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Prefácio de SILAS DANIEL


Uma análise histórica, cultural e teológica da carta aos Romanos
Uma análise histórica, cultural e teológica da carta aos Romanos
Prefácio de SILAS DANIEL
Prefácio de SI
Uma análise histórica, cultural e teológica da carta aos Romanos
Uma análise histórica, cultural e teológica da carta aos Romanos
Prefácio de SILAS DANIEL
Prefácio de SI LAS D AN IEL
Iª Edição
Santo André - SP 2026
© Geográfica Editora
Todos os direitos desta obra pertencem a Geográfica Editora © 2026
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Diretora editorial
Maria Fernanda Vigon
Editor chefe
Marcos Simas
Gerente editorial
Adriel Barbosa
Preparação de texto
Débora Otoni
Revisão
Marcelo Miranda
Nataniel Gomes
Giovanna Vido
Revisão
Israel de Alcântara Braglia
Projeto Gráfico e diagramação Rafael Alt
geograficaeditora geograficaed
P129e Paganelli, Magno
geograficaeditora geoeditora
O Evangelho de Paulo: uma análise histórica, cultural e teológica da carta aos Romanos / Magno Paganelli. – Santo André : Geográfica, 2026.
16x23cm ; 144 p.
ISBN 978-65-5655-579-9
1 Bíblia. 2. Novo Testamento. 3. Epístola de Paulo. 4. Epístolas pastorais 5. Epístola aos Romanos. I. Título
CDU 227.1
Catalogação na publicação: Leandro Augusto dos Santos Lima – CRB 10/1273
ARA – Almeida Revista e Atualizada
ARC – Almeida Revista e Corrigida
AT – Antigo Testamento
Gr. – Grego (ou do grego)
Hb. – Hebraico (ou do hebraico)
Lat. – Latim
MS – Manuscrito
NT – Novo Testamento
NAA – Nova Almeida Atualizada
NVI – Nova Versão Internacional
NVT – Nova Versão Transformadora
Capítulo 1. A necessidade de um Salvador ..................................
Capítulo 2. Deus provê um Salvador ..........................................
Capítulo 3. O processo de remodelagem ......................................68
Capítulo 4. O Espírito que capacita com poder .......................... 76
Capítulo 5. O plano de Deus: restaurar Israel ..............................
Capítulo 6. O propósito de Deus: aplicar a justiça de Jesus à vida do crente ......................................................
Capítulo 7. Submissão às autoridades e às pessoas em geral ......... 111
Capítulo 8. Aceitação dos fracos e liberdade cristã ......................117
Capítulo 9. A despedida de Paulo e a lembrança de todos .......... 129
A Epístola aos Romanos, a mais longa das cartas paulinas na Bíblia, é considerada pela maioria dos expositores bíblicos a obra-prima do apóstolo Paulo. De grande riqueza doutrinária e teológica, ela é mais do que uma missiva: é um tratado de exposição da teologia cristã, razão pela qual muitas obras já foram escritas sobre ela, muitas delas de autoria de alguns dos mais renomados teólogos da história da Igreja. Escreveram comentários ou longas homilias sobre essa carta – seja sobre toda ela, seja sobre grandes porções da epístola – Orígenes, Cirilo de Alexandria, João Crisóstomo, Agostinho, Tomás de Aquino, Lutero, Calvino, John Wesley, Charles Hodge, F. F. Bruce, Karl Barth, James Montgomery Boice, D. Martyn Lloyd-Jones, John Murray, John Stott, Leon Morris, James Dunn, Grant Osborne, William Barclay, Ben Whiterington, Douglas Moo, R. C. Sproul, N. T. Wright, Craig Keener, Timothy Keller etc. A lista é imensa. Podemos dizer que Romanos é o livro da Bíblia que mais fascina e desafia os grandes teólogos, devido sobretudo ao fato de trazer a mais abrangente exposição da doutrina da salvação em toda a Bíblia. Ademais, é a obra cujo estudo e cuja reflexão provocaram dois avivamentos: a Reforma Protestante e o Avivamento Wesleyano. Ou seja, as importâncias bíblica e histórica desta missiva paulina são enormes.
Sendo assim, duas coisas restam claras: primeiro, todo cristão que deseja de fato se aprofundar no conhecimento das doutrinas bíblicas,
especialmente da doutrina da salvação, deve se debruçar sobre Romanos. Segundo, uma pergunta naturalmente se impõe nesta hora, caso você ainda não tenha se dedicado ao estudo dessa epístola: por onde devo começar esse estudo? Que obras de auxílio devo buscar, já que há tantas obras escritas a respeito dela?
Antes de tudo, é preciso ler e reler a epístola, familiarizar-se com seu conteúdo, para, então, valer-se de bons comentários bíblicos para ajudar a escalar os pontos mais altos de suas colinas. O ideal é ter sempre à disposição mais de um comentário. Para os esforços maiores, há obras de peso, de grande profundidade, mas o ideal é que se comece por compêndios que servem de excelente introdução, como bons pontos de partida, antes de migrar para esforços maiores. A obra que o leitor tem em mãos se enquadra neste último caso. Ela é fruto da labuta do autor, ministrando sobre a referida epístola em seminários e igrejas, seja para pessoas mais instruídas teologicamente, seja para pessoas não tão instruídas quanto a esta maravilhosa epístola. Logo, seu conteúdo é bastante prático, apresentando um bom panorama da carta e destacando todos os seus principais pontos.
Como a Epístola aos Romanos é cercada por debates teológicos, o leitor pode eventualmente ter uma ou outra visão diferente em relação ao entendimento do autor, concernente a algum ponto específico da carta – eu mesmo tenho. No entanto, no geral, trata-se de uma excelente síntese, que traz um conteúdo apresentado de forma clara e ressaltando, volto a frisar, todos os principais temas da carta paulina. Logo, se é isso que o leitor procura, acaba de encontrar.
