arthur conan doyle SHERLOCK HOLMES
CASOS EXTRAORDINÁRIOS

Tradução e adaptação
Marcia Kupstas
Ilustrações
Rogério Borges


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Tradução e adaptação
Marcia Kupstas
Ilustrações
Rogério Borges


CASOS EXTRAORDINÁRIOS 1a edição Porto Alegre – 2022
Tradução e adaptação
Marcia Kupstas
Ilustrações
Rogério Borges
Copyright © Marcia Kupstas, 2022
Todos os direitos reservados à UNIÃO BRASILEIRA DE EDUCAÇÃO E ASSISTÊNCIA
(Pontifícia Universidade Católica do RS – Campus Poa)
Avenida Ipiranga, 6681 – Partenon
CEP 90610-001 – Porto Alegre – RS
Tel.: (0-XX-51) 3320-3711
E-mail: edipucrs@pucrs.br
Editores assistentes: Bruno Salerno Rodrigues e Carla Bettelli
Revisoras: Kandy Saraiva e Marina Nogueira
Tradução e adaptação de The Complete Sherlock Holmes, USA, Bantam
Doubleday Dell Publishing Group, 1998, ISBN 9780553328257.
Arthur Conan Doyle (1859-1930) ficou conhecido ao criar Sherlock Holmes, o detetive mais famoso da literatura. Ao longo da carreira, escreveu 56 contos e quatro romances com o personagem. Em 1902, o governo britânico concedeu o título de cavaleiro ao autor, que assim se tornou Sir Arthur.
Marcia Kupstas nasceu em São Paulo. Iniciou a carreira de escritora em 1986 e tem publicados mais de cem livros por diversas editoras, alguns superando vinte reimpressões. Em 2005, seu romance Eles não são anjos como eu recebeu o Prêmio Jabuti na categoria Juvenil.
D754s
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Doyle, Arthur Conan
Sherlock Holmes: casos extraordinários / Arthur Conan Doyle; tradução e adaptação de Marcia Kupstas; ilustrações de Rogério Borges. — 1. ed. — Curitiba, PR: ediPUCRS, 2022. 144 p.: il. color.
Título original: The Complete Sherlock Holmes
ISBN 978-65-5623-293-5 (Livro do Estudante Impresso)
ISBN 978-05-5332-825-7 (Ed. original)
1. Literatura infantojuvenil. 2. Literatura (Ensino Fundamental). 3. Educação. I. Kupstas, Marcia. II. Borges, Rogério. III. Título.
CDD-028.5
Índices para catálogo sistemático:
1. Literatura infantil 028.5
2. Literatura infantojuvenil 028.5
Anamaria Ferreira – CRB-10/1494
Setor de Tratamento da Informação da BC-PUCRS
A chave para descobrir os clássicos 6
Almanaque 11
Convite à leitura 28
Paixão à primeira leitura 32
CONTO 1 A face amarela 37
CONTO 2 O ritual Musgrave 59
CONTO 3 A Liga dos Cabeças-Vermelhas 79
CONTO 4 O Diamante Azul 99
Paratexto 125
A literatura convida você a participar de grandes aventuras: mergulhar nas profundezas da Terra, erguer sua lança contra feiticeiros e gigantes, conhecer os personagens mais fantásticos e mais corajosos de todos os tempos.
Algumas dessas aventuras farão sucesso e vão lhe possibilitar novas maneiras de enxergar a vida e o mundo. Farão você rir, chorar — às vezes as duas coisas ao mesmo tempo. Revelarão segredos sobre você mesmo. E o levarão a enxergar mistérios do espírito humano.
Outras ficarão na sua memória por anos e anos. No entanto, você poderá reencontrá-las, não somente nas prateleiras, mas dentro de si mesmo. Como um tesouro que ninguém nem nada jamais tirará de você.
Você ainda poderá presentear seus filhos e netos com essas histórias e personagens. Com a certeza de estar dando a eles algo valioso — que lhes permitirá descobrir um reino de encantamentos.
É isto que os clássicos fazem: encantam a vida de seus leitores. No entanto, sua linguagem, para os dias de hoje, muitas vezes pode
parecer inacessível. Afinal, não são leituras corriqueiras, comuns, dessas que encontramos às dúzias por aí e esquecemos mal as terminamos. Os clássicos são desafiantes. Por isso, obras em textos com tamanho e vocabulário adaptados à atualidade — sem perder o poder tão especial que elas têm de nos transportar, de nos arrebatar para dentro da história — desempenham o papel de despertar em você a vontade de um dia ler as obras originais.
Tomemos como exemplo a obra Robinson Crusoé: o navio do sujeito naufraga. Com muito esforço, ele nada até uma ilha que fica fora das rotas de tráfego marítimo e se salva. É o único sobrevivente. Ao chegar à praia, estira-se na areia, desesperado, convencido de que jamais retornará à civilização e disposto a se deixar morrer ali.
Muita gente poderia dizer que essa história não apresenta elementos dramáticos para os dias de hoje, pois dispomos de diversos recursos para evitar que esse tipo de situação aconteça. Com mapas, rastreamento dos navios por satélites, equipes de busca munidas de super-helicópteros e computadores ultramodernos, ele logo seria resgatado. E... a história acabaria.
No entanto, somos cativados pela luta desse homem, que foi privado de tudo o que conhecia e isolado do mundo durante quase trinta anos. A gente se envolve com o personagem; somos tocados pela sua força de caráter e pela sua persistência em reconstruir, pouco a pouco, a vida, criando, a partir do nada, um novo mundo.
O espírito dessa obra não tem a ver com época ou recursos tecnológicos, mas com o dom de exibir o extraordinário. Não apenas o da fantasia, mas o do ser humano. Portanto, o extraordinário de cada um de nós.
Os clássicos falam de amor, ciúme, raiva e busca pela felicidade como outras obras não falam. Vão mais fundo, ao mesmo tempo que são sutilmente reveladores.
Não é à toa que atravessaram séculos (alguns, até milênios) e foram traduzidos para tantos idiomas, viraram filmes, desenhos animados, musicais, peças de teatro, histórias em quadrinhos. Existe algo neles que jamais envelhece, conserva-se intensamente humano. E mágico.
Afinal, quem é capaz de ler Dom Quixote e não se divertir e se comover com o Cavaleiro da Triste Figura?
Quem não torce para Phileas Fogg chegar a Londres, no dia e na hora marcados, e ganhar a aposta, depois de viajar com ele, superando obstáculos e perigos, nos 80 dias da volta ao mundo?
Quem lê Os três mosqueteiros sem desejar, uma vez que seja, erguer uma espada junto com seus companheiros, gritando:
Os clássicos são às vezes mais vívidos do que a vida e seus personagens, mais humanos do que o ser humano, porque neles as paixões estão realçadas, e as virtudes e os defeitos de seus personagens são expostos com genialidade criadora, literária, em cenas que jamais serão esquecidas e em falas que já nasceram imortais.
Os clássicos investigam os enigmas do mundo e do coração, da mente, do espírito da gente. Eles falam de nossas dúvidas, de nossas
indagações. Geralmente, não oferecem respostas, mas vivências que nos transformam e nos tornam maiores... por dentro.
São capazes de nos colocar no interior do submarino Nautilus, vendo com olhos maravilhados prodígios imaginados por Júlio Verne em Vinte mil léguas submarinas.
Ou nos levam à França do século XIX. Num piscar de olhos, estamos prontos para iniciar um duelo de espadas; noutro instante, intrigados, fascinados com a obsessão de Javert, um dos mais impressionantes personagens criados pela literatura. Assim como, em certos trechos, já nos vemos em fuga desesperada sofrendo com toda a injustiça que se abate sobre o herói de Os miseráveis.
Da mesma maneira, somos desafiados a desvendar mistérios aparentemente impossíveis ao lado de Sherlock Holmes, um dos mais famosos detetives de todos os tempos. Personagens assim mostram que os clássicos são o melhor que a humanidade produziu em literatura.
