortalecem a barreira intestinal e melhoram a resposta imune. Os probióticos aumentam os níveis de imunoglobulinas e melhoram a qualidade do colostro, o que garante uma transferência de imunidade mais eficiente e reduz a mortalidade dos leitões logo após o nascimento.

Além disso, seus efeitos antiinflamatórios e antioxidantes ajudam a manter a matriz mais estável durante a gestação e lactação, o que favorece uma placenta mais eficiente e, na prática, leitões mais bem desenvolvidos e mais vigorosos ao nascer.

Os prebióticos melhoram o perfil de ácidos graxos de cadeia curta produzidos pela matriz, o que ajuda a reduzir o pH intestinal, fortalecer a mucosa e diminuir a inflamação e o estresse oxidativo.

Além disso, eles influenciam o metabolismo energético, tornando a utilização de glicose mais eficiente por estimularem hormônios como GLP-1 e PYY, que regulam a liberação de insulina e glucagon. Isso significa uma matriz com melhor equilíbrio energético, maior capacidade de produzir leite e melhor recuperação corporal ao longo da lactação.

Os prebióticos também ajudam a matriz a usar a energia de forma mais eficiente. Eles ativam vias metabólicas, como a AMPK, que aumentam a captação e o uso da glicose pelos músculos e reduzem a produção interna de glicose pelo organismo. Na prática, isso significa uma matriz com melhor disponibilidade energética para produzir leite e com maior capacidade de recuperar a condição corporal ao longo da lactação.

Em conjunto, probióticos e prebióticos formam uma estratégia eficiente para:

a qualidade do colostro

Aumentar a produção de leite e, na prática,

Entregar leitões mais fortes e com melhor desempenho até o desmame.

Melhorar a saúde intestinal da matriz
Elevar

Fitogênicos

Fitogênicos são compostos de origem vegetal — como óleos essenciais e extratos — que atuam como antioxidantes, anti-inflamatórios e estimuladores da digestão, efeitos especialmente importantes para matrizes em fase de gestação e lactação.

Esses compostos conseguem modular vias metabólicas que reduzem a inflamação e aumentam a produção de enzimas antioxidantes.

Na prática, a suplementação durante a gestação tem sido associada a menor estresse oxidativo, melhor proteção das células e maior estabilidade da placenta, o que contribui para uma gestação mais segura e leitões mais viáveis ao nascimento.

Outro mecanismo relevante envolve sua ação antimicrobiana e moduladora da microbiota, que contribui para a melhora da digestibilidade e da utilização de nutrientes pela matriz.

Durante a lactação, fitogênicos aumentam o consumo de ração, melhoram o metabolismo lipídico e, em alguns estudos, aumentam o teor de gordura do leite, resultando em maior energia disponível para os leitões. Há também relatos de efeitos positivos na recuperação do peso corporal materno e redução da inflamação sistêmica pósparto.

Fitogênicos também exercem efeito antimicrobiano e ajudam a equilibrar a microbiota intestinal, o que melhora a digestibilidade e a eficiência de aproveitamento dos nutrientes pela matriz.

Na lactação, esses aditivos tendem a aumentar o consumo de ração e melhorar o metabolismo das gorduras, e alguns estudos mostram até maior teor de gordura no leite — o que significa mais energia para os leitões.

Embora não substituam uma dieta bem formulada e um manejo adequado, os fitogênicos podem complementar a nutrição da matriz e contribuir para melhores resultados reprodutivos e maior vigor dos leitões, especialmente em granjas que trabalham com fêmeas hiperprolíficas.

Ácidos Graxos de Cadeia Curta, Média e Ácidos Orgânicos

Os ácidos graxos de cadeia curta e média, assim como os ácidos orgânicos, desempenham papéis importantes no suporte à gestação e à lactação.

Esses compostos reduzem o pH intestinal e têm ação antimicrobiana direta, ao mesmo tempo em que favorecem a produção de acetato, propionato e butirato. Além disso, melhoram a integridade da mucosa, aumentam a altura das vilosidades e fortalecem a barreira intestinal, além de servirem como fonte eficiente de energia para as células do intestino.

A suplementação com ácidos graxos de cadeia curta tem sido associada a melhorias na composição do leite, a redução do tempo de parto e a uma microbiota mais equilibrada tanto nas matrizes quanto nos leitões.

Na prática, isso significa matrizes com melhor saúde intestinal e maior capacidade de absorção de nutrientes durante fases de alta exigência. Em matrizes, esses aditivos também modulam parâmetros metabólicos importantes, como glicose, insulina e IGF-1, influenciando diretamente a mobilização corporal e o metabolismo energético ao longo da lactação.

Esses efeitos ajudam a fêmea a lidar melhor com o estresse do parto e favorecem leitões mais vigorosos nas primeiras horas de vida.

Os ácidos graxos de cadeia média apresentam efeitos consistentes em parâmetros reprodutivos e produtivos, incluindo aumento do consumo de ração durante a lactação, redução do intervalo desmame-cio e melhorias na composição proteica e imunológica do colostro e do leite.

Esses benefícios resultam em uma matriz com melhor condição corporal, melhor desempenho reprodutivo no ciclo seguinte e leitegadas mais fortes e uniformes.

Aminoácidos Funcionais

Os aminoácidos funcionais são uma das ferramentas mais estratégicas na nutrição de matrizes, devido ao amplo efeito regulatório que exercem no organismo.

Entre eles, a arginina se destaca por melhorar a vascularização placentária, aumentando o fluxo de nutrientes para os fetos. Na prática, isso resulta em leitões mais pesados, menor natimortalidade e leitegadas mais uniformes.

A glutamina é o principal combustível das células intestinais e de defesa, favorecendo a renovação do epitélio e melhorando a integridade da mucosa.

A suplementação de glutamina tem sido associada a melhores resultados no desempenho dos leitões ao desmame, redução no tempo de parto e maior concentração de aminoácidos, especialmente os de cadeia ramificada, no colostro.

Além disso, a arginina ajuda a reduzir o estresse oxidativo e a modular a resposta imune da matriz, contribuindo para uma gestação mais estável e produtiva.

A glutamina e a treonina também desempenham papéis importantes para a saúde intestinal e o sistema imune das matrizes.

Já a treonina é essencial para a formação de mucinas, reforçando a barreira intestinal; sua suplementação durante gestação e lactação tem mostrado redução de inflamação intestinal e melhor eficiência na absorção de nutrientes.

O ácido guanidinoacético vem ganhando espaço como aditivo energético, pois aumenta os estoques de fosfocreatina e melhora a eficiência metabólica da matriz.

Evidências recentes mostram que esse composto pode elevar a expressão de IGF-1, modular neurotransmissores relacionados ao desempenho reprodutivo e melhorar a fertilidade. Há relatos de benefícios na vitalidade dos leitões e no aumento da produção de leite, reforçando seu potencial como ferramenta nutricional.

Estratégia Produtiva Integrada

Cada vez mais, observa-se a adoção de combinações de aditivos que atuam de forma sinérgica, permitindo abordagens multiponto capazes de influenciar microbiota, imunidade e metabolismo materno ao mesmo tempo. Quando integrados a uma estratégia nutricional adequada ao longo da gestação e lactação, esses aditivos contribuem para matrizes mais produtivas e leitegadas com melhor desempenho.

No entanto, é importante reforçar que eles não substituem manejo, nutrição e sanidade bem executados — são ferramentas que potencializam o sistema, mas somente quando inseridas em um programa de produção sólido.

Efeitos do uso de aditivos nutricionais sobre o desempenho reprodutivo, fisiológico e produtivo de matrizes suínas durante gestação e lactação

BAIXAR EM PDF

MENOS POESIA, MAIS TECNOLOGIA: AMBIÊNCIA COMO FATOR DECISIVO NA EFICIÊNCIA DA PRODUÇÃO

Durante o Congresso Nacional ABRAVES, o professor Bruno Silva (UFMG), coordenador do Núcleo de Estudos em Produção de Suinos (NEPSUI) e referência em nutrição e ambiência em clima tropical, falou à suinocultura brasileira sobre um tema recorrente — e ainda subestimado: o impacto da ambiência nos resultados produtivos.

