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HISTÓRIA DA FAMÍLIA NO BRASIL (SÉCULOS XVII. XIX E XX) NOVAS ANÁLISES E PERSPECTIVAS

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Douglas Cole Libby José Newton Coelho Meneses

Júnia Ferreira Furtado Zephyr L. Frank

História da Família no Brasil (séculos XVIII, XIX e XX):

Novas análises e perspectivas


História da Família no Brasil (séculos XVIII, XIX e XX): Novas análises e perspectivas

Editores

Douglas Cole Libby José Newton Coelho Meneses Júnia Ferreira Furtado Zephyr L. Frank


Todos os direitos reservados à Fino Traço Editora Ltda. © Douglas Cole Libby, José Newton Coelho Meneses, Júnia Ferreira Furtado, Zephyr L. Frank Este livro ou parte dele não pode ser reproduzido por qualquer meio sem a autorização da editora. As ideias contidas neste livro são de responsabilidade de seus organizadores e autores e não expressam necessariamente a posição da editora.

cip-Brasil. Catalogação na Publicação | Sindicato Nacional dos Editores de Livros, rj H578 História da Família no Brasil (séculos XVIII, XIX e XX): Novas análises e perspectivas / Douglas Cole Libby, José Newton Coelho Meneses, Júnia Ferreira Furtado, Zephyr L. Frank. - 1. ed. - Belo Horizonte, MG: Fino Traço, 2015. 388 p. : il. ; 23 cm. (História ; 55) ISBN 978-85-8054-263-9 1. Família - Brasil - História. 2. Brasil - História. 3. Brasil - Usos e costumes. 4. Brasil - Civilização - História. 5. Brasil - Condições sociais. I. Meneses, José Newton Coelho. II. Furtado, Júnia Ferreira. III. Frank, Zephyr L. IV. Série. 15-25695 CDD: 981 CDU: 94(81) foto de capa

Negativo de vidro G 583 (Família mata Machado) - 13,0 X 18,0 cm. Acervo fotográfico Chichico Alkimin - Diamantina - MG

conselho editorial

Coleção História

Alexandre Mansur Barata | UFJF Andréa Lisly Gonçalves | UFOP Gabriela Pellegrino | USP Iris Kantor | USP Junia Ferreira Furtado | UFMG Marcelo Badaró Mattos | UFF Paulo Miceli | UniCamp Rosângela Patriota Ramos | UFU

Fino Traço Editora ltda. Rua Nepomuceno 150 | Casa 3 | Prado | CEP 30411-156 Belo Horizonte. MG. Brasil | Telefone: (31) 3212-9444 finotracoeditora.com.br


Introdução  11 1  Entre a “curva” e o “caso”: três décadas de história da família no Brasil  21 Ana Silvia Volpi Scott 2  Uma família da Vila de São José: empregando a reconstituição familiar pormenorizada para elucidar a História Social  51 Douglas Cole Libby Zephyr L. Frank 3  Pai branco, mãe negra, filho pardo: formação familiar e mobilidade social na Comarca do Rio das Velhas  99 Mariana L. R. Dantas 4  Casamento e Compadrio: registros paroquiais e inventários post mortem na Freguesia de Guarapiranga, Séculos XVIII e XIX  129 Mateus Rezende de Andrade 5  As vendas fantásticas dos homens ricos das Minas: estratégias de preservação do patrimônio familiar no século XVIII  163 Carla Maria Carvalho de Almeida 6  Padrões de transmissão de fortunas nas famílias da elite mercantil da Comarca do Rio das Mortes, c. 1750-c.1850  193 Afonso de Alencastro Graça Filho


7  Família, Compadrio e Demografia na Freguesia do Mártir São Manuel do Rio Pomba e Peixe dos Índios Cropó e Croato (1767-1819)  217 Jonis Freire Ângelo Alves Carrara 8  Enredos de Poder de Famílias Sertanistas no Mundo Ibérico e nas Minas de Pitangui  251 Faber Clayton Barbosa 9  Família escrava a partir de arquivos paroquiais: laços de parentesco e estratégias de sociabilidade  275 Helen Ulhôa Pimentel Gefferson Damasceno Costa 10  Mulher, família e estatuto social no sul da Bahia: entre a escravidão e a liberdade, c. 1850 – c. 1920  295 Mary Ann Mahony 11  Dona Anna Perpétua: mulher, matrimônio e família no Tejuco (Séculos XVIII e XIX)  333 José Newton Coelho Meneses 12   Notas metodológicas sobre ciclo vital e mobilidade social em S. José do Rio das Mortes, década de 1830  355 Mario Marcos Sampaio Rodarte Clotilde Andrade Paiva