Luiz Antonio Aguiar
Mestre em Literatura Brasileira pela Pontifícia
Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).
É escritor, tradutor, redator e professor em cursos de qualificação em Literatura para professores.
Sir Arthur Ignatius Conan Doyle nasceu em Edimburgo, Escócia, em 22 de maio de 1859. Depois de ter concluído a faculdade de Medicina, mudou-se para a Inglaterra, onde montou consultório e começou a escrever as primeiras histórias. Em 1887, publicou o romance Um estudo em vermelho; nasciam, assim, o detetive Sherlock Holmes e seu grande amigo, o médico John Watson.
Conan Doyle, do mesmo modo que Watson, foi médico militar e serviu em hospitais de campanha. Em 1902, foi elevado a cavaleiro britânico (por isso o Sir no nome) pela atuação como médico na Guerra dos Bôeres, na África do Sul. Casou-se duas vezes – a primeira mulher, Louise, morreu de tuberculose, e ele então se casou com Jean Elizabeth Leckie. Conan Doyle morreu em 7 de julho de 1930, na Inglaterra.
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Alto e magro; olhar penetrante e irrequieto, como se estivesse permanentemente avaliando tudo o que acontece em seu entorno; e absorto em reflexões silenciosas. Não podemos esquecer os acessórios: chapéu de tecido quadriculado e formato absolutamente característico; cachimbo na boca. Mas é a personalidade de Holmes, ao mesmo tempo ácida e intrigante, o que mais apaixona os leitores.
Por exemplo, ele adora uma entrada espetacular em cena e é mestre em disfarces, divertindo-se em enganar a todos, principalmente a Watson, que nunca o reconhece! Mas algumas fraquezas (ou defeitos!) são ingredientes necessários: quando não tem nenhum caso para resolver, cai em depressão. Foi com Holmes que os grandes detetives passaram a ser criaturas, para dizer o mínimo, excêntricas. E muito convencidos de sua inteligência superior. Holmes, se quer pensar, toca seu violino. Pede que todos se calem quando os pensamentos são mais profundos e voltados para desatar o nó final de algum mistério.
Sou Sherlock Holmes, e é meu dever saber o que os outros não sabem.
“O Diamante Azul”, 1892
A primeira história escrita por Conan Doyle com Holmes foi Um estudo em vermelho, um romance de 1887. É nele que Watson e Holmes se conhecem.
Assim que são apresentados, Holmes já diz ter reparado que Watson andou pelo Afeganistão. Watson fica boquiaberto, mas Holmes, sadicamente, somente páginas e páginas depois, cede às perguntas de seu futuro biógrafo e dá o passo a passo de sua brilhante dedução.
Primeiro, reparou na postura do corpo de Watson, algo militar.
Meu caro amigo, pode me dar os parabéns!
Acabo de tornar esse mistério todo tão
claro como o dia!
Holmes, para Watson, em Um estudo em vermelho, 1887
Percebeu também a dificuldade de movimento do médico (era somente o que ele sabia, que Watson era médico), o que denunciava um ferimento no braço. E, finalmente, notou que Watson tinha a pele bronzeada. Ora, onde, naquele momento (1878-1880), um médico estaria alistado no Exército britânico e envolvido em combates em região de sol inclemente?
Resposta: Afeganistão, onde os britânicos travavam uma guerra colonial.
Foi assim que Watson começou a conhecer seu excêntrico amigo.
Conta-se que Conan Doyle, para criar Sherlock Holmes, inspirou-se em parte num professor que teve na Faculdade de Medicina da Universidade de Edimburgo. Foi o Dr. Joseph Bell (1837-1911), idolatrado por gerações de alunos por ministrar aulas estimulantes, puxadas a observação de fatos (sintomas do paciente) e conclusões lógicas.
Nas histórias de Sherlock Holmes, os leitores vão poder apreciar a importância do papel desempenhado pelo Dr. John Watson. É ele quem faz as perguntas que o leitor dirigiria a Holmes se estivesse em cena.
Reparem... Nessas narrativas, há sequências em que, se não fosse pela presença de Watson, Holmes entraria na cena do crime, examinaria tudo, apontaria algum determinado personagem como culpado e iria embora. E onde estaria a história?
Watson é o tipo de personagem denominado sidekick. O recurso não foi criado por Conan Doyle e, ao que se sabe, é anterior à literatura policial. Mas, com a dupla Holmes-Watson, o escritor britânico o desenvolveu como nunca antes.
De fato, meu caro Holmes, você deve muito ao Dr. Watson.
➔ SIDEKICK
Termo que, embora sem tradução exata para o português, serve para definir o principal ajudante do herói, sendo geralmente lembrado como personagem coadjuvante. É ele quem auxilia o protagonista, como seu “fiel escudeiro”. Alguns sidekicks bem conhecidos:
◆ Catatau, em Zé Colmeia
◆ Robin, em Batman
◆ Barney, em Os Flintstones
◆ Dory, em Procurando Nemo
A frase virou símbolo de Sherlock Holmes, sempre pronunciada pelo detetive com certa ironia e desprezo. No entanto, Holmes jamais a disse. Pelo menos não nos contos e romances que Conan Doyle escreveu.
Entretanto, ficou famosa ao ser dita pelo ator Basil Rathbone, o mais clássico intérprete do detetive, numa das aventuras adaptadas para o cinema. Ao todo, foram 14 filmes com Rathbone, entre 1939 e 1946.
Neles, diferentemente do que acontecia nos textos de Conan Doyle, o Dr. Watson, interpretado por Nigel Bruce, tinha raciocínio muito limitado e fazia bem por merecer tiradas como essa.
Foi devido ao grande sucesso dos filmes com Basil Rathbone que inúmeras adaptações dos livros de Conan Doyle adotaram a elementar frase como sendo do autor original.
Sherlock Holmes andou por terras brasileiras.
Assim afirma Jô Soares (1938-2022) em O xangô de Baker Street, romance de 1995 em que o mais britânico dos detetives é conquistado pela sedução tropical e esquece a investigação em troca dos prazeres da terra.
Tivemos ainda outra aparição marcante de Holmes, em
O relógio Belisário , também de 1995, um romance repleto da fantasia habitual da ficção do escritor goiano José J. Veiga (1915-1999).
Elimine o impossível, e o que restar, por mais improvável que pareça, deverá ser verdade.
O signo dos quatro, 1890
Estes são alguns dos criadores de seres que caçam criminosos por aí, inspirados no detetive criado por Conan Doyle:
AGATHA CHRISTIE
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A inglesa Agatha Christie (1890-1976), conhecida como a Dama do Crime, tem milhões de livros de mistério vendidos em todo o mundo. Ela criou o personagem Hercule Poirot, um compulsivo no que se refere à arrumação de objetos, móveis e utensílios, às suas roupas e ao seu bigode.
REX STOUT
O estadunidense Rex Stout (1886-1975) criou Nero Wolfe. Obcecado por gastronomia e pesando entre 140 e 180 quilos, raramente sai de casa e resolve os casos a distância, deixando o trabalho sujo para Archie Goodwin, seu sidekick.

Famoso pelas histórias de terror, o escritor estadunidense Edgar Allan Poe (1809-1849) é também o criador da moderna literatura policial. E o é justamente por ter cunhado alguns dos recursos mais típicos e mais eficientes desse gênero. A começar pelo detetive com um sentido de observação e uma inteligência dedutiva extraordinários: o francês Auguste Dupin, no conto “Os assassinatos da rua Morgue”.
Dupin foi o ascendente direto de Holmes, que, em Um estudo em vermelho, o cita como “um sujeito bem inferior a mim”. E Dupin tem um sidekick, à Watson; é um biógrafo sem nome que, entretanto, narra as histórias do francês. Claro que Conan Doyle acrescentou muito às técnicas criadas por Poe e foi ele próprio um inventor de recursos narrativos para as histórias de mistério.
