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A participação das crianças indígenas nos laudos antropológicos em processos de demarcação de terra

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INFÂNCIAS PLURAIS DO BRASIL

A participação das crianças indígenas nos laudos antropológicos em processos de demarcação de terra

Emilene Leite de Sousa Imperatriz, Maranhão

• Universidade Federal do Maranhão (UFMA)

1

Introdução

46%

O Projeto de Lei 490/2007 estabelece um marco temporal para o reconhecimento das terras indígenas

Foi o aumento no número de invasões às terras indígenas no Brasil, entre 2020 e 2021, marcadas

O texto prevê que apenas territórios ocupados antes da promulgação da Constituição Federal de 1988 tenham sua demarcação garantida

por desmatamento e violência1

Isso intensificou os conflitos e invasões, pois latifundiários usaram-no como respaldo

Invasões de caçadores, agricultores ilegais e

Como consequência, o número de

madeireiros

processos para demarcação de terras indígenas também aumentou

Conflitos com fazendeiros

Uma das peças fundamentais nesses trâmites é o laudo antropológico, produto

Aumento do

do diálogo direto dos antropólogos com os

desmatamento

povos indígenas, que atesta a importância da terra para seus modos de vida Extinção de animais e plantas

As formas como as crianças se relacionam com a terra garantem

Desequilíbrio ecológico

pertencimento e geram conhecimentos específicos fundamentais para a infância delas2,3. No entanto, esses saberes são

1.

excluídos dos laudos antropológicos.

As crianças não são poupadas nos conflitos pela terra em todo o Brasil, tendo sido constantemente assassinadas, fugindo de incêndios criminosos e expostas a situações de risco, o que as torna conscientes desse processo

O objetivo desta pesquisa foi avaliar a

2.

importância em considerar as crianças para

São elas as herdeiras do legado adquirido por meio dos processos de demarcação de terra e a motivação de seus pais para a luta

a produção dos laudos

pelo território4

antropológicos

3.

Garantir o desenvolvimento na primeira infância de crianças indígenas depende da permanência delas na terra

2

Método da pesquisa

Estudo etnográfico3 com foco na cultura, nos costumes e na produção da identidade de crianças indígenas Gavião Phycop Catiji, do Maranhão

O estudo utilizou as seguintes técnicas das ciências sociais:

A partir da inserção da pesquisadora em campo para a elaboração de uma etnografia2, teve-se acesso a todas as crianças de 0 a 6 anos que habitavam a Aldeia Gavião, totalizando 200 crianças

Registros em diários e cadernos de campo

Observação direta

Entrevista

As crianças acima de 4 anos foram ouvidas, observadas e produziram desenhos que informaram seus modos de se relacionar com a terra e os animais, assegurando suas identidades

No caso das crianças de 0 a 3 anos, além da observação, os responsáveis foram ouvidos, revelando como elas se relacionam com o território

3

Resultados da pesquisa As crianças estão atentas às

Entre o povo Gavião,

demandas e à organização

investigamos a produção de

social da comunidade e

identidade pelas crianças

detêm opiniões sobre os

indígenas, que desde bebês

conflitos de terra. A partir de

são criadas para se relacionar

4 anos, elas afirmam seus

com a mata, os rios e os

direitos sobre a terra:4,5

animais; aprendendo sobre plantas medicinais, animais dóceis e perigosos, lugares

“Os donos da terra são os Gavião”

impróprios e fronteiras4,5

“Estamos lutando para proteger o meio ambiente” “Estamos lutando pela terra para plantar, caçar, sobreviver” “Lutamos para recuperar tudo aquilo que perdemos: as árvores, as caças, o rio”

A incorporação dos saberes das crianças indígenas a laudos antropológicos aumenta a quantidade e a qualidade de informações sobre a

Este resultado se aplica

relação dos povos indígenas com o

também às comunidades

território e os acontecimentos na aldeia.

quilombolas, ribeirinhas

Com isso, esses documentos se tornam

ou que habitam reservas

mais densos e robustos, fortalecendo

extrativistas, como as

o pleito da demarcação de terras.

quebradeiras de coco

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Recomendações para a gestão pública

Recomendações baseadas em evidências: Ações necessárias para aprimoramento do processo de demarcação de terras

Antropólogos peritos que atuam em processos de demarcação de terra devem considerar as crianças ao compor os laudos antropológicos, uma vez que os conhecimentos específicos delas forneceriam maior consistência aos laudos, adensando quantitativamente e qualitativamente os seus dados

A Associação Brasileira de Antropologia (ABA) deve reconhecer a participação das crianças em sua resolução que orienta os laudos antropológicos, sensibilizando antropólogos peritos para esta atuação

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Créditos

SOBRE A PESQUISADORA

SOBRE A PESQUISA

Emilene Leite de Sousa

A participação das crianças indígenas nos laudos antropológicos em processos de demarcação de terra

Professora Associada da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) com atuação no Programa de Pós-Graduação em Sociologia/PPGS e no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais/PPGCSoc

Financiadores Esta pesquisa foi realizada com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Estado do Maranhão/FAPEMA, por meio de edital público Universal.

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Referências

1. Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Cartografias das violências na região amazônica:

4. Sousa, E. L. (2018). Laudinhos antropológicos: As crianças indígenas e os processos

relatório final. 2022. Disponível em:

de demarcação de terra. Tellus, 18(35), p. 113–138.

https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2022/03/violencia-amazonica-relatorio-

https://doi.org/10.20435/tellus.v18i35.490 Acesso em: 28 mar 2023.

final-web.pdf Acesso em: 28 mar 2023. 5. Sousa EL, Etnicidade, Territorialidade e Infância: a produção de territorialidades e 2. Sousa EL, Araújo K S. (Orgs.). Corpos pintados. São Luís: EDUFMA, 2021.

etnicidades por crianças indígenas e quilombolas. Relatório Técnico entregue a FAPEMA, 2022.

3. Geertz C A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: Editora Aplicada, 1989.

O conteúdo deste estudo é de responsabilidade dos autores, não refletindo, necessariamente, as opiniões das organizações que são membros do Núcleo Ciência Pela Infância.


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