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AO LEITOR
A
memória tem dois lados, a lembrança e o esquecimento. Diz a mitologia grega, que ao morrer todo ser humano, comum ou ilustre, deveria ir para o Hades, mundo dos mortos, o acesso a tal mundo se dava por um rio, nele se encontrava o barqueiro Caronte, que mediante ao pagamento de um óbulo (moeda grega antiga) carregava o morto à sua última morada. O rio se chamava Lethe (esquecimento, em grego), o interessante da história é que este rio em um determinado ponto continha uma bifurcação, dividindo o mesmo em dois braços, um mais caudaloso e tranquilo e outro mais estreito e de navegação difícil, o primeiro mantinha o nome, Lethe, o segundo chamava-se A-Letheia (o que não é esquecido). A decisão para onde levar o incauto morto, não cabia a Caronte, este consultava uma titânida que morava justamente na bifurcação do rio, Mnemósyne (deusa do que entendemos por “memória”), a deusa decidia para que lado Caronte deveria levar seus passageiros, quem era destinado ao braço do esquecimento, lugar escuro, silencioso, inundado, vagaria a esmo, sem sentido, sem lembranças, sem cores, sem alegria e lentamente, mergulhado no esquecimento de tudo, aos poucos perdia sua consciência e deixava de ser, já quem era selecionado para o braço ALetheia, chegaria à ilha dos Bem-Aventurados, estes são os que seriam lembrados ao longo dos tempos pelo mundo dos vivos, conservando sua
consciência, sua identidade, sua individualidade, uma forma de imortalidade. Mas qual era o critério de Mnemósyne? Como ela decidia de forma justa quem merecia o esquecimento e quem era destinado à imortalidade? A titânida consultava as suas nove filhas, as Musas, fruto da união entre Mnemósyne (a Memória) e Zeus (a Luz da Razão).
As musas Clio, Euterpe e Talia, por Eustache Le Sueur