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Falo Magazine #3

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ano I . # 3

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JOÃO DI SOUZA GUILHERME CORREA Alair Gomes A nudez não precisa ser sexual A nudez natural do Brasil

O Homem Nu é imoral?


FALO© é uma publicação bimestral. julho 2018. ISSN 2675-018X versão 13.04.20

edição, redação e design: Filipe Chagas corpo editorial: Dr. Alcemar Maia Souto e Guilherme Correa. site: Pedro Muraki capa: As três graças, acrílica em lona de João di Souza

Zelo e técnica foram empregados na edição desta revista. Ainda assim, podem ocorrer erros de digitação ou dúvida conceitual. Em qualquer caso, solicitamos a comunicação (falonart@gmail.com) para que possamos verificar, esclarecer ou encaminhar a questão.

Nota do editor sobre nudez:

Por favor, entenda que esta publicação é sobre a representação da masculinidade na Arte. Há, portanto, imagens de nus masculinos, incluindo imagens de genitália masculina. Consulte com precaução caso sinta-se ofendido.

Direitos e Comprometimento:

Esta revista está comprometida com artistas que possuem direitos autorais de seu próprio trabalho. Todos os direitos estão reservados e, portanto, nenhuma parte desta revista pode ser reproduzida de forma mecânica ou digital sem autorização. Temos o cuidado de garantir que as imagens usadas nesta publicação tenham sido fornecidas pelos criadores com permissão de direitos autorais ou sejam livres de direitos autorais ou sejam usadas no protocolo de “uso justo” compartilhado pela internet (imagens em baixa resolução, atribuída a seu criador, sem fins lucrativos e usada apenas para ilustrar um artigo ou história relevante). Se, no entanto, houve uso injusto e/ou direitos autorais violados, entre em contato através do e-mail falonart@gmail.com e procederemos da melhor forma possível.

Submissões:

Caso haja o interesse de participar da revista seja como artista, modelo ou jornalista, entre em contato através do e-mail falonart@gmail.com.

FC Design R. Mario Portela 161/1603 C, Laranjeiras Rio de Janeiro – RJ 22241-000

Editorial

F

azer uma REVISTA é difícil. Imagine uma revista sobre ARTE... não, sobre o NU na Arte... espera... sobre o nu MASCULINO na Arte!

Agora imagina que essa revista sobre o nu masculino na Arte é BRASILEIRA. Pra finalizar: imagina enfrentar tudo isso SOZINHO! Tenho um prazer enorme de fazer essa revista, mas, quando nem mesmo aqueles que se beneficiam com esse trabalho demonstram alguma vontade, fico me perguntando se não estou dando murro em ponta de faca. Caso você tenha alguma dificuldade de entender esse desabafo, na Apresentação, narro os acontecimentos de 2017 que levaram à criação dessa revista. Tenho certeza que ficará bem ilustrado na sua cabeça. É por isso que quero agradecer às pessoas que (sem saber) mantiveram a luz no fim do túnel acesa: Vilmar Ledesma e Allan Lucena, pela vontade de participar da revista; o pessoal do Papo de Homem sempre solicito; Adão Iturrusgarai, que, sem piscar, autoriza o uso de suas incríveis charges; e, a Lorrane Sezinando, pela paciência e gentileza.


Sumário Aproveito e faço também um parágrafo especial de agradecimento ao fotógrafo Guilherme Correa que, num papo informal sobre Alair Gomes – cuja obra está na coluna Falo de História –, me indicou à Biblioteca Nacional e fui apresentado a um material soberbo. Imediatamente mudei os planos da revista para colocá-lo ainda nessa edição. Não só por seu carinho, gentileza e disponibilidade, mas por seu incrível trabalho. Sobre essa revista em si, o objetivo é mostrar somente artistas brasileiros, como João di Souza e Guilherme, além de Alair (com direito a imagens de acervo da Biblioteca e um texto incrível onde ele descreve o falo como sua “perene ternura”). Minha Falorragia discorre sobre a nossa nudez nativa, a nudez do povo verdadeiramente brasileiro. Esse texto faz eco com o texto do Papo de Homem, que questiona a sexualidade da nudez. Por fim, retorno à coluna moNUmento, em uma referência direta ao ocorrido com Wagner Schwarz no ano passado. Espero que você, leitor, artista ou anunciante, tenha entendido agora esse esforço. Que a partir de agora você compartilhe esse material caso tenha achado importante. Se não for do seu gosto, ao menos reconheça o valor informacional desse periódico. Aproveite esse veículo como uma oportunidade de usar a Arte para transformar o mundo. Filipe Chagas, editor

APRESENTAÇÃO Em domínio público João di Souza

Guilherme Correa FALO DE HISTÓRIA Alair Gomes FALO EM FOCO ESPECIAL O Homem Nu é imoral? PAPO DE HOMEM A nudez não precisa ser sexual FALORRAGIA A nudez natural do Brasil moNUmento

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APRESENTAÇÃO

Em domínio público por Filipe Chagas

Em 15 de julho de 2017, o artista performer Maikon K apresentava na praça do Museu Nacional da República, em Brasília, seu trabalho DNA de DAN, quando policiais o levaram arbitrariamente de camburão para a delegacia: foi detido por ato obsceno, aparentemente baseado no escândalo moral de alguns, mesmo tendo autorização do SESC para a apresentação. Usaram de violência. Um sargento me imobilizou depois com uma chave de braço e não permitiu que eu levasse nem meus sapatos e documentos. Ninguém pôde me acompanhar na viatura, fui socado num porta-malas de camburão junto com um pneu de estepe.

4 Performance DNA de DAN. realizada em 2016 no Paraná. Fotos: Guto Muniz.

Tanto a Polícia Militar do DF quanto o Sesc se manifestaram em nota sobre o ocorrido. Na versão da PM, eles foram ao local após serem avisados por transeuntes que haviam visto “um homem nu” nas imediações do museu. Os policiais foram informados de que era um trabalho artístico, porém não foi apresentada nenhuma documentação/autorização. A nota emitida pelo Sesc do Distrito Federal diz que “a proibição da performance em Brasília, os prejuízos materiais à obra e a detenção do artista constituem uma arbitrariedade


que coloca em risco não apenas a liberdade de expressão, assegurada pela Constituição Brasileira e por documentos internacionais dos quais o Brasil é signatário, mas interfere nos direitos culturais do público.” DNA de DAN é uma dança-instalação criada pelo artista em 2013, onde Dan é a serpente ancestral africana que dá origem a todas as formas e representa os ritos de passagem do corpo, simbolizados pela troca de pele das serpentes. Dentro de um ambiente inflável criado pelo artista Fernando Rosenbaum – no qual o público pode entrar e permanecer –, Maikon mantém-se imóvel e respirando minimamente com o corpo nu coberto por uma substância líquida (desenvolvida por Faetusa Tezelli) que, ao secar, se torna uma espécie de segunda pele. Então, quando não é mais possível respirar tão pouco na bolha de plástico, começa uma dança para fazer com que a “pele” enrijecida se solte do corpo. Em 2015, DNA de DAN foi selecionada pela artista sérvia Marina Abramovic para integrar a mostra “Oito Performances”, dentro da exposição Terra Comunal.