A ambiência é tema frequente nos eventos do setor. Se todos já sabem que ela é importante, por que continuamos discutindo o assunto? Onde ainda estamos errando?

“Eu costumo dizer que, na produção de suínos — especialmente quando falamos de fêmeas — sobra poesia e falta tecnologia. Ainda há muita percepção empírica e pouca implementação real de soluções técnicas.”

O suíno é um animal extremamente exigente em termos de ambiente, sanidade e manejo. E o que vemos, na prática, são granjas operando com estruturas que não acompanham a evolução dos animais. Nos últimos 20 anos, houve um avanço significativo no potencial genético e na produtividade.

Hoje, um suíno produz cerca de 20% a mais de calor do que produzia duas décadas atrás.

Em clima tropical e subtropical, isso é decisivo. O animal moderno sente mais o calor do que o animal de 20 anos atrás — mas a estrutura de muitas granjas permanece a mesma. E quando se fala em adequação ambiental, o primeiro pensamento é custo. O produtor olha o investimento imediato, mas não calcula o que está perdendo.

No ano passado, estimamos um impacto de aproximadamente R$ 2 bilhões em perdas produtivas e reprodutivas na suinocultura nacional associadas ao estresse térmico.

Eficiência começa pelo ambiente: qual fator observar primeiro?

Temperatura! É o elemento climático mais fácil de medir e interpretar. Mas ela não atua sozinha. Hoje trabalhamos com o conceito de temperatura efetiva, que é a combinação entre:

Temperatura do ar Umidade

Velocidade do vento e Radiação.

“O que importa é a temperatura que incide sobre o animal. O suíno é homeotérmico e precisa manter sua temperatura corporal dentro de uma faixa estável. Quando o ambiente deixa de permitir isso, o metabolismo é alterado e surgem perdas produtivas,” conclui Bruno Silva.

Como a interação entre temperatura, umidade e ventilação impacta o desempenho?

O suíno não transpira e depende da frequência respiratória e das chamadas trocas sensíveis, que dependem do gradiente de temperatura entre a superfície corporal e o ambiente.

O calor sempre flui do meio mais quente para o mais frio. Se o ambiente está mais frio que a superfície do animal, ele perde calor. Se está mais quente, ele ganha calor.

O objetivo dos sistemas de climatização é otimizar esse gradiente e facilitar a dissipação térmica.

A ventilação acelera esse processo por convecção — o ar remove o calor da superfície corporal. Já a umidade pode dificultar a perda de calor pela respiração. Por isso falamos em temperatura efetiva.

Convecção

Para ilustrar: a 30°C com 65% de umidade, o impacto no desempenho pode ser de 250 a 300 gramas por animal por grau Celsius. Se essa umidade sobe para 90–95%, o impacto pode chegar a 500–600 gramas por grau.

Ou seja, o animal sente muito mais quando as variáveis se combinam de forma desfavorável.

Isso explica também por que o resfriamento evaporativo funciona em ambientes quentes e secos, mas perde eficiência em ambientes quentes e úmidos. É preciso entender o clima antes de definir o sistema.

Quando ambiência e nutrição estão alinhadas, qual é o primeiro sinal de ganho?

A expressão do potencial genético. Se o animal consegue manter sua temperatura corporal sem desviar energia para adaptação térmica, ele direciona recursos para crescimento e produção.

Quando há estresse por calor, a porca reduz a produção de leite, pode haver queda na taxa de crescimento dos leitões e até problemas reprodutivos. Ao melhorar o ambiente, o que vemos primeiro é recuperação de consumo e desempenho.

Em um cenário de orçamento limitado, onde investir primeiro para ter retorno rápido?

“Eu sempre pergunto: o que é mais importante, o produto ou a fábrica? A porca é a fábrica. Se ela não estiver em condições ideais, o leitão (o produto) também não estará.”

Portanto, a prioridade deve ser proteger a fêmea, especialmente na maternidade.

Ao garantir conforto térmico à porca, potencializamos a produção de leite e entregamos leitões mais pesados.

Há evidências mostrando que manter a porca a 17°C na maternidade, com aquecimento localizado para o leitão (piso aquecido ou escamoteador eficiente), melhora o desempenho geral. Atendese a porca sem comprometer o leitão.

Em estudos conduzidos na universidade, desenvolvemos sistemas de resfriamento de piso para porcas lactantes. Ao resfriar a área de contato da fêmea, aumentamos em cerca de 22% o consumo e até 25% a produção de leite. É possível modular o microclima da porca sem interferir no leitão.

Outro exemplo prático é o resfriamento da água de bebida. Ao fornecer água a 18°C, observamos aumento de 1 kg no consumo de ração da porca, com reflexos positivos na produção de leite. São intervenções relativamente simples e com retorno mensurável.

Existe um protocolo essencial que qualquer granja possa começar a aplicar imediatamente?

O primeiro passo é avaliar as condições climáticas reais dentro das instalações e ajustar ventilação e fluxo de ar. Muitas vezes, ganhos importantes vêm da melhoria na circulação de ar e da redução da carga térmica.

Na maternidade, é fundamental separar as necessidades térmicas da porca e do leitão. O desafio é justamente esse: a porca precisa de temperaturas mais baixas, enquanto o leitão demanda calor. Soluções que criem microclimas distintos são estratégicas.

A nutrição pode compensar falhas ambientais?

A nutrição ajuda a atenuar os efeitos do estresse térmico, mas não resolve o problema. Ela corrige alterações metabólicas causadas pelo calor, mas o animal continua estressado se o ambiente não mudar.

Jamais obteremos o mesmo resultado apenas ajustando a dieta se o ambiente continuar inadequado. A base é o conforto térmico.

Qual mensagem final o senhor deixa para o setor?

Nós temos ferramentas para reduzir os danos causados pelo ambiente. O que falta é decisão. É preciso investir no ambiente térmico das fêmeas. O retorno vem em produtividade, eficiência e resultado econômico.

Em resumo: menos poesia e mais tecnologia.

Menos poesia, mais tecnologia: ambiência como fator decisivo na eficiência da produção BAIXAR EM PDF

COM R$ 80 MILHÕES DE INVESTIMENTO, AGROCERES MULTIMIX LANÇA DIVISÃO

AGCARE E MOSTRA À SUINOCULTURA COMO

TRANSFORMAR PROLIFICIDADE EM DESMAME

Flavolac entra como prova prática de uma tese central da nova divisão: especialidade precisa responder à dor real da granja e sustentar resultado sob variabilidade de cenário.

Por Priscila Beck Diretora de Comunicação agriNews Brasil

Asuinocultura aprendeu a conviver com leitegadas cada vez maiores. O que continua longe de ser trivial é transformar esse avanço em mais leitões efetivamente desmamados, sem ampliar a mortalidade prédesmame nem aprofundar o desgaste da matriz.

Foi nesse ponto sensível da maternidade que a Agroceres Multimix ancorou o recorte suíno do lançamento da divisão agCare, nova divisão de especialidades da empresa, realizado em 5 de março, em Itatiba (SP).

Ao usar o Flavolac como case de sucesso, a companhia procurou mostrar que a nova divisão não nasce apenas como uma organização comercial de portfólio, mas como a vitrine de uma lógica de desenvolvimento baseada em dor de campo, validação técnica e resposta sob variabilidade de cenário.

Por trás dessa aposta, a empresa apresentou números que ajudam a dimensionar a escala da estrutura:

R$ 80 milhões investidos nos últimos cinco anos,

274 estudos cientí cos conduzidos e Cerca de 250 mil animais avaliados.

O AVANÇO AGORA TEM NOME

Ao longo de sua apresentação, Ricardo Ribeiral, diretor da Agroceres Multimix, deixou claro que a criação da divisão agCare não representa uma mudança repentina de rota, mas a formalização de um caminho construído ao longo dos últimos anos.

“A divisão agCare tem identidade própria porque por trás dela existe uma estrutura própria. Estamos mostrando ao mercado uma capacidade que a Agroceres Multimix já construiu internamente, com investimento, protocolo e time para desenvolver produtos de alta complexidade”, afirmou.

Segundo ele, a empresa ampliou progressivamente sua atuação em especialidades até consolidar um portfólio e uma estrutura capazes de sustentar o lançamento de uma divisão própria, com posicionamento mais claro para o mercado.

