tradução
MARINA COLASANTI
ilustrações PEDRO CORREA

![]()
tradução
MARINA COLASANTI
ilustrações PEDRO CORREA


tradução
MARINA COLASANTI
ilustrações
PEDRO CORREA
1ª edição
Curitiba — 2022
Copyright © Marina Colasanti, 2022
Todos os direitos reservados à
EDITORA UNIVERSITÁRIA CHAMPAGNAT
Rua Imaculada Conceição, 1155 — Prédio da Administração — 6o andar Campus Curitiba — CEP: 80215-901 — Curitiba — PR
Tel. (0-XX-41) 3271-1701
Editora assistente Camila Saraiva
Revisoras Lívia Perran e Marina Nogueira
Tradução de Animal Farm, George Orwell, Penguin Classics, 2008, ISBN 978-0141-0361-37.
GEORGE ORWELL nasceu em Motihari, no norte da Índia, em 25 de junho de 1903 e faleceu em 21 de janeiro de 1950, em Camden, Londres. Filho de funcionário da administração britânica do comércio na Ásia, foi jornalista, ensaísta político e escritor de romances, entre eles A revolução dos bichos (1945) e 1984 (1949).
MARINA COLASANTI nasceu em Asmara, na Eritreia, em 26 de setembro de 1937. É artista plástica, jornalista, contista e escritora com mais de 80 livros publicados e premiados, entre eles Breve história de um pequeno amor (FTD, 2013) e Um amigo para sempre (FTD, 2017).
Dados da Catalogação na Publicação
Pontifícia Universidade Católica do Paraná
Sistema Integrado de Bibliotecas – SIBI/PUCPR
Biblioteca Central
Luci Eduarda Wielganczuk – CRB 9/1118
Orwell, George, 1903-1950
O79r A revolução dos bichos / George Orwell; tradução de Marina Colasanti; 2022 ilustrações de Pedro Correa. – 1. ed. – Curitiba, PR: Champagnat, 2022. 160 p.
Título original: Animal Farm
ISBN: 978-65-89590-18-7 (Livro do Estudante Impresso)
ISBN 978-0141-0361-37 (Ed. Original)
1. Ficção inglesa. I. Colasanti, Marina. II. Correa, Pedro. III. Título.
22-132
CDD 20. ed. – 823
Por Heloisa Jahn
Oclássico é um texto que deu um salto. O autor — romancista, contista, poeta, fabulador, cientista, filósofo… — se senta para escrever uma coisa que lhe vai pela cabeça — uma ideia, um projeto, uma inspiração — e escreve, sem que saiba como, sem que tenha planejado (porque é impossível alguém planejar que vai escrever um clássico), escreve um clássico! Um livro que diz mais ao leitor do que o autor pensou que ia dizer. Que talvez diga coisas que o autor nem tenha percebido que disse. Um livro que o leitor tem vontade de ler e reler ao longo da vida e que lhe parece, a cada leitura, ao mesmo tempo novo — porque abre novos caminhos de entendimento, de conhecimento ou de prazer — e conhecido — porque reitera coisas que passaram a fazer parte da constituição mental, da estrutura psicológica e do jeito de estar no mundo do leitor.
E por que o leitor volta aos clássicos? A chave está justamente no fato de que aquela obra — com aquelas palavras, aquele clima, aquelas ideias — passou a fazer parte da estrutura de pensamento do leitor. Ela o acompanhará em suas experiências de vida para dar nitidez ao conteúdo de suas alegrias e sofrimentos, de seus medos,
interrogações e descobertas. Apesar de conhecido, o clássico não cansa, ele tonifica. Não é como uma história que perde a graça porque sabemos como acaba: sua graça está justamente no fato de ser conhecido e infinitamente novo — como a natureza e um mergulho no mar.
