Devocional Meu Porto Seguro 2

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RICARDO ALBUQUERQUE devocional

MEU PORTO SEGURO 2

REFLEXÕES DIÁRIAS SOBRE A SÃ DOUTRINA E HISTÓRIA DA IGREJA

RICARDO ALBUQUERQUE

MEU PORTO SEGURO 2 devocional

REFLEXÕES DIÁRIAS SOBRE A

SÃ DOUTRINA E HISTÓRIA DA IGREJA

RICARDO ALBUQUERQUE

MEU PORTO SEGURO 2 devocional

REFLEXÕES DIÁRIAS SOBRE A SÃ DOUTRINA E HISTÓRIA DA IGREJA

1ª Edição | 2025 Santo André - SP - Brasil

© Geográfica Editora

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A345d Albuquerque, Ricardo

Devocional: meu porto seguro 2 – Reflexões diárias sobre a sã doutrina e história da Igreja / Ricardo Albuquerque. – Santo André : Geográfica, 2025.

16x23cm ; 408 p. ISBN 978-65-5655-573-7

1. Literatura devocional. 2. Livro de meditações. I. Título.

CDU 242

Catalogação na publicação: Leandro Augusto dos Santos Lima – CRB 10/1273

DIÁRIO DE MOVIMENTAÇÃO PORTUÁRIA

- DAILY PORT REPORT -

Esta é uma folha destacada do diário de bordo do faroleiro, servidor de um Porto chamado “Seguro”. Sou Ricardo Albuquerque, o servil obreiro deste devocional. Carrego comigo uma lanterna modesta, que ilumina apenas o passo seguinte nas noites de neblina. Minha missão é pontual: vigiar, acender, avisar. Mas sei que minha luz é pequena diante do farol que se ergue soberano sobre as pedras: torre firme que lança seu facho muito além do alcance dos meus braços. Esse farol, para mim, é Cristo: a estrela da vida inteira, a resplandecente estrela da manhã.

O cais é o mundo, onde as embarcações da vida chegam e partem; os guindastes, como braços fortes, erguem fardos e esperanças; as amarras prendem não apenas navios, mas também corações que precisam de alento. A marinha portuária é o corpo vivo que mantém tudo em movimento: capitães, marinheiros, estivadores, faroleiros, cada um cumprindo seu papel para que o diálogo entre o eterno e o terreno nunca cesse. E eu, pequeno servo, sei que minha lanterna só tem sentido porque existe uma luz maior que me antecede e me sustenta.

Este livro, que agora chega ao seu segundo volume, nasceu sem grandes pretensões, como salmodiou Davi: “Senhor, o meu coração não é orgulhoso e os meus olhos não são arrogantes. Não me envolvo com coisas grandiosas nem maravilhosas demais para mim” (Sl 131.1, NVI). São meditações forjadas no meu transitar pelo vale da sombra da morte e no exercício solitário de contar estrelas nas noites da minha aflição. Lembro-me do apóstolo Paulo, que escreveu a Filemom dizendo ter gerado Onésimo nas prisões, porque algumas vidas, assim como alguns livros, nascem em cativeiros inimagináveis, onde a dor se converte em palavra e a esperança floresce entre grades. E, como disse o grande Rubem Alves, “ostra feliz não faz pérola”.

Sempre que volto meus olhos para este projeto editorial, minha memória repousa na imagem do sicômoro, uma árvore humilde mencionada pelo profeta Amós, que também foi um simples boiadeiro e cultivador dessa espécie. Seu fruto se assemelha ao figo, mas é mais rústico: polpa menos doce, casca mais espessa, amadurecimento lento. Por isso, na antiga prática agrícola, quando o fruto ainda estava verde, o lavra-

dor fazia um pequeno corte em sua casca com uma lâmina. Essa ferida interrompia o curso natural do crescimento e despertava uma reação interna: a liberação do etileno, hormônio que apressa o amadurecimento. Em poucos dias, o que levaria semanas se completava, a cor se transformava, a polpa se tornava macia, o sabor se aperfeiçoava. Assim também nasceu esta coleção Meu Porto Seguro: marcada por cortes que a vida impôs, amadurecida pela graça que Deus concedeu e, agora, pronta para servir.

Entre as memórias que moldaram minha caminhada, guardo com carinho o dia em que, ainda na minha infância, recebi, das mãos de minha avó paterna, já na eternidade, dona Célia Cerqueira Guimarães Albuquerque, dedicada serva de Jesus, dois livros que marcaram minha vida. O primeiro foi Mananciais no Deserto, escrito e compilado por Lettie Burd Cowman (1870–1960), missionária e autora norte-americana, cuja primeira edição foi publicada em 1925, nos Estados Unidos. Quando ganhei essa preciosidade, nem se falava em um gênero editorial chamado “devocional”. O segundo foi O Peregrino, clássico da literatura cristã, escrito por John Bunyan durante o período em que esteve preso por pregar o Evangelho sem autorização da Igreja Anglicana, algo considerado ilegal na Inglaterra do século 17. Bunyan, pregador batista, recusou-se a limitar sua pregação aos templos autorizados e continuou a conduzir cultos em casas e pelas ruas. Preso em 1660, acusado de “promover reuniões ilegais” e de “ausentar-se perniciosamente da igreja”, foi-lhe oferecida liberdade caso prometesse parar de pregar. Sua resposta foi firme: se fosse solto naquele dia, pregaria novamente no dia seguinte “com o auxílio de Deus”. Por manter essa postura, permaneceu cerca de 12 anos no cárcere de Bedford, onde escreveu grande parte de sua obra-prima, uma alegoria espiritual que acompanha a jornada de “Cristão” da “Cidade da Destruição” até a “Cidade Celestial”, retratando as lutas e vitórias da vida de fé.

Ao escrever um devocional, também me recordo dos Irmãos Morávios, que no século 18 desenvolveram uma prática singular que unia espiritualmente comunidades e missionários espalhados pelo mundo. Diariamente, todos liam o mesmo conjunto de textos bíblicos, reunidos no livreto Senhas Diárias, criado em 1728 pelo conde Zinzendorf. Cada página trazia um versículo do Antigo Testamento: a “senha” e, um versículo do Novo Testamento como complemento, muitas vezes acompanhado de um trecho de um hino ou breve oração. Esses textos eram escolhidos anualmente por meio de oração e sorteio, e distribuídos a todos os membros daquela comunidade, de forma que, onde quer que estivessem, partilhavam a mesma reflexão no mesmo dia. Mais do que um hábito de leitura, essa disciplina fortalecia a comunhão, a identidade missionária e a certeza de que toda a obra era sustentada pela Palavra e pela oração.

Assim é Meu Porto Seguro: um convite à meditação à luz das Escrituras, como candeeiro aceso nas primeiras horas do dia, lançando luz sobre o caminho antes que o sol desponte. É um chamado à quietude, à vida relacional com Deus, na simplicidade do cotidiano que transforma e que nos dá a mesma conclusão de Davi: “A tua palavra é a verdade desde o princípio” (Sl 119.160) e, que acordava mais cedo, antecipando-se “às

vigílias da noite, para meditar na tua palavra” (Sl 119.148). Que estas páginas acendam no coração do leitor a chama que aquece e ilumina. Como Deus falou por intermédio de Jeremias: “Porventura a minha palavra não é como o fogo, diz o Senhor, e como um martelo que esmiúça a pedra?” (Jr 23.29, ACF). Que corações sejam feridos, como o corte no sicômoro que apressa o amadurecimento, como a pérola que nasce da dor, como a Palavra que, lida em uníssono, une corações distantes sob o mesmo Senhor.

Ao Rei dos reis consagro o que compus, Ricardo Albuquerque Santana de Parnaíba, inverno de 2025 @resplandecentefarol

DEDICATÓRIAS

À Roseane, a mais amada de todas, — Um lírio entre os espinhos —

“As tuas raízes atravessaram o meu peito e se uniram aos fios do meu sangue.” (Pablo Neruda)

No ano em que tormentas impiedosas se ergueram contra nós, quando o campo de batalha se fez inclemente e a maioria dos combatentes me deixou, tu permaneceste.

Foste coragem, foste ternura, foste amor que não se rendeu nem se vendeu, mas, oh, como doeu.

Como o bom samaritano, cuidaste de mim com azeite e vinho, tratando feridas visíveis e invisíveis, enfaixando as minhas dores,

E também as tuas.

Teu amor é bálsamo que acalma, vinho que fortalece, presença que sustenta, luz que vence a tormenta.

Teu riso é meu alívio, tua dor é minha batalha, e nada me fará recuar, cordão de três dobras...

“Se alguém quiser prevalecer contra um, os dois lhe resistirão; o cordão de três dobras não se rebenta com facilidade.” (Ec 4.12, ARA)

Ao reverendo Arival Dias Casimiro, pastor titular da Igreja Presbiteriana de Pinheiros

Houve um tempo em que a guerra rugia ao meu redor, e eu, ferido e exausto, fui dado por morto. Aos olhos de muitos, eu era apenas um escravo fugitivo, destinado ao esquecimento ou à condenação.

Mas o senhor me encontrou no campo devastado, como Paulo encontrou Onésimo. Não me viu pelo rótulo que me impuseram, mas pelo irmão que eu ainda podia ser.

Acolheu-me quando outros se afastaram, discipulou-me quando eu mal podia ficar de pé, e intercedeu por mim para que eu fosse recebido “não mais como escravo, mas como irmão amado”.

Seu cuidado pastoral é mais que abrigo: é ponte sobre o abismo, mão que reconcilia, e redefine identidades.

Hoje, carrego essa marca não como cicatriz, mas como selo de graça e de restauração.

“De cada cem homens, dez nem deveriam estar lá, oitenta são apenas um número, nove são os verdadeiros lutadores, e temos sorte de tê-los, pois eles fazem a batalha. Ah, mas um, um é um guerreiro, e ele milita a boa milícia.”

APRESENTAÇÕES

Aliteratura devocional sempre ocupou um espaço precioso na vida cristã. Desde os primeiros séculos da igreja, homens e mulheres piedosos buscaram escrever não apenas para instruir a mente, mas também para aquecer o coração. Hoje, vivemos em uma época de abundância: temos incontáveis devocionais sendo lançados todos os anos, cada um prometendo renovar nossa fé e fortalecer nossa caminhada. Contudo, nem todos cumprem a tarefa mais fundamental: conduzir o leitor às Escrituras e ajudá-lo a compreender a narrativa bíblica em sua amplitude. Um devocional verdadeiramente bíblico não se limita a oferecer palavras de conforto para um dia difícil; ele situa o leitor dentro da história da redenção, mostrando como cada texto bíblico aponta para o agir de Deus em Cristo. É justamente essa a lacuna que muitos devocionais deixam em aberto — e é essa mesma necessidade que obras bem fundamentadas, como a de meu amigo Ricardo Albuquerque, vêm suprir com tanta beleza e fidelidade.

Minha amizade com Ricardo é recente, mas já marcada pela profundidade que só o Evangelho pode proporcionar. Tivemos nosso primeiro encontro ao redor de um bom café, partilhando experiências e testemunhos da graça de Deus. Nossas conversas foram além das trivialidades; nelas, percebemos como o Senhor tem transformado nossas histórias, moldando-nos pela Palavra e pelo Espírito. A amizade cristã tem esse caráter singular: ela nasce do encontro com a mesma Verdade e se fortalece na missão de servir à igreja de Deus. É desse encontro, carregado de fé e esperança, que surgiu também o privilégio de escrever estas palavras introdutórias para o leitor desta nova obra.

Agora, tenho a alegria de apresentar a você esta sequência do devocionário Meu Porto Seguro, publicado pela Editora Geográfica. A primeira edição já havia sido recebida com carinho por muitos leitores que encontraram nele uma fonte de encorajamento espiritual. Diariamente, acompanho pelas redes sociais a quantidade de irmãos que tem sido abençoados! Neste novo projeto, Ricardo nos oferece textos devocionais inéditos que seguem a mesma linha: simplicidade na forma, profundidade no conteúdo e beleza na escrita! Com a sensibilidade de quem conhece a boa literatura e a disciplina de quem se dedica às Escrituras, Ricardo nos conduz por trilhas que iluminam tanto a mente quanto o coração. É um privilégio testemunhar essa contribuição para a Igreja, pois sabemos como são preciosos os materiais que unem sólida reflexão teológica com genuína devoção.

Quero, por fim, deixar um convite ao leitor: não leia este devocional de forma apressada ou fragmentada, como se fosse mais um entre tantos livros de sua estante. Ao contrário, permita-se a disciplina diária de separar um tempo exclusivo para a leitura de cada texto, sempre acompanhado pela Escritura indicada. Afinal, um exercício devocional verdadeiro não pode ser feito sem a Palavra de Deus como centro e fundamento. Ao unir a leitura bíblica à literatura devocional, você perceberá a força do diálogo entre Texto e texto.

Que essa prática diária se torne um hábito santo, nutrindo sua fé e fortalecendo sua caminhada diante do Senhor.

Receba, portanto, este livro como um presente. Um presente de Deus à sua Igreja, transmitido pelas mãos de um servo fiel que soube unir saber, sensibilidade e devoção.

Leia, medite, ore e pratique!

Reverendo Paulo Won Pastor da Igreja Presbiteriana Metropolitana em Campinas, mestre em Estudos Bíblicos pela University of Edinburgh, além disso, é criador da plataforma Estante do Paulo, que oferece cursos de teologia e Bíblia para mais de três mil alunos. É autor de obras como E Deus Falou na Língua dos Homens e Grego Diário

APalavra de Deus é um tesouro inesgotável. Cada página das Escrituras revela a fidelidade divina, a esperança da salvação e o chamado para uma vida centrada em Cristo. É dessa convicção que nasce o devocional Meu Porto Seguro, escrito por Ricardo Albuquerque, membro da Igreja Presbiteriana do Brasil, escritor e pregador comprometido com o Evangelho.

Durante muitos anos, Ricardo serviu como ancião na Congregação Cristã no Brasil, exercendo um ministério dedicado à pregação e ao cuidado do rebanho. Após décadas nesse contexto, viveu um momento decisivo que ele mesmo descreve como um divisor de águas espiritual. Em oração, reflexão e obediência, foi conduzido pelo Senhor a iniciar uma nova etapa de sua caminhada na Igreja Presbiteriana. Essa transição, que envolveu renúncia, fé e coragem, também se tornou fonte de renovação espiritual e de inspiração para este livro.

O título Meu Porto Seguro não é apenas uma metáfora bonita: ele traduz a experiência pessoal de Ricardo e a mensagem que percorre toda a Bíblia. Cristo é apresentado como o refúgio firme em cada estação da vida, aquele que é o mesmo em Gênesis e em Apocalipse, o Alfa e o Ômega (Ap 22.13). Nas páginas deste devocional, o leitor encontrará meditações diárias, cuidadosamente organizadas para acompanhar a narrativa bíblica desde a criação até a consumação. Cada reflexão é construída sobre um texto das Escrituras, explicada de maneira clara, aplicada ao coração e conduzida sempre para Cristo, o centro da história da redenção.

Este livro é o reflexo de uma caminhada marcada por lutas e vitórias, dúvidas e certezas, provações e consolo. A estrutura do devocional reflete esse propósito. Não são textos longos ou meramente teóricos, mas meditações bíblicas e pastorais, que unem exposição da Palavra e aplicação prática. Assim como, no Pentecostes, o Espírito Santo encheu os discípulos para proclamar a Cristo, cada página convida o leitor a viver de modo cristocêntrico, reconhecendo que toda experiência espiritual verdadeira deve glorificar Jesus, o Doador, e não apenas exaltar dons ou manifestações.

Ricardo Albuquerque é hoje conhecido por seu testemunho de fé, sua integridade e sua dedicação ao ensino bíblico. Além de escritor, é esposo e pai, alguém que conhece tanto as alegrias quanto as dores da vida cristã, e que escreve não apenas com o intelecto, mas também com o coração. Sua experiência pessoal, somada ao amor pelas Escrituras, confere a este livro um tom de sinceridade e profundidade

que certamente tocará o leitor.

Que a leitura de Meu Porto Seguro fortaleça sua fé, renove sua esperança e o leve a encontrar descanso e segurança em Jesus, o único Porto Seguro de nossa vida.

Reverendo Augustus Nicodemus Lopes presbiteriano, doutor em Teologia Exegética pelo Westminster Theological Seminary (EUA), foi chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie e vicepresidente do Supremo Concílio da IPB, autor de diversos livros, atua como conferencista no Brasil e no exterior e serve como pastor na Esperança Bible Presbyterian Church, nos Estados Unidos.