Na prática, isso significa dizer que a Agroceres Multimix quer ser percebida não apenas como fornecedora de premixes, núcleos e concentrados, mas também como uma empresa apta a desenvolver soluções de maior complexidade, baseadas em ciência aplicada e voltadas a desafios específicos do campo. Em especialidades, esse recado importa porque o mercado cobra mais do que composição. Cobra previsibilidade de resposta, estabilidade de produto, repetibilidade de resultado e suporte técnico consistente.

Esse discurso ganha ainda mais peso quando Ribeiral apresenta a base que sustenta a nova divisão.

Além dos R$ 80 milhões investidos e dos 274 estudos científicos, ele destacou que o centro de pesquisa da companhia já avaliou cerca de 250 mil animais em seus trabalhos e que, nos últimos três anos, 80% dos estudos conduzidos estiveram ligados a especialidades.

O objetivo da empresa, ao tornar essa estrutura mais visível, é deixar claro que a divisão agCare não nasce como vitrine comercial, mas como desdobramento de uma capacidade técnica já construída internamente.

Nutrição

POR TRÁS DE UMA ESPECIALIDADE

Parte importante do evento foi mostrar que o desenvolvimento de especialidades exige uma lógica diferente daquela aplicada a produtos convencionais. Esse ponto apareceu de forma clara nas falas de Tarley Araujo Barros, gerente de Pesquisa e Saúde Animal, e de Filipe Zanferari, responsável pela área de formulação e desenvolvimento.

Eles detalharam o nível de complexidade envolvido desde a identificação de uma necessidade de mercado até a entrega de uma solução pronta para uso. Tarley explicou que o processo começa muito antes da formulação final, envolvendo:

Escuta das demandas trazidas pelo campo,

Revisão aprofundada de literatura,

Discussão com a equipe técnica,

Revisão aprofundada de literatura,

Busca por alternativas tecnológicas,

Seleção criteriosa de ingredientes, De nição de protocolos,

Ensaios preliminares e validação experimental com desenho robusto.

Segundo ele, “a exigência sobre uma especialidade é maior porque ela precisa responder de forma consistente em diferentes condições de uso”, incluindo cenários mais próximos da realidade das granjas.

Esse rigor ajuda a sustentar o discurso da empresa de que especialidade, nesse contexto, não é apenas combinação de ativos, mas construção técnica orientada por problema real e resposta mensurável.

Filipe, por sua vez, aprofundou a discussão sobre variáveis menos visíveis, mas decisivas, no sucesso de uma especialidade. Em sua apresentação, mostrou que o desempenho de uma solução não depende apenas da escolha de ativos, mas também de fatores como:

Tamanho e formato de partículas,

Densidade,

Homogeneidade de mistura,

R isco de segregação,

Higroscopicidade,

D ispersibilidade em água,

Compatibilidade entre ingredientes,

Estabilidade térmica,

Oxidação,

Embalagem e

Vida útil.

Para a suinocultura, em que variações de processo, manejo e ambiente podem comprometer rapidamente a previsibilidade de resposta, esse ponto ganha relevância ainda maior.

QUASE UM LEITÃO A MAIS NA DESMAMA

Se Ricardo, Tarley e Filipe ajudaram a mostrar a robustez da estrutura que sustenta a divisão agCare, foi a apresentação de Felipe Ferreira que trouxe à suinocultura a prova prática mais clara do que essa lógica pode gerar em produto final.

O destaque foi o Flavolac, apresentado como um case de sucesso dentro do portfólio da empresa e usado no lançamento como evidência concreta da tese central da nova divisão.

Na validação conduzida pela Embrapa e pela Copérdia, em estudo com 251 fêmeas primíparas durante 21 dias, o Flavolac foi associado a:

Três quilos a menos de mobilização corporal, 600 gramas a mais de leite por dia e 6,5 quilos a mais na leitegada, que passou de 77,5 para 84 quilos.

Na leitura apresentada no evento, esse ganho equivale praticamente a um leitão a mais em peso de leitegada ao desmame.

Os primeiros resultados mostrados pela empresa já apontavam respostas relevantes. O uso do produto foi associado a:

Meio quilo a mais de leite por dia e

4,86 quilos a mais na leitegada desmamada,

Um ponto percentual a menos de mortalidade pré-desmame.

O case incluiu ainda validação em operação da JBS nos Estados Unidos, em Dalhart, no Texas, em estudo que deu origem a uma dissertação de mestrado na Kansas State University. Segundo Felipe, nessa condição, o produto foi associado a:

Dois pontos percentuais a menos de mortalidade pré-desmame e a

Três quilos a mais na leitegada.

Nutrição

Ao consolidar cerca de dez anos de estudos, a base apresentada pela empresa reuniu mais de duas mil matrizes avaliadas, com média de 6% a mais na produção de leite, 7% a mais no peso da leitegada desmamada e quase 10% menos mortalidade pré-desmame, em diferentes ordens de parto, materiais genéticos e programas nutricionais.

Esses resultados ajudam a explicar por que o Flavolac foi levado ao lançamento da divisão agCare como mais do que um produto de portfólio. O case foi apresentado como resposta a uma pergunta que fala diretamente à realidade das granjas:

Como sustentar o avanço da prolificidade sem ampliar, na mesma proporção, as perdas ao longo da maternidade?

PROLIFICIDADE NÃO GARANTE DESMAME

Ao organizar sua apresentação, Felipe mostrou que a suinocultura evoluiu fortemente em produtividade, com mais nascidos e maior pressão por eficiência, mas que esse ganho não elimina o gargalo que separa o nascimento do desmame.

Ao contrário, à medida que as leitegadas se tornam mais numerosas, cresce também a exigência sobre a matriz, sobre o manejo e sobre o ambiente, e é justamente nesse intervalo que parte importante da conta produtiva aparece.

A leitura apresentada pela empresa é a de que não basta comemorar o aumento do número de leitões nascidos, se uma parcela relevante desse potencial se perde antes do desmame.

A mortalidade pré-desmame segue como um dos pontos mais sensíveis da maternidade, e o problema se conecta diretamente à capacidade da fêmea de sustentar leitegadas mais exigentes sem intensificar excessivamente sua mobilização corporal.

Segundo Felipe, a empresa identificou, a partir de análises internas, que uma parcela importante da remoção de leitões da leitegada estava associada à insuficiência de produção de leite da matriz.

A partir desse diagnóstico, o desenvolvimento do produto buscou atuar justamente sobre esse elo crítico, com a proposta de aumentar a produção de leite, sustentar melhor o desempenho da leitegada e reduzir perdas sem ampliar o desgaste da fêmea.

O valor desse recorte está justamente em como ele reorganiza a conversa sobre produtividade.

O ganho não aparece apenas como desempenho adicional de um produto, mas como resposta a uma conta biológica e econômica que se tornou cada vez mais pesada dentro da maternidade.

Quando a fêmea precisa sustentar leitegadas maiores sob variabilidade de consumo, manejo e ambiente, qualquer estratégia que ajude a preservar condição corporal, aumentar produção de leite e reduzir perdas passa a ter impacto direto sobre o resultado do sistema.

LASTRO TÉCNICO

No conjunto, o lançamento da divisão agCare foi estruturado para transmitir ao mercado a ideia de que especialidades exigem ciência, método e escala.

E, no recorte da suinocultura, a empresa conseguiu sustentar esse discurso ao combinar números institucionais expressivos, explicação técnica do processo de desenvolvimento e um case ancorado em uma dor concreta da maternidade.

Para a Agroceres Multimix, a nova divisão surge como forma de organizar e tornar mais visível uma capacidade que, segundo a própria empresa, já vinha sendo construída internamente.

Para o setor suinícola, o movimento indica que a companhia quer disputar espaço em um campo no qual não basta lançar produtos, mas provar que há estrutura para desenvolvê-los, validá-los e sustentá-los tecnicamente.

