PLANT-BASED: COLHENDO FRUTOS E MIRANDO NOVOS HORIZONTES Q&A COM ESPECIALISTAS EM 28 DE JULHO
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EDITORIAL Brunno Falcão / Gerente de projeto CEO do Grupo HQ•Content / Fundador da Science Play e WE Nutrition Conference / Autor do livro “O Fim do Consultório”
Vicente Ramos / Redator Redator Publicitário e Pós-Graduado em Leitura e Produção de Textos. Já trabalhou como Social Media e Assessor no Governo de Brasília, possui experiência em agências de comunicação do DF e escreve poemas nas horas livres. Para ele, palavras são sementes que f rutif icam a vida.
Caroline Romeiro / Nutricionista Nutricionista e Mestre em Nutrição Humana (UnB), Doutorado em andamento em Ciências da Saúde na Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT). Integrante do Grupo de Pesquisa em Fisiologia, Nutrição e Treinamento Desportivo aplicado ao Fitness Funcional. Docente de graduação e pós-graduação desde 2010, nas áreas de Nutrição Clínica, Nutrição MaternoInfantil e adolescente e Nutrição Esportiva.
Omar de Faria / Nutricionista Bacharelado em Nutrição pela Universidade Católica de Brasília 2011, Pós-Graduado em Nutrição Clínica e em Estética pela IPGS 2013, Pós-Graduado em Nutrição Esportiva Funcional pelo Instituto VP 2015, Pós-Graduando em Fitoterapia pela Pratiensino 2021, Sócio-Proprietário da Clínica Omar de Faria, Escritor, Palestrante na área da Nutrição desde 2017, Consultor para desenvolvimento de suplementos e produtos nutricionais.
Júlia Coutinho / Nutricionista Nutricionista especialista em vigilância sanitária, tecnologia industrial farmacêutica e regulatório de alimentos, ingredientes e bebidas – Sócia e Fundadora da Regularium.
Pedro Perim / Nutricionista Mestrando pela Faculdade de Medicina da USP, Membro do American College of Sports Medicine, Coordenador Científ ico da HQ Content e Science Play.
Máisa Neves / Nutricionista Nutricionista e Advogada, especialista em vigilância sanitária de alimentos, ingredientes e bebidas – Sócia e Fundadora da Regularium.
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INTRODUÇÃO O mundo mudou em um curto espaço de tempo, especialmente em decorrência das exigências que a pandemia nos trouxe. Para o mercado alimentício isso não foi diferente. Os produtos plantbased (produtos à base de plantas) ganharam destaque no Brasil, o que foi acentuado nos últimos dois anos. Porém, segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa ), essa categoria de produtos existe desde a década de 1970 e era destinada a um público muito restrito, veganos e vegetarianos com foco na substituição da proteína animal, e com a produção quase exclusivamente à base de soja. Apesar dessa característica, por muitos considerada uma limitação dos produtos daquela época, essa geração de produtos plant-based foi fundamental para os primeiros passos de um movimento que, anos depois, se tornaria a realidade que conhecemos hoje, com grande demanda e evolução contínua de produtos. Assim, os substitutos vegetais para produtos de origem animal, como leite, manteiga e outros laticínios, já estavam disponíveis no mercado alimentício há um tempo, mas voltados a esses públicos ou àqueles com alguma restrição alimentar.
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Hoje, o consumidor é mais exigente, informado e consciente em relação ao impacto que o modelo atual de alimentação pode causar ao meio ambiente. Por isso, há uma forte demanda para que os modelos de produção tenham alternativas mais sustentáveis e humanizadas.