Após, sua soltura, Maikon declarou: O meu corpo afronta os seus canais entupidos, o seu ódio contido, mesmo estando parado. Porque vocês nunca vão me controlar e eu pagarei o preço, eu sei, eu sempre paguei. Porque parado ali, nu, imóvel no meio da praça, suas vozes me atravessam, suas piadas estúpidas tentam me derrubar, sua indiferença me faz rir, seu embaraço me dá dó, mas eu continuo em pé. Esse trabalho reverberou no mundo da arte. O Brasil viu um crescimento de “críticos de arte” definindo as fronteiras da arte de forma radical, apoiados por instrumentos de redes sociais e dogmas político -religiosos fundamentalistas. Em setembro, o Santander Cultural do Rio Grande do Sul cancelou a exposição Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira após manifestações violentas contra

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uma arte chamada de “intolerante” e “zoófila”, capaz de corromper crianças. Com 270 obras de artistas, como Alfredo Volpi, Adriana Varejão, Cândido Portinari e Ligia Clark, entre outros, a mostra tinha como objetivo explorar a diversidade não só da expressão de gênero, mas também de credos e etnias. O que a exposição acabou revelando foi um claro despreparo do público ante a Arte em si. Talvez por arrogância, elevando-se como conceitual e independente de sua relação com o público para sua existência, a Arte se esqueceu de sua História e aumentou o abismo entre a produção e seus espectadores. Somente provocar ou causar sentimentos quaisquer não é mais suficiente em um mundo onde indisciplina e falta de educação são palavras de ordem. No entanto, é papel da Arte estender a discussão e testar as fronteiras para uma reflexão coletiva. 6

No mesmo mês, a gota d’água: um vídeo espalhado na internet mostrava uma criança, acompanhada de sua mãe, tocando nos pés de um performer nu. As tochas da moralidade se acenderam. Paus e pedras virtuais tornaram-se ameaças de morte ao artista e a Arte, como um todo, passou a ser degenerada. As milícias de ódio, a serviço de si mesmas (e de alguns políticos e religiosos), criaram um cenário ignorante de linchamento e reprodução de mentiras e calúnias paradoxais, criando provas contra si mesmos. A performance La Bête, criada em 2005 pelo artista Wagner Schwarz, é uma releitura da série Bicho, as figuras geométricas com dobradiças consideradas um clássico da artista brasileira Lygia Clark. O artista começa a performance manipulando uma réplica de

Imagens da exposição Queermuseu, em Porto Alegre: Travesti da lambada e deusa das águas (Bia Leite, 2013), “A”, Not “I” (Cibelle Cavalli Bastos, 2016) e Cena de interior II (Adriana Varejão, 1994). Fotos: Divulgação.


Still do vídeo filmado durante a performance La Bête, de Wagner Schwartz, no MAM-SP, onde aparecem Elisabete Finger e sua filha. Fotos: Internet.

plástico de um Bicho. Depois de algum tempo, ele pergunta ao público – até então espectador – se quer participar e oferece seu corpo nu aos presentes, como se fosse a réplica da réplica. Cada apresentação se torna diferente da outra porque é o público que conta uma história criada coletivamente. O evento ocorreu dentro do 35º Panorama da Arte Brasileira, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, numa apresentação fechada com avisos sobre a nudez do artista. A mãe, a performer Elisabete Finger, levou sua filha para conhecer a obra, mas o vídeo (criminosamente) divulgado a transformou numa “irresponsável”, enquanto Wagner se tornou o “pedófilo do MAM”. Ambos foram tratados como criminosos e precisaram prestar depoimento. Em sua primeira entrevista, cinco meses após o ocorrido, Wagner disse: A arte é um território fora do controle, mas o fragmento da performance – e não a performance – que se desdobrou de nossa proposta foi recontextualizado para articular tarjas ideológicas conservadoras, tais como ‘a família brasileira’ ou ‘as nossas crianças’. Esse ato performativo também existe enquanto experiência, mas, ao invés de expandir a relação das pessoas no mundo, ele a silencia através do medo. Esse ato performativo não pro-

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põe imagens emancipadoras, mas doutrina, reduz um conceito aberto à propriedade privada da crença de um grupo específico de pessoas. [...] Na imagem de um fragmento, o que existe é um breve recorte que não pode mais ser chamado de performance. Na imagem de um fragmento não é possível entender o contexto de uma performance. Um recorte, fruto de uma escolha pessoal, pode fazer-se autoritário, quando toma o lugar de tudo o que ele não mostra. Em outubro, Maikon K voltou à rua, munido de todo tipo de autorização necessária para defender DNA de DAN, em Londrina, no Paraná. O enredo se repetiu: a polícia chegou, ameaçando levá-lo. “Eu olhei em volta e perguntei para a plateia se eles iam deixar que aquilo acontecesse de novo”, diz. Eles não deixaram. O público fez um cordão de isolamento que protegeu Maikon da abordagem policial. Podia parecer um recomeço, mas a campanha contra a Arte e os artistas não tem nada de inocente. Também em outubro, o prefeito do Rio de Janeiro, o bispo Marcelo Crivella, tornou público em vídeo seu veto à vinda da exposição Queermuseu para o estado, usando uma justificativa moral (religiosa) para conseguir um apoio popular que sustentasse a redução dos investimentos em Cultura. Ou seja, é a vitória da ignorância quando, em vez da população pedir mais investimento em Cultura, parte dela ataca a Arte, praticamente reivindicando o estreitamento de sua própria vida e da vida de seus filhos.

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Dessa vez, o tiro saiu pela culatra. A Escola de Arte Visuais do Parque Lage, no Rio, decidiu em janeiro de 2018, trazer a exposição através de financiamento coletivo. Seja por um ato contrário ao prefeito ou por grande parte da população ter percebido o retorno da censura, a exposição bateu a meta de arrecadação e estabeleceu um recorde em crowdfunding. Além da mostra, a Escola decidiu usar o excedente para estabelecer diálogos com a população sobre tudo que vem acontecendo na Arte. Também em janeiro, Maikon, Wagner e Elisabete, junto a Renata Carvalho (a atriz travesti que continua tendo sua peça cancelada por interpretar Jesus), foram convidados Imagem de divulgação.


pelos curadores do Festival de Curitiba, Guilherme Weber e Marcio Abreu, para darem uma resposta artística aos ocorridos no ano anterior. Em março, eles apresentaram Domínio Público, uma peça que fala de arte, mais especificamente do quadro Mona Lisa, de Leonardo Da Vinci. Através da história de seu roubo do Louvre, os quatro se colocam diante do público – sem a intermediação de plataformas digitais, telas de computador ou telefones celulares – e pontuam situações que nos fazem refletir o que aconteceu a eles: a função da arte e do artista na sociedade, a fabricação e a manipulação da história, da informação e da verdade, e as consequências da ignorância, como a intolerância e a violência. Aqueles que esperavam uma resposta mais agressiva e nudez explícita como ato político, tiveram o impacto de uma apresentação direta e muito didática. As entrelinhas e ambiguidades se dissolveram na (sur)realidade de um humor irônico a partir de fatos históricos, porém carregados de dúvidas e mistérios. Por exemplo, seria Mona Lisa um homem? Renata indaga se o famoso rosto seria do amante de Da Vinci ou um autorretrato do pintor, tornando-se uma representação transgênera. Wagner compara os apelidos pejorativos que receberam Vincenzo Peruggia, chamado de “ladrão” por ter tirado a Mona Lisa do Louvre em 1911 e levado para Itália, sua terra natal, acreditando em um ato patriótico. É fácil assumir que o incidente causou comoção porque era “a pintura mais famosa do mundo”, mas, naquele momento, ela não era: foi a cobertura midiática do roubo que a transformou em uma celebridade como estrelas de cinema e cantores. Sua imagem

Foto: Annelize Tozetto

começou a aparecer em noticiários cinematográficos, caixas de chocolate, postais e anúncios publicitários. Multidões passaram a ir ao Louvre só para ver o espaço vazio onde o retrato costumava estar. Antes disso, muita gente nunca a tinha visto. Esse vazio é visto no cenário da peça que conta somente com uma imagem projetada do quadro. As repercussões negativas também transformaram todos os envolvidos. Seus nomes ficaram mais conhecidos, as obras presentes na Queermuseu são procuradas e reproduzidas em toda internet, com provável aumento de seus valores. Juntos enfrentaram os traumas do passado e se fortaleceram. É neste lugar que a Arte não deve se acomodar, mas seguir se fortalecendo no coletivo, ensinando como na peça e entendendo a si mesma com um objeto de domínio público. 8=D

Informações retiradas do Blog do Arcanjo, do site da Fecomercio, do Jornal Nexo, do site Cena Contemporânea, do site Bocas Malditas, da Revista Trip, do El País, do Festival de Teatro de Curitiba, do O Globo online, da Folha de São Paulo e da Revista Continente, entre 2017 e 2018.