O clássico. Um autor e um leitor. Um leitor que se apossa do que o autor escreveu e o torna seu para sempre: torna-o massa do seu ser. Um clássico é ao mesmo tempo rede e barco. Rede que embala, reassegura e encorpa, pela reflexão sossegada, o pensamento. Barco que se afasta na direção do horizonte e leva para outros mundos.
O clássico não tem idade. A Ilíada , do poeta grego Homero, por exemplo, nasceu no século VIII a.C., na Jônia. As Histórias , do historiador e geógrafo grego Heródoto, foram escritas entre 440 e 430 a.C., marcando o nascimento da história como campo do conhecimento. Os elementos, do matemático grego Euclides, foi escrito por volta de 300 a.C. Os contos árabes reunidos em As mil e uma noites começaram a ser compilados no século IX (quem nunca ouviu falar de Sherazade?!). Os contos reunidos no Decameron, do poeta italiano Giovanni Boccaccio, foram escritos entre 1348 e 1353, durante a peste negra que dizimou milhares de pessoas e mudou as convicções morais do Ocidente. Os Lusíadas, do português Luís de Camões, saiu em 1572, e Dom Quixote , do espanhol Miguel de Cervantes, em 1605. O inesquecível Moby Dick , ou romance da baleia-branca, do norte-americano Herman Melville, em 1851. Logo depois, em 1856, foi publicado Madame Bovary, do francês Gustave Flaubert, que ofendeu a moral e a religião ao desvendar aspectos do comportamento social que a sociedade se esforçava por não ver — e mudou a visão dessa sociedade. A origem das espécies , escrito pelo naturalista britânico Charles Darwin, saiu em 1859 e mudou a concepção de como os seres vivos se modificavam ao longo do
tempo. A interpretação dos sonhos , do médico vienense Sigmund Freud, publicado em 1899, mudou o mundo ao iluminar o universo interior das pessoas. A metamorfose, publicado em 1915, assim como outros romances de Franz Kafka, retratou situações que aprisionam as pessoas sem que elas consigam entender o sentido do que lhes acontece. No Brasil, Dom Casmurro , de Machado de Assis, publicado em 1899, e o poema “No meio do caminho”, de Carlos Drummond de Andrade, de 1928, também estão entre os exemplos de textos clássicos.
O clássico não tem gênero nem estilo: poesia, drama, ciência, teatro, campos variados do conhecimento — todos têm seus clássicos. Se fosse possível reuni-los num painel, num afresco, formariam um retrato maravilhoso do engenho e da arte humanos. Talvez de um bicho estranho chamado alma humana.
E seu leitor não tem idade: há clássicos para todas as idades, para serem lidos em todas as idades. As aventuras de Tom Sawyer, do norte-americano Mark Twain, por exemplo, publicado em 1876, com o regime escravista em pleno vigor e cujos temas centrais são o racismo e a violência, foi classificado como “literatura infantil” e tem sido lido e analisado há mais de um século por estudiosos da literatura.
E que idade têm os leitores das sagas nórdicas, escritas quase sempre na Islândia, em língua nórdica antiga, nos séculos XIII e XIV? São histórias para crianças e para adultos, contadas ao pé do fogo no clima gelado da Escandinávia medieval, e inspiração para inúmeras outras obras em diferentes épocas e estilos — inclusive para composições musicais, como as óperas épicas de O Anel do Nibelungo , do maestro alemão Richard Wagner, um dos introdutores da música moderna, e ainda para o personagem Thor, dos quadrinhos da Marvel, “nascido” em 1962 a partir do deus Thor dos trovões e das batalhas, um dos personagens principais das
sagas nórdicas. Outro personagem dos quadrinhos que incorpora várias mitologias é o poético Sandman, criação do britânico Neil Gaiman publicada a partir de 1988. No Brasil, as histórias do Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato, publicadas na década de 1930, povoam a infância e a memória dos brasileiros de todas as idades e continuam cutucando a imaginação dos leitores.
