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Falo Magazine #21

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ano V . # 21

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BALBINO SASTRE RAFAEL NOGUEIRA EUGÈNE JANSSON RAFAEL AGUIAR JULIANO HOLLIVIER NATURISMO


FALO© é uma publicação bimestral. março 2022. ISSN 2675-018X versão 20.03.21

edição, redação e design: Filipe Chagas corpo editorial: Dr. Alcemar Maia Souto, Guilherme Correa e Rigle Guimarães. site: Pedro Muraki capa: Se eu levanto minhas pernas, minhas quatro joias ficam expostas, acrílica sobre papel de Balbino Sastre, s.d.

Zelo e técnica foram empregados na edição desta revista. Ainda assim, podem ocorrer erros de digitação ou dúvida conceitual. Em qualquer caso, solicitamos a comunicação (falonart@gmail.com) para que possamos verificar, esclarecer ou encaminhar a questão.

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Sumário Balbino Sastre Rafael Nogueira FALO DE HISTÓRIA Eugène Jansson FALO EM FOCO FALO DO OUTRO Rafael Aguiar por Guilherme Correa FALOGÉRIOS Juliano Hollivier FALORRAGIA Naturismo: o corpo livre ESPECIAL Naked Boys Singing! FALÓFORO BIBLIÓFALO The little book of Big Penis Adão Iturrusgarai | Marlon Thor FALO com VOCÊ moNUmento

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Editorial

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e já não bastasse os anos isolados em pandemia, a humanidade resolve criar um conflito de proporções mundiais. A luta pelo poder ganha tons de birra infantil, orgulho ferido e ameaça de aniquilação global. Mas o cotidiano se impõe. Temos que continuar produzindo de forma quase frenética, temos que cumprir metas, temos que saciar vontades. Nossas e dos outros.

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Foto de Yves Saint Laurent por Jeanloup Sieff para a campanha do primeiro perfume masculino da marca YSL, Pour Homme, em 1971. Foi a primeira propaganda de moda em que o dono da marca apareceu.

Depois de um janeiro movimentado – com o lançamento dos três anuais em inglês, de uma edição especial em espanhol e do livro impresso para o mercado internacional (a Falo Selection!) –, o mês de fevereiro chegou com o fim da pesquisa sobre a anatomia do pênis (a Falo Real! Já adquiriu a sua? Se não, entre em contato para saber como!), um não-Carnaval, o reacendimento da Guerra Fria e a produção desta edição de forma livre e despretensiosa. Foi assim que fui definindo cada pedacinho da revista, sem me preocupar com uma linha editorial… Mas é possível encontrar conexões em tudo, especialmente a partir da matéria sobre Naturismo. Encontramos corpos nus de todos os tipos tanto na fotografia de Rafael Nogueira (com uma discussão fundamental sobre corpos ditos fora do padrão), quanto nas inspirações pictóricas (e desejos) de Eugène Jansson ou na obra de Suzanne Valadon da seção Falo em Foco.

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Dessa diversidade de corpos desdobramos para a multiplicidade de olhares e técnicas a partir de um modelo, como na entrevista com Juliano Hollivier ou nos híbridos de Balbino Sastre, que ainda nos devolvem à ideia de conexão com a natureza que os naturistas pregam. A seção moNUmento já é uma celebração naturista e eu ainda fui presenteado com a ilustração de Marlon Thor a partir de uma foto minha recriando o famoso nude de Yves Saint Laurent. 5

Releitura da fotografia icônica de Yves Saint Laurent, com direção artística à distância de Guilherme Correa, 2020.

A seção Bibliófalo e o texto do Rigle se conectam ao falar do pênis… espera… toda a revista fala de pênis! Enquanto, nosso amado sexólogo questiona a ereção (assunto brevemente comentado no artigo sobre Naturismo) e o culto à performance, a resenha do livro convida para um novo olhar sobre o clássico sobre o Big Penis (já falei da Falo Real e das reflexões sobre tamanho de pinto?). E tem mais! A peça Naked Boys Singing aportou no Rio de Janeiro com um elenco de atores completamente nus! Falando em convites, chamei meu amigo e já colaborador de longa data, Guilherme Correa para escrever a seção Falo do Outro. Além de ter uma arte sua revisitada por um artista na coluna Falóforo, ele escreveu sobre a fotografia de Rafael Aguiar, que o inspirou e o inspira. Dessas conexões todas fica a palavra liberdade, que percorre a edição, seja pela nudez, seja pela luta de um povo. Portanto, liberte-se e deseje a liberdade do outro. Filipe Chagas, editor

Nota sobre nudez:

Esta publicação é sobre a representação da nudez masculina na Arte. Há, portanto, imagens de genitália. Consulte com precaução. Caso se sinta ofendido, apenas pare de ler. Entre em contato se achar conveniente.


Balbino Sastre por Filipe Chagas

Esperando algum fluido..., acrílica sobre papel.


O

rgânica. Simbiótica. Híbrida. Essas são algumas palavras que com certeza vão passar pela cabeça daqueles que se depararem com a obra do espanhol Balbino Sastre PerezCejuela. O próprio artista indica esse caminho que o leva à uma quaseabstração bem particular: Minhas experiências acumuladas me contam impressões sobre como a natureza e os seres humanos interagem. A natureza cria seu mundo e na minha arte eu crio o meu. O objetivo do meu trabalho não é orientá-lo apenas para uma beleza estética. Eu quero que minha arte produza perturbação, desconforto, um pequeno abalo no espectador. A missão da arte e dos artistas é tentar estruturar o olhar do observador. Para tal, Sastre utiliza duas técnicas principais: a tinta acrílica (“pela liberdade, confiabilidade, estabilidade, versatilidade de suportes e resistência à oxidação”) e as ceras polidas com nogueira (“me permite criar diretamente efeitos interessantes, borrando com o dedo, raspando etc.”). As cores e texturas que consegue com elas dão forma aos corpos – principalmente àqueles com pênis – a partir de vários pontos de vista que sua imaginação o leve.


Espalhado entre duas pedras, acrílica sobre cartão, 1999.

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Simetria, díptico em acrílica sobre linho, 2010.

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Foi na nudez e na exposição pura e absoluta da pele masculina, onde o artista encontrou sua linguagem e estilo particular. Sua abordagem representa o corpo masculino através de suas sensações e sentimentos ao invés das características tradicionais de força e poder em busca de submeter a masculinidade a uma reinterpretação sem perder seu erotismo, individualidade, imperfeição ou vulnerabilidade.

Gosto de todas as partes do corpo masculino, mas meu trabalho reflete mais o pênis, os testículos, o ânus, a bunda, as coxas, o tronco etc, pois são um impressionante acúmulo de texturas, cores, formas e ideias. Esteja o pênis ereto ou relaxado, ele é pura inspiração e criatividade. Incita e provoca. Nunca te deixa indiferente.

As fotografias de Montoya me inspiram, tríptico em acrílica sobre cartão, 1999.


Longe do corpo ideal clássico, Sastre pode transformar uma “mancha” em uma perna, uma bunda ou um falo e isso interfere em sua técnica. Por exemplo, uma ereção leva o artista para uma paleta de cores mais quentes, texturas mais agressivas e contundentes que criam uma composição mais intensa; enquanto um pênis flácido faz com que o artista busque texturas e cores mais suaves em composições sensuais.

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Com as pernas abertas e excitado, me apresento, acrílica sobre papel.


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As manchas me provocam, acrílica sobre papel.


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Mostrando gônadas, encontrando vazios, acrílica sobre papel.


Isso revela o mistério que Sastre acredita acontecer quando um artista se encontra diante de uma tela em branco. Por mais que haja uma ideia, um planejamento técnico e referências extraídas de fotografias, natureza, outras culturas (arte erótica japonesa e indiana), outros artistas – como Georgia O’Keeffe, Mark Rothko, David Hockney e Henri Matisse – e modelos, o momento do esboço torna-se um ato gestual controlado e, ao mesmo tempo, espontâneo (“muitas das minhas texturas gestuais poderiam ser identificadas como action painting”). Camada por camada, o artista chega a um resultado final.

Ao lado: Excitante volta, acrílica sobre papel.

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Abaixo: O trem e Se me ajoelho, provoco, ambas em acrílica sobre papel.


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Georgia O’Keeffe e eu, acrílica sobre papel.


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Nepenthes II, acrílica sobre papel.


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Vestido de verde e com meu colar de pérolas, atraio a..., acrílica sobre papel.


Sastre tem dúvidas se alguém consegue se reconhecer como artista, mas sabe que todo o seu desenvolvimento artístico se deu a partir de uma oficina de cerâmica que sua família o levou aos doze anos e o tornou consciente de suas habilidades para as artes (é licenciado em Belas Artes na especialidade de desenho pela Universidade de San Carlos e perito artístico em Cerâmica pela Escola de Cerâmica de Manises, ambos em Valência). Inclusive, utiliza a si mesmo como modelo de suas obras. Além de sua produção pessoal, pertence à dupla artística Equip Quart, com Jesús Gómez. Enquanto preenche sua vida com atividades culturais (como leitura, cinema, museus e teatro) e pratica esportes, Sastre trabalha para normalizar o que é estético e belo em um corpo nu masculino. 8=D

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O exagero não é apenas uma figura literária, é também..., acrílica sobre papel.

Autorretrato, cera polida com nogueira.


Cirurgia plástica para você.

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Dr. Alcemar Maia Souto CRM 5246681-1

+55 21 97395 8000 alcemarmaiasouto@gmail.com


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Rafael Nogueira por Filipe Chagas


Paulo P.

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E

m 2019, Rafael Nogueira participou do projeto Other Colours, de Janssem Cardoso e enxergou uma lacuna a ser preenchida no mundo da fotografia: a representatividade dos corpos ditos fora do padrão. Em um mundo que celebra os corpos musculosos desde a Antiguidade Clássica, muitas vezes aqueles ditos fora do padrão não se sentem confortáveis ou até mesmo capazes de serem fotografados como uma pessoa bela e sensual. Rafael entendeu, então, que era hora de recuperar seu interesse pela linguagem fotográfica que vinha adormecida desde 2012, quando precisou focar em sua profissão para se sustentar em São Paulo.


Incentivado por outros fotógrafos e já apreciador de nu artístico, decidiu criar seu próprio projeto. Por questão de identificação, Rafael escolheu focar no corpo masculino com o objetivo de mostrar uma beleza rejeitada pela grande mídia e que é ainda tabu: Observo que os homens têm muito mais dificuldade com o nu do que as mulheres. Talvez pela herança machista em que as mulheres sempre estiveram nuas na arte. Se a nudez masculina ainda é tabu, imagina quando o corpo está fora do padrão. Precisamos mostrar que há vários tipos de corpos masculinos e todos são lindos e únicos. O primeiro ensaio foi com um amigo que se colocou à disposição. Apesar de nervosos, tudo fluiu bem e o resultado ficou de acordo com o desejo de ambos. O feedback foi tão positivo que nasceu o Projeto Nudity.

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Acima, Rafael por Janssem Cardoso, do projeto Other Colours. Abaixo, Rafael por Chico Castro.


Dan A., o primeiro modelo.

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Antes de qualquer ensaio, Rafael gosta de deixar questões sobre corpo, sexualidade, autoestima e comportamento bem resolvidas para que tanto fotógrafo quanto retratado tenham o mesmo objetivo. Por isso, costuma conversar bastante com aquele(s) que será(ão) fotografado(s), pois já esteve do outro lado das lentes e sabe que muitos fotógrafos não sabem lidar com as inseguranças de quem sempre foi rejeitado nem mesmo com um corpo com formas diferentes.

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Nem todo fotógrafo está preparado para trabalhar com um corpo gordo. Muitos olham somente um corpo grande, sem enxergar a pessoa dentro daquele corpo. O lado humano conta muito mais do que um fotógrafo que está ali pra fazer apenas mais um trabalho. Nunca faço as fotos só por fazer: preciso querer mostrar que aquele corpo é belo. Coloco a minha visão, mas também tento traduzir a personalidade das pessoas para que elas se vejam como elas são.

Acima, Gabriel e Nathan. Abaixo e na página ao lado, Rani e Lucas.

NOTA DO ARTISTA: Eles não são um casal; um é hétero e o outro é gay.


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Alef B.

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O tronco é o centro do corpo e do foco de Rafael, pois entende que ali se encontram as diferentes formas que trazem as inúmeras características únicas do retratado. No entanto, estimulado pela quebra dos tabus, ele ratifica a necessidade de se mostrar o pênis sem ser num cenário homoerótico. Com essa intenção, urge transformar o desconforto que a imagem de um genital masculino causa em beleza e normalidade, seja ereto (“mostra virilidade e empoderamento do corpo”) ou flácido (“traz sentimentos de conforto e paz”).

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Todavia, a exposição nas redes sociais causa alguns problemas, seja pela exposição da nudez em si, seja pela presença do corpo dito fora do padrão. A diversidade e a inclusão podem estar nos discursos, mas não se encontram na realidade artística e/ ou midiática: Os artistas PRECISAM variar mais para normalizar o corpo fora do padrão. Mostrar todo tipo de gente é importante, já que o algoritmo é gordofóbico. Se um fotógrafo quer tirar só foto dos padrões musculosos, tudo bem, mas admita que é só isso que quer porque dá engajamento. O que mais conheço são artistas que se dizem abertos a todos tipos de corpos, mas, na real, não são.

Fernando O.


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Rafael S.


Eduardo C.

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Desde que teve o primeiro interesse por fotografia em 2004, durante uma permanência em Londres na qual morava com um fotógrafo polonês, até começar a estudar com sua primeira câmera em 2007, Rafael já passou por várias áreas: hoje, além de dar aulas em inglês (é formado em Letras), trabalha com teatro e criou um podcast sobre teatro musical e outro de relatos sexuais.

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Em conversa com o fotógrafo Chico Castro sobre sua insegurança profissional, ouviu “você é um artista, você é um de nós” e reconheceu em si o potencial não só de criar imagens, mas também de mudar o mundo. 8=D

André S.


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Falo de História por Filipe Chagas

Eugène Jansson 1862-1915

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Balneário da Marinha, óleo sobre tela, 1907.


E

ugène Fredrik Jansson (1862-1915) foi um pintor sueco conhecido por criar um estilo de pintura com origem escandinava e que refletisse o espírito de sua terra natal. Historiadores o colocam ou como simbolista ou como romântico nacionalista, mas Jansson foi além. Seus pais pertenciam à classe trabalhadora e passaram por algumas dificuldades financeiras, mas queriam o melhor para seus filhos, Eugène e seu irmão mais novo, Adrian. Eugène foi para a Escola Alemã em Estocolmo e teve aulas de piano. Um ataque de escarlatina aos quatorze anos causou-lhe problemas crônicos de visão, audição e renais, que o levaram a morar com a família por toda sua vida.

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Jansson estudou com Edvard Perséus, um pintor que dirigia uma escola de arte particular em Estocolmo, e o ajudou na produção de retratos e naturezas-mortas. Nessa época, conheceu os pintores suecos Karl Nordström e Johan Axel Gustaf Acke, que podem ter direcionado seu olhar para a cidade ao seu redor – Södermalm, ao sul de Estocolmo, que se tornou sua principal temática. Em 1881, foi aceito na escola de antiguidades da Real Academia Sueca de Artes, mas não teve os meios para seguir a maioria de seus contemporâneos a Paris para estudos posteriores e deixou a instituição no ano seguinte. Em 1885, seus colegas que retornavam da França estabeleceram o Konstnars Forbundet, uma associação de artistas, críticos radicais das instituições tradicionais, que acabou conhecida como “Os Oponentes”. Jansson entrou para esse grupo secessionista que apostava na pintura ao ar livre em 1886 e se comprometeu como membro do conselho. A partir de 1893, Jansson experimentou um novo estilo de pintura em que predominavam tons azuis e pretos sombrios em pastel ou pinceladas cruzadas à óleo – e o fizeram ser chamado de blåmålaren, “o pintor azul”. Foi caminhando para uma simplificação e semi-abstração e, no final de seu “período azul”, pouco mais do que as luzes das ruas e seus reflexos nas águas da baía de Riddarfjärden podiam ser discernidos da massa de azul da tela. Algumas de suas paisagens noturnas, intituladas Nocturnes, foram em referência a Chopin, seu músico favorito.


Riddarfjärden, Estocolmo: Amanhecer sobre o estuário, óleo sobre tela, 1899.

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38 Autorretrato, óleo sobre tela, 1901.

Sua primeira viagem fora dos países nórdicos foi em 1900 – finalmente para Paris –, quando já se consolidava como pintor e sua situação econômica começava a melhorar. Em 1901, visitou Itália e Alemanha, onde teve a oportunidade de estudar as pinturas que admirava de Edvard Munch na coleção de Ernest Thiel. Depois de 1904, quando já havia exaurido suas visões de Estocolmo, Jansson parou de participar de exposições e por três anos se isolou. Como visitava frequentemente o balneário para nadar e cuidar de sua frágil saúde, acabou encontrando uma nova inspiração: homens nus se banhando e se exercitando. Em 1907, causou grande alvoroço ao revelar a primeira de sua grande série de temas figurativos masculinos. A perspectiva e a proporção foram sacrificadas e um grande senso de movimento e atividade foi introduzido. Jansson retratou os corpos musculosos e a água turbulenta com pinceladas caligráficas, e com uma soberba riqueza de impasto e exuberância de cores luminosas, mostrando forte influência da obra expressionista de Munch.


Garotos na praia, óleo sobre tela, s.d.

39 Casa de banho, óleo sobre tela, s.d.


Mergulho no balneário, óleo sobre tela, 1911.

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Seu autorretrato de 1910 (óleo sobre tela, ao lado) tinha o objetivo de questionar os papéis tradicionais de gênero em uma época em que a homossexualidade eram proibida por lei (e permaneceu assim na Suécia até 1944). Jansson e muitos de seus contemporâneos usaram a figura do dândi* para retratar uma feminilidade na figura masculina.

* Dândi é um termo usado para designar o homem de bom gosto estético, que não necessariamente pertencia à nobreza e ocupava a maior parte do seu tempo em atividades lúdicas e ociosas. Por dar um enorme valor à aparência estética, era considerado fútil e, em alguns casos, excessivamente feminino – o que revela a natureza machista do termo.

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Muitos historiadores e críticos de arte evitaram desenvolver uma leitura homoerótica da fase final da arte de Jansson, colocando essas pinturas como uma resposta ao culto do corpo, do exercício e da nudez ao ar livre celebrada pela crença nietzschiana da natureza como fonte de energia primordial para a humanidade (na Suécia, essa filosofia ficou conhecida como vitalismo). Foi com essa abordagem que recebeu permissão para trabalhar em um estúdio temporário dentro da casa de banho da Marinha sueca em Skeppsholmen, onde pode estudar os marinheiros mergulhando e tomando banho na piscina, bem como seus camaradas nus e vestidos de pé ou descansando ao sol à beira da piscina.


Óleos sobre tela de jovens sentados, s.d.

Óleos sobre tela de atletas, 1912.

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Acima, óleos sobre tela com ginastas nas argolas (I e II), 1915. Abaixo, óleos sobre telas com levantadores de pesos com as duas mãos (I e II) e com uma mão só, todas entre 1913 e 1914.

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Um AVC tirou a vida de Jansson em 1915 e seu irmão Adrian queimou várias evidências* de que Eugène era homossexual, porém, acredita-se que ele seja o primeiro pintor gay sueco. Detalhe: Adrian também era gay e visto como recluso e misantropo, bem como seu irmão. É possível enxergar o papel de Jansson como um observador solitário que, afetado por questões de saúde e de aceitação de sua sexualidade, não participa do mundo: só lhe restou retratar o que via de sua janela ou o seu desejo à distância. É no contraste dessas fases e das cores empregadas que os sentimentos mais profundos podem ser encontrados, contrapondo-se a uma vida simples e aparentemente monótona. 8=D

46 * Por exemplo, cartas para Knut Hyman (um modelo da obra acima, Jovem homem nu) que conheceu na casa de banho da Marinha e chegou a morar com ele no estúdio até 1912. Surfando ondas, óleo sobre tela, s.d.


Falo em Foco

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Jogando a rede, óleo sobre tela de Suzanne Valadon, 1914.


FALO do OUTRO 48

Rafael Aguiar

por Guilherme Correa

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fazer fotográfico de um artista recebe influências instantâneas que podem ser encontradas durante épocas distantes e até mesmo na própria contemporaneidade, nas novas gerações. A arte está viva dentro de nós e os agentes produtores estão sempre abertos, dispostos a ensinar e aprender pelo simples fato de enaltecer o trabalho e elevar o patamar da classe. Quando comecei a fotografar, logo conheci o ofício de Rafael Aguiar. A carreira desse fotógrafo de 39 anos, natural de Cataguases, Minas Gerais, é ilustrada por prêmios no cinema e talentosas fotografias. Ele sempre foi fascinado por composição de imagens ao ponto de, muito jovem, já pensar em enquadramentos sem nem ao menos saber o que isso significava. Durante a faculdade de comunicação em 2009, comprou sua primeira câmera e deu início a sua produção artística.


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Rafael acredita que para se estar à vontade no set e produzir um material com identidade, se faz necessária uma troca real com o modelo. “Fica desconfortável quando a pessoa pergunta a todo momento o que precisa fazer”, diz ele sobre sua busca por reciprocidade e autenticidade, não só como um elemento técnico mas também como um produto que funcione, um resultado tocante. O melhor exemplo disso é seu premiado curta-metragem “Casulo”, com uma fotografia de tirar o fôlego, onde Rafael aborda sexualidade e família.

Veja aqui o curta-metragem Casulo.