Aponte sua câmera para o QRCode e assista ao vídeo “Por que sua nutrição pode estar falhando? O segredo da consistência entre lotes”

Com R$ 80 milhões, Agroceres Multimix lança divisão agCare e mostra à suinocultura como transformar prolificidade em desmame BAIXAR EM PDF

DA NANOESCALA AO CAMPO: COMO A NANOTECNOLOGIA PODERÁ REDEFINIR A SUINOCULTURA MODERNA

Ronise F. R. Depner

CEO da Gaia Nanoscience Médica Veterinária, Dra.

INTRODUÇÃO

A nanotecnologia desponta como uma das mais relevantes plataformas científicas do século XXI, promovendo avanços expressivos em saúde, agronegócio, energia e meio ambiente.

Na produção animal, seu potencial é particularmente estratégico para a suinocultura, setor historicamente reconhecido por sua elevada tecnificação, organização sanitária e rápida incorporação de inovação.

Mais do que uma evolução incremental, a nanotecnologia representa uma mudança de paradigma. Ao permitir a manipulação da matéria em escala nanométrica (1,0 × 10-⁹ m), abre-se um novo campo de possibilidades terapêuticas, diagnósticas, nutricionais e ambientais.

Em um cenário de pressão por maior biosseguridade, redução do uso de antimicrobianos e sustentabilidade ambiental, a aplicação estratégica dessas tecnologias pode redefinir padrões produtivos.

FUNDAMENTOS E PROPRIEDADES DA NANOESCALA

Em nanoescala, os materiais apresentam propriedades físico-químicas distintas daquelas observadas em dimensões maiores. A elevada relação área superficial/ volume aumenta a reatividade das partículas, modifica interações biológicas e altera padrões de absorção, distribuição e eliminação.

Nanopartículas podem ter vários formatos (esféricas, cúbicas, cilíndricas, tubulares) e quanto às dimensões podem ser 0D, 1D ou 2D. Pequenas variações em tamanho ou formato influenciam diretamente sua atividade biológica e possível toxicidade.

Partículas do mesmo material, mas com geometrias distintas, podem apresentar diferentes afinidades por tecidos, graus de penetração celular e comportamento metabólico.

Entre os principais nanomateriais aplicáveis à produção animal destacam-se:

Nanopartículas

metálicas (prata, cobre, ouro, zinco)

Nanocápsulas poliméricas

Nanoemulsões

Nanotubos de carbono e estruturas funcionalizadas do tipo “core-shell”, que permitem proteção da substância ativa e liberação controlada.

PLATAFORMAS DE LIBERAÇÃO

CONTROLADA

A nanoencapsulação é uma das aplicações mais consolidadas no setor produtivo. Ao encapsular princípios ativos em matrizes nanoestruturadas, é possível:

Proteger moléculas sensíveis da degradação gástrica;

Promover liberação gradual ao longo do trato intestinal;

Direcionar o ativo a tecidos específicos;

Reduzir doses terapêuticas;

Minimizar efeitos colaterais.

Sistemas funcionalizados permitem o chamado “drug delivery”, no qual moléculas são direcionadas a alvos celulares específicos. Na prática, isso pode significar antimicrobianos mais eficazes com menor impacto sobre microbiota benéfica ou adjuvantes vacinais com resposta imune mais robusta.

Em um contexto de restrição global ao uso indiscriminado de antibióticos, essas plataformas representam alternativa estratégica para manter eficiência produtiva sem ampliar pressão seletiva para resistência bacteriana.

APLICAÇÕES PRÁTICAS NA SUINOCULTURA

Terapias Antimicrobianas e Antiparasitárias

Nanopartículas metálicas, especialmente de prata e cobre, apresentam atividade antimicrobiana comprovada. Na suinocultura, podem ser incorporadas a formulações tópicas para tratamento de lesões cutâneas, dermatites e infecções secundárias.

Formulações nanoestruturadas de antimicrobianos permitem maior penetração tecidual e redução do número de aplicações. Em granjas com histórico de enterites recorrentes, sistemas de liberação controlada podem auxiliar na estabilização clínica com menor uso total de fármacos.

Nanocarreadores também estão sendo estudados para administração mais eficiente de antiparasitários, aumentando sua biodisponibilidade e reduzindo perdas metabólicas.

Superfícies e Ambientes Antimicrobianos

Vacinas e Imunomodulação

Nanopartículas podem atuar como adjuvantes vacinais, intensificando resposta imune humoral e celular. Isso pode ser especialmente relevante em programas de vacinação contra enfermidades de impacto econômico.

Vacinas nanoestruturadas tendem a demandar menor volume por dose e podem reduzir a necessidade de reforços frequentes, simplificando manejo sanitário e diminuindo estresse dos animais e perdas de peso ocasionados pelo manejo.

Biossensores e Monitoramento Sanitário

Biossensores baseados em nanotecnologia já permitem detecção rápida de patógenos em amostras biológicas, ambientais ou de ração. Em um sistema de produção intensiva, isso pode significar diagnóstico precoce de surtos, possibilitando intervenção antes da disseminação no plantel.

Sensores nanoestruturados também podem ser integrados a sistemas automatizados de monitoramento ambiental, detectando alterações microbiológicas em tempo real em salas de maternidade ou creche, por exemplo.

Revestimentos contendo nanopartículas antimicrobianas podem ser aplicados em:

Pisos de maternidade; Divisórias de baias; Equipamentos de alimentação;

Superfícies de frigorí cos;

Embalagens de alimentos e produtos de origem animal (maior shelf life)

Sistemas de transporte.

Essas superfícies reduzem carga microbiana residual e atuam como barreira adicional contra agentes como Salmonella spp, Mycoplasma hyopneumoniae, Pasteurella multocida, entre outros. Em programas de biosseguridade, funcionam como complemento às rotinas tradicionais de limpeza e desinfecção.

Tecidos técnicos com propriedades antimicrobianas também podem ser utilizados em uniformes, reduzindo contaminação cruzada entre setores.

Em sistemas intensivos, a diminuição da pressão infecciosa ambiental pode refletir diretamente em melhores índices zootécnicos, ganho de peso diário, conversão alimentar, além de reduzir a necessidade de intervenções terapêuticas.

Nutrição de Precisão

A suplementação mineral em nanoescala é uma das áreas mais promissoras. Zinco, cobre e selênio nanoestruturados apresentam maior absorção intestinal, permitindo redução nas taxas de inclusão e menor excreção ambiental.

Na fase de creche, nanoencapsulação de ácidos orgânicos e óleos essenciais pode melhorar estabilidade intestinal, auxiliar no controle de diarreias e promover melhor conversão alimentar.

Probióticos protegidos por nanoencapsulação também apresentam maior sobrevivência ao trânsito gástrico, aumentando colonização intestinal benéfica.

Qualidade da Água e Tratamento de Efluentes

Membranas nanoestruturadas e filtros com partículas magnéticas ampliam a eficiência na remoção de contaminantes da água de bebida. Isso pode reduzir desafios sanitários associados à qualidade hídrica.

No tratamento de dejetos, nanopartículas com propriedades catalíticas podem auxiliar na degradação de compostos orgânicos e reduzir carga microbiana, contribuindo para sustentabilidade ambiental da atividade.

INTEGRAÇÃO COM A AGRICULTURA E CADEIA DE GRÃOS

A nanotecnologia aplicada à agricultura impacta indiretamente a suinocultura. Fertilizantes de liberação controlada, sensores de estresse vegetal e sistemas de entrega direcionada de defensivos aumentam produtividade e qualidade dos grãos.

Maior eficiência na produção de milho e soja reflete diretamente na formulação de rações, contribuindo para previsibilidade nutricional e redução de custos.

SEGURANÇA, REGULAÇÃO E RESPONSABILIDADE

Apesar do potencial transformador, a adoção da nanotecnologia exige cautela. Avaliações de citotoxicidade, ecotoxicidade e bioacumulação precisam ser realizadas corretamente em cada nova aplicação desenvolvida.

Em um setor sensível a barreiras sanitárias, como demonstrado pelos impactos globais de Peste Suína Clássica (PSC) e Peste Suína Africana (PSA), a implementação de novas tecnologias deve estar alinhada a marcos regulatórios consistentes e baseados em evidências científicas.

A suinocultura, por sua organização e capacidade técnica, encontra-se em posição privilegiada para liderar a adoção responsável dessas soluções.