Os clássicos são assim férteis porque condensam uma quantidade muito grande de conhecimento, experiência e magia: são uma espécie de reservatório do humano, e por isso inspiram tantas outras obras e servem de ponto de partida para reflexões de muitos tipos. Eles contêm protótipos que podem ser desenvolvidos de infinitas maneiras, com as mais variadas ferramentas.
Ler pela primeira vez um clássico é descobrir um mundo: aquele que está ali e que prontamente passa a fazer parte de nós. Reler um clássico é constatar como o pensamento e a percepção se transformam infinitamente, pois o clássico é infinitamente novo.
Eric Arthur Blair nasceu em 25 de junho de 1903, em Motihari, Índia. Seu pai, Richard Walmesley Blair, era funcionário do Departamento de Ópio do Serviço Civil Indiano, uma agência do governo
britânico que administrava os serviços públicos da colônia.

Richard fazia parte do grupo de britânicos que deixaram a terra natal para trabalhar na Índia colonizada. Da mesma forma que sua esposa, Ida Mabel Limouzin-Blair, com quem se casou em 1897. Tiveram juntos
três filhos: Marjorie Frances Blair, a mais velha; Eric Arthur Blair, o do meio; e Avril Nora Blair, a caçula. Quando Eric tinha apenas 1 ano de idade, em 1904, a mãe voltou para a Inglaterra com os dois filhos, a fim de dar-lhes uma educação melhor. Estabeleceram-se em Henley-on-Thames, uma cidadezinha à beira do rio Tâmisa, ao sul de Oxfordshire. O pai continuou na Índia até sua aposentadoria, em 1911. Entre 1904 e 1911, viu a família apenas uma única vez, tendo sido uma figura ausente na criação dos filhos.
Aos 8 anos de idade, Eric foi enviado para a St. Cyprian’s School, em Eastbourne, uma conceituada
O escritor George Orwell, em 1943.
crédito: branch of the national union of journalists/wikimedia commons
escola preparatória para admissão nas concorridas escolas públicas da Inglaterra e do País de Gales. O ambiente opressor e esnobe do colégio deixou marcas profundas na personalidade de Eric. Foi ali que nasceu o sentimento de revolta contra sistemas autoritários que o acompanharia pelo resto da vida.
Da escola preparatória, Eric conseguiu uma bolsa para a prestigiada Eton College, um internato particular para rapazes da elite. Seu desempenho acadêmico, no entanto, entrou em declínio, por negligência. Como suas notas não eram suficientes para manter uma bolsa e os pais não tinham dinheiro para bancar o ensino superior, frequentar a faculdade ficou fora de cogitação.
Aos 19 anos de idade, Eric decide então se alistar na Polícia Imperial Indiana, na Birmânia (atual Mianmar), onde trabalhou durante cinco anos como policial e guarda carcerário. A experiência de atuar como repressor, praticando inclusive a tortura, foi definitiva para intensificar em Eric sua repulsa ao imperialismo e a todas as formas de opressão.
Do testemunho de uma execução na Birmânia, nasceria um de seus ensaios mais famosos, “Um enforcamento” (1931). Os anos de trabalho na polícia também renderiam, mais tarde, o romance Dias na Birmânia (1934).
Em 1927, abandona a polícia para viver como escritor. Muda-se para Londres e vai viver entre os pobres e desvalidos nas favelas da cidade, chegando a passar necessidade. Um ano depois muda-se para Paris, em busca de um estilo de vida mais barato e boêmio. Escreve muito nessa época e começa a colaborar com a imprensa. Esse período é retratado em Na pior em Paris e Londres (1933), obra que assina pela primeira vez como George Orwell, pseudônimo que o consagraria.
