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Falo ANuAL 2020

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ANuAL ano III . especial


FALO ANuAL é uma edição especial da FALO©. ISSN 2675-018X

SUMÁR i O

versão 10.12.20

editor-chefe: Filipe Chagas edição, redação e design: Filipe Chagas e DUOCU (Bruno Novadvorski e Chris, The Red) corpo editorial: Dr. Alcemar Maia Souto, Guilherme Correa e Rigle Guimarães. site: Pedro Muraki

3 Editoriais

capa: Zona de Prazer, lambe de Bruno Novadvorski (2020).

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Galeria: Kevin Kinzer e Thierry Jochum

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– Meu cu!, de Bruno Novadvorski

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Galeria: Edu e Tore Nobiling

16 Zelo e técnica foram empregados na edição desta revista. Ainda assim, podem ocorrer erros de digitação ou dúvida conceitual. Em qualquer caso, solicitamos a comunicação (falonart@ gmail.com) para que possamos verificar, esclarecer ou encaminhar a questão.

Nota do editor sobre nudez:

Por favor, entenda que esta publicação é sobre a representação da masculinidade na Arte. Há, portanto, imagens de nus masculinos, incluindo imagens de genitália masculina. Consulte com precaução caso sinta-se ofendido.

Direitos e Comprometimento:

Esta revista está comprometida com artistas que possuem direitos autorais de seu próprio trabalho. Todos os direitos estão reservados e, portanto, nenhuma parte desta revista pode ser reproduzida de forma mecânica ou digital sem autorização prévia por escrito do artista. Temos o cuidado de garantir que as imagens usadas nesta publicação tenham sido fornecidas pelos criadores com permissão de direitos autorais ou sejam livres de direitos autorais ou sejam usadas no protocolo de “uso justo” compartilhado pela internet (imagens em baixa resolução, atribuída a seu criador, sem fins lucrativos e usada apenas para ilustrar um artigo ou história relevante). Se, no entanto, houve uso injusto e/ou direitos autorais violados, entre em contato através do e-mail falonart@gmail.com e procederemos da melhor forma possível.

Submissões:

Caso haja o interesse de participar da revista seja como artista, modelo ou jornalista, entre em contato através do e-mail falonart@gmail.com. FC Design R. Mario Portela 161/1603 C, Laranjeiras Rio de Janeiro – RJ 22241-000

Corpo censurado: O Buraco na política brasileira, de Suellen Gonçalves

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Entrevista

O Buraco da Luluca

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Galeria: Daniel Young

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O poder do cool, de Abhiyana

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Galeria: Giba Gomes

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Por que dar o cu é tão bom?, de Chris, The Red

48

Galeria: Brent Ray Fraser

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Cu, o centro do universo, de Rigle Guimarães

58

Galeria: Joseph Giampietro

60

O Ânus Solar, de DUOCU

74

Galeria: Baju Wijono

78

O cu do Adão, de Nathallia Protázio

82

Galeria: Jesús Romero

86

Especial

Todos os Olhos

88

Galeria: Alexandre Hausse

90

Tese

Caderno Meu Cu, de Fabio Gatti

112

Galeria: Ryan Stanford

116

Galeria: Pawel Matyszewski


Editorial

C

u. Pronto, é isso: uma edição especial sobre o cu. Você deve estar se perguntando o que isso tem a ver com a Falo Magazine e eu vou te explicar. Em 2019, veio na minha cabeça uma brincadeira: “o lado B da Falo seria a bunda”.

A expressão lado B vem da indústria musical e representa o lado do vinil com músicas menos comerciais, mais experimentais ou alternativas. A expressão também é usada no cotidiano, muitas vezes de forma pejorativa como se o lado B fosse o oposto, o contrário, o pior. Assim, aquela piada mental se transformou imediatamente numa ideia. Só que o lado B da Falo não é exatamente a bunda, pois, apesar de estar na oposição física ao pênis ela nada tem de experimental, alternativa e muito menos não-comercial. Aqui no Brasil a bunda é glamour, nas redes sociais a bunda é (quase) livre! Mas o cu não. Ele é considerado oposto, contrário, um lugar que você manda os outros para terem o pior. É um tabu MUITO MAIOR do que qualquer genitália de qualquer gênero... entretanto, TODO MUNDO TEM! Não é louco isso? Foi aí que vi a necessidade de abordar o assunto. Na edição de novembro de 2020, eu falei sobre o Ponto P na coluna Falorragia, já mostrando que os assuntos se aproximam. Mas, para essa edição especial, eu sabia que precisaria de ajuda. Também em 2019, para a matéria sobre o Falo Trans, eu convidei o DUOCU – formado pelos artistas Chris, The Red (colaborador assíduo da revista e artista da sexta edição) e Bruno Novadvorski – para realizar entrevistas e ensaios. Como o trabalho do Bruno tem foco exatamente no uso do ânus como ferramenta artística, era óbvio que eu os convidaria novamente, dessa vez, para assinar a co-edição. O que você verá agora é uma revista diferente na temática e na forma de abordar os assuntos, mas com a mesma cara e a mesma qualidade que você já está acostumado ao ler a Falo Magazine. Tem textos de artistas, texto do nosso Rigle, crônicas, curiosidades e uma pegada mais acadêmica com muita, mas, MUITA ARTE, é claro! Vá além das imagens e busque se informar. Venha para o lado negro da força... o que, nesse caso, é uma delícia! Filipe Chagas, editor-chefe


edi-CU-torial

H

á certo tempo, venho investigando o cu como viés artístico, como obra de arte, uma interrogação social e política. Penso no cu como a subversão da vida pelo simples fato de entender que construímos, ou melhor, imaginamos construir tempos e espaços através da materialidade da coisa. Que coisa? Coisa qualquer. Assumimos um corpo, reconhecemos o plástico, lutamos por terras amazônicas, mas continuamos em bolhas. Algumas micros; outras, macros. Dentro destas construções, buscamos elementos que substanciem nossa existência, determinou-se as formas, as normas, o bom e o ruim, dentro e fora, público e privado etc. Enfim, inúmeras binariedades que qualificam e quantificam nossa existência. É preciso repensar, agir, romper, colocar fogo e depois apagar com água. Das construções que nos cercam, entendo meu corpo e minha sexualidade como potência para as mudanças sociais. Aliás, não somente o meu, mas de todes. Estabelecendo um recorte dentro destes temas amplos, o cu e sua conexão entre o corpo e sua sexualidade é fonte para amplas pesquisas das mais diversas áreas do conhecimento. E neste ponto, estabeleço a conexão com a produção artística. Venho elaborando trabalhos artísticos que partem do meu cu, seja através de uma foto ou desenho, da palavra, lambe, materializando meu cu em outros objetos. Fazer que me leva para a reflexão de como acontece este fazer. E como pesquisador, vão estabelecendo relações entre a arte e questões sócio-políticoculturais. Bebendo de outras fontes de saberes para compor meu pensamento rizomático. Além de todas estas questões acadêmicas que perpassam as minhas colaborações para a composição desta edição especial é que, bom, eu amo meu cu! Amo outres cus. Me arrepio inteiro quando lambem cada prega que, também compõe meu cu. Tenho bastante prazer na penetração. Gozo as experimentações que meu orifício me provoca. A partir do cu, passei a explorar meu corpo. O cu assim como outras instâncias de nossas vidas precisa de atenção! CUre. CUide. CUtuque. CUltive. CUrta. Beijos em seu cu!

Bruno Novadvorski, co-editor


O que podemos aprender com o cu?

O

conhecimento que vem do Cu é o que nos guia/move/provoca/ conduz nesta primeira edição da Falo ANuAL. O que podemos aprender com o cu? O meu, o seu, o nosso? Assim, trago duas perguntas, ambas do Rafael Leopoldo e Leandro Colling, no prólogo do livro Pelo Cu: Políticas Anais. Primeira: “O que pode sair do cu além de excrementos?”. Segunda: “Como é possível pensar a partir do cu ou pelo cu?”.

Foto: Bruno Novadvorski.

Para a primeira, ouso responder: sabedoria. Do cu: vem arte vem palavras vem desejo vem prazer. Do cu, vieram todas as artes, pensamentos, falas que encontrarão nesta revista. Em cada página, tem um cu se fazendo presente. Com o cu, assinei meu trabalho Contranome: Chris [assino] (2020) e foi com o cu que cada uma das pessoas que tornaram esta revista possível, assinaram suas identidades e suas histórias. São relatos, desenhos, pinturas, escritos que respondem com força e muita potência o que pode vir do cu. Vem Revolução! Resistência! Para a segunda, gostaria antes de citar um trecho do livro A Alma Imoral, de Nilton Bonder: “Para a psicologia evolucionista, o corpo é o motivo fundamental de nossas ações e de nosso comportamento, que ocultamos nas vestimentas de nossos símbolos e cultura. Um corpo com moral cria um mundo de roupas que veste o nu. Mas o nu continua visível, mais talvez do que quando não era coberto por qualquer roupagem”. E faço aqui uma substituição da palavra “nu” pela palavra “cu”. Vestimos o cu, mas ele está mais presente como nunca esteve. Nem a sua privatização – como diria Deleuze e Guattari* – a sua abjetificação, o tornou menor. Pelo contrário, deu ao Cu a potência que lhe cabe para lutar pelo seu lugar de fala, ou pensando Preciadianamente: seu potencial como corpo falante, pensante. Assim, finalizo estas poucas palavras escrevendo que a partir do cu – e com o cu – podemos ansiar por uma sociedade em que podemos ressignificar não apenas nossas identidades, mas também nossas conexões. Agradeço do fundo do meu Cu a todes vocês que fizeram a ANuAL real. Beijundas.

Chris, The Red, co-editor

* No livro O anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia 1 (Tradução de Luiz B. L. Orlandi. — São Paulo: Ed. 34, 2010, p. 189), Gilles Deleuze e Félix Guattari escrevem: “O primeiro órgão a ser privatizado, colocado fora do campo social, foi o ânus.”


*

Kevin Kinzer

Nu Masculino, lรกpis sobre cartรฃo (2020).


*

Thierry Jochum

Extâse, acrílica sobre madeira (2018).


* — Meu cu! por Bruno Novadvorski

Lambe Zona de Prazer, de Bruno Novadvorski (2020)

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Expressão que frequentemente utilizo. Reflexão que surge a partir de algumas leituras que me levaram e levam a pesquisar sobre sexualidade, contrassexualidade, teoria queer/cuir, teoria do cu, arte contemporânea, produção poética, corpo etc. Dentro destas pesquisas, me identifiquei com as questões que partem do e atravessam o cu. Assim, o cu se torna eixo central das minhas problemáticas, seja no aspecto artístico, social, político etc. E claro, prazeroso!

— O cu é uma delícia! Com base em algumas experiências cusais, vou propor algumas provocações, como também, algumas semelhanças com outres cus. Afinal, o cu é brasileire. Além de um breve relato sobre meu trabalho Zona de Prazer (2020). Nos últimos tempos - cerca de um ano e meio - abri o cu para a minha produção poética. Utilizei da fotografia, performance, vídeo. Experimentei. Pesquisas que se desdobraram para além da arte, interseccionaram com outros saberes e, neste processo, encontrei Larissa Pelúcio com a teoria do cu1 em contextos brasileires, o que me deslocou bruscamente. Uma dedada que dói, mas que é extremamente prazerosa e necessária. E que vem como complemento às leituras e provocações anteriores de Paul B. Preciado. Aliás, foi ele quem deu a primeira dedada. Com o deslocamento do cu para outras possibilidades, prazerosamente, como entender as relações que se estabelecem, para além de merda?2 Bom, tenho gosto em chupar um bom cu. Gosto que chupem o meu. Identifico assim um ponto importante da minha contrassexualidade, meu cu me gera prazer. Preciado no livro Manifesto Contrassexual (2017) diz que o cu é o “centro erógeno universal situado além dos limites anatômicos impostos pela diferença sexual” (p. 32)3. Ou seja, o prazer é deslocado para além do pau e da vagina, encontra-se nos espaços da pele, dentro e fora etc. O prazer não tem limite, situa-se em outras zonas. Quem tem acesso ao meu cu, o faz como quando explora uma cidade desconhecida, caminhando atentamente para vivenciar a cidade. Bem, não é só o meu cu que é exigente desta maneira, qualquer cu merece respeito e deve ser explorado de tal maneira.