Essa demanda impulsiona a indústria para o desenvolvimento de novos ingredientes e alimentos que sejam capazes de atrair o maior número de consumidores para práticas de consumo mais saudáveis e sustentáveis. Ao mesmo tempo, oferecem a possibilidade de uma transição que proporcione melhor experiência a quem esteja interessado em adotar novos hábitos de consumo. Em pesquisa feita pela Associação de Promoção dos Orgânicos (Organis), foi apontado um aumento de 44,5% no consumo de orgânicos durante os sete primeiros meses da pandemia de Covid-19. A mudança de hábitos também se refletiu na escolha por alimentos e bebidas que os consumidores entendem ajudar na imunidade, como mostra estudo da Associação Brasileira de Supermercados (Abras) , em que 36% dos consumidores começaram a inserir produtos que consideram ser benéficos para o sistema imunológico. Como vimos, não apenas vegetarianos e veganos desejam consumir alimentos produzidos com maior responsabilidade
ambiental, sem crueldade animal e que sejam nutritivos e saborosos. Existem milhares de novos consumidores que não querem receber um título ou serem taxados em grupos específicos, mas que desejam rever seus hábitos e adotar novas práticas alimentares. A pesquisa O consumidor brasileiro e o mercado plant-based (2021), desenvolvida pela The Good Food Institute Brasil aponta para um caminho promissor e repleto de desafios para o plant-based no país. Nela, observa-se o crescimento do público flexitariano, ou seja, pessoas que buscam reduzir o consumo de produtos de origem animal, sem interrompê-lo completamente. Em 2020, ano em que foi realizada a pesquisa, 49% dos participantes afirmaram ter diminuído o consumo de carne. A mesma pesquisa revelou que 29% dos entrevistados reduziram o consumo em comparação ao ano de 2018. Assim, há um aumento considerável na evolução do grupo de consumidores adeptos ao flexitarianismo, um destaque para o mercado brasileiro.
Figura 1 – Pesquisa sobre o consumidor brasileiro e o mercado plant-based
Você reduziu seu consumo de carne (bovina, suína, aves peixes) nos últimos 12 meses?
Fonte: The Good Food Institute Brasil (2021).
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Os dados da figura 1 mostram que há uma mudança no perfil do consumo brasileiro e crescimento na demanda por fontes alimentares alternativas à proteína animal. Porém, vemos que o número de pessoas que consomem carne durante as refeições é alto, o equivalente à quantidade daqueles que não reduziram o consumo. Um dos fatores que pode influenciar nessa decisão é atrelado à nossa cultura
alimentar, que estimula o consumo de proteína animal, especialmente carnes, nas refeições do almoço e do jantar. Por mais que a pesquisa demonstre que a adesão a carnes vegetais análogas tem crescido rapidamente, a maior parte da substituição da proteína animal ainda é realizada pela exclusão das carnes e inclusão de fontes vegetais, como mostra a figura seguinte.
Figura 2 – Substituição de carne no dia a dia
Fonte: The Good Food Institute Brasil (2021).
Outro dado relevante que a pesquisa apresenta sobre os flexitarianos é a predominância de mulheres e jovens neste grupo, enquanto parece haver maior resistência à redução do consumo de carne por parte de homens e pessoas com mais de 55 anos. Considerando todos esses dados, surge um questionamento sobre como a indústria pode atender à demanda dos flexitarianos e conquistar novos
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consumidores com os alimentos plantbased. Afinal, esse mercado se apresenta como uma forte alternativa de futuro no padrão alimentar, com restaurantes, supermercados e indústria articulados para atender o crescimento da procura por alimentos com menor impacto ambiental e livres de origem animal. Portanto, compreender o perfil do consumidor é essencial na atuação do segmento.