Em 1936, casa-se com Eileen O’Shaughnessy. Praticamente uma semana depois eclode a Guerra Civil Espanhola (19361939) e o casal decide ir até a Espanha para ajudar no combate aos fascistas. Orwell adere ao Partido Operário de Unificação Marxista (POUM), um grupo armado de orientação socialista trotskista. Em uma batalha em Huesca, em 1937, é atingido por uma bala que lhe atravessa a garganta. Enquanto se recupera, vê os stalinistas perseguirem não apenas os fascistas, mas também seus companheiros trotskistas. Ele e Eileen conseguem fugir ilesos para a Inglaterra. Depois do que viu na Espanha, Orwell, que já não simpatizava com a figura e o discurso de Josef Stálin (1878-1953), consolida sua posição antistalinista. Para o autor, um socialista declarado, o stalinismo significava um desvio do socialismo para o totalitarismo.
A experiência o inspira a escrever uma história de fácil compreensão que denuncia o regime totalitário soviético. Em 1943, a ideia se materializa na fábula A revolução
dos bichos
(Animal Farm no título original em inglês), que seria publicada em 1945, mesmo ano em que perderia sua esposa. Com a saúde debilitada pela tuberculose, doença diagnosticada em 1938, Orwell se retira com o filho de 3 anos para uma ilha isolada na Escócia, em 1946. Ali escreve 1984, sua grande obra, seu ataque mais agudo ao totalitarismo, publicada em 1949. Poucos meses depois, em decorrência da tuberculose, Orwell faleceria, em 21 de janeiro de 1950, aos 46 anos de idade, em Londres.
George Orwell é um desses autores que conseguem criar metáforas, alegorias e analogias tão potentes para descrever nosso mundo que seu nome acabou virando adjetivo. Frases como “Todos os bichos são iguais, mas alguns bichos são mais iguais que os outros” e termos como “Big Brother” já estão tão incorporados em nosso imaginário que os reproduzimos sem nos darmos conta de suas origens. Assim como kafkiano nos remete a uma realidade absurda e claustrofóbica, orwelliano nos faz pensar em um estado totalitário e vigilante. Orwell foi
capaz de prever um sistema de aparelhos televisivos que serviam tanto para transmitir informações quanto para espionar seus usuários.
Algo muito semelhante com o que acontece hoje com nossos smartphones e extrapola muito as funcionalidades da TV, que, no tempo de vida do autor, ainda era uma tecnologia rudimentar e para poucos. Para não falar nas previsões dos usos da língua como forma de dominação, na proliferação de mentiras como tática de obliteração dos fatos, entre muitos outros elementos. As semelhanças entre as imagens distópicas orwellianas e a realidade contemporânea são assombrosas.
Não se sabe ao certo o que teria despertado no jovem Eric Blair a vontade de se juntar à Polícia Imperial Indiana aos 19 anos de idade. Sabe-se apenas do despertar de uma certa fantasia com o Oriente.
Em 1922, Eric desembarca na Birmânia, onde nascera e onde a avó ainda morava, para atuar por cinco anos como membro da polícia colonial. Ali teve a experiência do opressor. Trabalhou como guarda de prisões, exercendo a força contra um povo colonizado.
Não se pode dizer que esta tenha sido sua primeira experiência de desgosto com o aparato opressivo. Os anos no internato foram terríveis para ele. Mas na Birmânia, depois de testemunhar uma execução, a revolta contra a violência do Estado sobre um cidadão se firmou.
Em 1936, poucos meses depois de ter eclodido a Guerra Civil
Espanhola, juntou-se à milícia trotskista para combater os fascistas. No conflito, viu seus companheiros serem perseguidos também pelos stalinistas. De volta à Inglaterra, no início da guerra contra a Alemanha, alistou-se no Exército para combater os nazistas, mas foi dispensado devido à fraqueza de seus pulmões.
A vida toda combateu regimes totalitários, tanto com armas quanto com ideias.
Foi opositor do imperialismo, do fascismo, do nazismo e do stalinismo. A este último, dedicou-se especialmente. Socialista declarado, Orwell considerava o stalinismo um desvio dos princípios do socialismo. A revolução dos bichos é uma sátira explícita à Revolução Russa (1917-1923).