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Trecho de texto escrito por Maikon K para a Revista Continente sobre a peça Domínio Público

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uando um corpo é exposto a doses excessivas de uma substância, perguntas ou acontecimentos, ocorre uma overdose. Este texto é a ressaca de 2017, de 2018 e do que virá pela frente. Do que se falou e do que ainda vai ser dito, escutado, debatido, ruminado de boca em boca. Com visões ou sem visões, o corpo é que paga o preço. [...] Sim, somos aqueles artistas que ganharam algum destaque na mídia, em timelines e grupos de WhatsApp por conta de “polêmicas” envolvendo nossos trabalhos. Um de nós foi detido nu em praça pública pela Polícia Militar; a atriz travesti foi impedida de se apresentar interpretando Jesus em uma peça; o outro foi acusado de incitar a pedofilia porque ficou nu em um museu e havia uma criança presente; e, por fim, a mãe que permitiu que sua filha tocasse o tornozelo desse artista nu.

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Sim, foi no Brasil que tudo isso aconteceu. Em 2017, lembra? Se eu soubesse desenhar, eu criaria uma tirinha em quadrinhos com esses personagens, num clima de Simpsons ou South Park misturado com Kafka. Sim, recebemos ameaças de morte. Sim, notícias falsas foram criadas. Sim, policiais, delegados, advogados e juízes foram acionados. Sim, políticos e pastores fizeram vídeos nos acusando. Sim, houve gente que nos atacou e nos defendeu. Sim, a imprensa e a CPI quiseram nos ouvir. Quem não está sujeito a isso? Esse é o enredo, o verdadeiro espetáculo, a grande obra original. É só escrever nossos nomes no Google. É patético. E, no fim do filme, quando ninguém esperava mais dar risada ou se emocionar, esses artistas se juntam e fazem uma peça pra contar ao mundo tudo aquilo que sofreram? Nossa, que sacada genial. [...] Domínio público também nasceu de um convite. No final de 2017, o Festival de Curitiba propôs que criássemos uma obra cênica para estrear em sua programação. Aceitamos. Por quê? Pra fazer do limão uma limonada. Vingança, autopromoção, sede de justiça, conciliação, reflexão, protesto, ato político, deboche? “O fato de vocês quatro estarem juntos em cena já é algo tão importante, vocês nem precisam fazer nada”, diz alguém. “Vai ser histórico”, lê-se num comentário.


“Os renegados”, diz outra pessoa com um sorriso malicioso. “Que coisa importante nesse momento que estamos passando”, dizem alguns. “Que afronta, que idiotice”, disseram outros. Ouvíamos, com a desconfiança de quem pisa em terreno movediço: as armadilhas estão espalhadas. [...] Como superar o absurdo da realidade? [...] Nenhuma metáfora é possível. Nenhum símbolo dá conta de traduzir um engasgo, um AVC, um estupro, uma morte. Bandeiras, pedras, canções, microfones abertos, paredões, tirar a roupa, dançar? Não é um contra-ataque. [...] Não há eles. Não há nós. [...] Não somos mártires, vítimas, portavozes, justiceiros. Estamos no mesmo barco [...]. Falamos das coisas falando de nós mesmos. Falamos para afirmar nossa existência como entidades reais. Atacamos para pertencer. Rejeitamos para não sucumbir. [...] Fazer uma peça a partir do que aconteceu conosco, e não sobre. Nos alimentar disso em vez de sermos devorados e cuspidos. Não nos interessa repetir, apontar, desabafar, proclamar. Faria sentido se estivéssemos de mãos dadas vomitando no palco. Regurgitando e devolvendo aquilo que engolimos: a porra de gozadas alheias. Agora, é a vez do nosso gozo. Sem gemer, no sigilo, discreto, normativo, sem afetação, sem afronta, no armário, subentendido, como manda a tradição. [...]

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Domínio público é uma comédia. Mesmo sem risos, há uma gargalhada de fundo: branca, limpinha e bem-vestida. O vazio é o maior escândalo. E, para existir por completo, é preciso que seja capitalizável. Que não haja fluidos à vista, que a travesti fale serenamente, que a camisa esteja bem -passada, que o viado se apresente numa elegância contida, que a mulher seja apolínea, que sejamos sóbrios em vez de viscerais. Estrategistas. Não é hora do campo de batalha, mas do jogo de xadrez. Um origami de nervos e sutileza. O modo como reagimos à arte diz muito sobre nós. O modo como fazemos arte diz muito do que se espera de nós. Foto: Annelize Tozetto


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JoĂŁo di Souza por Filipe Chagas


As Três Graças, acrílica sobre lona.

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A

té os 15 anos João di Souza tinha dificuldade em todas as disciplinas da escola, em Teixeira do Progresso, Bahia. Menos em Educação Artística:


“Eu já sentia afinidade com as artes. Estava sempre à frente dos projetos artísticos escolares e esse cenário me deu a certeza de que era isso que queria para mim.”

Açude. acrílica sobre tela.

Aos 16, João participou de uma exposição com desenhos e um crítico de arte o aconselhou a ir para São Paulo, caso seu desejo fosse realmente ser artista. Três anos depois, João desembarcava na terra da garoa. Dança, circo, teatro… teve uma trajetória que o fez encontrar a beleza do movimento corporal para se dedicar à pintura de forma autodidata. Sob influência de artistas figurativos da América Latina – principalmente o muralista Diego Rivera e a surrealista Frida Kahlo –, uniu o sensual e festivo em imagens de cores quentes e vibrantes como sua natureza baiana. Seu interesse pela temática da nudez masculina em suas obras em óleo e acrílica ou xilogravura vem a partir das lembranças dos dias adolescentes nadando no rio com homens que modelaram o desejo em seu imaginário.

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Parque aquático. óleo sobre tela.


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Nadadores, óleo sobre tela.

Sou movido pelo desejo; e os corpos masculinos me atraem por diversos motivos – até mesmo pela minha sexualidade. Parto de fotografias de homens, desconstruo as formas dos corpos e os reinvento pictoricamente. João em seu ateliê. Foto: Rodrigo Costa


O louco solitário ri com seus amigos solitários, acrílica sobre tela.

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O banho, acrĂ­lica sobre xilogravura.


Robert Mapplethorpe, Georgia O’Keeffe, Luiz Zerbini e Paul Gauguin são mais algumas de suas referências, que o fazem usar não somente a figura humana para seduzir, mas também toda a composição de formas e cores que compõem o fundo. Fantasia e realidade se misturam em imagens orgânicas que se abrem para a Pop Art sem fugir da antropofagia moderna brasileira, como em suas séries “Paisagens Inventadas”, “Círculo íntimo de amizade” e “Quimeras”. Pietá, óleo sobre tela.