Mapa 1 Mapa de Minas Gerais e adjacências, com as regiões contempladas neste volume em destaque

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Fonte: Adaptado de Henrique Gerber, Noções geográficas e administrativas da Província de Minas Geraes. [1863] (Hannover: Typ. Jaeneke Irmãos, 1874). Gentilmente cedido pela Stanford University Library.


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Introdução

Em abril de 2010, após alguns meses da costumeira espera pelos recursos aprovados, iniciaram-se os trabalhos de um ambicioso projeto de pesquisa fomentado pelo prestigioso Programa de Apoio a Núcleos de Excelência, uma iniciativa do Conselho Nacional de Pesquisa e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais. Denominado “Família e Demografia em Minas Gerais, Séculos XVIII, XIX e XX”, o projeto objetivava investigar a História da Família em Minas Gerais, desde o século XVIII até meados do século XX, tomando como dimensão central da análise a relação dinâmica entre mobilidade e estabilidade que tanto marcou o povoamento e a ocupação do espaço mineiro. Para tanto, levou-se em consideração a diversidade dos regimes demográficos brasileiros, entendendo-se regime demográfico como o conjunto de relações que está na base da reprodução biológica e da reprodução social de uma dada população. A intenção era viabilizar o estudo pelo levantamento e exploração das informações propiciadas por múltiplas e diversas fontes primárias, muitas das quais pouco ou nada exploradas pela historiografia sobre Minas. Como baliza cronológica, estabeleceu-se uma periodização que se estendia do início do povoamento de Minas pelo processo de colonização português, na virada para o século XVIII até 1850, ou seja, o chamado período colonial alargado, e outro subdividido em dois subperíodos: 1850 a 1888, quando se configurou e se resolveu a crise do escravismo brasileiro e 1888 a 1940, quando, com base no trabalho livre, constrói-se as bases do Brasil moderno. Como fatores determinantes dos regimes demográficos, focalizou-se nos aspectos ligados aos estratos sociais, ao espaço e aos padrões econômicos neles assentados. Afinal, apenas a combinação desses elementos poderia explicar a diversidade de regimes demográficos em Minas Gerais.

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Havia também vários objetivos mais específicos. Pretendia-se, por exemplo, organizar bancos de dados referentes à história da população em Minas Gerais a partir de uma exploração sistemática de registros paroquiais de batismos, casamentos e óbitos, de listas nominativas de habitantes elaboradas por diversas autoridades civis e eclesiásticas e de inventários e testamentos espalhados por diversas instituições arquivísticas. Para tanto, visava-se sistematizar em bancos de dados as enormes séries de eventos vitais contidos em registros paroquiais e, a partir do final do Império, nos registros civis cartorários. Havia a intenção de identificar, levantar, criticar e sistematizar em bancos de dados padronizados listas nominativas de habitantes e censos de população encontrados em arquivos brasileiros e portugueses. Outra meta consistia na exploração e sistematização em bancos de dados de algumas das quase incontáveis séries de inventários e de testamentos guardados em arquivos civis e eclesiásticos mineiros. Sob o ponto de vista mais analítico, a intenção era mapear e discutir as dinâmicas demográficas semelhantes e diferenciadas da população mineira no espaço e no tempo. No caso, esperava-se identificar dinâmicas migratórias, estimar os padrões de nupcialidade, fecundidade e mortalidade, delinear estruturas e dinâmicas domiciliares e familiares, bem como os padrões de transmissão das posses entre as gerações condizentes com aquelas estruturas. Para realizar tamanho empreendimento, montou-se uma equipe composta majoritariamente por historiadores, mas que incluía demógrafos, geógrafos e economistas. O núcleo central de pesquisadores se formou com docentes de universidades mineiras, especificamente UFMG, PUC-MG, UNIMONTES, UFV, UFJF, UFSJ e UFOP. Dezenas de discentes de cursos de graduação e pós-graduação dessas instituições mineiras também faziam parte da equipe ao longo dos quatro anos de execução do projeto, muitas vezes se dedicando aos infindáveis trabalhos de digitação dos preciosos dados contidos em manuscritos, alguns dos quais quase inescrutáveis. Apesar do foco das pesquisas cair sobre Minas Gerais, ao reconhecer a importância de compartilhar as experiências acumuladas na área da História da Família, vários estudiosos vinculados a instituições de ensino superior fora de Minas participaram em vários momentos dos trabalhos, sobretudo nos encontros que faziam parte do “calendário” do projeto. Estes colegas vieram das se12