George Orwell voltou da Guerra Civil Espanhola, em 1937, decidido a escrever um livro que desmontasse o mito soviético. Precisava ser uma história de fácil compreensão e de linguagem direta. Passou anos pensando numa trama, até que um dia, ao ver um garoto no campo chicoteando um cavalo, a ideia veio. Ocorreu-lhe que, se os animais tivessem consciência de sua força, jamais aceitariam o tratamento que recebem. Cada animal em A revolução dos bichos representa um tipo social. O cavalo Tufão é o trabalhador parrudo, disciplinado e obediente. As ovelhas são a massa de manobra, repetem acriticamente o que lhes é ditado e abafam as vozes dos outros bichos. Os cachorros são a guarda violenta do regime autoritário. Os porcos são os líderes da revolução que depois se convertem em ditadores. Além de representarem arquétipos, fazem referência direta a personagens históricos. O porco Major seria Marx; o porco Napoleão, o ditador, Stálin; Bola de Neve, o porco líder expulso, Trótski.
Cada animal em
A revolução dos bichos representa um tipo social.
A maior parte da produção literária de George Orwell se deu entre as décadas de 1930 e 1940, período marcado pela ascensão do fascismo e do stalinismo, que culminou na Segunda Guerra Mundial (19391945). No campo da historiografia literária, podemos falar no predomínio do Modernismo, movimento que, em linhas gerais, questionava o Positivismo Realista e buscava uma aproximação maior com experiências mais subjetivas.
Todavia, quando analisamos de perto a literatura desse período, vemos o quanto ela é rica e variada.
Orwell nunca se considerou um bom ficcionista. Seus
primeiros escritos foram ensaios e reportagens, gêneros que, para muitos críticos, eram sua especialidade. Mas, ao fundir a realidade política com a fábula, criando universos distópicos, o autor inaugurou um caminho próprio que o consagraria mundialmente.
Quando falamos em distopias, universos que são o contrário do mundo idealizado das utopias, marcados por regimes totalitários opressivos, o nome de Orwell é um dos primeiros que nos vêm à memória. Ao mesmo tempo, ele era um grande fã de Ulisses, de James Joyce (1882-1941), uma das obras mais complexas da literatura, marcada pelo mergulho profundo na psicologia dos personagens, ícone do Modernismo.
Todos os bichos são iguais, mas alguns bichos são mais iguais que os outros.”

O Modernismo surge como uma resposta do século XX ao modo de vida do século anterior. A crença na razão humana fora fortemente abalada pela Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e pelas ideias a respeito do inconsciente promovidas por Sigmund Freud (1856-1939). A urbanização, os horrores da guerra de trincheiras e a industrialização avançada tornam obsoletas as narrativas do progresso e do sujeito racional. A literatura modernista procura expressar a complexidade desse novo mundo através de uma linguagem não linear e que se aproxima ao máximo do fluxo de consciência de seus personagens. Uma das obras mais emblemáticas do Modernismo é
“Sabemos que ninguém jamais toma o poder com a intenção de largá-lo.”
George Orwell.
crédito: gdj/pixabay.com
Ulisses, de James Joyce, que narra, com uma linguagem fragmentada e densa, um dia na vida de três personagens.

Comemoração do Dia da Bastilha nas ruas, no dia 14 de julho de 1912, em Paris.
crédito: biblioteca nacional da frança/wikimedia commons
James Joyce nasceu em 2 de fevereiro de 1882, em Terenure, nos arredores de Dublin, Irlanda. Estudou Línguas Modernas na University College Dublin, onde se envolveu com o meio literário e teatral. Passou a maior parte da vida adulta vagando por diferentes países da Europa, mas seus pensamentos nunca abandonaram a terra natal. Joyce escreveu poemas, contos e romances e obteve reconhecimento em todos os gêneros, embora se considerasse um poeta frustrado. Ulisses, sua obra mais famosa, é uma transposição da Odisseia de Homero à Dublin de sua época. Considerado um dos maiores romances da história da literatura, é um marco do Modernismo. Suas inovações linguísticas e sua densidade psicológica influenciaram autores no mundo todo, como Orwell, que chegou a
dizer que Joyce o interessava tanto que ele era incapaz de parar de falar sobre
o autor quando começava.
