Página |3
AO LEITOR
A
memória tem dois lados, a lembrança e o esquecimento. Diz a mitologia grega, que ao morrer todo ser humano, comum ou ilustre, deveria ir para o Hades, mundo dos mortos, o acesso a tal mundo se dava por um rio, nele se encontrava o barqueiro Caronte, que mediante ao pagamento de um óbulo (moeda grega antiga) carregava o morto à sua última morada. O rio se chamava Lethe (esquecimento, em grego), o interessante da história é que este rio em um determinado ponto continha uma bifurcação, dividindo o mesmo em dois braços, um mais caudaloso e tranquilo e outro mais estreito e de navegação difícil, o primeiro mantinha o nome, Lethe, o segundo chamava-se A-Letheia (o que não é esquecido). A decisão para onde levar o incauto morto, não cabia a Caronte, este consultava uma titânida que morava justamente na bifurcação do rio, Mnemósyne (deusa do que entendemos por “memória”), a deusa decidia para que lado Caronte deveria levar seus passageiros, quem era destinado ao braço do esquecimento, lugar escuro, silencioso, inundado, vagaria a esmo, sem sentido, sem lembranças, sem cores, sem alegria e lentamente, mergulhado no esquecimento de tudo, aos poucos perdia sua consciência e deixava de ser, já quem era selecionado para o braço ALetheia, chegaria à ilha dos Bem-Aventurados, estes são os que seriam lembrados ao longo dos tempos pelo mundo dos vivos, conservando sua
consciência, sua identidade, sua individualidade, uma forma de imortalidade. Mas qual era o critério de Mnemósyne? Como ela decidia de forma justa quem merecia o esquecimento e quem era destinado à imortalidade? A titânida consultava as suas nove filhas, as Musas, fruto da união entre Mnemósyne (a Memória) e Zeus (a Luz da Razão).
As musas Clio, Euterpe e Talia, por Eustache Le Sueur
Página |4
Eram Calíope (a Poesia épica), Euterpe (a Música de sopro), Clio (História), Melpomene (a Tragédia), Terpsicore (a Dança), Erato (a Música de cordas), Polimnia (o Canto), Urânia (Astronomia) e Tália (Comédia). Observando com cuidado, percebemos que as Musas são as personificações das formas discursivas do universo humano: as Artes, a História, a Ciência. Elas cantavam, representavam ou narravam a vida do morto à sua mãe, a partir de dados que recolhiam sobre ele com outras divindades, como Diké (a Justiça) e Sophrosyne (a “justa medida”), dentre outras. A partir da representação discursiva que as Musas faziam, apresentando uma representação do morto, Mnemósyne decidia o seu destino.
“levar o conhecimento”. O conhecimento é um nascer, um surgir algo que não havia, o conhecer é um gerador de nascimentos” É esta nossa ambição nesta empreitada, narrar a História, fazer conhecer, dar voz a professores e alunos, divulgar a produção acadêmica historiográfica e estimular a produção do fazer conhecer, da construção da memória, que nos livre do esquecimento, do não ser. Esperamos que nos acompanhem nesta viagem pelo rio da A-Letheia. Fernando Gralha
Para a maioria das almas, as Musas nada tinham que pudesse ser cantado, dançado ou narrado. Esses eram fadados ao esquecimento (Lethe), o terrível esquecimento de si, a perda da consciência e da identidade pessoal, e o triste esquecimento por aqueles que permaneceram no mundo dos seres vivos. Para poucos, as Musas tinham material para comporem os seus cantos, a suas danças ou as suas narrativas. Esses, que eram raros, eram destinados ao “não-esquecimento”. Portanto para sobreviver na memória, alcançar a bem aventurança, era preciso fazer, lembrar e narrar. Esta História me foi contada em uma aula das professoras da Unirio Claudia Beltrão e Patrícia Horvart, historiadoras e filósofas de mão cheia, e foi esta história mitológica que nos inspirou a batizar nossa Revista: Gnarus. Citando Ferreira 1 ... “Narrar nos remete para narro (fazer, conhecer, contar), um verbo derivado de gnarus, que significa ‘que conhece’, ‘que sabe’. Fundamentalmente, narrar é levar ao conhecimento e também ‘contar’, ‘dizer’. Gnarus tem a mesma raiz etimológica de nosco, ‘conhecer’, ‘tomar conhecimento’, ‘começar a conhecer’, ‘aprender a conhecer’. Acrescentando o prefixo cum a nosco, temos o verbo cognoscere, que significa “conhecer”. Narrar é essencialmente 1
FERREIRA, C. Bereshit: O início da narratividade hebraica bíblica. Phoînix, Rio de Janeiro: n. 13, p. 67-83, 2007.
Caronte ilustrado por Gustave Doré, para a Divina Comédia.