A nanotecnologia não deve ser vista apenas como tendência futurista, mas como ferramenta concreta de ganho produtivo, sanitário e ambiental. Suas aplicações práticas já começam a emergir no campo, especialmente em terapias mais eficientes, superfícies antimicrobianas, nutrição de precisão e monitoramento sanitário.

A questão central não é se a nanotecnologia fará parte da suinocultura, mas como e em que ritmo será incorporada. Com critérios técnicos sólidos, avaliação de segurança rigorosa e integração estratégica à gestão sanitária, essa ciência tem potencial para representar o próximo grande salto evolutivo do setor.

Da nanoescala ao campo: como a nanotecnologia poderá redefinir a suinocultura moderna BAIXAR EM PDF

TECHNOSPORE: PROBIÓTICO ESTRATÉGICO PARA INTEGRIDADE INTESTINAL DE SUÍNOS

Omanejo da saúde intestinal consolidou-se como estratégia na suinocultura moderna, especialmente em um cenário que exige maior eficiência produtiva, uso racional de recursos e garantia de segurança alimentar. Os probióticos assumem papel importante nessa estratégia.

Quando administrados em quantidades adequadas, esses microrganismos vivos promovem equilíbrio da microbiota intestinal, fortalecem mecanismos de defesa locais e contribuem para um trato gastrointestinal mais funcional. Como benefícios, observa-se:

Entre os grupos mais utilizados na nutrição animal destacam-se as bactérias ácido láticas e espécies do gênero Bacillus

As bactérias ácido láticas são reconhecidas pela produção de ácido lático e pela capacidade de adesão ao epitélio intestinal, favorecendo exclusão competitiva de patógenos. Já os Bacillus apresentam como diferencial a formação de esporos, característica que garante elevada resistência ambiental e estabilidade durante processos térmicos, como a peletização de rações.

Equipe Técnica Biochem

Unindo essas vantagens, a Biochem desenvolveu o TechnoSpore, composto pela cepa Bacillus coagulans (DSM 32016), a primeira de sua categoria aprovada pela União Europeia como aditivo alimentar para dietas animais.

Essa cepa combina dois atributos estratégicos:

Esporulação - que assegura estabilidade a temperatura e pressão, e assim, segurança para uso em rações - e

Produção e ciente de ácido lático, característica incomum entre Bacillus spp.

A produção de ácido lático contribui para a redução do pH intestinal, dificultando a multiplicação de microrganismos indesejáveis e favorecendo bactérias produtoras de ácidos graxos de cadeia curta, como butirato, propionato e acetato.

O butirato, em especial, atua como fonte energética para células intestinais e desempenha papel fundamental na manutenção da integridade da mucosa intestinal.

Esses metabólitos também participam da modulação inflamatória e do equilíbrio da microbiota, além de estimularem mecanismos de defesa como a produção de IgA.

Os efeitos práticos de TechnoSpore foram evidenciados por vários estudos in vitro e in vivo.

Em experimento conduzido com leitões recém-desmamados, a suplementação das dietas com TechnoSpore resultou em melhora significativa no ganho de peso diário (GPD), melhor conversão alimentar (CA) e melhor consistência fecal.

Ainda, observou-se modulação consistente da microbiota intestinal em diferentes níveis taxonômicos (ordem, família e gênero). No nível de ordem, houve redução de grupos associados a desequilíbrio intestinal, como Clostridiales, e aumento de Lactobacillales, tradicionalmente relacionados à estabilidade do ecossistema intestinal (Figura 1).

A: Nível de Ordem

Diferença na Abundância Relativa em relação ao Controle (%)

Clostridiales

Aeromonadales

Coriobacteriales

Bacteroidales

Chlamydiales

Lactobacillales

B: Nível de Família e Gênero C: Saúde

Análise da Correlação de Spearman

↓ Enterobacteriaceae

↓ Prevotella

↓ Clostridium

↑ Lactobacillus

↑ Fusicatenibacter

↑ Lachnospiraceae ñ-classif.

Correlação positiva

Correlação negativa

Saúde

Intestinal (FS*)

Digestão (CA)

Desempenho (GPD*)

*FS, Pontuação Fecal; Ca, Conversão alimentar, GPD, Ganho de peso diário

Figura 1. Modulação da microbiota intestinal em suínos alimentados com TechnoSpore: alterações na abundância relativa em nível de ordem (quadro cinza) e correlação de Spearman entre mudanças em nível de família e gênero e parâmetros de saúde intestinal, digestão e desempenho zootécnico (quadros amarelo e verde).

No nível de família e gênero, destacaram-se:

↓ Prevotella - quando em excesso, relacionada a fermentações indesejáveis em fases críticas;

↓ Enterobacteriaceae — família que inclui gêneros potencialmente patogênicos para suínos, como Escherichia (ex.: E. coli enterotoxigênica), Salmonella e Klebsiella;

↓ Clostridium — grupo que abrange espécies associadas a enterites e distúrbios digestivos;

A análise de correlação de Spearman demonstrou associação direta entre essa modulação da microbiota e os parâmetros produtivos.

O aumento de bactérias benéficas, como Lactobacillus, Fusicatenibacter e Lachnospiraceae, apresentou correlação positiva com melhores índices de GPD, CA e escore fecal.

Em outro estudo conduzido com leitões recém-desmamados, o uso de TechnoSpore promoveu melhora significativa na consistência fecal, acompanhada de redução na contagem de Escherichia coli no conteúdo intestinal dos animais tratados.

↑ Lactobacillus — importante produtor de ácido lático e agente de exclusão competitiva;

↑ Fusicatenibacter e ↑ Lachnospiraceae não classi cadas — associadas à produção de AGCC, especialmente butirato.

Avaliações de campo com matrizes no terço final de gestação e durante a lactação também demonstraram que o uso de TechnoSpore levou à melhoria na qualidade do colostro e maior peso das leitegadas ao desmame.

Esses resultados indicam que a modulação benéfica da microbiota e suporte à melhoria da integridade intestinal pode otimizar a absorção de nutrientes e contribuir para maior eficiência produtiva.

Sendo assim, TechnoSpore posicionase como uma ferramenta estratégica para sistemas que buscam desempenho sustentável e fortalecimento da saúde intestinal na suinocultura contemporânea.

TechnoSpore: Probiótico Estratégico para Integridade Intestinal de Suínos BAIXAR EM PDF

TRANSIÇÃO DAS CELAS INDIVIDUAIS PARA BAIAS COLETIVAS NO BRASIL

Cleandro Pazinato Dias1, Jade Pellenz2 e Fabricio Murilo Beker3

1Sócio Proprietário da Akei Animal Research e da Fazenda Seis Amigos. Consultor de bem-estar de suínos (cleandro@cleandrodias.com.br)

2Especialista em Bem-estar animal do Fomento Agropecuário da Pamplona Alimentos S/A (jade.pellenz@pamplona.com.br)

3Gerente de Fomento Agropecuário da Pamplona Alimentos S/A (fabricio.beker@pamplona.com.br)

Opapel de protagonista que o país tem na suinocultura mundial, ocupando a 4ª posição como produtor e a 3ª na exportação nos conecta com os principais mercados produtores e consumidores de carne suína.

As rápidas transformações que ocorrem nos complexos de produção brasileiros conduzem a esta posição de destaque e também são um reflexo das demandas de mercado.

A transição do sistema de celas individuais que predominava no país até poucos anos para gestação coletiva é uma realidade deste pujante segmento do agronegócio, atualmente estima-se que cerca de 44,9% das matrizes no Brasil, estão sendo alojadas em baias coletivas durante a gestação (Figura 1)

A partir de agora, iremos dissertar sobre esse movimento que agrega mudanças estruturais e de manejo nas unidades produtivas atreladas pela busca da eficiência produtiva e econômica dos plantéis.

É importante destacar que tempos antes da publicação da Instrução

Normativa Nº 113 em dezembro de 2020, algumas empresas na vanguarda desse movimento já estavam com seus planos de transição para gestação coletiva implantados, ou seja, embora a legislação tenha impulsionado esse movimento e estabelecido prazos finais para mudança no cenário nacional, companhias alinhadas com as exigências de mercado já tinham estabelecidos seus prazos de forma voluntária.