Desejo ao autor e à obra todo sucesso, e que esta obra desperte muitas vidas a buscarem um maior crescimento na graça e no conhecimento de Deus e da sua Palavra.
Em Cristo, Pastor Silas Daniel
Anos atrás, recebi o convite de um seminário teológico denominacional para lecionar por três meses o conteúdo da carta ou epístola de Paulo aos Romanos. A minha experiência de mais de vinte anos lecionando em seminários de igrejas aponta para um elemento complicador em relação a esse público: a sua diversidade, que podemos chamar de “democratização do ensino”. Essa diversidade ou democratização é notada no fato de sentarem-se, lado a lado, pessoas simples, com formação escolar incompleta, e engenheiros, advogados e outros, com nível superior de escolaridade, todos interessados no conhecimento bíblico e teológico. Aquela turma não fugiu à regra.
Além desse aspecto, pareceu-me muito exigente, à época, um curso com trinta horas de duração apenas sobre uma epístola paulina. Hoje eu não vejo mais a questão sob essa perspectiva e tenho que concordar com todos aqueles que gastaram suas energias e vidas investigando e lecionando sobre Romanos, que se trata de um dos documentos mais ricos e importantes do Novo Testamento e da história da Igreja. Basta conferir os comentários de alguns desses irmãos sobre Romanos:
“As epístolas de Paulo são os escritos mais importantes do mundo.”
Alexandre Souter.
“Romanos é o mais importante livro do mundo.” Ernst Kasemann.
“O escrito mais profundo que existe.” Samuel Coleridge.
“O livro mais importante na Bíblia.” Alva McClain.
“Esta epístola é […] o mais importante documento no Novo Testamento; o evangelho na sua expressão mais pura.” Martinho Lutero.
“Romanos oferece uma vista mais completa e sistemática do coração do cristianismo do que as outras epístolas de Paulo, com a possível exceção de Efésios.” Merril Tenney.
“Por volta de 8h45 senti meu coração ser tocado de maneira um tanto estranha: senti que cria única e exclusivamente em Cristo para a salvação e recebi a convicção de que ele havia removido meus pecados e havia salvado minha vida da lei do pecado e da morte.” John Wesley, em seu diário, sobre quando ouviu a mensagem do prefácio de Lutero para a epístola aos Romanos.
“Em um instante a luz da confiança inundou o meu coração e toda a escuridão da dúvida se dispersou.” Agostinho de Hipona, após ler Romanos 13.13,14.
Martin Lloyd-Jones pregou a carta aos Romanos semanalmente por 13 anos, de 1955 a 1968, até o capítulo 14, versículo 17, produzindo um comentário com 14 volumes e com cerca de 5000 páginas, quando parou, alegando não ter condições intelectuais para prosseguir. Certamente um comentário que nos deixa espantados pelo volume por ele produzido, mas sem dúvida um rompante de modéstia que nós temos que respeitar. Romanos é a mais sistemática, mais profunda e longa das cartas de Paulo. Dizem ser esta a razão pela qual aparece como a primeira de suas epístolas, ainda que não tenha sido a primeira a ser escrita. Afirmam, ainda, que o motivo de ter sido colocada nesse ponto do Novo Testamento é que ela consegue fazer uma bela e estruturada transição da antiga situação
do ser humano sem Cristo e a nova posição que ele provê a todo que crê em sua mensagem. Fato é que Romanos, além de ser a maior das epístolas e fazer bem a transição entre os estados da humanidade antes e depois de Cristo, apresenta-se também como um sumário dos pensamentos de Paulo sobre a fé que uma vez foi dada aos santos (Jd 3).
A proposta deste livro1 é introduzir o aluno no ambiente do autor, o apóstolo Paulo. Esse ambiente leva em consideração o contexto cultural, político, econômico, social e religioso do autor da epístola, porque entendemos que somente a partir de uma boa ambientação dessa natureza o intérprete atual dos documentos da Bíblia (livros, epístolas e evangelhos) pode obter uma melhor compreensão dos propósitos autorais (divinos e humanos), bem como dos detalhes e meandros do texto. Acrescente-se a isso, evidentemente, a iluminação do Espírito Santo, que é o único agente que pode abrir plenamente o entendimento humano para as verdades das Escrituras. “Quando, porém, o Espírito da verdade vier, ele os guiará a toda a verdade. Não falará de si mesmo; falará apenas o que ouvir e anunciará a vocês o que está por vir.” (Jo 16.13).
A apresentação deste nosso tema é expositiva, com abordagem bíblica (não sistemática) e segue a estrutura da própria carta aos Romanos. Como apresentado há pouco, é necessário darmos ao leitor ou pesquisador um conteúdo introdutório sobre o contexto em que viveu o apóstolo Paulo, bem como sobre a pessoa do próprio apóstolo, seu mundo, formação e pensamento.
Sobre o conteúdo da carta, falaremos sobre o gênero literário chamado “epistolar”, isto é, um tipo de correspondência no mundo antigo (existente e importante até os nossos dias), e seguirá uma apresentação da carta por temas e leitura dos textos de referência na ordem em que aparecem na obra. Isso nos levará a uma análise do conteúdo da epístola com leitura que perpasse todo o seu texto, procurando elucidar os pontos que compõem a escrita.
Utilizei a Nova Versão Internacional (NVI) por compreendermos que a sua clareza é suficiente para um livro desta natureza, sem demérito
1 Uma parte da estrutura da obra foi baseada no manual que usei durante os meus estudos de graduação: LASLEY, William F. Gálatas e Romanos: manual de estudo independente. Campinas: FAETAD, 2005.
para outras versões. Além disso, a abordagem tradutológica da NVI nos parece equilibrada, não cedendo [tanto] aos apelos denominacionais comuns a outras traduções.
Espero que o contato com o presente material tanto enriqueça o conhecimento intelectual quanto eleve as virtudes cristãs dos leitores. Estes constituem um dos alvos intencionados pelo autor desta carta, escrita há quase dois mil anos e que continua sendo um dos marcos do pensamento cristão de todos os tempos.
Romanos é uma carta e deve ser lida como tal. Assim como toda a literatura contida no cânon bíblico, é preciso identificar a natureza do escrito, isto é, o gênero literário, que varia entre lei, história, poesia, profecia etc. A natureza do escrito ou o seu gênero orientará o leitor no seu trabalho hermenêutico, na interpretação e aplicação que fará do texto antigo. Por exemplo, ao ler um texto poético como os Salmos ou Cantares, deverá levar em maior consideração que se trata de poesia, ainda que seja possível encontrar, incrustradas nos textos, informações sobre a história (como o Salmo 137, escrito no Exílio) e profecia (como no Salmo 22, em que Davi profetiza as palavras de Jesus na cruz).
Também é preciso identificar o autor, saber da sua formação e intenção, traços pessoais (quando possível) e ambiente social de onde provém. O destinatário é outro elemento fundamental na determinação de certos significados e presença de termos e expressões usadas pelo autor, a fim de melhor compreendermos a dinâmica da obra, no caso, a epístola. Um exemplo bem conhecido é o uso extenso de expressões hebraicas, genealogias e profecias do Antigo Testamento feito por Mateus e ausentes em Marcos. Mateus foi um judeu que tinha a comunidade judaica como destinatária de seu Evangelho, ao passo que Marcos, ainda que judeu, escreveu para cidadãos romanos que nada sabiam da cultura nem da religião antiga do povo de Jesus.
A correspondência epistolar, que não é nada além do que uma carta comum, não foi escrita para se tornar uma publicação de maior volume, como um livro, em que se pode aprofundar os assuntos, criar estruturas mais robustas, argumentos mais prolongados e lidar com variações temáticas, nem para dar explicações e descrições mais detalhadas. Embora possam apresentar temas completos em função da necessidade para as quais foram escritas (que era tratar de ocorrências nas igrejas locais), as epístolas têm uma limitação de tamanho. Nos tempos de Paulo, uma carta tinha algo como 1.300 palavras em média. Romanos tem exatas 7.114 palavras no documento original, que foi escrito em grego popular (“comum”), o chamado grego koiné. Cícero, filósofo e orador romano do século 1 a.C., escreveu 776 cartas com comprimento entre 22 e 2530 palavras; Sêneca escreveu 124 cartas com comprimento entre 149 e 4.134 palavras.
Cartas ou epístolas por vezes são indispensáveis para a reconstrução histórica do mundo antigo, podendo ser a única fonte de informação sobre costumes, cotidiano, pensamento e os conflitos existentes no mundo onde o cristianismo surgiu. As cartas do Novo Testamento, e especialmente a carta aos Romanos, condensam um importante e único material teológico de primeira mão, base da maior parte da produção teológica que a Igreja fez nos últimos dois mil anos, e que jamais será ultrapassada.
As epístolas paulinas, em termos sintéticos, estabelecem as paredes de doutrina e prática da Igreja, pois nelas encontramos situações reais vividas pelos irmãos e irmãs nas diferentes cidades onde a fé cristã foi desenvolvida no mundo romano e o modo como Paulo lidou com tais situações, fossem elas reprováveis (como na igreja em Corinto) ou elogiáveis (como na igreja em Filipos).
Ao lidar com as diferentes nuanças da vida cotidiana de uma igreja e dos cristãos na sociedade de então, Paulo reuniu e forneceu diferentes modelos de comportamento e cenários que ainda hoje, como cristãos, nós adotamos e vivemos. Mais do que isso, pelas cartas bíblicas, sabemos como cada membro do Corpo de Cristo deve se comportar e se posicionar nas diferentes situações em que enfrenta.
Cada grupo de epístolas paulinas diminui em termos de comprimento, de Romanos, a maior, para 2Tessalonicenses, nas epístolas para igrejas, e depois, de 1Timóteo para Filemon, as epístolas para indivíduos.
Os nomes das epístolas paulinas refletem não o nome do autor, mas do destinatário (igrejas ou indivíduos). Geoffrey Wilson afirma que ao
escrever “A todos os que estão em Roma, amados de Deus, chamados para serem santos” (Rm 1.7), Paulo reconhece não haver distinções entre os discípulos, o que reflete o seu pensamento exposto em outras cartas, quando usa a locução “em Cristo” (ver adiante), expressão fundamental na reflexão teológica do apóstolo. É possível dizer que toda a teologia de Paulo é feita a partir da constatação da ressurreição e, por isso, “em Cristo”, tudo se fez novo, inclusive o modo de “pensar Deus” ou refletir sobre o seu ser e as implicações de sermos seus discípulos (embora Paulo não tenha textos específicos sobre discipulado, mas sobre disciplina na Igreja).
Finalmente, para a escrita de Romanos, Paulo fez uso do amanuense Tércio (Rm 16.22). Amanuenses eram copistas ou escritores profissionais, hábeis na escrita manual, o que exigia técnica e conhecimento dos suportes disponíveis (papiro, pergaminho e outros materiais). O fato de recorrer a uma pessoa para escrever suas correspondências não muda o teor nem o tratamento dado ao conteúdo pretendido pelo autor (que continua sendo Paulo), uma vez que as cartas do apóstolo eram dirigidas a igrejas, mas falando em termos pessoais (sem protocolos impessoais), e cartas a indivíduos, onde o “eu” fala ao “tu”. Afinal, ele queria ajudar seus leitores e com isso cumprir a missão para a qual entendia ter sido chamado, cujo serviço fala alto e testemunha favoravelmente à legitimidade desse chamado que recebeu.
Assim eram as epístolas de Paulo, o apóstolo aos gentios, e o seu papel inconfundível na modelagem, não só da Igreja, mas também de boa parcela do pensamento ocidental. Somos devedores a ele por tão imensa contribuição e pensamento avançado, ainda para os padrões do nosso tempo.
Autoria, seu mundo, formação e pensamento
Paulo apresenta-se, no início da carta, como sendo o seu autor. Muito tem sido escrito sobre este apóstolo, de modo que não nos demoraremos a esse respeito. Paulo era da tribo de Benjamim, como ele afirma na própria carta, quando se dirige aos conterrâneos judeus (Rm 11.1), natural de Tarso, na Cilícia, uma cidade universitária dentro do Império Romano, para onde acorriam aqueles que estavam interessados em estudar com os melhores nomes da filosofia e conhecer a cultura da época.
Além disso, ele era um devoto zeloso do judaísmo, tendo sido discípulo do grande rabino Gamaliel (At 22.3; 26.4-5), que embora fosse de “mente aberta”, ainda assim era mais conservador que os pensadores do mundo grego. Gamaliel era neto de Hillel, mais flexível do que seu famoso contemporâneo Shamai. Paulo, fruto dessas tradições, era zeloso e rigoroso com o cumprimento das doutrinas e demais normas de sua religião, o que fez dele um fervoroso perseguidor dos cristãos quando entendia que a fé em Cristo era um desvio dos objetivos do judaísmo (At 7.58; 8.1; 9.1; 22.4; Gl 1.13; Fl 3.6; 1Tm 1.13).
Por outro lado, após a sua conversão, Paulo passou a se apresentar como doûlos (δουλος). “Paulo, servo (ou escravo [doûlos]) de Cristo Jesus, chamado para ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus.” (Rm 1.1; Fp 1.1; Gl 1.10). O doûlos era o escravo comprado no mercado para efetuar trabalhos pesados para seu senhor, como o trabalho agrícola, além de outros. O doûlos diferia dos diáconos (διακονος), o empregado doméstico que servia à família para a qual trabalhava. Paulo se coloca, desse modo, na escala socioeconômica mais baixa da sociedade do Império e o faz por amor a Cristo e às igrejas.
A evidência externa de autoria é bem forte a favor de Paulo. A primeira referência à autoria paulina de Romanos se encontra no início do período Patrístico, em um texto de Marcion (140 d.C.). Irineu, Clemente de Alexandria e Tertuliano (dos sécs. 2–3 d.C.), todos atribuem a carta a Paulo. Clemente de Roma cita Romanos frequentemente em sua carta aos Coríntios (96 d.C.). Inácio (115 d.C.), Policarpo (69–155 d.C.) e Justino Mártir (110–165 d.C.) têm citações mais extensas. Até ao ano 200 d.C., encontramos 19 referências de autores extrabíblicos a Romanos.
Evidência interna da autoria paulina
Romanos tem todas as caraterísticas mais esperadas do apóstolo aos gentios (Rm 11.13; 15.16). O nome de Paulo encabeça a carta (Rm 1.1), o que tem sido uma marca pessoal do autor. O estilo e as doutrinas centrais concordam
inteiramente com o que sabemos da vida e do pensamento de Paulo. Não há erudito sério que negaria a origem paulina dessa carta.
Já temos dito algo sobre o ambiente do autor da epístola aos Romanos e queremos avançar um pouco mais, pois a própria Bíblia nos dá material para a formação de um perfil bastante considerável a seu respeito. Por cálculos feitos a partir do que encontramos na epístola aos Gálatas, capítulos 1 a 2.1, texto em que ele diz ter ficado catorze anos no deserto da Arábia (reino Nabateu, sudeste de Israel), considerando o socorro prestado aos pobres de Jerusalém entre os anos 45–47 d.C., Paulo teria se convertido entre 32 e 35 d.C.
Deus, porém, separou-me desde o ventre da minha mãe e me chamou por sua graça. Quando lhe agradou revelar o seu Filho em mim para que eu o anunciasse entre os gentios, não consultei ninguém. Tampouco subi a Jerusalém para ver os que já eram apóstolos antes de mim, mas de imediato fui para a Arábia, e voltei outra vez a Damasco. Depois de três anos, subi a Jerusalém para visitar Cefas e estive com ele quinze dias. Não vi nenhum dos outros apóstolos, a não ser Tiago, irmão do Senhor. Quanto ao que escrevo a vocês, afirmo diante de Deus que não minto. A seguir, fui para as regiões da Síria e da Cilícia. […] Catorze anos depois, subi novamente a Jerusalém, dessa vez com Barnabé, levando também Tito comigo. (Gálatas 1.15-21; 2.1; ênfases acrescentadas).
Paulo disse que era um fariseu, “circuncidado no oitavo dia de vida, pertencente ao povo de Israel, à tribo de Benjamim, hebreu dos hebreus; quanto à lei, fariseu” (Fp 3.5). Como vimos, de acordo com Atos 22.3, ele foi instruído aos pés de Gamaliel e orgulhava-se de sua origem. Sentindo a ofensa de ser confundido com um egípcio, respondeu ao comandante da guarda na Torre Antônia: “Sou judeu, cidadão de Tarso, cidade importante da Cilícia.” (At 21.39) e em Romanos 11.1 registrou que pertencia à tribo de Benjamim, tendo repetido isso em Filipenses 3.5.
Como obreiro cristão, orgulhava-se de não aceitar pagamento pelo trabalho ministerial-missionário. Tinha prazer de repetir isso em suas cartas, mas abriu o seu coração ao dizer sobre a real percepção a seu próprio respeito em relação aos seus leitores: “Nós somos fracos, mas vocês são fortes!” (1Co 4.10). Em outra ocasião escreveu aos coríntios, dizendo que foi até eles “em fraqueza, temor e muito tremor” (1Co 2.3), demonstrando sua fragilidade e vulnerabilidade mesmo a despeito da imagem de brilhantismo intelectual e vigor espiritual diante dos novos convertidos.
O teólogo Benedito Bittencourt escreveu sobre Paulo que “se não fosse gentil e terno, jamais teria sido tão severo” e destacou que Paulo usou 25 vezes as expressões “meus amados” ou “amados”, e falou de amor mais duas vezes nas epístolas pastorais, além do hino ao amor em 1Corintios 13. Embora rígido antes da conversão, tempos depois reconheceu a importância de pessoas simples e diferentes dele, como lemos nas seguintes palavras da própria carta aos Romanos: “Sou devedor tanto a gregos como a bárbaros, tanto a sábios como a ignorantes.” (1.14).
Paulo tinha uma cultura ampla e sabia identificar verdades em outras religiões, que considerava como antecipações da verdade plena em Cristo (At 14.16,17; 17.30,31). Veja como reúne citações desses autores, como em Atos 17.28: “‘Pois nele vivemos, nos movemos e existimos’. Como disseram alguns dos poetas de vocês: ‘Também somos descendência dele.’” Nesta passagem, a primeira frase é de Epimênides (como em Tt 1.12) e a segunda, de Arato. A obra de Epimênides utilizada por Paulo ao anotar “Pois nele vivemos, nos movemos e existimos”, como a afirmação negativa sobre os cretenses (“Cretenses, sempre mentirosos, feras malignas, glutões preguiçosos.”, Tt 1.12) é do poema Crética. 2 Já o poema citado de Arato é Fenômenos Naturais, que começa com uma celebração de Júpiter, o Ser Supremo da filosofia estoica (e não Júpiter, o chefe o panteão mitológico grego). A parte citada diz:
Comecemos com Júpiter; jamais, ó homens, o deixemos
Sem ser mencionado. Cheios de Júpiter estão todos os caminhos
E todos os pontos de encontro dos homens; o mar e
2 Agradeço ao pastor Silas Daniel por esta informação.
Os portos estão cheios dele. É com Júpiter que Cada um de nós tem a ver em todos os sentidos, Porque dele também somos geração.
(Arato, Phainomena 1-5; cf. Clenates, Hino a Zeus 4, ênfase acrescentada).
Além disso, a clássica passagem do “altar ao Deus desconhecido” (At 17.23) revela um Paulo conhecedor da história da Grécia antiga, uma vez que aquele altar com a inscrição Ágnostos Theós (Gr. “Ao Deus Desconhecido”) datava do século 6 a.C. Paulo viu no fato de os gregos erigirem um altar ao Deus que não tinham conhecimento do seu nome, uma antecipação da revelação que ele mesmo traria, muito tempo depois.3
Também em Atos ficamos sabendo de sua naturalidade: “Sou judeu, cidadão de Tarso, cidade importante da Cilícia.” (At 21.39). Tarso era uma cidade universitária, onde grandes mestres haviam se estabelecido e Paulo conviveu nesse ambiente, o que deu a ele um elevado conhecimento sobre o mundo romano de então. Benedito Bittencourt escreveu que o custo dos estudos na cidade não deveria ser baixo, em função do elevado nível dos seus pensadores (Bittencourt, 2010, p. 80). Estrabão, historiador e geógrafo do século 1 a.C., diz que, culturalmente, Tarso rivalizava com Atenas e Alexandria, dada a sua grandeza e pujança acadêmica. Para lá iam estudantes do Império.
Mas nem por isso Paulo foi um teólogo de gabinete. Para Benedito Bittencourt, “Paulo jamais foi um teólogo sistemático […] Paulo sempre argumenta partindo de elementos de sua própria experiência”, o que não significa que não fosse “organizado”. A cidade natal de Paulo pode ter influenciado na sua profissão. Um produto local, o silicium, era empregado na fabricação de tendas, arte em que o apóstolo era versado e de onde tirava o próprio sustento (1Co 4.12; At 18.3).
Especialmente em anos recentes, ele tem sido injustamente acusado de ser machista e intolerante com as mulheres, especialmente
3 A história é contada por Don Richardson em seu livro O Fator Melquisedeque, em que o autor traça o que chamou de “analogia redentiva” aos passos e marcas de Deus em diferentes culturas, sempre apontando para a vinda do Messias.
pelo movimento feminista. Mas foi Paulo que reconheceu a importância das mulheres na Igreja, ao contrário do que dizem as citações isoladas de suas cartas. Nas seis vezes que o lar é mencionado como sede de uma igreja, em cinco o nome de uma mulher é incluído (Rm 16.5,14,15; 1Co 16.19; Cl 4.15; Fm 1.2).4 Foi Paulo que comparou o ofício da esposa à Igreja na sua relação com Cristo, afirmando que “a mulher é glória do homem” (1Co 11.7).
A única vez que Paulo fez referência à encarnação de Cristo, ele não se referiu a Jesus como filho de José, mas como “nascido de mulher” (Gl 4.4). Ele disse que a mulher crente santifica o marido (1Co 7.14) e “o marido descrente é santificado pela mulher”.
A citação que carrega maior complexidade e que tem sido usada contra ele é: “assim a esposa esteja sujeita em tudo ao marido” (Ef 5.24b). Mas aqui, Paulo quer que as mulheres estejam submissas a uma pessoa, o marido, que ama a sua esposa como ama a si mesmo e que esteja pronto a sacrificar-se por ela, como Cristo sacrificou-se pela Igreja (Ef 5.25). Em outras palavras, ele está protegendo as mulheres, não diminuindo o seu valor, conforme podemos notar quando tomamos o seu ensino por completo, não em porções isoladas e distorcidas.
Um aspecto fundamental do pensamento de Paulo nós encontramos na locução “em Cristo” (gr. εν Χριστω), que reflete bem o modo e a perspectiva como Paulo vê a fé a partir do seu encontro com Jesus na estrada para Damasco; isso influenciou todo o seu fazer teológico. A locução aparece em todas as suas cartas (exceto em 2Ts). Ele jamais usou “em Jesus”, mas sempre se referiu ao Senhor ressuscitado:
• As igrejas da Judeia estão em Cristo (Gl 1.22);
• A igreja de Tessalônica está em “Deus Pai e no Senhor Jesus Cristo” (1Ts 1.1);
• Os filipenses são designados como “os santos em Cristo Jesus” (Fp 1.1);
• Os colossenses eram “santos e fiéis irmãos em Cristo” (Cl 1.2);
4 Bittencourt, 2010, p. 76.
• Os oficiais da igreja em Tessalônica eram os “que lideram no Senhor” (1Ts 5.12).
Seguindo essa consideração que Paulo faz da nossa posição em Cristo, ele e os primeiros cristãos levaram em conta que a reconciliação de que falou a mensagem do evangelho está expressa nesta locução “em Cristo” (Ef 2.6,7,10), como podemos ver em passagens como Efésios 2.1418 e Colossenses 1.19-22. Um dos aspectos muito relevantes para os nossos dias é que nessa nova posição “em Cristo” ocorre o fim das distinções raciais, religiosas, culturais e sociais. É uma nova vida servindo a um Deus que interessa a todo ser humano: “Nesta nova vida, não há diferença entre grego e judeu, circunciso e incircunciso, bárbaro e cita, escravo e livre, mas Cristo é tudo e está em todos.” (Cl 3.11).
Paulo fala de reconciliação5 em quatro textos: Romanos 11.15 (sobre Israel), 2Coríntios 5.18-20, Efésios 2.16 e Colossenses 1.22. A igreja deve curar as pessoas, não adulá-las. E para isso pode usar a Palavra que corta e opera, não uma filosofia que ilude e mata.
O “em Cristo” ressuscitado de Paulo aparece em diversas outras ocasiões:
• A redenção existe em Cristo (Rm 3.24);
• O amor de Deus está em Jesus Cristo (Rm 8.39);
• Todos serão vivificados em Cristo (1Co 15.22);
• A nova criatura está em Cristo (1Co 15.22);
• A reconciliação foi feita por Deus em Cristo (2Co 5.19);
• Somos santificados em Cristo (1Co 1.2);
• Batizados em Cristo (Gl 3.27);
• Somos feitura de Deus criados em Jesus Cristo (Ef 2.10);
• Deus estabeleceu seu eterno propósito em Cristo (Ef 3.12);
• Deus nos perdoa em Cristo (Ef 4.32);
5 A raiz da palavra reconciliar (Gr. katallássō, καταλλασσω) significa restaurar, reconciliar aqueles que estão em divergência, voltar a ter o favor de alguém, restabelecer, curar.
• Os crentes morrem em Cristo e em Cristo primeiro ressuscitam (1Ts 4.16).
A locução “de Deus” aparece 59 vezes em Romanos.
Contexto cultural
Paulo, tendo sido da seita dos fariseus (heb. parûs = “separados”), cria em um plano de Deus para a História (Israel), na vida futura. Eles criam em anjos e demônios. Vimos que a formação de Paulo no judaísmo se deu por instrução na tradição rabínica de Hillel (60 a.C.–20 d.C.), pelo seu neto Gamaliel II. Os rabinos Hillel e Shamai lideraram duas escolas opostas no judaísmo, uma mais liberal e outra mais conservadora. Tendo sido influenciado por Hillel, especialmente no que diz respeito à aceitação dos gentios nos propósitos de Deus, isso certamente repercutiu no ministério de Paulo e em sua missão.
Ter feito de Antioquia, a terceira maior cidade do Império, a sua base missionária, também diz muito a esse respeito. Antioquia, com seus cerca de 150 mil habitantes, tinha algo como 40 mil judeus entre a população, segundo o historiador Robert McNamara. A composição cultural da cidade era plural, se podemos usar um conceito dos nossos dias. Gnosticismo, charlatanismo babilônico, filosofia grega, religiões de mistério e outras formas de pensamento compunham o caldo cultural dessa cidade que ficava na encruzilhada do Oriente com o Ocidente e era o corredor comercial para produtos vindos do Oriente, a fim de abastecer a capital do Império. Poucas cidades da época poderiam ter contribuído tanto para missões aos gentios quanto Antioquia, uma vez que a Igreja em Jerusalém era fechada em termos de pensamento e doutrina e Paulo, a convite de Barnabé (At 11.25,26), fez dela o seu porto seguro.
Não resta dúvida de que o trabalho de Paulo foi fundamental para o edifício teológico cristão. Compreender com tamanha clareza a mudança de
paradigma implementado por Jesus na transição do judaísmo para a nova fé não foi tarefa pequena. Mas como Paulo chegou às formulações teológicas da fé cristã, conforme expostas em suas cartas? A explicação mais plausível é que Paulo redefiniu a sua teologia farisaica à luz de Jesus Cristo (ou, como tem sido dito, a partir do “evento Cristo”), e nós a encontramos nos seguintes textos:
a.Monoteísmo=1Tm 2.5; 1Co 8.5,6; Ef 4.6
b. Justiça da Lei=Fp 3.6,7; Rm 3.10-31
c.Justificação =Rm 5.1; Gl 2.16; Rm 1.17; Gl 3.11
d.Eleição=Cl 3.12; Ef 1.4; Rm 8.28,29, 9.25; Ef 2.11-13
e.Aliança (Nova)=Ef 2.12; 1Co 11.25; Gl 3.17
f. Ressurreição=1Co 15.51; 1Ts 4.13-18; Fp 3.10,11
Como fariseu, Paulo acreditava que enquanto Deus não tivesse instaurado a “nova ordem” escatológica do Reino, Israel deveria manter-se fiel à Torah (Lei judaica) e, consequentemente, separado dos gentios. Foi a aparente negligência dos primeiros cristãos (judeus) quanto a essas responsabilidades em relação à Torah e aos costumes judaicos que levou Paulo a persegui-los.
Sua visão de Jesus ressurreto (o “em Cristo”) o transformou radicalmente; transformou inclusive o seu pensamento e teologia. Se Deus era capaz de ressuscitar Jesus, então Jesus era o Messias, o representante de Israel. Esse fato levou Paulo a uma total reformulação de suas ideias a respeito de Deus e o que ele faz no mundo. Por isso a locução “em Cristo”, encontrada repetidas vezes em seus escritos, é central e inegociável no pensamento paulino.
Filosofia helênica
Paulo tinha um conhecimento da filosofia chamada de “estoicismo” (fundada por Zenão de Cítio, 333–263 a.C.). Vimos como em Atos 17.18, 28b ele citou o poeta estoico Arato: “Também somos descendência dele.” Em Efésios
5.3,4 e Colossenses 3.18 encontramos termos comuns à filosofia estoica, por exemplo: “(in)convenientes” (Gr. anêken, ανηκεν).
É importante lembrar que Tarso foi berço de alguns filósofos estoicos. Ao usar a linguagem e conceitos desse grupo filosófico, Paulo os adaptou e redefiniu (ressignificou, como dizemos hoje) de acordo com a concepção cristã. O conceito básico de “salvação” para os estoicos era por meio da autodisciplina (também apreciada por Paulo noutro contexto, 1Co 9.25-27), enquanto para o apóstolo a salvação estava concentrada em Jesus Cristo (Tt 1.2).
Contribuições paulinas
Do que temos visto resumidamente até aqui, já deve estar clara para o leitor a grande contribuição de Paulo para o pensamento teológico de base cristã. Em linhas bastante gerais podemos indicar algumas áreas essenciais de sua obra:
• Ordem eclesiástica (cartas pastorais e 1Co);
• Elaboração teológica sobre a salvação (principalmente Rm);
• Escatologia e Israel (Rm, 1Co e 1,2Ts);
• Graça, missiologia e ética.
O conjunto de suas cartas nos dão os principais temas teológicos de que necessitamos para a formação de ordem individual e coletiva para a comunidade cristã ao redor do planeta, ainda hoje. Nas epístolas paulinas, temos a concentração de tudo o que o apóstolo ensinou, sendo que em Romanos estão os temas teológicos mais densos: Deus: definição trinitariana à luz do evangelho de Jesus Cristo e o Espírito Santo (2Co 13.14; Ef 1.1-14);
Cristo: doutrina da encarnação (Fp 2.5-11); identificação de Jesus como kyrios (Gr. Senhor); contato com a tradição histórica sobre Jesus (Ceia, 1Co 11.23-25; Rm 15.3).
—Espírito Santo:
a. Habitação (Rm 8.9);
b. Batismo (1Co 12.13);
c. Intercessão (Rm 8.26);
d. Dons (1Co 12; Rm 12; Ef 4);
e. Fruto (Gl 5.22,23).
—Nova Aliança (Gl 2.15-21 [Rm 11–14, contexto])
—Ressurreição (1Co 15; Cl 1.18-20)
—Eleição (Rm 8, 9, 10; Ef 1; 2Rs 2.13)
—Soteriologia
a. Salvação.
Passado: penalidade do pecado
Presente: poder do pecado
Futuro: presença do pecado
b. Propiciação: satisfação da ira de Deus contra o pecado do ser humano.
c. Redenção: o preço (salário) do pecado (morte), pago para liberar o ser humano da escravidão do pecado.
d. Justiça: conformidade ao padrão, perfeição.
Justificação: declara o pecador “justo”, não simplesmente um ser sem mérito (negativo), mas com mérito (justiça), no sentido forense.
Santificação: o processo de se tornar mais e mais semelhante à imagem de Cristo; “santo” ou “separado”.
Fé: dom de Deus, meio de salvação; confiança completa na obra de Cristo.
—Reconciliação: o ser humano em nova posição perante o Senhor.
—Adoção: o ser humano como novo membro da família de Deus. Igreja: como ekklesía (Gr.). Em Deuteronômio 9.10, o termo faz referência ao povo reunido, a assembleia do povo de Deus; na Septuaginta (que “comunidade” ou “congregação” por ekklesía ).
Para Paulo, “Israel falhou em sua missão e perdeu seus direitos; agora se levanta o novo Israel de Deus, a ekklesía de Deus, instrumento e agente de Deus na história” (Bittencourt, 2010, p. 126). Nas democracias gregas, o corpo governante era chamado ekklesía e consistia dos cidadãos no pleno gozo de seus direitos de cidadania (Bittencourt, 2010, p. 127). As viagens missionárias de Paulo
Finalmente, um recorte bastante específico das viagens missionárias do apóstolo. Ele fez quatro longas viagens, sendo três de caráter missionário e a última, quando foi conduzido a Roma para o seu julgamento final. A epístola aos Romanos foi escrita na terceira viagem.6
6 Primeira viagem. Paulo não escreveu nenhuma epístola (At.13–14). Partiu de Antioquia da Síria, por ordem do Espírito Santo (profecia). A viagem durou entre 47–48 d.C. e integraram a comitiva Paulo, Barnabé e João Marcos, tendo visitado as regiões da ilha de Chipre (Salamina e Pafos), Perge, na Panfília (retorno de João Marcos), Antioquia da Psídia, Galácia do Sul (Icônio, Listra, Derbe), Antioquia (retorno). Em Pafos houve a conversão do procônsul Sérgio Paulo. Saulo passou a ser chamado Paulo. Ele disputou com Elimas, chamado Barjesus, o encantador, que foi amaldiçoado com cegueira temporária. Em Listra houve a cura de um coxo de nascença, leso dos pés. Os idólatras pagãos chamaram os apóstolos de deuses (Barnabé, de Júpiter ou Zeus e Paulo, de Mercúrio ou Hermes) e tentam sacrificar-lhes touros. Por ação dos judeus de Antioquia da Pisídia e Icônio, Paulo foi apedrejado e jogado para fora da cidade, como morto. Segunda viagem. Ele escreveu 1 e 2Tessalonicenses (em Corinto, cf. At.18). A referência bíblica da viagem está em Atos 16–18. A partida foi de Antioquia da Síria e o tempo de Duração entre 51–53 d.C., tendo integrado a comitiva Paulo, Silas, Timóteo (em Listra) e Lucas (embarcado em Trôade). As principais regiões visitadas foram Galácia do Sul (Listra, Derbe e Icônio), Trôade, Macedônia (Filipos, Tessalônica, Bereia), Acaia (Atenas e Corinto), Jerusalém (uma rápida visita) e Antioquia da Síria. Em Trôade houve a visão do varão macedônico que dizia: “Passa à Macedônia e ajuda-nos!” Lucas ingressou na comitiva missionária nessa cidade. Em Filipos
A melhor compreensão da obra de Paulo, tanto das suas viagens quanto da época dos escritos, pode ser capturada a partir da leitura de Atos. A seguir, temos um esboço da terceira viagem, locais, datas e principais ocorrências. Foi nesta viagem que a epístola em questão foi escrita.