Procura ser direto com os atores e modelos e, assim, enfrentou poucas situações de assédio. Quando elas aparecem, encara com profissionalismo: 52

Para que o trabalho flua da maneira que tem que ser, ali naquele momento temos um objetivo e precisamos alcançá-lo. Robert Mapplethorpe é sua principal influência quando se trata de registrar o corpo masculino. Rafael conta que ficou absurdamente fascinado ao ver o trabalho do artista que provocava um desejo, uma euforia difícil de explicar, segundo ele, devido à semelhança de suas abordagens sobre corpos, sombras, monocromia etc. Podemos nitidamente observar isso em seu projeto Corpo, que são fragmentos dos corpos nus em preto e branco. Essa frente de trabalho se evidencia em alguns projetos do fotógrafo autoral. Dentre eles estão o Projeto Imaculados – no qual os modelos usam vestidos de noiva desconstruindo violentamente as imagens de masculinidade


53 tanto do homem que encara esse desafio, como a imagem do vestido que representa, a castidade, a pureza, enfim… – e o Pink Obsession – com uma luz rosa destacando corpos masculinos. Para ser visto fora das limitações das redes sociais, Rafael cita ser muito importante ocupar espaços em galerias e na mídia, mas também espaços alternativos como bares, pubs, escritórios, etc. que permitam o trabalho dar reconhecimento como artista independente no Brasil. Porém, o fotógrafo também faz um alerta sobre o cuidado de onde vincular suas fotos e obras: Se for pra elas irem pra algum lugar bacana, estar disponível para apreciação ou venda acho muito importante, pelo contrário não.


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Como último recado a todos que consomem e produzem arte, o fotógrafo ressalta a importância em acreditar nas suas ideias e aprimorar sempre, pois o processo não tem fim. Seu olhar leve e contundente nos leva sempre a revisitar suas obras, para refletir sobre os modos de ver nossos semelhantes, o que representamos e nossas diversas faces. 8=DO=8

Rafael Aguiar

Guilherme Correa


éri os Fa log

Juliano 56

Anjos e demônios, aquarela e lápis de cor de Mark Satchwill, 2021.


Hollivier 57

j

uliano já é de casa e contou tudo sobre a profissão de modelo vivo na quarta edição da Falo Magazine. Quer dizer, quase tudo, porque nessa entrevista você vai saber um pouco mais como é não só ser a inspiração como ser o propositor da Arte.


Pink Inferno, aquarela e lápis de cor de Mark Satchwill, 2020.

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FALO: Olá, Juliano! Bem-vindo novamente! Conte um pouco sobre você. [J] Sou da cidade de Avaré, no interior de São Paulo, porém me mudei para a capital em 1994 para fazer faculdade. Sou formado em música e artes cênicas, com pós-graduação em educação somática. Meu trabalho é dedicado à performance de modelo vivo onde ministro aulas de observação e desenho da figura humana. Adoro plantar e cuidar de bonsais.

O que te levou a ser modelo de nu artístico? Quando conheci a profissão, fiquei encantado pela plasticidade cênica. Percebi aspectos artísticos que sempre almejei como artista, tanto cênicos e dramatúrgicos quanto poéticos, musicais e corporais. Enxerguei os desafios que ainda seriam necessários viver e a possibilidade de transformar uma prática que, até então, eu via ser pouco compreendida e subestimada, em um gênero de arte foi o que me levou a ser modelo vivo.


Espelho, aquarela e lápis de cor de Mark Satchwill, 2020.

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É bastante terapêutico, mesmo se você for um artista – e intenso tanto física quanto emocionalmente. Eu nunca chorei até uma sessão com ele. Mark Satchwill


Homem de Ferro, carvão, pastel e nanquim em papel de Kate Moores, 2022.

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Trabalhar com o Juliano tem transformado minha Arte. Kate Moores


Bluebird, acrílica e carvão de Kate Moores, 2021.

61 Qual a importância do modelo nu na Arte e, mais especificamente, do nu masculino? Pode-se dizer que o modelo nu é o embrião de toda Arte, com ou sem a participação dele, pois quando o artista observa o modelo nu, a sua imagem e todo o seu conteúdo permanecerão no inconsciente deste artista. O modelo não é apenas alguém observado para a geração criativa em termos de Arte. Ou ainda, apenas alguém que “inspira” o artista a criar algo. O verdadeiro modelo é aquele que, através de seu corpo nu, desvela as verdades do e para o artista. É aquele que espelha quem é este artista e o que ele poderá ou deverá fazer com a sua arte. O nu é uma Arte que se faz para gerar outras artes. Especificamente sobre o nu masculino, por ser um gênero estigmatizado e cheio de preconceitos, é na ressignificação deste corpo que mora a verdadeira importância do modelo para a Arte.

Você se lembra do seu primeiro trabalho? Depois de meses pesquisando sobre o corpo em pausa, sobre temas anatômicos e outros relacionados à nudez, me disponibilizei para um trabalho de modelo vivo. Lembro-me até hoje de tudo: das poses, das sensações, da temperatura e cheiro do lugar. Lembro-me também dos rostos e dos olhares daqueles quase 60 participantes no Centro Cultural São Paulo que emanavam para mim um sentimento de igualdade, respeito e unicidade. Foi um divisor de águas na minha vida definitivamente. Naquele dia eu pude vislumbrar tudo o que eu poderia ser e ainda, por imaturidade e medo, não tinha feito. Foi quando eu entendi que a nudez é contextual e libertadora na mesma proporção. Ela nos livra de conceitos geralmente equivocados que fazemos de nós mesmos. Lembro que, ao terminar o trabalho, fui ao banheiro e me olhei no espelho e pela primeira vez na vida eu realmente conseguia enxergar quem estava refletido nele.


Mãos, técnica mista de Laurel Goddard Thomas, 2022.

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Você se enxerga como um artista também? Sim, desde o início. Enquanto o artista me desenha no papel, eu me desenho no espaço. A mídia dele é o carvão, o lápis, a tinta. A minha é o corpo. Como funciona uma sessão de modelo vivo? Normalmente o modelo é contratado por um ou mais artistas, um ateliê ou escola de artes para as aulas de desenho de observação. Costuma ser dirigido pelos artistas participantes, que o solicitam poses já preconcebidas, infelizmente muitas vezes desconsiderando a condição artística que este modelo poderia, ou deveria, propor. As contratações ainda dependem muito de indicações feitas por pessoas que já trabalharam com este ou aquele modelo e que confiam na maneira como trabalham.

Juliano#5, técnica mista e colagem de Laurel Goddard Thomas, 2021.

Encaixotado, técnica mista de Laurel Goddard Thomas, 2021.

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Entre o dogma e a fé, pastel e aguada de nanquim de João Carvalho Alves, 2020.


Isso, claro, não deixa de ser consequência do tabu da nudez e de contribuir com a sua permanência. Porém, com a pandemia muita coisa mudou.Todo mundo passou a se despir em frente à câmera do celular se autointitulando “modelo vivo”. A parte boa desta “globalização online da nudez” é que nós modelos pudemos eliminar a barreira da distância, internacionalizar nosso trabalho e ter a oportunidade de mudar conceitos sobre ele, inclusive o antigo e injusto formato de execução. Isso nos dá mais liberdade para orientar e guiar as sessões conforme nós, artistas profissionais, achamos que devemos. É bastante raro, mas, nas sessões online, o modelo pode sozinho conduzir, criar seu público e conteúdo e cobrar preços mais justos pelo trabalho que realiza. Por outro lado, o chamado Zoom World torna cada vez mais difícil ser um modelo vivo profissional. Temos que ter realmente algo além da nossa anatomia para ser um artista do corpo, para ser um modelo vivo. Caso contrário, será sempre uma reprodução de padrões sem importância artística. Você enxerga alguma mudança na aceitação do nu masculino na Arte? A Arte é um reflexo do que a sociedade vive. Após 15 anos trabalhando presencialmente e quase 2 online, tendo contato semanalmente com artistas e alunos do mundo todo, infelizmente não acho que o corpo nu masculino se tornou mais aceito. Isso é fruto do tabu e da nossa pouca informação sobre o nu como gênero de Arte. Será que isto ainda seria um problema se nós parássemos de almejar e replicar certos padrões de masculinidade? Principalmente quem se expõe nu? O que vejo – e basta abrir o Instagram para também verem – é uma contínua perpetuação de conceitos às vezes equivocados sobre o nu masculino.