Holmes também teve descendentes. O mais famoso foi Hercule Poirot, de Agatha Christie, e seus sidekicks, o Capitão Hastings, um ex-militar, e o inspetor-chefe Japp, um investigador da Scotland Yard.
Mas houve também Frei Guilherme de Baskerville (não por acaso, o nome alude à história mais famosa de Conan Doyle, o romance O cão dos Baskerville) e seu ajudante, o noviço Adso de Melke. No romance O nome da rosa (1980), grande sucesso do escritor italiano Umberto Eco, ambos resolveram uma série de horrendos assassinatos num convento medieval. A versão cinematográfica (1986) foi estrelada por Sean Connery, no papel do frade-detetive.
Outro dos descendentes mais célebres de Holmes é o médico (assim como Conan Doyle) Gregory House, do popularíssimo seriado de televisão House, interpretado pelo ator inglês Hugh Laurie. House tem sobrenome que lembra o de Holmes. Mora no apartamento 221B do seu prédio, mesmo número da residência de Holmes na rua Baker. O método de
raciocínio de House e a inaptidão do personagem para o convívio social também lembram Holmes. Além disso, tem como sidekick o amigo e médico Wilson (versus Watson) e toda uma equipe de residentes (médicos auxiliares) que o ajudam na hora de raciocinar com os sintomas de cada paciente e elaborar diagnósticos.
Já a série Elementary inovou com um Watson americano e feminino, a médica interpretada pela atriz Lucy Liu. Seu Sherlock Holmes superexcêntrico é interpretado pelo inglês John Lee Miller. No cinema atual, Holmes virou um detetive mais afeito às brigas físicas e aos tiroteios quando interpretado por Robert Downey Jr., tendo Jude Law como Watson. E não se pode esquecer o excelente O enigma da pirâmide (1985); dirigido por Barry Levinson, apresenta Holmes e Watson ainda adolescentes, mas já amigos, investigando um engenhoso mistério.
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◆ Seria redundante chamar de majestosa a estátua da Rainha Vitória (parte do monumento Victoria Memorial), sentada no trono que a soberana sustentou por mais de 60 anos e instalada à frente do Palácio de Buckingham, sede da monarquia inglesa, em Londres. No entanto, não haveria termo mais apropriado que majestoso para aquele símbolo do Império Britânico e de sua história. A Era Vitoriana durou de 1837 a 1901 e, de fato, deu feição ao mundo.
◆ Conan Doyle nasceu no reinado de Vitória, em 1859, ano em que Charles Darwin revolucionaria o pensamento científico e a compreensão das pessoas sobre a humanidade ao publicar A origem das espécies.

◆
Era uma Europa então conturbada. Em 1848, Karl Marx e Friedrich Engels haviam lançado o Manifesto Comunista, símbolo de uma era de revoluções sociais que teria, entre outras manifestações, a Revolução Russa (1917). O marxismo transformou ideias em diversas áreas, como economia, política, história e cultura, e mudou a configuração de inúmeras nações.
◆ O Brasil, uma monarquia quando Conan Doyle nasceu, tinha como soberano D. Pedro II. Assim como a Rainha Vitória, Pedro II assumiu bastante cedo o trono – teve a maioridade instituída por lei, aos 14 anos – e o ocupou por longo tempo, de 1840 a 1889. Seu reinado simbolizou uma estabilidade que ruiria aos poucos, trazendo à luz uma era de transformações no país.
Tão importante foi a contribuição de Charles Darwin para a ciência que o Museu de História Natural de Londres abriga uma estátua sua

◆ Também no ano de nascimento de Conan Doyle, em 1859, iniciou-se a construção do Canal de Suez, uma passagem entre o Mar Vermelho e o Mediterrâneo, sonhada havia anos, por conta das vantagens que traria para a navegação. O mundo diminuía drasticamente as distâncias.
◆ Em 1863, Júlio Verne publicou Cinco semanas em um balão, seu primeiro grande sucesso como romancista. O século XIX foi pródigo em grandes ficcionistas. Temos Alexandre Dumas, com O Conde de Monte Cristo e Os três mosqueteiros; Victor Hugo, com O corcunda de Notre-Dame e Os miseráveis; Charles Dickens, com Oliver Twist e David Copperfield e com aquele que alguns consideram seu grande
O Canal de Suez é até hoje uma importante passagem náutica, conectando Europa e Ásia
romance, A casa soturna. Além desses, A comédia humana, de Balzac; toda a obra de Edgar Allan Poe, nos Estados Unidos; e o momento de ouro da literatura de terror, o Gótico no Romantismo: Frankenstein, de Mary Shelley; Drácula, de Bram Stoker; e O médico e o monstro, de Robert Louis Stevenson, que também escreveu A ilha do tesouro, uma genial aventura pirata. Não é à toa a influência da literatura de terror em contos e romances de Conan Doyle, como O cão dos Baskerville e outros. A imaginação estava em alta na literatura, e o gênero romance – a história longa, com muitos personagens –conquistava de vez o público.
◆ Em 1867, a Europa, chocada, assistiu a distância ao Imperador Maximiliano,
colocado artificialmente no trono do México pela França, ser executado pelos revolucionários que, sob o comando de Benito Juárez, lutavam pela independência do país. Maximiliano era irmão do soberano do Império Austríaco, entidade que, derrotada numa das guerras da unificação alemã, se tornou meses antes da morte de Maximiliano um bem menos poderoso Império AustroHúngaro. Símbolo do poder monárquico e de uma velha Europa, mesmo esse “novo” Império se desmancharia em 1918, com a derrota na Primeira Guerra Mundial .
◆ Durante todo o século XIX, várias revoltas populares exigiam a concretização dos ideais republicanos e a derrubada de monarquias decadentes. Uma dessas revoltas foi retratada em Os miseráveis (1862), de Victor Hugo. Aconteceu na França de 1832 e terminou no massacre dos revoltosos, nas barricadas erguidas por eles em Paris.
◆ Em 1899, Sigmund Freud publicou A interpretação dos sonhos. A partir daí, elaborou
uma série de estudos que, ao longo dos anos seguintes, fundariam a psicanálise.
◆ Em 1905, Albert Einstein publicou seus primeiros ensaios sobre uma nova visão da gravidade, do tempo, do espaço e da cosmologia, que ficou conhecida como Teoria da Relatividade. Por essas formulações, ganharia o prêmio Nobel em 1921. Em 1933, sendo alemão e judeu, teve de abandonar seu país, fugindo do nazismo. Foi morar e ensinar nos Estados Unidos.
◆ A Primeira Guerra Mundial começou em 1914. Batalhas como a do Somme, em 1916 (uma das mais sangrentas da história), mataram cerca de 6,8 milhões, mais um número ainda maior de civis (e outros militares) que morreram de outras causas relacionadas ao conflito. Para o povo europeu, que se acreditava tão civilizado, foi uma carnificina inimaginável. Pela primeira vez, usaram-se tanques de guerra e gases tóxicos, e esses últimos continuaram corroendo os pulmões dos combatentes, e matando, mesmo muito depois da guerra.
Em 1837, com apenas 18 anos, a Rainha Vitória subia ao trono da Inglaterra. Seus súditos orgulhavam-se de dizer que, nos domínios dela, o sol nunca se punha, já que o Império Britânico possuía colônias em todos os continentes e latitudes. Vitória morreu em 1901, e seu reinado só deixou de ser o mais longo da história da Inglaterra em setembro de 2015 (quando o atual, da Rainha Elizabeth II, que vem desde 1952, superou o de Vitória). Nas suas últimas décadas, entretanto, já se prenunciavam mudanças radicais. Foi a passagem do que parecia imutável para a imprevisibilidade cultural, social e política.

Sherlock Holmes e, principalmente, o Dr. Watson são homens tipicamente vitorianos. Bem como o próprio Conan Doyle, um comportado cidadão em Londres, mas um soldado, defensor do Império, nas colônias. Ou quase como O médico e o monstro, também uma obra vitoriana, do escritor Robert Louis Stevenson (1850-1894), publicada em 1886. Além disso, entre 1914 e 1918, Conan Doyle serviu na Primeira Guerra Mundial, o mais sangrento conflito que a humanidade conheceu até então.
Enfim, Sherlock Holmes não deixa de ser um personagem que tenta impor ordem ao caos, oferecendo, diante do incompreensível, a racionalidade e o discernimento. E um tanto do humor – da ironia, do aparente distanciamento e frieza – que virou marca caricatural do caráter britânico, confrontando-se com um mundo que seguia rumos cada vez mais ameaçadores.
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DECISIVO: MORIARTY
Em “O problema final” (1893), Watson cumpre o doloroso dever de narrar a morte de Sherlock Holmes. É nesse conto que o detetive revela ao mundo a existência do professor Moriarty. Trata-se, segundo o próprio Holmes, do único ser cuja capacidade intelectual se equivale à dele. Assim, Holmes e Moriarty travam um jogo estratégico no qual cada um tenta antever os movimentos do outro.
O embate final ocorre às margens das cataratas de Reichenbach, na Suíça. Pelas marcas deixadas na terra, Watson deduz que os dois haviam entrado em luta corporal, despencado no precipício e sido destroçados pela queda nas águas turbulentas.
Mas engana-se quem pensa que essa será a última cachimbada de Sherlock Holmes...

Sherlock Holmes, sobre o professor Moriarty, em “O problema final”, 1893
Conan Doyle tinha certa mágoa de Holmes. Considerava a literatura de mistério um gênero de pouca importância e sonhava ser conhecido como grande escritor da língua inglesa com obras mais qualificadas. Foi por isso que matou Holmes no conto “O problema final” (1893).
Os fãs de Holmes ficaram desconsolados. Conan Doyle tentaria posteriormente outros gêneros literários. O maior sucesso foi O mundo perdido (1912), com um novo herói, o professor Challenger. Mas, antes
disso, os fãs o obrigaram a trazer Holmes de volta. Isso ocorreu no conto “A casa vazia” (publicado em livro em 1903). Holmes aparece de repente, diante de um Watson dividido entre a alegria e o espanto, para explicar que somente Moriarty caíra nas cataratas de Reichenbach. No entanto, o detetive, que acumulara outros inimigos perigosos, resolvera deixar que acreditassem que morrera também. Os leitores apelidaram esses anos sem Holmes de “O Grande Vazio” (The Great Void).
A última aparição de Holmes seria em 1927, no conto “O velho solar de Shoscombe”. No entanto, o próprio Conan Doyle (na voz de Watson) já se encarregara de anunciar ao mundo, numa introdução da coletânea O último adeus de Sherlock Holmes (1917), que Holmes se aposentara e se recolhera ao interior da Inglaterra, dedicando-se, já idoso e reumático, à jardinagem e a alguns estudos científicos, mas não mais à solução de mistérios. (As histórias dos contos escritos depois de 1917 situam-se ainda no período anterior.)
Depois da morte de Conan Doyle, Holmes ganhou uma “biografia não autorizada”, Sherlock Holmes of Baker Street, que afirma que o detetive morrera em 1957, aos 103 anos de idade. A biografia foi escrita em 1962 por William S. Baring-Gould, autor de uma edição comentada de Holmes e famoso estudioso dos romances e contos do detetive.
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Tão importante é o personagem Sherlock Holmes que, no edifício número 221B da Baker Street, em Londres, há uma placa sinalizando que ali morou o “detetive consultor”, entre os anos 1881 e 1904.

Na saída da estação de metrô da Baker Street, encontra-se também uma estátua do personagem.
1859
Em 22 de maio, nasce em Edimburgo (Escócia), Arthur Ignatius
Conan Doyle, filho de Charles Doyle e Mary Foley.
1876
Começa a estudar Medicina na Universidade de Edimburgo. É lá que vai conhecer o Professor Joseph Bell, que o inspirará na criação de Sherlock Holmes.
1879
Já trabalhando como médico, publica, anonimamente, o primeiro trabalho ficcional, o conto “O mistério do vale de Sassassa”, no semanário Chambers’s Journal.
1880
Viaja pelo Ártico como médico de bordo num baleeiro.
1881
Completa a formação médica na Universidade de Edimburgo.
1885
Casa-se com Louise Hawkins.
1887
Publica Um estudo em vermelho, apresentando os personagens Sherlock Holmes e Dr. John Watson. A dupla estrelará 56 contos e quatro romances.
1890
Publica O signo dos quatro.
1891
Abandona a medicina. Publica, na revista Strand Magazine, os primeiros contos de As aventuras de Sherlock Holmes.
1892-1893
Sai a coletânea As memórias de Sherlock Holmes, que inclui o conto “O problema final”, em que Watson narra a morte do detetive.
1902
Recebe da Coroa britânica o título de Sir. Publica O cão dos Baskerville
1903
Publica a coletânea A volta de Sherlock Holmes, com o conto “A casa vazia”, em que Watson reencontra Holmes, vivo.
1906
Morre a esposa, Louise. No ano seguinte, Conan Doyle se casa com Jean Leckie, amiga da irmã do escritor.
1912
Publica O mundo perdido, tendo como protagonista o professor Challenger (em inglês, o nome significa “desafiante”).
1917
Publica a coletânea O último adeus de Sherlock Holmes, com o conto de mesmo nome, em que Sherlock Holmes se despede. No entanto, Conan Doyle ainda escreve outros contos com o personagem, que se passam num período anterior à despedida.
1922
Publica A chegada das fadas.
1930
Em 7 de julho, morre de ataque cardíaco na sua casa, em Crowborough, na Inglaterra.
Elaboração: Luiz Antonio Aguiar
Ao ler esta edição de Sherlock Holmes – casos extraordinários , traduzida e adaptada por Marcia Kupstas, confesso que me transportei de volta para a adolescência. Eu tinha meus 12 para 13 anos quando topei com o livro Um estudo em vermelho, de Conan Doyle. Provavelmente numa edição adaptada para jovens, como esta aqui.
Foi naquele livro, encontrado ao acaso na biblioteca da minha mãe, que eu conheci Sherlock e me encantei com o detetive brilhante e suas fantásticas deduções. Mas, curiosamente, percebi que a minha vocação era mais para Dr. Watson do que para Holmes. Ou seja: eu me identificava mais com o aliado do detetive, com o sujeito que conta as histórias, que acompanha os mistérios, que observa e
admira as técnicas de Sherlock, do que propriamente com o detetive. Talvez ali estivesse a primeira pista (opa!!!) de que eu seria um escritor, no futuro.
Logo percebi que a dobradinha entre Holmes e Watson só poderia mesmo dar certo. Afinal de contas, os médicos e os detetives têm muito em comum. Ambos olham para as pessoas em busca de pistas do que pode estar escondido, do que pode ter acontecido de errado. Não custa lembrar que, antes de tornar-se escritor, Conan Doyle cursou medicina e exerceu a profissão por muitos anos.
Depois de Um estudo em vermelho , procurei outras histórias de Sherlock e fui passando de um livro para o outro, sem parar. Li, então, O cão dos Baskerville, O signo dos quatro e
várias outras aventuras escritas por Conan Doyle.
Algum tempo depois, pulei para os livros de Agatha Christie e passei ao menos dois anos devorando cada mistério desvendado por seus detetives, Hercule Poirot e Miss Marple. Por volta daquele tempo, eu já tinha descoberto, também, a maravilhosa turma do Gordo, um grupo de garotos detetives, criados por João Carlos Marinho, que não faziam feio diante dos detetives internacionais. Perdi a conta de quantas vezes li O gênio do crime, O caneco de prata, Sangue fresco, entre outros da turma do Gordo. É, porque um bom livro de mistério não se esgota em uma só leitura. Tempos depois podemos voltar a ele e descobrir novos detalhes, novos sentidos. Agora mesmo, relendo estes
Casos extraordinários, me diverti novamente com toda a mística de Sherlock. O apartamento incrivelmente bagunçado no número 221B da rua Baker, que servia de moradia e escritório para o detetive (e, durante um tempo, para Dr. Watson também). O chapéu, o casaco, a lente de aumento. E o cachimbo, é claro!
Os casos reunidos neste volume, embora poucos, são bem diferentes entre si e já permitem que o leitor novato no mundo de Holmes perceba a variedade das aventuras escritas por Conan Doyle. Temos o inevitável mordomo (será o culpado, como diz a lenda?), criados, condessas, policiais, amantes, filhos secretos, tesouros escondidos, joias roubadas, assalto a banco.
No conto “O Diamante Azul”, descobrimos incrédulos – como
Watson! – que examinar um mero chapéu velho e amarrotado é suficiente para Holmes deduzir a idade, o estado civil, a situação financeira do dono e até mesmo o fato de que ele não tem gás encanado. E, em “A face amarela”, encontramos até mesmo um caso em que as deduções de Sherlock deram errado, o que não era tão comum. Em toda a sua carreira detetivesca, nosso detetive foi derrotado pouquíssimas vezes, sendo a mais marcante por uma mulher: Irene Adler. Mas Irene não está neste livro: para encontrá-la, o leitor vai ter que buscar outras aventuras de Sherlock Holmes.
Isto, certamente, será um prazer para você, leitor. Uma vez iniciados nas histórias de Holmes e Watson, temos pela frente um universo quase infindável. Não apenas os vários livros escritos por Conan Doyle, mas também outros, escritos, até hoje, por admiradores de Sherlock, como fizeram o brasileiro Jô Soares (O xangô de Baker Street) e o indiano Vasudev Murthy ( Sherlock Holmes no Japão, livro que recria com rigor e detalhes a atmosfera das aventuras e o método investigativo de Holmes). Vale a pena conferir, também, as peças

de teatro e os inúmeros filmes que atualizam e modernizam o personagem. Nessas adaptações, Sherlock combate os nazistas, conhece Freud, viaja para os Estados Unidos e para outros lugares que Conan Doyle nunca teria imaginado.

Sem falar, é claro, nas séries de TV que continuam conquistando milhões de admiradores para Sherlock e a doutora Watson. Doutora? Isso mesmo, a série Elementary teve a saudável petulância de retratar Watson como mulher. E qual o problema? Como este livro nos lembra mais uma vez, Sherlock são muitos. E Watson somos também!
Leo Cunha
Professor, tradutor e jornalista. Mestre em Ciência da Informação e doutor em Artes/Cinema.
Conheci Sherlock Holmes – e, por tabela, seu admirável criador, Sir Arthur Conan Doyle – na adolescência. Foi paixão à primeira leitura. Como aquele detetive era pernóstico, irritantemente arrogante, manipulador e orgulhoso! Mas como era fascinante, ao nos humilhar – a nós, leitores, e a seus contemporâneos ingênuos – quando não conseguíamos acompanhar seu raciocínio na solução de um crime aparentemente sem solução!
“Elementar, meu caro Watson”, dizia Holmes para o seu colega de moradia, um médico, tão surpreso como nós diante da explicação sherlockeana para um caso que parecia impossível de resolver. Era elementar que uma leitora-devoradora-de-livros, como eu, me tornasse mais e mais uma admiradora dos livros de Doyle.
Li todos os volumes por aquela época, tanto os romances como os contos. Comprei e li outras histórias de Doyle, sem Sherlock, mas também misteriosas e com enredos muito bem construídos. Adulta, tive o privilégio de reler e adaptar algumas dessas narrativas para o jovem leitor brasileiro do século XXI.
Para Casos extraordinários, dentre dezenas de contos, escolhi “A face amarela”,


“O ritual Musgrave”, “A Liga dos Cabeças-Vermelhas” e “O Diamante Azul” porque, além de apresentarem a fantástica capacidade de dedução de Holmes, trazem particularidades de seu comportamento que vale ressaltar: um raro momento de equívoco do detetive; um enigma histórico; um bem-humorado quiproquó envolvendo homens ruivos; ou a recusa de Holmes em fazer papel de policial, liberando um transgressor ingênuo. São facetas fascinantes do “diamante” que é o personagem.
Acredito que Sherlock é um personagem ainda atual, na sua capacidade de pôr ordem no caos, e sempre fascinante, com sua personalidade de um heroísmo duvidoso, uma mistura de arrogância e descaso pelas pessoas comuns. E, se posso confessar ainda mais a minha tietagem, quando resolvi escolher um escritor para homenagear nomeando a minha microempresa, não tive dúvida: batizei-a de Doyle. Em respeito a um homem que soube cativar o seu público, com enredos e personagens que marcaram um gênero literário para sempre.
Marcia Kupstas
Os leitores bem sabem que eu, Dr. John Watson, relatei dezenas de casos que foram solucionados pela inteligência e lógica de meu amigo Sherlock Holmes. Sabem também que foram poucas as vezes que registrei insucessos em sua brilhante carreira.
Confesso que não escondo as derrotas. A verdade é que as vitórias de Sherlock foram constantes, sempre que ele se dedicou a esclarecer mistérios ou crimes que pareciam impossíveis de resolver pela maior parte da humanidade; mas também amargou, nesses tantos anos em que convivo com ele, alguns equívocos.
É o que ocorreu neste caso que denominei “A face amarela”.
Tudo começou quando surgiu um homem em nosso escritório da rua Baker, 221B. Entrou sem bater à porta. Estava bem-vestido e tinha
1 O conto “The Yellow Face” foi publicado na revista The Strand Magazine, em fevereiro de 1893, e no livro The Memoirs of Sherlock Holmes, no ano seguinte.
um chapéu na mão. Parecia bastante nervoso. Eu lhe daria uns trinta e poucos anos.
– Peço-lhes desculpas, cavalheiros – disse ele, um tanto embaraçado. – Devia ter batido. Mas o fato é que estou sem dormir direito há algumas noites e…
Passou a mão pela testa e dirigiu-se ao sofá. Diria que mais caiu sobre ele do que sentou.
– Algumas noites sem dormir cansam mais os nervos do que o trabalho… – disse Holmes, com um jeito de intimidade que sempre coloca à vontade as pessoas que o procuram. – Em que posso ajudá-lo?
– Quero o seu conselho, senhor. Não sei o que fazer. Toda a minha vida parece que está afundando.
– O senhor quer me contratar como detetive?
– Não é bem isso. Quero a sua opinião porque sei que o senhor é um homem especial, que desvenda mistérios e conhece a alma humana. Preciso de um conselho. Até para saber o que devo fazer depois.
O homem falava pausadamente, mas o tom de sua voz mostrava que seu assunto era doloroso. Continuou depois, com o rosto ruborizado:
– É tudo tão estranho, tão delicado! É horrível discutir o comportamento da esposa com dois homens que nunca se viu antes!
Mas estou no fim das minhas forças e preciso de conselho.
– Meu caro Sr. Grant Munro… – começou Sherlock.
Nosso visitante saltou do sofá.
– O quê?! – gritou ele. – O senhor sabe o meu nome?
– Se o senhor pretende permanecer incógnito – disse
Holmes, sorrindo –, sugiro que deixe de escrever o nome no forro do chapéu. E também que não vire o interior do chapéu para aqueles com quem está falando…
Holmes sentou-se no outro sofá e pegou o cachimbo.
Acendeu-o calmamente, enquanto continuava:
– Gostaria também de lhe dizer que eu e meu amigo já ouvimos muitos segredos nesta sala e a sorte nos sorriu, de modo a trazer paz para muitas almas angustiadas. Espero que possamos fazer o mesmo pelo senhor.
O assim descoberto Sr. Munro passou a mão pela testa diversas vezes, como se os pensamentos lhe fervessem dentro da cabeça. Imaginei que ele seria um homem reservado e orgulhoso, do tipo que prefere esconder suas feridas a expô-las.