guintes universidades: UNISINOS, USP, UNICAMP, UFRRJ, UNIVERSO, UFSCar, UFPA e UNESP-Marília. Alguns desses encontros puderam contar com a participação de afiliados oriundos de universidades estrangeiras, entre elas a Universidad de La Republica (Uruguai), a Universidad de Buenos Aires, CONICET (Argentina), a Universidade de Utrecht (Holanda), a Universidade de Tuebingen (Alemanha), o Instituto Politécnico de Viana do Castelo (Portugal) e a University of Kansas (Estados Unidos). Outros colegas vinculados a instituições estrangeiras passaram mais tempo conosco como pesquisadores visitantes, ministrando cursos de pós-graduação, participando de reuniões de pesquisadores e proferindo conferências em cada uma das universidades mineiras ligadas ao projeto. Nesta categoria de participação contou–se com a presença de Margarida Pereira Varela Santos Montenegro Durães da Universidade do Minho (Portugal), Kris Inwood da Univeristy of Guelph (Canadá), Mariana Libânio de Rezende Dantas da Ohio University (Estados Unidos), Mary Ann Mahony da Central Connecticut State University (Estados Unidos) e Zephyr L. Frank de Stanford University (Estados Unidos). O presente volume consiste em trabalhos apresentados no encontro final do projeto “Família e Demografia em Minas Gerais, Séculos XVIII, XIX e XX”, um simpósio internacional realizado em março de 2014 nas dependências da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais em Belo Horizonte. Além dos autores aqui incluídos, contou-se com a participação ativa de Professor Robert W. Slenes (UNICAMP), Professora Margarida Pereira Varela Santos Montenegro Durães (Universidade do Minho), Professora Elizabeth Kuznesof (University of Kansas), Professor Carlos de Almeida Prado Bacellar (USP), Professor Fábio Faria Mendes (UFV), Professora Lucy Gonçalves Fontes Hargreaves (UFMG), Professor Tarcísio Rodrigues Botelho (UFMG), Professora Maria Inés Moraes (Universidad de la Republica), Professora Raquel Pollero (Universidad de la Republica), Professor Rangel Cerceau Netto (UNI-BH) e Professora Filomena Luciene Cordeiro Reis (UNIMONTES), além dos discentes Carlos de Oliveira Malaquias (UFMG), Sirleia Maria Arantes (UFMG), Laizeline Aragão de Oliveira Almeida (UFOP), Maura Silveira Gonçalves de Britto (UFOP), Luiz Fernando Veloso Nogueira (UFOP), Kamila Freire Fonseca (UNIMONTES), 13