VEGANO E PLANT-BASED: QUAL A DIFERENÇA? É importante ressaltar que o nosso órgão regulador, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), não traz essas definições. O que há de mais próximo disso, é a Organização Internacional de Normalização (ISO) 23662, que estabelece e define critérios para toda a cadeia produtiva de alimentos veganos e vegetarianos. Aqui cabe esclarecer alguns pontos: a ISO 23662 oferece um padrão internacional com critérios técnicos acerca de alimentos veganos e vegetarianos e sua aplicação deve acontecer com base em uma decisão estratégica da organização, não sendo, portanto, uma exigência. Quando falamos sobre um produto vegano e um produto plant-based, é possível que haja confusão sobre o que cada um representa. Ambos seguem o mesmo princípio alimentar, o de maior consumo de produtos de origem vegetal, visando menor impacto ambiental. Porém, possuem diferenças, como será destacado a seguir. O veganismo é, essencialmente, uma prática que exclui por completo produtos de origem animal do estilo de vida, não apenas na alimentação, mas também em roupas, produtos de limpeza, cosméticos, produtos testados em animais, dentre outros. Já a dieta plant-based tem como foco diminuir o consumo de alimentos processados e de origem animal, sem necessariamente se 7
aplicar a outras áreas de consumo. Uma dieta que inclui prioritariamente vegetais não é necessariamente vegetariana, nem pode ser considerada vegana. Por isso, a dieta plant-based consegue abranger consumidores que não se encaixam no movimento associado ao vegetarianismo ou ao veganismo, mas que desejam uma alimentação mais natural, variada e com alimentos saudáveis, saborosos (quando possível, orgânicos), além de apoiar a produção sustentável. Ao entender essa diferença, a indústria pode oferecer opções de alimentos à base de plantas que possam agradar tanto ao público que já adere ao veganismo e vegetarianismo, quanto a quem apenas deseja reduzir o consumo de carne. Hoje, o termo plant-based não é utilizado apenas para alimentos vegetais integrais e naturais, mas também pode ser utilizado para alimentos industrializados. Ainda na referida pesquisa “O consumidor brasileiro e o mercado plantbased” (The Good Food Institute Brasil, 2021), os participantes foram questionados sobre o que os influencia na decisão de compra de proteínas alternativas. As respostas que se destacaram foram a quantidade de proteína, ter menos gordura e ter ingredientes naturais, nas três categorias de análogos vegetais.
Figura 3 – Influência na decisão de compra
Fonte: The Good Food Institute Brasil (2021).
Os dados reforçam a importância da produção de produtos plant-based que sejam nutritivos, saborosos e consigam comunicar ao consumidor que seus benefícios vão além da não utilização de produtos de origem animal. É preciso deixar claro que também possuem elevada qualidade de sabor e textura.
Conseguimos desvendar o que o consumidor deseja? O consumidor atual, mais informado e conectado com as tendências mundiais, está cada vez mais exigente com o que consome. Se antes era possível dividir o público entre vegetarianos e onívoros (ou carnívoros, para o senso comum), por exemplo, hoje o cenário é outro. Obviamente ainda temos os grupos bem definidos, como veganos e vegetarianos. Porém, como vimos anteriormente, também encontramos consumidores flexitarianos e aqueles curiosos sobre como os novos produtos plant-based podem se assemelhar às proteínas de origem animal. É comum observarmos pessoas que já provaram ou desejam provar uma carne vegetal, seja pela curiosidade quanto ao sabor e textura, ou pelo desejo de reduzir o 8
consumo de carne animal. Também há os que desejam ter uma dieta mais equilibrada e buscam por opções mais saudáveis e saborosas nas gôndolas dos supermercados. Em nossa publicação anterior sobre o tema plant-based, citamos a campanha “Segunda sem carne”, que propõe um dia da semana sem consumo de proteína de origem animal. A campanha foi originada por um movimento de conscientização sobre o consumo de produtos de origem animal e seus diferentes impactos na saúde e no meio ambiente. Desde então, o movimento ganhou mais força, principalmente com os flexitarianos, ao incentivar o consumo de carne de forma moderada e mais consciente. Esse movimento não se restringe ao Brasil. Segundo matéria da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia), houve um aumento de 265% nas opções de produtos à base de plantas nos Estados Unidos em março e abril de 2020, em comparação com 2019. Quando pensamos no que o consumidor moderno deseja, devemos encarar que está mais maduro, consciente e exigente. Isso significa que o público busca por alimentos em que possa confiar, suprindo suas necessidades nutricionais e sejam coerentes com o que acreditam. Ainda segundo a pesquisa realizada pela The Good Food Institute Brasil (2021), as características nutricionais que os entrevistados consideravam mais importantes na compra de alternativas vegetais são: possuir sabor, aroma e textura igual ou melhor que a proteína de origem animal (62%); consumir um produto o mais natural possível (60%) e priorizar o valor nutricional igual ou superior à proteína de origem animal (59%).
Figura 4 – Características mais importantes para consumidores
Fonte: The Good Food Institute Brasil (2021).