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1. PELÚCIO, Larissa. O Cu (de) Preciado – estratégias cucarachas para não higienizar o queer no Brasil. Iberic@1, Revue d’études ibériques et ibéroaméricaines. Número 9 – Printemps 2016, p. 132. Disponível em iberical.paris. Acesso em: 03.jun.2020. 2. SAEZ, Javier. Pelo cu: políticas anais. Javier Saez e Dejo Carrasco. Tradução Rafael Leopoldo. Belo Horizonte, MG. Letramento, 2016. 3. PRECIADO, Paul B. Manifesto contrassexual. Tradução Maria Paula Gurgel Ribeiro. São Paulo: n-1 edições, 2017.


Realmente, a politização do cu é importante e acredito que o dispositivo de arte é capaz de abordar estas questões através de suas produções poéticas e criativas. Cada dia, descubro algo novo em relação ao cu mostrando o quanto somos (sociedade brasileira) perspicazes quando o assunto é cu, como figurinhas de WhatsApp, por exemplo.

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No lambe Zona Prazer, afirmo o prazer que tenho no cu, na bunda, nos pelos e na pele. Obviamente, existe uma intencionalidade em centralizar o cu, dando-lhe destaque. E que ao ser colado pelas ruas de duas capitais brasileiras, Porto Alegre e São Paulo, respectivamente, tenho a intenção de provocar a reflexão sobre as relações que estabelecemos com nossos cus.

Ao começar a perceber e entender como se estabelecia minha conexão com meu cu, entendi sua transitoriedade da seguinte forma: defecar, ato que me proporciona duas conexões: cagar-pôr para fora; limpar-toque. Na sequência que inicio minha vida sexual, a chuca passa a estabelecer outra relação, começo a explorar meu cu, sua borda e seu interior. Consequentemente, passo a prática sexual da penetração que iniciei com pênis-cis. O que me levou a explorar a prática de fisting, que me dá muito prazer, mas que pratico com longos espaços temporais. Outras sensações surgiram quando meu cu descobriu a língua, a exploração da boca, do beijo. Depois de um tempo, experimentei - e amei - dildos e plug anais, foi uma maravilha! Todas estas vivências com o cu, me atravessaram de tal maneira que passei a pesquisá-lo como dispositivo artístico e teórico. Cada vez mais, venho desenvolvendo estas questões e, por isso, escrevo esta reflexão sobre o lambe Zona de Prazer por ser - de certo modo - o trabalho que marca meu arregaçamento anal. Este texto é uma provocação, uma lambida, um toque, uma dedada e um beijo no cu!

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Bruno Novadvorski é artista visual e estudante de Artes Visuais – Instituto de Artes da UFRGS.


Colagem do lambe Zona de Prazer, de Bruno Novadvorski (2020) em Porto Alegre/RS (1ª e 2ª linhas - fotos de Yas Silva Fotografia) e São Paulo (3ª, 4ª e 5ª linhas - fotos de Chris, The Red).

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Edu

I like your after sex face, óleo sobre tela, da série Mural dos Nomes Impróprios (2019).


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Tore Nobiling

Bumbum NiceCream, arte 3D (2020).


* Corpo censurado: O Buraco na política brasileira por Suellen Gonçalves

Introdução No presente artigo, trago uma análise da obra Buraco (2019) da artista Luluca L. Após uma breve exposição em Balneário Camboriú (SC), a produção foi censurada e se encontra assim até o momento. Minha análise utiliza-se de metáforas do próprio trabalho para o contexto político brasileiro após o golpe de 2016, onde tivemos grandes ondas de censuras dentro do campo das artes. Vou trabalhar aqui com a verdade do corpo político e como o mesmo é aceito dentro das instituições, problematizando quem são esses corpos e de que forma eles são postos em galerias e museus de arte. Para analisar, principalmente, uma conversa que tive com a artista Luluca em junho de 2020, na qual ficaram explícitos os questionamentos e revoltas da artista por seu trabalho ter sido censurado.

A polêmica incoerente que a exposição “Ruína” levanta No dia 5 de Fevereiro de 2020, se deu a abertura da exposição “Ruína” na Galeria Municipal de Arte de Balneário Camboriú (SC), e um dia após, foi obrigado a fechar por polêmicas sobre o conteúdo das obras que ali estavam. Em específico, a obra Buraco. O trabalho consiste em adesivos de uma fotografia ampliada e pixelada do ânus da própria artista.

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Com a divulgação que a mídia proporcionou do caso, noto um conflito de verdades sobre a exposição. De um lado, os artistas que compunham o evento alegam terem feito todas as etapas legais e necessárias para a abertura da exposição; do outro, a presidenta da fundação Beatriz Mattar diz ter sido “pega de surpresa” por conta dos conteúdos das obras. Analisando essa situação, nota-se1 uma incoerência na declaração de Beatriz, pois não teria como fazer uma exposição no local sem passar pela mesma, além de ter documentos legais e formais mostrando que sabia da exposição e das obras que seriam expostas. Também tem o fato de Beatriz ter ido na abertura da exposição o que vai de encontro a sua fala de ter sido “pega de surpresa” quando veio a denúncia anônima pedindo para fechar a exposição. Além disso, em alguns jornais da internet, Beatriz diz que o grupo não tinha enviado o projeto completo para avaliação, assim como, não teria ido atrás para resolver a questão da classificação indicativa para a exposição. O que acaba sendo outra incoerência, pois nos cartazes de divulgação da abertura é possível ver a classificação etária para maiores de 18 anos2. E sobre o projeto expográfico, Luluca L. diz que “tiveram inúmeras conversas frente a frente e por redes sociais, onde deixava claro que não havia uma expografia certa da exposição e que poderia ser mudada as disposições das obras a qualquer momento”. Luluca alega que Beatriz além de saber do conteúdo das obras ajudou na ideias de como ela deveria ser exposta na galeria, pois a primeira ideia seria da artista distribuir seus adesivos performando no dia da abertura. Porém Beatriz sugeriu uma interação do público, deixando-o que colassem e descolassem os adesivos. O ambiente foi todo planejado para a compreensão e interação das pessoas com as diversas interpretações que a obra possa ter. Apesar do problema ter sido com uma obra específica da exposição, todo o projeto se encontra em meio a um processo judicial por conta da censura que foi imposta. Mas vamos lembrar que a Constituição brasileira de 1988 assegura no Art. 5º- IX – “É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença.” e no Art. 220 — “A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição.” Assim sendo, esse ato é mais um buraco da política que estamos vivendo em 2020.

1. 2. Imagens disponibilizadas pela artista. 17


“Buraco” vai além da imagem do cu Obra pensada e desenvolvida a partir da residência artística Experiência Lote 84, Buraco vai muito além da fotografia do seu cu, a artista propõe diversos debates, ainda mais pensando onde ela seria exposta. A galeria Municipal de Balneário Camboriú é perfeita para mostrar um dos sentidos, pois o lugar está em ruínas, assim como, descrito no título da exposição, o buraco existente no telhado dificulta a realização de alguns trabalhos e consequentemente algumas exibições. A obra de Luluca foi pensada e manipulada para se encaixar neste lugar. Ao adentrar no espaço, deparamos com o adesivo ampliado no chão do tamanho da abertura do teto, denunciando o buraco existente. A imagem da obra não se limita somente a uma parte do corpo. É um buraco no teto; um buraco na gestão do local; um buraco de como está sendo cuidado esse espaço; um buraco nas políticas culturais; e por fim, esse enorme buraco que está se criando na nossa constituição. A obra não foi planejada para ser um simples punhado de adesivos distribuídos na galeria. Criou-se um ambiente com música, iluminação, incensos, no qual os adesivos foram posicionados estrategicamente: no chão, no espelho, no banheiro; na altura do rosto.​Quem observa tem sua imagem justaposta ao cu. Os adesivos no chão é uma alusão ao ditado “quem nasce com o Cu pra Lua tem sorte”. Tornando-se uma obra divertida, irônica e política. A artista acredita que o “Buraco” (CU) liga as pessoas de alguma forma. Não é a toa que essa palavra não sai do nosso vocabulário cotidiano. O Cu está na boca da nossa sociedade, apesar de termos que repensar o modo que utilizamos esse termo, pois sempre é de uma forma negativa e este orifício – ou o que fazemos com ele – não deve ser negativo e sim, prazeroso. Além dos vícios de linguagem de botar o cu em tudo, também temos que lembrar que é uma parte do corpo democrática, até mesmo porque “quem não tem um ânus?” (PRECIADO, 2017, p.32). Em conversa com a artista, ela fez uma analogia muito interessante onde diz que: “os lugares onde vivemos ou frequentamos deveriam ser tratados como um Cu, pois precisa de carinho, saúde, afeto, delicadeza, compreensão, entendimento e desconstrução. Temos que aprender a lidar com a nossa sociedade e com o nosso país dessa forma.” Tudo isso se encontra nos diversos tamanhos de adesivos que Luluca traz para a exposição “Ruína”.

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Obra “Buraco” da exposição Ruína, censurada pela Fundação Cultural de Balneário Camboriú, em Santa Catarina, em fevereiro de 2020. Foto: Mariana Sais.

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Outro ponto que Luluca levanta é do corpo na arte não ser legitimado como político, principalmente, os corpos das mulheres. O corpo feminino – na sua grande parte quando entra em uma instituição – é um corpo objeto, belo, algo que deva ser admirado e, na maioria das vezes, são corpos femininos pelo olhar masculino. Quando a mulher põe o seu próprio corpo nu em uma galeria e não é pra ser um objeto de admiração ou sexualização, acontecem essas polêmicas que estamos vendo. Esse é um pensamento que não se restringe somente ao Brasil.

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Obra “Buraco” da exposição Ruína, censurada pela Fundação Cultural de Balneário Camboriú, em Santa Catarina, em fevereiro de 2020. Foto: Mariana Sais. 21


Há, hoje em dia, diversos grupos de historiografia feminista que vêm pensando essas questões. Trago dois exemplos de movimentos: o primeiro é o grupo de artistas estadunidenses Guerrilla Girls, artistas que indagam sobre como o corpo da mulher entra nas coleções e galerias de arte, assim como, a não representação de mulheres artistas dentro das coleções. Além deste fato, põe a mulher no lugar de submissão masculina, pois ela só aparece se um homem à “representar”.

Disponível no site do MASP.

O segundo é o Mulheres nos Acervos que existe em Porto Alegre (RS). O grupo de pesquisadoras fazem um levantamento de números de mulheres e obras de mulheres dentro dos acervos públicos da capital gaúcha, mostrando que, infelizmente, a porcentagem de mulheres artistas é de 32,02%. Esse dado fica mais injusto quando ouvimos a fala da vice-diretora do Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Profª Drª Daniela Kern, que declara que “desde a sua fundação, há mais mulheres nas turmas de artes visuais do que homens”3. Então, a conclusão óbvia é que essa proporção está errada e novamente injusta. Hoje, Luluca diz que diversas pessoas veem e relacionam a imagem de sua obra em diversos objetos, como: filtros de café, presuntos enrolados, buracos negros, imagens da internet, umbigos e muitos outros tipos de coisas que não seja o próprio ânus.

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Todas as imagens estão disponíveis no Instagram da artista.


Não é a primeira – e nem será a última vez – que veremos instituições de poder censurando obras e exposições de arte que trazem debates amplos e sociais como o autoconhecimento e o conhecimento do corpo. Trazer o Cu como objeto de arte e de pesquisa desmascara o moralismo e o pudor desnecessários que socialmente temos sobre nossos corpos. Trabalhos como o de Luluca ou a exposição “Cu é Lindo” (exposição realizada em Julho de 2018 pelo artista Kepler Reis, censurada pelo Movimento Brasil Livre) , trazem reflexões interseccionais dos4 nossos modos de pensamentos e atitudes privados e sociais. Assim, finalizo que o Cu não é só uma parte do corpo mas uma possibilidade que temos de prazer, de posicionamento político e, por fim, de liberdade.

3.

1’43’’ até 1’60’’

4.

* REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA PRECIADO, Paul B. (Beatriz). Manifesto contrassexual: práticas subversivas de identidade sexual. Tradução Maria Portgual Gurgel Ribeiro. São Paulo: n-1 edições, 2017. SITES Cu é lindo Diarinho: “Artistas farão debate sobre a exposição censurada” Folha Ilustrada: “Exposição que tem fotos de ânus é censurada em galeria de Santa Catarina” Gauchazh: “Pesquisa mostra que mulheres representam um terço dos artistas nos acervos públicos da capital” Guerrilla Girls Guerrilla Girls no MASP Página 3: “Ruína na galeria municipal de arte” Mulheres nos Acervos youtube.com/E1e-hDBVpp8

Suellen Gonçalves é estudante de Artes Visuais – Instituto de Artes da UFRGS.

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ENTREVISTA

O Buraco da Luluca Em plena quarentena e pelo Zoom, a artista Luluca L. conversou com Chris, The Red, Bruno Novadvorski e Suellen Gonçalves sobre a censura da sua obra “Buraco”, na exposição Ruína. Com a palavra, Luluca:

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A artista Luluca e a obra “Buraco” da exposição Ruína, censurada pela Fundação Cultural de Balneário Camboriú, em Santa Catarina, em fevereiro de 2020. Foto: Mariana Sais.


O mar está engolindo o Balneário Camboriú (BC) e precisa ser feito o alargamento da praia e alguém fez um sticker que é o prefeito com o adesivo do meu cu colado na mão dele e escrito “Vai ter alargamento sim!”. O cu é tão subjetivo pra mim que eu olhei este sticker e pensei: eu não sei se ele é genial ou se ele é cruel. Eu não sei se ele está falando sobre cultura de estupro ou se está sendo super irônico porque o prefeito está com meu cu na mão. Eu não sei se ele está sendo um alerta porque traz toda a questão do alargamento da obra, mas também traz à tona a questão do alargamento de cu porque, na cultura do estupro, é o primeiro lugar que o estuprador quer meter. E é por isto que quando a pessoa quer te fazer um mal, ela manda tomar no cu. Gente, há muitos anos, eu mando quem eu amo tomar no cu - “Por favor, vai tomar no cu bem gostoso”. Inclusive, se as pessoas tomassem mais no cu, elas seriam mais felizes. Eu sou uma aquariana com ascendente em sagitário e lua em virgem e milhões de casas em leão e, por isto, eu coloco o cu para fora, afinal, o cu é meu e eu faço o que eu quiser. Eu não consigo entender este povo que quer olhar pra trás. A discussão de gênero é tão antiga, tão over para mim que eu já estou fora do gênero. Eu sou uma pessoa não-binária, eu gosto do trans. Para mim, o trans vai além da sexualidade. Tem a ver com o sentido do prefixo, de transpor, de transmutar, de ser um transporte. Não vem discutir biologia ou norma religiosa. O irritante dessa norma é que ela quer que você a aceite sempre e não seja como você quer ser. A gente não quer q você não siga a norma se

quiser seguir, a gente não quer obrigar a pessoa a não seguir a norma, a gente sabe que ela existe, mas a gente também acha que novas normas são possíveis e, em pleno 2020, as pessoas ainda têm medo de ver um cu, que nem parece um cu, pois quanto maior o cu vai ficando, mais pixelado a imagem vai abrindo. Então, teve gente que ficou achando que era um buraco negro no universo, uma galáxia. Teve um garotinho que falou: “nossa!!! São conchas!”. Então, entende que quando a pessoa não está apodrecida com estas ideias podres normativas, ela subtrai, teve gente que achou que era filtro de café. Hoje, tenho recebido várias imagens de buracos que as pessoas mandam. De coisas que parecem um cu. Às vezes, me pergunto se o problema foi só o cu em si ou se o fato de que neste corredor, as pessoas entravam, pegavam os adesivos e iam colando. Inclusive, era uma ação muito legal porque as pessoas colavam no chão e era lindo e divertido. Tinha um incenso que fazia muita fumaça e fazia esta cortina de fumaça. O cu é usado como cortina de fumaça. Não é a toa que esta família de milícia e o guru fake deles falam tanto em cu. Eles tudo têm o cu na boca. O bolsonarismo tem o cu na boca. São as pessoas que ainda usam o cu como ofensa. Teve gente que foi me ofender no Twitter da folha. E assim, eu nunca mais vou sair na folha enquanto artista, mas eu estou lá porque fui censurada. Foi uma situação muito dicotômica porque ao mesmo tempo que eu acho que eu não queria estar em outro lugar, porque eu não vou fazer arte que não seja um conteúdo gerador de polêmica e, inclusive, foi uma das coisas que fundação disse, que a obra

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não poderia ser exposta por isso, que era um conteúdo gerador de polêmica, que não era arte. E sei lá, quem sabe eu não seja artista mesma, que sabe eu seja outra coisa, pois se arte não é isto, eu não quero ser artista.

Foto: Mariana Sais.

Esta experiência me trouxe umas certezas que é o seguinte: a pessoa que julga obras como polêmicas é sempre aquela que nunca enfiou os pés numa fucking exposição. Muitas vezes, por causa da internet, as pessoas nem sabem o que é. No caso da Ruína, os veículos da mídia não conseguiram ter acesso, pois a exposição abriu em um dia e fechou no outro e já teve treta e já estávamos falando disso e ainda estávamos sem as fotos da abertura. Assim, a mídia falou disso com uma foto do meu conceito da obra que foi mandada para curadora que não dava a ideia correta do que era a obra de fato. Então, era tudo muito superficial, sem aprofundamento.

E nas muitas coisas que saíram nas mídias, tanto da imprensa quanto de pessoas que compartilhavam, tinham algumas que adoravam escrever: botando o cu na galeria com dinheiro público. E aí, parece que artista não é cidadão. Que o imposto não é meu também.

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E muitos comentavam sem nem saber de todo o contexto. Eu escrevi um projeto, eu participei de um edital e passei e algo que gosto de deixar bem claro é que as pessoas sequer sabem como funciona a seleção de um edital, a quantidade de explicação que tem que ser dada e o quanto as burocracias em uma cidade como Balneário Camboriú são transpostas. As pessoas não têm o menor ideia de como foi todo o processo de realização até a concretização da exposição e tudo isto era aberto, estava lá para qualquer um ver, mas eles não se envolvem porque não querem e na abertura da exposição, teve mais de 80 pessoas, algo que a gente não vê em BC. E vale dizer, dentro de uma galeria caindo aos pedaços. Eu tive um site specific na entrada do Teatro Municipal que apodreceu durante um ano lá dentro, pois não existe um cuidado. Tem que ter técnica, montagem, educativo, segurança para obra. O conceito todo do que é arte, cultura, o que é produzir arte contemporânea, do que é dar espaço de fala está muito atrasado, retrógrado, perdido. E as coisas foram tão manipuladas, tiradas do contexto, que eles acabaram por fechar a galeria por falta de manutenção, ou seja, a galeria foi interditada e a conversa sobre a censura dissipou.

Foto: Mariana Sais.

Ouça a entrevista.

E aí, eu aprendi outra coisa, o DOPS 2020, a cartilha da censura tem um modo de operar. Assim, eu quero ter o direito de poder fazer as minhas coisas tanto quanto eu quero que as pessoas tenham o direito de fazer as delas e é por isto que eu gostaria que as pessoas pudessem aceitar meu cu dentro da galeria.

*

Luluca L é artista visual, performer, bailarina e coreógrafa, intérprete fotográfica, produtora cultura e de bem estar na TUDO!. 27


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Daniel Young


Obras sem título em lápis de core óleo (2020).


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O Poder do Cool por ABHIYANA

Cu não tem gênero. Nesta simples afirmação encontramos a essência poderosa do cu. Poderia, inclusive, finalizar esse texto por aqui mesmo, mas não vou. Cu é um assunto que não tem fim. Não é de hoje que me sinto uma militante do cool - defendendo sua potência, incentivando seu uso e explorando lindamente minha sexualidade através dele.

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Cu é tabu, e isso é o que mais me atrai nele. Provoca, pisca, desconcerta, goza. Cu goza. E uma gozada pelo cool é uma iguaria. Curioso, a primeira vez que dei meu cuzinho foi em cima de uma mesa de jantar. Cu é mágico. Gosto de notar a forma como meus pés tocam o chão depois de uma bela comida de rabo. Tudo fica mais claro e direto. Potente. O poder do cool! E dos destravamentos que acontecem quando a foda anal alcança níveis supremos, beirando à loucura. Se você quer entender o que é catarse, dê o cool. Mas tem que ser pra valer - e sem nenhuma dor. Sim, é possível dar o cool sem dor. É uma compreensão que se alcança; maturidade anal. Outra coisa que aprendi sobre o buraco antigravidez é que é ele quem decide se vai querer ou não determinada piroca. O bicho é autêntico e dono de si. Não deve satisfações e tá literalmente cagando pras suas decisões. Muita coisa mudou na minha vida depois que caguei dando o cu. Com todo peso estético que uma relação sexual carrega, não é muito legal estar de quatro empinadona, dando gostoso seu rabo e de repente cagar no pau do macho. Um vazio inexplicável. Simplesmente levantamos, tomamos banho e continuamos a brincadeira. Ali, adquiri outro tipo de coragem. Dar o cu é divertido e traz muitas curas.

Nota 1: Tomo o cuidado de avisar pros virgens de cu que isso raramente acontece. Não deixem de dar a raba com medo de cagar. Dei muito o buraco antigravidez e essa fita do cocô só rolou uma vez. Nota 2: Todo macho deveria receber uma jorrada de merda no cacete pelo menos uma vez na vida. Entendam como quiser. O mesmo namorado que fudeu meu cool pela primeira vez, também foi o cara que comi o cu pela primeira vez. Comecei lambendo, depois chupando, depois enfiando a língua, depois o dedo, os dedos, objetos e por fim, a tromba de borracha com a cinta peniana. Que tesão maluco que é enterrar uma jeba no cool de um cara. Cu é luz. Exploração, desconstrução, libertação, autoconhecimento, amor e revolução. Tudo isso num buraco só! Quando mandamos alguém tomar no cu, devemos lembrar que antes de mais nada estamos abençoando essa criatura. A cu é soberana, divina, carismática e poética. Não se importa se é ele ou ela, porque é cool.

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Abhiyana é atriz, publicitária, pornógrafa e escritora.

Ilustrações: Yago Goya 31


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Giba Gomes

Vem, gravura linรณleo sobre pรกgina de dicionรกrio, impressa (2020).


Cu na mรฃo, gravura linรณleo sobre pรกgina de dicionรกrio, digitalizada e vetorizada (2020).


* Por que dar o cu é tão bom? por Chris, The Red

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O dia amanhecia. Não tinha forças de levantar da cama, só queria fechar os olhos, dormir e prolongar aquela sensação que se instalara sobre seu corpo, sua mente, sua pele, seu cu. Estava extasiado. Finalmente, realizara o sonho, há tantos anos desejado, da adolescência, quiçá, da infância. Por uma noite inteira, se entregara à volúpia do seu corpo. Se entregara a uma profusão de homens como há tanto ansiava. Paus e línguas e bocas explorando cada milímetro da sua pele sedenta por prazer. Era protagonista, escolhera por anos e anos estar naquele momento. A cada homem que adentrava seu cu, a energia do seu corpo vibrava e ansiava pela porra que lhe encheria o cu lubrificando o próximo pau a lhe saciar. E a cada um que saía, outro entrava. Perdera a conta de quantos foram, não se importava. Só queria satisfazer aquela chama que lhe queimava por anos, que lhe tirava o sono, noites e noites de febre, de insônia, de impaciência, de ansiedade, noites e noites que guiaram para aquele único momento: dar o cu para todos os homens que assim quisesse. Qualquer um. Era só chegar e usar. Meter sem dó. Estava liberado. Autorizado. E assim fora. A noite toda. O dia amanhecia. Estava em exaustão. Com o cu assado. Arregaçado. Arrebatado. E tudo que queria saber é:

— quando seria a próxima vez?

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Chris, The Red é designer gráfico, artista visual, fotógrafo, performer e outras coisas.

Fotos: Chris, The Red Modelo: Daniel Sheridan

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Brent Ray Fraser

Bunda divina, acrĂ­lica e pastel sobre tela (2015).


Anjo da Guarda 1, acrĂ­lica e pastel sobre tela (2015).


Impressão glútea 19, acrílica sobre papel, de Brent Ray Fraser (2019).