Qual é o período estabelecido para a gestação coletiva nos

diferentes países?

União Europeia: A legislação europeia (Diretiva 2008/120/CE) limita em 28 dias de gestação o período que as matrizes podem ficar em celas individuais. Ou seja, a formação dos grupos de cobertura ocorre pós-implantação embrionária.

Percentual estimado de porcas alojadas em baias coletivas no Brasil por ano

Brasil: A Instrução Normativa Nº113 de 2020 do MAPA (IN 113), limita em 35 dias a gestação em celas individuais, e estabelece 1º de janeiro de 2045 como prazo limite para que as granjas que estavam operando na data da publicação da IN 113 concluam a transição.

Para os novos projetos, as reformas e ampliações o limite máximo de 5 semanas em celas já está em vigor. A norma brasileira, da mesma maneira, forma com a europeia a formação dos grupos de cobertura pós-implantação embrionária.

Figura 1: Percentual estimado de matrizes alojadas em baias coletivas no Brasil (2021 a 2025). Fonte: Observatório Suíno – 6ª edição (2025)

Califórnia: Este estado americano por meio da Proposição 12 em 2024, estabeleceu que matrizes acima de 6 meses de idade devem ser alojadas em baias coletivas durante toda a gestação com no mínimo 2,23 m2 de espaço útil.

Com todas estas mudanças em regulamentações e com a definição do Parlamento Europeu de banir gradativamente o uso de celas individuais em todas as fases e espécies de produção animal (End the age cage, 2021), as mudanças no Brasil são uma questão de tempo e não de clareza de caminho a ser seguido.

Setor de gestação com a IN 113

Individual ou Coletivo

ÁREA/ANIMAL:

Marrās: 1,50 m²

Matrizes: 2,00 m²

Transição prazo 01.01.2045

Sistema Cobre e solta:

É um sistema onde as matrizes são transferidas para as baias de gestação logo após a última inseminação, e a formação dos grupos de cobertura ocorre pré-implantação embrionária, ideal transferir para baias até 72 horas após cobertura.

No Brasil muitas agroindústrias definiram o sistema cobre e solta como o sistema preferencial nos novos projetos, pois as matrizes permanecem praticamente toda a gestação em um ambiente coletivo, o que é um desejo de muitos stakeholders atuantes no mercado.

Figura 2: Setor de gestação com a Instrução Normativa Nº113
Cobertura

Para alojar as matrizes em gestação coletiva em substituição ao alojamento individual, o maior desafio produtivo é evitar a competição pelo alimento que é fornecido de forma restrita, somados ao fato que matrizes hiperprolíferas necessitam de maior controle individual do consumo de ração para maximizar o potencial produtivo e evitar os extremos de condição corporal (obesidade e magreza).

No alojamento individual este controle é relativamente fácil, mas no alojamento coletivo em decorrência da competição pelo alimento torna-se um desafio.

Portanto, o sistema de alimentação adotado pela unidade terá impacto na competição pelo alimento, no Brasil as granjas adotam algum dos sistemas de alimentação citados a seguir:

Ração fornecida sobre o piso: sistema mais tradicional, com volume oferecido no piso da própria baia com base na média das demandas das matrizes que compõe a baia;

Ração fornecida em minibox: sistema onde a ração é fornecida com base na média das demandas das matrizes que compõe a baia em comedouros lineares ou diretamente no piso. O minibox é a uma divisória metálica que permite a separação parcial dos animais e a disposição da ração para cada matriz geralmente por meio de drops;

Alimentação eletrônica (ESF): São os sistemas com uso de chips eletrônicos e com alimentação de precisão, que permitem uma curva de alimentação individual, onde as matrizes receberão uma dieta específica de acordo com o período gestacional, linhagem genética, escore corporal, ordem de parto e produtividade.

A experiência nos diz que quanto mais tecnologia aplicada, maiores os custos de implantação, mas em contrapartida maiores potenciais produtivos e econômicos podem ser auferidos a longo prazo.

Em relação aos indicadores técnicos relacionados à fase de gestação que são monitorados rotineiramente nas unidades produtivas e utilizados nos cálculos do ROI dos projetos, podemos citar:

Dias não produtivos (DNP)

Taxa de descarte e taxa de mortalidade de fêmeas

Taxa de parição

Número de leitões nascidos

Peso das leitegadas ao nascimento e no desmame

Imagem: Grupo de matrizes em gestação coletiva

Os principais desafios da transição

Entre os desafios mais importantes enfrentados pelo setor produtivo ao longo destes últimos anos para a mudança das granjas em operação e também nos novos projetos podemos destacar desafios de ordem operacional, estrutural e econômico, entre eles estão:

Exigência de recursos humanos mais especializados, devido às mudanças operacionais que ocorreram;

Aprender a utilizar novas tecnologias, novos equipamentos que não eram utilizados anteriormente nos sistemas individuais, tendo muitos com dependência de conhecimentos em informática;

Maior conhecimento do comportamento das matrizes devido a interação entre elas no coletivo (formação da hierarquia, brigas);

Di culdade de controlar a condição corporal;

Di culdade de aplicação de vacinas e medicamentos;

Di culdade de fornecer condições de recuperação de matrizes com problemas em baias enfermaria;

Necessidade de aprimorar as medidas de fortalecimento do aparelho locomotor;

Uniformização dos grupos por ordem de parto (baias para nulíparas, primíparas e pluríparas), por tamanho e condição corporal;

Redução dos inventários devido à necessidade de mais espaço por matriz no alojamento coletivo;

Busca pelos layouts ideais das baias com os novos equipamentos, com áreas de piso vazado e piso compacto;

Qualidade dos pisos utilizados e manutenção dos mesmos;

Escolha dos enriquecimentos ambientais mais apropriados;

Unidades com uxo produtivo estabelecido em manejo semanal que com as reformas tiveram que migrar para o sistema em bandas para poderem ganhar escala produtiva;

Altos custos para adaptação das granjas antigas;

Di culdade de linhas de crédito viáveis para as reformas;

Além de todos os desafios citados anteriormente, podemos destacar que o comportamento animal também precisa ser levado em consideração nos novos projetos e adequações, pois decisões que são tomadas na gestação podem refletir em toda cadeia de produção.

A gestação coletiva de suínos apresenta um dos maiores desafios no manejo nutricional, por exemplo, garantir que todas as fêmeas tenham acesso homogêneo ao alimento.

Em ambientes coletivos, a disputa por recursos e a forte estrutura hierárquica do grupo fazem com que algumas matrizes consumam muito acima do recomendado, enquanto outras, consumam muito abaixo do estabelecido pela curva de consumo.

Essa heterogeneidade no consumo gera diferenças significativas no escore corporal e na condição fisiológica das fêmeas ao longo da gestação.

Como consequência direta, produz-se uma leitegada mais desigual, com leitões de pesos muito variados ao nascimento. Esses leitões menores tornam-se um desafio constante na maternidade, exigindo cuidados intensivos, maior assistência no colostro e apresentando maior risco de mortalidade.

Além disso, o impacto se estende para as fases subsequentes de produção, já que leitões leves tendem a apresentar menor desempenho no desmame e crescimento mais lento.

Assim, a falta de uniformidade no consumo alimentar durante a gestação coletiva não apenas compromete o bem-estar das fêmeas, mas também afeta negativamente a eficiência, os custos e a produtividade.

Embora a suinocultura brasileira sofra inúmeras dificuldades econômicas, ela vem adotando gradativamente o sistema de alojamento coletivo, inicialmente na forma de adesão voluntária liderada pelas agroindústrias exportadoras, e mais recentemente acelerada pela publicação da IN 113.

Destaca-se a escolha voluntária que muitas empresas tem feito pelo sistema cobre solta, em decorrência de um movimento global de restrição do alojamento confinado nos sistemas industrias de produção de alimento. O Brasil segue o fluxo natural das mudanças, buscando a velocidade que permita manter sustentável o segmento.

Referências bibliográficas. Sob consulta aos autores. Transição das celas individuais para baias coletivas no Brasil BAIXAR EM PDF

OPINIÃO DO ESPECIALISTA

Lia Treptow Coswig Chefe Divisão de Sanidade de Suídeos - DISS/CGPS

OBrasil ocupa o quarto lugar no ranking mundial de produtores e exportadores de carne suína e, para que possa atingir patamares ainda mais elevados, a biosseguridade das granjas é fundamental e indispensável.