Ana Caroline Carvalho Miranda (UFOP), Matheus Soares de Mendonça (UFMG), Paula Martins Mello (UFMG), Sarah Goifman Martins Diniz (UFMG), Patrícia Sampaio Cotta (UFMG), Joyce Mariane de Araújo Cruz (UNIMONTES), Claudia de Jesus Maia (UNIMONTES), Pablo Henrique Costa Santos (UNIMONTES), Claudia de Jesus Maia (UNIMONTES), Juliana Pereira Ramalho (UFOP) e Gusthavo Lemos (UFMG). Sem dúvida, um dos aspectos mais gratificantes do presente volume é o fato de poder contar com contribuições de virtualmente todas as categorias de participantes elencadas acima, desde alunos de graduação e de pós-graduação, passando por docentes de instituições de ensino superior mineiras e de outras regiões brasileiras, até chegar a três capítulos escritos, pelo menos em parte, por colegas vinculados a universidades estrangeiras. Parafraseando a saudosa Professora Maria Yedda Linhares, trata-se de um volume concebido bem ao estilo democrático e anti-hierárquico dos meios da ciência social brasileira. É igualmente gratificante verificar que, de uma forma ou de outra, os estudos aqui apresentados se endereçam a todos os campos da História da Família e da Demografia Histórica previstos no projeto original e se inspiram, teórico ou metodologicamente, em várias outras áreas do conhecimento, tais como a micro-história, os estudos de gênero, a reconstituição de redes sociais, e a História Econômica, entre outras. Mais importante ainda é que, com a exceção dos dois capítulos que não tratam da família no passado de Minas Gerais, as principais bases empíricas de cada um dos estudos que compõe esta coletânea fazem parte dos bancos de dados tão arduamente construídos ao longo dos trabalhos do nosso grande projeto de pesquisa. Nesse sentido, estamos aqui estendendo um belo convite a todos que se interessam pela História de Minas a se mergulharem numa vasta empiria cujo potencial é virtualmente inesgotável. A primeira contribuição à nossa coletânea vem de uma das maiores especialistas brasileiras em História da Família. Quando do simpósio mencionado acima, a Professora Ana Sílvia Volpi Scott era docente da Universidade do Vale dos Sinos (UNISINOS), em São Leopoldo, RS, mas hoje se encontra como docente da Universidade Estadual de Campinas. Com a competência de sempre, a autora guia o leitor pelos desdobramentos de três décadas de

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historiografia voltada para o estudo da família no Brasil, não se furtando de mergulhar nos debates suscitados ao longo daquele tempo e que, hoje, ainda giram em torno da suposta dicotomia entre o quantitativo e o qualitativo (as “curvas” e os “casos”). Como acontece com todo trabalho bem feito, ao sugerir uma conciliação entre tais tendências, as questões novas superam em muito as antigas resolvidas. Há mais de 15 anos que dois dos editores deste volume realizam conjuntamente uma série de pequenos projetos visando à produção de textos para publicação em periódicos brasileiros e estrangeiros. Desta vez, os Professores Douglas Cole Libby (UFMG) e Zephyr L. Frank (Stanford University) se debruçaram sobre os bancos de dados referentes à antiga paróquia de São José do Rio das Mortes (atual Tiradentes) para estudarem, ao longo de várias gerações, uma única família de origem/ascendência africana. Os autores de forma criteriosa, trabalhosa e criativa realizam em seu estudo uma conexão, nem sempre fácil, entre os fatores micro, médio e macro da sociedade, não se encantando (e se perdendo) com o indivíduo. Conciliam análise morfológica estrita e avaliação qualitativa, na percepção e interpretação acurada de laços formais e informais de uma família em longo percurso temporal (7 gerações). Tais laços se vivenciam em dinâmica de dependências, proteção, identificação e pertencimento, integração a grupos de poder, permanência no local e negação da mobilidade, mas, sobretudo, em gestos de solidariedade entre membros e em práticas de nomeação que culminam com a unidade familiar. Estudo duplamente inovador posto que amparado em perspectiva inédita e indicativo de caminhos novos de análise da família de ascendência africana no Brasil escravista. A Professora Mariana Libânio Rezende Dantas se formou na UFMG e, em seguida, tornou-se Mestre e Doutora em História pela Johns Hopkins University. Hoje é docente na Ohio University. A pesquisa empreendida pela autora contempla múltiplas gerações de duas famílias originadas em uniões entre portugueses e africanas no Termo de Sabará Oitocentista. A abordagem geracional permite verificar até que ponto a mobilidade social conquistada por determinado indivíduo tem ou não continuidade para gerações posteriores. Tal investigação necessariamente esbarra na linguagem