Impressão glútea 23, acrílica sobre papel, de Brent Ray Fraser (2019).


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L

iberar o cu não faz ninguém menos homem. Porém, é justamente a noção social de que ser homem é “ter um cu impenetrável” que amarra muitos caras (gays ou não) num regime machista capaz de levá-lo à morte – quando, por exemplo, se limita a não querer fazer o exame de toque para diagnóstico precoce do câncer de próstata. Maldita ignorância! Criou-se um regime heterocentrado em que ser gay é somente uma prática sexual, é somente um cu que é penetrado e/ou um pênis que penetra um cu. Eis aqui um dispositivo desumanizante construído pelo patriarcado: o “ativo” equivalente ao macho alfa hetero comedor de xoxota e o “passivo” como o submisso, escravizado, inferior, que automaticamente traduz uma evidente misoginia, um desprezo e ódio contra as mulheres. Através desse poder binário o que se tem é dominador/dominado, forte/fraco, ativo/passivo, um macho construindo-se a partir de valores que o colocam num pedestal inútil de impenetrabilidade, de inferiorizar qualquer coisa que se associe ao feminino. Se você se percebe “passivo” no ato sexual, não se inferiorize pelo prazer sexual que você possui. Se você ocupa um papel “ativo”, trate seu parceiro de igual pra igual e não caia na falácia de se achar o todo poderoso... até porque quem deseja ser penetrado é o verdadeiro “ativo”, aquele que ocupa uma posição de poder, de controle e de decisão (desde o quê cabe até onde

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CU

O Centro d cabe, se pau pequeno ou grande, se mão ou punho). Se você for versátil, aproveite o melhor dos dois mundos. Só que o fato mais concreto de todos é: um precisa do outro para existir e se manterem como dispositivos de prazer! É bom esclarecer que prazer anal não é coisa específica de gays. Queridos, entendam: o centro do universo é o cu! Todo mundo tem cu, independente do


U

do Universo por Rigle Guimarães

gênero! Portanto, a possibilidade de sentir prazer em ser penetrado ou em penetrar é para todos. Freud sabiamente revelou que qualquer parte do corpo humano é suscetível de erotização e que o corpo é especialmente mais sensível em zonas abertas, nos orifícios onde o intercâmbio pode acontecer. Esse prazer pode levar, inclusive, ao orgasmo anal. O orgasmo representa

o clímax da percepção prazerosa, o qual coincide com a tensão máxima da excitação sexual, ocorrendo uma suspensão temporária dos sentidos associada a descargas energéticas cerebrais que simulam micro-convulsões. Há estímulos sensitivos que implicam em prazer nas terminações nervosas da região do ânus e dos esfíncteres, os responsáveis por boa parte do prazer nessa zona tida como extremamente erógena. Exclusivamente para os homens, a próstata é considerada o ponto “G” do sexo masculino. Seu estímulo pode implicar, em alguns casos, em orgasmos mais intensos e prolongados do que aqueles que ocorrem pela estimulação peniana. A próstata pode ser acessada através do reto ou da massagem no períneo. Entretanto, para atingir esse prazer – e isso vale para ambos os sexos – depende demais do fator psicológico. Eu arriscaria dizer que a pessoa tem que gostar muito de dar. Muito mesmo! Ou no mínimo tem que estar com um parceiro com um nível de química sexual tão elevado que faça-o esquecer qualquer sombra de desconforto comumente relatados – como, por exemplo, os bloqueios históricos causados pela religião ao valorizar a virgindade, o sexo apenas para reprodução e a heterossexualidade. A mente gera estímulos decorrentes dos conceitos comportamentais de dominação e submissão e para isso é recomendável conhecer o outro, o parceiro. O nível de satisfação com a transa e o parceiro precisa estar bem alto, então, preliminares, posições preferidas, gostos individuais, vontade e consentimento

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devem convergir para o que chamo de “a sincronia dos esfíncteres”. Sabe-se que temos dois esfíncteres anais (interno e externo), sendo que o externo conseguimos relaxar e contrair e o interno a gente não tem controle sobre, porém relaxando o externo o corpo vai entender que a pessoa está relaxada e o interno vai relaxar também (faça os exercícios Kegel pra ter mais controle sobre eles!). Importante nunca esquecer de ser generoso na lubrificação para que o sexo anal não passe de uma experiência prazerosa para uma traumática. A melhor dança do acasalamento é aquela que é gostosa para os dois e não apenas para um. Fazer sexo anal (ou de qualquer tipo) sem vontade, apenas para satisfazer o parceiro dificilmente pode dar certo. Se nervoso e ansioso em relação a algo, já dizemos que “o cu tranca”, imagina se o foco é dor, receio de barebacking ou medo de “passar cheque”? As chances de relaxar e

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Centro do Universo, fotografia de Steven Arnold (1989).


sentir prazer se tornam ainda mais difíceis. A vergonha por dar aquela “sujada” ao praticar o sexo anal pode ser tamanha para algumas pessoas que elas desenvolvem traumas que a impedem de querer dar de novo. Na maioria das vezes é quem suja que se sente constrangido, mas vale lembrar que quem está no “papel ativo” também é responsável por deixar o parceiro confortável (ou não) com esse indesejável incidente. Subiu aquele cheiro na hora do sexo? E você esperava o quê? Pétalas de rosas saindo do rabo? Nem fazendo a chuca mais babadeira de todas dá pra ter certeza absoluta que não vai restar um cocozinho saliente. Aliás, a chuca é algo muito particular e, se feita incorretamente ou com uma frequência muito grande, pode causar problemas, uma vez que a mucosa do reto é composta de células e bactérias (microbiota intestinal) sensíveis, responsáveis pela absorção de água,

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digestão de nutrientes e possuem, ainda, grande papel na imunidade de todo o corpo. Claro que é melhor evitar comer uma feijoada ou alimentos que soltem o intestino antes de transar. Mas e se literalmente deu merda? Que tal levar na boa? Quem tá comendo lava o pau, quem tá dando usa o sanitário e toma uma ducha, ambos fingem que nada aconteceu e retomam de onde pararam. Pior que uma merda no pau é soltar uma merda pela boca e constranger o parceiro que está dando. Afinal, a não ser que ambos curtam scat (sexo em que existe o fetiche por manipulação de fezes), ninguém propositalmente deseja parar o sexo por conta de um cocozinho maroto. Passar cheque não é o fim do mundo. É uma possibilidade, indesejada, mas ainda possibilidade. Se o sexo for de corpo inteiro e existir uma entrega que vai além do ato da penetração, esse incidente será só incidente e não um evento de proporções catastróficas. Fezes não podem se tornar mais importantes de que um encontro sexual prazeroso.

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Universe expanded, técnica mista de canetas de Attsuki (2018).


Como dizem os autores do livro Pelo Cu: Políticas Anais, “existem cus penetráveis ou não penetráveis”. Quebrar o sistema extremista de valorizar um e desvalorizar o outro é o primeiro caminho para o respeito e a igualdade entre homens e mulheres, “ativos” e “passivos”. Derrubem idéias originadas do patriarcado mantenedor da mulher como cria da costela de Adão. A serpente poderia ser a descoberta do prazer anal, entrando com seus mais de 22cm pelo rabo de Adão. Sem mais delongas, não acredite na “perfeição” dos filmes pornográficos. Sexo é muito mais do que aquilo que a gente vê nas telas: é paciência, sincronia e respeito.

* Rigle Guimarães é psicólogo (CRP122809) e sexólogo.

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Joseph Giampietro

Entrada, lรกpis prismacolor e tinta branca em papel cinza (2018).


Banquete, lรกpis prismacolor e tinta branca em papel cinza (2018).


* O Ânus Solar por DUOCU

“...E quando a mim próprio exclamo: SOU O SOL, disto resulta uma ereção integral porque o verbo ser é veículo do frenesi amoroso.” 60


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“Assim notamos que a terra a dar voltas faz coitar animais e homens (e, como aquilo que resulta também é a causa que o provoca), animais e homens quando coitam fazem dar voltas à terra.” 63


“Deitado no leito, ao pé de uma mulher que ele ama, esquece que não sabe a razão por que é ele próprio, em vez do corpo em que toca.” 64


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“O movimento é figura do amor, incapaz de estacionar neste ou naquele ser para passar, com rapidez, de um ser a outro. E o esquecimento que vai condicioná-lo mais não é do que subterfúgio da memória. O homem, como um espectro, é ligeiro a levantar-se de um caixão, e como ele sossobra. Horas mais tarde levanta-se outra vez e sossobra, e sempre assim, dia após dia: grande coito com a atmosfera do céu que a rotação da terra, perante o sol, dirige.” 67


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“Apesar disto, não há vibração que não vá conjugar-se em movimento circular contínuo; como a locomotiva que anda à superfície da terra, imagem da metamorfose contínua. Os seres só morrem para voltarem a nascer, como os fatos que saem dos corpos para entrarem outra vez dentro deles. (...) Coito polimorfo que no entanto está ligado à uniforme rotação da terra.” 69


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“Se o meu rosto se injeta de sangue, fica vermelho e obsceno. Com reflexos mórbidos denuncia ao mesmo tempo a ereção sangrenta e uma exigente sede de impudor e orgia criminal. Por isto afirmo sem medo que o meu rosto é escândalo e só o JESÚVIO exprime as paixões que tenho. O globo terrestre está coberto de vulcões que lhe servem de ânus. E ainda que este globo nada coma, às vezes deita fora o conteúdo das entranhas. (...) Na verdade, o movimento erótico do solo não é fecundo, como o das águas, mas muito mais rápido. Às vezes a terra masturba-se com frenesi, arruinando por completo a sua superfície.”

concepção artística: DUOCU

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“O anel solar é o ânus intacto do seu corpo adolescente, e nada há tão ofuscante que se lhe possa comparar; a não ser o Sol, e apesar de ter um ânus que é a noite.”

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Os trechos d’O Ânus Solar aqui inseridas fazem parte da edição do livro homônimo de Georges Bataille publicado pela Hiena Editora, com tradução de Anibal Fernandes, em 1985, Lisboa, Portugal.

fotos: Bruno Novadvorski

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Baju Wijono


Obras sem tĂ­tulo em acrĂ­lica em papel (2020).


* O cu do Adão por Nathallia Protazio

Andei pensando. Se no Jardim do Édem a Serpente seduziu Eva a comer do fruto e primeiro ela comeu e só depois ela deu do fruto para o homem, sinto muito decepcionar os cristãos presentes, mas o pecado original foi a Eva comer o cu do Adão. Não tenho dúvidas. E mais: foi muito provavelmente numa relação a três com a Serpente a julgar pelos castigos divinos posteriores. Pois, ambos foram expulsos do Paraíso, não só a Eva, por ter começado tudo, mas o Adão também, por ter experimentado. A Serpente não vou nem comentar, não me meto em discussões sobre relação com outras espécies. Enfim, tá tudo lá na bíblia, só não entendeu quem não quis. Tá... Agora você deve estar pensando como esta quarentena tá me afetando, que agora dei pra blasfêmias gratuitas. Alto lá! Tais reflexões, esclareço, nasceram muito antes da pandemia. Há algum tempo este assunto tem povoado minhas ruminações, afinal, metafisicamente, o cu do Adão é público. Imagine comigo a construção da masculinidade sob esta Verdade: o primeiro ato sexual praticado na história da humanidade foi a primeira Mulher comer o cu do primeiro Homem, e então lhe abriram a ambos os olhos. 78


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Verde fresco, aquarela, guache e caneta sobre papel, série Meninos Tímidos, de Jesús Romero (2020).