ESTRATÉGIAS DE BIOSSEGURIDADE PÓS-PSC NO BRASIL

Em relação à Peste Suína Clássica (PSC), o país conta com três zonas livres da doença, reconhecidas pela Organização Mundial de Saúde Animal, que englobam 83% do rebanho suíno e aproximadamente 50% do território nacional.

A suinocultura brasileira apresenta condição sanitária bastante favorável, sendo considerada livre de doenças economicamente relevantes, notadamente a Peste Suína Africana (PSA) e a Síndrome Reprodutiva e Respiratória dos Suínos (PRRS), além de possuir zonas livres de Peste Suína Clássica (PSC).

Esse reconhecimento internacional reforça a credibilidade do sistema sanitário brasileiro e amplia as oportunidades de acesso a mercados exigentes.

O reforço da biosseguridade em Granjas de Reprodutores Suínos Certificadas (GRSC) foi estabelecido pela Portaria SDA/MAPA nº 1.358, publicada em agosto de 2025, demonstrando a preocupação do Ministério da Agricultura e Pecuária e do setor produtivo com a manutenção e o aprimoramento dos padrões sanitários dessas unidades.

A normativa estabelece requisitos claros, com descrição detalhada da infraestrutura mínima e das medidas de biosseguridade externa a serem implantadas e executadas, além da exigência de implementação de um Plano de Biosseguridade.

O objetivo é assegurar um nível sanitário adequado nas granjas que comercializam, distribuem ou mantêm reprodutores suínos destinados à multiplicação animal.

Além da norma específica para as GRSC, diversos estados brasileiros têm publicado regulamentações voltadas à biosseguridade em granjas comerciais, visando ampliar a proteção contra a entrada e disseminação de patógenos relevantes para a suinocultura.

Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul e Distrito Federal já possuem normas publicadas com o objetivo de preservar a condição sanitária dos rebanhos, especialmente quanto ao reconhecimento internacional das zonas livres de PSC.

Em consonância com as normas estaduais, o Ministério da Agricultura e Pecuária publicará, em 2026, normativa específica sobre biosseguridade em granjas comerciais de suínos, buscando a uniformização das medidas em todo o território nacional.

A regulamentação estabelecerá requisitos mínimos para mitigação de riscos e fortalecimento da proteção das granjas frente à introdução e disseminação de agentes infecciosos.

A biosseguridade na suinocultura deve ser encarada como desafio estratégico e como avanço essencial para a conquista de novos mercados e para a segurança alimentar.

Estratégias de biosseguridade pós-PSC no Brasil BAIXAR EM PDF

EFICIÊNCIA PRODUTIVA E RENTABILIDADE: A VISÃO ESTRATÉGICA DAS CURVAS DE CONSUMO

Jefferson Bastos Alves

Consultor técnico comercial na Agroceres Multimix

DESAFIOS CONSTANTES NA SUINOCULTURA

A suinocultura brasileira, assim como em outros grandes países produtores, enfrenta constantemente oscilações de preços e rentabilidade. Entre os anos 2021 e 2023, vivemos uma das piores crises do setor, marcada pela elevação dos custos de insumos e pela queda no preço pago ao produtor.

Em meio a esse cenário desafiador, todos os esforços foram direcionados para reduzir custos e manter a atividade viável — e nesse contexto, a alimentação se mostrou o ponto central de qualquer estratégia de sobrevivência.

Tanto os eventos internos, como eventos globais, podem trazer instabilidade ao mercado. Frente aos impactos desses eventos, onde quase nunca temos controle da situação, devemos criar planos de ações, principalmente sobre:

Planejamento de compras

Aumento da capacidade de armazenagem e

Integração de cadeias, para que o produtor fique “menos” vulnerável.

Diante disso, a eficiência produtiva passa a ser o maior escudo contra as crises.

A IMPORTÂNCIA DO CONTROLE DE CONSUMO DE RAÇÃO

A ração representa entre 60% e 80% do custo total de produção em uma granja de suínos. Por isso, conhecer o padrão de consumo e o comportamento alimentar dos animais é fundamental para alinhar desempenho e rentabilidade.

Cada fase da produção tem peso diferente no consumo total de ração. Em média, as fases de recria e terminação representam de 70 a 80% do volume total.

Por este motivo, o setor de engorda é onde se encontra as maiores oportunidades de otimizar a rentabilidade. Mesmo pequenas variações de consumo ou de formulação nessa etapa impactam diretamente no custo final e na margem de lucro.

Com base nisso, o monitoramento contínuo do consumo torna-se uma ferramenta indispensável para ajustar o fornecimento de nutrientes à real necessidade dos animais, evitando tanto o desperdício quanto a deficiência nutricional — dois fatores que reduzem a eficiência econômica.

CURVA DE CONSUMO: UMA FERRAMENTA ESTRATÉGICA

A curva de consumo é um instrumento que permite acompanhar, de forma prática e precisa, o comportamento alimentar dos animais ao longo do alojamento, a fim de alcançar os índices de ganho de peso, consumo de ração e conversão alimentar que foram traçados como objetivo no momento do desenvolvimento da curva.

Ela mostra o consumo semanal esperado e o consumo real, possibilitando ao gestor tomar decisões em tempo hábil, para que o desempenho seja conforme o planejado e não apenas dados de observação após o fechamento do lote, quando não há mais possibilidades de correções.

O objetivo central da curva de consumo é melhorar a eficiência alimentar. Com isso, temos um balanço mais adequado entre as despesas com a alimentação e o retorno com o ganho de peso.

É importante deixar claro que a eficiência alimentar é diferente de conversão alimentar (CA).

Neste caso não estamos buscando a menor CA possível; mas, sim, a utilização mais eficiente da ração, para otimizar o ganho de peso dentro de uma CA ajustada, para que a rentabilidade da granja melhore.

A CA não está acima de tudo. Ela deve ser considerada dentro de uma conjuntura de:

Preço da ração

Desempenho zootécnico e

Preço de bolsa

TRABALHAR COM A CURVA DE CONSUMO TRAZ BENEFÍCIOS DIRETOS

Ajuste no das fórmulas nutricionais às condições e metas da granja

Conhecimento do potencial produtivo e do padrão de consumo real dos animais

Previsibilidade nos pedidos de ração e logística de fábrica

Gerenciamento ativo dos lotes antes do fechamento

Engajamento da equipe e valorização do setor de recria e terminação dentro da granja

COMO DESENVOLVER, IMPLEMENTAR E GERENCIAR CURVAS DE CONSUMO

O desenvolvimento da curva de consumo e do monitoramento partem de três pilares fundamentais:

Compreender o potencial produtivo e genético: cada granja tem particularidades em sanidade, manejo, estrutura e ambiente que influenciam a resposta dos animais.

Definir e controlar a curva de consumo: o foco deve estar na ingestão de nutrientes.

O animal não consome porcentagens das fórmulas feitas em softwares de nutrição, mas gramas de nutrientes — e conhecer o padrão de consumo dos animais da granja é essencial para formular rações precisas.

Aplicar feedback constante: após o fechamento dos lotes, comparar os resultados reais com o planejado. Essa análise permite ajustes nas curvas e nas fórmulas, considerando variações de matéria-prima, estação do ano e desempenho.

Eficiência produtiva e rentabilidade: a visão estratégica das curvas de consumo

Além de tudo, a curva de consumo promove uma mudança de cultura: deixa de ser um controle passivo de dados e passa a ser uma ferramenta de gestão ativa, decisão e de eficiência.

BAIXAR EM PDF

DISENTERIA SUÍNA: A COMPLEXIDADE POR TRÁS DE UM CONTROLE AINDA DESAFIADOR

Ygor Henrique de Paula1; Suzana Cortiano Stubert2 ; Matheus de Oliveira Costa3

1Pesquisador de pós-doutorado - University of Saskatchewan – Canadá.

2Mestranda - University of Saskatchewan – Canadá.

3Professor associado - University of Saskatchewan – Canadá.