Nesta viagem foram escritas as epístolas de 1Coríntios (em Éfeso, At 19), 2Coríntios (na Macedônia, At 20.1), Gálatas e Romanos (em Corinto, na Grécia, At 20.2). A localização bíblica sobre a viagem está em Atos 19 e 20. Partiram de Antioquia da Síria e o tempo de duração foi cerca de quatro anos, entre 54 e 58 d.C., tendo integrado a comitiva Paulo, Lucas, Timóteo, Erasto e outros. As principais regiões visitadas foram as superiores, Éfeso, Macedônia, Acaia ou Grécia, Trôade, Mileto, Cesareia Marítima e Jerusalém.
Em Éfeso, Paulo permaneceu por três anos. Doze homens foram batizados nas águas e no Espírito Santo. Ele ensinou na escola de Tirano por
aconteceu a conversão e batismo de Lídia, vendedora de púrpura, que hospeda os apóstolos em sua casa e a libertação da jovem que tinha um espírito de adivinhação e clamava: “Estes homens são servos do Deus Altíssimo.” Paulo e Silas foram açoitados e presos. Eles oraram, cantaram, houve o terremoto e a conversão do carcereiro e de sua família. Em Atenas viram a intensa idolatria da cidade, o que levou Paulo a anunciar o evangelho nas sinagogas e praças. Ele discursou para os filósofos no Areópago e anunciou o “Deus desconhecido”. Sabemos também da conversão de Dionísio e Dâmaris. Em Corinto ficaram por 18 meses e houve o encontro de Paulo com Priscila e Áquila, cristãos judeus que haviam sido expulsos de Roma, e a conversão de Crispo, principal da sinagoga. Jesus animou Paulo em uma visão e ele foi preso pelos judeus e levado perante o procônsul da Acaia, Gálio, que se recusou a julgá-lo em questões religiosas. Sóstenes, principal da sinagoga, foi atacado e ferido e Paulo partiu em direção a Éfeso, onde ficavam Priscila e Áquila. “A comunidade cristã de Éfeso era fruto do trabalho pessoal do Apóstolo, enquanto Colossos, Laodiceia e Hierápolis, no vale do Licus, pertenciam àquele que não o conheciam pessoalmente” (Bittencourt, 2010, p. 86).
dois anos e aconteceram grandes milagres e maravilhas. Os sete filhos de Ceva tentaram expulsar espíritos malignos e dois foram atacados por eles. Houve grande queima de livros de artes mágicas e contenda dos fabricantes de imagens da deusa Diana contra Paulo e seus companheiros, no ginásio da cidade.
Estiveram em Macedônia e Grécia (Corinto). Em Trôade, durante uma reunião noturna, o jovem Êutico caiu da janela do terceiro andar do prédio e morreu, mas Paulo orou e ele ressuscitou. Em Mileto, cidade de Tales7, Paulo mandou chamar os anciãos de Éfeso, deu-lhes instruções e se despediu. Em Cesareia Marítima, a comitiva de Paulo hospedou-se na casa de Filipe, o evangelista, que era um dos sete diáconos de Jerusalém, e Ágabo profetizou acerca da prisão iminente de Paulo em Jerusalém.
Uma vez feita essa introdução sucinta ao mundo do apóstolo e à sua pessoa e pensamento, temos melhores condições de nos aproximarmos de seu escrito que, na opinião de muitos, é o mais significativo do chamado corpus paulino.
Há certo consenso entre os pesquisadores de que a epístola aos Romanos, juntamente com outras epístolas do mesmo autor, teria originalmente circulado em um corpus Paulinum, um conjunto que reunia os escritos de Paulo às igrejas, corpo do qual a presente epístola foi a última a integrá-lo (Bruce, 1979, p. 18). Clemente de Roma, “secretário estrangeiro” daquela igreja, não só conhecia essa e outras cartas (como Coríntios, tendo transcrito cerca de dez dessas cartas), como as citava por volta do ano 96 d.C.
A cópia (ou manuscrito, MS) mais antiga dessas epístolas que chegou até nós é o Papiro 46, o famoso “p 46”, que compõe a coleção de papiros de
7 Tales de Mileto foi filósofo, matemático, engenheiro, homem de negócios e astrônomo da Grécia antiga, considerado, por alguns, o primeiro filósofo ocidental. De ascendência fenícia, nasceu em Mileto, antiga colônia grega, na Ásia Menor, atual Turquia. Tales é apontado como um dos sete sábios da Grécia Antiga.

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