João sabe das adversidades que seu trabalho enfrenta em uma sociedade que ele crê estar num processo de regressão moralista: As pessoas não estão dispostas a comprar obras figurativas de corpos masculinos sexualizados, pois carregam uma narrativa que elas não querem para elas. Independente disso, deixa claro que continuará fazendo o que gosta em busca de mais exposição e liberdade. 8=D

18 Roseiral, óleo sobre tela.


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Ensaio Nutopiastardust. Performer: Luan Machado

G

uilherme Correa é carioca, nascido literalmente na estreia da Geração Y, janeiro de 1980. Viveu até os 18 anos no Rio de Janeiro, mas seu primeiro emprego foi em São Paulo, onde permaneceu 15 anos, viajando o mundo inteiro como comissário de voo.

Guilherme Correa por Filipe Chagas

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Aos 30 anos sentiu que sua veia artística e uma sensação indistinta de incômodo o empurrava para fora da zona de conforto. Acabou decidindo largar tudo para se dedicar exclusivamente às artes cênicas. Nessa época, a experiência que mais o marcou foi a participação, no Theatro Municipal de São Paulo, na ópera Carmen de Bizet.

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A partir da análise de si mesmo e de seus colegas nas fotografias de palco, surgiu o interesse em captar a emoção e a energia das cenas e movimentos. Começou a estudar e a fotografar, de início com máquinas emprestadas, misturando cores e efeitos. Em 2015 retornou ao Rio e ingressou numa faculdade de fotografia, com a intenção de trabalhar, de fato, quando montou seu primeiro estúdio no centro da cidade e começou a ganhar dinheiro com a fotografia. Atualmente Guilherme produz ensaios usando como meio a fotografia digital, variando os temas entre nu, fotos sensuais e trabalhos de moda. As técnicas, ele diz, variam de acordo com a proposta, a inspiração e até as situações ditadas pelo acaso e improviso: contraluz, flash, longa exposição, luz de janela... A partir de vários processos cruzados, conversa com diversas pessoas ao mesmo tempo, tentando identificar quem se encaixa melhor na história que quer contar.

Acredito que, como quem faz uma música utiliza versos e poesias, eu uso olhares e gestos das pessoas pra fazer arte. Ensaio Demônios. Modelo: Andrés Vallejos.


Procura saber o mínimo possível do modelo e o que ele traz para acrescentar na linha de trabalho, como, por exemplo, se ele dança, pratica algum esporte etc. Entretanto, sabendo o quanto é delicado trabalhar com o ego e a expectativa das pessoas, é bem exigente e, ao clicar, presta atenção em tudo que possa fazer a diferença. Suas ideias também podem mudar durante as horas à fio de pós-produção, nas quais transforma o que chama de sua “fotorragia” em impressões, quadros sigilosos, catálogos de moda, composites, books para modelos, participação em concursos, zine ou trabalhos autorais. Para o fotógrafo sempre existiu a certeza em trabalhar com nu masculino, mesmo encontrando barreiras de docentes, amigos e clientes. As dificuldade, na verdade, acabaram levando -o a ter ainda mais vontade de seguir em frente, dando ao trabalho um tom de militância, um ato político, uma forma de participar na contracultura. O que é “proibido” sempre me chamou mais atenção. Falar “não faça” é a mesma coisa que falar “faça” para um nascido em 1980. Acredito que falar sobre o nu masculino é uma forma de tentar transformar o pensamento neofascista e o modelo sócio econômico castrador o qual vivemos.

Ensaio Mascote. Modelo: Luke Bigatti.

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Ensaio Namorado. Modelo: MaurĂ­cio de Quieroz.


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Ensaio Feather. Modelo: JosĂŠ Pennafort.


Sua maior barreira ainda é o nu frontal, pois 90% das pessoas não querem fazer. Acredita na importância dessa quebra de paradigma de algo natural e, então, age normalmente, como se estivesse fotografando a pessoa de roupa: olho no olho o tempo todo. Caso aconteça uma ereção e algum constrangimento, prontamente deixa o modelo à vontade e segue, pois o foco são as expressões faciais e corporais.

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Não posso impedir o que não há controle e acho lindo quando acontece, pois reflete uma vontade de estar ali. No início, precisou atuar quase escondido para que pudesse sobreviver financeiramente na profissão. Criou, então, o projeto Nutopia, onde aborda as novas formas estéticas tanto físicas e de gênero, sem se apegar a padrões. Para ele, o que interessa é a identificação do público com a diversidade dos personagens nas fotografias.

Ensaios Amante (Modelo: Cleber Henrique) e Base Forte (Modelo: Leandro Tuke). Na página ao lado: ensaio Conectados.


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Em 2017, com a repercussão da exposição Queermuseu e os acontecimentos no MAM, percebeu um monte de gente remando o mesmo barco. Descobriu referências instintivamente, como Robert Mapplethorpe, Alair Gomes, Terry Richardson, Helmut Newton, Rodin, Hopper. Para ele, “ninguém esquece uma foto de Mapplethorpe, nem permanece o mesmo depois de vê-la”. Trata-se do efeito visual chocante e do registro corajoso que desperta singularidades subjetivas ocultas. Assim como a sensualidade e melancolia nas fotos de Alair, que tem em sua obsessão pelo tema e o uso dessa ferramenta para entreter as pessoas como sua maior motivação para o reconhecimento.

Ensaio O Alair que há em mim. Modelos: Anônimos.

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Afinal, qual artista não quer aplauso? Talvez somente o Alair, que guardou tudo e deixou de tesouro pra gente estudar e fomentar a cultura homoerótica.


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Ensaio Nutopiastardust. Performer: Luan Machado.


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As respostas que recebeu ao longo desse processo se tornaram fortes elos e parcerias, como a participação na exposição coletiva na Fábrica da Behring, “O Pau na mesa” (curadoria de Lula Duffrayer), com a obra Nutopiastardust. No entanto, já teve conta bloqueada em redes sociais, foi convidado a se retirar dos lugares... e não pelo fato do nu em si, pois também trabalha com modelos de cueca ou sunga, mas pelo fato de falar abertamente da sensualidade masculina. Estou começando até a achar divertido, mas, quando saio para campo, cada dia mais aumento meus rituais de fé e proteção. Vivemos deprimidos, doentes… Precisamos conhecer e ajudar antes de criticar, dizer mais sim do que não para unir nossas frentes de trabalho, um grande tratamento de choque. Creio que disseminar a arte seja o antídoto do ódio. 8=D 32

Acima: Autorretrato Abaixo: ensaio fotográfico para modelo comercial e de passarela (Thiago Medeiros).


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Falo de Histรณria por Filipe Chagas

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Alair Gomes 1921 - 1992


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Sinfonia de Ícones Eróticos: Fragment nº 3.Acervo da Fundação Biblioteca Nacional - Brasil.


A

pesar de sua atuação intelectual em várias áreas, Alair Gomes (1921-1992) é mais conhecido por suas fotografias de corpos masculinos seminus, tiradas nos anos 1970 e 1980, com carga homoerótica. Hervé Chandès, diretor da Fundação Cartier para a Arte Contemporânea, chegou a afirmar, em 1991:

Em nus masculinos, não há nada hoje comparável no mundo da fotografia ao trabalho deste brasileiro. Mas Alair de Oliveira Gomes foi bem mais do que isso. Nasceu em 20 de dezembro numa família de classe média em Valença, mudando-se ainda criança para o Rio de Janeiro. Formou-se em Engenharia Civil e Elétrica pela Escola Nacional de Engenharia da Universidade do Brasil (atual Universidade Federal do Rio de Janeiro) em 1944 mas, desde a juventude, desejava se tornar um escritor, espelhando-se em nomes como Arthur Rimbaud e D. H. Lawrence, cujas obras admirava pela ousadia no tratamento da intimidade. Em 1946, fundou a revista Magog, junto ao poeta Marcos Konder Reis. Em 1948, abandonou a engenharia para se dedicar à pesquisa autônoma de Filosofia da Ciência, Estética e História da Arte. Começou seus Diários Eróticos, diários íntimos escritos à mão e em inglês (para “esconder informações”, pois sentia-se exilado), nos quais relatava suas experiências erótico-amorosas em descrições minuciosas, ou, como ele dizia, “pré-fotográficas”.

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Diário íntimo EX-ALTO I, [198-]. Fonte: Exposição “Alair Gomes, muito prazer”. Acervo da Fundação Biblioteca Nacional - Brasil.

O erótico é uma espécie de afirmação suprema da existência! A partir de 1958 foi professor assistente do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em 1962, com bolsa de um ano da Guggenheim Foundation, estudou e lecionou na Universidade de Yale, nos Estados Unidos.


Sinfonia de Ícones Eróticos (autorretrato). Acervo da Fundação Biblioteca Nacional - Brasil.

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Somente em 1965, aos 44 anos, que o artista aventurou-se na fotografia de arte e arquitetura, enquanto estava na Europa, encantado pelo visual das estátuas clássicas greco-romanas que se tornaram seu principal recurso imagético.

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Sinfonia de Ícones Eróticos: Fragment n.10 e/ou adoremus n.10, from Opus Three. Acervo da Fundação Biblioteca Nacional - Brasil.

A resolução final de começar a praticar fotografia sistematicamente deve ter sido fruto sobretudo da necessidade de homenagear o que entendo como o tema central da minha fotografia, que é a imagem do jovem, a imagem do corpo masculino. Esse fascínio, é claro, era muito anterior ao início da prática de fotografia. E exatamente por ser um fascínio de ordem visual, ele tentou se prestar inicialmente por meio de artes visuais mais convencionais. [...] E as minhas tentativas estavam destinadas a ser sempre medíocres. Entretanto, eu sentia uma espécie de necessidade obsessiva de uma homenagem que eu chamaria também de expressão. [...] Eu tinha uma vontade de produzir uma quantidade cada vez maior de imagens desse gênero. A imagem do corpo masculino, jovem e belo quase que me sufocava. (em entrevista para Joaquim Paiva, da Revista Zum, em 1983) Alair começou a produzir obsessivamente imagens de rapazes em longas sequências que o tornariam um dos precursores do homoerotismo fotográfico no Brasil. Levava modelos (de rapazes na praia a garotos de programa) para o estúdio improvisado na sala de visitas de seu apartamento, ousando cada vez mais, a ponto de retratar pênis eretos e camisinhas usadas (série Sinfonia de Ícones Eróticos com quase 1800 fotos).


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Sinfonia de Ícones Eróticos [From Opus Three].Acervo da Fundação Biblioteca Nacional - Brasil.


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Sinfonia de Ícones Eróticos: From Book of Erotic Icons.Acervo da Fundação Biblioteca Nacional - Brasil.


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Sinfonia de Ícones Eróticos: Fragment n.10 e/ou adoremus n.10, from Opus Three. Acervo da Fundação Biblioteca Nacional - Brasil.


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Série Esportes. Rio de Janeiro, 1968. Acervo Fundação Biblioteca Nacional - Brasil.

Série Esportes, Lagoa Rodrigo de Freitas, Rio de Janeiro, RJ, 1968. Acervo Fundação Biblioteca Nacional - Brasil.


Sítio Burle Marx,Vargem Grande, Rio de Janeiro, 1968. Acervo Fundação Biblioteca Nacional - Brasil.

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Na série Esportes, extraiu uma iconografia que ressalta a beleza, a força física e a sensualidade de corpos masculinos em atividades físicas. Alair também anotava metodicamente todo seu fazer fotográfico: tipo de lente, filme, tempo de exposição, tempo de revelação; a contemplação de suas imagens era reviver o processo de forma prazerosa. No entanto, seu trabalho fotográfico foi além dos corpos masculinos. Em 1968, por exemplo, foi contratado por Burle Marx para o registro de espécies botânicas de seu sítio. Retratou a X Bienal de Arte de São Paulo em 1969, fez uma série sobre o Carnaval do Rio de Janeiro durante doze anos e, até a década de 1980, trabalhou como fotógrafo de teatro. Em 1977 criou e foi coordenador da Área de Fotografia da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, onde também lecionou. Para ele, é na sequência de imagens estáticas que a fotografia se diferencia da pintura e do cinema, criando sua linguagem artística autônoma, como o que fez na série A não-história de um chofer.

Na próxima página: 18 fotos da série A não-história de um chofer. Rio de Janeiro, RJ, 1975. Acervo Fundação Biblioteca Nacional - Brasil.


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As imagens obtidas secretamente, a partir de uma janela de seu apartamento em Ipanema numa estética voyeurística, foram chamadas de Sonatinas a Quatro Pés. “Minha janela dá para um verdadeiro caudal de garotos que vão à praia e que dela vêm”, escreveu o artista em seu diário. “Vivo olhando.” Com o passar do tempo, à medida que foi superando a timidez, Alair passou a retratar os ginastas da Praia de Ipanema a partir da calçada e depois da própria areia, nos Trípticos de Praia.

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Produziu cerca de 170 mil negativos e 16 mil ampliações da década de 1960 até o fim de sua vida em 1992. Deu lastro à sua produção desenvolvendo teorias sobre a intimidade e o exercício do prazer como atos políticos. Realizou sua primeira mostra individual – Fotografia sequencial – na Galeria Cândido Mendes, em Ipanema, somente em 1984, e só veio a obter consagração internacional em 2001, nove anos após seu cruel assassinato: fora estrangulado em circunstâncias até hoje não esclarecidas (acreditase que o provável assassino tenha sido um de seus modelos, por quem o artista estava apaixonado).

Beach tripych nº 7. Ipanema, Rio de Janeiro, 198-. Acervo Fundação Biblioteca Nacional - Brasil.

Sonatina, four feet nº 6. Ipanema, Rio de Janeiro, 198-. Acervo Fundação Biblioteca Nacional - Brasil.


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A maior parte do espólio de Alair Gomes está na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, mas o artista também faz parte do acervo dos Museus de Arte Moderna do Rio de Janeiro e de São Paulo, do Itaú Cultural, da Coleção Pirelli/MASP, da Fundação Cartier, de Paris e do MoMA de Nova York. 8=D


Perene ternura

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Ereto ou ainda pendente, já túmido ou não, revelando ou deixando de revelar feições que suscitam assombro, ao mesmo tempo proporcionando, ou não, justa ocasião para o riso, ou mostrando-se completamente familiar, natural e muito simples, o membro masculino atrai ternura avassaladora – em seus múltiplos modos afirmando a generalização, num sentido básico e existencial, do amor mais paradisíaco que o ser humano conhece, quando criança – e depois. Estupendamente particular e concreto, inerente a indivíduos, ao projetar-se do corpo do homem como carne, torna-se também impessoal, supra-individual, proto-individual, incarnando traços muitos gerais e significativos da realidade; faz-se suma e resolução feliz de contradições inquietantes – afirma-se como certeza ou garantia amorosa – de modo tão misterioso quanto adorável, sempre surpreendente, figura e realidade oculta e exibida, acessível e inatingível, inocente e ardilosa – corpo, elucidação, fonte e amor de liberdade, veículo e finalidade, caminho e consumação, subjacente e transcendente – foco de fascínio de âmbito universal – impregnando e transfigurando o mundo com sua presença e realidade – supremo indício! – – milagre perene, como o próprio ser! – – Platão devia tê-lo sublinhado em sua teoria da recordação das coisas do céu nas coisas aqui percebidas – – os sentidos não revelam coisa alguma de caráter mais crucial – – nada mais fascinante, apenas e simplesmente por ser o que é. Obviamente o elemento pessoal ou subjetivo de minhas afirmações é enorme; mas não