Tenho a honra de prefaciar esta notável obra, Meu Porto Seguro, da autoria do meu precioso irmão, Ricardo Albuquerque. Meu entusiasmo em apresentar este devocionário aos leitores decorre de três fatores que passo a elencar:

Em primeiro lugar, a vida do autor recomenda sua obra. Escolhemos um bom livro pelo autor e pelo conteúdo. Este devocional tem o selo da excelência tanto pela sua autoridade quanto pelo seu conteúdo. Ricardo é um homem de Deus, de vida ilibada e caráter impoluto. Seu testemunho é avalista de sua obra. Seu exemplo de piedade é a melhor recomendação de seu trabalho.

Em segundo lugar, as mensagens aqui registradas são biblicamente consistentes, teologicamente fiéis e pastoralmente oportunas. São textos objetivos, claros e assaz oportunos. São bálsamos para a alma, tônicos para a fé e diretrizes na jornada cristã. Os textos apontam para Cristo, nosso porto seguro.

Em terceiro lugar, o autor apresenta a mensagem não apenas com irretocável fidelidade, mas também com vívida eloquência e refinada beleza. Transborda em cada devocional, de cada dia do ano, o gotejamento bendito da verdade, que restaura a alma e alegra o coração.

Leia, medite e obedeça aos princípios aqui exarados.

Que Deus abençoe sua vida.

Reverendo Hernandes Dias Lopes titular da Primeira Igreja Presbiteriana de Vitória (ES) e pastor colaborador da Igreja Presbiteriana de Pinheiros (SP), escritor e conferencista, autor de mais de cento e cinquenta livros e diretor executivo do ministério Luz para o Caminho, com ampla atuação na pregação expositiva e na proclamação do Evangelho.

Tenho a sublime honra e o privilégio de prefaciar o devocional Meu Porto Seguro, de Ricardo Albuquerque. Destaco as várias razões que me levaram a fazer esta declaração:

Primeiro, destaco a relevância desta obra. A tradição protestante reformada sempre utilizou guias devocionais para incentivar a meditação diária na Palavra de Deus. Meditar em uma passagem das Escrituras é um mandamento divino para a nossa felicidade. O salmista declara: “Antes, o seu prazer está na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite. Ele é como árvore plantada junto a correntes de águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto, e cuja folhagem não murcha; e tudo quanto ele faz será bem-sucedido” (Sl 1.2-3, ARA). Meditar não é apenas ler, mas “ruminar” o texto bíblico. Se a Palavra é o alimento, a meditação é o processo digestivo que nutre a alma. Um livro devocional que seleciona um texto das Escrituras e o explica e aplica à vida diária é o melhor auxílio devocional que podemos ter. Cada texto bíblico torna-se uma lâmpada para os nossos pés e um cajado para nos sustentar em dias difíceis.

Segundo, as qualificações do autor. Ricardo é um filho de Deus exemplar, pois em seu coração há o temor ao Senhor. Esposo da Roseane e pai do Miguel e da Louise, Ricardo é um exemplo cristão em todos os seus relacionamentos e onde é colocado. É um privilégio desfrutar da sua amizade e consideração. Ele é um homem de Deus e cabe bem a ele a descrição feita a Barnabé: “Porque era homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé.” É um homem culto, mas também humilde e desprovido de vaidades.

Terceiro, o momento marcante em que esse livro é publicado. Ele marca o retorno do Ricardo à Igreja Presbiteriana Brasil, na qual serviram ele e os seus pais. Tudo tem o seu tempo determinado por Deus, e a vida cristã é sempre um recomeço. É preciso suportar o processo para alcançar o propósito de Deus para nossa vida. Concluo com a citação do pastor J. C. Ryle, um dos nomes mais influentes do evangelicalismo anglicano no século 19: "Meu principal desejo em todos os meus escritos é exaltar o Senhor Jesus Cristo e torná-lo belo e glorioso aos olhos dos homens; e promover o aumento do arrependimento, da fé e da santidade na Terra”.

Sou um desses ministros “antiquados” que acreditam em toda a Bíblia e em tudo o que ela contém!

Boa leitura.

Reverendo Arival Dias Casimiro titular da Igreja Presbiteriana de Pinheiros, em São Paulo, e diretor da Editora Heziom, autor de dezenas de livros e comentários bíblicos, atua como conferencista no Brasil e no exterior, com ênfase na pregação expositiva, no discipulado e na formação de líderes para a Igreja de Cristo.

O tempo de Deus

Apocalipse 21:5

“Eis que faço novas todas as coisas.”

Janeiro marca o início do calendário civil, símbolo de recomeço e expectativa. Para o cristão, o verdadeiro sentido do novo não está na data, mas em Cristo, o Senhor da história e Autor da vida. Cada janeiro é um lembrete de que a graça se renova a cada manhã (Lm 3:22–23). Cristo é o Bom Pastor que guia, a Luz que dissipa as trevas e o Senhor do tempo que governa cada estação. Em Cristo, o tempo pertence a Deus.

JANEIRO

janeiro

REFÚGIO SECRETO

“Escondi a tua palavra no meu coração, para eu não pecar contra ti.”

Salmo 119.11

Corrie ten Boom e sua família abriram as portas de sua casa na Holanda para esconder judeus da fúria nazista. Denunciados, foram enviados para campos de concentração. No horror de Ravensbrück, Corrie levava consigo uma Bíblia escondida sob o vestido. Sabia que, se fosse descoberta, enfrentaria severo castigo. Orando, pediu que os anjos de Deus a escondessem. Milagrosamente, os guardas passaram por ela sem notar o Livro Santo. A Bíblia, que escapou à vigilância dos opressores, tornou-se luz no meio da escuridão. Nos barracões infestados de piolhos, as pragas afastavam os guardas, permitindo que Corrie e sua irmã, Betsie, lessem as Escrituras em segredo. Deus usou até mesmo o que parecia insuportável para preservar sua Palavra viva entre as prisioneiras. Hoje, temos livre acesso à Bíblia, mas será que a valorizamos? Estamos dispostos a arriscar tudo por ela? O refúgio secreto de Corrie não era apenas um esconderijo físico, mas uma fortaleza espiritual para a alma. Que, como ela, guardemos a Palavra e a proclamemos, mesmo em meio às provas mais severas. A Bíblia não é apenas um livro. É vida em meio à morte, esperança em meio ao desespero. E, quando a temos no coração, ninguém pode nos privar dela.

A MORTE QUE GERA VIDA 2

janeiro

A lógica do Reino de Deus é diferente da lógica humana. Enquanto o mundo valoriza o poder, Deus exalta a humildade. Enquanto o mundo busca preservar a própria vida, Cristo ensina que, para viver plenamente, é preciso morrer. Jesus usou a figura do grão de trigo para ilustrar sua própria missão. Ele não veio para estabelecer um trono terreno, mas para entregar sua vida na cruz. Sua morte não foi derrota, mas triunfo. Como a semente que morre e se multiplica, seu sacrifício gerou salvação para muitos. Essa verdade se aplica também à nossa vida. Muitos querem seguir Jesus sem renunciar a si mesmos. Querem a glória sem a cruz, o fruto sem a renúncia. Mas não há colheita sem plantio, nem vida abundante sem entrega. Morrer para o orgulho, para o egoísmo e para os prazeres do mundo é o caminho para frutificar espiritualmente. Se Cristo, o Senhor da glória, se humilhou e morreu para nos dar vida, como poderíamos não seguir os seus passos? Quanto mais nos entregamos, mais ele nos usa. Quem busca preservar-se, perde-se. Mas quem entrega a vida a Cristo, encontra a verdadeira vida. A semente precisa cair, morrer e se desfazer para gerar frutos. Você está disposto a morrer para si mesmo para que Cristo viva em você?

“Na verdade, na verdade vos digo que, se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto.”

João 12.24, ACF

janeiro

O LOUVOR QUE

ABALA PRISÕES

“E, perto da meia-noite, Paulo e Silas oravam e cantavam hinos a Deus, e os presos os escutavam.”

Atos 16.25

Açoitados injustamente, lançados na prisão mais escura e com os pés acorrentados no tronco, Paulo e Silas tinham motivos para lamentar, mas escolheram louvar. Naquela meia-noite de dor, suas vozes ecoaram pelos corredores úmidos e gelados da prisão. Enquanto outros murmuravam, eles cantavam. Enquanto outros temiam, eles confiavam. Então, o céu se moveu. Um terremoto abalou os alicerces da prisão, as cadeias se romperam e as portas se abriram. O carcereiro, tomado pelo pavor, viu o sobrenatural e caiu aos pés daqueles homens, perguntando: “Senhores, que é necessário que eu faça para me salvar?” (At 16.30). O louvor que Paulo e Silas entoaram não era baseado em circunstâncias, mas em convicção. Não era uma fuga da realidade, mas uma resposta de fé. Deus não foi glorificado apenas pelo cântico, mas pela confiança que aquele louvor expressava. Ainda hoje, prisões invisíveis cercam corações aflitos. Cadeias de medo, angústia e desespero tentam nos aprisionar. Mas o louvor sincero ainda move os céus e abala a terra. Quando adoramos no vale, Deus abre caminhos onde não havia saída. Se você está em meio à noite escura da alma, cante. Louve. Confie. O Deus que abriu as portas daquela prisão é o mesmo que pode libertar você hoje!

QUANDO DEUS

PARECE SILENCIOSO

janeiro

Habacuque e Amós viveram em tempos de profunda corrupção. A justiça estava distorcida, os poderosos exploravam os fracos, e o mal triunfava sem aparente intervenção divina. Habacuque clamou angustiado, questionando o silêncio de Deus. Amós denunciou as injustiças sociais de Israel, apontando o juízo iminente. Ambos olharam ao redor e viram um cenário de caos e impunidade. Onde estava Deus? O Senhor respondeu a Habacuque. “Realizo , em vossos dias, uma obra, que vós não crereis quando for contada” (Hc 1.5). Deus não estava inerte. Seu juízo viria, ainda que demorasse. Sua justiça não falharia, embora parecesse tardia. Quantas vezes olhamos para o mundo e nos perguntamos: onde está Deus? Por que ele permite que os ímpios prosperem? Mas a resposta divina permanece a mesma. Ele está agindo. Sua justiça não falha. Seu tempo é perfeito. Habacuque terminou seu livro com um cântico de fé: “Todavia eu me alegrarei no Senhor, exultarei no Deus da minha salvação” (HC 3.18). Quando não entendemos os caminhos de Deus, devemos confiar no seu caráter. Ele reina, governa e, a seu tempo, executa justiça. Se hoje a injustiça parece prevalecer, não desanime. Deus não está indiferente. Ele continua no trono e, no tempo certo, fará justiça!

“Até quando, Senhor, clamarei eu, e tu não me escutarás? Gritarte-ei. Violência! E não salvarás?“

Habacuque 1.2, ACF

A HONRA QUE PERTENCE A DEUS 5

janeiro

“O filho honrará o pai, e o servo, ao seu senhor; e se eu sou Pai, onde está a minha honra? E, se eu sou Senhor, onde está o meu temor?”

Malaquias 1.6

Nos dias de Malaquias, o povo de Israel havia se tornado negligente no culto ao Senhor. Os sacerdotes ofereciam no altar animais cegos e doentes, desonrando a Deus com sacrifícios indignos. Chamavam-no de Pai, mas não o honravam; diziam que ele era Senhor, mas não o temiam. Então, Deus os confronta com uma pergunta cortante: “Se eu sou Pai, onde está a minha honra? E, se eu sou Senhor, onde está o meu temor?”

O Senhor não aceita uma devoção vazia nem um culto sem reverência. Ele exige o melhor, pois ele é o melhor. Hoje, corremos o mesmo risco. Podemos chamar Deus de Pai, mas viver como se fôssemos donos da própria vida. Podemos chamá-lo de Senhor, mas sem nos submeter à sua vontade. O culto que não envolve o coração é rejeitado. A obediência parcial é, na verdade, desobediência. Deus não aceita sobras. Ele quer nossa entrega completa, um coração que o adore em espírito e em verdade. Honrá-lo é mais do que palavras; é viver para a sua glória. Se ele é nosso Pai, que o honremos como tal. Se ele é nosso Senhor, que o temamos de verdade.

LUZ EM TEMPOS SOMBRIOS 6

janeiro

Anne Frank era apenas uma adolescente quando foi forçada a se esconder para escapar da perseguição nazista. No pequeno anexo secreto onde viveu por mais de dois anos, cercada pelo medo e pela incerteza, encontrou refúgio na escrita. Seu diário se tornou um testemunho de esperança em meio à escuridão. O esconderijo ficava escondido atrás de uma estante giratória, e o acesso a ele foi engenhosamente disfarçado por Otto Frank e seus ajudantes. Para evitar que fosse descoberto, eles instalaram uma estante de livros móvel que cobria sua entrada, ocultando completamente a passagem. Mesmo diante do horror, Anne escreveu: “Apesar de tudo, eu ainda creio que as pessoas são realmente boas de coração.” Sua fé na humanidade desafiava a brutalidade ao seu redor. Embora tenha sido capturada e enviada a um campo de concentração, suas palavras permaneceram vivas, inspirando gerações. Vivemos em tempos difíceis, onde o ódio e a injustiça ainda se manifestam. O medo tenta nos aprisionar, mas a luz de Cristo nunca se apaga. Assim como Anne manteve esperança em meio ao terror, somos chamados a refletir a luz de Deus, mesmo nas circunstâncias mais sombrias. Jesus disse que somos a luz do mundo (Mt 5.14). A luz não precisa lutar contra a escuridão; ela simplesmente brilha. Quando o mundo está tomado pelo desespero, nossa fé deve ser um farol de esperança. Se Anne Frank, em meio ao sofrimento, manteve sua esperança acesa, quanto mais nós, que conhecemos aquele que é a luz do mundo? Que nossa vida brilhe, mesmo nos dias mais difíceis!

“E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.”

João 1.5

janeiro

A ERA APOSTÓLICA. UM LEGADO INABALÁVEL

“Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina.”

Efésios 2.20

O primeiro período da história da Igreja, conhecido como Era Apostólica, se estendeu da ascensão de Cristo (30 d.C.) até a morte do apóstolo João (cerca de 100 d.C.). Foi um tempo de crescimento explosivo, milagres extraordinários e intensa perseguição. Os apóstolos, revestidos de poder pelo Espírito Santo no Pentecostes, levaram o Evangelho de Jerusalém aos confins da terra. Pedro pregou e três mil almas se converteram em um só dia. Paulo percorreu terras distantes, plantando igrejas e enfrentando prisões. João, o último dos apóstolos, encerrou seus dias exilado em Patmos, deixando-nos a gloriosa visão do Apocalipse. Era um tempo de desafios, mas também de conquistas. A Igreja floresceu em meio ao sangue dos mártires. Os cristãos eram perseguidos, mas não silenciados. O mundo tentou apagá-los, mas eles resplandeceram como tochas vivas. Hoje, vivemos em outra era, mas a missão continua. O mesmo Espírito Santo que capacitou os apóstolos está conosco. A mesma mensagem que incendiou corações há dois mil anos, ainda transforma vidas. O fundamento foi lançado. Cabe a nós seguir edificando. Somos herdeiros de um legado de fé inabalável!

A IGREJA QUE

FLORESCE SOB O FOGO

Quando o último apóstolo fechou os olhos para este mundo, a Igreja entrou em um período de trevas e provações. De 100 d.C. até o Edito de Constantino em 313 d.C., a fé cristã foi perseguida com fúria pelos imperadores romanos. Milhares foram lançados às feras nos coliseus, queimados como tochas vivas nos jardins de Nero, ou cruelmente torturados por se recusarem a negar o nome de Cristo. Mas, em vez de ser extinta, a Igreja floresceu. O sangue dos mártires tornou-se a semente dos crentes. O testemunho dos que morriam cantando nos coliseus impactava até mesmo seus algozes. Quanto mais a espada romana feria os discípulos de Cristo, mais eles se multiplicavam. O Evangelho avançava pelas províncias do império como um fogo incontrolável. A perseguição não destrói a Igreja; antes, a purifica e fortalece. Hoje, vivemos tempos de hostilidade contra a fé. Mas não temamos! O Senhor, que sustentou seus filhos naquele tempo, nos fortalecerá agora. Sigamos firmes, pois a verdade de Deus jamais será apagada! Oro para que, diante das provações, sejamos como os cristãos da igreja perseguida: fiéis até a morte, certos de que, em Cristo, a vitória é certa!

“E eles, tendo partido, pregavam por todas as partes, cooperando com eles o Senhor e confirmando a palavra com os sinais que se seguiram.”

Marcos 16.20

janeiro

O PREÇO DA FIDELIDADE

“Nada temas das coisas que hás de padecer. Eis que o diabo lançará alguns de vós na prisão, para que sejais tentados; e tereis uma tribulação de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida.”

Apocalipse 2.10

Os dois primeiros séculos da Igreja foram regados com lágrimas e sangue. Os cristãos eram vistos como inimigos do Império Romano, acusados de traição por se recusarem a adorar o imperador. O Coliseu, os anfiteatros e as praças tornaram-se cenários de indescritível crueldade. Muitos foram lançados às feras, outros queimados vivos, e há relatos de mártires despedaçados por cães. Entre esses heróis da fé, destaca-se Blandina, uma escrava cristã de Lião, na Gália. Após terríveis torturas, foi enrolada em uma rede e lançada diante de touros selvagens. Mesmo diante da morte, sua fé permaneceu inabalável. O testemunho desses mártires não foi em vão. Quanto mais a Igreja era perseguida, mais crescia. O sangue dos santos se tornou a semente do Evangelho. Ainda hoje, a fidelidade a Cristo exige coragem. Talvez não enfrentemos feras, mas há outros desafios: zombaria, exclusão e, em algumas partes do mundo, perseguições severas. No entanto, a promessa de Cristo permanece: aquele que for fiel até à morte receberá a coroa da vida. Que, como os mártires da igreja primitiva, sejamos fiéis até o fim, pois há uma glória eterna reservada para os que não negam o nome do Senhor!

A IGREJA E O IMPÉRIO

A igreja imperial nasceu das cinzas das perseguições. Quando Constantino, pelo Édito de Milão (313 d.C.), declarou liberdade religiosa, a cruz deixou de ser símbolo de martírio e tornou-se emblema do governo. Mais tarde, Teodósio, pelo Édito de Tessalônica (380 d.C.), fez do cristianismo a religião oficial do Império Romano. A fé que cresceu nos vales sombrios do sofrimento passou a desfrutar do favor dos palácios. Mas, com os privilégios, vieram os perigos. O Evangelho da cruz foi, aos poucos, substituído pelo evangelho da coroa. A Igreja, antes peregrina, começou a se assentar nos tronos dos reis. A espiritualidade viva cedeu lugar a uma religião institucionalizada. A simplicidade apostólica foi sufocada pelos ritos imperiais. Ainda hoje, esse perigo nos ronda. Quando a Igreja se entrelaça ao poder político e se esquece da sua missão, corre o risco de perder sua essência. O Reino de Deus não se constrói pela força das leis, mas pelo poder do Espírito. A cruz não foi feita para adornar governos, mas para lembrar o sacrifício do Salvador. O verdadeiro Evangelho não se impõe pelo decreto humano, mas pela transformação dos corações. Que nunca troquemos o altar pelo trono, nem o Cordeiro pela espada.

janeiro

“Porque já o mistério da injustiça opera; somente há um que, agora resiste até que do meio seja tirado.”

2 Tessalonicenses

2.7

janeiro

A IGREJA NA ESCURIDÃO

“E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.”

João 1.5

A Idade Média foi um tempo de sombras. Com a queda de Roma em 476 d.C., o mundo mergulhou em uma era de instabilidade e medo. A igreja, que deveria ser o farol da verdade, foi, muitas vezes, obscurecida pela corrupção e pelo formalismo. O Evangelho puro foi sufocado por tradições humanas, e a Palavra de Deus tornou-se inacessível ao povo. Esse período se estendeu por quase mil anos, até a queda de Constantinopla em 1453. Durante esse tempo, o poder eclesiástico confundiu-se com o poder político, e muitos usaram a fé como instrumento de domínio. Ainda assim, Deus sempre preservou um remanescente fiel. Em meio às trevas, vozes como as de Pedro Valdo e John Wycliffe prepararam o caminho para a Reforma. A luz de Cristo jamais se apaga. Mesmo hoje, vivemos tempos de engano e corrupção espiritual. Muitos trocam a verdade do Evangelho por doutrinas de homens. Mas a Palavra de Deus segue como lâmpada para os nossos pés e luz para o nosso caminho. Que sejamos fiéis em meio às trevas, proclamando a verdade que liberta. Pois, quando a noite parece mais densa, o brilho do Evangelho resplandece com mais força.

A IGREJA REFORMADA

A queda de Constantinopla em 1453 marcou o fim da Idade Média e abriu caminho para profundas mudanças na história da Igreja. A redescoberta das Escrituras e o anseio por uma fé autêntica culminaram na Reforma Protestante, iniciada por Martinho Lutero em 1517. Esse movimento resgatou a verdade do Evangelho e libertou a Igreja das cadeias da tradição humana. A Reforma proclamou que a salvação vem somente pela graça, somente por meio da fé, somente em Cristo, somente segundo as Escrituras, e somente para a glória de Deus. O retorno à Palavra impulsionou mudanças profundas, mas também atraiu perseguições. A Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) evidenciou os conflitos entre a fé verdadeira e os interesses políticos e religiosos. Hoje, a igreja ainda enfrenta o perigo de se desviar da verdade. A tentação de substituir a suficiência da Escritura por modismos teológicos e filosofias humanas continua presente. Mas a Palavra de Deus permanece inabalável. Que jamais troquemos a verdade do Evangelho por tradições vazias. Que nossa fé seja firmada na Escritura e nossa vida seja um testemunho vivo da graça de Cristo, pois a verdadeira Reforma não é apenas um evento histórico, mas uma obra contínua do Espírito em cada geração.

janeiro

“Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade.”

João 17.17

janeiro

A IGREJA MODERNA

“Lembra-te, pois, de onde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeiras obras.”

Apocalipse 2.5

A Igreja Moderna nasceu dos escombros das guerras religiosas. O fim da Guerra dos Trinta Anos, em 1648, trouxe liberdade, mas também novos desafios. O racionalismo tentou subjugar a fé, o secularismo afastou Deus da sociedade e o liberalismo teológico enfraqueceu a autoridade das Escrituras. Ainda assim, Deus não deixou sua Igreja sem testemunho. Avivamentos poderosos varreram nações. O Grande Despertamento reacendeu a chama do Evangelho no século 18 e levou missionários a cruzarem oceanos para levar Cristo aos confins da terra. O século 20 testemunhou perseguições ferozes, mas também um crescimento explosivo da fé, especialmente em terras antes estéreis ao Evangelho. Hoje, vivemos tempos de incerteza. A igreja enfrenta perseguições, relativismo e crescente indiferença espiritual. Em alguns lugares, a fé foi diluída para agradar ao mundo. Em outros, o Evangelho verdadeiro tem sido proclamado com intrepidez. Contudo, o chamado de Cristo continua o mesmo: arrependimento e fidelidade. Não somos chamados para moldar o Evangelho à cultura, mas para sermos luz no mundo. A Igreja de hoje deve voltar ao primeiro amor, firmada na Palavra e cheia do Espírito. O Senhor não mudou, sua verdade permanece, e sua Igreja marchará triunfante até o fim.

QUANDO A RELIGIÃO SUFOCA A FÉ

janeiro

A Igreja da Galácia começara bem a sua caminhada. Havia fervor, doutrina sã, frutos visíveis da graça. Mas, com o tempo, permitiu que o legalismo e a formalidade tomassem o lugar da fé viva e operante. O apóstolo Paulo, com coração pastoral e lágrimas nos olhos, os admoestou: “Corríeis bem”. Havia um passado de fidelidade, mas agora tropeçavam na estrada da fé. Essa advertência ecoa como trombeta para a igreja contemporânea. É possível manter cultos, programas, agendas cheias — e ainda assim perder o coração. Uma comunidade pode manter a liturgia, o nome, a reputação, e mesmo assim estar espiritualmente falida. Há muita movimentação sem direção, muita performance sem unção, muito ajuntamento sem quebrantamento. Isso acontece porque cristianismo sem cruz é religião vazia. Culto sem Palavra é ruído. Ministério sem oração é vaidade. Quando a piedade é substituída por performance, entramos no deserto seco da religiosidade. O Senhor não busca palcos, mas altares. Não se agrada de rotinas mecânicas, mas de corações rendidos. O perigo da religiosidade é que ela mascara a ausência de Deus com a aparência de devoção. Voltemos ao primeiro amor. Que o Espírito Santo reavive em nós a chama da verdadeira espiritualidade. Que não sejamos como a igreja de Sardes, que tinha nome de que vivia, mas estava morta (Ap 3.1). Corríamos bem, mas é preciso chegar bem. Ainda é tempo de voltar.

“Corríeis bem; quem vos impediu, para que não obedeçais à verdade?”

Gálatas 5.7

janeiro

SALVOS DO PECADO –PASSADO, PRESENTE E FUTURO

“Sendo, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo.”

Romanos 5.1

A salvação em Cristo não é um evento isolado, mas um processo glorioso que se desdobra em três tempos distintos: justificação, santificação e glorificação. Cada uma dessas etapas revela uma faceta da obra redentora de Deus em nosso favor. Na justificação, somos declarados justos diante de Deus. O pecado já não nos condena, pois Cristo levou sobre si nossa culpa na cruz. Somos aceitos, não por méritos, mas pela fé no Redentor. É um ato jurídico, completo e irrevogável, pois a penalidade foi removida. Na santificação, somos transformados dia após dia. O pecado já não impera, pois o Espírito habita em nós, capacitando-nos a viver em novidade de vida. É um processo contínuo, em que a imagem de Cristo vai sendo esculpida em nosso caráter. A presença do pecado ainda existe, mas sua tirania foi quebrada. Na glorificação, seremos finalmente livres da presença do pecado. O pecado já não existe. Receberemos corpos incorruptíveis, sem mancha ou mácula, e estaremos para sempre com o Senhor, perfeitos em santidade. Essas três verdades caminham juntas. A justificação nos dá paz; a santificação, propósito; a glorificação, esperança. Deus nos salvou, está nos salvando e nos salvará por completo.

QUANDO A LUZ

É

TEMIDA

janeiro

Ao longo da história, o anti-intelectualismo tem sido uma sombra que persegue a Igreja e a sociedade. Em tempos de escuridão espiritual, livros foram queimados, ideias silenciadas e mentes pensantes, perseguidas. Em vez de combater o erro com a verdade, muitos preferiram o silêncio da ignorância à luz do conhecimento. No século 16, a Reforma Protestante resgatou o lugar central das Escrituras e reacendeu o valor do saber. Lutero traduziu a Bíblia para o povo comum, e Calvino fundou escolas e academias. Para os reformadores, mente e coração andam juntos no caminho da verdade. O anti-intelectualismo é inimigo da fé bíblica. Deus nos chama a amá-lo com todo o nosso coração e com todo o nosso entendimento (Mt 22.37). Ignorar a razão em nome da fé é desprezar a própria Sabedoria. Queimar livros não apaga a verdade. Perseguir o saber não destrói a luz. Quando a Igreja teme o estudo, ela empobrece. Quando rejeita o conhecimento, ela se rende à superstição. Hoje, precisamos de uma fé pensante. Precisamos de crentes que conheçam as Escrituras, que estudem com humildade e que defendam a verdade em amor. A mente renovada é instrumento do Espírito. Que busquemos o saber, não por vaidade, mas por amor àquele que é a verdade.

“O meu povo foi destruído, porque lhe faltou o conhecimento [...]”

Oseias 4.6

janeiro

SABEDORIA SEM SANTIDADE É RUÍNA

“Porque sucedeu que, no tempo da velhice de Salomão, suas mulheres lhe perverteram o coração para seguir outros deuses [...]”

1Reis 11.4

Salomão começou sua jornada com sabedoria do alto, temor a Deus e um coração reverente. Foi o construtor do templo e o rei cuja fama se espalhou pelas nações. Mas terminou seus dias mergulhado na idolatria, dominado pela sensualidade e desviado da aliança. O mesmo Deus que ordenara aos reis que não multiplicassem cavalos (Dt 17.16), foi desobedecido por Salomão, que importou cavalaria do Egito. Deus advertira contra alianças com mulheres estrangeiras, que desviassem o coração — e, ainda assim, Salomão tomou para si setecentas esposas e trezentas concubinas. Um número que revela não apenas exagero, mas uma desobediência sistemática. Suas paixões tomaram o trono de sua alma. O homem que outrora orou com humildade passou a edificar altares a deuses pagãos, não por convicção, mas para agradar suas esposas. O coração que outrora pertenceu exclusivamente ao Senhor foi dividido, e um coração dividido é inevitavelmente um coração caído. Há um alerta solene aqui: não basta começar bem; é preciso terminar bem. A sabedoria sem obediência é vaidade. O brilho do início não garante o fulgor do fim. A vida de Salomão é uma advertência aos que pregam com eloquência, mas negligenciam a vigilância. Que não apenas sejamos conhecidos pelo que começamos, mas também por glorificar a Deus por como terminamos.

QUANDO O CONSELHO

ERRADO GOVERNA

O CORAÇÃO

Roboão herdou o trono de seu pai, Salomão, mas não herdou sua sabedoria. Quando o povo, já cansado da carga tributária imposta pelo reinado anterior, clamou por alívio, Roboão buscou conselhos. Mas, em vez de ouvir os anciãos, que pediam brandura, deu ouvidos aos jovens de sua geração, isto é, conselheiros imaturos, movidos por orgulho e sede de poder. Sua resposta arrogante — prometer castigar com escorpiões — não apenas rejeitou o clamor do povo, mas rompeu a unidade da nação. O reino se dividiu: dez tribos seguiram Jeroboão, e apenas Judá permaneceu com Roboão. A falta de sensibilidade espiritual gerou uma tragédia política e religiosa. A divisão de Israel não foi apenas resultado de má política, mas da ausência de temor a Deus. Roboão governou com dureza porque seu coração não se quebrantou diante do Senhor. Quando líderes desprezam a sabedoria dos mais experientes e se guiam por impulsos carnais, o povo sofre, e o propósito de Deus é comprometido. A história de Roboão é um alerta aos que governam lares, igrejas e nações, mostrando que não basta ter a posição, é preciso ter discernimento. Onde falta oração, o orgulho reina. Onde se despreza a sabedoria divina, impera a confusão. Que sejamos guiados não pelos gritos da multidão nem pelos aplausos dos amigos, mas pela doce voz de Deus.

janeiro

“E lhe falou conforme o conselho dos jovens, dizendo. Meu pai agravou o vosso jugo, porém eu ainda aumentarei o vosso jugo; meu pai vos castigou com açoites, porém eu vos castigarei com escorpiões.”

1Reis 12.14

“E a outro, operação de maravilhas; e a outro, profecia; e a outro o dom de discernir os espíritos [...]”

1Coríntios 12.10

O OLHO ESPIRITUAL DA IGREJA

Em uma época de confusão espiritual, onde vozes se levantam em nome de Deus, mas nem todas procedem dele, o dom de discernir espíritos é vital para a saúde da Igreja. O apóstolo Paulo, ao instruir os coríntios sobre os dons espirituais, destacou esse carisma como um farol no meio da névoa. Discernir espíritos é mais do que avaliar aparências; é perceber, pela ação do Espírito Santo, se a origem de uma manifestação espiritual é divina, humana ou demoníaca. Nem todo milagre vem de Deus, nem toda eloquência é ungida, nem toda profecia é verdadeira. Há falsos mestres, lobos vestidos de ovelhas, e ministros que mascaram a verdade. Todo espírito deve ser julgado à luz da Palavra (1Jo 4.1). E como o crente fará tal julgamento sem antes conhecer a verdade das Escrituras? O discernimento espiritual não se apoia em sensações, mas na verdade revelada. A razão, iluminada pelo Espírito, é aliada da fé verdadeira. Hoje, muitos corações são enredados por enganos sutis. Precisamos orar para que Deus levante crentes com discernimento, que saibam distinguir a luz das trevas, o ouro da palha, a voz do Pastor do eco do salteador. O discernimento é o olhar aguçado do Espírito na alma do crente. Onde ele falta, a igreja tropeça. Onde ele habita, a verdade prevalece.

