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9 resenha do livro a constr da ordem

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Resenha UM CONVITE A LEITURA DE “A CONSTRUÇÃO DA ORDEM E

TEATRO DE SOMBRAS”

Por Fernando Gralha CARVALHO, José Murilo de. A construção da ordem e Teatro de sombras. Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 2003.

O

livro de José Murilo de Carvalho, é formado de uma composição que envolve um vasto saber

histórico e teórico, estilo claro e criatividade intelectual, onde o autor proporciona ao leitor uma estimulante interpretação do período imperial, que tem por objetivo principal saber não apenas o “como”, mas fundamentalmente,

o

“porquê”

das

particularidades da trajetória política do Brasil da Independência ao fim do Império.

A construção da ordem e Teatro de sombras compõem a tese de doutorado do autor, defendida em dezembro de 1974 na Stanford University. Após a defesa, os dois livros

vieram

a

público

em

edições

separadas. O primeiro foi publicado em

exemplar resenhado aqui é uma reedição,

1980 com o título de A construção da

que tem o título conjugado dos dois

ordem: a elite política imperial; o segundo

trabalhos, justifica-se, assim, não apenas

somente oito anos depois, cujo título foi O

pela qualidade das análises ali contidas, mas

teatro de sombras: a política imperial. Em

também por recuperar a unidade existente

1996, a editora da UFRJ, em co-edição com

entre ambos.

a Relume Dumará, publicou em uma única edição

a

tese

em

sua

totalidade,

transformando-a em um único livro. O

Ao utilizar a metáfora teatral para caracterizar o período o autor oferece uma


G N A R U S | 74 ótica especial, que nos permite uma

forma não só a elite política, mas a própria

consistente análise das características das

capacidade do Estado de fazer cumprir suas

elites políticas brasileiras do Séc. XIX, de sua

decisões na periferia do sistema político

formação e da relação que elas travaram

nacional. Como bem diz o autor, esses

com os partidos políticos do Império,

"constrangimentos" é que fizeram surgir o

fatores que nos direcionam à compreensão

que

dos atores principais do enredo político

ambigüidade", isto é, o fato da elite política

Imperial.

imperial, apesar de atuar com uma boa

Em A construção da ordem, José M. de Carvalho faz uma análise da constituição e composição da elite política imperial e suas metamorfoses durante o período; em Teatro

de Sombras, faz um estudo da prática política desta mesma elite, elegendo para esta tarefa alguns temas essenciais. Nos dois livros, o autor dá grande importância na discussão dos efeitos dos sistemas eleitoral e partidário sobre a dinâmica da política imperial. A obra de José M. de Carvalho segue um caminho nitidamente “institucionalista", o autor ocupa-se essencialmente com a análise do peso das estruturas institucionais sobre as atitudes da "classe política", indo contra, dessa maneira, o "sociologismo" que, segundo ele, prevalece no estudo do tema. É bastante relevante sua recusa diante das interpretações que entendem o Império como resultado do comando instrumental dos proprietários escravistas ou dos grandes comerciantes. Talvez, na desmistificação dessas idéias está, ao nosso ver, o maior mérito dos dois livros. O autor nos fornece uma análise de como a escravidão e a política de terras deu

ele

chama

de

"dialética

da

autonomia frente aos interesses econômicos mais poderosos, ter na agricultura escravista o seu suporte material. Desta forma analisa os variados cenários em que a ação se processa, as províncias e a corte, os espaços da

política

formal

e

aquele

das

representações simbólicas, o universo das instituições e o das questões que se referem ao trabalho escravo e à política de terras, isso tudo traça o perfil da ação dos atores

sociais, ao mesmo tempo em que confere um particular relevo a interpretação da construção da ordem escravista e da unidade do Império. Se a Construção da ordem tem como tema o processo de formação da elite imperial e suas especificidades, o livro seguinte, O Teatro de sombras, é uma análise

detida

de

algumas

decisões

estratégicas tomadas por essa mesma elite no momento em que a questão da formação do Estado nacional já estava resolvida e novos problemas se colocavam aos donos das decisões. Carvalho procura investigar, assim, as relações entre a Coroa, a elite política e os proprietários rurais, nos anos de 1850 a 1889, a partir do estudo das políticas fiscal e de terras e do processo abolicionista.


G N A R U S | 75 Segundo o autor, as características da

contribuindo assim, para a rediscussão de

elite política imperial, são um fator

certas “verdades” sobre o período. Segundo,

primordial para a explicação dos resultados

faz isso combinando instrumental teórico

a que se chegou depois da Independência.

com erudição histórica. É este último ponto

Mais especificamente, as suas hipóteses são

que,

as seguintes: a) a solução monárquica, a

profundidade

unidade política e o governo civil são, em

interpretações, torna os livros de José

sua maioria, conseqüências da espécie de

Murilo de Carvalho, algo bem mais do que

elite política existente na época; b) essa

um relato de "como" as coisas aconteceram

elite tinha uma forte homogeneidade

e, uma referência imprescindível para a

ideológica e de treinamento resultante da

compreensão das complexas relações entre

passagem da maioria de seus membros pela

Estado e Sociedade no Brasil.

unidas

ao já

brilhantismo conhecidas

de

e

à suas

Escola de Direito de Coimbra, o que lhe deu coesão e relativo consenso quanto ao modelo político a ser seguido. Assim,

para

finalizar,

a

sociedade

imperial era marcada por ambigüidades em várias instâncias. Era formada por uma elite cujo suporte material se achava na grande agricultura escravista, mas que tinha certa autonomia em relação a ela; por causa dessa autonomia, tomava decisões que não correspondiam aos interesses mais urgentes dos grupos econômicos dos quais dependia, mas também não se desligava radicalmente deles; essa elite organizava uma sociedade a partir de instituições liberais, mas convivia

Prof. José Murilo de Carvalho

com a escravidão e aceitava o Poder Moderador;

pregava

econômico,

mas

protecionistas;

o

liberalismo

adotava

organizava

medidas

um

Estado

altamente centralizado, mas extremamente fraco no âmbito local. Os méritos da análise de Carvalho se guardam em dois pontos: Primeiro, em estudar, através de uma nova ótica, uma realidade

já

bastante

estudada,

Fernando Gralha é Mestre em História pela UFJF, Doutorando em História pela UNIRIO, Professor das Faculdades Integradas Simonsen e Editor fundador da Gnarus Revista de História.


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