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usada para descrever ou rotular as pessoas, fosse em relação à cor/raça, fosse referente à condição social. Visto pelo conjunto documental, o uso de tais rótulos era bastante irregular ou mesmo aleatório e, portanto, de difícil compreensão. Segundo a autora, não obstante, alguns padrões talvez surjam ao pensar sobre as circunstâncias em que se deram os registros. De qualquer forma, a família multigeracional se revela um ponto de partida quase que imprescindível para analisar o desenrolar de muitos aspectos da sociedade colonial. Mateus Rezende de Andrade se formou na Universidade Federal de Viçosa, onde se vinculou às pesquisas coordenadas pelo Professor Fábio Faria Mendes. Tornou-se Mestre em História pela UFMG e agora continua seus estudos de doutoramento na mesma instituição sobre a orientação do Professor Tarcísio Rodrigues Botelho. Utilizando ricas fontes relativas à antiga freguesia de Guarapiranga, reunidas em bancos de dados desenvolvidos no âmbito da UFV, Mateus se inspira nos complexos trabalhos de reconstituição de redes sociais para entender como as famílias da elite da região se relacionavam entre si e com o resto da comunidade. O leitor irá descobrir que, ao contrário do que tanto se pensa, não havia um padrão único de comportamento das elites Oitocentistas mineiras (e brasileiras?). Carla Maria Carvalho de Almeida é Professora Associada da Universidade Federal de Juiz de Fora. Mestre e Doutora pela Universidade Federal Fluminense, hoje integra o grupo de pesquisa Antigo Regime nos Trópicos, organizado a partir da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Estudiosa de longa data da História Econômica de Minas Gerais, a autora aqui nos brinda com uma investigação das elites econômicas do Termo de Mariana no século XVIII, tal como configurada na Lista dos Homens Ricos de Minas Gerais, confeccionada após o terrível terremoto de Lisboa de 1755. Como mostra a autora, as famílias dessa elite encontraram meios de realizar a transmissão de seus amplos patrimônios sem esfacelá-los, entre eles a venda, passada em cartório e realizada pouco antes da morte do titular, de parcelas enormes de bens. Assim, os “pobres” homens ricos faleciam praticamente sem bens a serem sujeitos à partilha e à herança ab intestado. Afonso de Alencastro Graça Filho é professor da Universidade Federal de São João del-Rei, cidade esta, aliás, objeto de sua tese de doutoramento, 16


defendida na Universidade Federal do Rio Janeiro, com orientação da nossa querida Maria Yedda Leite Linhares. Aqui, o autor investiga grupos familiares da elite econômica da região do Rio das Mortes perscrutando os inventários post mortem deixados ao longo de um século. Como se verá, embora a mineração e a agricultura voltada para os mercados internos estivessem na origem histórica da acumulação de patrimônio dessas famílias, o comércio se provaria a alavanca mais certeira para a formação e manutenção das grandes fortunas da região. Ademais, apesar das lendas populares e boa parte da historiografia pertinente, a transmissão dessas fortunas de geração em geração se dava de forma regular e relativamente tranquila. Jonis Freire é docente da Universidade Federal Fluminenses (era da UNIVERSO no decorrer do percurso do projeto) e Ângelo Alves Carrara, Professor Associado da Universidade Federal de Juiz de Fora. Juntos exploraram um livro de registros de batismos da freguesia de São Manuel do Rio Pomba e Peixe, datado de 1767 a 1800, bem como a Lista de Habitantes da mesma freguesia, elaborada em 1819. No período estudado, Rio Pomba constituía uma região de fronteira onde o Estado e a Igreja procuravam assimilar alguns grupos indígenas, particularmente os Croata e Cropó. A documentação, portanto, permite um raro olhar para essas populações indígenas ao longo de mais de cinco décadas. No caso, os autores analisam os batismos no intuito de medir as taxas de legitimidade e de matrimônio formal e de repensar tais conceitos diante de uma realidade “nativa” que impusera suas especificidades aos clérigos e autoridades civis responsáveis pela administração daquelas populações e pela elaboração de registros dos seus trabalhos. Ao mesmo tempo, as práticas de compadrio se prestam a pensar sobre as relações dos indígenas entre si e com outros elementos dessa pequena comunidade fronteiriça. Faber Clayton Barbosa é mestrando do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Ouro Preto e orientando do Professor Francisco Eduardo de Andrade. Os trabalhos de Faber focalizam o chamado Oeste de Minas e, por isso, apresenta aqui um estudo centrado na antiga Vila de Pitangui. Outra vez, emprega-se uma abordagem geracional, só que, no caso, as gerações em questão voltam-se para um passado longínquo e, inicialmente, situadas na Península Ibérica. Tem-se em mira a 17