O grande lance do machismo é colocar a humanidade dividida em dois grandes grupos: homens heterossexuais e o resto. A construção desta masculinidade intocável é baseada numa única diretriz: o pau é a coisa mais importante do mundo e quem a possui penetra, nunca é penetrado. Simples. Uma mulher é um corpo sem pênis. Retira-se metade da população mundial. Um homossexual é um homem que é penetrado. Pronto. A equação funciona. Alguns diriam a existência de um impasse: gay ativo. Pra começar, de acordo com as minhas pesquisas discutindo com integrantes variados do grupo dos excluídos, ou seja, homensnão-heteros, o gay alguma hora dá o cu. Em segundo lugar, até o termo “ativo” pra designar categorias dentro de uma relação que deveria ser de dois iguais é reflexo do machismo. Ativo é aquele que penetra. Cria-se mais uma maneira de ver tudo sob a óptica instaurada. Ou você nunca se pegou analisando um casal de lésbicas procurando a “caminhoneira” e a “feminina”? Portanto, a fórmula foi disseminada e é altamente adaptável. O mundo foi catequisado. Se você tem um pênis e não deixa nada entrar em você, parabéns! Você é superior ao resto da humanidade. Assim se mantém uma ideia de hierarquia supervalorizando tudo que se pode fazer com um pênis num mundo moldado para ver como divertido qualquer atividade que o envolva. Gelo em mictório pra brincar enquanto mija. Sério? Sexo só é sexo se houver penetração peniana. E só foi bom se o dito-cujo

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ejaculou. Estar em casa sem fazer nada, descansando, é sinônimo de “coçando o saco”. Olha aquele cara como é “Boa Pinta”, “Pintudo”. Ter um pênis retira um monte de expectativas das costas desse homem, inclusive com a própria saúde e higiene – não consigo entender como isso é visto como vantagem. Nunca conheci um homem que se enxugasse com papel higiênico. Morrem de câncer de próstata com medo de ficarem de pau duro na hora do exame de toque. Qualé! Encaremos o fato de que a fórmula está furada! A mentira fundadora deste mundo do pecado original ter sido o Adão penetrando a Eva, como um bom casalzinho heterossexual, está com seus dias contados. “Por quê?” – alguns da categoria superior podem estar se perguntando – “afinal está muito bem assim pra mim”. E eu ouso questionar… “Está mesmo, caro colega?”. Ao contrário do que muita gente pensa deus não é onisciente. Por isso fabricou tantos anjos pra ficarem caguetando tudo que os humanos faziam e tantos demônios para corrigi-los. Um dia tranquilo no início dessa história toda deus entra no paraíso e sente o cheiro de putaria. Pronto. O que que aconteceu? Chama os anjos pra saber... Ninguém tem coragem de falar. Chama Eva, Adão e a Serpente. Um joga a culpa no outro. Deus bate na testa cansado. “Típico dessa espécie que criei”. A discussão começa a lhe alterar os nervos eternos e resolve de uma vez: “Azar! Vai todo mundo ser expulso dessa porra!”.


Ficou tão decepcionado que resolveu ir criar outros universos e colocou um anjo pra cuidar dos portões do Paraíso, a fim de que nenhum ser humano colocasse mais os pés lá – por puro ressentimento, penso eu – e outro anjo pra registrar a história com o intuito de não se esquecer deste erro pra evitar repeti-lo em outras dimensões do seu jogo. O problema é que o anjo que foi anotar tudo era distraído e deu no que deu. Adão tomou no cu no paraíso e fora dele foi amaldiçoado com a responsabilidade de ser o provedor de todos ao seu redor. Ou seja, aquele tipo de promoção que alguns chefes gostam de dar, mas que por falta de preparo é uma puta de uma cilada. O Adão se fudeu. Ele não era machista, coitado, só foi ingênuo e inocente. O machismo veio depois, uma maneira diferente de contar as desvantagens que caíram nas costas dos seus filhos subjugando o resto da humanidade. Ou você ainda acha que carregar toda esta agressividade, tendo de estar pronto o tempo todo pra uma possível briga com os outros indivíduos, é uma vantagem? Foram também bons todos esses dias que você quis chorar e, ainda criança, não pôde, afinal, meninos não choram? Não choram nem conversam sobre seus sentimentos, abafando tudo e passando pela vida sem entender muitas coisas por falta de abertura pra dialogar com outros homens. A ciência avança nos estudos da influência da tristeza e estresse emocional como fator de risco para doenças crônicas e cânceres, mas ainda não vemos os homens

povoando as cadeiras dos psicanalistas para resolverem os problemas que lhe afligem por conta de um sistema criado por uns antepassados preguiçosos e cheios de ódio. Não, não é normal viver como uma ilha protegido pela violência gratuita distribuída a qualquer situação confusa ou incompreendida só porque você carrega todos os dias a responsabilidade universal de ter um pau e por isso tem o dever de saber tudo. Sabemos agora a Verdade. E como já foi escrito, “a Verdade vos libertará”. O primeiro cu a ser penetrado foi o do Adão e isso muda tudo. O que acontece agora com a masculinidade? Vamos inverter os papéis e criar um sistema de dominação no qual as mulheres comerão os cus dos seus parceiros e terão os maiores salários? Vamos criar piadinhas e manter os jargões “cuzão”, “teu cu”, “vai tomar no cu” e tantos outros, pra figurar atitudes negativas? Não. Simplesmente esta possibilidade não existe por um fato inegável e imutável: cu todo mundo tem! A partir do momento que assumimos como sociedade que o ponto de partida da construção do mundo é o cu, não cabe mais nenhum sistema sócio-cultural de dominação. No âmbito do cu todos são iguais, apesar de cada um ter o seu.

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Nathallia Protázio é pernambucana, brasileira, tataraneta de negra e índia, farmacêutica nas horas ocupadas, leitora nas horas vagas e escritora nas mais difíceis. 81


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Jesús Romero

Luvas e meias, aquarela, guache e caneta sobre papel, série Meninos Tímidos (2020).


Tênis preto, aquarela, guache e caneta sobre papel, série Meninos Tímidos (2020).


Chapéu vermelho, aquarela, guache e caneta sobre papel, série Meninos Tímidos (2020).


Primeiro plano, aquarela, guache e caneta sobre papel, sĂŠrie Meninos TĂ­midos (2020).


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ESPECIAL

Todos os olhos por Filipe Chagas

Nascida como uma transgressão quase fatal, a polêmica capa de Todos os olhos – quarto álbum do cantor brasileiro Tom Zé – tornouse cult e referência: é uma das capas mais premiadas da música brasileira. Em 2001, quase 200 personalidades da música elegeramna a segunda melhor capa da MPB de todos os tempos, atrás apenas do primeiro disco dos Secos & Molhados, também de 1973.

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Apesar de inserido no Tropicalismo, o álbum foi considerado experimental demais pela crítica, o que levou o cantor ao ostracismo e quase ao fim de sua carreira. Somente no início da década de 1990 o álbum passou a ter reconhecimento após uma retomada artística internacional. O conceito da capa do álbum partiu de Décio Pignatari, importante poeta concretista e sócio de um agência de publicidade, e amigo próximo de Tom Zé. A ideia sempre foi fotografar um ânus com uma bola de gude, como uma afronta à censura imposta pela ditadura militar. Chico Andrade, um dos sócios da agência, contratou uma prostituta para testar. Outro sócio – o hoje Reinaldo Moraes – entrou em contato com uma namorada ocasional que era fã do Tropicalismo e ela topou servir de modelo, mas o ensaio não foi fácil: conta-se que os dois foram a um motel de caminhoneiros e tentaram realizar as fotos durante vários minutos e em diversas posições, dada a dificuldade em manter a bolinha de gude parada no ânus. A moça ficou constrangida, mas Reinaldo insistiu até obter as fotos. Por fim, foram embora sem se falar. De volta ao estúdio, os sócios acharam as fotos explícitas demais e decidiram mudar a estratégia: os lábios contraídos formam frisos que em muito se parecem com um ânus, porém, com uma leve maquiagem (já que não tinha Photoshop na época), ficava mais sutil. Então, foi pedido que a modelo deitasse no chão e colocasse a bolinha de gude na boca. As fotos ficaram

perfeitas logo na primeira tentativa, e foram impressas na capa do álbum. Ao saber da história, Tom Zé teria ficado aflito com toda a situação, mas só soube que se tratava de uma boca algum tempo depois: Hahaha! Então me enganaram esse tempo todo! F.d.p., me enganaram! Hahaha! E que alívio! A moça não precisa mais ter vergonha. E pode se congratular de ter sido personagem de uma rebeldia. Em 2011, Chico Andrade resolveu postar em seu blog um dos testes feitos com a prostituta e o mundo achou que era realmente um ânus retratado. Reinaldo desmentiu, mas diz que hoje essa história já não choca e só perguntam a ele se a bolinha de gude foi lavada para o segundo ensaio. Como o próprio Tom Zé disse em uma entrevista: Agora, não adianta contar. Hoje eu estou contando isso, amanhã todo mundo vai dizer que é mentira porque a história do cu é muito mais interessante.

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Alexandre HaussĂŠ


Obras sem tĂ­tulo em lĂĄpis, aquarela e nanquim (2020).


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TESE

Caderno Meu Cu por Fabio Gatti Capítulo resumido de Fotografia em quatro atos: narrativas improváveis sobre a imagem e sua feitura, tese de doutorado do artista visual Fabio Gatti no Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas (2013), publicada no Fórum Latino-Americano de Fotografia de São Paulo.

Excerto da Introdução

Capa ‘Y’, fotocolagem, 2007.

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O Caderno Meu Cu dá nome ao último capítulo desta pesquisa e se constrói como um conto pornográfico onde o diálogo existente é entre uma pessoa que perde o ânus durante uma cirurgia e outro personagem de nome Dédalo. O texto conta as aventuras sexuais e reflexivas deste casal no percurso da criação das páginas do caderno. A ideia da pornografia foi sugerida primeiramente pelo título do próprio trabalho iniciado em 2007 e fortalecida, posteriormente, pela leitrua de “História do Olho” de Bataille. É um texto muitas vezes incômodo pela aplicação de palavras fortes. O diálogo tem como base uma mistura de alguns poucos elementos autobiográficos e outros completamente imaginários, jamais ocorridos.


Cresci com uma família cujas origens nunca foram claras, assim como também jamais soube definir meu sexo nem meu gênero (os médicos tentaram e me estupraram). Não sou uma pessoa atormentada, apesar de ter motivos de sobra para isso. Sou neurótica! Mas quem não é? Todas as vezes quando estou de frente ao espelho, vejo os olhos puxados dos ancestrais do Oriente; os cabelos cheios e crespos dos bisavós africanos; a forma corporal e o tom de pele dos ascendentes árabes; a lembrança (porque me contaram) do nascimento ocorrido no Vale do São Francisco; as cicatrizes da transferência para Ciudad del Leste durante a adolescência, para certos tipos de tratamento corporal e, sobretudo, o fato inglório de não poder ver refletido meu verso. Meu cu. Nasci abençoado (o que menos importa pra mim é o artigo de gênero) com quatro órgãos sexuais essenciais: boca, cu, pau e boceta. Todos perfeitos até aquele dia ao qual chamei de ‘Y’, pois essa forquilha permanece como cicatriz após a cirurgia. Nunca compreendi por que não podia falar sobre minhas vontades. Quando crianças, deveríamos ao menos ter o direito de cuidar de nosso próprio corpo. O ‘Y’ tirou meu cu. Hoje não cago. Sinto falta do meu róseo cu. Usava-o muito, fisiológica e sexualmente falando. Sempre soube de sua dupla função: ejetar e injetar. Meu pai (35) me ensinou os truques da injeção desde os três anos. Depois dele, meu tio (30), irmão de minha mãe, e o pároco local (52). Finalmente o vizinho, que era gago, mas lindo, e por quem sempre tivera certa atração. Naquela idade eu já sabia sentir e, mais do que isso, sabia a exata diferença entre sentir

e agir. Dédalo (18) – como o nomeei – e eu (10) éramos conhecedores do fim de nossa história e, justamente por isso, entregamo-nos infernalmente ao torpor e à ardência de nossos próprios labirintos. “O que na realidade nos tangia não era tanto o barulho, a contradição, a atitude contestatória per se, e sim a questão elementar daqueles dias (como dos nossos) que se resumia na pergunta: Para onde?” (Richter, 1993). A ausência de um ânus para chamar de meu transformou-se em obsessão! Sem cu, procurei tantos outros quanto fosse possível encontrar com a ajuda de Dédalo, que era bastante proativo. Surpresa pela quantidade de ofertas recebidas, resolvi catalogá-los – como histórias distintas e obviamente avulsas – unidos apenas pelo tema, em páginas de um caderno com folhas beges (meu tom de pele), vermelhas (sangue e escatologia) e uma folha rosa (o tom do meu cu). Nas 41 páginas habitam 34 fotografias, pois algumas dessas imagens-histórias foram concebidas em página dupla. O despertar para a criação deste relato é a falta do cu. Todas as figuras contam as minhas aventuras infanto-juvenis experimentadas com Dédalo – dos dez aos treze anos, aproveitando inclusive a véspera de ‘Y’ (este dia era-me anunciado desde a precoce menarca ocorrida aos oito). Atualmente tenho dúvidas sobre a existência de Dédalo e também acerca do modo como construí este Caderno. Confundo-me constantemente com a temporalidade horizontal, não sei mais em qual tempo vivo. Apenas uma certeza me cerca: “tudo o que se olha é falso” (Tzara, 1987).