O DEUS QUE SE

DEIXA CONHECER

Deus existe. Ele não é fruto da imaginação humana, nem um conceito filosófico. Ele é o Ser absoluto, eterno, imutável, infinito em poder, sabedoria e santidade. O testemunho de sua existência é universal. A criação é o palco onde sua glória se revela, e onde os céus se tornam o púlpito. A Teologia Sistemática chama esse conhecimento de “revelação geral”: Deus se dá a conhecer por meio da natureza, da história e da consciência. Mas esse conhecimento, embora real, é insuficiente para a salvação. Por isso, Deus também se revelou de modo especial nas Escrituras e, de forma suprema, em Cristo Jesus. Deus não é apenas existente, mas comunicativo. Ele se dá a conhecer porque deseja ser conhecido e adorado. O conhecimento de Deus não é mera acumulação de dados, mas experiência transformadora. Todo conhecimento verdadeiro de Deus nos conduz ao temor reverente e à adoração. Hoje, muitos vivem como se Deus fosse irrelevante ou ausente. Mas a criação continua a falar, a Bíblia continua a pregar, e Cristo continua a chamar. Conhecer a Deus é o maior privilégio da alma humana. Ele é mais real que o mundo, mais presente que o ar, mais necessário que o pão. Quanto mais o conhecemos, mais o amamos. E quanto mais o amamos, mais o glorificamos.

janeiro

“Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos.”

Salmo 19.1, ACF

“Eu sou Deus, e não há outro Deus, não há outro semelhante a mim.”

Isaías 46.9

O DEUS INCOMPARÁVEL

Deus não pode ser comparado a ninguém, nem a nada. Ele é absolutamente único. Gosto de classificar os atributos divinos em dois grupos: incomunicáveis e comunicáveis. Os incomunicáveis pertencem a Deus exclusivamente. Sua eternidade — ele não teve começo nem terá fim; sua imutabilidade — ele não muda; sua onipotência — nada lhe é impossível; sua onipresença — ele está em todo lugar; sua onisciência — tudo está patente diante dele. Esses atributos mostram que Deus é infinitamente acima de nós. Já os comunicáveis são reflexos da glória de Deus em nós, ainda que de forma limitada: santidade, justiça, amor, bondade, misericórdia, fidelidade. Somos chamados a imitá-lo nessas virtudes, pelo Espírito de Cristo que em nós habita. Conhecer os atributos de Deus não é apenas um exercício intelectual, mas uma contemplação que nos leva à adoração. É verdade que exalta a Deus e humilha o homem. Como escreveu Tozer: “O que vem à mente quando pensamos em Deus é a coisa mais importante sobre nós.” Neste mundo instável, ansiamos por alguém que não muda. Em meio à injustiça, clamamos por um Deus justo. Cercados por maldade, necessitamos da sua bondade. O conhecimento dos atributos de Deus traz segurança ao coração e reverência à alma. Conhecer a Deus é mais que saber sobre ele; é amá-lo por quem ele é.

TRÊS EM UM, UM EM TRÊS

A doutrina da Trindade é o coração pulsante da fé cristã. Não foi criada por concílios, mas revelada nas Escrituras. O Pai é Deus, o Filho é Deus, o Espírito Santo é Deus, e há um só Deus. Não são três deuses, mas um só Deus em três Pessoas coeternas, coiguais e consubstanciais. Essa doutrina é o mistério revelado. Mistério, porque ultrapassa a razão humana, e revelado, porque Deus se deu a conhecer assim. A Trindade não é uma invenção filosófica; é a estrutura da revelação divina, desde Gênesis até Apocalipse. No batismo de Jesus, o Pai fala dos céus, o Filho é batizado, o Espírito desce como pomba. No envio da Igreja, batizamos em nome — não “nomes” — do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Negar a Trindade é mutilar o Evangelho. O Pai planejou a salvação, o Filho a executou na cruz, e o Espírito a aplica ao nosso coração. Toda a obra de Deus é trinitária. Muitos tropeçam nesse ensino por querer compreendê-lo plenamente, mas Deus não nos chama a decifrá-lo, e sim a adorá-lo. A Trindade não é para ser explicada em sua essência, mas exaltada em sua glória. Adoremos o Deus Trino, pois nele temos vida, redenção e comunhão eterna.

janeiro

“Porque três são os que testificam no céu: o Pai, a Palavra, e o Espírito Santo; e estes três são um.”

1João 5.7

janeiro

OS DECRETOS DO DEUS SOBERANO

“Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho [...]”

Romanos 8.29

Os decretos de Deus são decisões eternas, imutáveis e perfeitas, emanadas do conselho da sua soberana vontade, pelas quais ele estabeleceu todas as coisas, desde o movimento dos astros até a redenção dos eleitos. Nada lhe escapa. Nenhum fio de cabelo cai sem o seu querer. Deus não é refém do tempo, pois habita na eternidade e governa com absoluta soberania. Dentre esses decretos, resplandecem a eleição e a predestinação. Deus, em seu infinito amor e sem consultar méritos futuros, escolheu um povo para ser seu. Ele não apenas nos destinou à salvação, mas decretou que seríamos moldados à semelhança de seu Filho. A predestinação não é apenas um porto seguro, mas um caminho de santificação. Somos eleitos para sermos santos e irrepreensíveis. Essa verdade gloriosa não anula a responsabilidade humana; antes, a coloca no seu devido lugar. Deus ordena os meios e os fins. Ele chama todos ao arrependimento, mas aplica eficazmente sua graça aos que de antemão conheceu. A doutrina dos decretos não nos torna arrogantes, mas humildes. Não nos lança à apatia, mas ao louvor. É o leito profundo onde a alma descansa, mesmo em meio às tempestades. Crer nos decretos de Deus é ancorar a alma na eternidade e saber que, por trás de cada passo, há uma mão invisível que conduz todas as coisas para a glória do Cordeiro.

O DEUS QUE CRIA E SUSTENTA 24

janeiro

A primeira declaração da Bíblia é uma proclamação de soberania. Deus é o Criador absoluto, eterno e independente. Ele não apenas deu origem ao universo a partir do nada, mas o sustenta com a força do seu poder. A criação não é fruto do acaso, mas do decreto divino. Ele falou, e tudo passou a existir. Ele ordenou, e o cosmos tomou forma. Distinguimos dois atos divinos complementares: criação e providência. A criação é o ato inicial de trazer à existência tudo quanto há. A providência é a ação contínua de Deus em preservar, governar e dirigir todas as coisas conforme o conselho da sua vontade. O Deus que criou os céus também alimenta os pardais. O que acendeu as estrelas também conta nossas lágrimas. Sua providência é sábia, bondosa e constante. Não vivemos a partir da sorte, do azar ou do acaso. Há um Deus no trono que tudo vê, tudo sabe e tudo dirige. A criação proclama a glória de Deus; a providência proclama o cuidado de Deus. Saber que nada escapa ao seu controle não nos isenta de responsabilidade, mas nos livra do desespero. Ele cuida do universo, mas também cuida de nós. Confiemos, pois, no Deus que cria com majestade e sustenta com ternura. Ele está no princípio de tudo — e permanecerá por toda a eternidade.

“No princípio, criou Deus os céus e a terra.”

Gênesis 1.1

janeiro

A BÍBLIA NÃO É ANTIGA, NEM

MODERNA. ELA É ETERNA

“Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça.”

2Timóteo 3.16, ACF

A Bíblia não é fruto do engenho humano. Ela não é uma coletânea de reflexões religiosas nem um compêndio ético. É Palavra de Deus, soprada pelo Espírito Santo. A inspiração das Escrituras é verbal e plenária — cada palavra, em sua totalidade, foi inspirada por Deus. Os escritores foram movidos pelo Espírito, de modo que o que escreveram é a vontade perfeita do Altíssimo. A doutrina da inspiração nos lembra de que a Bíblia tem uma única origem: o coração de Deus. Tem uma única verdade: a revelação de Deus. Tem uma única finalidade: a glória de Deus e a edificação do seu povo. Vivemos dias em que muitos preferem ouvir vozes humanas em detrimento da voz de Deus. Mas toda doutrina, todo conselho e toda profecia devem ser julgados pela Escritura. A Bíblia é o prumo da verdade, a lâmpada para os nossos pés, a espada que vence o engano. A Escritura é o próprio discurso de Deus aos seres humanos. Não apenas contém a Palavra de Deus — ela é a Palavra de Deus. Crer na inspiração da Escritura é submeter-se a um Deus que ainda fala. E quando ele fala, o ser humano cala, adora e obedece.