trajetória da família Preto, desde os tempos da Reconquista, passando pelos Descobrimentos para chegar à antiga Capitania de São Vicente e ao planalto paulista. Firmemente estabelecidos na região de Piratininga ao longo do século XVII, os Preto, na sua versão sertanista/bandeirante, faziam parte da ocupação e consolidação de Pitangui, bem no inicio do século XVIII. Também se envolvem nas confusões em torno das sedições que se deram na jovem Vila de Pitangui. São três séculos de história vistos pelo prisma de uma história da família. Mestre e Doutora pela Universidade de Brasília, a Professora Helen Ulhôa Pimentel integra o corpo docente do Departamento de História da Universidade Estadual de Montes Claros. Coordenou, entre vários outros, o projeto de pesquisa intitulado “Lares mineiros. Famílias entre a legitimidade e a ilegitimidade”, vinculado à pesquisa PRONEX inspiradora do presente volume. O discente Gefferson Damasceno Costa trabalhou como estagiário no mesmo projeto e participou da elaboração do texto aqui apresentado. Pautado nos registros paroquiais da Matriz de Santo Antônio de Paracatu, o ensaio procura desvendar as múltiplas formas assumidas pela família escrava ao longo dos séculos XVIII e XIX, formas que nem de longe se limitavam àquelas aceitas como legítimas pela Igreja. Ao mesmo tempo, os autores investigam os vínculos de parentesco entre escravos e livres, inclusive os padrões de compadrio que sugerem sociabilidades específicas de uma região escravista bem distante das plantations da História tradicional. Mary Ann Mahony é Professora Titular da Central Connecticut State University, na cidade de New Britain. Seu doutorado é da Yale University, onde estudou sob a orientação de Maria Emília Viotti da Costa. Aqui ela tece as fascinantes histórias de duas mulheres nascidas escravas no Sul da Bahia ainda na primeira metade do século XIX, histórias estas que tiveram continuidade com os respectivos descendentes. São histórias que, além de serem bastante distintas, mostram como a sociedade em meio à lenta transição da escravidão para o regime de trabalho livre poderia facilitar ou dificultar, em muito, a sobrevivência das pessoas de ascendência africana. Contadas do prisma da experiência feminina e com a expansão da economia cacaueira como pano de fundo, essas histórias retratam famílias, às vezes resistentes, às vezes fragilizadas, mas sempre sobreviventes. 18


José Newton Coelho Meneses é Professor Associado do Departamento de História da UFMG e especialista no campo da História da Cultura Material e do Patrimônio. Aqui, ele oferece aos leitores um ensaio acerca da instituição da família no passado, especificamente o passado colonial brasileiro e mineiro. O autor tece uma série de considerações teóricas vinculando-as à experiência de uma única família – ou melhor, uma única mulher e matriarca – que residia no centro de mineração diamantífera Tejuco (hoje, Diamantina). No caso, é difícil saber o que impressiona mais: a fibra, a perspicácia, a inteligência e a determinação de Dona Anna Perpétua – a personagem central da história – ou a quase inacreditável diversidade do mundo material e produtivo desta família que, embora muito mais abastada que a maioria, nos serve como exemplo de uma Minas sabiamente voltada para seus próprios mercados. Mário Marcos Sampaio Rodarte é Professor de Economia da FACE/ UFMG e Clotilde de Andrade Paiva, após anos como Pesquisadora, recentemente tornou-se Professora Visitante do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional/FACE/UFMG. Esta é reconhecida como um dos mais competentes estudiosos brasileiros da Demografia Histórica e orientou os trabalhos de tese de doutoramento daquele, tese esta agraciada com premiação da CAPES. O capítulo apresentado constitui-se em uma experimentação metodológica que busca identificar famílias que constavam de dois censos registrados em listas nominativas da década de 1830 e relativos à Paróquia de São José. O intuito é de analisar o ciclo vital das famílias, detectar formas de organização familiar e desvelar as transformações sofridas por tais formas diante de tendências econômicas e demográficas mais amplas. Os editores têm um prazer todo especial em apresentar aos leitores uma grande série de mapas – a maioria antigos – que servem como um outro texto acrescido pelos editores aos trabalhos escritos e, sobretudo, podem e devem ser lidos de forma a acrescentar informações e complementar interpretações. Estes mapas foram encontrados em arquivos e bibliotecas espalhados por três continentes. Alguns foram retrabalhados no Laboratório de História Espacial e Textual da Stanford University para apresentação aqui. Espera-se que sejam exemplos de como a cartografia pode e deve complementar a escrita da História e apresentar-se como possibilidade de incorporação da leitura espacial ao trabalho de pesquisa sobre as famílias. 19


