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5-As Reformas

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Artigo

A(S) REFORMA(S) URBANA(S) DO RIO DE JANEIRO NO INÍCIO DO SÉCULO XX Por Cristiane de Jesus Oliveira Pimentel


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O

Rio de Janeiro foi a primeira cidade brasileira a passar por uma ampla reforma urbana na sua área central, ainda no início do século XX. Durante muito tempo essa Reforma foi vista de maneira simplista, ou seja, por muitos anos a historiografia tradicional36 nos fez pensar que esta foi fruto de uma simples associação entre o Governo Federal e a municipalidade, na qual o Presidente da República, recém-eleito, Rodrigues Alves, seria o idealizador do projeto, enquanto o Prefeito Pereira Passos, escolhido por ele, seria o executor. Esta visão coloca as obras de melhoramento do porto e as obras de saneamento e embelezamento do centro da cidade e de alguns bairros da zona sul como sendo integrantes de um mesmo projeto.

De maneiras distintas, mas não contraditórias, um conjunto de obras teve como responsável o Governo Federal enquanto o outro ficou a cargo do Governo Municipal. As condições de salubridade da capital além de urgentes melhoramentos materiaes reclamados, dependem de um bom serviço de abastecimento de águas, de um systema regular de esgotos, de drenagem do solo, da limpeza pública e do asseio domiciliar. Parece-me, porém, que o serviço deve começar pelas obras de melhoramentos do porto, que tem de constituir a base do systema e hão de concorrer não só para aquelle fim utilíssimo, como evidentemente para melhorar as condições do trabalho, as do comercio, e, o que não deve ser esquecido, as de arrecadação de nossas rendas.38

Atentemos, então, para alguns esclarecimentos com a finalidade de distinguirmos dentro da Grande Reforma, dois projetos completamente antagônicos, a saber, o da Reforma Federal, que seria pensado sob uma visão mecanicista, enquanto o da Reforma Municipal teria uma visão organicista 37 , com ideais completamente diferentes. 36

Entendemos como historiografia tradicional sobre a Reforma urbana da cidade do Rio a corrente, que retrata de maneira condenatória a imagem do prefeito Pereira Passos, ou seja, basicamente a produzida na década de 80, onde podemos citar os seguintes trabalhos: BRENNA, Giovanna Rosso Del. O Rio de Janeiro de Pereira Passos. Uma Cidade em Questão II. Rio de Janeiro: Index, 1985; ABREU, Maurício de. Evolução Urbana do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: IPLAN-Rio/ Zahar, 1988; BENCHIMOL, Jaime Larry. Pereira

Passos: Um Hausmann Tropical. A Renovação Urbana na Cidade do Rio de Janeiro no Início do Século XX. Rio de

Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, Turismo e Esportes, 1992; CARVALHO, Lia de Aquino. Habitações Populares. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, 1995; ROCHA, Osvaldo Porto. A Era das Demolições. Rio de Janeiro: Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro. Secretaria Municipal de Cultura. Departamento Geral de Documentação e Informação cultural. Divisão de Editoração, 1995; entre outros. 37 Com relação a esta visão mecanicista, André Azevedo que nos esclarece que (...) “A organização viária da urbe deve dar-se em uma relação de parte com parte, por uma razão funcionalista. Nesta perspectiva, a ordenação viária operase de maneira causal, isolando a solução de uma demanda urbana da cidade enquanto um todo. Assim, de acordo com esta visão, a parte pode ganhar uma relevância maior que o todo integrado da urbe, alcançando ela mesma importância superior ao conjunto urbano, uma vez que ocuparia uma função primordial na cidade, como foi o caso da obra do porto no contexto da reforma urbana federal”. Já a visão organicista “idealiza a cidade como um corpus continente de diversos órgãos vitais, no qual é fundamental a ligação destes mesmos órgãos para o funcionamento harmônico do corpo urbano. Nesta perspectiva, a ideia de integração urbana rege o processo de urbanização, pois a cidade passa a ser vista com suas funções interligadas, uma vez que é

Pereira Passo na inspeção das obras no Flamengo (1906). Foto de Augusto Malta percebida como uma totalidade, um verdadeiro organismo que justifica o sentido de existência dos diversos órgãos interligados que o sustentam. Ou seja, em uma intervenção urbanística, o projeto de reordenamento não deve ter razão de existência se não concorrer para uma função integrativa da cidade”. AZEVEDO, André Nunes de. Da Monarquia à

República: um estudo dos conceitos de civilização e progresso na cidade do Rio de Janeiro entre 1868 e 1906;

orientador: Antonio Edmilson Martins Rodrigues. – Rio de Janeiro: Departamento de História, 2003. p. 267 - 268. 38 Ver: “Mensagem”, Correio da Manhã, 04/05/1903. BRENNA, Giovanna Rosso Del. O Rio de Janeiro de Pereira Passos. Uma Cidade em Questão II. Rio de Janeiro: Index, 1985. p. 51


