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Escritas do Corpo - A liberdade Começa pelas mãos

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Escritas do Corpo A liberdade começa pelas mãos


Escritas do Corpo A Liberdade começa pelas mãos Isabel Miranda


Ficha Técnica Conceito e criação Isabel Miranda

Produção Isabel Miranda

Performance Isabel Miranda Participação de Loo Miranda

Produção executiva Isabel Miranda, Loo Miranda e Márcio de Jesus

Fotografias de registro da performance Igor Cerqueira

Agradecimentos À minha mãe : Loo Miranda; ao meu pai : Alberto Miranda (em memória); à Vovó Aracy e Vovô Albertino; ao meu amor da infância, juventude e dos dias de hoje : Márcio de Jesus; aos amigos da vida e nas produções afetivas : Aline Cântia e Igor Cerqueira, e ao amigo Josué Salles pela orientação para ficha catalográfica.

Escritas e narrativas Isabel Miranda, Loo Miranda, Aracy do Espírito Santo de Jesus, Albertino de Jesus, Alberto Miranda (em memória) Fotografia Isabel Miranda


Escritas do Corpo A Liberdade começa pelas mãos Isabel Miranda

escritasdocorpo.com.br


Minha pele carrega histórias e memórias, impressões em mim. É preciso construir um novo olhar sobre nossas narrativas. Reescrevo em mim o que está invisibilizado. Reescrevo em mim nossas histórias e memórias, que se encontram com histórias de tantos outros homens negros e tantas outras mulheres negras. Escritas do Corpo é um amplo projeto corpo-narrativo onde venho narrar e reescrever em minha pele as minhas histórias e as histórias de meus ancestrais. O projeto, que evidencia a presença do corpo negro, se desdobra em diferentes linguagens artísticas visuais tais como a performance, audiovisual, escrita e fotografia. Aqui, se encontra mais uma etapa do projeto que traz a imagem-memória, transpondo nossas histórias a uma obra virtual composta por imagens fotográficas, poesia, poesia visual e narrativas visuais. Desta forma, possibilita que todos os meus familiares possam ter a arte ao alcance trazendo novas experiências, encantamento e despertando outros sentidos a respeito de nossa história.

Sou mulher negra, nascida em família que passou por inúmeras mazelas. E hoje, na terceira geração, conseguirmos iniciar caminhos mais dignos de existência. Em minha família é grande o número de pessoas analfabetas ou semianalfabetas. Meu pai era um deles. Mas, na verdade, meu pai foi um gênio autodidata e carregava em si conhecimentos ancestrais da matemática, literatura, arte e outros. Minha mãe é multimulher, corredora, criadora de artes, criadora de roupas, conhecedora da culinária e de muitos fazeres estéticos. Assim, como meus avós que possuem a sabedoria da terra, das plantas alimentícias e medicinais. Meu pai era multiartista por natureza. Em seu curto tempo de vida construiu um belo acervo para quem, que como ele, tivesse o desejo de continuar a escrever nossas histórias. Foi com ele que aprendi que imagem e palavra são tecnologias que nos resgatam memórias e podem nos trazer o conhecimento, à origem e recuperar a nossa conexão ancestral. Ele produziu e nos deixou um grande acervo de fotografias incríveis, vinis com escritos que são quase que códigos e cadernos com poemas e textos diversos. Com isso, deixou também sua coleção de canetas que usou em seus escritos.


Criar memória. Com o tempo compreendi que esse é o caminho. É preciso conhecer o que se passou para se fazer. E, o movimento de criar memória é uma forma legítima de resgate. Eu, que tenho uma natureza questionadora como a de meu pai, segui a busca por criar memórias para que tenhamos o direito de existir. Nesta busca, compreendi que precisava usar de meios históricos, imagéticos e da tecnologia. Levei muitos anos para me entender negra e sobre o racismo constantemente vivido. Demorei mais ainda para compreender o quanto tudo isso nos afeta e nos tira o direito à humanidade. Até que, contar minha história e me fazer presente no mundo, com qualidade de vida, se tornou o maior propósito de vida.