Por dois momentos nesta Introdução citamos Maria Yedda Leite Linhares. A menção, surgida quase que espontaneamente no texto, é tributo claro à dimensão formadora da professora. Maria Yedda está na origem de uma viragem importante nas tendências de interpretação da história sobre Minas Gerais. Seus estudos e sua inquietude teórica, seu percurso e sua presença instigante na formação de vários dos autores deste livro trazem luz para os textos que se apresentam nesta edição. A menção, portanto, é puro tributo e homenagem justa. Se os capítulos deste livro se apresentam como resultados de novos estudos sobre a história da família em Minas Gerais em três séculos, mostram-se, além de tudo, como pontos de partidas para o estímulo à discussão, para a busca, preservação, organização, guarda e pesquisa de acervos arquivísticos importantes em nível regional e para a construção de novos problemas para a pesquisa. O PRONEX “Família e Demografia em Minas Gerais, Séculos XVIII, XIX e XX” apresenta esse produto final que, enfim, não finaliza um percurso: aponta direções, perspectivas, possibilidades interpretativas, realidades de integração entre grupos de pesquisadores, diálogos interinstitucionais criadores. Aos leitores deste livro o projeto oferece resultados parciais para a crítica e a ampliação dos intercâmbios dialógicos. San Francisco, Paris, Belo Horizonte, Palo Alto, em Março de 2015. Douglas Cole Libby, José Newton Coelho Meneses, Júnia Ferreira Furtado e Zephyr L. Frank Os editores

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Entre a “curva” e o “caso”: três décadas de história da família no Brasil Ana Silvia Volpi Scott

Este texto foi produzido para a discussão que se deu no âmbito da mesa redonda Três décadas de História da Família no Brasil. A mesa integrou o Seminário “Família e Demografia em Minas Gerais - Séculos XVIII, XIX e XX” e deu-me a oportunidade de retomar reflexões sobre temas que me são especialmente caros, revisitar as considerações feitas, analisar o momento atual e, sobretudo, lançar um olhar ao que eu apresento como metas ou a agenda para o futuro próximo. Em várias ocasiões afirmei que, nas últimas décadas, o estudo da família tem atraído a atenção de especialistas de diferentes áreas. No campo da história, as análises sobre esta instituição registraram um crescimento enorme, e os pesquisadores brasileiros têm procurado acompanhar as discussões mantidas nos fóruns e periódicos internacionais especializados, inserindo-se no debate e, paralelamente, buscam dar visibilidade às peculiaridades inerentes à nossa formação social colonial, à heterogeneidade de nossa população, que também esteve fortemente marcada pela escravidão (Scott 1998, 2009, 2012, 2013, 2014). Por outro lado, além da simples constatação relativa ao aumento da produção sobre o tema, a meu ver, o principal ponto que merece ser aprofundado diz respeito às diferentes formas de se estudar a família em perspectiva histórica. Em outras palavras, é necessário estarmos mais atentos à produção no campo da História da Família nos últimos trinta anos, para subsidiar a análise relativa às várias abordagens, metodologias e fontes que os pesqui-

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sadores lançaram mão para conhecer, dissecar e esmiuçar essa instituição que é praticamente universal em todas as sociedades. Essa perspectiva revela as muitas e sensíveis mudanças em relação às maneiras de se produzir o conhecimento sobre as organizações familiares que caracterizaram o nosso passado. Mais do que isso, a infinidade de trabalhos que têm vindo a público expressa, de forma clara, como essas diferentes maneiras de abordar o tema têm contribuído decisivamente para o debate, expondo toda a complexidade em torno das relações que envolvem seus membros, e que podem ser abordadas através da lógica da solidariedade, do apoio e da cumplicidade, assim como também é possível penetrar no campo das disputas e dos conflitos que dividem e antagonizam seus integrantes. Desde os anos de 1980, o crescimento do estudo sobre a família entre os historiadores brasileiros veio, em grande parte, dos trabalhos produzidos no âmbito de Demografia Histórica. Contudo, os estudos sobre a família se alargaram de tal maneira, principalmente por conta do diálogo com as Ciências Sociais, que as recentes pesquisas não se limitam apenas ao estudo do aspecto demográfico, embora este continue a fornecer elementos importantes para a compreensão da organização e das dinâmicas familiares. Enfim, em minha opinião, a partir dos anos 1980 a história da família no Brasil se consolidou como um dos campos de estudo mais instigantes e com uma produção que se destaca por sua quantidade e qualidade que, por isso mesmo, muitas vezes é difícil de dominar. Contudo, em que pese os avanços do conhecimento, existem ainda lacunas importantes no rico aporte que a Demografia Histórica pode dar ao campo da História da Família, tópico que aprofundarei mais adiante. De todo modo, o diálogo com outras áreas se justifica pela complexidade do tema, pois a compreensão dos sistemas familiares do passado não pode estar limitada ao estudo das variáveis demográficas ou dos indivíduos que residem na mesma unidade domiciliar, por conta das múltiplas situações de vida que são contempladas pela família. A ampliação desse universo, para além do núcleo constituído por pais e filhos e/ou corresidentes, e que aposta da abordagem “relacional” entre os indivíduos, ganhou cada vez mais atenção dos estudiosos da família.