P á g i n a | 25 A Reforma Federal teria, então, como princípio básico a expectativa em torno da obtenção de “um cenário decente e atraente aos fluxos do capitalismo internacional, tão refreados pelas precárias condições da capital, quanto ambicionado pelas elites atreladas aos grandes interesses exportadores instalados no governo da união”39. Para o Presidente Rodrigues Alves, a Reforma seria o projeto primordial da sua administração, não apenas pela questão da salubridade que a muito era debatida por médicos e sanitaristas40, mas também para atender ao desenvolvimento econômico do país. Para além da questão da salubridade, a Reforma era também uma forma de legitimação do regime republicano que se encontrava extremamente desgastado diante da grande maioria da população brasileira. Soma-se a isso, a necessidade de ampliar o comércio externo, tanto pela pressão da elite cafeeira, que necessitava de grandes empréstimos para o desenvolvimento dos seus negócios, quanto para um maior equilíbrio das finanças por parte do Governo Federal. André Azevedo cita ainda, um quarto fator, a saber, “a tentativa de responder à crise da capitalidade41 do Rio de Janeiro, 39

MARINS, Paulo César Garcez. “Habitação e vizinhança: limites da privacidade no surgimento das metrópoles brasileiras”. IN: SEVCENKO, Nicolau (org.). História da vida privada no Brasil. República: da Belle Époque à Era do Rádio . São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 143. 40 Segundo Benchimol, foram justamente os higienistas, os primeiros a formular um discurso articulado sobre as condições de vida na cidade, propondo intervenções mais ou menos drásticas para restaurar o equilíbrio daquele “organismo” urbano que consideravam doente. BENCHIMOL, Jayme Larry. O Haussmanismo na Cidade do Rio de Janeiro. In: AZEVEDO, André Nunes de (org.).Rio de Janeiro: Capital e Capitalidade. Rio de Janeiro: Departamento Cultural/ Sr-3 UERJ, 2002. p. 129). 41 Segundo este autor, a “Capitalidade é um fenômeno tipicamente urbano que se caracteriza pela constituição de uma certa esfera simbólica originada de uma maior abertura às novas ideias por parte de uma determinada cidade, o que confere à esta um maior cosmopolitismo relativo às suas congêneres e uma maior capacidade de operar sínteses a partir das diversas ideias que recepciona. Este conjunto simbólico que se desenvolve nas vicissitudes das experiências históricas vividas por esta urbe, identifica a cidade como espaço de consagração dos acontecimentos políticos e culturais de uma região ou país, tornando-a uma referência para as demais cidades e regiões que recebem a sua influência. Esta esfera simbólica evolui, sendo redimensionada ao sorver novas experiências, constituídas e constituidoras da tradição da urbe”. AZEVEDO, André Nunes de. A Capitalidade do Rio de Janeiro. Um exercício de reflexão histórica. In: AZEVEDO, André Nunes de. Anais do Seminário Rio de Janeiro: Capital e Capitalidade . Rio de Janeiro: Departamento Cultural/NAPE/DEPEXT/SR-3/UERJ, 2002. p. 45.

revigorando esta propriedade da cidade na perspectiva de fazer da Capital Federal a metonímia de um país que caminharia rumo ao progresso42." Essa reforma era há muito tempo esperada por grande parte da população do Rio de Janeiro e a exaltação ao governo, que tinha por finalidade principal capitaneá-la, é percebida logo quando se dão os primeiros anúncios referentes à obra. Em um artigo do jornal O Commentário, de 1903 nota-se a exaltação ao empreendedor de tão grande obra. Está, enfim, resolvida a importante obra do Porto do Rio de Janeiro. Era uma vergonha continuar o desembarque de mercadorias pelos processos rudimentares que o aumento da importação cada vez mais tornava ridículo. (...) Há cincoenta anos que se projeta a reforma d’esse serviço; mas como tal reforma dependia de grandes obras, foi sendo adiada até que se tornou inadiável. O momento chegou em que o melhoramento se impôs a um governo resoluto para executa-lo.43 Para Rodrigues Alves, a reforma do porto do Rio de Janeiro seria a obra de maior relevância e todas as outras empreendidas pelo Governo Federal seriam pensadas em função desta. Articuladas então ao conjunto de obras executadas pelo Governo Federal, estava o plano de Reforma Urbana Municipal44. Esta consistiu fundamentalmente no alargamento de algumas ruas da cidade com vistas a melhorar a circulação urbana e facilitar a ligação entre os diferentes bairros da cidade. As avenidas constituíam o instrumento principal do plano de remodelação e saneamento municipal, destinado a 42

AZEVEDO, André Nunes de. Da Monarquia à República: um estudo dos conceitos de civilização e progresso na cidade do Rio de Janeiro entre 1868 e 1906; orientador:

Antonio Edmilson Martins Rodrigues. – Rio de Janeiro: Departamento de História, 2003. p.241). 43 Ver: “O porto do Rio de Janeiro”, O Commentário, junho de 1903. BRENNA, Giovanna Rosso Del. O Rio de Janeiro de Pereira Passos. Uma Cidade em Questão II. Rio de Janeiro: Index, 1985. p. 72 44 De acordo com Maurício Abreu , por Reforma Pereira Passos entende-se um grande número de obras públicas que redefiniram de modo radical a estrutura urbana da cidade do Rio de Janeiro durante o governo do prefeito Pereira Passos. Houve uma verdadeira reconstrução do centro da cidade, rompendo com as características de cidade colonial e fazendo emergir novos traçados mais compatíveis com o uso de trens e bondes, em vez de animais e carruagens. ABREU, Maurício. A Evolução urbana do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: IPLANRIO/Zahar, 1987.


P á g i n a | 26 transformar a Capital da República numa cidade moderna e higiênica. Para tal empreitada o Presidente nomeou a Comissão da Carta Cadastral sob a chefia do engenheiro Alfredo Américo de Souza Rangel que seria escolhido para ordenar o plano de remodelação urbana sob a orientação do prefeito Pereira Passos. “A Reforma Urbana Municipal orientou-se por uma ideia de progresso nos campos da cultura, da ética urbana e da estética, ou seja, por uma ideia de progresso enquanto desenvolvimento de uma civilização”45. No plano de Melhoramentos da Cidade Projetados pelo Prefeito do Distrito Federal Dr. Francisco Pereira Passos observamos claramente os propósitos da Reforma Municipal: Apresentando-vos os planos e orçamentos da abertura de algumas avenidas, alargamento e prolongamento de differentes ruas actuaes e canalização de rios, organizados nessa comissão46 Observa-se então, que o objetivo primordial da Reforma Municipal seria a abertura de vias, ao passo que ao se acompanhar o desenvolvimento do projeto, vê-se que esse objetivo, para além da ideia de ligação das várias regiões da cidade, privilegiava a ideia de higieniza-la. Este ideal de salubridade e higienização do centro comercial e populoso do Rio de Janeiro é cara aos engenheiros públicos desde os tempos imperiais.

Ainda segundo o relatório, as consequências girariam em torno da “maior facilidade de comunicação entre os bairros”, do “estabelecimento de um traçado vantajoso para as grandes linhas de canalização”, “impedimento na valorização de prédios antiquados situados em ruas estreitas”, “facilitação do enxugo do subsolo pela arborização” e, por fim, “despertar o gosto arquitetônico”. Percebemos então que não obstante a Grande Reforma ser, na realidade, fruto de iniciativas Federal e Municipal, ou seja, aconteceram simultaneamente duas reformas urbanas, e que mesmo tendo sido pensadas de maneiras diferentes, as duas tiveram entre si uma ação integradora constituindo-se em fatores complementares para resolução dos problemas de maior importância da Capital Federal naquele momento, ou seja a salubridade e a criação de um aparato moderno para a atração de investimentos externos. Cristiane de Jesus Oliveira Pimentel: Especialista em História do Brasil pela Universidade Federal Fluminense, Mestre em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora, Professora tutora no curso de Pedagogia à distância da UFJF, Assistente de orientação no Programa de Pós-graduação Profissional em Gestão e Avaliação da Educação Pública da UFJF.

O problema do saneamento do Rio de Janeiro foi sempre considerado, por todas as auctoridades que dele se têm occupado, como dependendo em grande parte da remodelação architetonica da sua edificação e consequentemente da abertura de vias de communicação amplas e arejadas em substituição das actuaes ruas estreitas, sobrecarregada de um tráfego intenso, sem ventilação bastante, sem arvores purificadoras e ladeadas de prédios anti-hygienicos.47 45

AZEVEDO, André Nunes de. Da Monarquia à República: um estudo dos conceitos de civilização e progresso na cidade do Rio de Janeiro entre 1868 e 1906; orientador:

Antonio Edmilson Martins Rodrigues. – Rio de Janeiro: Departamento de História, 2003. p. 264. 46 Prefeitura do Distrito Federal. Melhoramentos da Cidade Projetados pelo Prefeito do Distrito Federal, Dr. Francisco Pereira Passos. Rio de Janeiro: Typographia da Gazeta de Notícias, 1903. p. 03. 47 Prefeitura do Distrito Federal. Melhoramentos da Cidade Projetados pelo Prefeito do Distrito Federal, Dr. Francisco

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O caminho aberto para que um cano de pedra levasse para o mar as águas estagnadas da Lagoa de Santo Antônio, deu origem à "Rua do Cano“. A "Rua do Cano" assim foi chamada até 1856, quando foi batizada como 7 de Setembro. Em 6 de setembro de 1906 o Prefeito Pereira Passos lá esteve, inaugurando o trecho que ia da Rua 1º de Março até a Av. Central.

Pereira Passos. Rio de Janeiro: Typographia da Gazeta de Notícias, 1903. p. 03.


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