12-Cinema

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Coluna:

NO ESCURO DO CINEMA: REFLEXÕES SOBRE AS RELAÇÕES ENTRE CINEMA E HISTÓRIA Por: Fernando Gralha “Um filme diz tanto quanto for questionado”, com esta frase o historiador francês Marc Ferro em seu emblemático artigo “O Filme: Uma contra-análise da sociedade” inaugurou a relação entre historiadores e a tela grande, na qual dentro do processo de renovação historiográfica da Nova História, o filme surge em sua dimensão de documento/monumento. Ferro estabelece que qualquer reflexão sobre a relação cinema-história toma como verdadeira a premissa de que todo filme é um documento, desde que corresponda a um vestígio de um acontecimento que teve existência no passado, seja ele imediato ou remoto. O historiador inova ao contrapor-se à análise anterior feita por Samaran em 1961, na qual o filme teria um caráter de “veracidade do real”, para Ferro, a análise fílmica se dá através do que chama de uma “contra-análise da sociedade”, nela o filme transcende ao seu papel de mero recurso imagético revestido de uma realidade e vai além, mostra não só o que evidencia, mas também o involuntário, o imaginário, os valores, os silêncios, alcançando desta forma uma realidade além da representada, chega às “zonas ideológicas não-visíveis”, lugar onde o cinema se apresenta como agente da História, portador de uma peculiar potência social e política.

Assim, o cinema entrava no jogo iniciado pelos historiadores dos Annales Jacques Le Goff e Pierre Nora, que ao organizarem sua famosa trilogia alargam os horizontes da pesquisa historiográfica com a elevação de toda a produção humana ao status de fonte histórica, do mesmo modo que a festa, a cozinha, o clima, o inconsciente, o corpo, entre outros temas, o filme representado na obra pelo texto inovador de Marc Ferro é alçado ao status de fonte histórica.


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