Adisenteria suína (DS) é uma doença infecciosa e contagiosa frequentemente observada em suínos nas fases de crescimento e terminação. Caracteriza-se por diarreia muco-hemorrágica e por lesões fibrino-hemorrágicas presentes, exclusivamente, no ceco e cólon.

A DS é descrita como uma enfermidade de alta morbidade e baixa mortalidade, que compromete o bem-estar animal, reduz o ganho de peso e acarreta significativo impacto econômico.

Brachyspira hyodysenteriae, um dos agentes etiológicos da DS, é uma espiroqueta gramnegativa, β-hemolítica, anaeróbia e tolerante ao oxigênio, transmitida pela via fecal-oral. B. hampsonii e B. suanatina são também associadas a DS.

Em leitões após o desmame, a DS apresenta uma taxa média de morbidade de 90% e mortalidade de até 30%, dependendo do tratamento adotado (HAMPSON; BURROUGH; COSTA, 2026).

A DS é uma doença com patogênese complexa e ainda pouco estudada. Desta forma, o aparecimento da doença e a intensidade do quadro clínico são influenciados por múltiplos fatores, incluindo:

Nível de estresse do suíno

A persistência de B. hyodysenteriae no ambiente é favorecida por baixas temperaturas e pela presença de fezes, permitindo sua sobrevivência por longos períodos (BOYE et al., 2001).

No entanto, a bactéria é sensível à dessecação, ao calor e ao pH ácido, não sobrevivendo por longos períodos fora do hospedeiro quando exposta ao ar e à luz solar (CHIA; TAYLOR, 1978).

Carga infecciosa

Estágio de crescimento do microrganismo

Dieta

Número de animais no grupo e

Peso corporal do hospedeiro

Além disso, a interação com a microbiota intestinal do hospedeiro desempenha um papel relevante nos casos de SD (PÉREZPÉREZ et al., 2026).

O patógeno é disseminado pela introdução de animais portadores no rebanho e pela eliminação de Brachyspira spp. nas fezes de suínos com manifestações clínicas, por meio de alimentos, água, veículos e fômites contaminados, bem como por visitantes ou outros reservatórios, como cães, aves e ratos (HAMPSON; BURROUGH; COSTA, 2026).

A infecção ocorre pela ingestão de material contaminado, principalmente proveniente das fezes de suínos doentes ou subclínicos. Ao atingir o intestino grosso, as criptas da mucosa constituem os principais sítios de colonização para Brachyspira spp.

A patogênese da DS é complexa, e os fatores subjacentes às causas das lesões após a infecção por Brachyspira spp ainda estão sendo estudados. Uma das principais peculiaridades relacionadas à doença é a necessidade da presença e da ação sinérgica de outros microrganismos anaeróbios comensais presentes na microbiota intestinal (HARRIS; GLOCK, 1972).

Uma vez estabelecida a colonização, as espiroquetas podem ser detectadas nas fezes dos suínos entre um e quatro dias antes da observação dos sinais clínicos.

Conforme descrito anteriormente, a DS caracteriza-se por diarreia muco-hemorrágica, causada pela falha da capacidade absortiva do cólon, decorrente do transporte deficiente de sódio e cloreto.

Associado a esse fator, ocorre formação abundante de muco pelas células caliciformes do cólon. Suínos acometidos pela DS produzem até cinco vezes mais mucina do que animais sadios.

B. hyodysenteriae coloniza a camada de muco e é frequentemente encontrada profundamente nas criptas do cólon, provavelmente devido à sua forte quimiotaxia por mucinas (KENNEDY; YANCEY JR, 1996).

Durante a DS, observa-se aumento acentuado na síntese de sialomucinas, pelas quais B. hyodysenteriae apresenta quimiotaxia. Descreve-se que o muco formado durante a DS aumenta o número de sítios de adesão disponíveis para a espiroqueta (QUINTANA-HAYASHI et al., 2019)

Dessa forma, a bactéria penetra mais facilmente em camadas mais profundas.

Destaca-se que B. hyodysenteriae apresenta motilidade em saca-rolhas, gerada pelos flagelos periplásmicos, os quais auxiliam na penetração da camada de muco (KENNEDY; ROSEY; YANCEY, 1997).

À medida que a doença progride, observa-se um perfil pró-inflamatório, com aumento de citocinas como IL-1α, IL-1β e TNF-α.

Esse mecanismo local permite uma resposta inicial do hospedeiro à B. hyodysenteriae, atuando como quimioatraente e recrutando células da imunidade inata na tentativa de impedir novas invasões do cólon (JONASSON et al., 2006; KRUSE et al., 2008; ENNS; HARDING; LOEWEN, 2019).

Assim, surgem lesões inflamatórias catarrais caracterizadas por infiltração leucocitária e intensas alterações circulatórias locais, com marcada dilatação capilar, edema da mucosa e, por fim, hemorragia da mucosa com formação de fibrina (BURROUGH et al., 2012; RUBIN et al., 2013).

Sistemicamente, observa-se aumento de neutrófilos e monócitos circulantes, associado à elevação das proteínas de fase aguda séricas, como a amiloide A e a haptoglobina (JONASSON et al., 2006).

A dieta é um fator com grande influência na eubiose da microbiota intestinal em suínos, podendo interferir na colonização e multiplicação de B. hyodysenteriae, bem como na gravidade dos sinais clínicos da DS. É sugerido que o controle desse patógeno pode ser alcançado por meio do perfil dos ingredientes e aditivos utilizados na alimentação.

Assim, a suplementação da dieta com cepas de bactérias benéficas (probióticos) apresenta potencial para proteger o hospedeiro contra Brachyspira spp (HAMPSON et al., 2019; HELM; GABLER; BURROUGH, 2021).

Entre os principais fatores de risco para a introdução da doença em uma propriedade destaca-se a ausência de medidas adequadas de biosseguridade. Dessa forma, a eliminação de fatores de risco por meio de práticas de limpeza e desinfecção nas instalações, aliada à adoção de outras medidas de biosseguridade, é fundamental (BURROUGH; SEXTON, 2013).

Caso seja tarde demais, o controle de surtos baseia-se principalmente no uso de antibióticos da classe das pleuromutilinas, como a tiamulina. Esse controle tem se tornado mais desafiador devido à limitada variedade de tratamentos disponíveis e à necessidade de reduzir o uso de antimicrobianos na produção animal. No entanto, ao longo dos anos, tem sido relatada uma redução da susceptibilidade de B. hyodysenteriae à tiamulina em diversos países (HAMPSON et al., 2019).

Não existem vacinas comerciais disponíveis contra a disenteria suína, embora diversas estejam em fase experimental.

Em junho de 2025, a Agência Europeia de Medicamentos emitiu um documento recomendando a aprovação de um produto que pode se tornar a primeira vacina contra Brachyspira hyodysenteriae autorizada para comercialização.

Esse parecer indica que o Comitê de Medicamentos Veterinários (CVMP) europeu avaliou a documentação científica apresentada e emitiu uma opinião positiva quanto à segurança e à eficácia do produto, representando o primeiro passo para sua autorização na Europa.

A vacina é composta por uma cepa inativada da bactéria. No entanto, enquanto não houver resultados da sua aplicação em campo, permanecem dúvidas quanto à sua utilidade prática, efetividade e viabilidade de comercialização em outros continentes a um custo acessível para os produtores (EMA, 2025).

A disenteria suína é uma doença relevante na suinocultura, que resulta em perdas de desempenho e mortalidade, com significativo impacto econômico. Sua patogênese é peculiar, pois requer um microbioma específico que permita a colonização e multiplicação do agente etiológico, Brachyspira spp.

Essas bactérias apresentam mecanismos específicos que afetam os componentes mucosal, celular e imunológico do intestino grosso, resultando nas manifestações clínicas observadas.

Considerando que atualmente não existe vacina comercial disponível contra essa doença e que o mercado internacional tende cada vez mais a reduzir o uso de antimicrobianos, torna-se essencial buscar estratégias alternativas nutricionais e de manejo para impedir seu impacto nos sistemas de produção.

Disenteria suína: A complexidade por trás de um controle ainda desafiador BAIXAR EM PDF

Referências bibliográficas Sob consulta aos autores.

Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook