Falo Magazine #37

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FLORIAN RAISS
MARCELO MAGNANI
IGOR YERMAKOV
ano
PAULO JORGE GONÇALVES
ANTONIO DA SILVA

FALO© é uma publicação bimestral. maio 2025.

ISSN 2675-018X versão 22.01.26

edição, redação e design: Filipe Chagas corpo editorial: Dr. Alcemar Maia Souto e Marcos Rossetton. site: Pedro Muraki

capa: Só vem, óleo sobre papel de Paulo Jorge Gonçalves, 2024.

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Editorial

Depois da monocromia (acidental?) na última edição, resolvi trazer as cores de volta diretamente influenciado pelas cores apoteóticas de Lady Gaga numa ópera colossal para dois milhões de pessoas nas areias de Copacabana. Optei também por ampliar o escopo dos artistas com relação às suas linguagens criativas, pensando que Gaga é cantora, compositora, atriz e sei lá mais o quê. Assim, os artistas aqui se expressam de diversas maneiras: o pintor é também fotógrafo e bordador; o desenhista é também escultor.

A natureza foi outra referência cromática e veio através do audiovisual. Um cineasta português traz o conceito da “ecosexualidade” para fazer a gente se reconectar e pensar na dualidade homem-animal que o germano-brasileiro Florian Raiss apresentava em seus quadrúpedes.

Até mesmo o sistema etário de controle de conteúdo no Brasil é explicado (e criticado veementemente) bem coloridinho. Aliás, convido

Nota sobre nudez: Esta publicação é sobre a representação da nudez masculina (cis/trans) na Arte. Há, portanto, imagens de genitais. Consulte com precaução. Caso se sinta ofendido, apenas pare de ler. Entre em contato se achar conveniente.

para uma leitura bem reflexiva nesta matéria opinativa – afinal é a minha coluna na minha revista –, mas abre fendas no sistema e nas insuportáveis construções sociais. Construções sociais essas que estão expostas no incrível livro “Uma mente própria”, de Daniel Friedman, o qual tive o prazer de ler e resenhar. A origem do tabu do pênis está totalmente revelado e se torna revelador.

É claro que o mundo continua atravessando o projeto e, por isso, trouxe novamente o fotógrafo ucraniano Igor Yermakov (edição 22) com um ensaio sobre a guerra que permanece destruindo vidas há quatro anos – e reverbera com a tentativa de atentado, frustrada pela polícia federal, no show da Gaga. No país que mais mata pessoas LGBTQIA+, isso não surpreende… infelizmente.

Só que é nas cores do arco-íris, dos leques, da comunidade que surge a resiliência e a força. Ainda estamos aqui e não deixaremos de estar.

Filipe Chagas criador e editor

Paulo Jorge Gonçalves

Surpresa, óleo e betume sobre tela, 2021.

Quando criança, o que Paulo Jorge Gonçalves mais amava eram as canetinhas hidrográficas e papel para desenhar, abrindo um caminho natural para a Arte. Muito cedo colecionava recortes de revistas e jornais que falavam de arte e exposições, buscando também no cinema, no teatro e na música – principalmente o rock. Logo começou a comprar material de pintura e fazer cursos de aprimoramento. Formou-se em Pedagogia, licenciado em Artes com especialização em Arteterapia e hoje – além de trabalhar com arte educação – faz pintura, bordado, gravura, fotografia e muito mais.

Aliás, a fotografia entrou em seu processo criativo após um período de cansaço interno:

Caminhei muito pela arte, tinha um trabalho bem diferente. Mexia com o lúdico, com o gráfico, temas que flertavam com o Neoconcretismo. Depois de uma pausa, comprei uma câmera fotográfica e saí pelas ruas do subúrbio do Rio de Janeiro. Moto taxistas, skatistas, cafuçus… deixei o tesão me conduzir. Percebi que muito do que eu fotografava, funcionava em outras mídias e passei a usar as fotos como inspiração para pinturas e bordados. Atualmente também utilizo imagens escolhidas em grupos de WhatsApp, mídias sociais e revistas. Em momentos, sou mais “fotógrafo”, em outras, pintor. E, quando quero um discurso mais político, pego agulha e linha e bordo desenhos e palavras.

Na página seguinte: Antropofagia sem culpa, bordado com voile e fita sobre tecido, c. 2021.

Satisfação, bordado com aviamentos e renda sobre tecido, 2022.

Aliança, bordado com fita sobre tecido, 2021.

Abaixo: BV3 e BV2, fotografias da série Meninos, 2015.

O abajur 2, óleo sobre papel, 2024.

Dentro de suas diversas formas de exploração da criatividade (“não consigo me ater a um único meio”), a beleza masculina sempre foi uma constante – com uma certa influência de Caravaggio. Entendeu a potência política de colocar o corpo masculino como protagonista, não só para assumir seus desejos e fantasias, mas também para levantar a bandeira queer.

Este sou eu e é assim que eu gosto, é assim que faço. Tenho direitos de ser livre.

Aceita que dói menos, bordado com renda e aviamentos sobre tecido, 2022.

Suas primeiras produções artísticas queer vieram das fotografias urbanas (série Boys/Meninos), onde modelos espontâneos eram registrados em ação com objetos dados por Paulo, como ferramentas, tecidos, peças geométricas. Um dos modelos sugeriu que o artista trabalhasse com garotos de programa e, após um início complicado (“eu não sabia como chegar e os garotos não entendiam que não tinha sexo”), ele consegui montar o conceito da série, flertando com a pornografia.

Minhas fotografias não são santas. São oferendas do corpo. O corpo nu inteiro sem medo, vergonha, sem restrições, frontalidade. Gosto também da magia das expressões faciais amalgamadas com o corpo nu. Rostos de espanto, carência, insegurança, depravação, oferecimento…

Acima, BCB3 (2019) e BSI (2016), e, abaixo, BA2 (2019) e BD6 (2016). Fotografias da série Meninos
Falo

vem 2, óleo sobre papel, 2024.

Paulo sabe da força de composição que o pênis possui enquanto objeto totêmico, seja em repouso ou ereto, e o quanto ele provoca reações diversas (“gosto como mexe com o observador”). Ele revela que suas artes despertam a atenção de muitas mulheres cis heterossexuais, porém, a censura é recorrente em sua trajetória e lamenta que o “medo do falo” impeça que as pessoas admirem a riqueza plástica e poética da nudez masculina.

Por essa razão, reconhece a importância de usar sua arte como plataforma de resistência, de reconstrução do pensamento social e derrubada do fascismo patriarcal (“minha arte é citada em diversas monografias e estudos”). Continuar a produzir e encontrar espaços de visibilidade é o objetivo de Paulo, sendo sempre verdadeiro e por uma necessidade da alma. 8=D

Os flyers Suruba Neoconcreta e Putaria Antropofágica (2022), o artista e, acima, o bordado em feltro Felação (2021).

Cirurgia plástica para você.

Marcelo Magnani

por Filipe Chagas

Fotógrafo de arquitetura e decoração para grandes mídias (como ELLE Decor Francesa, Casa Vogue, Casa e Jardim, entre outras), Marcelo Magnani se pegou questionando sobre seu trabalho autoral. Após uma exposição coletiva que participou com fotos da festa de Iemanjá na Bahia, percebeu que esse caminho não representava exatamente o que buscava artisticamente. Lembrou-se de seu primeiro contato com o nu artístico ainda na faculdade de fotografia e decidiu explorar esse caminho.

Fiquei completamente anestesiado pela experiência com o nu. Na turma, fui o primeiro a fotografar, como se estivesse em transe.

Modelo: Matheus Buosi

Logo em seguida, iniciou sua pesquisa com o nu e produziu a série Quentinhas Luxuriantes, aplicando imagens de corpos em marmitas de alumínio numa reflexão sobre o consumo rápido do desejo. Nesse momento, Marcelo se reconheceu como artista.

Seu processo de criação nasce das reflexões e questões que vivencia no dia a dia, da simples observação do que está ao redor às interações humanas e tensões sociais. Apaixonado por arte e cultura, também amplia seu repertório visitando exposições, frequentando teatro e participando de cursos.

Modelo: Luca Rocha . Locação: The Rhinos Club .
Modelo: Anônimo.
Modelo: Thiago Faust
Modelo: André Baliera

Entre suas diversas referências estão a publicação Erotika (2001) de Richard de Chazal, o olhar sofisticado e provocador de Robert Mapplethorpe, a estética cinematográfica de Herb Ritts, a crueza de Terry Richardson e a fluidez visual de Wolfgang Tillmans. Marcelo busca trazer seu olhar único sobre o voyeurismo, o fetiche e a relação entre corpo e identidade.

A fotografia me fascina. Olhar pelo visor, escolher o enquadramento, trabalhar a luz – seja no estúdio, onde tenho controle total, ou aproveitando a luz natural – são aspectos que me apaixonam nessa arte. Quando revisito minhas fotos, muitas vezes elas me excitam mais do que durante o próprio ensaio, despertando desejos e excitação. Essa experiência me torna, de certa forma, um voyeur de minha própria obra.

A escolha pelo corpo masculino nu vem do desejo reprimido que alimentou sua imaginação e criou um universo de curiosidade e tensão. Força, vulnerabilidade, tesão e tabu são algumas das dualidades que busca revelar através de imagens que provoquem, questionem e seduzam.

Marcelo gosta de retratar o corpo masculino em sua totalidade e, para isso, determina como essencial a confiança e a empatia com seus modelos. Ao explorar a arquitetura, as curvas e a expressividade que emergem através do contorcionismo, valoriza tanto o conjunto quanto os detalhes, revelando novas perspectivas e a beleza única do corpo.

Acredito ser essencial mostrar a naturalidade do corpo, mesmo sabendo que algumas partes instigam a imaginação de quem observa. Inclusive, creio que o falo “normal” desperta a ideia sobre o potencial do corpo, criando uma narrativa de expectativa e transformação. Esse contraste instiga o espectador a imaginar a evolução da forma, o que enriquece a narrativa visual da obra.

Modelo: Eduardo Pazini .
Modelo: Victor Nogueira .
Acima, Victor Nogueira; e, abaixo, Luca Rocha no The Rhinos Club.
Modelo: Thiago Faust .
Modelo: André Baliera .

Mesmo com intenção de produzir imagens poéticas e expressivas capazes de encantar e criar conexão com algumas pessoas, o fotógrafo reconhece os preconceitos, a resistência e a censura que dificultam a plena aceitação do nu masculino como objeto artístico. Para ele, isso só reforça a necessidade de continuar explorando esse universo, quebrando barreiras e provocando novas leituras sobre o corpo e o desejo, bem como explorar outras histórias e formatos que ampliem o campo da arte e reflitam a complexidade da experiência contemporânea. 8=D

O fotógrafo.
Modelo: Gus Pimentel .

Falo de História

Quadrúpede sem flor
(Pedro Paulo), bronze, 2017.
(Fonte: Galeria Lume)

Florian Raiss

1955-2018

Aobra de Florian Raiss (19552018) começou com o desenho para, em seguida, ganhar o espaço. Filho de alemães, chegou em São Paulo com a família ainda menino. Estimulado pela vida cultural da família (“meus avós maternos tinham coleção de arte, meu pai foi pintor naif, minha mãe foi bailarina e meu irmão, artista plástico”), já desenhava aos cinco anos e pintava aos doze. Desenvolveu-se, então, como um artista de múltiplos talentos.

Entre 1973 e 1975, estudou pintura nas prestigiadas Academias de Belas Artes de Florença e Roma, na Itália, onde aprimorou suas técnicas clássicas e desenvolveu um profundo entendimento da estética europeia. Em seguida, estudou desenho por dois anos na Academia de São Carlos da Universidade do

México e ampliou seu escopo artístico na “arte de observar”. Considerava que as instituições de ensino das artes não formavam um artista, mas alguém que ensina e analisa arte. Portanto, optou por ser influenciado por artistas e não por escolas, assumindo Picasso como referência, bem como a arte greco-romana clássica. No fim de sua “jornada acadêmica bidimensional”, foi arrebatado pela escultura.

O desenho me levou à escultura, que surgiu como uma necessidade, como uma vontade de materializar figuras que eu tinha em mente. Sou autodidata em escultura, mas quando me perguntam o que faço, digo que desenho e faço escultura. A pintura entra nos dois, embora, às vezes, a escultura seja pintada e o desenho tenha características de pintura.

O homem e o peixe, em serigrafia (2009) e pintura em azulejo (2015).

Sua maneira de pensar e seu jeito de criar formas se tornaram um viés emblemático de sua obra com seus famosos bustos de celebridades, como o do fundador da Bienal brasileira, Ciccillo Matarazzo, em bronze no Parque do Ibirapuera. Para seus trabalhos tridimensionais, Raiss lançava mão de diversos materiais, como bronze, argila policromada e baixo esmalte.

Meu foco é na figura humana, principalmente no rosto porque, pra mim, é inesgotável. É a forma mais complexa que a Natureza criou, com seus oitenta músculos e sua capacidade expressiva.

Figura antropomórfica, bronze, 2017. (Fonte: Galeria Lume)
Vaso antropofágico, bronze, 2015. (Fonte: Galeria Lume)

grande (sem flor), bronze, 2000. (Fonte:

Quadrúpede
Galeria Lume)

A produção de Raiss é marcada pela possibilidade do surgimento inesperado do fantástico, na qual é impossível isolar o real do imaginário. Disso decorrem homens quadrúpedes e uma figuração inscrita numa certa atmosfera erótica. O curador Emanoel Araújo (1940-2022) dizia que as personagens animalescas de Raiss sugerem uma representação do homem e dos seus desejos mais profundos e obscuros na dicotomia entre civilização versus natureza, imposição da cultura versus resistência do primitivo, contenção social versus instinto incontrolável. A nudez entra neste conflito sem solução como a condição humana preponderante.

com

Quadrúpede
base de bronze, 1998. (Fonte: Galeria Lume)
Decifra-me ou devora-te, bronze, 2017. (Fonte: Galeria Lume)

com banana, bronze, 2005. (Fonte:

Quadrúpede
Galeria Lume)

Quadrúpede

Daniel, bronze, 2006.

com

(Fonte: Galeria Lume)
Quadrúpede
flor, bronze, 2009.
(Fonte: Galeria Lume)

Realizou diversas exposições individuais e coletivas em importantes Instituições, museus e galerias no Brasil e exterior, e seus trabalhos fazem parte de coleções privadas e acervos institucionais (MAM-SP, Museu Afro Brasil, Museo de la Solidariedad Salvador Allende de Santiago do Chile, entre outros). Mesmo com um currículo de peso, manteve sua postura discreta, curiosa, investigativa e atenta, até seu falecimento por uma parada cardíaca em 2018. 8=D

Quadrúpede Cauã, bronze, 2015. (Fonte: Galeria Lume)
Quadrúpede, cerâmica esmaltada, s.d.

Falo Focoem

Em março de 2021, a Rússia invadiu o território soberano da Ucrânia. A guerra se estabeleceu na região e já dura 4 anos sem uma expectativa de fim. Em 2022, entrei em contato com o fotógrafo Igor Yermakov para apresentar seu trabalho na Falo e comprovar que a arte ucraniana sobrevive na adversidade. Ao longo desse tempo, acompanhei tanto as denúncias de Igor quanto suas criações artísticas. Nas próximas páginas, vocês verão o ensaio realizado com modelos e soldados que, alados, fazem uma alusão à morte e à força de resistência.

O velho mundo entrou em colapso. O sistema de segurança que serviu ao mundo por 80 anos entrou em colapso. A razão para isso foi o ataque não provocado da Rússia ao meu país, a Ucrânia. Agora estamos em guerra, lutando por nossa liberdade e nossas vidas. Nem todos os meus modelos, cujas fotos tenho o prazer de mostrar, são soldados. Um deles está lutando, foi gravemente ferido recentemente e agora está se recuperando aos poucos. Ele carregará alguns estilhaços de granada russa no corpo pelo resto da vida. O outro serviu nas formações de defesa territorial durante os meses mais críticos da defesa de Kiev. Nenhum deles fugiu do país em um momento tão difícil. Estamos todos aqui na Ucrânia. Lutando e trabalhando por nossa vitória sobre os bárbaros russos. – Igor Yermakov

8=D

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A INTIMIDADE

COTIDIANA NO PELO

Na crueza do pelo nu

A sã consciência pra manter o duo

Pelo sim, pelo não

Um cheiro me chama em silêncio

Na pia apelo

Eu nu em pelo Cansaço do dia

A cena projetada é a crônica rotineira de uma vida agitada no ir e vir da obrigação que nem sempre caminha ao lado do tesão de fazê-la. Em casa, após o stress insano de mais um dia, a posição convida a ajoelhar pela graça da dor e da glória de ter vencido mais um. Frente a frente num reflexo de lirismo e desejo embaçado na fumaça do cotidiano apressado que nos distancia paulatinamente das belezas das pequenas coisas.

Da água caindo no corpo, da pele secando ao vento, do pau mole em seu estado bruto pronto para desabrochar como flor do deserto que mata a sede na saliva e no prazer. Ajoelho e com um terço dele na mão mergulho em queda livre ao céu da boca. Me consagro na alucinação doce e úmida no prelúdio da dureza lancinante de sentir lá dentro.

Onda de calor que não cessa. Aquecimento global na combustão local que faz meu corpo arder febril. Desafogo a gravata, abro um a um os botões da blusa de linho, desfivelo o cinto. Descalço e entregue, caminho de encontro ao encaixe perfeito do seu peito. Me abraça! Me escuta!

Desacelera em descompasso as batidas e vem na ternura da intimidade possível de todo dia.

Tem nada melhor que transar gostoso, lavar o rosto e não ter vergonha do que se vê refletido no espelho. Sair da penumbra, da margem escusa, da zona de esconderijo para onde somos o tempo inteiro empurrados. Guetos, saunas e clubes onde podemos ser quem somos, mas que limitam nossa ocupação, nosso pertencimento. Quero todas as possibilidades que ser livre proporciona. No espelho do banheiro de casa ou num banheiro qualquer da rua, na beleza de um pau duro ou na malemolência hipnótica e vulnerável de um pau puro. Eu falo! Eu pago! Eu assumo!

No pêndulo do pau mole a balançar na gravidade até a última gota, meu homem me fode e eu digo “eu te amo” sem precisar falar uma palavra. A intimidade cotidiana no pelo é um novelo que se costura diariamente no ponto que liga o pelo de um ao pelo do outro.

CUECAS

Modelo: Flavio B.

Ecosexualidade

Criado por artistas como Annie Sprinkle e Beth Stephens no início dos anos 2000, o conceito de “ecosexualidade” propõe uma nova forma de se relacionar com o meio ambiente – não apenas como um recurso a ser protegido, mas como um parceiro erótico, afetivo e sensorial. O movimento, nascido no contexto de performances artísticas e ativismo ambiental, buscava ampliar o imaginário ecológico ao incorporar o desejo e o prazer como formas legítimas de cuidado com a Terra. Desde então, a ecosexualidade vem inspirando produções artísticas que questionam normas tradicionais de sexualidade, corpo e natureza.

Na filmografia de Antonio da Silva, a conexão entre o desejo humano e o mundo natural está para além de um cenário de cruising em parques e praias de nudismo. O cineasta português chama de “ecosexualidade” sua abordagem que conecta a sexualidade com a natureza de forma provocadora e artística, explorando a relação entre os corpos humanos e o meio ambiente de uma forma sensorial e afetiva. Em alguns de seus filmes, ele busca uma integração profunda do corpo humano com os elementos naturais – como a água, a terra e as plantas –, criando um espaço visual que desafia e questiona as normas tradicionais.

Tenho interesse em explorar diferentes gêneros artísticos, tanto em termos de técnica quanto de conteúdo, mas sempre fui fascinado pelo sexo. Fiquei cada vez mais frustrado com a forma como a imagem em movimento explorava isso e comecei a torná-lo o tema dos meus filmes. Não me considero um pornógrafo, mas sim um realizador que utiliza a experiência pessoal e acadêmica para coreografar curtas-metragens sobre sexualidade masculina. Meu trabalho borra a fronteira entre cinema narrativo, pornografia e filme de arte.

Enquanto Annie Sprinkle e Beth Stephens expandem o imaginário ecosexual por meio de casamentos simbólicos com a natureza e rituais sensoriais de conexão afetiva com o planeta, Antonio da Silva radicaliza essa proposta ao colocar o sexo em cena de forma direta, crua e ritualística. Em seus filmes, o erotismo não é apenas linguagem: é prática. Ejaculação, penetração e prazer se tornam metáforas encarnadas de polinização e fertilidade, ecoando antigas cosmologias em que o corpo humano participava ativamente dos ciclos da Terra. Assim, sua obra desloca a ecosexualidade do campo sensorial para o visceral, abrindo novas possibilidades para pensar o desejo como força ecológica. 8=D

Foto: Florian Hetz

ECOSEXUAL (2015)

Monólogo poético sobre amor e fazer amor com a natureza. Apresenta o corpo masculino como um objeto erótico, pensante e sensível. Através do toque, do cheiro, do sabor e da visão, o protagonista perde-se a comunicar com o mundo natural.

BRAZIL JUNGLE (2016)

É um documentário antropológico multi textural sobre um paraíso perdido na Amazônia brasileira. Os instintos animais primitivos são retratados em um território livre de tabus, onde diversos homens se comunicam através da linguagem universal do cruising.

EREMITA (2020)

Monólogo poético sobre um músico italiano que decidiu desligar-se da vida da cidade para se isolar e explorar a sua afinidade com a natureza. Ele se torna um pastor, agricultor, jardineiro, alquimista e fertilizador, e demonstra o efeito que a natureza tem sobre ele.

WILD GARDEN (2022)

Num jardim selvagem abandonado, água e plantas dão vida à estátua de um homem nu, que se aproveita desse refúgio de paz e abundância com mistério e beleza para explorar seus desejos sexuais.

PLANT MAGIC (2021)

Experiência poética e audiovisual com os elementos da água, corpos masculinos nus e agaves que cria um mundo idílico de luz brilhante e abertura sexual. As plantas tornam-se uma extensão dos corpos masculinos. Abraços ritualizados e gestos de ternura são trocados entre homens, entre plantas e entre homens e plantas. As plantas são inerentemente femininas e masculinas; o afeto que elas induzem é o que falta ao homem urbano, quando a natureza está lá para ele, com ele, ao seu redor.

WATER FALLS IN LOVE (2023)

Poema audiovisual sobre a beleza do corpo masculino no seu habitat primário – a água de onde viemos –, sem filtros, uma conexão com o eu, com o outro e com o coletivo masculino como um só. Os corpos vibram entre si e com a natureza, como um bailado que reúne todos os elementos numa experiência mística.

PHALLUS FLOWERS (2024)

Em um exuberante jardim, flores fálicas florescem entre as folhas verdes em busca da luz do sol. Jardineiros nus polinizam as formas fálicas que perfumam o jardim. Este filme inspira-se no fotógrafo Robert Mapplethorpe e na sua exploração da beleza e sensualidade encontradas tanto nos pênis como nas flores.

Todas as imagens dos filmes

Não se prenda a estereótipos

A idade permitida da nudez

APRESENTAÇÃO

Abro meu texto com duas passagens particulares, ou seja, ninguém me contou: eu as vivenciei. A primeira ocorreu no CCBB do Rio de Janeiro, onde vi uma exposição sobre arte digital que continha um videogame sobre chacina. Sim, um jogo onde o objetivo é matar muito para ganhar pontos que qualquer pessoa podia ver. A segunda ocorreu no Centro Cultural São Paulo, onde inúmeras exposições estavam em cartaz, sendo que uma delas tinha uma bunda de homem aparecendo e recebeu a classificação indicativa para maiores de 18 anos, enquanto, mulheres nuas apareciam em outras exposições de classificação livre. Afinal, o que a tal “classificação indicativa” determina? É isso que a gente vai ver aqui.

Fiz uma análise totalmente opinativa e reflexiva do Guia Prático feito pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública em 2021 (a versão mais atualizada, aqui bem resumida) para as Artes Visuais – ou seja, a área que compete essa revista –, que pode ser baixado no site governamental. O guia se estabelece em três eixos – Nudez e Sexo, Violência e Drogas – e é importante deixar claro que não é uma censura ou proibição: é uma indicação etária, portanto, uma sugestão para os envolvidos se prepararem para o que irão ver. No entanto, usando o Estatuto da Criança e do Adolescente como “bíblia”, desfila incoerência, hipocrisia e todos os estereótipos patriarcais, machistas e racistas. 8=D

A Secretaria Nacional de Justiça (SENAJUS), do Ministério da Justiça e Segurança Pública, tem como uma de suas competências exercer a classificação, para efeito indicativo, de diversões públicas (museus, exibições ou mostras de arte, teatro, shows musicais, etc.). Essa competência decorre de previsão constitucional regulamentada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente e é disciplinada por Portarias do Ministério da Justiça e Segurança Pública. A classificação indicativa se encontra consolidada como política pública de Estado e seus símbolos são reconhecidos pela maioria das famílias e, estas os utilizam para escolher os produtos, obras ou espetáculos públicos aos quais suas crianças e adolescentes devem ou não ter acesso.

[...] Essa política pública consiste em indicar a idade não recomendada, no intuito de informar aos pais, garantindo-lhes o direito de escolha. Não compete, portanto, ao Executivo restringir ou vedar o acesso da população a qualquer tipo de obra, exposição, mostra de artes visuais, espetáculos públicos ou congêneres, bem como promover qualquer restrição à manifestação do pensamento, à criação, à expressão ou à informação.

[...] Entender a liberdade de expressão como sendo um direito fundamental do homem, como preceito para garantir a manifestação de opiniões, ideias e pensamentos sem retaliação ou censura, seja por parte de governos, órgãos privados ou públicos, ou outros indivíduos, é fundamental e inequívoco, dentro de uma sociedade democrática. [...] O esforço de tornar cada vez mais clara a classificação indicativa vai ao encontro do propósito efetivo da política pública: fornecer instrumentos confiáveis para a escolha da família e proteger a criança e o adolescente contra imagens que lhes possam prejudicar a formação.

Dada a ampla repercussão dos debates suscitados acerca da adequação do conteúdo

de museus, mostras e exposições de arte no ano de 2018*, o Ministério da Justiça e Segurança Pública, por meio da Secretaria Nacional de Justiça, intensificou o diálogo com os representantes das instituições responsáveis pela curadoria, hospedagem e pelas exposições artísticas em busca de medidas capazes de contemplar as especificidades das mostras de artes visuais, sem comprometer a proteção da infância e da adolescência, de modo a garantir a informação adequada às famílias sobre os conteúdos exibidos.

* Mesmo ano de criação da Falo, após as censuras descabidas nas artes, e também ano de mudanças políticas consideráveis no Brasil.

[...] Este Guia Prático de Artes Visuais é um instrumento democrático que visa dar transparência e objetividade desta política pública, evidenciando os critérios de análise das obras para se chegar ao resultado da autoclassificação indicativa. O presente instrumento visa servir aos curadores, organizadores de mostras e exposições de arte, como também à sociedade em geral e às famílias.

SOBRE O SENAJUS

A Secretaria Nacional de Justiça (SENAJUS) é parte integrante da estrutura do Ministério da Justiça e Segurança Pública e possui vasta área de atuação. Sua missão visa promover e construir direitos e políticas de justiça voltadas à garantia e ao desenvolvimento dos direitos humanos e da cidadania, por meio de ações conjuntas do poder público e da sociedade. [...] Também está a cargo da SENAJUS, a coordenação das atividades de classificação indicativa de programas de televisão e filmes, diversões públicas – que incluem as exposições, mostras e espetáculos abertos ao público – jogos eletrônicos, aplicativos e jogos de interpretação (RPG). No caso de exposições e artes visuais, a legislação vigente prevê que caberá aos responsáveis pela hospedagem do evento a tarefa de autoclassificá-los, informar a classificação indicativa e respeitar, quanto à exibição, a autorização expedida pelos demais órgãos competentes. Contudo, não é necessária a inscrição processual e a confirmação da autoclassificação pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, o qual está incumbido de monitorá-la, além de poder emitir parecer a pedido do interessado, para que sejam averiguados eventuais abusos ou irregularidades referentes aos critérios de classificação indicativa.

APLICAÇÃO DOS CRITÉRIOS DE CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA

É importante esclarecer que as obras de todas as plataformas e setores, além de todos os tipos de espetáculos abertos ao público, são analisados levando-se em consideração três eixos temáticos distintos: “sexo e nudez”, “drogas” e “violência”. A análise de uma obra é feita como um todo e não somente por partes isoladas. Por exemplo, no caso de exposições ou mostras de arte, a classificação etária será atribuída ao conjunto de peças apresentadas, levando-se em consideração as particularidades de disposição destas e as próprias características do espaço físico que as exibem. Ainda assim, ressalta-se que, da mesma forma que nas obras audiovisuais, é possível que a apresentação de um determinado tipo de conteúdo seja suficiente para sustentar a classificação de todo o restante do conjunto. [...] Cabe ressaltar, ainda, que os critérios que respaldam a política pública da Classificação Indicativa são objetivos e não há interferências de abordagens particularizadas de cada espectador, o que tornaria a aplicação de uma determinada faixa etária impraticável. É importante o entendimento de que o trabalho realizado pela Classificação Indicativa não restringe nenhum conteúdo de ser veiculado (censura), tampouco é de ordem qualitativa, sem a presença de juízo de valor. Este Guia Prático não se utiliza de critérios ou tendências que atribuem indicações etárias diferentes a conteúdos similares, em razão de juízos de valor, divergências culturais ou religiosas, orientação sexual, etnia, raça ou cor, pertencimento a quaisquer grupos sociais e gênero. Excetuam-se critérios que buscam elucidar a equidade de gêneros, eliminar o racismo, promover o respeito entre culturas e religiões, combater a violência, promover a igualdade e os direitos humanos. A Política de Classificação Indicativa não proíbe a exibição de obras ou espetáculos, não promove cortes de cenas ou solicita a exclusão de conteúdos audiovisuais, em consonância com o art. 5º, inciso IX, da Constituição Federal.

DOS CRITÉRIOS DE ANÁLISE

A. VIOLÊNCIA

As obras de arte, em qualquer linguagem ou suporte, são formas de criação que, dentre outras funções, pretendem registrar algum acontecimento de regiões ou países, muitas vezes exagerando suas glórias ou combates, e facilmente se tornando símbolos de uma geração, usadas como iconografia para esses eventos do passado e do presente.

O termo se aplica originalmente à pintura que representa fatos históricos, cenas mitológicas, literárias e da história religiosa. Consequentemente, outros suportes artísticos se apropriam de iconografias similares. Em acepção mais estrita, refere-se ao registro pictórico de eventos da história política e social de diferentes recortes temporais. Batalhas, cenas de guerra, personagens célebres, fatos e feitos de homens e mulheres notáveis são retratados de diferentes formas e linguagens.

Nas artes visuais, o ato da violência normalmente está apenas indicado, como algo que irá acontecer na cena ilustrada ou que acaba de ocorrer. Desta forma, em muitos dos casos, a violência é sugerida e se completa apenas na imaginação do espectador. Dependendo do suporte artístico (pintura, fotografia, escultura, desenho, vídeo, etc.) e do estilo, o nível de sugestão ou abstração varia, o que deve ser levado em consideração para a classificação indicativa.

B. SEXO E NUDEZ

No que concerne ao sexo e nudez no campo das artes visuais, é importante considerar que os dois conceitos não estão necessariamente atrelados entre si. O nu artístico, por exemplo, é a designação dada à apresentação e/ou representação do corpo de uma pessoa nua em diversos meios e é considerado uma das temáticas tradicionais das obras de arte.

O nu é um tema complexo de se abordar pelas suas múltiplas possibilidades, tanto formais quanto estéticas e iconográficas, e é considerado um dos elementos mais importantes na arte, sendo reelaborado e atualizado de diferentes maneiras no contexto contemporâneo. A nudez pode ter diversas interpretações e significados, desde a mitologia até a religião, passando pelo estudo anatômico, ou ainda como representação da beleza, das múltiplas identidades e de diferentes padrões estéticos. Portanto, o corpo jamais deixou de estar presente na arte.

Expandindo essa visão, a arte é um importante território para que questões como o sexo e o erotismo ganhem expressão e representação. A sexualidade faz parte do ser humano, sendo uma necessidade básica e um aspecto do ser humano que não pode ser separado de outros aspectos da vida, de modo a influenciar pensamentos, sentimentos, ações e interações, e, portanto, a saúde.

É importante, contudo, entender que a compreensão e vivência da sexualidade é gradativa e exige diferentes graus de maturidade, de tal forma que determinados conteúdos são dotados de maior impacto quando expostos a audiências de faixa etária mais baixa.

C. DROGAS

Seja com a finalidade de mera recreação, como também para liturgias religiosas de cunho transcendental, a produção e o consumo de drogas é um fato histórico em diversas civilizações. Com o desenvolvimento dos conhecimentos correlatos à área de saúde, entendeu-se que a exposição a esses compostos pode acarretar em danos temporários e permanentes à saúde física e mental, além de estarem associados a algumas mazelas sociais. Em contrapartida, também foram descobertos benefícios e utilizações medicamentosas a partir de tais compostos. Com base nisso, a licitude ou ilicitude de determinadas drogas é um constructo social intimamente relacionado às sociedades nas quais estão inseridas. As artes visuais, como uma das formas de retratação da realidade, também abordam o tema, com todas suas nuances, em suas obras e representações. Nessa seara, os espectadores são expostos a tais conteúdos e assimilam o que lhes é apresentado conforme o contexto e grau de verossimilhança da abordagem, de forma a influenciar na classificação indicativa.

LIVRE

A.1.1. ARMA SEM VIOLÊNCIA

A.1.2. MORTE SEM VIOLÊNCIA

A.1.3. OSSADA SEM VIOLÊNCIA

A.1.4. VIOLÊNCIA FANTASIOSA

B.1.1.

NUDEZ NÃO ERÓTICA

A tendência é aplicada taxativamente aos seguintes casos: retratação de comunidades indígenas ou tradicionais silvícolas; amamentação; nudez infantil (sem a associação com pedofilia); autópsias; obras de arte sem teor erótico explícito; exames médicos; casos em que um indivíduo necessita de auxílio ou cuidados para trocar de roupa e/ou banhar-se. Não se amoldam à tendência as imagens ou retratações em que há uma valorização das partes íntimas dos indivíduos. Neste caso, deve ser usada a tendência de nudez.

C.1.1. CONSUMO MODERADO OU INSINUADO DE DROGA

LÍCITA

O que é erótico? O que é “teor erótico explícito” na arte? Quem determina isso?

Considerando os eventos que levaram à criação desta revista, posso dizer com segurança que a presença do pênis por si só já é erroneamente todo “teor erótico explícito” que está descrito aqui. Inclusive afirmo: seja autópsia, troca de roupa ou banho, só é livre se for um corpo dito feminino, porque se for um nu frontal masculino ou um corpo dito dissidente a classificação muda. Essa “tendência à valorização das partes íntimas” abre uma brecha que sempre vai determinar o genital como vilão, fazendo com que a sociedade continue a alimentar a ideia do falo estuprador, violento, pecador, sujo.

Qual a diferença entre a nudez indígena e a nudez de um povo africano? Qual a diferença desses corpos para o corpo dito “caucasiano”? Me parece que enquanto povos originários são vistos como “exóticos” e os povos negros são fetichizados sexualmente – como sempre –, a “nudez branca” precisa permanecer sacralizada.

Veja que o mesmo não cabe à presença de armas ou “violência fantasiosa de forma caricata ou cartunesca”, ou seja, olhe um revólver, testemunhe um bullying, aceite uma agressão porque te faz rir, mas se esconda de um homem tomando banho.

Fica difícil fazer qualquer comentário na questão da insinuação das drogas lícitas, pois vivemos na sociedade do álcool, do açúcar e dos remédios (des)controlados. O vício é um empreendimento capitalista.

Foto de Sebastião Salgado, que foi cancelada pelo algoritmo da Meta. (Fonte: Folha de São Paulo)

A.2.1. ANGÚSTIA

A.2.2. ARMA COM VIOLÊNCIA

A.2.3. ATO CRIMINOSO SEM VIOLÊNCIA

A.2.4. LINGUAGEM DEPRECIATIVA

A.2.5. MEDO OU TENSÃO

A.2.6. OSSADA COM RESQUÍCIO DE ATO DE VIOLÊNCIA

B.2.1. CONTEÚDO

EDUCATIVO SOBRE SEXO

Diálogos e imagens não estimulantes sobre sexo e que estejam dentro de contexto educativo ou informativo.

C.2.1. DESCRIÇÃO DO CONSUMO DE DROGA LÍCITA

C.2.2. DISCUSSÃO SOBRE O TEMA DROGAS

C.2.3. USO MEDICINAL DE DROGA ILÍCITA

Estabelece-se aqui que a idade mínima para se obter uma educação sexual é 10 anos e, portanto, o corpo humano pode ser apresentado em toda sua glória. É difícil, porém possível, ensinar sobre sexo e sexualidades sem o uso de imagens. Agora… é impossível não estimular a curiosidade de uma criança (quase préadolescente)!

Existem alguns “arautos da decência” querendo retirar o ensino do sistema reprodutor humano do currículo de ciências / biologia. O interessante é pensar que, nesses termos, a educação sexual – e o uso medicinal da maconha – é colocada no mesmo patamar de situações de angústia, atos criminosos não violentos e bullying (sim, essa “linguagem depreciativa” aí é bullying).

A.3.1. AGRESSÃO VERBAL

A.3.2. ASSÉDIO SEXUAL

A.3.3. ATO VIOLENTO

A.3.4. ATO VIOLENTO CONTRA ANIMAL

A.3.5. BULLYING

A.3.6. DESCRIÇÃO DE VIOLÊNCIA

A.3.7. EXPOSIÇÃO AO PERIGO

A.3.8. EXPOSIÇÃO DE CADÁVER

A.3.9. EXPOSIÇÃO DE PESSOA EM SITUAÇÃO CONSTRANGEDORA OU DEGRADANTE

A.3.10. LESÃO CORPORAL

A.3.11. MORTE DERIVADA DE ATO HERÓICO

A.3.12. MORTE NATURAL OU ACIDENTAL COM DOR OU VIOLÊNCIA

A.3.13. OBSCENIDADE

A.3.14. PRESENÇA DE SANGUE

A.3.15. SOFRIMENTO DA VÍTIMA

A.3.16. SUPERVALORIZAÇÃO DA BELEZA FÍSICA

A.3.17. SUPERVALORIZAÇÃO DO CONSUMO

A.3.18. VIOLÊNCIA PSICOLÓGICA

C.3.1. CONSUMO DE DROGA LÍCITA

C.3.2. CONSUMO IRREGULAR DE MEDICAMENTO

C.3.3. DISCUSSÃO SOBRE LEGALIZAÇÃO DE DROGA ILÍCITA

C.3.4. INDUÇÃO AO CONSUMO DE DROGA LÍCITA

C.3.5. MENÇÃO A DROGA ILÍCITA

Pegação no Arpoador, acrílica sobre tela de Charlles Cunha, 2025.

B.3.1. APELO SEXUAL

Representações em que há a objetivação sexual, seja pela valorização imagética de alguma característica física ou de alguma qualidade sexual do indivíduo. Nestes casos, o contexto erótico não é estimulado ativamente pela personagem enfocada.

B.3.2. CARÍCIA SEXUAL

Representações em que personagens se acariciam e a sexualização está presente, mas a ação não resulta em relação sexual.

B.3.3. INSINUAÇÃO SEXUAL

Quando é possível deduzir por diálogos, imagens e/ou contextos, que a relação ocorreu, ocorrerá ou está ocorrendo, sem que seja possível visualizar o ato sexual.

B.3.4. LINGUAGEM CHULA

Diálogos, narrações ou imagens que apresentem palavras chulas ou de baixo calão.

B.3.5. LINGUAGEM DE CONTEÚDO

SEXUAL

Diálogos, narrações, representações, sinalizações ou gráficos sobre sexo, sem que haja apresentação de vulgaridades, ou seja, que descrevem a prática do ato ou comportamento sexual, sem que a sua descrição seja detalhista e/ou banalizada.

B.3.6. MASTURBAÇÃO

Representação não explícita de masturbação individual.

B.3.7. NUDEZ VELADA

Nudez sem a apresentação de nus frontais (pênis, vagina), seios ou nádegas, ou seja, em que as partes íntimas dos indivíduos não são apresentadas.

B.3.8. SIMULAÇÃO DE SEXO

Situações em que os personagens encenam o ato sexual sem que seja contemplado o ato em si.

Vejam: aos 12 anos o governo diz que a sexualidade já pode ser apresentada de forma implícita, seja em carícias, imagens, insinuações, simulações e linguagem, sem ser somente educativa. Contudo, volto à reflexão anterior no quesito “masturbação”: se aos 10 anos já se pode oferecer conteúdo educativo, mas somente aos 12 pode-se falar na prática, o que afinal eles estão chamando de educação sexual?

Aqui também aparece o item “nudez velada”, ou seja, sem a apresentação de nus frontais (pênis, vagina), seios ou nádegas. Vamos lá… mais uma vez: como fazer conteúdo educativo sobre sexo sem apresentar os genitais? Usando bananas e mamões? Sério? E ainda vou além: a classificação livre não permite mostrar pênis indígena? Então, que nudez velada é essa? Isso só comprova a reflexão sobre a racialização, a fetichização e, claro, a falta de coerência.

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O que também chama a atenção é que – além dos excessos, consumo irregular e indução às drogas – não há quase nenhuma diferença nas violências verbais e psicológicas entre 10 e 12 anos a não ser uma eufemização dos termos. Vale citar que a “violência fantasiosa” da classificação livre começa a oferecer inúmeras brechas: zumbis (A.3.8.), sacrifícios de super-heróis (A.3.11.) e… me diz quando não há sofrimento de uma vítima mesmo em batalhas do bem contra o mal.

É interessante notar um item específico sobre “supervalorização da beleza física” que remete à ações sobre o corpo. Apesar de não haver gênero no item, é importante dizer que a pressão dos valores estéticos cabe tanto para homens quanto para mulheres, independente de identidade e orientação sexual.

A14

A.4.1. ABORTO

A.4.2. ESTIGMA OU PRECONCEITO

A.4.3. EUTANÁSIA

A.4.4. EXPLORAÇÃO SEXUAL

A.4.5. MORTE INTENCIONAL

A.4.6. PENA DE MORTE

C.4.1. CONSUMO INSINUADO DE DROGA ILÍCITA

C.4.2. DESCRIÇÃO DO CONSUMO OU TRÁFICO DE DROGA ILÍCITA

A origem do mundo, óleo sobre tela de Gustave Courbet, 1866.

B.4.1. EROTIZAÇÃO

Apresentação de imagens, performances, diálogos e contextos eróticos ou sexualmente estimulantes, tais como: strip-teases e danças eróticas. Existe a valorização imagética do contexto sexual. Nestes casos, o contexto erótico é estimulado ativamente pelo protagonista da ação.

B.4.2. NUDEZ

A tendência é aplicada quando, em obras de áudio, vídeo, performance, fotografias, pinturas ou esculturas são exibidos seios, nádegas e/ou órgãos genitais, sempre que esteja presente o conteúdo sexual, com a valorização das partes íntimas.

B.4.3. PROSTITUIÇÃO

Retratação de qualquer etapa do ato da prostituição como sedução/ conquista, oferecimento, contratação, prática sexual ou pagamento.

B.4.4. RELAÇÃO SEXUAL

Representação de qualquer modalidade de sexo (vaginal, anal, oral e/ou manual) não explícito.

B.4.5. VULGARIDADE

Imagens, diálogos, representações ou contextos que apresentem a sexualidade de maneira detalhada ou vulgar. Existe a valorização imagética do conteúdo sexual ou a banalização da linguagem imprópria, de forma que o impacto para o espectador é mais intenso.

E, finalmente, aos 14 anos, é permitido que os genitais apareçam em contextos sexuais. Repito: em contextos sexuais, porque, antes disso, somente em simulações e situações veladas, já que a educação sexual provavelmente é feita com pepinos…

Aqui fica a questão: se aos 14 anos o genital pode ser visto, por que uma obra de arte em qualquer mídia que possua um pênis recebe a indicação de 18 anos ou é censurada? E por que o mesmo não acontece quando uma mulher está nua? Sim, a resposta está no machismo patriarcal incoerente e hipócrita.

Fica entendido, então, que a partir dos 14 anos, uma pessoa é capaz de elaborar imagens sobre nudez e erotismo. Ela é capaz de discutir sobre prostituição, aborto, eutanásia e pena de morte. Mas não é isso que vemos. Uma professora de Arte nos EUA foi demitida por mostrar o Davi de Michelangelo em sala de aula, mas Snoop Dogg pode fazer o lançamento global de músicas sobre drogas, cafetinagem e assassinato.

Continuo não entendendo a separação que esse manual faz de estigmas, preconceitos, bullying etc. Não tem violência psicológica leve ou pesada. Quem determina o grau disso? É tudo a mesma coisa e, se é pra proteger, deveria ter censura alta.

Achei interessante a separação entre prostituição (nudez e sexo) e exploração sexual (violência). Parece um olhar amplo sobre os trabalhadores do sexo.

A.5.1. ATO DE PEDOFILIA

A.5.2. CRIME DE ÓDIO

A.5.3. ESTUPRO OU COAÇÃO SEXUAL

A.5.4. MUTILAÇÃO

A.5.5. SUICÍDIO

A.5.6. TORTURA

A.5.7. VIOLÊNCIA GRATUITA OU BANALIZAÇÃO DA VIOLÊNCIA

B.5.1. RELAÇÃO SEXUAL INTENSA

A tendência é aplicada quando são exibidas representações, áudio, vídeo ou performance com conteúdos hiper-realistas e/ou de longa duração, em que seja retratada qualquer modalidade de sexo (vaginal, anal, oral, manual) não explícita. Nesta modalidade, o ato sexual é mostrado de forma verossímil e contundente.

C.5.1. CONSUMO DE DROGA ILÍCITA

C.5.2. INDUÇÃO AO CONSUMO DE DROGA ILÍCITA

C.5.3. PRODUÇÃO OU TRÁFICO DE DROGA ILÍCITA

Os adolescentes de 16 anos estão liberados para ver sexo mais intenso, ou seja, que não seja educacional, simulado ou romantizado, mas… peraí! Nada é falado sobre nudez!

A nudez total está liberada a partir dos 14 anos pelo governo!

As definições de violência psicológica continuam deturpadas como se houvesse alguma forma de se quantificar o dano. Uma sociedade preconceituosa não entende que todo preconceito é por si só um crime de ódio. Já o item banalização da violência (A.5.7.) deveria ser repensado em tempos de videogames de atropelamento por pontos.

Aqui vale uma reflexão sobre o item sobre pedofilia. É ótimo que esteja na área de Violência e não de Nudez e Sexo, porém, se o próprio item diz que o ato é sobre violência sexual contra menos de 14 anos, não seria melhor reduzir a censura para que as possíveis vítimas de 14 anos conheçam o problema e possam identificá-lo? E mais: uma educação sexual possível e saudável deveria abordar essa temática, bem como aborto, prostituição, estupro, masturbação… ou seja, aos 10 anos, conforme esse manual. Só que a sociedade não está preparada para lidar com isso.

Dirt – Jeff on Top, escultura de plástico de Jeff Koons, 1991. (Fonte: Site do artista)

A18

A.6.1. APOLOGIA À VIOLÊNCIA

A.6.2.

CRUELDADE

B.6.1. SEXO EXPLÍCITO

Retratação de relação sexual explícita, de qualquer natureza, inclusive da masturbação, incluindo as reações realistas dos participantes do ato sexual e/ou visualização dos órgãos sexuais. Não ocorre exclusivamente em obras pornográficas.

B.6.2. SITUAÇÃO SEXUAL

COMPLEXA OU DE FORTE IMPACTO

Representação de atos ou situações sexuais, tais como incesto (apresentação de cenas de sexo ou relações erótico-afetivas entre parentes de primeiro grau ou correlatos, como pai, mãe, irmão, padrasto, enteado, etc.), sexo grupal, fetiches violentos, zoofilia, necrofilia, coprofilia.

C.6.1.

APOLOGIA AO USO DE DROGA ILÍCITA

Alguém pode me explicar a diferença entre Relação Sexual Intensa (B.5.1) e Sexo Explícito (B.6.1)? Não, né? Porque não tem. No entanto, é a primeira vez que surge a palavra “pornográfica” em todo o manual. Acredita? Pois é, pode procurar. O item B.6.2. insere o universo dos fetiches mais pesados, mas alguns fetiches poderiam ser perfeitamente abordados com menos idade pelas regras deste manual.

E a incoerência segue nas apologias à violência e ao uso de drogas. Tudo que foi falado antes é apologia, portanto, ou tudo é 18 anos ou essa quantificação é pura balela usada como brechas pra vender cigarros, álcool, ideias fascistas, preconceitos e padrões sufocantes.

Ah… e, para finalizar, vale repetir: NADA É FALADO SOBRE NUDEZ! PÊNIS NÃO É 18 ANOS!

85

Benedicto

Contos do Falo

P ul P P hallus

Não consegui ler o nome dele no crachá, na verdade nem deu para ver, no escuro, se ele usava ou não o crachá, como está fixado na norma de segurança do complexo. Disse então meu nome e perguntei o dele. “Asimov”, respondeu. Achei curioso e perguntei, para fazer graça, qual a Ter ceira Lei da Robótica. Foi a vez de ele rir e, discretamente, acariciar o pau dentro do apertado uniforme de trabalho com aplicações de plástico fosforescente, que era o que mais brilhava naquele breu – além dos meus olhos, eu acho, e das minhas narinas frementes de lascívia e cheirando confusão à vista. Soa bem melhor pensar em acontece quando se vive em um conto de Pulp Fiction português. Lá longe, os prédios altos da base de lançamento de foguetes se destacam sob o céu cheio de estrelas. Nosso céu tem mais estrelas, eu sei. O complexo aero espacial foi construído em um ponto estratégico, na linha do Equador, e eu estava lá para uma auditoria a mando do Governo Supranacional. Dizem que isso não existe, Governo Supranacional, que é fake-news, invenção dos poucos jornalistas que ainda não foram comprados, mas existe sim, e eu sou a prova, eu e a minha instrução confidencial de auditoria número 3217-A de 2038. O dia inteiro fazendo per guntas e olhando números, procurando furos em cadeias e cadeias de números e em narrativas repetidas, em contradições e nervosismos mal disfarçados, operando os sistemas de auditoria em inteligência artificial – e desconfiando quando um sistema de AI mente e precisa ser extirpado. Quando chega a noite quero mais é me divertir, em qualquer lugar do universo se acha diversão, até mesmo aqui neste fim de mundo em equilíbrio instável sobre o Equador. Ofereci uma cerveja para Asimov, ele segurou mi nha mão, firmemente, carinhosamente, mentirosamente. Ao longe, o mar com ondas de ressaca e mais longe ainda o barulho ritmado de tambores. A base foi construída em uma área de quilombolas, todo o mundo sabe, e isso gerou um sem número de pendengas judiciais, de indenizações, de protestos, os militares da ditadura não queriam nem saber, mas quando eles foram defenestrados sobrou para nós. “Precisamos dar uma satisfação à sociedade”, me disse minha chefe Supranacional cujos pronomes são elu/ delu, fez questão de me falar como se eu quisesse saber. Eu agora só quero satisfação, sussurrei ao ouvido de Asimov. Ele riu de novo e disse que eu precisava conhecer os ir mãos deles, Bradbury e Clarke. Perguntei se eles topam

uma brincadeira também e se são tão gostosos como ele, como quem não quer nada indagou se eu tinha conseguido achar alguma coisa duvidosa na auditoria. Todos então sabem da porra da auditoria. Devem estar à minha espreita para me matar e sumir com meu cadáver. Disfarcei, disse que não sabia nada de auditoria, tinha vindo só fazer uma pesquisa sobre os quilombolas remanescentes para meu pós-doc. Ele finge que acredita, me abraça e fala no meu ouvido, “se você quiser eu sei tudo sobre o que você está procurando”. Disse que não, eu só queria me divertir, “sexo, drogas e rock ‘n’ roll”. Ele respondeu, “OK, OK e NOK” – e completou “música alta aqui, a segurança vem na hora correndo e atirando, só se fomos lá em casa, você topa?”. Outra cerveja, ele coloca o pau para fora, eu chupo. Ele me responde sobre a Terceira Lei da Robótica. Faço a pergunta que não quer calar, se ele é um robô, mas ele fica mudo, só os olhos brilham metálicos e inumanos como quem pensa “fui descoberto”; ou, pelo contrário, como quem se apaixona, o mais humano dos defeitos de fabricação. Na casa dele, os irmãos, sem camisa, bebendo, fumando maconha e dançando Rolling Stones. Eram os itens que faltavam, as drogas e o rock ‘n’ roll, pelo estado dos três irmãos percebo que de sexo estarei bem servido.Vamos tirando a roupa devagar, suados, bêbados, com o canto do olho eu vejo que um deles disfarça, abre meu celular, retira um chip e o pisoteia. Os dados da auditoria todos armazenados neste cartão de memória, puta merda. Paciência. Lá fora, a base aeroespacial se ilumina toda, o rumor dos tambores à distância aumenta até ficar insuportável. Dezenas de foguetes enfileirados, de todos os tamanhos e cores, como falos e falos. Uma apoteose fálica, apesar dos projetos rejeitados de minha chefe para a substituição deles por espaçonaves vúlvicas. Os três rapazes têm paus enormes, mas nada me prepara para a espaçonave que sai da plataforma de lançamento de foguetes e fica flutuando em pleno ar na altura da janela. É a hora em que eu revelo de que planeta eu vim e que não adianta destruir o chip pois os dados da auditoria já foram enviados há um bom tempo para a minha chefe. Asimov ainda pragueja, rouco, como um disco fora da rotação antes de perder totalmente a voz, “sua chefe é uma vaca vendida”. Clark diz, “mais uma auditoria inconclusiva, sobreviveremos até o próximo auditor”. Bradbury não diz nada, só encosta o pau duro em minha bunda. Até mais tarde, garotos, vejo vocês na outra galáxia.

Crônicas Fálicas

O teu pau é tão grande, Papilo, Como grande é o teu naso; Assim, quando está duro, querendo, Podes, presto, cheirá-lo.