Mas, num gesto súbito, esmurrou a mão que segurava o chapéu, como quem nada mais tem a perder, e começou a falar:
– Os fatos são estes, Sr. Holmes: sou casado há três anos. Durante esse tempo, eu e minha esposa vivemos bem, amamos um ao outro e nunca tivemos sequer uma discussão. Agora, desde a última segunda-feira, ergueu-se uma barreira entre nós. Descobri que há alguma coisa na sua vida e nos seus pensamentos que eu não conheço, como se Effie fosse uma mulher estranha, uma desconhecida com quem eu cruzasse pelas ruas. Quero saber por quê.
2 Capital do estado da Geórgia, nos Estados Unidos.
Antes de continuar, Sr. Holmes, quero deixar bem claro uma coisa: Effie me ama. Não tenho dúvidas a esse respeito. Eu sinto isso. Mas agora surgiu esse segredo e jamais serei o mesmo com ela, enquanto não esclarecer tudo.
– Por favor, Sr. Munro, procure me apresentar os fatos – disse Sherlock, um tanto impaciente.
Nosso cliente respirou profundamente e procurou ser mais objetivo:
– Eu lhe direi o que conheço da história de Effie. Quando a conheci, era viúva, embora muito jovem. Tinha apenas 22 anos. Chamava-se então Sra. Hebron. Foi para a América quando criança e morou em Atlanta2, onde se casou com Hebron, um advogado de grande clientela. Tiveram uma filha. Mas aconteceu uma terrível epidemia de febre amarela, e tanto o marido como a menina adoeceram. Vi a certidão de óbito do marido. Essa desgraça abalou a pobre Effie a tal ponto que ela voltou para a Inglaterra, para morar com uma tia solteira em Londres. Não se mudou para cá por necessidade, Sr. Holmes; o marido a deixou muito bem de dinheiro. Ela possuía um capital de quatro mil e quinhentas libras. Eu tam-
bém não sou pobre; trabalho com cereais e ganho em torno de oitocentas libras anuais. Na ocasião de nosso casamento, eu e Effie resolvemos alugar uma casa no campo, em Norbury. É um lugar muito bonito, mas afastado da cidade. Na verdade, entre nossa fazendinha e a estação de trem, só existe uma casa no caminho, um pequeno chalé desabitado. No meu trabalho, preciso viajar durante algumas estações do ano, mas posso ficar em casa praticamente todo o verão. Minha esposa e eu fomos realmente felizes durante esses três anos.
Nosso visitante fez nova pausa, como se outra dúvida surgisse em sua mente. Holmes, envolto pela fumaça de seu cachimbo, não tirava os olhos dele.
– Antes de continuar, gostaria de esclarecer outro ponto.
Quando nos casamos, minha esposa passou todos os seus bens para o meu nome, mesmo eu sendo contra isso. Há mais ou menos um mês e meio, ela me disse:
“Jack, quando você ficou com meus bens, disse que, se eu precisasse de alguma coisa, era só pedir”.
“Claro”, eu falei, “o dinheiro é todo seu.”
Ela me pediu então cem libras. Confesso que me assustei com o valor, porque imaginei que ela quisesse apenas um vestido novo ou algo assim. Cem libras é dinheiro para mais de dez vestidos!
“Para quê?”, perguntei.
“Ora, não pensei que você me fizesse tal pergunta. Eu quero esse dinheiro, só isso.”


“E não me dirá para quê?”
“Um dia, quem sabe. Mas não agora, Jack.”
Pois bem, senhores, não insisti mais. Confesso que era um primeiro segredo entre nós, mas dei-lhe um cheque e não pensei no assunto. Pode ser que isso nada tenha a ver com os fatos que contarei a seguir, mas…
– Às vezes, Sr. Munro, um detalhe simples revela mais mistérios do que se supõe – completou Holmes. – Continue.
– Eu lhes disse como nossa fazendinha era afastada da cidade e mencionei um chalé desocupado. Na verdade, ele agora não está mais vazio.
Na última segunda-feira, passei pelo chalé durante meu passeio matinal e vi sinais de ocupação na casa. Movido pela curiosidade, olhei para as janelas superiores do chalé e vi um rosto.
Senhores, não posso explicar a terrível sensação que me bateu, o frio que senti gelar a espinha, ao ver aquela figura. Estava um tanto distante, não podia captar direito a feição, mas, Deus me perdoe!, aquilo não parecia humano. Não saberia dizer se era de homem ou mulher. Era uma face lisa, amarelada, quase brilhante. Fiquei tão transtornado que resolvi saber mais sobre os moradores do chalé.
Mal me aproximei da casa, o rosto desapareceu da janela. Bati à porta e surgiu uma mulher magra, com jeito de empregada. Tinha um forte sotaque do norte da Grã-Bretanha.
“O que quer?”, disse a mulher, com cara enfezada.
“Sou seu vizinho. Moro ali”, disse, indicando minha casa.
“Vejo que a senhora se mudou faz pouco tempo… Se precisar de alguma coisa, estamos às ordens.”
“Está bem, chamaremos quando precisarmos”, disse a mulher, batendo a porta.
Claro que fiquei aborrecido com a grosseria e tentei não pensar a respeito. Mas aquele rosto terrível não saía da minha cabeça. À noite, antes de deitar, mencionei para Effie que o chalé estava ocupado. Como ela é um pouco impressionável, nada contei sobre o rosto pavoroso ou o fato de ter conversado com a empregada mal-educada.
O Sr. Munro fez mais uma longa pausa. Perdeu-se ainda em seus pensamentos, mas nem eu nem Holmes nada dissemos que o impedisse de continuar a confidência:
– Tenho um sono de pedra, senhores. Minha família costumava brincar, dizendo que nem uma bomba conseguiria me acordar. Pois bem: não sei que estranho acaso me despertou naquela noite. Meio dormindo, meio acordado, percebi que minha esposa tinha se levantado da cama e estava se trocando. Pensei em dizer alguma coisa, mas vi a expressão de seu rosto, iluminado por uma vela. E o que vi, senhores, me abalou mais que tudo! Effie estava pálida, com uma expressão de criminosa, enquanto ajeitava a capa e verificava se eu ainda dormia.
Ouvi quando ela saiu, desceu a escada e destrancou a porta da frente. Confirmei o horário no relógio de cabeceira: eram três horas da manhã. Que diabo minha mulher ia fazer àquela hora da madrugada?
Fiquei sentado na cama, aturdido, tentando organizar meus pensamentos. Meia hora depois, ouvi os passos dela na escada.
“Aonde você foi, Effie?”, perguntei, quando ela entrou.
Ela levou um susto violento e deu uma espécie de grito abafado, e isso me desesperou ainda mais: aquele grito denunciava a sua culpa.
“Jack! Você está acordado?! Eu pensava que nada pudesse acordá-lo.”
“Onde esteve?”, perguntei com mais rigor.
“Não me espanta que você tenha acordado.” Ela se desfez da capa, mas reparei nos dedos trêmulos e na voz, que tentava ser jovial. “Mas me ocorreu hoje algo que jamais aconteceu na vida… Acordei de tal maneira suada e irritada que imaginei que nunca voltaria a dormir! Precisei sair para tomar um pouco de ar. Só isso, Jack. Um passeio ao luar.”
Durante o tempo em que narrou essa história sem pé nem cabeça, Effie não me olhou no rosto. Claro que percebi que mentia. O que ela estaria escondendo de mim?
Effie meteu-se na cama e fingiu dormir. Mas creio que foi uma noite insone para ambos. Eu me revirava entre os lençóis, tentando explicar seu comportamento, tomado das mais fantásticas teorias.
Na manhã seguinte, nosso desjejum foi dos mais tensos desde que nos casamos. Mal trocamos algumas palavras e eu saí.
Deveria ir à cidade cuidar de negócios, mas estava tão transtornado que fui apenas a uma vila vizinha conferir uns documentos. Por volta de uma da tarde, estava na estrada de casa, passando diante do chalé recém-habitado.