Assim, é importante entendermos o perfil de consumo e as preferências do consumidor no cenário nacional. Quando observamos que o formato do alimento (sabor, aroma e textura) e a maior proximidade ao natural lideram as respostas, podemos concluir haver o desejo de se consumir uma carne vegetal que traga alguma semelhança à de origem animal. Essa proximidade é um ponto fundamental para a indústria no desenvolvimento de novos produtos voltados ao público geral e aos flexitarianos, principalmente no cenário atual póspandemia, com novos hábitos alimentares que buscam uma vida mais saudável e o fortalecimento da imunidade.
Existe uma enorme oportunidade de crescimento para o mercado de produtos plant-based, principalmente com as carnes vegetais. Para aproveitá-las, é preciso que as indústrias enxerguem a necessidade de entregar produtos com saudabilidade e uma experiência sensorial similar ao produto de origem animal. Pensando nisso, já existem tecnologias que permitem diminuir as quantidades de açúcar, sal e gordura em produtos industrializados. Também é possível alterar um sabor indesejado, muitas vezes proveniente das proteínas vegetais, mantendo a estrutura e aspecto nutricional de um alimento processado.
Um estudo da Euromonitor International, realizado em 2020, demonstrou que o Brasil é o 16º maior mercado do mundo na categoria de substitutos de carne, movimentando US$ 82,8 milhões em 2020, um crescimento de 69,6% em relação a 2015.
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A DIETA PLANT-BASED Como visto, o flexitarianismo e vegetarianismo ganharam mais visibilidade nos últimos anos. A qualidade de vida diz respeito a uma percepção subjetiva de bem-estar e funcionalidade e abrange quatro domínios principais da vida: físico, psicológico, social e ambiental. Figura 5 – Publicações anuais sobre essas dietas.
Fonte: Vegetarian Diet: An Overview through the Perspective of Quality of Life Domains. 2021
Nas maiores bases de dados de artigos científicos, o vegetarianismo aparece como um dos assuntos mais estudados da atualidade, especialmente no que se refere aos possíveis benefícios à saúde humana. A adoção de uma dieta vegetariana, apesar de ser um padrão alimentar, poderia potencialmente influenciar e ser influenciada por todos esses domínios, positiva ou negativamente. Sendo assim, pontuamos alguns benefícios dessa dieta para a saúde, descritos na literatura científica. 10
Dieta vegetariana e eubiose Um dos fatores mais importantes na busca pela dieta vegetariana, bastante fundamentada na literatura, seria o equilíbrio entre as bactérias intestinais. Esse equilíbrio, chamado eubiose, pode influenciar diretamente todas as funções metabólicas, desde a manutenção do equilíbrio do nosso metabolismo, passando pela prevenção de doenças, até a relação com maior longevidade. Um desequilíbrio entre essas bactérias pode comprometer nossas funções metabólicas, o que tem sido associado ao surgimento de diversas patologias.
Figura 6 – Alteração na microbiota intestinal e possível relação com disfunção intestinal, translocação bacteriana e complicações hepáticas.
Fonte: Gut Microbiome-based Therapeutics in Liver Cirrhosis: Basic Consideration for the Next Step. 2017
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Entre as maiores alegações sobre ter um consumo mais elevado de alimentos vegetais para manter o equilíbrio da microbiota intestinal, está o fato de que os vegetais, ricos em fibras solúveis e outros carboidratos acessíveis a microbiota (MAC), serviriam de alimentos para as “bactérias benéficas”, presentes no intestino humano.
Uma vez que essas fibras são metabolizadas por esses microrganismos, é produzido um ácido graxo de cadeia curta, chamado butirato. O butirato pode servir de substrato energético para células humanas, que apresentam efeito anti-inflamatório, além de ser substrato para energia mitocondrial.
Figura 7 – Sinalização do butirato em diferentes tecidos e suas implicações metabólicas.
Fonte: Butyrate: A Double-Edged Sword for Health?. 2018
Um dos pontos mais importantes sobre a presença do butirato no metabolismo seria a possibilidade de aumento da captação da glicose, da sensibilidade à insulina e da oxidação de gordura.
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PLANT-BASED E BENEFÍCIOS PARA A COMPOSIÇÃO CORPORAL E SAÚDE MENTAL
Figura 8 – Efeitos de uma dieta plant-based no eixo microbioma-intestino-cérebro
Fonte: Butyrate: A Double-Edged Sword for Health?. 2018
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O estudo representado pela figura 8, publicado em 2019, aponta a relação entre a modulação da microbiota humana com uma alimentação vegetariana. Por meio dessa relação, podemos observar os inúmeros benefícios da dieta em pauta, de forma sistêmica no corpo humano.