Escritas do Corpo | A liberdade começa pelas mãos, em imagem-memória, traz à presença tudo o que somos, une os saberes de meu pai, de minha mãe, avós e da bisa Vó Quita (que pude conhecer em vida) aos saberes que trago em mim e, aos conhecimentos que pude absorver neste tempo-espaço em que me encontro. Aqui, chego ao início da realização do livro de artista - Escritas do Corpo com nossas narrativas, escritas, e fotografias. Linguagens que, aqui, trazem a imagem enquanto escrita universal.

Isabel Miranda


O QUE FAZER COM O DESEJO

DE SER ALGUÉM?


Ser e estar Para além da pandemia, existem vários mundos que parecem estar em queda livre. Aí talvez tenha. Por aqui, também. Por tantos cantos há uma guerra do quem fala e ninguém escuta. Por tantos cantos há tantos julgamentos. Por tantos cantos, muitos falam do outro. Quem fala de si? E a gente bem achando que aprendeu a comunicar. Que nada! Formas de comunicação geram violências verbais, psicológicas e físicas. Formas de comunicação que perpetuam e geram traumas tempo após tempo, geração após geração. Nesse mundo de muitos mundos, habita em mim, e fora de mim, muitos mundos bons. Existe um mundo de encantos que traz respostas para tantas perguntas que viajam em meus pensamentos e sentimentos. O que do outro posso aprender de mim? Olhando pra tudo isso, o que posso transformar em mim? De que forma posso realmente somar e contribuir? Como chegar com afeto em meio a tantas violências? O que preciso aprender? O que preciso aprender hoje? A natureza tem seus ciclos. Uma árvore se transforma a cada dia. Agora, muitas folhas caem neste chão. Não adianta varrer. Esse é o tempo dela e o vento contribui para que tantas folhas caiam. Eu poderia ver as folhas como sujeira mas, vejo um ciclo de transformação para o período de florescimento que já se inicia. Eu vejo encantos nos sons das folhas que rastejam na dança do vento. Eu vejo encanto nesse chão que recebe novas cores. Daqui, pequena diante de tanta grandeza, relembro e fortaleço o aprendizado (e exercício constante) de observar sem avaliar. Esse é uns dos passos para ter a sabedoria necessária para chegar e estar com amor, cuidado e afeto. Isabel Miranda


Bença. Deus te abençõe! Bença. Deus te abençõe! Bença. Jesus te abençõe!


°°°°°° reviver as memórias do meu terreiro °°°°°° o barro : minhas memórias e forças °°°°°°


sobre N O M E quem foi que é que definiu o Espírito, o Santo, o de Jesus, a palavra da salvação?


da rocha pra mira n d a vem de onde? vem de quem?


Terra à vista


Quando eu era criança, pra chegar na Casa da Vovó tinham muitos obstáculos. A gente andava muito, passava por uma velha ponte de corda e madeira pelas beiradas do rio-córrego e por último, tinha que atravessar a linha. Atravessar a linha era sempre muito tenso. Na linha tinha muitas pedras pra fazer a gente cair, tinha ratazanas enormes e, vez ou outra, um corpo sem vida. A linha era, pra mim, uma espécie de portal amaldiçoado que me pedia muita força pra passar ali. E além disso, um trem estava sempre escondido e pronto pra matar a gente a qualquer momento.

