GNARUS - 29
Artigo
A FORÇA DA ESCRAVIDÃO SOB A LENTE DE UMA MODESTA CIDADE: PORTO FELIZ, SÃO PAULO, NA SEGUNDA METADE DO OITOCENTOS Por Carlos Santos da Silva RESUMO: Este artigo intenciona compreender a força da escravidão nos anos derradeiros do sistema escravista no Brasil imperial. É de conhecimento popular que a despeito da proibição do tráfico atlântico de almas através da Lei Feijó, em 1831, o tráfico de africanos continuou em números significativos até a Lei Eusébio de Queirós, em 1850, quando enfim o tráfico foi abolido, mas não a escravidão. Contudo, como é sabido, a escravidão perdurou até 13 de maio de 1888, por quê? O sistema estava moribundo e fadado ao fracasso após 1850? Apenas a elite cafeeira do Sudeste tinha interesse na escravidão pós 1850? Este artigo visa apreender a força da escravidão por intermédio do enraizamento de valores pertinentes do escravismo que conduziram, até o fim da escravidão por força de lei, a relação senhor-escravo. Palavras-chave: Escravidão; Liberdade; Posse Escrava.
Introdução
Porto Feliz, tem sua história vinculada à rota das monções, quer dizer, é impossível pensarmos a
Em 1720, em torno da capela Nossa Senhora da Penha, deu-se o povoamento português do que viria a se chamar, em fins do século XVIII, de vila de
construção de sua história sem perpassar pelas monções,2 embora o século XIX, que nos interessa propriamente, reservasse outros aspectos.
Porto Feliz, em São Paulo. Construída por doação
Iniciado com intuito de apressar indígenas por
de Antônio Cardoso Pimentel, em sua sesmaria às
bandeirantes, à rota das monções fora redefinida
margens do Rio Tietê, já no ano de 1728 a capela foi
após as descobertas das minas de Coxipó-Mirim
1
elevada à condição de freguesia de Araritaguaba.
e Cuiabá, sem deixar, contudo, de manter o
Pertencente a vila de Itu, Araritaguaba, posterior
apressamento indígena. Araritaguaba, constituise, assim, como principal rota fluvial para a extração
1 CALIL, Maria Clara de Oliveira; SALGADO, Ivone. Configuração espacial de Porto Feliz: Capela em 1720, Freguesia em 1728, Vila em 1797. In: XX Encontro de Iniciação Científica da PUC Campinas, 2015, Campinas. Anais do XX Encontro de Iniciação Científica da PUC Campinas. Campinas: PUC Campinas, 2015.
2 As monções foram expedições fluviais, empreendidas por bandeirantes, que visavam o aprisionamento de indígenas e, sobretudo, a exploração de metais preciosos.
Gnarus Revista de História - VOLUME XIII - Nº 13 - DEZEMBRO - 2022