DESIGUALDADES E PRIMEIRA INFÂNCIA
Desigualdades e desenvolvimento na primeira infância: resultados do Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI-2019)
Gilberto Kac Rio de Janeiro, Rio de Janeiro
• Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
1
Os atrasos no desenvolvimento infantil
Introdução
estão associados a:
O Brasil é marcado por desigualdades entre regiões geográficas, renda, escolaridade e raça
má nutrição
Essas desigualdades
doenças respiratórias doenças crônicas cardiovasculares
diabetes
câncer
desordens de saúde mental
determinam as condições de alimentação e nutrição da população infantil1,2,3 e afetam o
menor capital humano4,5
desenvolvimento na primeira infância
O objetivo geral desta pesquisa foi gerar evidências
As crianças têm o direito de alcançar o
para reformular as políticas de
pleno desenvolvimento. Contudo, a
alimentação e nutrição infantil,
redução das desigualdades regionais e
com foco na garantia de um melhor
socioeconômicas é tarefa complexa e
desenvolvimento na primeira
de longo prazo6, 7
infância e no combate a todas as formas de má nutrição
2
Método da pesquisa O ENANI-2019 foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) CAAE 89798718.7.0000.5257.
Estudo
O estudo8,9 investigou as desigualdades
Participaram
socioeconômicas no desenvolvimento na
14.558 crianças menores de 5 anos
primeira infância e indicadores que medem
observacional do
residentes em 123
todas as formas de má nutrição. Os dados
tipo inquérito
municípios das 5
foram coletados entre fevereiro de 2019 e
nacional domiciliar
regiões do Brasil
março de 2020 por 342 pesquisadores.
de base populacional
A pesquisa utilizou o Survey of Well-being of Young Children (SWYC), uma escala de rastreio do desenvolvimento na primeira
Variáveis avaliadas por
infância, de fácil e rápida aplicação,
meio de questionário:
para ser respondida por pais/cuidadores, e previamente validada para crianças brasileiras10, 11
•
Região do país
•
Cor de pele da criança
•
Escolaridade materna
•
Renda familiar
O SWCY tem 10 perguntas curtas específicas para cada faixa etária e três opções de resposta: ainda não; um pouco; muito. Para cada faixa etária, um conjunto de
A diversidade alimentar foi
marcos é avaliado.
definida como o consumo de pelo menos cinco grupos de alimentos no dia anterior
O desenvolvimento foi avaliado
à entrevista12
por meio do quociente de desenvolvimento (QD), que indica se a criança atingiu os marcos do desenvolvimento esperados para a idade. Valores menores que 1 sugerem menor
Já o consumo de produtos
alcance, e aqueles maiores que 1
ultraprocessados foi
sugerem alcance acima das
considerado quando a
expectativas.
criança recebeu um ou mais alimentos ultraprocessados no dia anterior à entrevista13, 14
As persistentes
3
desigualdades
Resultados da pesquisa
socioeconômicas no Brasil explicam a maior ocorrência de atrasos no desenvolvimento na primeira infância em grupos mais vulneráveis
Quociente de desenvolvimento entre crianças menores de cinco anos Por região do país
Por escolaridade da mãe (em anos de estudo)
1.02
0.97
Média do quociente do desenvolvimento na primeira infância no Brasil
0.93
Por raça/ cor de pele
Por renda (salários mínimos per capita) 1.02
>1
0.99
1/2 a 1
≥11
0.96
Sudeste
0.96
Branca
0.94
Centro-Oeste
0.94
Preta
0.93
Nordeste
0.92
Sul 0.90
Parda
0.90
0.87
Norte 0.86
0.86
8 a 10 0.89
Até 1/4
0.88
1/4 a 1/2
0a7
Crianças da região Norte, filhas de mulheres com escolaridade menor que 7 anos, com renda domiciliar per capita de até meio salário mínimo e de cor parda apresentam menores medianas de quociente de desenvolvimento na primeira infância
Quociente do desenvolvimento na primeira infância de acordo com a diversidade alimentar e consumo de alimentos ultraprocessados Diversidade alimentar 0.95
Sim
Consumo de alimentos ultraprocessados 0.92
0.90
Não
Sim
1.00
Não
Crianças que consumiram alimentos ultraprocessados no dia anterior ou que tinham menor diversidade alimentar, ou seja, com uma pior qualidade alimentar, apresentaram menor mediana de quociente de desenvolvimento na primeira infância
4
Recomendações para a gestão pública
GESTÃO FEDERAL
GESTÃO MUNICIPAL Promover ações de segurança alimentar e nutricional com atenção especial ao desenvolvimento na primeira infância
Considerar os dados investigados no direcionamento de recursos de forma a reforçar ações voltadas às crianças mais vulneráveis