Esta é a tradução assumida de Dr. Ângelo Monaqueu para um daqueles epigramas de Marcus Valerius Martialis (Marcial), poeta latino do século I dC, nascido em Bílbilis, Espanha: Mentula tam magna est quantus tibi, Papyle, nasus, ut possis, quotiens arrigis, olfacere. Pois há outras – muitas – rascunhadas e um tanto ornamentadas, como esta que se segue: Teu pinto é tão grande, ó Papilo,/ tão grande como o teu nango/ que, quando está duro,/ nem precisas curvar-te,/ se assim o quiseres,/ para que possas cheirá-lo! Parece-me um tanto longa e explicativa, apesar das qualidades formais inegáveis. Outrossim, tentativas com o léxico: o que seria mais adequado? Pinto, pau, pênis, cacete, caceta, caralho, cazzo, fumo etc. Dr. Ângelo possuía algo de Marcial, nem que fosse uma certa inveja pelo fato de o bardo ter feito mil-e-novecentos anos antes o que ele gostaria de fazer à sua época, e até fazia. O nosso Mestre chegou a tentar outras traduções de Marcial (poeta que ele já conhecia, mas que aprendeu a gostar através de traduções de Luiz Antônio de Figueiredo e Ênio Aloísio Fonda – belíssimas e incomparáveis – que também haviam traduzido poemas de Catulo). Esta que se segue e que diz, impiedosamente: Lês, ó Fidentino, tão mal os meus versos, que até parecem os teus! também é da lavra do Mestre, mas se parece com tantas outras! Chegou a fazer uma espécie de epigrama com endereço certo e que está publicado no volume 4 (Sobras Completas) do De Amor e Merda: Quem faz o que você faz, meu caro, não deveria zombar de poeta algum! Perceberam as afinidades? A tradução acima – contra Papilo – havia sido enviada a mim pelo mestre: “Ao meu ex-eterno-aluno Omar Khouri… o Mensageiro Solitário”. A folha que continha a tradução escolhida e outras da mesma peça estava perdida em minha biblioteca, dentro de um livro. Encontrava-se, também, entre os papéis localizados em casa de sua mãe, Dona Salma Bayoud Monaqueu, e que deverá constar, juntamente com outros poemas da mesma procedência, do futuro volume [já consta do volume] Poemas da mãe, por mim organizado. Ora, eu a entrego ao público, com uma grande sensação de alívio. Penso que foi ato-falho do Mestre dedicá-la e enviá-la a mim: eu com este nariz semita-fenício-árabe, um narigão, diga-se [supondo, talvez, que meu membro viril acompanhasse, nas dimensões, o tal narigão]. De qualquer modo, senti-me honrado por ter podido ser o guardião desta joia. Joia na língua de Camões, Gregório de Matos, Bocage, Cesário Verde, Fernando Pessoa, João Cabral, Augusto de Campos e outros tantos… A rima (que não há no Latim) acaba sendo como que uma exigência de peça em versos numa língua neolatina, como é o Português. Em tempo: atentar para o ritmo anapéstico . . / . . / . . /. O desenho que acompanha o poema traduzido, não-assinado, deve ser de autoria do Mestre. É literal demais, porém, traz algumas qualidades gráficas e… deve ser, mesmo, do Mestre! [Uma anotação incrível: NARINGOFÁLICO! Esta tradução já teve, pelo menos, duas publicações anteriores: na REDE e em papel e esta vai sem o desenho, que comparece em ARTÉRIA 9, de 2007, mas que não consta da cópia preservada pela mãe.]

Publicação e comentários sob a responsabilidade do Prof. Omar Khouri.

Crônica de Omar Khouri.

Uma mente própria: A

história cultural do pênis

Esse livro é um oásis num deserto de conhecimento. Aliás, logo no início da leitura achei até que fosse uma miragem mesmo, porque… um livro inteiro falando sobre pênis? Se não é miragem, é milagre!

Agostinho, Da Vinci, Freud, biólogos, médicos, antropólogos, experiências diversas – e aterradoras – são citados no livro que comprova que o falocentrismo é real na humanidade. Seja uma ferramenta de poder (sobre as mulheres e outras raças) ou de vulnerabilidade, a masculinidade foi pensada a partir do pênis em todos os séculos. Mesmo quando ele se viu escondido, ele permanecia no inconsciente coletivo como causador de todos os males. Com um texto fluido e bem humorado sem ser jocoso, o autor vai do Homo sapiens ao Homo viagra, mostrando que o pênis é mais do que uma parte do corpo: é sim, uma ideia:

Capa dessa “bíblia”!

A história do pênis é a história de sua evolução como ideia. Ao longo do tempo, o pênis foi divinizado, demonizado, secularizado, racializado, psicanalizado, politizado e, finalmente, medicalizado pela moderna indústria da ereção. Cada uma dessas lentes foi uma tentativa de dar sentido intelectual e emocional à relação do homem com o seu órgão definidor.

NOTA DO EDITOR: Gostaria de agradecer a Paulo du’Sanctus por ter me dado o livro. Um presentão!

Mas claro que nem tudo é perfeito. Como tenho um olhar jornalístico, acadêmico e científico nas leituras para esta coluna, fiquei meio incrédulo em vários momentos do livro. Me perguntava “de onde ele tirou isso?” ou “será que isso é sério?” em algumas das histórias contadas. Senti falta daquela nota de rodapé que dava uma situada e… depois de ler 1/3 do livro, descobri que tinha notas no fim do livro.

Isso mexe com meu lado designer –principalmente editorial. Notas em fim de livro são para serem esquecidas, já que ninguém fica indo e voltando (a não ser que seja resposta de palavras cruzadas).

Portanto, as notas de rodapé tem uma função complementar importante. E isso mexe também com meu lado pesquisador. Uma

coisa que aprendi no mestrado é que, se uma nota tem mais do que três frases, ela é grande demais e, então, importante demais para ser somente uma nota: ela precisa ir para o corpo do texto.

Nada disso tira a relevância desta publicação. É bem verdade que, pra mim, que já está há anos pesquisando o assunto, grande parte dos eixos temáticos já foram estudados (e já viraram artigo). No entanto, ele pode ser uma entrada especial nesse assunto e mais: talvez seja a chave para tirar o tabu do pênis e, consequentemente, para desgenitalizar e naturalizar a nudez. Aliás… vou além e digo que entender sua construção ideológica pode ser um bom começo para redução de conflitos, de machismos, de racismos, de preconceitos. 8=D

Hic habitat felicitas é uma inscrição em latim que significa “aqui mora a felicidade” ou “vive a felicidade aqui”. A inscrição foi encontrada em um relevo romano com um falo, estando relacionado à ideia de que símbolos fálicos para afastar o mau agouro.

FALO COM VOCÊ

FERIDAS NARCÍSICAS ARTIFICIAIS

Quando viver tornou-se um desrealizar-se contínuo?

Se a primeira ferida narcísica da humanidade, segundo a teoria freudiana, está no homem entender que ele não é o centro do universo, como faz quando afundamos num sistema ancorado em tornar cada passo da vida um espetáculo nos redirecionando exatamente ao centro de nós mesmos, num contínuo egocentrismo digital, no qual, é nossa a responsabilidade por otimizar ou fracassar capacidades físicas, emocionais, corporais, relacionais, sexuais…? O imaginário alimentado pelo consumismo virtualmente artificial compensa a falta de realidade, mas leva à depressão.

A busca desenfreada por uma identidade idealizada – “se eu fosse hétero, gay padrão, milionário, tivesse mais cms de pinto…” – costuma resultar no fracasso do SER e esvaziamento de sentido da vida. Dadas as devidas normas, proporções e privilégios, no fim, a gente só é aquilo que a gente consegue ser e é só com essa noção que potencializamos nossas subjetividades.

A segunda ferida narcísica de Freud nos lembra de que, apesar da racionalidade, somos uma espécie entre muitas. Em oposto a esse pensamento, a sociedade artificial ensina que podemos transcender todas as nossas limitações, basta seguir os conselhos do coach ou influencer que replica a falácia da meritocracia: investir em si mesmo como solução – ignorando os contextos e complexidades da vida de cada um, o que, paradoxalmente, desumaniza a todos.

Somos desumanizados pela lógica inatingível do desempenho e da eficiência cerceadas pela tecnologia digital. Se você falha, somente você seria o responsável, o que acaba gerando sentimento de culpa, fracasso, angústia, depressão, vazio, falta de sentido e ideação suicida.

A terceira ferida narcísica revela como o ser humano não é plenamente racional e dono de si: é o inconsciente que controla boa parte de nossas vivências. No entanto, a sociedade do desempenho nos faz crer que podemos superar nossas angústias e inseguranças com “soluções mágicas” e validação externa, ao invés de enfrentarmos as duras verdades sobre nós mesmos. Não estamos expulsando apenas o outro, estamos expulsando a nós mesmo de aceitar as limitações próprias da condição humana.

Psicólogo (CRP 122809/6) e Sexólogo

Modelo: Diogo Santos. Foto: autorretrato

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