Trecho do texto Atravessar a Linha, de Isabel Miranda


“

E aí minha mãe dizia:

A liberdade começa pelas mãos… Vô Aracy


“ Eu comecei a tomar conta de casa eu tinha 8 anos de idade. Eu comecei a conzinhá, a arrumar casa, torrar café, limpar arroz. A canjica era feita no pilão. Tinha que deixar o mio de molho e depois colocava no pilão, colocava paia de mí rasgada e ia socando até a casca do mí sair… aquela casquinha fina. Não podia socar com muita força senão ele ispinicava todo. Tudo isso eu passei. O

orucun. A gente pegava o

orucun. Cê colhia o orucun quando ele tava seco, cê

cê panhava, cê dibuiava ele, abria e tirava aquela sementinha, punha na panela no fogo, jogava um pouquinho de gordura ali, passava aquele orucun ali naquela gordura, naquela gordura quente, punha no pilão, punha fubá pra socar e fazer o corante. Então tudo isso eu passei. Limpava arroz. A gente comprava arroz era com casca, não tinha arroz limpo. Era limpado no pilão. Cê limpava o arroz, depois cê soprava ele. O arroz ficava assim... vermelho. Né! Aí depois cê punha o quê? Folha de goiaba. Cê socava folha de goiaba pra clarear o arroz. Tudo isso eu passei. Tudo. pegava ele,


Barro. A casa não tinha pintura, era de barro. Argila. Né? Que hoje eles falam, argila. A gente buscava longe

Desmanchava ela na água, passava nas paredes, passava no chão e ficava os chão branquinho e as parede aquelas lata, assim, de argila.

branquinha.

A bosta de boi fresca, quando a gente desmanchava na água e passava assim e ficava verdinho igual fosse cimento. Olhava assim, falava que era de cimento. Fedia não... secava e num

Era assim que a gente pintava a casa antigamente: Ou passava barro branco ou bosta de boi. fedia não.


Aí dia de sábado a gente ia cortar... não existia...

vassoura era de ramo,

né. Então a gente ia num

pátio que tinha lá. Quatro, cinco, moças trazia aquela

de alecrim. Chegava em casa para varrer os terreiro, a gente varria estrada, varria braçada de vassoura

tudo. Às vezes, o que a gente ia fazer... Pegava aquelas...

Tem uma areia lá no interior que era branquinha ingual açúcar refinado (ainda tem até hoje em argum lugar lá), e a gente pegava aqueles punhadinhos de areia assim e punha assim em volta do terreiro. Era tempo de gente bobo, mas era bom. Né?


Mas a vida antigamente era uma vida mais sofrida, mas era uma vida boa. Era uma vida muito cheia de regras.

Às vezes nós juntava aquela turminha de moça e sentava no portão em tempo de lua clara e cantaaaava né... e cantava até. Lá pelas dez da noite a gente tava Mas, é boa.

cantando. Era uma vida boa. Nós sentava e juntava eu, Teresa de TiSolina, a Lica, Naí, nós era uma turminha que

em tempo de lua clara ou então no terreiro lá em casa naquelas pedras, nós ficava cantando ali até tarde da noite. sentava assim de noite, assim,

Essas histórias eram tudo no Serro quando eu era solteira ainda. Depois de casada, minha filha, aí a vida mudou.


O único namorado que eu tive... eu namorei primeiro com seu Vô. Um dia... encontrei, nós Namorado.

conversamos um dia, um domingo... a gente ia na missa domingo à noite e tinha aquela praça que tem lá até hoje. E lá, assim, dia de domingo depois da missa as moças ficavam passeando na praça. As moças, uma dava o braço à outra, as vezes duas, três, e ia lá na frente e vortava, lá na frente e vortava. Todo domingo. Né. E aí

E aí num sei quem falou que ele queria conversar comigo e aí ele chegou perto de mim e foi conversando comigo até chegar lá em casa. Mãe tava junto, as seu Vô nesse dia lá na praça...

meninas, tava a turma. Ninguém andava sozinho

naquela turma. Ele foi lá em casa, entrou lá em casa, conversou. Conversamos assim: Eu sentada aqui e ele aí.

Ele sumiu e nunca mais voltou. Mas aquilo... quando eu lembrava dele, meu coração disparava. Conversamos... e ele foi embora.