James Joyce morreu em 13 de janeiro de 1941, em Zurique, Suíça.
Rudyard Kipling foi um jornalista, poeta e prosador inglês nascido em 30 de dezembro de 1865, em Bombaim, Índia. Foi um dos autores mais populares no Reino Unido entre o final do século XIX e início do XX, sendo especialmente reconhecido por seus livros infantis, como O livro da selva, que narra as aventuras do menino Mogli. Foi o primeiro escritor de língua inglesa a ser premiado com o Nobel de Literatura, em 1907. Apesar de reconhecido, havia muita controvérsia sobre sua obra devido às posições políticas conservadoras. Orwell mantinha uma atitude

O escritor anglo-indiano Rudyard Kipling, em retrato de 1914. crédito: wikimedia commons
bastante crítica em relação à orientação ideológica de Kipling, mas admirava sua escrita. Para Orwell, Kipling foi “o único escritor inglês de sua época que acrescentou frases à língua”. Kipling morreu em 18 de janeiro de 1936, em Londres.

Jonathan Swift nasceu em 30 de novembro de 1667, em Dublin, Irlanda. Órfão de pai aos 7 meses, foi entregue pela mãe para ser criado pelo tio, que financiou seus estudos. Enquanto cursava a universidade, teve de fugir para a Inglaterra devido a conflitos na Irlanda. Envolveu-se ativamente na política inglesa, tendo atuado pelos dois partidos que existiam na época. Nesse período, começou a destacar-se pela escrita de panfletos políticos. Foi também poeta e prosador prolífico, tendo se destacado, especialmente, pelas suas ácidas sátiras. A mais conhecida delas, As viagens de Gulliver (1726), fez bastante sucesso em seu tempo e ainda hoje é influente. É o livro favorito de Orwell, que tem em Swift uma de suas maiores referências, apesar das divergências políticas. Jonathan Swift morreu em 19 de outubro de 1745, em Dublin.
Retrato de Jonathan Swift por Charles Jervas. crédito: national portrait gallery/ wikimedia commons
Não demorou muito para que surgisse a primeira adaptação da fábula de Orwell para as telas. Em 1954, a produtora britânica Halas and Batchelor fez sua versão animada do clássico. Uma equipe de 80 animadores trabalhou no filme e um único dublador fez a voz de todos os animais. Em 1999, outra adaptação, com atores e animais de verdade, foi feita para a TV britânica. A produção dividiu opiniões por fazer algumas mudanças significativas na trama. Em 2018, uma produtora de filmes e séries em streaming anunciou que estava trabalhando numa versão da obra dirigida pelo ator Andy Serkis, especialista em motion capture. A técnica permite transformar a performance de atores em animações muito mais realistas.
Uma equipe de 80 animadores trabalhou no filme e um único dublador fez a voz de todos os animais.

Bandeira da União Soviética pintada em um muro.
crédito: thedigitalartist / pixabay.com
A crítica à Revolução Russa e, em especial, ao stalinismo fez com que A revolução dos bichos fosse rapidamente apropriada pelos Estados Unidos e seus aliados no contexto da Guerra Fria. Em sua campanha contra o comunismo, os norte-americanos financiaram edições do livro e até a produção da primeira adaptação cinematográfica, de 1954.

Bandeira americana. crédito: thedigitalartist / pixabay.com
No Brasil, a primeira tradução da obra contou com o subsídio da United States Information Agency (USIA). A agência da diplomacia norte-americana cedia os direitos autorais e de tradução de obras com teor anticomunista para os então chamados “países de terceiro mundo”.