O desaparecido, pastel de João Carvalho Alves, 2020. Amor silencioso, nanquim e aguada de nanquim de João Carvalho Alves, 2021.

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Relatório detalhado, acrílica de Jenn Schmitt, 2022.

Postura vermelha, aquarela e nanquim de Jenn Schmitt, 2021.

66 Fogo, aquarela de Jenn Schmitt, 2022.

Ouro em pé, aquarela e nanquim de Jenn Schmitt, 2021.


Jardineiro, aquarela e nanquim de Jenn Schmitt, 2021.

67 A diversidade de corpos e gêneros tem sido muito praticada nas redes sociais, porém, não tenho visto o respeito a ela nas atitudes das pessoas. Eu reconheço a parte do modelo nesta responsabilidade. E cabe, primeiramente, à nós modificar isso. Como? Eu ainda acredito que o respeito/aceitação a esta nudez tem que ser conquistado, nunca imposto.

redor do mundo conheçam e valorizem o trabalho profissional do modelo vivo e entendam o significado da palavra “vivo” desta expressão. Qualificar, democratizar e institucionalizar a profissão, para o reconhecimento artístico e respeito financeiro que ela merece. Obrigado, Juliano! Muito obrigado mais uma vez pela oportunidade!

Que conselho você daria para quem deseja ser modelo de nu artístico? Seja você 100% do tempo em que estiver posando, pois não há mentira que se sustente após 5 minutos sem roupa diante de alguém que te desenha.

8=D Juliano Hollivier Mark Satchwill

Quais são os seus planos para o futuro neste trabalho?

Kate Moores

Disseminar e ensinar o conceito que chamo de “Nudez de Alma”. Fazer com que as pessoas ao

João Carvalho Alves

Laurel Goddard Thomas Jenn Schmitt


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9 Brazilian artists | 100 pages | 21×14.8 cm | Soft Cover

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FALORRAGIA

Naturismo: o corpo livre por Filipe Chagas

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A filosofia do naturismo fala em tratar o bem-estar físico e psíquico das pessoas e foi nesse ponto que entendi a necessidade de vivenciar a nudez em conexão com a natureza como um exercício de enfrentamento à minha dismorfia. E as dúvidas sumiram assim que pisei no areia e vi um ambiente cercado de pessoas nuas curtindo a natureza. Famílias inteiras, idosos, crianças, casais de todas as orientações... sem roupa, sem julgamentos, sem preconceitos. Sensação de liberdade total.


V

amos começar logo resolvendo a diferença entre Naturismo e Nudismo… quer dizer… para a International Naturist Federation (INF), ela não existe. Contudo, no congresso ocorrido em Agde na França, em 1974, ficou definido que:

Naturismo é um modo de vida em harmonia com a natureza, caracterizado pela prática da nudez social, com a intenção de encorajar o auto respeito, o respeito pelo próximo e pelo meio ambiente. A chamada “nudez social” difere do simples nudismo em sua ideologia. Enquanto nudismo pode ser qualquer ato de ficar nu com frequência, a nudez social busca “restaurar o balanço entre as dimensões física e psíquica, livrando as pessoas das tensões internas causadas pelos tabus e pelas provocações da nossa sociedade contemporânea”, como diz a Federação Brasileira de Naturismo (FBrN). É claro que, em um ambiente naturista, estando o corpo completamente exposto, ele será julgado por conceitos particulares individuais, porque isso é intrínseco à humanidade. No entanto, não existem padrões estéticos definidos nestes locais, especialmente estes que interferem no bem-estar físico e psíquico. A nudez do corpo se torna irrelevante quando todos estão na mesma situação, com a mesma filosofia. Estar totalmente livre se torna o mais importante e, para muitos, um divisor de águas: Sem roupas, as pessoas tendem a confiar em suas personalidades para fazer uma declaração e aceitar os outros por quem são, e não pelo que podem estar vestindo. Alguns dizem que, quando tiram

as roupas, também eliminam o estresse de suas vidas ocupadas. – International Naturism Federation Isso se relaciona diretamente com a sexualidade. A nudez social entende a naturalidade do corpo humano como a verdadeira identidade de cada um. Para os naturistas, as associações sexuais ao corpo foram construídas ao longo do tempo e resultam em absurdos conceitos de pudor, complexos ou obsessões, que em nada contribuem para um desenvolvimento psicossocial saudável: A castração de partes do nosso corpo foi arbitrária. Por exemplo, os nossos lábios sempre foram associados ao “sexappeal”, sem que, contudo, andemos com eles tapados, como acontece com os genitais, para não falar nos seios. Pelo contrário, se olharmos bem, o uso de determinada roupa e outros adereços é o que constitui, como todos sabemos, um fator que visa acentuar uma postura destinada a despertar o interesse sexual. – Federação Brasileira de Naturismo Isso não significa que o naturismo prega o celibato ou a assexualidade. Os naturistas entendem que a sexualidade, qualquer que ela seja, não está presente na vivência coletiva, deixando claro que o sexo em público vai contra os seus preceitos. Uma ereção é compreendida como uma reação natural do corpo, porém, a pessoa precisa encobrir a excitação*. Todavia, o sexo na vida íntima de cada um é celebrado e se torna genuíno: uma vez que o mistério da revelação do corpo vestido não existe, a excitação visual * Para mulheres ou homens trans em períodos de é substituída por menstruação, a sugestão é o uso um desejo sexual de um absorvente interno. Caso verdadeiro. a pessoa não se sinta confortável, há a permissão de um short ou da parte inferior de um biquíni com um absorvente tradicional.

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Pode-se insinuar que, para um simples nudista, o sexo é tratado de forma mais livre já que ele pode acontecer de forma explícita e, assim, a conexão com a natureza é ainda maior.Voyeurismo / Exibicionismo são permitidos, mesmo que seja sem o consentimento do outro. Por essa razão, os naturistas acreditam que a prática simples do nudismo acaba focando somente nos genitais e no sexo público, com uma ideologia puramente hedonista com riscos de atentado ao pudor pela lei brasileira. Portanto, a recomendação da Federação Brasileira de Naturismo é que se busque um local reconhecido como oficial para evitar constrangimentos. Aliás, vale dizer que algumas praias não permitem a entrada de homens desacompanhados ou, até mesmo, grupos de homens. Somente casais heterossexuais ou famílias são aceitos. Outras têm áreas específicas para homens desacompanhados. A obrigatoriedade da nudez também varia de local para local.

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Outra instrução da federação no que diz respeito à nudez é que ela não seja usada como forma de protesto ou impositiva (para tentar forçar a aceitação). É fundamental o respeito por aqueles que não conseguem aceitar a nudez social. Porém, ressalta que, se você cresce vendo outros tipos de corpos nus e pessoas tranquilas com isso, torna-se natural encarar o corpo* e a sexualidade com naturalidade e, assim, aumenta a chance de reduzir pressões estéticas externas.