Metabolismo glicolítico A redução dos níveis de glicemia e aumento da sensibilidade à insulina podem ser grandes benefícios gerados por esse padrão de consumo. Grande parte das bactérias que são hospedeiras do intestino humano parecem se relacionar com o metabolismo glicolítico. Elas podem ser grandes reguladoras desse processo e fazer um papel preventivo à saúde contra doenças, como a diabetes mellitus, por exemplo.
Gerenciamento do peso Devido ao controle da glicemia e aos níveis insulínicos reduzidos, pode haver controle e redução da massa corpórea. Consequentemente, há redução do risco cardiovascular, menores chances de obesidade e diabetes do tipo II e favorecimento na prevenção contra certos tipos de câncer.
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Impactos na cognição e no comportamento Grande parte dos neurotransmissores que equilibram as atividades do sistema nervoso precisam ser sintetizados por aminoácidos e vitaminas. Porém, quando nossa microbiota está em desequilíbrio, principalmente com elevada presença de bactérias consideradas maléficas (gram negativas), essas bactérias poderiam metabolizar determinadas vitaminas e aminoácidos em compostos tóxicos ao organismo. Quando temos uma microbiota adequada e conseguimos metabolizar corretamente os nutrientes, produzimos neurotransmissores para manter o equilíbrio neurobioquímico, afetando diretamente o humor, prevenindo alterações como depressão e inflamação neural.
Riscos de deficiências nutricionais A literatura mostra que, a exemplo do que ocorre com qualquer dieta desequilibrada, pode haver riscos de deficiências nutricionais, como baixa ingestão de ferro, vitaminas do complexo B (folato e vitamina B12), proteína, ômega 3 e zinco. Assim, é importante que condutas nutricionais para pessoas que desejam ser saudáveis sejam monitoradas por nutricionistas, para adequarem a ingestão de vitaminas, proteínas e minerais, evitando deficiências que levariam a complicações metabólicas.
CRESCIMENTO DE DEMANDA E FUTURO PROMISSOR O mercado de produtos plant-based tem crescido de maneira promissora nos últimos anos. Segundo o portal Exame (2022), até 2030, a venda global de alimentos à base de plantas pode crescer mais de cinco vezes, alcançando US$ 162 bilhões. Há previsão, segundo relatório recente da Bloomberg Intelligence, divulgado na matéria do portal Exame, de que o mercado global de alimentos à base de plantas cresça em até cinco vezes. É um cenário promissor e empolgante para a indústria atuar e oferecer produtos criativos que supram as necessidades e os desejos dos consumidores.
A consultoria A.T. Kearney enxerga que, em 2035, o mercado mundial de substitutos vegetais pode chegar ao valor de 370 bilhões de dólares, representando 23% de todo o segmento de carnes no planeta.
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Um dos principais mercados de plantbased é o dos Estados Unidos. O crescimento, de 2019 para 2020, foi de 27%, bem acima do varejo do setor de alimentos em geral (15%), segundo o portal Exame. Ainda segundo o portal, a Plant Based Food Association informa que, nos últimos dois anos, as vendas de substitutos vegetais no país cresceram nove vezes mais rápido do que as vendas totais de alimentos. Esse crescimento teve reflexo também no Brasil, mesmo que em menor escala. O país tem tido cada vez mais consumidores que decidem alternar o consumo de proteína animal com suas versões vegetais. Segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope), coordenada pela The Good Food Institute e apoiada por 11 empresas do setor, os flexitarianos passaram de 29%, em 2018, para 50%, em 2020. Além disso, 39% já procuram realizar a troca pelo menos três vezes por semana. Com um crescimento cada vez mais acelerado, os investimentos também são realizados visando aproveitar essa fatia de mercado. Muitas foodtechs se expandem e empresas gigantes do ramo alimentício desenvolvem novos produtos no setor. Um exemplo é a JBS, conhecida no mercado de proteína animal, mas que adquiriu a empresa Vivera, terceira maior produtora de alimentos plant-based da
Europa, atuando em mais de 25 países. No Brasil, a JBS já havia lançado a linha Incrível, da Seara, oferecendo produtos similares a bife bovino, filé de frango, pernil, isca de peixe, bacalhau, hambúrguer e outros, todos 100% vegetal. Figura 9 – Linha Incrível
Fonte: Divulgação – Seara.