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O vizinho não era apenas um excelente amante, mas um companheiro exemplar. Passava horas emudecido quando na presença das pessoas comuns, porque se envergonhava de sua gagueira; para mim, seu maior charme. Franzino, alto, olhos apertados cor de jabuticaba madura, pele negra cheirando a madeira úmida, lábios proeminentes em tom de ganache, dedos extremamente longos. Passados três dias da cirurgia, soube de ‘Y’ como cicatriz e, no mesmo instante, solicitei a meu tio – sim, ao irmão de mamãe – os objetos que precisava para executar o Caderno Meu Cu. Ele piedosamente os trouxe. O primeiro objeto retirado da maleta foi a câmera fotográfica (presente de papai), minha companheira inseparável a partir dos três anos. Com ela documentava os close-ups, planos mais abertos da cena e retratos dos corpos das pessoas com as quais tive algum tipo de envolvimento, mas principalmente do vizinho. Saquei um instantâneo de ‘Y’ e o tornei capa, ou seja, abertura. Perdi meu principal diafragma, porque aquele outro da região estomacal não serve de nada quando se tem um bom períneo. Foi difícil fazer aquela fotografia. Tremia bastante e a sensibilidade fílmica era reduzida. A imagem saiu borrada, mas o ‘Y’ intacto. Devo lembrar que a falta do cu me fez perceber a existência do outro, por um viés singular. Se uma pessoa dotada de boceta e pau já era vista como aberração, imagine essa mesma pessoa sem cu! A diferença, em geral, só é vista com bons olhos pelos diferentes; do contrário, ou tem-se comoção ou repúdio! Diante disso, juntamente com ele, me perguntava novamente: para onde? Antes mesmo de conhecê-lo, essa dúvida era-

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me tão próxima e cotidiana, quanto a morte é da vida. Essa intimidade abria um espaço sem regras, onde a diferença pode acontecer. Era um lugar ideal, ilusório, porém aprazível e necessário. Eu era, antes de tudo, uma transgressora. Não cabia naquela realidade, apertada e comum. “Aquele que transgride não apenas quebra uma norma. Ele vai a algum lugar aonde os outros não vão; e conhece algo que eles não sabem” (Sontag, 1987). Esse é meu lugar e dele soube aproveitar. As delícias da transgressão rotulam-me imprópria aos demais. Havia Dédalo, estava satisfeito. Ele era e é o único permanente; o resto, meu cu pra eles! No dia anterior ao ‘Y’, ocorreu o primeiro embate físico e sexual entre nós. Ele foi à minha casa, como usualmente, pois éramos vizinhos naquela época. Era um conjunto habitacional popular, posteriormente modificado pelas reformas condicionadas à melhoria financeira de cada família ali residente. Ouvi a campainha logo após o almoço. Minha mãe havia se deitado, como fazia todos os dias da semana. Ela era dona de casa, e a dele, funcionária pública. Ele tinha a responsabilidade de cuidar de seu irmão menor, o qual dormia praticamente a tarde toda, mas era mais meu amigo, pela proximidade de faixa etária. Fui ao portão e Dédalo convidou-me para ir à sua casa brincar. Recordo perfeitamente dele vestido com chinelos de dedo e uma bermuda macia de moletom azul marinho. Estava sem camisa e com a voz instável, mas como era gago, não estranhei. Obviamente fitei, de modo rápido e quase imperceptível, aquele lindo e grande volume, sobre o qual, suavemente, deitava-se o tecido de sua única peça de


roupa. O desejava de algum modo, não exclusivamente carnal. Quando finalmente cheguei à porta principal de sua casa e olhei para dentro, ele estava sentado, com as pernas abertas, assistindo a um programa na televisão com volume bastante baixo. Logo perguntei: Onde está seu irmão? Ele respondeu: Entra aí. Senta aqui do meu lado. Ele está dormindo. E ao dizer esta última palavra, olhava na direção de um dos dois quartos da casa – provavelmente onde estava o irmão – e para seu órgão sexual, sobre o qual lançou uma lenta e leve patolada com a mão esquerda. Entrei e sentei ao seu lado (existia apenas aquele sofá). Foi-me solicitado falar muito baixo e, tomado por uma descarga química interna, optei por emudecer.

Eu queria e não queria simultaneamente. Disse não por inúmeras vezes, mas ele insistiu, até conseguir. Algo em mim me fazia ficar, não gritar, não chorar e, muitas vezes, gostar. Tirou meu uniforme escolar por completo e meus chinelos, deixandome apenas de cueca. Ele tocou meu corpo todo calmamente (era parte do exame). Dentre as ações executadas, ilumina-se na memória apenas o sangue gerado pelo rompimento de minhas pregas, devido à penetração de seu enorme membro. Com este sangue pintei a primeira página do Caderno e escrevi, para anular as dúvidas, as definições das palavras cu e meu. Aquela densa coloração marcou os alvos lençóis de sua mãe – a esta altura havíamos trocado de cama. Impossível esquecer este dia, pois foi o último dia de vida de meu cu.

Ele levantou, pegou em meu punho esquerdo com sua mão direita, deixou a TV ligada e fomos ao quarto principal, de sua mãe, cujas janelas tipo basculante abriamse para a rua. Fechou a porta cinza do quarto e passou a chave, trancando-a. Eu muda, atônita, curiosa; observando tudo. Primeira vez sem saber como agir; apenas sentia. O quarto era grande e dividido por um guarda-roupa, de um lado a cama de sua mãe, do outro a cama de solteiro de seu irmão mais novo. Colocou-me deitado sobre a cama de seu irmão com a barriga pra cima e disse: vamos começar a brincadeira. Havia levado comigo minha maleta de fotografia, ele pegou a câmera e começou a fotografar nossa suposta recreação e disse: farei alguns exames em você para saber qual remédio precisa tomar. Não consegui esboçar reação alguma, exceto olhar pantomimicamente em seus olhos.

Dédalo havia sido aprovado no vestibular para cursar história, estava no segundo ano. E eu adorava escutá-lo contar sobre suas descobertas, dúvidas, verdades e mentiras. Ao contrário de todas as pessoas, o esperava completar a frase, não atropelava sua gagueira. Eu queria, como profissão, ser mágico, e encontrei nele uma espécie de magia suficiente para suprir minhas deficiências. Fui obrigado a amadurecer muito cedo, a aprender distinguir a obrigação do erro, e este do acerto. Cada um tem sua sina, a minha era não ter cu. Com ele sentia-me segura, à vontade, livre e pronta para falar sobre a vida, a minha e a dele, jamais a nossa. Nossos encontros eram proibidos e camuflados. Eu produzia o trabalho no Caderno e com ele conversava sobre cada página finalizada. Ambos sabíamos que “o conhecimento sensível é capaz de captar a realidade das coisas somente enquanto

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lhe figura, e portanto lhe produz e lhe forma a imagem. Mais precisamente, uma imagem tão bem feita que seja capaz de revelar, ou melhor, seja a própria coisa” (Pareyson, 1993). Ele considerou laudatória a Página 01 – “Segundo Aurélio”, justamente por ser nós. Não podia ser diferente. Era obrigado a iniciar o Caderno com duas das coisas relevantes: o sangue saído do meu cu e a última fotografia deste, feita por Dédalo, enquanto brincávamos. Após a cirurgia fui proibida de falar de meu órgão ausente em casa, praticamente proibida de pensar nele, exceto em companhia do vizinho. Ele, durante nosso primeiro e único ato, leu-me o mais ilustre poema intitulado “Soneto do olho do cu”, cuja parte mais

Página 01 – Segundo Aurélio, fotocolagem, 2007. 94

tocante, a meu ver, dizia: “Filamentos tais como lágrimas de leite / Choraram, sob o vento cruel que os repele, / Através de coágulos de barro em pele, / P’ra se perder depois onde a encosta os deite” (Rimbaud e Verlaine in Silva, 2011). Agora me resta saber por onde andará o olho do meu cu e o que enxerga nos lugares pelos quais passeia. Qual a consciência de um cu viajante? Como posso transfigurar sua ausência em presença, senão fazendo dele meu objeto, minha matéria? Não há respostas possíveis a você, minha cara, intrometia-se Dédalo em meu pensamento. Convém-lhe encarar os fatos. Mas já que suas dúvidas são autênticas, posso lhe dizer que: “a arte (e fazer arte) é uma forma de consciência; seus materiais

Página 02 – Ânus, cu, rabo, rego, cofre, fotocolagem, 2007.


são a variedade de formas de consciência. Nenhum princípio estético pode fazer com que essa noção da matéria-prima da arte seja construída excluindo-se mesmo as formas mais extremas de consciência, que transcendem a personalidade social ou a individualidade psicológica (Sontag, 1987). Daí a necessidade em repensar o canal antes prioritário do sentir (contemplação) em relação ao fazer (formatividade). É assim que atingimos o estado de ser a própria coisa. Dizer que a espiritualidade viva do artista é o conteúdo da arte é o mesmo que dizer que quem faz arte é uma pessoa única e irrepetível; e esta, para formar sua obra, se vale de toda a sua experiência, do seu modo próprio de pensar, viver,

Página 03 – A falta do rabo, fotocolagem, 2007.

sentir, o modo de interpretar a realidade e posicionar-se diante da vida (Pareyson, 1993). Colocado dessa maneira, soa como se meu objetivo fosse exclusivamente externalizar, como num processo de expurgação, meus sentimentos. Não! Não confunda as coisas, explicava ele. Continuando em tom endurecido, gaguejava: “em toda operação humana sempre está presente o sentimento […]. Todas as operações humanas são portanto sempre expressivas. Por isso também a arte é sempre expressão de sentimento. Ou melhor, pode-se também afirmar que se não o fosse nem seria tampouco arte, pois lhe faltaria aquele caráter de humanidade total que é indispensável condição para o bom êxito de toda obra humana, artística ou não artística. Mas não o é de

Página 04 – Existencialismo fecal, fotocolagem, 2007. 95


modo intencional e privilegiado, pois a intencionalidade e o privilégio da arte são a formação exercitada em vista da forma por si mesma” (Pareyson, 1993). Assim tentávamos discutir mais atentamente certos pormenores durante a feitura de cada página do Caderno. Vista minha impossibilidade em falar do cu, optei por fotografar coisas, pessoas e situações relacionadas a ele, incluindo-se também as fezes de todos os moradores da casa onde habitava. Realizei 37 chapas de um negativo colorido; à câmera estava encaixada uma lente fixa de 50 mm, acrescida de filtros close-up. Essa experiência dava-me a sensação de pertencimento; como se, ao estar tão próximo daquele excremento, ele fosse saído de mim. Ficava inebriada com as cores e os odores. Os filtros tornavam obrigatória nossa aproximação. Quase mergulhada na privada, a 10 ou 12 cm da merda, sentia-me inteiro. Quando você não pode mais defecar é capaz de comer a bosta dos outros.

Autorretrato, fotografia de Andres Serrano, 2008.

O vizinho me lembrou do trabalho de alguns artistas como Piero Mazoni, que manteve a sua própria merda enlatada e Wyn Delvoye, cujo sistema digestivo maquinal embalou a vácuo a merda produzida. Entendi que, diferente deles, meu desejo não era manter o excremento guardado em si, mas sim tomá-lo como imagem e, por isso, a experiência da proximidade era mais importante que o objeto. Eu queria um cu e só podia tê-lo na merda alheia. Identifiquei-me melhor com Andres Serrano em seu Shit Show. Uma variedade de merdas de diferentes animais,

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Autorretrato com excrementos, fotografia de David Nebreda.


focalizadas com bom tratamento luminoso, fundo colorido e ótima profundidade de campo, uma ode ao cu. Não eram mais merda, e sim uma exaltação dela, um lado visualmente agradável da bosta. Serrano, de certo modo, desconfigurou a imagem da merda com seus truques de estúdio. Sem uma nudez explícita do objeto, diferente das fotografias que produzi, talvez ele procurasse justamente inverter o jogo, modificar o horror e o asco que sentimos de nossos próprios dejetos, para um estado de simpatia e prazer. Não fossem os títulos demasiadamente descritivos, ficaríamos em dúvida sobre a origem de algumas imagens. Perderam suas nuances originais e se assemelharam a creme de chocolate ou pasta de amendoim. Mas este é seu jogo, entre o visto e a informação escrita não existem diferenças, apenas surpresas.