Texto escrito por Alair Gomes em 18 de agosto de 198-. Acervo Fundação Biblioteca Nacional - Brasil (revisão e grifos do editor)

atinge sua validade. Ser felizmente sensível e livre bastante para perceber e proclamar o que agora proclamo não significa que minha proclamação seja válida apenas para mim, ou que em última análise eu afirme apenas uma peculiaridade de minha personalidade. A tomada de consciência do membro masculino é, para qualquer pessoa, uma experiência sui generis e transcendental – não importa quão simples e natural possa também ser – ou quão sórdida e corrupta a atmosfera em que se dá. E a rejeição, com ou sem expressão de escândalo, do fascínio que inevitavelmente suscita, não é, afinal, muito menos afirmativa de seu único poder que a plena e franca devoção a ele. De fato, a tomada de consciência do membro masculino afeta o cerne de qualquer pessoa – imediatamente projetando nova luz sobre a realidade em geral, transladando-a para um estado mais verdadeiro e revigorante, transfigurador de uma inquietação que nele também reside. A eleição, por minha parte, da indução de ternura como o efeito preponderante do fascínio exercido pelo falo pode parecer o traço mais pessoal das declarações que agora fiz a seu respeito e não apenas um traço muito pessoal, mas talvez também bastante cômico. Entretanto, essa eleição é a consequência mais justa e expontânea – em um sentido essencial, também a mais lógica – da tomada de consciência da concentração de tantos atributos felizes e fantasticamente afiançadores no falo. E, diria ainda, não apenas consequência, mas também algo absolutamente livre e original – fundamental. O riso que pode provocar é riso feliz e saudável – diante de evidência de liberdade feliz e total.


Falo em Foco

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Nu masculino sentado com bastรฃo, รณleo sobre tela de Eliseu Visconti, 1891.


ESPECIAL

O Homem Nu é imoral? A pergunta, quem diria, volta a ecoar em pleno século 21. Aqui, ela é título de uma matéria de capa da revista O Cruzeiro, de março, de 1968. É em cima da proibição da peça Cordélia Brasil, de Antonio Bivar, e abre com a nudez em página inteira do pintor e ator Luiz Jasmim, que morreu em 2013, aos 72 anos. Ele atuava na peça com Norma Bengell. Só que o “homem nu” não era o motivo da censura: “A verdade é que no meu texto não havia a indicação de homem nu. E Luiz Jasmim nem aparecia nu em cena. Mas continuava genial na autopromoção”, conta Bivar, em seu livro de memórias Mundo Adentro Vida Afora, no capítulo “Vaidade, teu nome é Jasmim”. Golpe de autopromoção à parte, a matéria é interessante. Lembra que no ano anterior a revista francesa Lui trouxe pela primeira vez uma publicidade com um homem nu e entrevista os principais artistas e intelectuais da época: Nelson Rodrigues, Oscar Niemeyer, Fernando Sabino (O filme O Homem Nu estava em cartaz) e a jovem Maria Bethânia, entre eles. É a opinião deles que interessa aqui quando a nudez masculina está de volta (também de volta ou alguma vez não estiveram?) e causa polêmica entre conservadores.

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Texto do jornalista Vilmar Ledesma, postado em seu blog no dia 9 de outubro de 2017, sobre matéria da revista O Cruzeiro de março de 1968. [revisado para esta edição]


Fernando Sabino Deus criou o homem nu. A folha de parreira apareceu depois. A nudez é, pois, natural; e imoral, se imoralidade existisse, seria a vestimenta – inclusive o ato de tirá-la. Mas tudo depende da finalidade a que ela se destina – não só a de preservar o recato também natural do homem, como o de protegê-lo devidamente dos chamados rigores da natureza e adequá-lo ao meio em que exerce a sua convivência com outros homens em sociedade. Existindo tal adequação, a nudez ou a vestimenta serão necessariamente estéticas, na medida em que buscam aprimorar aquilo que já é necessariamente belo. E o que é belo jamais é imoral, se integrado em seu verdadeiro contexto. Tanto é imoral um homem nu dentro de uma igreja ou em plena rua, como um homem de terno e gravata dentro de uma piscina ou de uma sauna. A nudez de um homem ou de uma mulher é mais do que natural e bela, em si – é sagrada. Ainda mais quando perfazem o ato do amor, que é o ato da criação. A imoralidade está nos que conspurcam a nudez com seus próprios olhos ou com a imaginação, projetando em tudo a sua secreta incapacidade de amar o homem tal como ele é, tal como nasceu: pobre, sozinho e nu, frágil criatura de Deus, matéria de salvação.

Nelson Rodrigues O último carnaval desmoralizou completamente a nudez. Tirou da nudez o seu suspense e todo o seu patético. Só escandalizou quem não se despiu. Aliás, é preciso estabelecer uma cronologia da culpa. A primeira culpada foi a praia. Não há nudez pior do que a do biquini. O biquini é algo semelhante ao barbante que a índia enrola em cima do umbigo. Sei que no caso presente o problema é a nudez masculina. Será imoral a nudez masculina e a feminina não? Eis uma pergunta imbecil que só poderá ter respostas igualmente imbecis. Eu diria que a nudez masculina é ignóbil para o homem, mas duvido muito que a mulher tenha uma ideia pouco lisonjeira do nu másculo. Seja como for, acho de um cinismo gigantesco que se proíba a nudez no palco e se permita a nudez carnavalesca e praiana. É só. Estou exausto.

Maria Bethânia Não há imoralidade alguma num homem nu como também numa mulher nua. Acho que depende de cada um. De seu modo de ver, de encarar a situação. Cada um tem um pensamento diferente quando vê um homem nu e cada um o concebe a sua maneira. O imoral vê imoralidade. Além disso, acredito que a mulher carioca vá aceitar bem a inovação, e os homens, logicamente, farão muitas piadas. O negócio é esse mesmo: o autor tem que ter liberdade de botar para fora tudo o que vem à sua cabeça. E se um homem nu fica bem em certa situação na cena, que venha o homem nu.

Oscar Niemeyer Sou contra qualquer censura que limite a criação artística, estabelecendo um clima de revolta e desacerto. Não sei se é fundamental no espetáculo a presença, no palco, de um homem nu. Mas isso é problema do autor. O importante é que o público seja informado das peças em cartaz, a fim de que escolha a que preferir.

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ESPECIAL

Continuando a colaboração da edição passada com Allan Lucena sobre O Homem Nu de Fernando Sabino, pedi ao poeta que também desse sua opinião, assim como os intelectuais fizeram há 50 anos.

Allan Lucena É sim, somos todos imorais. Enquanto o ser humano se ver como imoral, sujo, proibido, pecador, a nudez também será. Ainda mais a nudez masculina. Aquela que afeta o ego e a masculinidade de quem tem sempre o pau grande quando vestindo as calças, mas e se elas caírem? 52

A mulher é um produto e por isso sua nudez pode ser apreciada, a do homem é a honra a ser preservada. Imagine, é duro dizer isso, mas os argumentos são baixos assim. E temos tudo isso escrito nas entrelinhas da aceitação dá nudez feminina pela sociedade. Quando a mulher fazia sucesso de verdade, não era entrevistada pelo Jô antes de sair pelada em alguma revista quase extinta. Os homens nunca são livres quando nus, não escapam da sentença de serem fortes, grandes e poderosos. Para eles, a nudez é destruir toda essa imagem e expor suas fragilidades. Não pode. É errado! Homem não chora, não ri pra retrato, nem expressa sentimentos, imagina expor-se sem proteção alguma de seus tormentos e fraquezas? Não pode! É imoral e contra tudo que é mais sagrado. Contra o ego fragilizado de um homem sem coragem de ser confrontado, pelas regras da sociedade que ele mesmo criou.


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A nudez NÃO precisa ser SEXUAL O direito à nudez O inglês Stephen Gough, conhecido como “o andarilho nu”, passou grande parte dos últimos seis anos preso. Seu crime: andar nu pelo Reino Unido. As autoridades dizem não querer prendê-lo, mas Stephen tira as roupas assim que é solto, e acaba sendo preso de novo. Mesmo dentro da cadeia, ele se recusa a usar roupas e tem que ficar isolado dos outros prisioneiros. Para Stephen, a questão é simples: ele considera que andar nu em público é uma liberdade fundamental. Que é um aspecto da sua individualidade. Que não é racional agir como se o corpo humano fosse ofensivo. Outros argumentam que os direitos de Stephen terminam onde começam os direitos dos outros de não serem “perturbados” ou “alarmados” por sua nudez. Mas será que a nudez de um homem andando na dele deveria mesmo ser alarmante e perturbadora?


por Alex Castro

Escritor.Texto publicado em 6 de novembro de 2012. [revisado] alexcastro.com.br

A obscenidade da nudez pública Em São Francisco, na Califórnia, até 2010, a lei proibia apenas “comportamento obsceno” e não a nudez pública. Ou seja, balançar o pau e gritar “olha minha trolha!!” não podia. Simplesmente andar pelado pela cidade, podia (foto acima). A nudez pública só era proibida em três lugares: nos restaurantes, nos parques e no porto. Em 2011, um supervisor municipal conseguiu passar uma lei restringindo a prática: para usar cadeiras ou bancos públicos, os nudistas precisavam sentar em uma toalhinha ou jornal. Porém, em novembro de 2012, um conselho da prefeitura de São Francisco votou pelo

fim da nudez em espaços públicos. A nova lei, que ganhou por seis votos a cinco, pôs fim ao hábito de alguns moradores de promover encontros apenas com roupas íntimas em praças. As isenções foram para crianças com menos de cinco anos, seios femininos e eventos, como a Parada do Orgulho Gay. Foram inúmeros os protestos anti-censura, mas a nudez pública acabou restrita a lugares pré-estabelecidos e um mínimo de cobertura dos genitais. Ficam então as perguntas: mesmo que exista uma maioria de insatisfeitos com um comportamento não-agressivo que não faz mal a

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ninguém, isso justificaria proibi-lo? Você se incomodaria de estar andando pela praça e cruzar por um homem nu placidamente lendo o jornal? Ou melhor: você se incomodaria de passear nu com seu cachorro? Ou de dar uma corridinha para a banca mais próxima, só pra comprar o jornal, sem precisar vestir roupas? Muitos responderiam que não fariam isso, mesmo se fosse legal e socialmente aceito, por terem vergonha de seus corpos. Por quê?

A vergonha da nudez Por que temos vergonha de nossos corpos? A melhor explicação talvez esteja no romance Imortalidade, de Milan Kundera. Em um dado momento, uma personagem de dezesseis anos menstrua subitamente na casa de uma amiga e suja os lençóis. Morta de vergonha, ela tenta racionalizar sua vergonha. 56 Stephen Gough, o andarilho nu.

Afinal, por que estava com tanta vergonha? Todas as mulheres não menstruam? Ela por acaso tinha inventado os órgãos genitais? Era responsável por eles? Claro que não. Mas responsabilidade não tinha nada a ver com vergonha. Pelo contrário. Se tivesse derrubado tinta e sujado a tolha de mesa de seus anfitriões, teria sido desagradável e doloroso, mas não teria sentido vergonha. A base da vergonha não seria algum erro pessoal que cometemos, mas a humilhação de termos que ser quem somos sem nenhuma escolha no assunto e que essa humilhação seja vista por todos.


Ou seja, a vergonha não está no acidente fortuito de derrubar a tinta (que só aconteceu com você), mas sim na menstruação, pela vergonhosa banalidade de ela acontecer com todas.

A vergonha que sentimos de nossos corpos não é por serem feios ou diferentes, mas sim por serem tão dolorosamente iguais aos outros sete bilhões de corpos que respiram pela terra. A naturalidade da nudez O Teatro Oficina, de José Celso Martinez Corrêa, é das companhias teatrais mais tradicionais, consagradas e premiadas do Brasil – e só quem conhece seu repertório entende a ironia de usar “Teatro Oficina” e “tradicional” na mesma frase. Suas peças são famosas por serem longas (uma curta demora quatro horas; a mais longa, vinte e sete) e por grande parte do elenco estar nu em cena. Por isso, muita gente apressada classifica o teatro do Zé Celso de pornográfico, mas nada poderia estar mais distante da verdade. De fato, é o oposto. Assistir nove horas de Teatro Oficina é como o pai que tranca o filho no quarto com uma caixa de charuto: ele sai de lá sem querer fumar nunca mais. No começo da peça, você pode até achar sexy, interessante,

Zé Celso Martinez, diretor do Teatro Oficina, nu em cena. Foto: Divulgação.

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Cena da peça Macumba Antropofágica. Foto: Divulgação.

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engraçado aqueles paus e peitos balançando de cá pra lá. Mas é impossível manter esse nível de interesse ou estimulação por muito tempo. Em breve, a nudez se torna natural. Logo depois, se torna invisível. Quando menos você percebe, pasmem!, está prestando atenção... na peça! Em meio a dezenas de seios pululando! É quase como se Zé Celso estivesse dialogando com Kundera: a mesma banalidade que nos faz ter vergonha da nudez também torna a nudez natural e invisível.

A nudez não precisa ser sexual para ser linda O fotógrafo Matt Blum criou o The Nu Project com uma premissa bem simples: clicar a nudez de mulheres de verdade, em suas casas, sem maquiagem, sem produção, sem photoshop, sem iluminação especial. O site do projeto é lindo, emocionante, terno, político e... por que não?, tesudo. Na verdade, o que Matt Blum está mostrando é que a nudez, apesar de ser linda, não precisa ser sexual. Nossos corpos são ferramentas: eles podem ser usados para o sexo, mas também podem ser usados para construir uma ponte ou matar um exército inimigo. Às vezes, um corpo nu lendo o jornal em um banco de praça é só um corpo nu lendo o jornal em um banco de praça. 8=D Capa do primeiro livro.


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FALORRAGIA

A nudez natural do Brasil por Filipe Chagas

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O

s nativos encontrados pelos portugueses em virtude do “descobrimento” da Ilha de Vera Cruz (o Brasil), em 1500, estavam nus.

Índios Apiacás, parte de ilustração de Taunay (séc. XVI)


Descobrimento do Brasil, óleo sobre tela de Cândido Portinari, 1956.

