VOL. 5 | nº 5 Junho de 2019 Suplemento Gratuito ISSN 2596-1373
Apoio:
Realização:
04 06 07 ARTIGO
FLORES DE AÇUCENA
CHAPULETADAS
O Olhar do Cinema
O valor da Vida
Nirton Venancio
Pedro Lyra
A cachoeira das Eras: 40 anos
Soneto à Lua Antônio Girão Barroso
Filosofia José Alcides Pinto
Rosa D’Alvorada Antônio Sales
As Palavras Gentis... Arthur Eduardo Benevides
Léo Mackellene
Por uma Poética Tigelírica Léo Prudêncio
Oswald Barroso: desventuras e desencaminhos Raymundo Netto
Padre Cícero: por trás das câmeras Camilo Pestana
16 17 GENTE ILUSTRADA
RADIADORA
João Belo Jr.
Denis Akel Luana Braga Eugênio Leandro da Costa Silas Falcão
24
Ângela Calou Hermes Veras Batista de Lima Raymundo Netto Qulo PeTrus
TIRAGOSTOS
Ormisa Sales de Freitas
Ise Nishi e Débora Nishi
Aíla Sampaio
Karlson Gracie
Giselda Medeiros
Artista da capa
Magna Maricelle
Jabson Rodrigues
Fabiana Guimarães Rocha Sânzio de Azevedo
FUNDAÇÃO DEMÓCRITO ROCHA João Dummar Neto presidência André Avelino de Azevedo direção administrativo-financeira Raymundo Netto gerente editorial e de projetos Emanuela Fernandes análise de projetos MARACAJÁ Raymundo Netto curadoria, pesquisa e edição geral Emanuela Fernandes assistência editorial Nirton Venancio, Léo Mackellene, Léo Prudêncio, Raymundo Netto, Camilo Pestana, João Belo Jr., Ise Nishi, Débora Nishi e Karlson Gracie colaboraram nesta edição com textos, cartuns e quadrinhos (exceto os da seção “Radiadora”) Jabson Rodrigues ilustrações Amaurício Cortez editor de design Giselle Fernandes projeto gráfico Amaurício Cortez Welton Travassos editoração eletrônica Karlson Gracie tipografia Maracajá revistamaracaja@gmail.com contato Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução sem autorização prévia e escrita. Todas as informações e opiniões são de responsabilidade dos respectivos autores, não refletindo a opinião deste suplemento ou de seus editores. Este suplemento literário mensal é parte integrante do Projeto Maracajá: Vida & Arte, em decorrência do Contrato de Patrocínio celebrado entre a Fundação Demócrito Rocha e a Assembleia Legislativa do Estado do Ceará, sob o nº 69/2018. ISSN 2596-1373
Rosemberg Cariry Maria de Fátima Maia
Para ler todas as edições da revista Maracajá e assistir a todas as suas videoentrevistas, acesse:
fdr.org.br/maracaja 2
Todos os direitos desta edição reservados à:
Fundação Demócrito Rocha Av. Aguanambi, 282/A - Joaquim Távora Cep 60.055-402 - Fortaleza-Ceará Tel.: (85) 3255.6037 - 3255.6148 - Fax (85) 3255.6271 fdr.org.br | fundacao@fdr.org.br
Do Alpendre
O primeiro número de Maracajá foi espalhado por todo o globo e até por fora do referido asteroide. A esta hora, qualquer habitante de Marte já estará fazendo antropofagia. Vocês lá do Sul que escreveram sobre o gato selvagem do Nordeste, toquem nos ossos. Isso!
B
em-vindos, fieis e especiais leitores da nossa felídea e caríssima — mesmo quando gratuita — revista Maracajá. Caríssima por serem raras as ações no estado que dirijam holofotes à produção literária de seus autores e cultores. Tanto no que se refere à lite-
ratura ficcional quanto aos ensaios, resenhas e, ainda mais, à crítica. O sumiço desse personagem “crítico literário” não é um privilégio cabeça-chata.
Nós estamos ligados por um sentimento
No país, a maioria está caindo fora, personas non gratas de um mundo e meio vaido-
único – o da voracidade.
so e intolerante. Também no meio acadêmico, encastelado e ausente de seu papel
Juntemo-nos para comer tudo o que deva
de formador de opinião, de saberes e difusor da cultura, a literatura produzida no
ser comido no Brasil.
Ceará não merece ser lembrada. E digo “literatura produzida no Ceará”, pois falar em “literatura cearense” é considerado um crime quase hediondo. Não sabemos assim o
Demócrito Rocha (assinando “Antônio Garrido”) Maracajá nº 2, em 20 de maio de 1929
porquê de não se chiar com a existência de uma “literatura brasileira”, já que um todo não pode existir sem as suas partes. Esses detratores da literatura cearense são estranhamente conformados com o desleixo ao nosso patrimônio literário – a não ser quando esses autores ou obras vêm chancelados por meio de revistas ou de prêmios nacionais. Da mesma forma, surgem todos os dias contagiosas academias e agremiações no Ceará que desconhecem qualquer literatura a não ser aquela produzida na mesa de suas salas de estar. Medalhas demais; leituras de menos. Não são todas, felizmente. Esse quadro, hoje, está mudando. E mudando “por baixo”, já que essa literatura tem as ruas, as redes sociais e a criatividade a seu favor. Acompanhamos alguns clubes de leitura, saraus, movimentos, associações, academias e faculdades (em especial, no interior cearense) – além de outras ações – que despertaram para esse papel de pesquisa, elaboração, produção e promoção da literatura cearense, tanto da antiga como da contemporânea. Vemos luzes, em forma de palmas, a essa Maracajá, um palco democrático de resistência, como assim o queria o seu patrono Demócrito Rocha. Em Marte ainda não chegamos, mas estabelecemos parceria com 18 pontos da cidade que ousaram receber nossos autores e exemplares, além daqueles distribuídos gratuitamente no jornal O POVO. Maracajá, que não é para todo mundo, agora está ainda mais acessível a todo mundo. Aproveitemos e vamos divulgar a nossa página para quem quiser fazer parte dessa campanha solidária (fdr.org.br/maracaja). Raymundo Netto Curador e editor
3
Artigo
O OLHAR
DO CINEMA
E
u não vim para Hollywood para ser a garota ao lado. Eu vim para ser uma estrela de cinema”, disse a atriz Jayne Mansfield, no começo da década de 1950, quando
estreou nas telas, e foi uma das primeiras a posar na Playboy, além de ser apontada como a grande rival de Marilyn Monroe. Jayne, falecida em um acidente em 1967, quando tinha apenas 34 anos, ficou conhecida por suas artimanhas de publicidade muito mais do que por seu talento nas telas. Fazia de tudo para atrair a atenção de todos. Um dos principais incidentes envolveu Sophia Loren. Seus seios eram o foco de um golpe de publicidade notória. Em 1957, durante um jantar em homenagem à estrela italiana, no restaurante Romanoff, em Beverly Hills, Mansfield entrou no local fazendo-se notar a cada passo e rebolado. “Naturalmente”, foi direto à mesa onde estava a convidada. Chegou, cumprimentou-a, e sentou-se, separando Loren de seu companheiro de jantar, o ator Clifton Webb. A intenção foi desviar a atenção da mídia sobre a atriz, já consagrada em clássicos como Quo Vadis?, de Mervyn LeRoy, 1951,
4
Artigo Duas noites com Cleópatra (Due notti con Cleopatra), de Mario Mattoli, 1953, O signo de Vênus (Il Segno di Venere), Dino Risi, 1955, além de ser casada com o grande produtor de cinema Carlo Ponti. Uma sequência de fotos foi publicada em várias revistas, mostrando o olhar de Loren caindo sobre o decote de Jayne Mansfield, que ao chegar se inclinou sobre a mesa, permitindo que seus seios ficassem à mostra, expondo um mamilo. Analisando as fotos por outro viés, pode-se teorizar sobre um dos conceitos mais fortes que definem uma narrativa cinematográfica. Ali não era um filme, claro. Entretanto, na tela, quando a expressão de um personagem desenha uma reação muito definida diante do que não vemos, mas conseguimos “ver” através desse olhar, o cinema atinge sua mais completa tradução. Cinema é sugestão. Cinema é também o que está fora do quadro. É o outro lado da lua. A arte não imita, reflete a vida. Os volumosos e belos seios de Mansfield chamaram a atenção do mundo e dos presentes no Romanoff naquela noite. Contudo, foi o olhar de Sophia Loren que se cristalizou para sempre com o incidente. Sophia, atriz. Mansfield, estrela. Longa é a arte, breves os seios de Mansfield.
Nirton Venancio poeta, cineasta nirtonvenancio@gmail.com
5
Flores de Açucena
O Valor da Vida
Soneto à Lua
Rosa D’Alvorada
a Arthur Eduardo Benevides Adeus, privacidade!
Esmorecia ao longe o garganteio
Um olho eletrônico nos vigia
Lua Branca, como é terrível tua face
Dos galos; pouco a pouco e docemente,
até em nosso sono.
No céu escancarada, a se mostrar aos homens
Folha a folha, de cumulus no meio
Ó astro fluorescente, a espiar as mazelas
Desabrochava a rosa do nascente.
Prerrogativas, adeus! Um tribunal bloqueia a porta por onde teríamos de entrar (ou de sair). Adeus, segurança! Uma bala nos espreita na esquina onde vamos passar daqui a pouco. Antes, inocentes até prova em contrário; agora, suspeitos até mesmo sem indício algum. (Só um jeito diferente de olhar – coisa de apaixonado.) É o terror, a conta-gotas. Adeus, direitos humanos! Adeus, democracia!
Surgidas cá em baixo, ao toque das espumas. Mulher, ó dulçorosa, o mar te espelha tímida
Ganhava todo o céu; – no enorme seio
Mente, corça da noite, ó tu, lua fremente
Brilhava um rocio estranho e refulgente,
Que navegas ao léu, sem bússola nem norte
E de aromas o espaço estava cheio...
Lua branca, vergel, perdida nas alturas.
Pedro Lyra
Mas, súbito, tremeu no hastil enorme
Continente de gelo, o sangue tu derramas
E murchou e pendeu; e, em bando informe,
De virgens sem fanal, ao jeito das marés
As pét’las pelos píncaros do monte
Que sacodem o meu barco, a dois passos da terra
Voaram... Quando a pálpebra radiosa
Não te deténs, ó lua, e indiferente estás
Do sol se descerrou, da pobre rosa
A brisa que se espalha, terna como carícia
Nenhum vestígio havia no horizonte.
ou aos ventos tão febris, que acordam as madrugadas.
Antônio Sales
Antônio Girão Barroso
Adeus, amor! (A vida vale um enterro.)
Expandia-se mais e, sutilmente,
Filosofia
As Palavras Gentis... As palavras gentis não cansam nunca.
Tudo é inútil
Se o sonho já se foi a vida é finda.
menos o inútil
Mas a clara esperança nos domina,
do que foi útil.
Põe ternuras em nós, auroras mansas.
Foge desse círculo
A seresta do amor nunca termina
dessa corda de vento
E nela nos sentimos como os anjos.
comprida, que te laça
Somos puros e leves nos alçamos
e teu pescoço enlaça.
Sobre as cousas mais rudes e mais tristes.
Foge da astúcia
Por isso canto, permanentemente,
da manha dessa aranha:
O milagre de ter do amor a glória,
busca a paz no estio
Capaz de o próprio mundo ir transformando.
no gume desse fio das águas desse rio. José Alcides Pinto
E se tivessem de escrever-me a história, As palavras seriam muito simples: “Foi um servo do amor. Passou cantando”. Arthur Eduardo Benevides
6
Foto: Arquivo do Autor
Chapuletadas
A Cachoeira das Eras 40 ANOS
H
á exatos 40 anos, Carlos Emílio Corrêa Lima lançava pela editora Moderna A Cachoeira das Eras (1979), seu primeiro romance e,
cronologicamente, o seu segundo livro. À época, a recepção foi estrondosa! Repercutiram Onezio Paiva, no jornal O Globo; Cicero Sandroni, no extinto Jornal do Brasil; Gerardo Mello Mourão, nosso Nobel de Poesia, na Folha de S. Paulo; Caio Fernando Abreu, na revista Veja; Moacir Scliar, no Zero Hora, de Porto Alegre; Murilo Rubião, n’O Estado de Minas; José Alcides Pinto, Moreira Campos, Francisco Carvalho e Nilto Maciel no jornal O POVO. Para Nilto Maciel, o romance de estreia de Carlos Emílio “tem seu lugar reservado na Biblioteca Universal”, ao lado de Dante, Cervantes e Camões. Segundo ele, o livro é a epopeia brasileira que refunda nossos mitos nacionais. Eu próprio já o havia sentido, quando o li pela primeira vez, em abril de 2005, comentando com o, primeiramente aluno e depois amigo e escritor Valdemar Neto Terceiro, autor de Romanzeiras das fábulas (Substânsia, 2015): “Se Iracema é o Gênesis, A Cachoeira das Eras
7
do com o livro, que se tornou objeto de sua monografia. O livro narra a história da Coluna de Clara Sarabanda, que, como uma espécie de Coluna Prestes, percorre a Mata Atlântica em busca de um templo perdido que é o nosso próprio passado, uma terra às cegas porque devastada por séculos de uma história que não é a nossa história, mas a de nosso colonizador (“Os mortos serão nossos guias”, diz logo na invocação às musas, “gritando do antes dos aniquilamentos gerais, porque ninguém os escuta”). Ali, refundam-se os mitos que recomeçam a América: “Brasil, centro do mundo desconhecido”, destino inevitável, porque “todos os homens tendem para o que não se conhece”. Mais do que narrar o recomeço da América, no entanto, o livro de Carlos Emílio narra a história do nascimento de todas as eras, a história de além do Atlântico, para lá do Egito, essa história feita por todos (“Todos nós somos os narradores dessa imensa perdição”). “O povo andava de costas e estava impossibilitado de vislumbrar o passado” sugere, em referência
acometido por “alucinações histórico-botânicas”) e Ludovico (“filho espúrio do célebre professor austríaco Ludwig Schwennhagen” e que “pouco se lembrava de seu pai”). São esses os que vão desbravar “os sertões brasílicos na direção do sorvedouro do Renascimento”, na reconstrução de nosso passado. O livro é todo uma metáfora, uma fabulação da colonização, cuja história nunca começa – antes de ser contada, precisa ser redescoberta. E é esse livro – pela tessitura ficcional inacabada do romance, pela estrutura narrativa sempre anunciada ao longo da história – o ponto de encontro entre as personagens, o escritor e o leitor, todos escrevendo juntos – e ao mesmo tempo em que as personagens vivem, o autor escreve e os leitores leem – essa intersecção temporal, própria do estilo alquímico de toda a literatura carlemiliana – “Eu não passo de uma mensagem”, segreda-nos o narrador, “Na verdade, eu também estou sendo escrito”. Todos nós!
Léo Mackellene leomackellene@gmail.com Graduado em Letras pela Universidade
ao povo que habitava estas paragens, os Gês,
Federal do Ceará. Membro da Academia de
que deram ao local o nome de Siriará, segundo
Letras e Artes do Nordeste (Alane). Lançou
o historiador João Brígido, por conta de um pe-
recentemente o romance Como gota de óleo
queno espécime de caranguejo que vivia tanto
na superfície da água (Radiadora, 2017).
no litoral quanto no mangue.
Reside em Sobral, Ceará.
A Coluna de Clara Sarabanda é formada por Antônio Luís (“que se enamorou de um macaco [...]; estava cansado de viver cansado”), João José Ribamar (“o mais velho e o mais moço de todos os personagens. [...] Defini-lo, aprisionar sua alma para descrevê-lo é tarefa improvável”), Eduardo Bravo (“que tinha uma vasta criação de coelhos no quintal”), Mário Almeida (“que não possuía nada de valor material sobre a terra. Apenas poucas rou-
8
O livro é todo uma metáfora, uma fabulação da colonização, cuja história nunca começa
Chapuletadas
é o Apocalipse”. Valdemar ficou tão impacta-
pas e alguns livros”), Augusto Lopes (que era
poética tigelírica
U
ma orquestra que entoe
ancestral que enunciava verdades e ia buscar seus argumen-
o desconforto da palavra,
tos na longa tradição poética que vem de Homero, passa por
mas não apenas os seus in-
Borges, João Cabral, Patativa do Assaré, Ezra Pound e outros
fortúnios tendo em mente
grandes nomes da poesia de todos os tempos, sem a necessidade
que a palavra guarda em
de rótulos.” Não digo que haja influências, digo que o que ocorre
seu abismo os mais variados tons de silêncio. Essa é uma das pro-
em textos assim são diálogos, logo, a poesia de estro tigelírico
postas do Poeta de Meia-Tigela1. Ele trabalha em apenas um único
produz um rico diálogo com o que há de moderno, e até pós-
livro: Concerto nº1unico em mim maior para palavra e orquestra.
moderno, na poesia uni-versal.
Poema. Esse livro é composto por quatro movimentos e em cada
Os mais recentes ensaios são Miravilha: liriai o campo dos
movimento quatro livros e em cada livro quatro capítulos e em
olhos (Confraria do Vento, 2015) e Girândola (Substânsia, 2015). Em
cada capítulo há uma dispersão em vários poemas.
menos de um ano, ele publicou dois livros após um silêncio que já
O primeiro movimento deste grande concerto foi pu-
durava quatro anos2. Parafraseando uma frase dita pelo Poeta nas
blicado, integralmente, em 2010. Em 2008, um dos capítulos
notas finais que acompanham o livro Miravilha, nenhum desses
do segundo movimento foi publicado de forma independente
ensaios existem. Publicar livros inexistentes é o que ele tem feito,
ao livro, em Memorial Bárbara de Alencar, reeditado em 2011.
é um tanto confuso, mas se o único livro a ser escrito, e é “palavra
Nele, observamos o trabalho com a linguagem e cultura po-
em movimento” como ele sempre comenta, é o Concerto. Mas por
pular. Sobre o livro, Gilmar de Carvalho, prefaciador da obra,
ser palavra em movimento não haverá um ponto final definidor
comenta: “A leitura dos poemas me colocou diante de uma voz
em sua obra. A sua poesia é um vir a ser infindável.
9
Foto: Lia Leite
Chapuletadas
Por uma
Chapuletadas
O Poeta de Meia-Tigela, em sua construção poética, faz uso de te-
5. Vai um soneto aí?
máticas e formas que nos remetem a estética pós-moderna, me arrisco a dizer que entre os poetas cearenses ele é um dos que melhor soube
Mirabilia. Ali-se
utilizar esse argumento formalista em suas composições textuais. Ler a poesia d’O Poeta de Meia-tigela é não apenas deleite estético é um
O amor me fecha os olhos para tudo
aprendizado sobre arte.
que não miró mirá-la O amor me amputa
Fazem parte de sua temática tigelírica o uso de numerologia, des-
as mãos para o que não só tateá-la
crição de obras de arte, tarô, astrologia, partitura musical, biografia, li-
O amor me cala O amor me faz voz surda
teratura fantástica, artes plásticas, tradução (ou no dizer de Augusto de
cava se não a fim de anunciá-la
Campos: intraduções), poema em cartões-postais, prosa poética, cordel,
O amor me entope as oiças se não para
soneto, quadra, martelo, sextilha, heptassílabo, verso livre, haicai, uso
O amor me desnarina me desfara
de notas de rodapé etc etc. Todo o espaço da página é aproveitado para fazer poesia. E quando a página do livro se mostra insuficiente temos os
O amor se emputa quando se depara
muros da cidade, temos o panfleto, a música, o vídeo-poema, as tirinhas
ante outra que não ela O amor insulta
de jornais e cédulas para rabiscar poesia antes de pagar o trocador do
se lhe propõem a farsa de olvidá-la
ônibus. O Poeta de Meia-tigela nos mostra um concerto a solo de pala-
de substituí-la O amor se sabe
vra sobre toda uma corrente poética, lê-lo é aprofundar-se na poesia.
amor por manter nela a Mirabilia
O uso de pseudônimos começa a ser uma constante maior com a modernidade. Em uma conversa desprovida de entrevista literária, o
O amor me fecha o corpo para todo
Poeta me disse que desde sempre fez uso de pseudônimos. Todos sem-
corpo que não aquele que me cabe
pre com uma sacada de bom-humor. E é sobre o humor que gostaria de falar aqui, é o humor característica fundamental em poetas como
[Do livro Miravilha: liriai o campo dos olhos]
Carlos Drummond de Andrade, Osvald de Andrade, Manoel de Barros e até em haicais de Bashô e Millôr Fernandes. Fazer do humor matéria
Léo Prudêncio
de poesia é tarefa para poucos e poucos souberam utilizar bem este re-
prudencioleo@hotmail.com
curso estilístico. Aliás, aqui vai um soneto tigelírico:
Mestrando em Crítica Literária e Literatura pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás e poeta
1 Pseudônimo usado por Alves de Aquino. Sobre a escolha do pseudônimo em entrevista a revista Para Mamíferos (Fortaleza, 2009, nº 1) ele comenta que essa escolha foi de “cunho social com o qual se identifica, visto que o termo representa a metade da ração que era oferecida ao serviçal, enquanto o seu senhor ganhava a tigela inteira. Outra razão do pseudônimo é criar um personagem que seja o próprio autor e personagem de si mesmo, como o João Grilo ou o Cancão de Fogo. Enfim, o uso do epíteto não é um distintivo de humildade, ao contrário, traz o Poeta um objeto ambicioso de encarnar um múltiplo personagem, criando uma bandeira dupla, uma apresentação automática para a sua obra, expressando algo inusitado.” 2 Sobre o uso numérico-místico do número quatro é explicado nas notas finais do primeiro movimento do Concerto, o Poeta nos diz: “Para Jung a totalidade exprime-se em símbolos quaternários. Propositadamente a estrutura aqui apresentada dá-se a partir de uma ordenação quadripartida, propositadamente é dividida em quatro movimentos.” Em suma, o número quatro para o filósofo Jung representa a TOTALIDADE, mas não seria mesmo a obra do Poeta de Meia-tigela uma totalidade em andamento?
10
dos livros: Baladas para violão de cinco cordas; Aquarelas: haicais e Girassóis maduros.
Chapuletadas
Foto: Aurélio/O POVO
Oswald do Barro Barroso:
desventuras e desencaminhos*
M
undo, mundo, vasto mundo, ah, se ele se chamasse Raimundo e tivesse nome de flor. Mas, não. Ele era feito de barro, do barroso resto da criação do mundo, mundo que trazia em seu
nome, como um rei, “Rei Mundo”, e que assistia, moleque e nu, cercado de passarinhos, tijubinas e calangos, o curso melancólico de um descuidado berço Pajeú. Alheio a esse ainda estranho mundo, nosso herói, um menino amarelo, magro e empombado, fincava seu universo em uma casinha de motor de puxar água, fortaleza pessoal da solidão, na qual planejava seu futuro e contava a memória de seu caminho, moldando sonhos de barro em caixas de fósforos, com pedaços de palito de picolé e hastes de flores. Um mundo de encantamento, o seu teatro da vida, que aqui entra em cena nesta enfeitada e descartesiana publicação. Aliás, aos 5 anos, foi ali, no palco do José de Alencar, que Mundinho estreava no teatro. Sim, era o que todos já sabiam: ele tinha pressa! Queria vir a este mundo, vasto e perverso mundo, e por promessa nasceria e seria Raimundo e “feito um pequeno deus, entre ritos, risos e batalhas, criouse”: dona Albinha, “Nâna êite mim”, “Nâna êite mim”. Em Menino Amarelo: as desventuras de um rei desencaminhado, o pentalógico1 Oswald Barroso debulha a história do menino Raimundo Flor – qualquer semelhança é mera coincidência –, retratando, assim A obra, ricamente ilustrada pelo artista Descartes Gadelha, promete 5 volumes. Até então foram publicados dois deles: Menino Amarelo e Risco Vermelho. ( ) Texto de apresentação da obra lido por Raymundo Netto durante o primeiro lançamento de Menino Amarelo no Theatro José de Alencar. 1
*
11
Chapuletadas
mesmo, feito um grande álbum de retratos, suas histórias e as his-
de São Sebastião no Ipu, as retretas da praça da Lagoinha, a irra-
tórias de seus ancestrais, mesmo os mais longevos e dantescos, de
diadora do padre Caubi, o Grupo de Pajens de São Luís, o Grupo
sua família, de seus amigos, de seus amores, de seus lugares e im-
de Escoteiros da Aldeota, as sessões do Clube de Cinema do Ibeu,
pressões, de suas saudades e dores, como se a puxar, sossegado pelo
as histórias contadas na beirada de rede pela Non, índia do Ipu,
cordão, um caminhão de madeira com molas de flandre, em um
cria de sua avó Alda, dos quintais repletos de frutas (manga es-
caminho de terra, com gosto de terra, da nossa terra.
pada, atas, goiabas, seriguela, maracujás) e tantas e tantas outras
O menino, filho de dona Alba, uma genealogista inata, e
suas, mas poderiam ser também nossas, lembranças e aventuras
de seu Antônio, que assegurava: “Se me perguntassem (quem
retratadas com detalhes de quem talha a cinzel esse Ceará de
ousaria?)/ qual o maior poeta do mundo/ o que sofreu na carne
curumins e curuminhas.
a dor da poesia/ responderia apenas: infelizmente, eu!”
Entretanto, na obra não há só doçura e encontros, mas
Neto de dona Alda e de seu Luiz, de dona Nenén e de seu
amarguras e desencaminhos. Ela, aquela mulher, a cigana, um dia
Theodorico, o Tidico, como era chamado, e que partiu ao som da
diria a seu pai: “Esse menino fará uma grande figura, terá grandes
canção de rádio, como despedida, cortando o seu coração de me-
aventuras, mas muitas penas.” Foi ou não foi, Raimundo Flor?
nino: “Eu sei que em breve, muito em breve morrerei, por esse mal
É quando o caminho de uma Rural desgovernada se
que me tortura o coração. Já não suporto mais viver sem teu amor
encontra com o sonho de nosso beque central, camisa nº 3 do
e vim me despedir nessa canção.”
Fortaleza – embora seu coração fora Ferrim –, e o desperta para o
Antes mesmo do Moacyr das 7 mortes, Raimundo Flor
“Risco Vermelho” que se inicia.
havia de conhecer a morte na pele bovina de Flor do Campo,
Menino Amarelo é uma surpresa alada, um mergulho
depois pelo cachorro Fly e, por fim, pela irmã, a pequena Diana,
profundo no coração, uma punhalada de saudades, uma torrente
perda irreparável de dona Alba, primeiro e eterno amor do me-
de emoção. É um voltar para casa paterna, deitar-se no colo seguro,
nino. Um garoto que descobria o mundo pela janela de trem, que
é a reunião à mesa da família, sem a incerteza de um futuro, pois
precisou até tirar quebrante de mau-olhado, que tinha medo do
ele... já chegou!
mar aberto, da força das ondas, das pancadas d’água nos pare-
Raymundo Netto
dões de quebra-mar, que tinha medo dos medos. Que detonava
Escritor e editor
bala em penico, eternamente assombrado pela figura de um boi holandês, com argola de ferro no focinho, preso, esmurrando o chão e cavando a terra em fúria. Um pequeno cabo eleitoral de um pai candidato a nunca eleito. Menino que se deliciava doente com maçã, marmelada e guaraná com biscoito ou com a novidade da merenda na escola: o sanduíche de pão com doce de goiabada! Que aguardava em casa na fila do banho “talco, pente, sabonete, toalha, sapato, tamborete”. Que subia na caixa d’água a pensar no desconcerto do mundo, lançando letras ao sol, saudoso a rememorar: os passeios no zoológico da Cidade da Criança, a sorveteria da Loja de Variedades, as vitrines do centro, as matinês do Cine Rex, o cordão das Coca-Colas, o bloco dos bombeiros e das Marietas, o maracatu, o corso de automóveis no carnaval, os circos montados na praça da Faculdade de Direito,
12
Como adquirir os livros: Em Fortaleza, Menino Amarelo e Risco Vermelho podem ser encontradas
nas
Livrarias
Arte & Ciência (no Benfica, av. 13 de Maio, 2400, e no Centro, na rua Major Facundo, 594), na Letra L (na av. 13 de Maio, 2383, Benfica, quarteirão da Reitoria da UFC) e na Livraria
a Procissão dos Passos, os bondes, os cata-ventos, o acendedor
Lamarca (av. da Universidade,
de lampiões em noites sem luar, o sereno dos teatros, a Noite de
2475, Benfica).
Violas com o Cego Aderaldo na Casa de Juvenal Galeno, a festa
Contato DIRETO com o autor: oswaldbarroso@gmail.com
Chapuletadas
Padre Cícero
por trás das câmeras
O
livro Padre Cícero: o filme, de autoria de Raymundo Netto, inaugura a Coleção Memória do
Audiovisual
Cearense
(EDR), de fomento ao acervo
ee preservação do patrimônio audiovisual brasileiro. A obra traz uma história breve dos primeiros 50 anos do cinema no Ceará (1924-1974), recorte que vai desde a primeira exibição cinematográfica no estado até o ano em que o diplomata, diretor e roteirista Helder Martins de Moraes se une ao empresário e produtor Francisco Martins de Morais e inicia a sua luta para filmar o primeiro longa-metragem colorido do Ceará e primeira obra audiovisual ficcional sobre a vida de padre Cícero. Padre Cícero: os milagres de Juazeiro (1976), um filme tão controverso quanto o seu personagem, foi filmado em vários sítios cearenses e teve um elenco composto por artistas renomados no cinema nacional da época e de atores, hoje,
13
Jofre Soares, Dirce Migliaccio, José Lewgoy, Rodolfo Arena, Manfredo Colasanti, Cristina Aché, Nildo Parente e os cearenses Ana Miranda, Haroldo Serra, Ricardo Guilherme, Seny Furtado, Walden Luiz, Marcus Miranda, além de vinte e cinco técnicos, cem coadjuvantes e cerca de mil figurantes. O livro conta a sua história, desde a concepção e filmagens até seu lançamento, incluindo a ficha técnica, curiosidades e fotos. Como anexo, traz o roteiro original do filme (simulação de fac-similar), com notas do autor, e o encarte da reprodução do pôster em tamanho original, com a ilustração de Benício, autor de diversos cartazes de filmes de sucesso na época. Também disponível estojo com 2 DVDs (filme original, trailer e documentário com a participação de membros da equipe técnica e atores, mais de 40 anos depois).
14
O projeto conta a sua história, desde a concepção e filmagens até seu lançamento, incluindo a ficha técnica, curiosidades e fotos
referências do teatro e da TV cearenses:
Raymundo Netto, em entrevista, nos relatou: “A ideia era essa: contar a história do filme. Mas quem pesquisa sabe como isso se dá. Iria escrever a história dele, iniciando pela biografia breve de seus personagens principais, depois avançaria contextualizando o momento histórico, o envolvimento da Embrafilme, na época, sob o comando de Roberto Farias, durante a Ditadura Civil-Militar; a execução das filmagens, apresentando a equipe técnica e os atores, o percurso da filmagem, seus principais sets, curiosidades de bastidores, ficha técnica, premiações, lançamentos etc. Mas eu me perguntei: ‘Afinal, o que difere Padre Cícero de qualquer outra obra cinematográfica filmada no Ceará e que justifique essa atenção?’ Daí me vi obrigado a escrever um breve relato histórico da produção audiovisual não apenas cearense, mas a que foi filmada no Ceará, no recorte de tempo
A pesquisa acabou por gerar um docu-
Chapuletadas
Fotos: Arquivo Hélder Martins
mentário, um média-metragem, que conta com a participação e os relatos de Helder Martins, Elvira Sá de Morais, Ana Miranda, Ricardo Guilherme, Haroldo Serra, Walden Luiz, Nirton Venancio, Rosemberg Cariry, Valmi Paiva e de moradores de Rosário, a “Juazeiro do século XIX”, intercalados por cenas do filme de 1976. Questionado sobre o resultado esperado da ação, o pesquisador afirma: “Esperamos de 50 anos (1924-1974), ou seja, desde a pri-
despertar em outros pesquisadores e agentes
meira exibição do primeiro documentário
culturais esse espírito de descobrir, fazer, re-
de Ademar Bezerra de Albuquerque exibido
fazer, registrar e assegurar para as futuras
no Cine Moderno, em 15 de outubro de 1924
gerações a preservação de nosso patrimônio
(data instituída como o Dia do Audiovisual
artístico-cultural. Afinal, o futuro não se es-
Cearense) até o ano em que Helder Martins
pera, mas se faz desde já.”
decidiu fazer um filme tendo como protagonista o maior líder religioso brasileiro. Ou
Camilo Pestana
seja, reconhecendo como se deu toda essa
omosquitim@gmail.com
trajetória, percebe-se o marco que foi a pro-
Jornalista, escritor, criador do jornal
dução de Padre Cícero para a historiografia do
O Mosquitim.
cinema do Ceará. E, para cumprir essa etapa, passei por algumas obras e consultei alguns amigos que foram fundamentais, como Ary
O kit Padre Cícero: o filme - Livro (com pôs-
Bezerra Leite, Nirez, Frederico Fontenele,
ter e roteiro original) e 2 DVDs (documen-
Firmino Holanda, Sânzio de Azevedo, Renato
tário e filme de 1976) pode ser adquirido
Casimiro, além de entrevistas com Cacá
na Livraria Dummar, em Fortaleza, na Av.
Diniz, Jefferson Albuquerque Jr., Emmanuel
Aguanambi, 282, Joaquim Távora) ou, para
Cavalcanti, Benício, entre outros. Não posso
todo Brasil, pela Livraria Virtual: livraria-
deixar de agradecer ao próprio Helder que
dummar.com.br. Valor total: R$ 60,00.
me enviou diversos jornais da época e Valmi
Para saber mais sobre o projeto e as-
Paiva, que me cedeu caixas de slides com fo-
sistir ao documentário, ACESSE:
tografias de still de Evaristo Neto.”
fdr.org.br/especiais/padre-cicero
15
Gente Ilustrada
João Belo Jr. Administrador, quadrinista e aquarelista cearense, nascido em Fortaleza. Começou nas artes através da Oficina de Quadrinhos da UFC e participou de publicações como Pium, Onde a Luz Fez a Curva, zine Demolição, Tiras de Letra, Graphiq, Monalisa Reimagined, Capitão Rapadura 40 Anos e a revista Pindaíba.
16
Foi fundador do coletivo The Comics Café, vencedor em 2010 do Prêmio Luiz Sá da Secult/CE na categoria “Quadrinhos”, coautor de um dos módulos do Curso Básico de Histórias em Quadrinhos da Fundação Demócrito Rocha (ganhador do Troféu HQMIX em 2017) e, recentemente, participou das edições dos álbuns Antologia HQ e Antologia HQ: quadrinhos para sala de aula, ambos pelo selo de quadrinhos das Edições Demócrito Rocha.
Atualmente, desenvolve um projeto de pintura em aquarela de prédios históricos da cidade de Fortaleza. A ilustração: “Náutico Atlético Cearense” faz parte desse projeto.
Radiadora
Radiadora
A Bola
Sem Título
“Deixa que eu pego!”, dizia uma vozinha
uma limpeza que há muito era adiada.
Acordei.
infantil, indo em direção a ela, quando
Finalmente o armário foi reaberto, e
Levantei zonza. Ainda com sono.
escapava do jardim. Era o que a bola
bastou isso para a bola cair lá do alto.
Atônita. Tentei a tudo entender. E ago-
mais lembrava.
Assim que a percebeu, o rapaz viu-se
nizei: a dor de me saber, num instante,
Fazia tempo que não corria tanto.
mergulhado em lembranças tão lon-
uma péssima companhia. “Quando o
Tinha passado as últimas décadas
gínquas quanto próximas, bastando
amor não estiver mais sendo servido,
guardada num armário, praticamen-
que viesse uma para virem todas:
retire-se”, já havia me dito a poesia.
te esquecida. E agora estava ali, nova-
aquela diversão tão pura, tão simples,
Obedeci. E trêmula: enfiei as minhas
mente rolando, em sua plenitude, em
tão própria; os risos, os gritos, os cho-
coisas na mochila. Sob tua ira. Medo.
sua essência, na reunião do grupo de
ros; sua vida, sua memória, sua histó-
Pedi pra deixar a porta aberta: acaso
amigos que enfim se reencontravam.
ria. Onde tinha ido parar tudo isso? O
precisasse sair dali. Duro. Tentou me se-
“Chuta pra mim!”, “Passa!”, “Quero ver
que tinha acontecido com ele? Com
gurar no banheiro. Cárcere. Empunhei
pegar essa!”, diziam. Sorrisos nos rostos,
eles? Com o mundo?
minha bandeira. Não me toque. Tenho
Sob
teus
gritos.
Súbito.
leveza nos olhares. Parecia que nunca
Ficou inerte por algum tempo, ab-
em mim o número da lei: de cabeça.
tinham visto uma bola, que nunca ti-
sorvendo a aparente realidade, o olhar
Exaspero. Bateu a porta, bateu no peito.
nham visto aquela bola.
fixo na bola. Decidiu reavivar, se não
E gritou. E me perguntou o que fui fazer
Cresceram juntos, a bola acom-
todas, e se não do mesmo jeito, algumas
ali. Te ver, te acompanhar, estar contigo.
panhou tudo, encontravam-se todos
daquelas sensações. Priorizou isso, pois,
Estarmos juntos: nada disso te passou
os dias, até que a vida se encarregou
como a bola, sabia que poderia não ter
pela cabeça. Repentino: esqueceu-se
de distanciá-los, assim devagar, sem
outra oportunidade. E agora ali esta-
do gostoso dia anterior, das boas risa-
que se percebessem. Tudo mudou,
vam, o grupo novamente reunido, e
das, dos planos de viagens, das tristezas
mas por alguma razão não se desfize-
apesar do tempo decorrido, lá estavam
superadas, do carinho vivido. Fugi: foi
ram da bola, ficando com o dono da
os mesmos risos, os mesmos gritos, a
para me salvar. Mantive a porta aberta:
casa que os reunia, perdida em meio
mesma diversão tão pura. E em um
foi pra sair viva.
a velharias empoeiradas. A bola ficou
chute mais forte, lá se foi a bola além do
solitária, mas ainda tinha esperança.
jardim, por um caminho que ela conhe-
Luana Braga
Esperou pacientemente uma chance
cia muito bem. “Deixa que eu pego!”, gri-
insolitaviagem@gmail.com
para trazer de volta aquele momento,
tou um deles.
para voltar a encantar-se naquele encanto tão sincero. Tal oportunidade veio no dia que
Denis Akel @deniakel
foi feita uma limpeza naquele espaço,
17
Radiadora
A Licença – Seo Anacleto, por favor, me entenda:
bem distante de sua circunscrição, se
Sangue Morto
eu não posso fornecer-lhe uma licença
não para a última guarda-fronteira do
Após o enterro, distraidamente Urv lê
com o senhor assim, sem apresentar ao
estado, com o que diziam que o homem
fileiras de lápides e cruzes
menos uma constipaçãozinha.
na última eleição havia recebido um
De repente, gritos
saco de dinheiro do governador.
Era o nome do filho que ela não via
– Mas, doutor, você sabe que não tem problema. Afinal, todos aqui cui-
Pondo o chapéu na cabeça, sem o
dam de dar um jeitinho, nem sempre
cuidado usual, o vereador levantou-se
no regular.
da cadeira e virou-se para a porta, num
Dos Olhos e seus Anexos
anúncio de retirada.
Simplesmente aconteceu Íris acordou
– Sim, mas para fornecer a licença
há anos
eu tenho de apor a minha assinatura e
Tentando se antecipar às conse-
desesperada porque não comandava os
o carimbo do Posto. Por que o senhor
quências, o doutor exclamou vacilante:
próprios olhos Eles olhavam para onde
não trata de arranjar alguma doença?
– Espere, Seo Anacleto!
ela não desejava Ou não olhavam para
O senhor precisa mesmo sair de férias
O homem estacou, enquanto o
onde ela queria
da Câmara? – Quer dizer que o senhor está se negando a me dar esse papel? – O senhor sabe, um documento assim, sem a doença, é ruim até para a sua reputação de homem público, nos
18
Minicontos
médico circulou a pequena mesa de trabalho indo postar-se à sua frente, an-
Enterro dos Ossos
siando por um último apelo de clareza.
Sob imenso toldo rubro, Ilê senta os
A cara abusada do seu cliente, porém,
convidados em longas mesas floridas
só o inspirava a fazer uma única coisa. Procurando
agir
Após o churrasco, eles retiram as
calmamente,
vendas e, aterrorizados, veem carcaças
dias de hoje, o povo por qualquer coisa
surpreendeu a contrariada autoridade
humanas girando em enormes espetos
já convoca uma comissão, vamos pro-
ao retirar da sua cabeça o chapéu que
curar outro jeito!...
mal acabara de colocar. Após isso, o mé-
O Sol Divulga
O senhor Anacleto deu as costas
dico segurou o pesado enfeite de pedra
Quem visita a cidade Rendeiras do
sem esconder o aborrecimento. O mé-
redonda que prendia papéis sobre a
Mundo, se surpreende com os habitan-
dico era ciente de que não demoraria
mesa e, antes que se pudesse compre-
tes que têm os mesmos sonhos
mais nenhuma semana naquele posto
ender tais movimentos, acertou, com
e seria transferido para alguma aldeia
vontade, a cabeça do distinto vereador.
Todas as Noites Borboletas
– Pronto, meu nobre parlamen-
Toda manhã Elbu senta a esposa no
tar, agora posso pelo menos justificar
banco do carro e passeia feliz pela cida-
a sua licença.
de Mesmo após a morte dela
Eugênio Leandro da Costa
Silas Falcão
e.leandro@yahoo.com.br
jfsilasfalcao@gmail.com
Mãe-Mar Todos os dias, durante os últimos meses,
carregava no peito choro silencioso e es-
Outra vez conversaram meus olhos e teus ócu-
Mundica se exasperava no quintal bus-
tava ali aos seus pés o anjinho mórbido.
los. Digo os óculos, pois nós sabemos que eles
cando as ervas adequadas. Como lhe
Correu para o quintal desesperada, dian-
estão de tal modo pegados ao teu rosto que
faltava o conhecimento, contava com a
te a iminência do rapto e da sua morte.
seria uma estranheza falar de forma diferente.
intuição, a sorte e a prece a Deus. Sem se
As ameaças ainda estavam fresquinhas:
Andei mesmo pela rua do medo, fiz adendos
esquecer da intercessão dos santos e de
“Eu te mato, tá ouvindo? Eu acabo com a
na madrugada. Havia na calçada um galpão de
Nossa Senhora, pois eles haviam de con-
tua vida, tu não vai desonrar essa famí-
estacionamento, dentro dele a minha voz acen-
cedê-la o perdão. Se o pai descobrisse...
lia de novo.”
dia e eu sorria, investindo no ato de nada re-
A mãe velha morreu e com ela levou
Não precisou cavar, já havia um bu-
considerar. Um não bem dito (bendito!) contra
a sabedoria das ervas. O último chá veio
raco ali. Depositou o natimorto enfeitan-
o corpo de um amigo é remédio contra o vul-
amargurado pela lembrança dos filhos
do o pequeno rosto com flores amarelas
gar. (Ei moço, me arruma uns fósforos? Deram-
arrancados de seu ventre. Escangalhada,
que ela não sabia o nome. Plantaria ali
me uma caixa inteira)... Duas eu acho. Três da
no pós-operatório da cesariana, vira
mesmo o seu filho. Nunca a deixaram ser
Gal. Quatro dos galos. Cinco dos sinos. Seis dos
a neném sumir, levada para a capital.
mãe, quem disse que não queria? Qual a
pães já prontos da padaria. Sete do sol medo-
Provavelmente iria para os braços de
serventia de um pai se todas as filhas e fi-
nho, melindrado. Oito do sim-é-dia, e só depois
uma família com a capacidade de lhe dar
lhos daquela terra foram criadas pela mãe
é que a noite desenssimesmará. Então, tu me
tudo do bom e do melhor. Ao preço de sua
maior, a própria cidade e a água do mar?
dizes, delicada perversidade, saltinhos cor de
felicidade, viu repetir-se o processo com o
Mãe velha não estava mais ali para
poeira e manso coração-mirrado: “é desespero
segundo filho. “Tu é uma besta, Mundica,
defender Mundica, mas viera em sonho
isso de andar pela cidade”. Sou obrigada a te
tu é uma anta mesmo. Não sabe que não
lhe visitando o leito. “Minha filha, escu-
cumprimentar. “Há um excesso de verdade no
tem condição de criar sozinha essas crian-
te bem, ele não é seu pai, é seu irmão.
mundo” – disse Raduan para uma galinha que
ças? Tu só te envolve com peste.”
Não deixe que ele te bata nunca mais! Nunca mais”.
ciscava, descompromissada, a terra do sítio – El
No alpendre, a xícara descansava
Dourado de quem cansou dos ornamentos do
no parapeito. A cadeira de balanço era o
Afinal, quando ele descobriu a se-
circo. Depois ele desistiu, digo o Raduan. Assim,
elemento cenográfico que conferia ve-
mente em seu próprio quintal, tomou a
peço: não me ofertes o teu excesso de verdade,
rossimilhança ao seu momento reflexivo.
irmã como louca. Não houve tapa nem
me deixa apenas a falta dela, essa mãe-d’água
Dessa vez seria diferente, ninguém lhe
cinturão, mandou-a para a capital onde
que nunca promete graça, milagre ou proteção.
tomaria mais uma semente. A noite veio
deveria ser internada, tratada a choques
Não ouses furtar as minhas dores, foi muito di-
como todas as outras, arejada pelo vento
se preciso, porque não sabia como uma
fícil encontrá-las no Mercado Livre. Mas por
de praia a espalhar o cheiro de peixe. O
moça tão normal teria se rendido aos ca-
que as cegonhas não são igualmente responsá-
bendito mar, o mesmo a atrair tantos tu-
prichos da loucura. Mundica presa sorria.
veis pelo recolhimento dos bebês mortos? Tu,
ristas. Era italiano o pai fugitivo. O sub-
O prédio, baú de loucura, era defronte ao
pela primeira vez em tua vida, tocas de leve
sequente nem sabia de onde era, devia
mar. Ah, mar azul, mar verde, mãe e pai
as linhas da minha vida na palma honesta da
ser da baixa da égua. Tinha uma língua
desse rebanho divino, ainda hei de es-
minha mão, entrega-me um livro vermelho/
travada e estranha, as coisas do corpo se
capar desse abismo e me atirar a ti, onde
branco: “Poesia da Recusa”. Eu sei o que signifi-
passam por outros idiomas.
terei o mergulho maior.
ca o livro, gente morta pra eu pôr no teu lugar
Ângela Calou angelacalou@yahoo.com.br
Radiadora
De que livro tu tiraste esta verdade?