Com os consumidores cada vez mais atentos às mudanças alimentares e a preferência por produtos de origem vegetal, muitas empresas enxergam o mercado como promissor e utilizam da criatividade para agradar ao público. Segundo a Euromonitor, o Brasil registrou um aumento anual de 11,1% nos últimos cinco anos no mercado de plant-based. A Euromonitor também aponta que o setor faturou US$ 82,8 milhões (R$ 457,52 milhões) em 2020, com a estimativa de atingir US$ 131,8 milhões (R$ 728,27 milhões) até 2025. Trata-se, portanto, de um mercado promissor e com grande potencial de faturamento em um curto espaço de tempo.
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Com tal potencial, empresas multinacionais, como o grupo Nestlé e Unilever, por exemplo, elaboram estratégias de negócios para criarem produtos vegetais e alimentos sem ingredientes de origem animal. Assim, focam em consumidores vegetarianos, veganos e principalmente os flexitarianos, unindo sustentabilidade, saúde e inovação. A seguir, podemos observar a variedade de opções plant-based no mercado oferecidas por grandes marcas.
Fonte: IstoÉ Dinheiro (2021).
Dificuldades do setor Por mais que seja um mercado com grande potencial e em expansão, muitas empresas ainda encontram dificuldades para investir em produtos plant-based, principalmente na questão de matérias-primas nacionais. Isso acaba por resultar numa dependência da importação e num alto custo, que acaba sendo repassado ao consumidor. Em uma matéria do jornal O Estado de S. Paulo , publicada em dezembro de 2021, a falta de matérias-primas e ingredientes nacionais foi apontada como um problema enfrentado por diversas foodtechs, como a VidaVeg, por exemplo. A matéria aponta que, até o primeiro semestre de 2021, a empresa importava um creme de coco da Ásia para fazer iogurte, aumentando seus custos. Outras marcas também disputam o mercado, como a Fazenda Futuro, A Tal da Castanha, NotCo, e The New, já presentes nos supermercados, assim como as grandes empresas (Sadia, Seara, Batavo e Vigor, por exemplo). Dadas as devidas proporções, todas encaram as dificuldades de matéria-prima e concorrem pela atenção do consumidor. 17
Em estudo publicado em 2021 pela The Good Food Institute Brasil (GFI), com a participação de 21 empresas, foram identificadas oportunidades e desafios do setor no país. A pesquisa aponta que a principal demanda (84% dos entrevistados) é o desenvolvimento de ingredientes no mercado brasileiro, em que a soja ainda é predominante - enquanto marcas de carne vegetal precisam importar proteína de ervilha para seus produtos, por exemplo. Além de acarretar aumento de custo de produção - e também para o consumidor final - a falta de matérias-primas acaba dificultando a rapidez na produção de produtos à base de planta no país e também limita a variedade de ingredientes utilizados.
OPÇÕES PARA SUPRIR A DEMANDA Entendendo as dificuldades da obtenção de matéria-prima e altos custos, surge o questionamento sobre quais seriam as opções para suprir a demanda do consumidor atualmente, sobretudo dos flexitarianos. Quando falamos sobre produtos plant-based, é natural que uma das primeiras opções sejam os hambúrgueres vegetais em substituição à carne animal. Porém, existem outras possibilidades a serem exploradas. No Brasil, por exemplo, existe uma “posta de salmão”, preparada com proteína de ervilha, extrato natural de páprica, sem adição de soja e rica em Ômega 3. Já no Chile, são produzidos bifes à milanesa de soja, livres de gorduras trans, colesterol e conservantes, segundo a Foodbiz Brasil.