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Além da aproximação às ciências sociais que valorizam a interdisciplinaridade, também foi fundamental a contribuição teórico-metodológica advinda da micro-história e da proposta da redução da escala de abordagem, que procura fazer sobressair o comportamento social dos atores históricos, bem como a articulação do conceito de estratégias e das redes que ajuda a operacionalizar a análise das múltiplas relações entre os indivíduos e as famílias no passado. Hoje, não é novidade encarar que toda a ação social é vista como o resultado de uma constante negociação, manipulação, escolhas, decisões do indivíduo e do grupo familiar, diante de um aparato normativo e regulador que, entretanto, possibilita um grau variado de interpretações e liberdade de ação. Nesse aspecto, são importantes os trabalhos que estudam, por exemplo, o parentesco “fictício” e espiritual, as teias de compadrio que unem indivíduos e famílias dos mais variados estatutos sociais. Aliás, esse é um tema que tem atraído a crescente atenção de historiadores no Brasil e no exterior. Entre nós e, especialmente para o período colonial e imperial, temos uma discussão rica sobre os vínculos do compadrio, e como eles contribuem para a construção de relações verticais e horizontais, estreitando redes entre iguais e subalternos, numa sociedade que se estruturava na lógica do Antigo Regime e onde predominavam valores morais patriarcais. Há que se destacar que entre nós, contudo, o estudo dessa temática tem se voltado para a população escrava. O trabalho pioneiro de Gudeman e Schwartz (1984) abriu uma trilha que continua a ser seguida por muitos pesquisadores, e tem contribuído de maneira decisiva para a análise das complexas relações existentes entre o mundo dos cativos e dos livres. Em contrapartida, ainda hoje existem pouco estudos sobre o compadrio entre as camadas livres da população, destacando-se, por exemplo, o estudo de Renato Venâncio, sobre as redes de compadrio na Vila Rica setecentista (2006), assim como as incursões sobre a temática na região meridional do Brasil, onde podem ser citados os estudos de Fábio Kühn, Luís Augusto E. Farinatti, Martha Hameister entre outros. Dessa forma, ganha relevo para os historiadores a análise das margens de manobra que são utilizadas pelos diferentes estratos da população para lidar com os sistemas normativos existentes, aproveitando-se de suas bre-

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Os estudos aqui apresentados se endereçam a todos os campos da História da Família e da Demografia Histórica previstos no projeto “Família e Demografia em Minas Gerais, Séculos XVIII, XIX e XX” e apresentados no simpósio internacional ao seu final (UFMG, março de 2014), com a participação de profissionais de instituições brasileiras e estrangeiras. Os capítulos se inspiram, teórico ou metodologicamente, em várias áreas do conhecimento, tais como a micro-história, os estudos de gênero, a reconstituição de redes sociais, e a História Econômica, entre outras. Um fato de muita relevância é que, com exceção de dois dos capítulos, as principais bases empíricas de cada um dos estudos da coletânea vêm dos bancos de dados construídos pelos trabalhos do projeto, agora abertos aos pesquisadores que se interessam pela História de Minas Gerais. O livro é, enfim, um convite a eles para um mergulho em vasta empiria cujo potencial é virtualmente inesgotável.


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HISTÓRIA DA FAMÍLIA NO BRASIL (SÉCULOS XVII. XIX E XX) NOVAS ANÁLISES E PERSPECTIVAS by Fino Traço Editora - Issuu