Mundica dormira e acordara imaginando o cinturão do pai cortando
Hermes Veras
lhe a carne. Falhara em sua alquimia,
hermesociais@gmail.com
19
Radiadora
A Casa de meu Avô
Amorto
Circo Político
A casa de meu avô
O amor está morto (e) por aí
Correndo seguindo a contramão
tem histórias que o vento
Lançada a última pá de cal sobre seu peito dolente
O inverso a falta de direção
esqueceu nas cumeeiras
Pregada a tacha ensangre à mão dormente
Vem cegando a Constituição
Em versos sem novidades
Corpos vendidos a 1 milhão
Traços traçam
Sem cor, com brevidades
Quem se vê em volta?
amarelo de tempo
Num beijo inconsequente.
O que se dá em troca?
nas pessoas dos retratos
Em um glorioso batalhão
No chapéu de meu avô
O amor está morto, mas vive por aí
o peso do esperar
Cabeça margeada em receios
pendurou-se nas abas
Com mãos alheias em seus seios
Qulo PeTrus
A falar frivolidades
kio.m@hotmail.com
O último cachorro
A dividir ansiedades
deixou seu jeito no canto da porta
A combinar saracoteios.
seu grito no longe da serra e no susto dos bichos
O amor está morto, sempre esteve, Pois que em si não se basta
Nos varais as marcas dos panos
Não se encontra, nem se enfrenta,
se envergonham de nudez
Não tenta, se consome, some e sequer vive
Nos baús o cheiro dos lençóis espera a vida
em lembrança Nem turva-se à saudade.
que se esvaiu pelas frechas O amor está morto, mon coeur em aborto, A casa de meu avô
Pois que nunca teve-lhe vida que não o travo
é uma dor sem jeito
insosso da partida E a desfeita alusão à felicidade.
Batista de Lima jbatista@unifor.br
Raymundo Netto raymundo.netto@gmail.com
20
Picadeiro e a televisão
Feridas Abertas
Poema Inacabado
O escuro
O tenebroso do tempo
No azul noturno do mar
Que de tanto ser encarado
não é o que ele leva,
Estremece a polpa da maçã
Se tornou o branco mais puro
mas o que ele deixa
Mordida
A luz
em fratura exposta.
Na ponta do anzol.
Que de tão brilhante
A sede das estrelas Rápido ele passa
Pousou no pulsar do ventre
com os bons ventos,
Da noite
Ormisa Sales de Freitas
mas lento se arrasta
Lavrada de sombras.
ormisag.defreitas@gmail.com
nas feridas abertas
Um salva-vidas
que deixa à mostra.
Expõe aflito
Até aos cegos seduz
Radiadora
Chiarroescuro
A palavra afogada.
Aíla Sampaio
Mas quem será que afogou a palavra?
amlsampaio@yahoo.com.br
Giselda Medeiros giselda_medeiros_@hotmail.com
21
Radiadora
Café com Cinzas
De Sopros e Poesia
No lençol branco,
Um dia acordarei a poesia no teu coração
o mesmo pó cinzento
Nele farei lírios germinarem sementes de chuva,
o mesmo ritual de pôr tudo no lugar:
Para banhar-te o peito de perfumes líricos;
os pés no chão, a cabeça fora do travesseiro
Livres de pecados,
e as cinzas de sonhos desfeitos para o lado
Lívidos de esperanças...
de fora da janela
Um dia te olharei os olhos redivivos;
E o coração buscando jeito
Ampliados em brilhos,
dentro do peito para mais um dia
Marinados de alegrias,
Todas as manhã se pratica
Por me ter do amor
o exercício do esquecimento
Brotado e me ser achado
como se o sol fosse realmente outro
Nos beirais da eternidade...
e não o mesmo velho sol, de bilhões de anos,
Um dia sorrirei teu firmamento
como se o pó do café se misturasse com
De estrelas;
as cinzas de sonhos mortos
Construídas uma a uma
enquanto é tomado lentamente.
Nos meus lábios, caudalosos de esperas Untadas no bailar dos ventos...
Magna Maricelle
magna.moraes@uece.br
Fabiana Guimarães Rocha
lislux2000@yahoo.com.br
22
Radiadora
Sexta-Feira Se Procuro... Para José Valdivino
Entre pedras escaldadas negro lençol de poeira Gertrudes pariu um filho
Se procuro no cérebro as imagens
como se fosse uma ovelha.
que em meu olhar, há tempos, embebi, ouço o ranger de dentes de engrenagens
Nem por isso houve festa
a triturar os sonhos que perdi...
quebrou-se o monótono ritmo Dos enxadecos no chão
O que é que vim fazer nestas paragens?
Nesta terra tantos morram
Que tempestade me arrojou aqui?
que outros serão paridos
Por que não me lancei noutras viagens Já que deixei a terra onde nasci?
serão servidos na mesa tantos braços escravos quanto as léguas
Tive a ambição dos nômades nos olhos!
das sesmarias sem-fim
Hoje, nem sei, cercado por escolhos, que tempestade me arrojou aqui!
Aqui a vida estrebucha corpo humano é queimado
E vivo agora assim, perdido e absorto,
como lenha da caldeira
entre a saudade do primeiro porto
Liberdade se contorce
e a tentação das terras que não vi!
espezinhada pelas botas
Soturna Sorte Castanha é a cor de seus olhos, soturna vidrados no sítio chamado passado percorrendo milhares de centenas de vezes insensata, de amor, as mesmas cenas... cenas que apenas em verdes campos oculares realmente têm vindo a ocorrer
Maria de Fátima Maia
mfmaia@hotmail.com
do senhor doutor coronel
Sânzio de Azevedo
sanziodeazevedo@gmail.com
Rosemberg Cariry
cariri.filmes@uol.com.br
23
Tiragostos
Entre as Sarjetas de Ise Nishi e Débora Nishi (cores de Edu Matos)
artista da capa Jabson Rodrigues Estudou design no extinto Centro de Design do Ceará (CDC). É formado em Artes Visuais pelo Instituto Federal do Ceará (IFCE) e tem o desenho como linguagem preferida, usando suportes e materiais diversos, tendo como referência visual a cultura POP (videoclips, quadrinhos, cinema e moda). Atua no cenário de Arte local participando de coletivos e em exposições, além de colaborar em projetos editoriais e na indústria de vestuário. Acredita que a prática artística pode diminuir a grande diferença entre o que projeta mentalmente e o que consegue realizar; e que se a Arte é um caminho de vida, não tem a mínima noção de onde quer chegar, mas vai fazendo do caminho o destino. Para acompanhar seu trabalho: @jabsonrodrigues
24
Zuumbizin de Karlson Gracie