Unir a culinária tradicional à inovação da indústria pode ser uma opção para oferecer produtos plantbased em pratos de restaurantes e opções mais saudáveis no cotidiano das pessoas. 18
A Embrapa, por sua vez, desenvolveu um hambúrguer vegetal à base de soja e fibra de caju, em parceria com a iniciativa privada, dando uma nova roupagem para o já conhecido hambúrguer vegetal, com sabor e qualidade nutricional. A própria Embrapa tem focado no desenvolvimento de ingredientes proteicos alternativos, à base de feijão, grão-de-bico e lentilha, para proporcionar texturas diferenciadas que se assemelhem à textura da carne, por meio da aplicação de tecnologia de extrusão. Essa tecnologia consiste em um processo de tratamento térmico em alta temperatura e curto tempo, combinando calor, umidade e trabalho mecânico, modificando profundamente as matérias-primas e proporcionando um novo formato para o alimento. Desenvolver produtos como pratos típicos, patês, molhos, snacks, salgadinhos, iogurtes e tantos outros à base de vegetais parece ser uma boa alternativa para conquistar outros públicos, principalmente os flexitarianos e as pessoas que desejam reduzir o consumo de proteína animal. Um produto plant-based não está preso a um formato ou somente ao que já existe. É possível utilizar criatividade e inovação para oferecer novas e atraentes opções ao consumidor.
COMO ESTÁ A REGULAÇÃO DOS PRODUTOS PLANT-BASED? Com uma grande diversidade de marcas no mercado brasileiro, desde as grandes multinacionais até as foodtechs em crescimento, há uma variedade no modo como operam e oferecem seus produtos. Atualmente, não há uma regulamentação específica para definir quais produtos podem ou não receber o rótulo de plantbased. A legislação vigente para produtos de vegetais e de frutas é a Resolução da Diretoria Colegiada - RDC nº 263, de 23 de setembro de 2005 (Regulamento Técnico para Produtos de Vegetais, Produtos de Frutas e Cogumelos Comestíveis). Em setembro deste ano, essa norma será substituída pela Resolução da Diretoria Colegiada - RDC nº 726, de 1 de julho de 2022. Ambas trazem definições gerais sobre esses produtos, com poucos requisitos específicos a serem cumpridos. Além dessas, existem também algumas outras normas que abarcam tanto as versões tradicionais de alimentos, quanto as versões plant-based, como, por exemplo, os produtos de panificação e os gelados comestíveis. Ainda assim, observa-se que nem todas as especificidades deste tipo de produto estão contempladas nas normas vigentes. Em situações muito específicas, quando não há normas definidas para uma classe 19
de alimentos ou aditivos, ou quando as normas vigentes não trazem respostas claras para determinadas especificidades, a premissa é encontrar artigos na legislação que possam ser usados como normas de referência, a partir da similaridade dos produtos. Em razão da existência de mais de uma entidade com competência para regular o setor de alimentos, existe aparente sobreposição de normas, que acabam por criar um cenário de incerteza jurídica. Isso é especialmente desafiador quando se está diante do interesse em desenvolver produtos novos no mercado. Ainda que superados os desafios aqui apresentados, falta clareza sobre a possibilidade de produtos análogos trazerem denominações de uso consagrado em produtos de origem animal. O tema tem gerado bastante debate, inclusive no âmbito do Poder Legislativo, onde tramitam os Projetos de Lei (PL) 10556/18 e 5344/2020, que visam a impedir a denominação leite (e seus derivados) em produtos que não tenham origem na “secreção mamária das fêmeas mamíferas”. Já os PLs 2876/19 e 5499/2020, buscam impedir o uso de termos típicos de produtos cárneos, como hambúrguer e almôndega, a pretexto de evitar a alegada confusão por parte dos consumidores, na
contramão do que o mercado consumidor tem demandado, como comprovam os números indicados anteriormente. Em outro PL em tramitação (515/2021), sem ter havido o devido debate e verificação da melhor maneira de informar ao consumidor e em clara invasão da competência técnica da Anvisa, há a indicação de que produtos assemelhados a lácteos deverão trazer a expressão “assemelhado” ou “sabor que imita” queijo, requeijão, iogurte ou leite, conforme o caso. Além da existência dos projetos de lei mencionados, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) abriu a Tomada Pública de Subsídios SDA/MAPA n° 005/2021 – por meio da Portaria SDA Nº 327, DE 02 DE JUNHO DE 2021 –, que sinaliza a interpretação de que os produtos baseados em plantas representariam “concorrência desleal” aos produtos de origem animal, além de mencionar questões atinentes à denominação, registro, dentre outras de
extrema relevância, mas não do modo e locus mais adequado. Em razão do quadro exposto, sabemos que o uso das denominações conhecidas pelos consumidores para os produtos análogos é uma medida que, além de facilitar a sua identificação em meio a uma diversidade de opções, cria um ambiente favorável do ponto de vista social a quem opta pelas opções plant-based (veganos, vegetarianos ou flexitarianos) ou precisa consumir produtos que não contenham insumos de origem animal (em especial, alérgicos a leite e/ou ovo). Vale registrar que o uso de denominações consagradas de produtos de origem animal em produtos em base vegetal tem sido debatido em vários países, sendo possível perceber que, de um lado, há forte resistência por parte dos produtores de produtos lácteos e cárneos, e, de outro, a expectativa por parte dos consumidores deste segmento.