Na igreja, eles colocavam música à noite, música de igreja, naquela altura que a gente escutava lá no alto do morro. Então, eu lembro desse dia, uma música que tava

Quando eu ouvia essa música meu coração disparava... parecia um trem. Eu sei lá, num sei se esse homem me benzeu. Sei que esse homem fez comigo não. Eu nunca mais consegui esquecer dele. Aí passando lá na igreja.

ele sumiu. Foi só esse dia que ele conversou comigo, nunca mais apareceu.


Aí quando foi pro casamento de Gardino, quando marcou o casamento de Gardino, aí um dia não sei se foi Gardino ou Mário (irmão dele) que chegou lá e falou: Ó! Abertino

mandou falar que vai vim no casamento de Gardino e tá sabendo que você tá noiva e vai derrubar seu noivo e vai fazer ele rolar daqui até chegar lá embaixo na... E Adair estava em Três Marias.


Eu não sei o que foi que ele fez comigo. Você conversar com a pessoa uma vez e virar a cabeça desse jeito é muito estranho. Né?

Eu não comi e nem bebi nada dele não. Ele era bonito e metido. Descia o morro… ele andava e rebolava. Toda vida ele gostou de andar com essa penca de chave. Antigamente diz que quem tem penca de chave é fazendeiro né.

Vó Aracy


Chegava lá e a gente passava primeiro pelo Vovô, sempre sentado à beira do portão preparando seu cigarro de palha. Meu Vô era um homem calado, sério e misterioso. Às vezes, eu até tentava ler seu silêncio. Só ouvia sua voz ao receber sua benção. Com o tempo passei a conhecer um pouco de sua história através de minha Vó e tias. Minha cabeça dava um nó porque eu não entendia como meu Vô aguentou tudo aquilo, se manteve vivo e formou família. Demorei um tempo pra compreender que seu silêncio era um silêncio de dor.

Com as plantas, Vovô também atravessou a linha. Aquela linha que é dominada por grandes instituições, aquela linha que violenta e balança as estruturas das casas quando o trem passa. Meu Vô com toda sua sabedoria atravessou a linha com suas raízes, com girassóis e tudo quanto é tipo de planta de comer e planta de curar.

Trecho do texto Atravessar a Linha, de Isabel Miranda


“


Deus não

vendeu terra pra ninguém Vô Albertino


SOBRE NASCER

Eu era menina quando uma outra menina me disse que eu fui feita à força. Ela debochava de mim. Em partes, ela entendia o que estava me dizendo. Já eu, demorei mais muitos anos para saber…


Houve um tempo em que eu tinha coragem de fazer muitas perguntas descabidas para meu pai. Mas, como é que perguntava sobre essa coisa de ser feita à força? Não sei. Mas isso me dava um certo medo que eu não sabia do quê…


“


MUITOS

ANOS… E ELE SE FOI. E

EU NÃO

PERGUNTEI A ELE

O QUE MINHA PRIMA QUERIA ME DIZER

SOBRE

FORÇA.


MUITOS

ANOS PRA

SABER COMPREENDER

PERDOAR


MUITOS

ANOS PRA

ACEITAR

AMAR

O

IMPERFEITO


MUITOS

ANOS PRA

ENTENDER QUE HOMEM

FORTE CARREGA DOR


MUITOS

ANOS PRA

ENTENDER PORQUE ENQUANTO EU DORMIA

ELE CHORAVA


MUITOS

ANOS PRA

ENTENDER PORQUE MINHA

MÃE NÃO SORRIA

QUASE


MUITOS

ANOS PRA

RESSIGNIFICAR


E sobre nascer… aqui,

renascemos

todos.

Isabel Miranda


MÃE, CÊ É FELIZ?


“ E eu ficava triste de ver a minha mãe com aquele monte de menino e ela trabalhando, lavando roupa pro zoto. Eu lembro que era umas quatro trouxa dessa altura assim ó, no sol quente.