Recomendações baseadas em evidências:
Apoiar na focalização de políticas e programas, priorizando as crianças da região Norte, pretas e pardas, filhas de mulheres com escolaridade menor que 7 anos ou com renda domiciliar per capita menor que meio salário mínimo
Ações com o objetivo de promover o desenvolvimento na primeira infância no Brasil
Promover a igualdade social e racial
5
Créditos
SOBRE O PESQUISADOR
SOBRE A PESQUISA
Gilberto Kac
Desigualdades e desenvolvimento na primeira infância: resultados do Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI-2019)
Professor Titular do Instituto de Nutrição Josué de Castro (INJC), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Co-autores Inês Rugani R. de Castro (Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ), Luiz A. dos Anjos (Universidade Federal Fluminense – UFF), Elisa M. A. Lacerda (UFRJ), Cristiano S. Boccolini (Fundação Oswaldo Cruz - Fiocruz), Dayana Rodrigues Farias (UFRJ), Nadya Helena Alves-Santos (Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará), Paula Normando (UFRJ), Maiara Brusco de Freitas (UFRJ), Pedro Gomes Andrade (UFRJ), Neilane Bertoni (Instituto Nacional do Câncer), Raquel Machado Schincaglia (UFRJ), Talita Berti (UFRJ), Letícia B. Vertulli Carneiro (UFRJ) e Nathalia Cristina Freitas-Costa (UFRJ ). Financiadores O presente trabalho foi realizado com financiamento do Ministério da Saúde (Departamento de Ciência e Tecnologia da Informação – DECIT e Coordenação Geral de Alimentação e Nutrição - CGAN)
6
Referências
1. Silveira V, Nascimento J, Cantanhede NAC, Frota M, Chagas DCD, Carvalho CA, et al.
8. UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO. Características sociodemográficas:
Racial and regional inequality in the temporal trend of stunting and excess weight in
aspectos demográficos, socioeconômicos e de insegurança alimentar 2: ENANI 2019. -
Brazilian children under five years of age. Brazilian journal of epidemiology.
Documento eletrônico. Rio de Janeiro, RJ: UFRJ, 2021. Disponível em:
2023;26:e230004.
https://enani.nutricao.ufrj.br/index.php/relatorios/. 2021. Acesso em: 20 mar 2023.
2. Ferreira CM, Reis NDD, Castro AO, Höfelmann DA, Kodaira K, Silva MT, et al.
9. UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO. Aspectos Metodológicos: Descrição
Prevalence of childhood obesity in Brazil: systematic review and meta-analysis. Jornal
geral do estudo 1: ENANI 2019. - Documento eletrônico. Rio de Janeiro, RJ: UFRJ, 2021.
de pediatria. 2021;97(5):490-9.
Disponível em: https://enani.nutricao.ufrj.br/index.php/relatorios/. 2021. Acesso em: 20 mar 2023.
3. Victora CG, Aquino EML, do Carmo Leal M, Monteiro CA, Barros FC, Szwarcwald CL. Maternal and child health in Brazil: progress and challenges. The Lancet.
10. Sheldrick RC, Schlichting LE, Berger B, Clyne A, Ni P, Perrin EC, et al. Establishing
2011;377(9780):1863-76.
New Norms for Developmental Milestones. Pediatrics. 2019;144(6).
4. Barros AJ, Ewerling F. Early childhood development: a new challenge for the SDG
11. Moreira RS, Magalhães LdC, Siqueira CM, Alves CRL. Cross-cultural adaptation of
era. The Lancet Global health. 2016;4(12):e873-e4.
the child development surveillance instrument "Survey of Wellbeing of Young Children (SWYC)" in the Brazilian context. Journal of Human Growth and
5. WHO. WHO Guidelines Approved by the Guidelines Review Committee. Improving
Development. 2019;29:28-38.
Early Childhood Development: WHO Guideline. Geneva: World Health Organization; 2020.
12. WHO, UNICEF. Indicators for assessing infant and young child feeding practices: definitions and measurement methods. Geneva: World Health Organization; 2021.
6. Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal. Desigualdades na garantia do direito à pré-escola. 2022.
13. Brasil. Orientações para avaliação de marcadores de consumo alimentar na atenção básica. Brasília: Ministério da Saúde; 2016.
7. Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal. Avaliação da Qualidade da Educação Infantil. 2022.
14. Brasil. Guia alimentar para a população brasileira. . Brasília: Ministério da Saúde; 2014.
O conteúdo deste estudo é de responsabilidade dos autores, não refletindo, necessariamente, as opiniões das organizações que são membros do Núcleo Ciência Pela Infância.