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Coluna:
A MEMÓRIA E O CENTRO DE MEMÓRIA DE REALENGO E PADRE MIGUEL Por Allan Pereira de Oliveira
O
Centro de Memória de Realengo e Padre Miguel inaugurado oficialmente em 2001, foi criado em prol da preservação da memória local através do resguardo de fotografias, periódicos, pinturas e registros diversos. Nossa missão consiste em organizá-las proporcionando a disponibilização, utilização e visualização para pesquisadores e membros da comunidade de forma democrática. Porém, para cumprir nosso objetivo é necessário estabelecer alguns pontos de apoio teórico através de questionamentos inerentes ao tema como: o que a memória representa no campo individual e social? Qual a necessidade e a importância de um centro de memória para a comunidade? Que critérios caracterizam esses documentos como “fontes mnemônicas”? Como podemos interpretar e manusear o material disponível? A partir destas perguntas se desenha o nosso projeto de pesquisa. A memória é, segundo Le Goff , o conjunto de funções psíquicas que possuem a propriedade de conservar informações para o homem utilizá-las na atualização de impressões que representam seu passado, mostra-se como objeto em permanente
evolução e possui um elo com o tempo presente. Uma de suas características principais, e que a difere da História, é sua continuidade que busca sempre em forma de narrativa ligar os fatos, esta peculiaridade deve ser entendida não só como fenômeno individual que busca alinhar os acontecimentos do passado, mas também como coletivo porque este alinhamento procura sempre ajustar-se ao meio social do indivíduo, ou seja, a construção da memória pode projetar, de forma artificial e inconsciente, acontecimentos, personagens e lugares, que o memorizador não viveu pessoalmente, com o intuito de proporcionar a ele uma coerência de sua continuidade com seu nicho social, o que a configura como um processo social. O século XX trouxe, com as inovações tecnológicas, uma aceleração na transmissão e armazenamento das informações, as buscamos sempre de modo imediato e dispomos de aparelhos e tecnologia para guardá-las e disseminá-las. Vivemos um momento em que as técnicas de memorização são consideradas reacionárias e o novo sempre sobrepuja o velho. Nossa sociedade valoriza mais o moderno que o antigo, mais o presente que o passado. Nesse contexto é que nascem os lugares
P á g i n a | 46 de memória, como santuários, cemitérios, monumentos, museus e os centros de memória, que se constituem de “retalhos” da colcha que é a sociedade. Mas são exatamente estes fragmentos que fomentam a produção historiográfica, que promovem a identidade de um grupo, que legitimam a cultura popular. O que justifica a criação do Centro de Memória de Realengo e Padre Miguel - CMRP é a ameaça iminente do esquecimento, porque sem estes lugares nós fatalmente perderíamos o referencial identitário destas comunidades. A memória é intrinsecamente narrativa e a partir desta premissa entende-se que os materiais ligados a ela, sejam congruentes com esta característica. Logo, estes objetos, músicas, relatórios, poesias, cartas, fotos, etc, necessitam obrigatoriamente dialogar com a narrativa coletiva, social e da memória de forma desacelerada. Estes artefatos, que também se enquadram no ideal de patrimônio material, são valorados somente, e unicamente, quando estes legitimam ou remetem à “memória nacional”, ou memória do grupo, ou seja, as memórias individuais que não reverberam a massa dominante ou o modo de vida idealizado por elas são descartadas. O que se deve salientar é que estas sacralizações não propõem um discurso crítico e, também por isso divergem da
História, estas fontes mnemônicas, que possuem propriedades diferentes do conceito de fonte histórica, são forjadas às luzes de um compêndio ideológico. Então, os critérios que designam a capacidade reminiscente de um documento são sua relação com a narrativa, sua capacidade ideológica e seu diálogo somente com a lembrança e o esquecimento. O manuseio da memória só é possível a partir de uma busca de suas “raízes”, os relatos, as entrevistas e biografias tornam-se imprescindíveis nesta etapa do trabalho para o enquadramento da memória. O que distingue a fonte mnemônica de qualquer outra folha de papel, por exemplo, é o discurso narrativo, afetivo, atual e absoluto que ele carrega. Portanto, para uma correta manipulação e interpretação dessa memória o pesquisador deve cogitar uma análise psicológica do memorizador em relação a ela. É necessário ressaltar sua conexão com a psiquê, porque sua humanização é o veículo que a torna volátil e susceptível à revisões. O estudo desenvolvido para abraçar nossa missão para com o CMRP proporciona enriquecimento científico do objeto de estudo e sua estreita relação com a História. O objetivo de nossa empreitada não é glorificar as lembranças, mas disponibilizá-las, de modo inteligível e acessível, para que sejam fomentadoras de novas pesquisas sobre a região. Para este propósito é
Banda Santa Cecília (21-11-48) - Foto doada ao CMRP pela Senhora Cleuma Goulard de Oliveira em 19-02-2004 Moradora de Realengo.
P á g i n a | 47 que se faz imperioso esmiuçar suas propriedades, pois seu manuseio depende de uma compreensão abrangente de seus aspectos específicos. Tencionando impreterivelmente subjugar a memória, como artéria que alimenta os vasos da produção historiográfica, ao rigor metodológico e ao mar de questionamentos que serão propostos pelos historiadores.
Allan Pereira de Oliveira: Graduando em História pelas Faculdades Integradas Simonsen. Pesquisador do Centro de Memória de Realengo e Padre Miguel e Bolsista do Programa de Iniciação Científica das Faculdades Integradas Simonsen.
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E.M. Cel Corsino do Amarante em desfile cívico na Avenida Santa Cruz em Realengo - (1976) Foto componente do acervo do CMRP.