Não tinha tanquinho, nem nada, tinha que ser tudo na mão. Eu lembro que a gente ajudava ela e tudo, mas eu ficava muito triste de ver ela fazendo tudo isso… com as perna inchada cheia de veia. E sempre tinha dor de cabeça, tadinha. Ela tinha dor de cabeça terrível. Eu ficava chateada de ver, sabe? De ver aquela situação. E eu ficava doida pra resolver aquilo… mas o que eu

podia fazer?


E eu era louca pra saber de casar também. Por causa do

Eu era muito triste, desde que eu me entendo por gente. Mas, da minha infância é isso. Isso, eu era jeito… do jeito que meu pai tratava… assim... Sabe?

adolescente. Eu

comecei a trabalhar eu tinha menos de 15 anos na casa dos outros.

Trabalhar na casa dos outros era tranquilo. Eu lembro que eu trabalhei numas 4 ou 5 casas e foi tudo tranquilo. A única casa que até um certo tempo deu certo e no final eu tive que sair de lá foi a última casa que eu trabalhei, da Rosa, porque

o

marido dela queria engraçar comigo e eu fui obrigada a sair de lá. Ele foi engraçar comigo e aí eu saí da casa. Nunca mais voltei lá. Depois disso eu fui trabalhar na loteria e depois eu casei. Na loteria eu tinha uns 16, 17 anos. Eu casei com 19 e já tava trabalhando na loteria.


Nessa última casa que trabalhei, o marido dela sempre me respeitou e depois de um tempo ele começou a engraçar comigo. E falava assim: “Com as outras podia porque que com você não?” Aí eu fui e saí de lá, pra evitar o pior. Eu saí da casa. Às vezes eu tava arrumando a casa e ele começava e aí eu largava os lixos no meio da casa, móveis arredados e ia pra casa da minha mãe. No outro dia a Rosa perguntava: “Ah… porque você deixou as coisas jogadas assim?” E eu não falava. Né! Não podia falar. Eu morria de medo de falar. Mas, várias vezes eu chamava ela pra conversar com ela… mas

eu não tinha coragem de

falar. Morria de medo. Aí eu fui e saí de lá mesmo. A gente não contava nada pra minha mãe. Nada, nada, nada…

Eu não falava nada pra ninguém. Guardava as coisas tudo pra mim Pelo menos eu.

e nem pra minhas irmãs eu falava.


O namoro era sentadinho no sofá, tinha que sempre tá alguém ali vigiando. Mesmo sempre dentro de casa, sentado no sofá da sala. você não podia ficar sozinha. Dez horas era hora de ir embora, não podia atrasar que meu pai brigava. Se passasse do horário meu pai chegava assim: “O! Já tá passando da hora. Cê não vai embora não?”. Tipo assim. Aí ele ia embora. Mas chegava lá fora, se demorasse um tiquinho a mais, se desse beijo e meu pai pegasse… entrava pra dentro de casa e

Meu pai falava que não queria namoro a modo tamanduá, que é agarrado. Não podia abraçar. Se visse era tapa pra cara afora. Não podia não!

beijo na boca era tapa na cara na hora e na frente do namorado. Se meu pai visse de mão dada ele já apelava. E mesmo assim, na sala, tinha que ter alguém vigiando. Então, eu namorei assim durante… eu comecei a namorar com 15 anos e casei com 19.


Eu era aquela pessoa que ficava calada e não falava nada. Ficava guardando aquela raiva, assim, comigo. Eu tava sempre de cara emburrada, Ele me fazia muita raiva, muito ciúmes.

sempre com raiva dele. Sabe? E ele não gostava de eu ficar com cara emburrada com raiva dele. Entendeu? E eu não sabia conversar, falar: você fez isso... E foi o namoro sempre assim direto… eu emburrada e tal. E eu era muito caladinha. Né! Sempre fui meia boba caladona. Aí deu um tempo, e ele sumiu e nunca mais apareceu. Sem avisar, desapareceu. E eu gostava dele. Sofri pra caramba. Nossa! Sofri demais. Eu trabalhava na Rosa essa época. Nó… sofri demais. Eu cheguei a ajoelhar na imagem de santo pedir pra me ajudar a esquecer ele. Nossa… sofri pra caramba. Ele sumiu. Desapareceu.

Olha só procê vê

como que eu era boba: Ele foi

embora sem falar nada, ficou um tempo fora, voltou e já tinha engravidado uma

mulher…

Meus pais ficavam invocados, porque um homem engravidar uma mulher naquela época era um absurdo e eles não

uma menina) namorar com um homem

aceitavam eu (

que tem filho nunca! Ees ficaram muito bravos de eu querer namorar com ele de novo.

Nós começamos a namorar de novo. Fomos indo assim e aí passou um

tempo

ele pediu pra ficar noivo, antes da Dona

Lourdes morrer nós ficamos noivos. Eu lembro que nós fizemos uma coisinha lá… de comer… na casa dele mesmo. Mas, sempre foi esse namoro, esse noivado, casamento, muito

turbulento.


E ele mudou. Igual eu falo: Deus sabe o que faz. Em meio a enfermidade, no deserto, nós tivemos um casamento feliz. Porque nós não brigamos mais, a gente falava que amava um ao outro, a gente dava beijinho todo dia de manhã, a gente orava, chamava vocês e pegava na mão pra orar… e ele achava legal. Quando eu não dava beijinho ele falava assim: “Hoje você não me deu beijinho” e a gente dava beijinho.

Em meio a enfermidade, nós tivemos um casamento feliz. E eu tinha fé que ele ia melhorar e eu falei: Ô Deus, ele tá tão mudado, Deus… por favor, não deixa ele morrer não, Deus.

E eu tinha fé que ele ia melhorar.

Loo Miranda


À força

HÁ FORÇA

sÓ fOrçA


“


Lembro-me muito bem desse dia. Lembro-me muito bem dessa menina-mulher. Por ela passavam muitos sonhos e desejos de transformação. Ela sabia, em partes, a mulher que queria ser. Muita coisa já estava ali e ela não conseguia ver. Não conseguia (se) ver. Em partes, ela sabia a mulher que queria ser. Tantas mulheres de sua vida passavam por ela, por dentro dela. Observava os momentos de alegrias e de tristezas e, aprendia o que queria ou não trazer como inspiração. Aprendizado. Observava as histórias de amor dessas mulheres e tentava aprender sobre a dor e sobre o amor. Sonhado. Como poderia ser o amor em sua vida? Como poderia ser o amor de sua vida? Até que ponto poderia doer? Até que ponto poderia doar? Seu desejo e corpo de dança traziam um mover sentido à liberdade. A liberdade de trazer novos sentidos para a vida. Algo como uma vida bem vivida... Como poderia ser? Um amigo a fotografava para que ela pudesse ter novos olhares sobre si mesma. Muitos anos já tem... Mas então, quando ela passou a se ver? Essa menina-mulher fui eu. Sou eu. Hoje, com muitas conquistas. O caminho que desejei, já é. Hoje, novos sonhos. Hoje, alguns novos valores. Hoje, novas prioridades para que hoje e amanhã eu possa bem viver. E boto (muita) fé!

Isabel Miranda


Se eu fosse uma árvore se eu fosse uma árvore poderia romper o meu chão, entraria em minhas próprias profundezas, transmutaria a dor e tudo que não mais servir eu faria de adubo. se eu fosse uma árvore iria me regar da fonte, da água que brota da terra, bem ali, debaixo dos meus pés. se eu fosse uma árvore tocaria e dançaria com o vento, me renderia e cresceria com a luz do sol. se eu fosse uma árvore, seria estações, eu seria ciclos com a lua. se eu fosse uma árvore, estaria sempre de braços abertos para receber toda água que cai do céu.

Isabel Miranda


Tempo-raiz não vira pó.

Isabel Miranda


Caminho e permito o amor que me orienta. Caminho e aceito a natureza amorosa e cuidadora. Caminho com a doçura que pode, sim, andar junto com a força.

É PRECISO CORAGEM PARA SER

DOCE


E ele me disse com sua voz rouca, repetidas vezes e bem alto. Talvez, tivesse medo de que eu não entendesse. Mas,

eu senti.

Senti muito cada uma de suas palavras:

VOCÊ NÃO SERVE VOCÊ NÃO VOCÊ NÃO SERVE SERVE PRA MIM! PRA PRAMIM! MIM!

VOCÊ NÃO

SERVE

PRA MIM!


o ss pa

ua

aa vid

se

r rvi

…


a s s e v a r t a io c n o silê o corpo


SER

VIR


Contemple o seu corpo e a linguagem que ele traz

°°°°°° O corpo sabe das coisas que a mente quer curar. °°°°°° O corpo sabe das coisas que a mente quer agregar. °°°°°° O corpo sabe das coisas que a mente quer se livrar.


Amar é urgente! Eu gosto muito das manhãs. Sou a pessoa que, geralmente, acorda cheia de amor e disposição para mudar o mundo. E falando em amor... Há um tempo atrás, senti uma urgência enorme em ressignificar os afetos e todas as relações em minha vida. Não cabia mais as velhas dores de amor que se repetiam sempre. Também não dava mais o não saber como agir e ir morrendo no silêncio. Só culpar os outros, também não traria as respostas para a transformação desse caminho. Lembro que meu pai fazia muito esforço pra manter uma pinta de durão. Lembro também das muitas vezes que ele dava beijo no rosto e dizia que me amava enquanto eu estava dormindo. Lembro, também, que quando ele agia de forma agressiva ele sofria muito mais e pedia desculpas chorando enquanto eu estava dormindo. Nele havia muitas dores que ele, Homem, não sabia o que fazer. Mas, meu pai me ensinou muito nessa vida! Mesmo sem estudo, ensinava a matemática como ninguém. Quando o vi morrer, já comecei a contar a hora em que eu ia morrer também. Foi outro dia (e com muita terapia) que aceitei a seguir sem ele. Hoje, a sua existência é mais presente em mim do que o momento de sua partida. Inclusive, na minha última dor de amor foi a existência dele que me ajudou a superar e a perdoar. E então, senti de ficar só por muitas estações para que eu pudesse me curar e aprender a cuidar de mim outra vez. A nós, foi dado o desamor e a violência desde sempre. É urgente reconhecer que nada disso é nosso! A partir de mim, ressignifico as formas de amar. É a partir dos meus que eu ressignifico as formas de amar. E hoje, sem culpa ou sofrimento, eu criei um momento especial pra mim outra vez... Assim, como tem que ser.

Isabel Miranda


sobre vida voz embargada num pranto de dor. nem sempre as palavras saem no grito com poesia. são tantas vozes contidas, histórias interrompidas aqui e ali. o saber e o prever um fim é duro demais. nunca foi fácil viver por aqui. mas, agora a fome cresce. o desejo por que é de verdade cresce sem filtros, sem corte. o desejo pela vida cresce. vida de tudo, vida em tudo. viver é direito.

Isabel Miranda


o cuidado de continuar a respirar


E sobre nascer… aqui,

renascemos

todos.


O BETO foi pai presente na vida de seus filhos e também foi pai para primos e primas e, de uns meninos daqui e fora daqui. Meu pai era gênio e sempre será meu poeta favorito. Meu pai era escola. Sem ter completado o chamado ensino fundamental, ele ensinava português, matemática, história, arte e política como ninguém. Meu pai ensinava com a arte. Não esqueço quando ele sentava comigo no sofá pra mostrar que desfile de escola de samba é aula de história e política. Meu pai ensinava com música. Em sua coleção de vinil tinha resposta pra tudo. Meu pai ensinava com seu amor pela fotografia sobre registrar as nossas histórias, deixar memórias. Meu pai ensinava com a escrita que alivia, liberta e deixa pro mundo nossas narrativas. Meu pai ensinava com a dança e juntava a família toda pra ser feliz dançando James Brown e contava toda a grandeza que havia ali. Hoje, agradeço por tudo que foi a existência de meu pai e o grande homem que ele foi, não perfeito, mas um cara realmente incrível!


Quantos sóis? Quantas luas? Outro dia até contei estrelas no céu da frente e no céu de trás. As camadas do umbigo da banana caíram lentamente, dia após dia, indicando o tempo de colher. Eu colhi. Os frutos já amadureceram (tão doces) e eu comi. Muitas sementes já brotaram. A muda que fiz daquela verdura cresceu e eu colhi. A roseira deu tantas flores e acompanhei encantada cada desabrochar. As rosas traziam nome, cheiro, energia do que ainda não vivi. E outras flores apareceram entre as rachaduras deste chão. A Benção-de-deus, aquela planta que meu Vô gosta, tá nascendo num vaso de Zamioculca que eu trouxe da outra cidade.

Como a programação tempo nos afeta? Qual é a real marcação do tempo? Desde menina que acredito mesmo é no tempo da natureza. Mas, depois que a gente cresce, como que vive? Eu já nem sei que dia é hoje. Sei que já vi e revi um mundo dentro de mim. Tanta coisa compreendi, transformei e tantas outras preciso modificar. Em 1 hora parece que transformo 10 anos em mim. E olha… ando fazendo um tanto de coisa aqui, mas do amanhã eu não sei não. Na verdade, nunca soube. A natureza ensina a aceitar que tá tudo bem não ter o controle. Ensina tantas outras percepções de força, de tempo, de espaço. Ensina, inclusive, a ter esperança. É preciso.

Isabel Miranda


Imaginar, sonhar outros mundos e acreditar que são possíveis. Uma busca que me compõe desde a infância, e que se fortaleceu ainda mais após a vivência do câncer em meu pai e (dois anos depois) em mim. O bem viver passou a ser prioridade em minha vida. A cada amanhecer recordo, identifico (e me identifico), visualizo, normalizo e afirmo: Hoje aprenderei e viverei um pouco mais o bem viver.


Desde criança que carrego comigo um objetivo de “mudar de vida”. Muitas vezes repetia isso sem ter a real consciência do que significava. Na primeira infância vegetei. Eu, menina ativa e, de repente não tinha mais os movimentos. E como que em um milagre, retorno como planta que cresce e se movimenta em resposta à luz. Sempre em profunda conexão com as raízes do Meu Terreiro, caminhava por aquele chão e ficava imaginando até onde iam as raízes. Sentia o que havia debaixo daquela terra. O Meu Terreiro começava no terreiro lá de casa e terminava na Casa da Vovó. Lá em casa era chão de terra firme e no caminho se transformava em água até chegar na Casa da Vovó. Algo como um caminho entre a firmeza e a fluidez que criou em mim uma constante busca por aterramento e movimento, por criar estrutura e me mover em essência. Um caminho de encontro e transformação. Com o tempo compreendi que o meu propósito em “mudar de vida” é ser capaz de ver as raízes do Meu Terreiro. É compreender as amarras que carregam e, transformar. Um movimento puro em compreender que, o que me acontece hoje carrega um Todo lá de trás. É saber voltar ao útero de terra e água para ser encontro, amor e transformação. E assim me faço hoje diante do anseio pela união, por superar o isolamento, pela busca e pelo crescimento. Permito ser movimento em essência pelo caminho do encontro, amor e transformação.

Isabel Miranda


Alembra?


E sobre nascer… aqui,

renascemos

todos!


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