O VERBO INERRANTE

DO DEUS ETERNO

janeiro

A Escritura é a Palavra de Deus escrita. Não meramente contém a verdade, ela é a verdade (Jo 17.17). A doutrina da inerrância afirma que os escritos originais das Escrituras, em tudo quanto ensinam, não possuem erro algum, seja em matéria de fé, doutrina, história ou fatos. Não há contradição, exagero ou engano. A razão é clara: Deus não mente (Nm 23.19), não erra e não muda. Se a Bíblia é sua Palavra, então ela é tão perfeita quanto seu caráter. O Espírito Santo guiou os autores bíblicos de tal modo que suas palavras são, ao mesmo tempo, humanas e divinas. Deus usou suas personalidades, contextos e estilos, sem abrir mão de sua soberana supervisão. A Escritura não foi ditada mecanicamente, mas inspirada orgânica e infalivelmente. Isso significa que a inerrância não é um capricho teológico; antes, ela é o alicerce da confiança do crente. Se a Bíblia falhasse em qualquer parte, como confiaríamos em sua promessa de salvação? Se Deus se comunicasse com falhas, onde repousaria nossa esperança? Crer na inerrância é render-se ao senhorio de Deus sobre cada letra, cada verbo, cada ponto. É dizer com o salmista: “Confio na tua palavra” (Sl 119.42). Quando a Palavra reina, o coração descansa. Quando ela é questionada, a alma se inquieta. Não somos juízes da Escritura, somos servos dela.

“As palavras do Senhor são palavras puras, como prata refinada em forno de barro, purificada sete vezes.”

Salmo 12.6, ACF

janeiro

A ÚLTIMA PALAVRA É DE DEUS

“À lei e ao testemunho! Se eles não falarem segundo esta palavra, nunca verão a alva.”

Isaías 8.20

A autoridade das Escrituras é o esteio da fé cristã. Quando a Palavra de Deus é rejeitada, a escuridão espiritual se instala. O profeta Isaías advertiu que, se alguém não fala segundo a Palavra do Senhor, jamais verá a luz. A Bíblia não é apenas uma referência moral — ela é o tribunal supremo para todo ensino e prática. As Escrituras não recebem sua autoridade da Igreja, da razão ou da experiência. Elas são autoritativas porque procedem do próprio Deus. Inspiradas, infalíveis e suficientes, elas são o padrão pelo qual julgamos todas as coisas. Quem fala contra a Escritura, erra. Quem fala segundo ela, ilumina. A Bíblia não negocia com os modismos da cultura. Ela permanece firme, ainda que os seres humanos vacilem. Seus preceitos não envelhecem, sua voz não se cala, e seu poder não diminui. Ela é a espada do Espírito, a voz do Pastor, o fundamento da verdade. Numa geração em que muitos procuram novas revelações, precisamos redescobrir a suficiência daquilo que Deus já revelou, que é a Escritura completa. Ela não precisa ser corrigida, atualizada ou substituída; antes, precisa ser crida, obedecida e anunciada. A Igreja que abandona a autoridade da Palavra se torna um barco à deriva, mas a que se ancora nas Escrituras permanece firme em meio às tempestades.

MAIS ATUAL DO QUE

AS MANCHETES

janeiro

Os jornais mudam a cada dia. As manchetes de hoje já não interessarão amanhã. As opiniões da sociedade são como o vento: instáveis, volúveis, contraditórias. Mas há um Livro que permanece inalterado, suas páginas não envelhecem, seus ensinos não caducam, suas promessas não expiram. A Bíblia é mais atual do que o jornal de amanhã. E ela não apenas informa, ela transforma. Tim Keller dizia que a Escritura é mais atual do que o New York Times. Isso porque a Bíblia não apenas relata eventos; ela revela o coração humano, expõe o pecado, aponta o Salvador e anuncia o fim desde o princípio. Enquanto os noticiários falam de guerras, a Palavra nos fala do Príncipe da Paz. Enquanto o mundo mergulha em desespero, ela proclama esperança. A autoridade da Bíblia não vem da cultura, mas do Deus que a inspirou. Ela não se curva ao espírito da época — é o espírito da época que precisa se dobrar diante dela. Ler a Escritura é ouvir o próprio Deus falando. É mais do que leitura, é encontro. Quando tudo ao redor se desatualiza, a Palavra permanece. Quando as manchetes mentem, a Escritura resplandece. Firmemo-nos, pois, não nos rumores do mundo, mas na Rocha eterna, pois “o céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar” (Mt 24.35, ACF).

“Seca-se a erva, e caem as flores, mas a palavra de nosso Deus subsiste eternamente.”

Isaías 40.8

janeiro

A PALAVRA QUE

ILUMINA O CAMINHO

“Lâmpada para os meus pés é tua palavra, e luz para o meu caminho.”

Salmo 119.105, ACF

As Escrituras Sagradas são o farol que Deus acendeu na escuridão da história humana. Elas não são confusas nem obscuras. Ao contrário, são claras, e sua mensagem de salvação é compreensível até mesmo para os simples (Sl 19.7). A Bíblia não é um livro selado, acessível apenas a sábios ou iniciados, mas uma carta de amor aberta a todo coração contrito e sedento. Ela também é suficiente. Tudo quanto precisamos saber para a salvação, para viver piedosamente e para glorificar a Deus já nos foi revelado. Não carecemos de novas revelações. A Bíblia é a voz definitiva de Deus. Os céus se calaram, porque Deus falou de forma plena em sua Palavra. E as Escrituras são necessárias. Sem elas, não conheceríamos a graça salvadora nem o caminho da vida. A natureza revela a glória do Criador, mas só a Bíblia revela o caminho da redenção. É por ela que o ser humano nasce de novo, cresce na fé e persevera até o fim. Num mundo de vozes desencontradas, a Palavra permanece como a rocha firme. Diante de uma avalanche de opiniões, ela nos oferece direção segura. Que nos prostremos diante de sua autoridade, que a leiamos com reverência, que a amemos com fervor, pois onde há Palavra, há luz. Onde ela reina, há vida. Onde ela é lida, há esperança. E onde ela é crida, há salvação.

A HISTÓRIA QUE

NOS REVELA O CÉU

janeiro

A Escritura não é um almanaque de todas as eras nem um arquivo universal de eventos. Ela é a revelação progressiva de Deus, com ênfase naquilo que toca a eternidade: a salvação da alma humana. Enquanto Moisés registrava a criação em Gênesis, impérios surgiam e culturas floresciam além do Éden, mas o Espírito inspirou o que era essencial à fé. No dia em que Cristo foi pregado na cruz — evento central da história da redenção —, outras coisas estavam acontecendo. Em Roma, Pôncio Pilatos enfrentava pressão política e conflitos de autoridade. No Oriente, caravanas comerciais cruzavam as rotas da seda, e em Alexandria, estudiosos discutiam filosofia. Nenhuma dessas notícias entrou nos Evangelhos. Por quê? Porque o foco das Escrituras é salvífico, não jornalístico. A Palavra de Deus foi escrita para nos fazer sábios para a salvação. Ela nos mostra quem Deus é, quem somos nós, como fomos perdidos e como podemos ser salvos. Cada linha das Escrituras aponta para o Redentor — de Gênesis a Apocalipse, há um fio escarlate que corre pelo texto, revelando o Cordeiro. A Bíblia não nos conta tudo o que poderíamos saber, mas nos revela tudo de que precisamos para crer. Ela é o mapa da graça, o espelho da alma e a voz de Deus chamando o ser humano de volta ao lar. Não há livro como esse.

“Da qual salvação inquiririam e trataram diligentemente os profetas que profetizaram da graça que vos foi dada, indagando que tempo ou que ocasião de tempo o Espírito de Cristo, que estava neles, indicava [...]”

1Pedro 1.10-11

Devocional Meu Porto Seguro 2

CNPJ 44.197.044/0001-29 • SAC 0800-7736511

ISBN 978-65-5655-573-7 Inspiração 9 786556 555737

Encontre refúgio na Palavra de Deus

Em meio às tempestades da vida, Meu Porto Seguro oferece abrigo na Palavra de Deus. Neste segundo volume, Ricardo Albuquerque nos conduz por uma jornada diária de fé e reflexão, unindo doutrina, história da Igreja e devoção em textos que inspiram nossa mente e coração. Cada página é um convite à quietude e ao reencontro com Cristo, o verdadeiro farol que guia o navegar do crente. Com sensibilidade pastoral e profundo compromisso com as Escrituras, o autor transforma meditações em faróis de esperança. Mais que um devocional, este livro é um companheiro de jornada, uma âncora espiritual para dias turbulentos. Nele, o leitor encontrará não apenas consolo, mas também firmeza doutrinária e renovação espiritual. Um lembrete diário de que, mesmo quando o mar se agita, a graça de Deus permanece — e Cristo continua sendo o nosso porto seguro.

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