E que surpresa, Sr. Holmes, ao ver minha esposa saindo dali!
Fiquei mudo de espanto. Mas minha emoção não era nada, se comparada ao terror que vi no rosto de Effie quando me encontrou. Tentou voltar ao chalé, mas desistiu.
“Oh, Jack!”, disse ela. “Resolvi fazer uma visitinha a nossos vizinhos, para ver se precisavam de alguma coisa. Por que me olha assim? Está zangado comigo?”
“Estou”, respondi. “Foi esse o lugar onde esteve ontem à noite?”
“O que você quer dizer?”
“Você veio aqui, estou certo disso. Que pessoas são essas que você visita às três da madrugada?”
“Nunca estive aqui antes.”
“Effie, como tem coragem de negar o que é uma clara mentira?!”, gritei. “Até sua voz muda quando você mente. Vamos entrar agora mesmo e resolver esse mistério.”
“Não, Jack!”, pediu Effie, com os olhos cheios de lágrimas.
“Imploro que não faça isso, Jack. Prometo que não voltarei mais aqui. Juro que um dia lhe direi tudo. Confie em mim só
desta vez; nunca terá motivos para se arrepender. Se você forçar a entrada nesse chalé, estará tudo acabado entre nós.”
Effie pegou em meu braço e aceitei acompanhá-la, mas ia arrasado, sem saber o que pensar. E, ao olhar para trás, vi na janela do chalé aquele mesmo rosto medonho, brilhante, fantasmagórico.
O Sr. Munro tinha uma expressão terrível no olhar, como se a visão ainda o perturbasse. Holmes ofereceu ao nosso visitante uma bebida e um charuto, mas o desamparado narrador preferiu prosseguir no seu relato, falando com mais pressa e nervosismo.
– Sr. Holmes, fiquei os dois dias seguintes em casa e Effie não traiu sua promessa. No terceiro dia, porém, tive a certeza de que ela havia retornado ao chalé.
Meus negócios me levaram à cidade naquele dia, mas voltei no trem das 2h40, em vez de no das 3h36, como de costume.
Ao entrar em casa, a criada correu para o hall, assustada.
“Onde está a patroa?”, perguntei.
“Acho que foi dar um passeio”, respondeu ela.
Meu coração encheu-se de suspeitas. Subi a escada, para confirmar se Effie estava em casa, e pela janela pude ver a criada correndo pelo campo em direção ao chalé. Imaginei que minha esposa pedira para a empregada avisá-la de meu retorno.
Jurei descobrir o segredo e saí disparado até o chalé. Nem bati à porta, entrei direto na casa. Não havia ninguém. Encontrei
um gato dormindo no sofá, móveis simples pelas salas. Subi ao quarto onde tinha visto a criatura de rosto amarelo e parei diante da cômoda, sem fôlego: sobre ela, estava uma foto de Effie, que eu mandara ampliar havia uns três meses.
Por quanto tempo, senhores, fiquei ali naquele quarto vazio, perdido em ideias sombrias, olhando o retrato de minha esposa? Por longos minutos… e, quando voltei para casa, Effie me esperava no hall.
“Jack”, disse ela, “sei que prometi não voltar ao chalé e quebrei a promessa. Mas, se você soubesse das circunstâncias, sem dúvida alguma me perdoaria.”
“Então me conte”, eu falei.
“Não posso, Jack!”, ela gritou.
“Enquanto você não me disser quem mora nesse chalé e por que a sua foto está lá, não pode existir a menor confiança entre nós”, eu lhe disse, saindo de casa.
Isso aconteceu ontem, Sr. Holmes, e não a vi mais, nem sei o que pode ter havido. Dormi numa estalagem e hoje de manhã tive a ideia de procurá-lo, para me ajudar a desvendar esse mistério. É por isso que estou aqui, senhores, e me coloco em suas mãos.
Holmes e eu ouvimos a extraordinária narrativa do homem, feita aos trancos, revelando sua profunda emoção. Silêncio pesado na sala da rua Baker. Meu amigo fixava o olhar agudo no rosto do Sr. Munro. Afinal, o detetive perguntou:
– O senhor tem certeza de que o rosto na janela era de um homem?
– Não, Sr. Holmes. Sempre o vi a distância e ele me pareceu irreal, com feição indefinida.
Nova pergunta:
– Há quanto tempo a sua senhora lhe pediu as cem libras?
– Cerca de dois meses.
– Já viu o retrato de seu primeiro marido?
– Não. Houve um grande incêndio em Atlanta depois de sua morte, e os papéis dele foram todos destruídos.
– No entanto, o senhor viu a certidão de óbito.
– Sim.
– Já encontrou alguém que conhecesse sua esposa na América?
– Nunca.
– Ela algum dia falou que gostaria de voltar para Atlanta?
Recebe cartas de lá?
– Também não, Sr. Holmes. Nunca revelou saudades da terra onde morreu o marido nem recebe cartas, que eu saiba.
– Pois bem – concluiu meu amigo, erguendo-se como se encerrasse o caso por aquele momento. – Preciso pensar um pouco mais. Se os moradores retornarem ao chalé, não force sua entrada na casa. Mande-me imediatamente um telegrama; pegarei o trem para Norbury, e creio que resolveremos tudo.
Dizendo isso, Holmes despediu-se do desventurado Sr. Grant Munro.
– O que você acha, Watson? – perguntou meu amigo quando ficamos a sós.
– Acho que tudo isso cheira mal – falei com franqueza.
– Sim. Acredito que há uma chantagem nessa história.
– E quem seria o chantagista? – perguntei.
– Deve ser esse indivíduo que mora no chalé e tem a foto da esposa de Munro.
– Tem alguma hipótese, Holmes?
– Sim. Não ficaria surpreso se o primeiro marido estivesse no chalé.
– Por que pensa assim?
Então tive o prazer de acompanhar a atitude tão arrogante como atraente na natureza dedutiva de meu amigo Sherlock: ele vagarosamente acendeu o cachimbo e, enquanto a fumaça fazia volteios no ar, foi desfilando sua coleção de hipóteses.
– Elementar, meu caro Watson: essa mulher se casou na
América. Seu esposo deve ter contraído uma doença terrível; ficou leproso ou imbecil, por exemplo. Ela fugiu e voltou para a Inglaterra, mudou de nome e começou nova vida.
Casada havia três anos, sentia-se segura. Afinal, havia mostrado ao atual marido uma certidão de óbito de algum infeliz qualquer e levava uma vida tranquila. Repentinamente, foi descoberta pelo primeiro marido, ou, podemos supor, por uma mulher imoral, que se ligou ao inválido e tramou uma chantagem. Escreveram à esposa ameaçando denunciá-
-la. Para acalmar os ânimos, a Sra. Munro enviou as cem libras aos chantagistas. Mas eles acharam pouco e quiseram dar o golpe mais de perto. Quando o Sr. Munro falou à esposa que o chalé estava ocupado, ela imaginou que ali estavam seus perseguidores.
Foi ao chalé de madrugada, para convencê-los a deixá-la em paz. Não teve êxito e tentou novamente no dia seguinte, sendo flagrada pelo marido. Prometeu ao Sr. Munro não retornar ao local, mas dois dias depois descumpriu a promessa, levando talvez a fotografia que eles exigiam. Informada pela criada do retorno do Sr. Munro, a esposa se desfez do ex-marido e de sua cúmplice por uma porta dos fundos, e isso explica o fato de o chalé estar desabitado. Mas, se não me engano, nosso cliente descobrirá que não ficou assim por muito tempo. O que acha da minha hipótese?
– São apenas hipóteses, Sherlock – eu respondi, não de todo convencido.
– Pelo menos explica todos os fatos. Bem, vamos almoçar.
Nada podemos fazer até nosso amigo nos avisar que os moradores voltaram ao chalé.
Não esperamos muito tempo. À hora do chá, recebemos um telegrama de Munro: “O rosto foi visto outra vez à janela. Vou esperá-los no trem das sete e nada farei antes de chegarem”.