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“A feição deles é serem pardos, [à] maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura, nem estimam cobrir nenhuma coisa, nem mostrar suas vergonhas: acerca disso, estão em tanta inocência como tem em mostrar o rosto”. – Pero Vaz de Caminha Desconheciam o pudor do homem branco e a “vergonha” descrita por Caminha. Vieram nus a este mundo e assim deveriam permanecer como todos os outros seres da floresta. Identificados com a natureza, o homem e a mulher nativos viviam em sã exibição da forma em que foram moldados, sem que o estado de nudez provocasse qualquer “vergonha”. O aventureiro alemão Hans Staden julgou natural a nudez ao ser escravo por nove meses da tribo Tupinambá, dita canibal:


“Os homens andam nus. Na parte da terra que fica entre os trópicos [...] São pessoas bonitas de corpo e estatura, tanto homens quanto mulheres, da mesma forma que as pessoas daqui, exceto que são bronzeados pelo sol, pois andam todos nus, jovens e velhos, e também não trazem nada nas partes pubianas”.

Caçada ao tigre, de Rugendas, séc. XIX.

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Família de um chefe Camacã se preparando para uma festa, de Debret, séc. XIX.

Os nativos também pintavam seus corpos como um código social que dizia mais do que qualquer vestimenta, pois indicava uma situação ou status: guerra, nascimento de filhos, luto, ritos espirituais, matrimônio etc. Igualmente facilitava a comunicação entre tribos que não falavam a mesma língua. Em alguns costumes, cintos, colares, penas, tangas e outros acessórios utilizados, agiam como elemento de sedução, de atração. Quando o homem encobria a glande ou todo o falo, ele estava se enfeitando para melhor despertar a curiosidade, o desejo da companheira. Alguns esfregavam lagartas peçonhentas no membro para inchá-lo em proporções exageradas, aparentando ser capaz de dar mais prazer. O português Gabriel Soares de Sousa veio para o Brasil em uma expedição e se encantou pela terra, tornando-se um dos primeiros estudiosos dos costumes locais. Em seu Tratado descritivo do Brazil, de 1587, escreve que “os homens cobrem os membros genitais com alguma coisa por galantaria, e não pelo cobrir”. A mulher também podia se cobrir para se fazer desejada, indicando sua virgindade ou marcando suas formas. Ou seja, ao contrário do que se imagina (e se prega), a visibilidade da genitália não era a causa do desejo! Os cânones da beleza europeia chegaram aqui através do olhar dos colonizadores, chamando – inicialmente – a nudez nativa de inocente já que desconhecia o mal. Porém, as representações visuais dos aqui nascidos desfavoreceram a nudez natural encontrada. Diferente das


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Índios Korubos da Amazônia. (Foto: Sebastião Salgado)


Fotos do séc. XIX. alegorias em artes europeias e asiáticas com tecidos finos, joias e tesouros exóticos, os nativos brasileiros pareciam magros e miseráveis, sem posses. As interpretações passaram da pureza e inocência à pobreza antropofágica e horror desta “gente que deveria comer gente”.

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À medida que resistiam aos estrangeiros, aprofundava-se sua demonização através da religiosidade. Logo no início da Colonização, os padres jesuítas lutaram contra a nudez e aquilo que ela simbolizava. Os banhos de rio corriqueiros foram proibidos e penalizados, ou seja, até a higiene foi recriminada. Os nativos foram comparados a animais por não terem vergonha (sendo que, para eles, isso estava correto, entretanto, sem qualquer conotação de malícia ou moralidade) e vesti-los era afastá-los do mal e do pecado. Os jesuítas mandavam buscar tecidos de algodão, em Portugal, para vestir aqueles que frequentavam suas escolas de catequese e, muitas vezes, criavam situações cômicas como a relatada pelo Padre Anchieta: Os índios da terra de ordinário andam nus e quando muito vestem alguma roupa de algodão ou de pano baixo e nisto usam de primores a seu modo, porque um dia saem com gorro, carapuça ou chapéu na cabeça e o mais nu; outro dia saem com seus sapatos ou botas e o mais nu.[…] e se vão passear somente com o gorro na cabeça sem outra roupa e lhes parece que vão assim mui galantes. André Thevet, frade franciscano explorador que veio estudar as riquezas brasileiras para a instalação de um colônia francesa no Brasil, chamada França Antártica, descreveu os nativos e seus costumes de forma direta e – como não dizer – erradamente arrogante:


[...] esta terra foi e é ainda habitada por gente prodigiosamente estranha e selvagem, sem fé, sem lei, sem religião, sem civilidade nenhuma, que vive como os animais irracionais, do modo como a natureza a fez, comendo raízes, andando sempre nua (tanto homens quanto mulheres), e isso talvez até que, convivendo com os cristãos, aos poucos se despoje dessa brutalidade, passando a vestir-se de modo mais civilizado e humano. [...] Como se não lhes bastasse viver nus, pintar o corpo com diversas cores e arrancarse os pelos, os selvagens também se tornam ainda mais disformes porque, quando ainda jovens, furam os lábios com certa planta muito aguçada.

Xingu. Foto: Valdir Zwetsch.

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Com o Renascimento reposicionando o homem no centro do mundo, questionou-se a nudez de Adão antes de ser expulso do Paraíso. Se, somente após o fruto, ele e Eva foram tentados pelo mal, então, era a nudez livre, pura e natural? Dessa forma, a nudez e o nu foram separados: a primeira referia-se àquelas que estivessem ou fossem despojadas de suas vestimentas, enquanto a segunda remetia ao corpo equilibrado e seguro de si mesmo. O vocábulo foi incorporado, no século XVIII, às Academias de Belas Artes, onde pintura e escultura faziam do nu o motivo essencial de suas obras. Na convivência com o homem branco, os nativos se afastaram gradualmente do que era natural e instintivo para eles. Aos poucos, as vestimentas foram sendo usadas por imitação (e imposição), uma vez que o pudor foi adquirido, forçado, ensinado e aprendido. Hoje, a nudez dos nativos brasileiros está praticamente em extinção com apoio dos censores de internet. Isso causa mais danos do que se imagina, pois dificulta a difusão desses costumes autóctones através das novas tecnologias de conhecimento. A índia* Ysani Kalapalo fala sobre sua página banida do Facebook por divulgar sua cultura: “Desde quando nossa maneira de ser é incitação à pornografia?”. Nem o famoso fotógrafo Sebastião Salgado se viu livre da censura virtual e teve suas fotografias de tribos amazônicas deletadas. “Não é fácil encontrar o equilíbrio ideal entre permitir que as pessoas se expressem criativamente e manter uma experiência confortável para a nossa comunidade global e culturalmente diversa”, disse em nota a assessoria de imprensa da rede social.

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A nudez original desse país foi substituída pelo nu social estabelecido em situações carnavalescas e praianas, uma moralidade hipócrita regida por interpretações religiosas individuais que se enraizou a partir do período colonial. Aqueles que aqui viviam – como Adão em um Paraíso antes do fruto – foram obliterados por uma ilusória civilidade superior. Só nos resta ler o poema de Oswald de Andrade que abre uma realidade paralela natural à nossa essência nacional:

Evitei ao máximo usar o termo “índio” ou “indígena” porque estes foram usados pelos portugueses que acreditavam ter chegado às Índias, quando, na verdade, aqui chegaram. O conceito de “índio” é, portanto, uma invenção europeia.

Quando o português chegou Debaixo duma bruta chuva Vestiu o índio Que pena! Fosse uma manhã de sol O índio tinha despido O português 8=D


moNUme nt o

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Bicho. Modelo: Filipe Chagas. (selfie)


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ISSN 2675-018X

falonart@gmail.com


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