* NOTA DO EDITOR: Não encontrei nada que falasse especificamente do corpo trans em ambientes naturistas. Acreditando na filosofia, o corpo trans deve ser totalmente aceito, mas entendo a dificuldade das pessoas trans exporem seus corpos em público por já sofrerem com curiosidade maliciosa, preconceitos e disforias.

Vale lembrar que a prática da nudez social não se define somente para ambientes públicos e situações coletivas. Ficar nu no cotidiano privado é comum. Mesmo em casos, onde nem todos os moradores da mesma residência sejam naturistas, é possível ficar nu em um quarto próprio ou em algumas horas ao dia. Dialogar com os outros residentes é importante para que a prática seja entendida e os espaços sejam estabelecidos. Até porque a filosofia naturista não aboliu a vestimenta, mas não a utiliza para “mascarar” ou “esconder” o corpo. Como a federação gosta de lembrar:

O estilo de vida está dentro de você! Não é uma coisa de fora para dentro. Está ligada ao seu íntimo! Inclusive, existem outras formas de ser naturista sem ser através da nudez social. Alguns membros mais fiéis aos princípios de saúde ligados ao Naturismo, pregam o vegetarianismo ou o veganismo. Independente da atividade, todos possuem o mesmo objetivo: o crescimento psíquico do ser humano e uma maior proximidade com a natureza. 8=D

Federação Brasileira de Naturismo International Naturist Federation


A CULTURA ALEMÃ DO CORPO LIVRE A Alemanha chama o naturismo de freikörperkultur (FKK), a secular Cultura do Corpo Livre. Criada em 1839 por Henrich Pudor (sim, esse é o sobrenome) a partir de uma sensação de que era saudável para o corpo ficar exposto ao sol e ao ar puro em um momento que os países estavam passando por um desenvolvimento industrial intenso. Em 1895, fundou-se em Berlim o movimento juvenil wandervögel (“ave migratória”), em que os jovens reuniam-se para efetuar longas caminhadas em florestas, com noites ao relento e banhos nus, em rios e lagos. Três anos depois, quando pairava no ar a lebensreform (“reforma da vida”), que defendia a alimentação orgânica, a liberação sexual, a medicina alternativa e uma vida mais simples e mais próxima da natureza, a FKK tornou-se uma cultura coletiva. É possível notar influência até mesmo nas artes, uma vez que inúmeros pintores alemães das vanguardas europeias exploraram a temática da nudez pública em banhos coletivos.

Proibida durante o regime nazista*, a FKK retornou com força após o fim da Segunda Guerra Mundial, sobretudo na Alemanha Oriental, onde viagens, liberdades pessoais e vendas de bens de consumo eram restringidas, e a nude comunitária funcionava em parte como uma “válvula de escape”**. Em 1963, a Associação Alemã para a Cultura do Corpo Livre (DFK) se tornou membro da Confederação Alemã de Esporte Olímpico, o que deu ao movimento uma conexão ao esporte ainda maior. Em 1980, cerca de 80% dos alemães orientais afirmaram que nadavam nus. Com o colapso do comunismo no Leste Europeu e a queda do muro de Berlim, em 1989, houve um puritanismo por parte de alguns alemães ocidentais em relação ao fascínio de seus “vizinhos” pelo nudismo. Desde a reunificação da Alemanha em 1990, houve um declínio da cultura FKK, mas ela existe até hoje em locais sinalizados para a prática das nacktivitäten (atividades de naturismo), como andar a cavalo, canoagem, natação e voleibol, entre outras. 73 * Durante a ascensão do nazismo, alguns alemães ainda viam a prática como uma forma de criar o corpo ariano perfeito, um símbolo de uma Alemanha forte, jovem e racialmente pura. Leni Riefenstahl, cineasta preferida de Hitler, usou corpos nus atléticos e fortes com frequência em seus documentários em preto e branco dos anos 1930, especialmente Olympia. ** O Partido Comunista Alemão não era muito afeito à nudez coletiva e colocou patrulhas para proibir a prática, mas não deu muito certo: banhistas e até turistas zombavam dos policiais. Há relatos de gente somente de gravata ou meias na praia para dizer que não estava completamente nu. Outros diziam que nudez tinha tudo a ver com a tradição socialista.


Estar nu na praia é lindo, com o ar do oceano soprando em todas as partes do seu corpo e a liberdade de nadar com as ondas movendo seu pênis para cima e para baixo. Pura liberdade.

A sensação não é de liberdade, pois a liberdade está em poder ou não fazer. A sensação é de harmonia com o todo, com a vida, com o local. Mas também é um misto de sentimentos: insegurança, segurança, paz, tensão, tesão. Depois de um tempo tudo passa e fica só a plenitude de ser e de estar sendo parte.

Estar nu na praia, ou no rio, ou na floresta... deixando a luz entrar em 74 seu corpo para fortalecer sua alma. Sentimento incrível.

Ser nudista para mim é algo tão natural. Aproveito a oportunidade para ser assim sempre que posso. A sensação da brisa na minha pele, o sol brilhando em cada parte do meu corpo... é uma sensação tão incrível. Parece certo.Também tenho um lado exibicionista, então, adoro quando as pessoas me veem nu, mas não é necessariamente uma coisa sexual. Ser capaz de ficar nu em torno de outras pessoas nuas, ser aceito por quem você é, é algo tão bonito de poder compartilhar.


Até criar coragem para ir em uma praia de nudismo, levei um tempo. Tinha vários tabus na cabeça. Talvez não estivesse feliz com o meu corpo, mas a curiosidade era grande também. Quando finalmente fui, a vergonha veio, mas vi que era um lugar que prevalece você e sua liberdade. Não tem padrão de beleza: todos são completos ali. Me vi livre de tudo, me conectei totalmente com a minha nudez, com a natureza ali, e esqueci que era inseguro com meu corpo. O resultado foi a felicidade da liberdade e da plena conexão.

O corpo nu conectado à natureza exala uma sensação extremamente de domínio e autonomia. É como se a gente pudesse ser o que quiser, livre de qualquer amarra, de qualquer juízo… é puro poder!

A gente se despe de tudo, de roupas, de status, de convenções. É o momento em que eu mais me sinto fazendo parte da grande natureza e do mais sagrado.

A veste é uma linguagem, que comunica profissão, classe social, gênero, idade, religião... Na vida social, em meio a tantos ruídos de comunicação e mal entendidos, ficar nu é parar por um instante e contemplar o silêncio.

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De uma brincadeira em uma viagem de férias na praia, veio a exploração da sensação de liberdade. Da curiosidade então atiçada, novos experimentos e a descoberta de outras pessoas que compartilhavam dos mesmos desejos. De tudo isso, emergiram amizades, encontros e fotos mundo afora, facilitando meu entendimento de ser um em conexão com a natureza, e não um à parte dela. Um novo universo se abriu.


Como criança gordinha, e hoje adulto obeso, praia sempre foi uma questão. Em 2020, resolvi ir à Tambaba, praia naturista na Paraíba. O embate entre mente e corpo… enquanto minhas pernas tremiam e meu coração acelerava, minha mente julgava tudo natural. No longo caminho até onde ficamos, meu corpo entendeu que o cérebro tinha razão: os medos eram infundados.Tudo é muito libertador. A forma dos corpos não importa. Famílias inteiras curtindo a natureza, nus, sem preconceito. Não tinha como não me sentir encaixado, bem-vindo.