Como exemplos, temos a aprovação, em outubro de 2020, do uso de denominações típicas de cárneos em produtos vegetais pelo Parlamento Europeu, e as orientações sobre o uso de denominações em análogos aos produtos cárneos apresentadas pela Canadian Food Inspection Agency.
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CONCLUSÃO O crescimento da demanda e as grandes projeções para o mercado de plant-based demonstram que o setor está repleto de oportunidades para a indústria. Com base em pesquisas e dados apresentados, observamos que o principal consumidor das proteínas alternativas atualmente não é o vegano ou vegetariano, mas aquele que deseja reduzir o consumo de proteína animal sem uma mudança muito drástica de seus hábitos. Conhecido como flexitariano, esse consumidor está preocupado com os impactos ambientais que sua dieta acarreta e deseja que a indústria ofereça alimentos à base de vegetais com sabor, textura e qualidade nutricional parecidos com o que o alimento de origem vegetal oferece. Segundo a pesquisa “O consumidor brasileiro e o mercado plant-based” (2021), da The Good Food Institute Brasil, o perfil do consumidor flexitariano abriga, em sua maioria, mulheres e jovens que buscam substituir a proteína animal apenas por vegetais. Esse grupo tem preferência por alimentos com nutrientes saudáveis e façam parte das refeições do dia a dia, principalmente em refeições preparadas em casa. As possibilidades podem ser exploradas nesse sentido, com opções de produtos de fácil preparo e proporcionem similaridade com pratos que já conhece e consome. É necessário haver maior clareza e objetividade ao conceito legal de alimentos plant-based, com a definição dos procedimentos para regularização, assim como para avaliação e gerenciamento do risco, os quais devem ser coerentes, transparentes e proporcionais aos riscos dos diferentes tipos de proteínas alternativas. Também há a necessidade de definição sobre 21
os critérios para que o uso das expressões já consagradas permita a fácil identificação dos produtos análogos pelos consumidores, sem deixar de resguardar o direito de compreensão que se trata de produto que “mimetiza” o produto de origem animal, por meio do estabelecimento prévio de critérios por parte da autoridade competente, de modo que não sejam induzidos ao erro. Países que não regulamentam o setor ou que vedam o uso de tais denominações a pretexto de auxiliar o consumidor, enfrentam situações de bastante assimetria informacional e criam um desafio ainda maior para diferenciar os produtos nas gôndolas, seja para quem deseja a versão análoga ou para quem prefere a versão tradicional. Assim, a indústria de alimentos tem o desafio de entregar produtos plantbased que proporcionem uma experiência semelhante aos produtos convencionais, com preços competitivos e aspectos nutricionais semelhantes. Essas características, aliadas à praticidade e à capacidade de não causar nenhum estranhamento ao consumidor, são aspectos importantes para que esses alimentos integrem a dieta do cotidiano. Afinal, a transição do consumo de alimentos de origem animal para aqueles feitos à base de vegetais deve ser uma experiência prazerosa e gratificante, permitindo que seja cada vez mais difundida. Entender tais pontos, investir na comunicação sobre os atributos que os produtos plant-based entregam e os benefícios (nutricionais e ambientais) são ações que contribuem para o crescimento desse mercado tão importante para a sociedade.
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