O Sr. Munro nos esperava na estação. Reparei que seu rosto estava pálido e ele parecia muito agitado.
– Ainda está lá, Sr. Holmes. Vi luzes no chalé enquanto vinha buscá-los. Quero esclarecer tudo isso hoje mesmo.
– Tem certeza disso, amigo? – perguntou Holmes, com uma expressão de tristeza no olhar. – Mesmo com o aviso de sua esposa de que não deveria forçar uma resposta?
– Sim. Estou resolvido.
– O senhor está no seu direito. Qualquer verdade é melhor do que a dúvida eterna. Mas temo que o senhor acabe topando com um terrível engano… Mas, se é a verdade o que deseja, vamos a ela!
A noite estava muito escura e começou a chover. Seguimos em silêncio pela estrada. Além, avistavam-se as luzes da propriedade dos Munro. E logo a seguir vimos o chalé.
Uma lanterna estava acesa à frente do sobrado. A porta não estava totalmente fechada, e uma janela no andar de cima estava bastante iluminada.
– Lá está a criatura! – gritou o Sr. Munro, apontando para a janela. – Sigam-me, senhores, e sejam minhas testemunhas. Mal nos aproximamos da porta, uma mulher saiu da sombra e parou no hall de entrada. Ela estendeu os braços para a frente, num gesto de piedade.
– Pelo amor de Deus, Jack, não entre! Eu pressentia que você viria aqui nesta noite. Pense melhor, querido! Confie em mim e não se arrependerá.
– Já confiei muito, Effie! – gritou ele. – Vamos acabar com essa farsa! Sigam-me!
A empregada surgiu na sala, tentando barrar o caminho, mas foi empurrada pelo alucinado Sr. Munro. Logo, todos subíamos apressados a escada e invadíamos um quarto bem arrumado.
No canto, inclinado sobre uma carteira, estava um vulto que parecia de uma menina. Ela virou o rosto quando entramos, e não segurei um grito de surpresa e horror. O rosto que se voltou para nós era de uma cor lívida e estranha, os traços vazios de expressão. Um instante depois, o mistério estava explicado. Holmes, com uma risada, passou a mão atrás da orelha da criança e retirou uma máscara de seu rosto, apresentando-nos uma menina preta como carvão, com dentes brancos a cintilar, divertida com nosso espanto.
Meu alívio diante daquilo que parecia uma brincadeira exótica me fez sorrir. Munro, porém, ficou imóvel, apertando a garganta com a mão.
– Meu Deus! – gritou ele. – O que significa isso?
– Eu lhe direi o que significa – disse a senhora, entrando no quarto com uma determinação orgulhosa que não possuía à porta do chalé. – Você me forçou a dizer a verdade contra minha decisão. Agora precisamos fazer o melhor possível. Esta é minha filha.
– Sua filha?! – exclamou o marido.
– Sim. Meu marido morreu em Atlanta, mas minha filha sobreviveu.
A mulher tirou do peito um medalhão e o abriu.
– Você nunca o viu aberto, Jack. Aqui está a foto de meu primeiro marido.
Vimos o retrato de um homem de aparência elegante e inteligente, com inconfundíveis traços afro-americanos.
– Este é John Hebron – disse ela. – Homem de sua nobreza jamais existiu sobre a Terra. Nunca me arrependi de casar com ele. Só que, como acontece às vezes em tais casamentos, Lucy saiu mais negra que o pai. Porém, negra ou branca, é minha filhinha querida, o meu tesouro.
Ao ouvir essas doces palavras, a menininha correu e se aninhou no colo da mãe.
Beijando os cabelos encarapinhados da filha, Effie continuou a nos contar:
– Deixei Lucy na América porque sua saúde era muito fraca e uma mudança poderia ser fatal. Ficou aos cuidados de uma fiel empregada escocesa, esta que mora aqui no chalé agora.
Nunca pensei em repudiar minha filha, Jack. Mas quando o destino o colocou no meu caminho e percebi quanto o amava, tive medo de lhe contar sobre a minha filha. Deus me perdoe, mas tive medo de perder você e me faltou coragem para lhe contar tudo. Tive de escolher entre você e ela e, na minha fraqueza, abandonei minha filhinha.
Durante três anos escondi Lucy de você, Jack. Mesmo a distância, porém, acompanhei a vida de minha filha, porque a criada me enviava cartas para uma caixa postal. Oh, Jack! As
saudades de minha filha foram-se tornando insuportáveis. Apesar de conhecer o perigo, acreditei que poderia trazer Lucy para a Inglaterra por algumas semanas. Sua saúde estava boa e ela suportaria a viagem. Por isso pedi as cem libras, Jack, para enviá-las à governanta. Na carta, também expliquei sobre este chalé. Se elas aparecessem como vizinhas, poderia encontrar minha filha sem que você desconfiasse. Fui tão precavida que inventei a ideia da máscara, para evitar que algum mexeriqueiro visse o rosto de Lucy e comentasse por aí. Mas, para minha infelicidade, foi você quem a descobriu primeiro.
Effie parou um instante de falar e seus olhos encheram-se de lágrimas. Apertou com mais força a cabeça da filha em seu colo, e continuou:
– Naquela noite em que você comentou sobre o chalé ocupado, meu coração de mãe falou mais alto. Não aguentei esperar até o dia seguinte para rever minha menina e, sabendo de seu sono profundo, arrisquei-me a visitá-la. Infelizmente, você acordou e desconfiou do meu segredo. Não tive coragem de lhe dizer a verdade e, quando você invadiu o chalé, mal tive tempo de tirar Lucy e a empregada por uma saída nos fundos. E agora, nesta noite, você sabe de tudo, e pergunto o que vai ser de nós, de mim e de minha filha.
A mulher colocou a menina diante de todos. Ambas esperaram, sem modificar a expressão altiva, pela resposta do Sr. Munro.
Passaram-se dois longos minutos antes de Grant Munro quebrar o silêncio. Ah, mas a sua resposta foi daquelas de que jamais me esquecerei! O homem pegou a menininha no colo, beijou-a e, ainda carregando-a, estendeu a mão à esposa, dirigindo-se para a porta.
– Podemos conversar sobre isso com mais conforto em nosso lar – disse ele. – Não sou um homem muito bom, Effie, mas penso que sou melhor do que você imaginava que eu fosse.
Holmes e eu os acompanhamos até a porta. Quando a família seguiu pela estrada, meu amigo me puxou pelo braço, murmurando:
– Creio que somos mais úteis em Londres do que aqui em Norbury.
Durante a viagem de trem até a capital, Sherlock não disse uma única palavra sobre o caso. Só bem tarde da noite, já na sala da rua Baker, Holmes se atreveu a fazer uma confidência:
– Watson, se alguma vez você me vir muito confiante em minhas hipóteses, ou se eu mostrar menos atenção a um caso do que ele merece, tenha a bondade de dizer em meus ouvidos a palavra “Norbury”. Ficarei infinitamente agradecido.
Sherlock Holmes foi para seu quarto, e confesso minha alegria em saber que meu amigo havia errado tão flagrantemente em suas deduções.
A realidade nos apontou um desfecho muito mais comovente e expressivo do que a hipótese da chantagem vulgar.
Quatro contos em que Sherlock Holmes, um dos mais famosos detetives da literatura, demonstra seus métodos. Em “A face amarela”, um homem tem dúvidas sobre o comportamento de sua esposa. “O ritual Musgrave” envolve um mapa do tesouro e estranhos desaparecimentos.
“A Liga dos Cabeças-Vermelhas” trata de uma curiosa organização, que contratava apenas homens ruivos. E “O Diamante Azul” começa com um ganso roubado...
São histórias traduzidas e adaptadas por Marcia Kupstas, autora especialista em obras infantojuvenis, com linguagem que permite ao jovem leitor de hoje acompanhar o método de Holmes e desenvolver o fascínio por esse personagem extraordinário.