Liberdade é o sentimento que reflete a minha alma no momento em que me ponho nu na natureza. Penso que somos condicionados a não experimentarmos isso, nos ensinaram que isso era mau, ruim, pecado, mas quando nos permitimos acessar esse estado, compreendemos que ele nos faz livres de padrões.

Comecei a ficar nu na natureza após os 50, quando me assumi gay. Descobri o prazer de não ter nada 76 entre corpo, sol e o mar. No início até me causava uma certa excitação, mas foi ficando cada vez mais natural.

Praticar o naturismo, foi uma experiência incrível, permitindo uma sensação de liberdade com o corpo em contato com a brisa do mar. Muito além de todo prazer e sensações de uma experiência única, também a dissociação sexual da imagem corporal própria e principalmente alheia.


Descobri essa quebra de correntes há 6 anos, quando viajei de carro pelo sul da Alemanha, Áustria e Itália. Os parques, saunas, florestas, inspiram viver essa liberdade existencial do corpo. Sem julgamentos, sem comparações. Apenas ser. Gosto de como a gentileza, a tolerância e a proteção da natureza são colocadas em primeiro plano na nudez. É essa sensação de liberdade e de distanciamento momentâneo das aflições da sociedade presa aos padrões.

Por anos acreditei que jamais conseguiria me despir dos medos e das culpas.Tentava imaginar, sem sucesso, como superar as amarras. Um dia, aconteceu. Sem planejar, sem sofrer. Como se tivesse feito isso a vida toda.

Estar nu em conexão com a natureza é despir-se de todos os preconceitos e estereótipos. Uma forma de aceitação de como sou, sem vergonha nem pudor. Somos homens, mulheres… somos seres humanos. Somos todos iguais.

Estar nu ao ar livre me traz sentimentos de liberdade e alegria, como se não houvesse mais nada a esconder. Na primeira vez, me senti um pouco envergonhado, mas isso não durou um minuto. Hoje é extremamente revigorante.

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A sensação de ficar nu na natureza é de liberdade, de estar em harmonia com a natureza e consigo mesmo.


O nudismo não é apenas experimentar a liberdade, mas também uma maneira constante de aceitar a mim e ao meu corpo, pois este muda com o passar do tempo. Estar nu na frente dos outros é a minha maneira de dizer ao mundo que estou em um processo ativo de me livrar de todos os equívocos e paradigmas negativos que todos enfrentamos em nossas vidas.

Já havia vivenciado a nudez artística em montagens teatrais, porém, estar nu na natureza só é compreensível ao se experimentar. Na minha primeira vez, fui tomado pela leveza do vento que me fez voar mentalmente sobre o oceano. Na segunda, fui atravessado 78 pela força das águas de uma cachoeira que me fez sentir vivo. Com essas sensações opostas, nasceu o desejo de continuar experimentando essa conexão com a natureza de peito aberto e desnudo.

Estar despido em um ambiente natural traz tanta paz, alegria e uma sensação única de liberdade não apenas para o corpo, mas para a mente também.

Me criei na roça e sempre achei excitante ficar pelado em meio a mata.Tomar banho nu de rio sempre foi uma sensação incrível de liberdade e conexão comigo mesmo.

Sugestão de leitura: artigo A nudez não precisa ser sexual, na terceira edição da Falo.


www.thespeedomovement.com

A community promoting male body positivity and acceptance of swim briefs on all bodies from all walks of life. Join us and share your speedo story! — Cody Creator of The Speedo Movement

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ESPECIAL

Naked Boys Singing! por Filipe Chagas

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m 1969, Raul Cortez se tornou o primeiro homem nu do teatro brasileiro. No mesmo ano, a primeira montagem brasileira de Hair apresentou a nudez de vários atores em palco.* Em 2003, o espetáculo Naked Boys Singing ganhou uma montagem brasileira, trazendo dez atores nus para confrontar os tabus da nudez masculina. Sim, nus do início ao fim, mas não é só isso. O musical criado por Robert Schrock em 1998 já apresentava números sobre o corpo e a vida homossexual da época. O espetáculo não só se tornou um ícone gay como também o segundo offBroadway mais longevo da história (está sempre em cartaz em algum lugar do mundo desde sua estreia). Agora em 2021, a nova montagem de Naked Boys Singing traz uma versão mais abrasileirada e mais contemporânea. Logo no número de abertura, o elenco canta que “vai dar o que o público quer e pagou pra ver”, ou seja, corpos com pênis despidos de suas roupas, de suas timidezes, de seus preconceitos. O choque – e óbvio desejo – inicial em ver homens nus no palco vai se diluindo ao longo dos números: a nudez se torna natural e o foco passa para a composição teatral como um todo, mesmo em números voltados para o pênis em

* Leia mais sobre a nudez no teatro brasileiro na edição 9.

si, como aquele sobre a circuncisão, onde acabamos refletindo sobre o ritual judaico. Muito se fala sobre o gênero vaudeville* do espetáculo, ou seja, uma sequência de números artísticos sem nenhuma relação direta entre eles, mas eu discordo em parte. A nudez do corpo do homem é um fio condutor que se vê também nos poucos figurinos curtos e/ou transparentes, no cenário minimalista e até mesmo na ausência de bastidores (os atores se trocam nas laterais do palco). Em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, o diretor Rodrigo Alfer conta que as duas coisas mais importantes na escolha do elenco foram a facilidade em ficar nu e a diversidade de corpos e vozes. Essa é uma diferença bem significativa das duas montagens brasileiras, uma vez que

* Gênero que surgiu na França no século 15, onde artistas apresentavam números musicais, de dança, circenses, mágicas, atletas, grupos ciganos etc. Os espectadores costumavam ser homens, pois os números eram considerados grosseiros. No século 19, na América do Norte, o gênero ganhou contornos de comédia ligeira e foi a principal forma de entretenimento da classe média burguesa tornando-se uma diversão para toda a família. No Brasil, pode ser encontrado como teatro de variedades e teatro de revista.


o “fator estético” era preponderante na seleção dos atores da primeira versão. Aliás, essa parece ser a maior diferença entre todas as versões do musical pelo mundo: agora você realmente verá magro, gordo, peludo, liso, pau grande, pau pequeno, branco, negro e por aí vai. No Rio de Janeiro, o elenco contou com André Lau, Aquiles, João Hespanholeto, Lucas Cordeiro, Rodrigo Naice, Rodrigo Serphan, Ruan Rairo, Silvano Vieira, Tiago Prates e Victor Barreto, além do pianista multitarefa Gabriel Fabri, que se desdobram nos quinze números e mais um bis com jockstrap para que os ansiosos possam filmar. Fazer graça sem fazer bullying é um ponto chave do espetáculo, como nos números do vestiário e da academia. Destaco o número sobre a masturbação (“Bater bolo” junto com um “momento orgástico barbatuque” foi genial) e o coral de vocábulos penianos como os mais divertidos em suas totalidades. Contudo, nem só de humor se sustenta o musical. Falar sobre body positivity através das estátuas nem sempre perfeitas, sobre amor, solidão ou a dor de perder alguém para a AIDS tornam o espetáculo mais completo e mais denso aos olhos dos que ainda possam ter alguma dúvida sobre o objetivo da peça.