Percebi em Nebreda uma relação mais íntima com a intensidade desejada para minhas 37 chapas. A imagem é direta, objetiva, e “o mecanismo acabado e exato evidencia, por sua estrutura econômica, a alegria de seu funcionamento poético” (Dalí, 1927, in Fontcuberta, 2010). Estupefato com a força do seu trabalho, estacionei os olhos sobre seu autorretrato e acelerei o pensamento. Sentia-me viva! Milhares de centenas de ideias e relações passavam ao meu alcance. Sem poder apanhá-las todas, lancei algumas questões para o vizinho: Qual outro autorretrato pode ser mais verdadeiro do que esse? De que outra maneira seria possível aproximar estes dois polos do mesmo tubo? Vê esta imagem como um retrato de sua esquizofrenia ou de sua lucidez?

Dédalo ainda recordou de outro artista cujo trabalho tinha uma exuberância e potência ímpares: David Nebreda. O vizinho contou toda a biografia desse sujeito espanhol, mas, sinceramente, não visitei seu trabalho pelo viés exclusivo de sua história pessoal, porque isso reduziria sua produção visual aos esquemas clínicos, e meu interesse se instala em visitá-lo pela sua forma de tratar o individual encerrado na socialidade. “A obra de arte, portanto, revela-se a cada um na sua maneira: ela realiza o mais difícil conceito de socialidade, que é aquele de falar a todos, mas a cada um individualmente. Isto pode parecer o extremo da atomização porque individualiza o comum; é ao contrário o máximo da socialidade, já que socialidade implica personalização (Pareyson in Napoli, 2008).

Página 05 – Meu cu, fotocolagem, 2007. 97


Páginas 06 e 07 – O avesso do ânus, fotocolagem, 2007.

A primeira coisa a ser considerada, respondia ele, é a crueza da imagem. Sua sensação de vida (completude) é decorrente do enfrentamento com o nada (morte). O que nasce na boca morre no cu, não é mesmo? O avesso do ânus é a boca! O avesso da vida é a morte! Ou seria da morte a vida? Afastemo-nos da categoria do absoluto porque este autorretrato é a verdade dele, a sua é outra. As outras páginas que você criou, páginas 06 e 07 – O avesso do ânus, páginas 22 e 23 – Entre parêntesis, páginas 32 e 33 – A lição, e página 36 – Beijo grego, realizam esta mesma conexão com o tubo. Vejo e verei como um retrato da mestiçagem entre o ser e o não ser, nada clínico. Há de convir comigo acerca da impossibilidade em dissociar o individual e o genérico, afinal

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de contas comungou desta ideia, em outras palavras, ao falar da socialidade. Nebreda não retrata somente a si embebido em sua própria merda, mas a nós; por isso você se identifica. Reproduzi incansavelmente algumas das minhas imagens prediletas daquelas chapas, lembra-se? Sou um colecionador de traças, nem sei mais o que tenho. Por vezes penso na falta do cu como a chave do colecionismo. Uma necessidade de reposição constante, de controle, de manutenção e de atenção. Ao mesmo tempo, esses retalhos mantidos arquivados servem aos propósitos da execução de cada página. São pedaços de nossas vidas coladas, sobrepostas, algumas muito verdadeiras, outras nem tanto. Trabalhei


Página 08 – A corpo ausente.

Páginas 14 e 15 – Arte para Fer.

Página 09 – Salmo 50.

Páginas 16 e 17 – Questão RM.

Página 11 – O gozo.

Página 19 – A hora.

Página 12 – João 19.

Página 34 – O retrato.

Página 13 – Testamento. Página 18 – Oitavo artigo do credo.

Fotocolagens, 2007/2013.

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Páginas 20 e 21 – Festa de gala, fotocolagem, 2013.

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Páginas 22 e 23 – Entre parênteses, fotocolagem, 2013.


bastante próximo de Geraldo de Barros ao aproveitar meu arquivo, minhas sobras, meus fragmentos. Inversamente a ele, não trouxe “à luz imagens de uma vida inteira”, mas assim como ele tentei reescrever, seletivamente, uma história “com o obsessivo desejo de fazer emergir a fantasia da recriação” (Fernandes Júnior, org., in Barros, 2006). Sabe quando as coisas começam do nada, como acreditavam os teóricos da abiogênese? Por vezes eu pensava em simplesmente esperar, crendo neste movimento como criador de algo. Quanta estupidez! Deveria observar atentamente, pois esperar já é um fazer. A observação deve integrar a tentativa como uma postura dentro do fazer. Sentia e agia atentamente. No sexo sabemos a exata diferença entre a teoria e a prática (e temos a justa noção da importância do diálogo entre estes dois estratos), não compreendo as razões, em muitos casos, do por que somos incapazes de promover uma analogia desta dimensão com a arte. Se conseguíssemos ‘ler’ a arte do modo como fazemos sexo, muito provavelmente teríamos uma visão menos reducionista e, obviamente, mais ampla e potente. No ato sexual unem-se sentimento e ação. “Sem dúvida, o sentimento, enquanto acompanha toda uma operação humana, é constitutivo também da operação artística, ao mesmo título que lhe são também constitutivos o pensamento e a moralidade. Mas então o sentimento ganha uma tonalidade especial, como é também particular a inflexão que ganham na operação artística o pensar e o agir” (Pareyson, 1993). E o sexo – assim como a arte – só é sexo enquanto se faz. Página 24 – Diâmetro. Página 25 – O ânus conferido. Fotocolagens, 2013.

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Sei a quantidade de vezes nas quais me alertou para interromper o uso de recortes da Bíblia porque as páginas desse Caderno são sim relatos sexuais, mas também conheço seu falso moralismo religioso. Então, faço como quero! Além do mais, minha família, apesar dos excessos, é bastante religiosa e fui ensinada a acreditar em Deus, inclusive pelo pároco. Eliminar os trechos bíblicos seria uma nova castração, já não basta esta física? É o lado ‘B’ do Batismo. Ele também tem seu avesso e o padre soube expô-lo de modo bastante didático. Dentro da sacristia via um quadro de uma mulher de rosto redondo, pele bastante alva, olhar fixo, cabeça virada para a lateral. Ela estava atrás de algum balcão ou apoio de madeira. Usava um vestido de veludo vermelho, com enfeites

de fita em tom de dourado. Atentei aos detalhes porque frequentava demais a Igreja, era coroinha e, em todas as aulas com o pároco, eu geralmente ficava curvado de costas para ele, segurando com as duas mãos na pia batismal móvel. Não sei como ela o olhava, mas a mim era com desconfiança. Certo dia, ao folhear o jornal em casa, descobri que se tratava de uma pintura intitulada La Belle Ferronière. A reportagem dizia tratar-se da amante de alguém e que sobre ela repousavam ainda diversas dúvidas, como as existentes dentro de mim. Quando lhe dizia sobre parar de usar páginas da Bíblia era antes para que você pensasse sua aplicação, qual sua intenção? Inaugurar um discurso

Páginas 26 e 27 – Quem? Página 28 – A bosta da Besta. Página 35 – Carta 12. Páginas 30 e 31 – O olho do cu. Fotocolagens, 2013.

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Páginas 32 e 33 – A lição, fotocolagem, 2013.

legível, mas descontextualizado? Propor uma leitura compreensível do recorte e sua contextualização com a imagem? Perguntava-me o vizinho, a quem respondia: Acho tão engraçada sua ‘caretice’ em alguns momentos. Quero tudo ao mesmo tempo agora! Caminho pela fronteira honesta e tangível da multiplicidade, do misto, do confuso; tendo à descontextualização na idêntica proporção com que fabrico o compreensível e o ilusório. É, Dédalo, seu labirinto te confunde! Você se apega ao desnecessário, ao desproposital. Não sempre, mas demonstra certa disposição. E sabe por quê? Porque “as sensações físicas involuntariamente produzidas em alguém que leia a obra

carregam consigo algo que se refere ao conjunto das experiências que o leitor tem de sua humanidade – e de seus limites como personalidade e corpo” (Sontag, 1987). Por isso você ofereceu-me aquele beijo grego, com o qual inauguramos e selamos o nosso desejo, pois nada mais em nós ousou diversificar os caminhos. Ela, a outra, Elke Krystufek, nos conduziu até aqui. Havíamos encontrado semelhanças visuais em sua obra com o tema, o discurso e a técnica; “porque a obra artística é ao mesmo tempo um mundo e uma forma.” (Pareyson, 1993). Gaguejando muito, o vizinho tentava esboçar um discurso sobre tais fotografias, como se fosse obrigado a fornecer mais argumentos favoráveis para o diálogo de

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A ideia do amor (Dubai), fotocolagem da série Sleepingbetterland, de Elke Krystufek, 1999.

nossas imagens do que simplesmentes as características discutidas, o amor e o sexo. Dentre as frases balbuciadas apenas uma se fez audível: “não havia nada de seguro, nem nas minhas intenções, nem nos meus gestos” (Bataille, 2012). O olhei seguramente e alcancei suas intenções mais íntimas. Ele desejava Elke, conosco. Aprovei seus pensamentos com o balanço das duas cabeças presentes em mim. A experiência frente àqueles recortes recebia como embasamento nossa recepção pura. Até hoje a única coisa que sabemos dela são estas imagens. Sua necessidade em mostrar o cu pode conectar-se mais ao uso ou ao sentido de proibição enquanto eu o trato pelo viés da castração. Ela fala sobre o ter e eu sobre o perder. O vizinho foi ao quarto e trouxe um livro cuja capa estampava uma pintura chamada ‘A origem do mundo’ de um carinha de nome engraçado. Temporalidades à parte – vista claramente no tipo de depilação –, Dédalo não conseguiu se desapegar da sensação de proximidade entre aquele reflexo especular da fotografia de Elke e a pose da mulher na pintura do francês.

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O prefácio do livro apresentava uma citação: “há obras que não expressam nada e nada dizem, mas o seu estilo é eloquentíssimo, por ser a própria espiritualidade de seu autor. Dirse-á que justamente nesse sentido a arte é expressiva, e o sentimento está ali presente, enquanto se resolveu completamente na forma (Pareyson, 1993). O artista deve ocupar-se exclusivamente em formar o trabalho e, fazendo isto, já impõe à obra sua própria individualidade espiritual como estilo, como modo de formar. A eloquência dos trabalhos e, portanto, dos artistas os difere em intensidade, materiais e modos de execução. O viés dialógico criado por mim para visitar seus trabalhos é completamente diverso. O encantamento ocorrido pelo autorretrato de Nebreba não vem apenas do uso da merda, mas da superexposição de sua intimidade mais velada. Ainda sim tudo isso “continua a ser merda, mas doravante queremos cagar em cores variadas para ornar o jardim zoológico da arte com todas as bandeiras dos consulados” (Tzara, 1987). A argamassa mais pesada do Caderno Meu Cu está colocada na manipulação via recorte e colagem das fotografias coletadas, recolhidas e guardadas durante longos períodos. Dédalo questionou se havia algum frescor ou novidade nesse tipo de procedimento. Antes de ele prosseguir, o interrompi: Você acredita mesmo na novidade enquanto medida adequada para a arte? O que é novidade, Dédalo? Longos lapsos de tempo passaram entre nós durante sete minutos de um silêncio doentio. Cu e novidade pareciam impróprios. Na falta de argumentos


avó materna: gosto e cu cada um carrega o seu. É interessante desenhar o fato de todos estes artistas possuírem um gênero fixo, eles podem ser enquadrados nos conceitos de macho, fêmea; homem, mulher; menino, menina; humano! Eu não! Minhas configurações corporais me deixam na fronteira da indefinição, com pinto e boceta eu seria um hermafrodita, porém com estes dois e sem cu, sou o que? Qualquer coisa de intermédio? Eu não sou eu! Sou o inominável, o diverso incôndito para muitos. Para Dédalo sou a inteireza, mesmo sem cu, e isto me basta.

