Uma filosofia dos meios digitais Vilém Flusser (1920-1991) foi um filósofo theco que viveu por muitos anos no Brasil e aqui desenvolveu seus trabalhos de pesquisa, muitos deles relacionados à imagem, em particular, à linguagem fotográfica. Em um de seus livros - “A Filosofia da Caixa Preta” (1983) - ele faz uma reflexão sobre a fotografia, mas que serve bem para qualquer aparelho tecnológico de comunicação, bem como para os meios digitais. Para ele, o avanço tecnológico permitiu o surgimento de equipamentos que desempenham sua função sem a necessidade de um conhecimento científico aprofundado sobre seu funcionamento por parte do seu usuário. Hoje em dia podemos exemplificar essa idéia a partir das máquinas fotográficas digitais: basta clicar e a foto é registrada, inclusive com certa garantia de qualidade. Aquele que faz uso do “aparelho” Flusser vai chamar de “funcionário”, pois apenas opera o equipamento, sem conhecer propriamente seu funcionamento. A vantagem da automatização dos processos é evidente e largamente aceita pela sociedade, seja uma máquina fotográfica, uma filmadora, um software gráfico ou mesmo um carro, quanto mais prático e automatizado, melhor. O problema existente aqui é que no mundo dos “funcionários” não há espaço para criatividade. Flusser inclusive diz que a liberdade está justamente no ato de jogar contra o aparelho tecnológico, pois caso contrário, estaremos todos produzindo produtos semelhantes, produtos automatizados, sem nenhuma originalidade ou criatividade. É somente quando você subverte o equipamento que começa a surgir um produto criativo. E para fazê-lo, é necessário conhecer seu funcionamento, ou seja, nas palavras do filósofo, é necessário conhecer a caixa preta, entender seus procedimentos, para então manipulá-los. Ao dizer que se faz necessária uma filosofia da fotografia, Flusser defende a necessidade de conhecer a linguagem fotográfica para saber operar sobre ela e não ser operado por ela. É neste ponto ao qual faço a relação com os meios digitais. Vivemos um momento único que é justamente o processo de formação de uma nova linguagem; a linguagem dos meios digitais. Neste contexto, só é criativo e capaz de operar sobre essa linguagem aquele que domina seus procedimentos. É hora de acordar e correr atrás, pois em breve todos que atuam na área da comunicação terão que lidar indubitavelmente com a cultura do digital. Aqueles que desenvolvem campanhas inovadoras de marketing digital, seja um viral ou qualquer outro modelo, o faz, pois não é um simples funcionário, muito pelo contrário, é alguém que domina a linguagem como nenhum outro, está imerso nesse ambiente e por isso consegue ver soluções criativas que ninguém ainda imaginou. Os outros, os funcionários, sabem apenas ler seus e-mails, pesquisar no Google e trocar scraps no Orkut. ------------------------------Eric Eroi Messa é professor da Faculdade de Comunicação – Publicidade e Propaganda na FAAP/SP. É mestre em Comunicação e Semiótica (PUC/SP) e já atuou por mais de 10 anos na área de marketing digital. Atualmente também é autor do blog e-Code (http://ecode.messa.com.br), que aborda temas sobre comunicação e tecnologia.