“Por que você tem que subir? Se alguém notar, sei que vai ser o meu fim. Eu não consigo evitar, faz parte de mim! Fique aí!” Pois é… a ereção involuntária é tema de um dos números e, claro, uma das perguntas mais feitas ao elenco. Mas eles garantem: a concentração é tão grande que não tem como uma ereção acontecer. O pênis é somente tema e acessório teatral. Num momento (pós)pandemia de um país que mais mata pessoas da comunidade LGBTQIA+ e cada dia que passa destroi e censura a própria cultura, esse espetáculo tem uma força política maior do que ser um mero entretenimento com homens pelados e pintos balançando. A diversidade, a representatividade e a liberdade vistas em palco são um potencial para que os espectadores ditos não-conservadores também reflitam sobre suas posturas no cotidiano que segregam, cancelam, julgam e colocam pressões sobre si mesmos. Vejam pela curiosidade, mas também ouçam e se atentem ao que vai além da imagem. 8=D

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Guilherme Corrêa convida Jota Carneiro 82

FALÓFORO


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Foto: Guilherme Correa. | Modelo: Anônimo.


BiblióFalo

The little book of Big Penis de Dian Hanson (2014)

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sse talvez seja um dos livros mais famosos por seu nome e sua capa. Vale dizer que o título original é somente The Book of Big Penis. Essa é uma versão “pocket” e, por isso, leva o “little” no título. As razões são mercadológicas: o livro era grande e caro com uma temática que reduzia as possibilidades de venda e também de armazenamento na casa daqueles que o compravam; assim, uma versão reduzida foi pensada e, finalmente, alavancou as vendas. Mas não se engane: o conteúdo é o mesmo, tanto de texto quanto de imagens. Sim, texto. Apesar de ser em maioria fotos de homens com pênis acima da média, o livro tem um texto de Dian Hanson que dá um excelente panorama sobre a nudez masculina na fotografia. Para explicar a escolha das imagens – fotógrafos ativos durante o período de 1968 aos anos 1990 Capa do livro. –, ela vai do início do século 20 com o culto ao corpo na Alemanha e passa pelas revistas de fisiculturismo que ficaram conhecidas no mundo todo, especialmente pela comunidade LGBTQIA+. Claro que o livro acaba sendo uma celebração ao tamanho. Mas Dian já começa dizendo que tamanho não importa: Um carinhoso e sensível amante pode satisfazer seu parceiro com um pênis de qualquer tamanho e pode certamente satisfazer a si próprio. Um pênis grande não faz um homem mais homem, assim como um pênis pequeno não o faz menor. Também lembra que os mitos étnicos são isso, mitos: Nenhuma raça ou grupo étnico é uniformemente grande e nenhum grupo é uniformemente pequeno.

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Todavia, ela faz a pergunta-chave:

Quem pode negar o fascínio de um pau grande? E com a etimologia da palavra “fascínio” (fascinum, do latim, que significa tanto falo quanto espírito mágico), ela revela que a impressionante estética de um pênis grande, seja flácido ou ereto, o transforma em um objeto de medo, de excitação, de fetiche, e leva todo mundo a considerar sua capacidade e até mesmo suas consequências. O problema é que isso leva ao julgamento do homem todo e à objetificação do corpo. E que corpos são esses? Todos dentro de um específico padrão estético. Zero diversidade.Você pode pensar “mas tem negros” e eu rebato com a fetichização do corpo preto por causa de uma construção social colonizadora. Então, por mais “fascinante” que o livro seja, eu convido a uma leitura diferente. Primeiro, realmente LEIA o livro. Ok, pode começar pelas imagens (e não duvide das imagens finais, uma vez que não existia Photoshop), mas não deixe de adquirir um conhecimento histórico bem interessante. Depois, vá além do tamanho dos pênis e veja a anatomia completa. Saco, testículos, pelos púbicos e, por exemplo, perceba que praticamente TODOS são circuncidados, mostrando mais um padrão estadunidense imposto sobre a cultura mundial.

Não, os 29 cm do Kid Bengala não estão no livro. Ele está aqui apenas para ilustrar que paus grandes não são mérito dos EUA.

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por Filipe Chagas

Por fim, reflita. Se quiser mais argumentos, compre a edição Falo Real e veja a pesquisa realizada com seguidores e leitores que traz à luz questões não só sobre o tamanho, mas também sobre cor, circuncisão, altura, peso e muito mais. Assim como um pau grande, esse livro pode ser ótimo de ver, mas não é perfeito. 8=D


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FALO CO Você não é seu pau duro! Tudo que for relacionado ao sexo do homem cis - e aqui mais precisamente do homem cis gay - costuma vir acompanhado da obrigação de apresentar resultados e se auto-observar excessivamente. O foco acaba indo para qualquer lugar e se perdendo do que deveria ser: aproveitar a experiência sexual estando presente nela.

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São diversas as ideias reducionistas e amplamente disseminadas no senso comum acerca da sexualidade do homem gay: tem que possuir ereção instantânea, tem que ter um penis que está sempre duro e a postos, tem que dar de pau duro ao ser passivo como se apenas a ereção representasse prazer, tem que ejacular em toda transa… Só que ninguém “tem que” nada. Ignoramos que cada pessoa tem um corpo, uma história, um jeito próprio de dar e sentir prazer que foi se desenvolvendo durante a vida. Caímos na generalização de que temos ou que o outro tem que ser assim ou assado. Por conta da influência de crenças relacionadas ao papel do pênis e a importância dada a ele (e a ereção), diversos homens ficam presos na dinâmica de se preocupar mais com a opinião do outro do que com o prazer. Internalizar tais crenças em fases primordiais da vida, como infância e adolescência, exige das pessoas quando adultas um longo caminho para desconstrução dessas ideias deturpadas. Geralmente, a ênfase dada a performance do pênis pode vir acompanhada de outras questões


OM

VOCÊ

Por Rigle Guimarães

Psicólogo (CRP 122809/6) e Sexólogo

como homofobia internalizada, ansiedade, depressão, problemas com a parceria, distorções de imagem, baixa autoestima, dentre outras. É preciso aprender a viver a ereção sem ansiedade, mas, infelizmente, isso tem se tornado cada vez mais desafiador para uma grande parcela das pessoas. O medo de falhar às vezes é tão grande que chega a fazer com que alguns homens optem apenas pela posição “passivo”. Estar ou não num relacionamento fará muita diferença no tratamento de tais problemas, afinal, terapeuticamente falando, é mais fácil trabalhar as exigências de um casal onde há cumplicidade do que em alguém solteiro que possui amantes ocasionais e a colaboração do outro se torna praticamente impossível. Nos sentirmos conectados emocionalmente com outra pessoa é fundamental para a satisfação sexual em nossas relações. Contudo, a sexualidade não está só no pau, assim como a não-ereção não implica ausência de prazer. Lábios, nuca, orelhas, pés, axilas, parte interna das coxas, ombros, costas, palmas das mãos... tem uma infinidade de zonas erógenas no corpo, mas muitos de nós cometemos o erro de concentrar tudo apenas no pau ou na bunda. Estimular o restante do corpo expande o prazer ao invés de concentrá-lo apenas num lugar só gerando ansiedade. Vale a ressalva de que o que está sendo falado neste texto são questões psíquicas relacionadas ao pênis, mas podem haver situações em que as causas dos problemas podem ter origem orgânica, vascular ou neurológica.

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Modelo: Marcelo. Foto: Autorretrato.


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ISSN 2675-018X

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