Página 10 – Eu não sou eu, fotocolagem, 2007.

bilaterais imediatos, retornei à minha casa e, somente no terceiro dia, voltei a procurá-lo sem ira, mas com dúvidas insolúveis. Tanto eu quanto ele ficamos, cada qual em seu espaço, amadurecendo sobre o caráter do novo e chegamos a um denominador comum encontrado no mesmo livro: “um mundo é a realidade universal tal qual vista por uma pessoa: é um sentido pessoal do universo, uma visão pessoal da realidade, uma concepção pessoal da vida, […], é um modo tipicamente pessoal de interpretar o mundo” (Pareyson, 1993). Esta é a novidade, a capacidade única e irrepetível de uma realidade interpretada daquele específico modo de entender o mundo, para formar seu trabalho. Ou melhor, dito pelas palavras de minha sábia

Talvez, no caso específico de minha pessoa, a novidade não seja apenas o modo como interpreto este mundo, mas como este me interpreta. Na exploração do fazer pelo fazer o mais importante é: “que o pensamento fosse ampliado, que se integrassem pensamento e sentimento, sentimento e pensamento, e que ambos se fundissem” (Richter, 1993). Por que utilizar tantas vezes referências religiosas? Pra que rasgar a Bíblia? Essas são algumas variações das retalizações vindas do vizinho. Tantas vezes tentei mostrá-lo nada disso ser importante, mas seus antolhos não permitiam enxergar para além da blasfêmia. “Cada página tem que explodir, ou pela seriedade profunda e pesada, pelo turbilhão, a vertigem, o novo, o eterno, pela blague demolidora, pelo entusiasmo dos princípios […]” (Tzara, 1987). E a religião explode em mim aspectos elementares: alimenta minh’alma, habita meu imaginário e cria infinitas fabulações 105


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Pågina 36 – Beijo grego, fotocolagem, 2013.


desde meu nascimento. Batizado na Igreja Católica Apostólica e Romana, seja lá qual o significado desse nome todo, frequentei a catequese, ou seja, fui doutrinada; fiz primeira comunhão apenas para poder comer o tal Corpo de Cristo, e o que mais gostava era quando ele colava no céu da boca; fugi da crisma; integrei um grupo de jovens da chamada RCC (renovação carismática católica) em que as pessoas dizem ‘orar em línguas’ e inventam dialetos indecifráveis; lia incansavelmente a Bíblia, principalmente o Novo Testamento. Com todo este repertório pude eleger minhas áreas de interesse e, definitivamente, frequentar a Igreja não era uma delas; usar do seu discurso, a meu ver fascinante, sim. Gálatas é tida como a carta magna da Igreja; foi escrita por São Paulo e direcionada a este povo que dá nome à Epístola. Fala da liberdade cristã, da justificação pela fé, do doutrinamento e dos falsos mestres. Não me esquecerei dos Gálatas, porque a catequista solicitou-me uma punheta cujo gozo colou as páginas daquela história. “O mundo é mais antigo do que eles. Já enchia o espaço e sangrava, gozava, era o único deus – quando o tempo ainda não havia nascido. Reinavam então as próprias coisas. Aconteciam coisas – agora, através dos deuses, tudo é feito de palavra, ilusão, ameaça. Mas os deuses podem alterá-las, aproximá-las, ou afastá-las. Podem igualmente não tocar, não mudar as coisas. Chegaram tarde demais (Pavese, 2001)”, recitava Dédalo. Ou, quem sabe, chegaram a tempo de usurpar a crença e realocá-la, completou. Retruquei: “nós temos uma Lei, e segundo esta Lei ele deve morrer, porque se declarou Filho de Deus” (João, 19-07); ou, mais provavelmente, a

tempo de culpar alguém! Cria-se o mito, o mártir, a salvação e a devoção em um só sujeito. Pobre coitado. “Se isto não é assim, quem me convencerá de mentira, e acusará minhas palavras diante de Deus?” (Jó, 24-25). Eles, afirmou o vizinho. Depois de morta, a pessoa pode ser qualquer coisa, pois sua existência é ordenada pelo sentimento dos vivos. Alguns alimentarão dúvidas, outros, milagres; alguns aplaudem, outros vaiam; alguns amam, outros detestam; alguns mantêm adequado juízo, outros inventam. Entendo sua admiração pelos assuntos eclesiásticos, disse o vizinho. Não! Você não compreendeu, eu explico novamente: “todas as formas de arte e conhecimento autênticas – em outras palavras, todas as formas de verdade – são suspeitas e perigosas” (Sontag, 1987). Você e eu somos suspeitos. Você é parte disso tudo, goste ou não! Você mesmo pronunciou a insegurança de suas intenções e gestos. Acontece que, “de forma geral não me detenho muito nessas recordações. Passados tantos anos, já perderam o poder de me afetar: o tempo neutralizou-as. Só puderam recobrar vida deformadas, irreconhecíveis e ganhando, no decorrer de sua transformação, um sentido obsceno” (Bataille, 2012). Afinal, as recordações do tempo viajam no espaço, não? Impossível chegarem intactas! Os cientistas não atingiram a perfeição do teletransporte. Continuam tentando! Também tento, incansavelmente, ser alguma coisa nominável, não mais essa catacrese. Sou como uma carta fora do baralho, mas também valho como um coringa. O ditado diz: quem não tem cão caça com gato, eu caço com os dois! “Não existe deus em

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são mestres, pois fornecem à sua bosta uma função: defecam nas própria pernas para diminuírem o calor do corpo! Quanta perfeição! Não seria por isso a máscara de Nebreda?

Página 37 – 2 de paus, fotocolagem, 2013.

matéria de sexo. Ouça o que lhe digo: é a rocha. Muitos deuses são feras, mas a serpente é o mais antigo de todos os deuses. Quando se estira sobre a terra eis a imagem do sexo. Eis a vida e a morte. Que deus pode encarnar e abranger tanto?” (Pavese, 2001). Foi ela, a serpente, quem apresentou o alimento à boca. Todas as bocas do mundo comeram unidas numa só, pois “o pensamento faz-se na boca” (Tzara, 1987). Depois disso existiu apenas carniça. Das cores aos odores. O urubu-preto é o avesso da cegonha, tal qual a boca do cu. Joguem-me aos urubus! Prefiro-os em sua autenticidade e riqueza de espírito. Saiba do melhor, cagar é sim um alívio, digo isso por experiência próprio. Mas os urubus

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Jamais poderei sentir o aroma da bosta saída de mim. Aquele perfume me era tão caro e amado. A principal artéria da vida é o cheiro, quem morre fede por prazo determinado, quem vive fede diariamente. Estes odores constituem a alegria de viver, combatê-los é negar a vida, aceitá-los é desfrutar. Dédalo? Oi! Fiquei pensando, é engraçado pensar na merda como identidade, pois ela é determinantemente universal. Ligamos à noção de identidade um rosto com olhos, boca, nariz, orelhas, cabelo, sobrancelhas, tudo isso aparente, à mostra, ou até mesmo sem algum destes elementos, mas sempre um rosto. Você se esquece dos números, minha querida, olhe no seu Registro Geral, ele te oferece fotografia e numeração. Sem números você não é você. No meu RG existe apenas uma sequência de zeros! Estes zeros o identificam mais do que o anulam, não acha? Tudo são números e você é defendida ou acusada por eles; os advogados bem o sabem. Identidade não é apenas corpo, mas este é muito usado para elaborar discursos sobre ela. E imagem é também discurso. “Não se pode fazer arte nem ler arte sem uma ‘ideia’ da arte e do lugar que ocupa na vida espiritual, ou seja, sem uma ‘poética’” (Praeyson, 1993). Como definir poética senão pelo fazer? Ora a poética pode assumir uma característica A, ora B, ora A + B, ora Z. Caso contrário, estaria fadada a executar


Página 29 – Chanel nº5, fotocolagem, 2013.

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Página 38 – Eles, Página 39 – O pêndulo e Página 40 – 4 estrelas; fotocolagens, 2013.

sempre a mesma coisa repetidamente. Impossível! A cada instante transformo-me em outra, acrescida ou subtraída de algo ou alguém, ou os dois simultaneamente. O fato é: “Se só guardamos lembranças dos momentos tristes ou alegres: enlouquecemos. Felizmente existem os restos” (Barros, 2006). Quantos restos colecionamos e sequer conseguimos encontrar? De quantas sobras sua experiência é constituída? Muitas! Construo meu trabalho dos retalhos. Retalhos de mim, retalhos dos outros em mim, mas também problematizo esta falta anal que me angustia. Não se trata de lembranças e sim de uma forquilha por meio da qual fui obrigado a me ressignificar. Dédalo abriu uma caixa donde retirou um pedaço de papel onde havia uma conversa entre Calipso e Ulisses. Eu os desconhecia, e até hoje tenho para mim que era a carta do divórcio escrita por sua mãe. Prosseguiu lendo (tentando imitar vozes e expressões diferentes): “Calipso – Imortal é quem aceita o instante. Quem já não conhece um

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amanhã. Mas se gosta da palavra, pode dizê-la. Você chegou a esse ponto? Ulisses – Pensava que fosse mortal quem não teme a morte. Calipso – Quem não espera viver […]. Ulisses – Mas você não era imortal? Calipso – E sou, Ulisses. Não tenho esperança de morrer. E não espero viver. Aceito o instante. A vocês mortais toca algo semelhante a velhice e o lamento […]. Ulisses – Mas você também foi senhora de todas as coisas, precisa de mim, de um mortal, para ajudá-la a suportar. Calipso – É um bem recíproco, Ulisses. Não há silêncio verdadeiro se não for partilhado (Pavese, 2001). Sei disso, retrucava ao vizinho, e sei também que “ao dar vida a uma forma, o artista torna-a acessível às infinitas interpretações possíveis. Possíveis, frisamos bem, porque a ‘obra vive apenas nas interpretações que delas se fazem’; e infinitas não só pela característica de fecundidade própria da forma, mas porque perante ela se coloca a infinidade das personalidades interpretantes, cada uma delas com o seu modo de ver, de pensar, de ser” (Eco, 1972).


Dédalo se envolveu, contados 1096 dias – houve um ano bissexto – do nosso primeiro encontro, num acidente na BR369 – KM377, ocorrido entre duas grandes carretas, uma de produtos químicos inflamáveis e a dele de carga viva. Sentiase apenas um cheiro intenso de galinha assada. Declarado seu óbito, acordei do coma.

* BARROS, Geraldo de. Sobras Geraldo de Barros. FERNANDES JÚNIOR, Rubens (org.). 2ª ed. São Paulo: Cosac & Naify, 2006. BATAILLE, Georges. História do Olho. São Paulo: Cosac & Naify, 2012. ECO, Umberto. A definição da arte. Lisboa: Edições 70, 1972. FONTCUBERTA, Joan. La cámara de Pandora. La fotografía después de la fotografía. Barcelona: Gustavo Gilli, 2010b. PAREYSON, Luigi. Estética: Teoria da Formatividade. Petrópolis: Ed. Vozes, 1993. _______. Conversaciones de estética. Madrid: Visor, 1998. PAVESE, Cesare. Diálogos com Leucó. São Paulo: Cosac & Naify, 2006. RICHTER, Hans. Dadá: arte e anti-arte. São Paulo: Martins Fontes, 1993. SILVA, Marcos. Rimbaud etc história e poesia. São Paulo: Hucitec, 2011. SONTAG, Susan. Contra a interpretação. Porto Alegre: LP&M, 1987. _______. Sobre a fotografia. São Paulo: Cia das Letras, 2004. TZARA, Tristan. Sete manifestos Dada. Lisboa: Hiena, 1987.

Fabio Gatti é natural de Londrina (PR), artista visual, doutor e especialista em Fotografia e em História e Teorias da Arte. Segunda, terceira e quarta capas, fotocolagens, 2007/2013.

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Ryan Stanford

Modelo: Joel Someone (2020).


Modelo: Sebastian (2020).


Modelo: Will (2020).


Modelo: Marco Napoli (2020).

Modelo: Brad (2020).


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Paweł Matyszewski


Reflexão sobre a natureza 6, técnica mista (2015). Foto: Adam Gut.


ISSN 2675-018X

falonart@gmail.com


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