O responsável por verter o clássico para o português foi
Heitor Aquino Ferreira, tenente do Exército, membro do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), que tinha um departamento dedicado à produção clandestina de publicações anticomunistas.
Algumas escolhas da tradução deixam bem claro seu viés ideológico. A começar pelo título. A tradução literal do inglês, Animal Farm: A Fairy Story, seria Fazenda dos animais: Um conto de fadas. A escolha da palavra “revolução” dá mais ênfase à questão comunista do que existia no original. O uso de “bicho” no lugar de “animal” também foi deliberado, pois fazia uma alusão à gíria utilizada pelos estudantes para se referirem uns aos outros. Também optou-se por traduzir rebellion, cujo termo equivalente em português seria “rebelião”, por “revolução” em diversas passagens do texto. Além disso, a patente do tradutor, o subsídio da USIA e a participação do IPES foram omitidos dos créditos da publicação.
Apesar de seu caráter anticomunista, A revolução dos bichos também foi reivindicada pela esquerda. O próprio Orwell se declarava um socialista democrático. Por ser uma alegoria, a história pode sempre ser lida como uma crítica às dinâmicas do poder e contra qualquer tipo de dominação.
Por ser uma alegoria, a história pode sempre ser lida como uma crítica às dinâmicas do poder e contra qualquer tipo de dominação.
Nasce no dia 25 de junho Eric Arthur Blair, em Motihari, cidade da Índia Britânica, situada na margem de um lago, no estado de Bihar, entre Patna e Katmandu. Seu pai, Richard Walmesley Blair, é funcionário do Departamento de Ópio do Serviço Civil Indiano, agência do governo britânico responsável pelo serviço público na colônia.
Com 1 ano de idade, é levado pela mãe, Ida Mabel Limouzin-Blair, para a Inglaterra, onde será educado na pequena cidade de Henley-on-Thames, num ambiente de classe média alta.
É enviado pela família, aos 8 anos de idade, para estudar na St. Cyprian’s School, em Eastbourne, uma conceituada escola preparatória para admissão nas concorridas escolas públicas da Inglaterra e do País de Gales. O ambiente esnobe e autoritário do colégio deixará marcas na personalidade de Blair, que, mais tarde, se revoltará contra a ideologia e os privilégios das classes dominantes.
Torna-se bolsista na escola de Eton, onde ficará até 1921, tendo como professor de francês, por um breve período, Aldous Huxley. A não obtenção de boas notas fará com que sua admissão numa faculdade se torne ainda mais difícil, já que seus pais não têm dinheiro suficiente para bancá-lo no ensino superior. Então Blair começa a fantasiar com uma vida no Oriente.
Chega à Birmânia para trabalhar na Polícia Imperial Indiana. Blair tem família na região: a avó mora em Moulmein.
Depois do treinamento para tornar-se policial, em Mandalay, é enviado para o posto da fronteira de Myaungmya, no Delta do Irrawaddy. Durante esse período, vai crescendo na carreira e se transfere para diferentes lugares, sendo responsável pela segurança em prisões.
Em setembro, vai para Insein, onde se localiza a segunda maior prisão da Birmânia. Nas prisões do país, ele atuará como torturador, repressor e executor do povo colonizado, como um braço do Estado colonizador. Essa experiência será definidora para a formação de seu caráter anti-imperialista.
1927
É transferido para Katha, contrai dengue e decide antecipar sua licença de retorno para a Inglaterra. Durante o recesso, acaba decidindo abandonar a carreira na Polícia Imperial Indiana para viver como escritor. Muda-se, então, para Londres, onde começa a viver entre os pobres da cidade, chegando a passar necessidade.
1928
Muda-se na primavera para Paris, em busca de um estilo de vida mais barato e boêmio. A capital francesa atrai muitos artistas e escritores. Nesse período, sua produção literária e jornalística é intensa, embora conclua apenas um romance, Dias na Birmânia, que será publicado seis anos depois.
1929
É acometido por uma grave pneumonia. Pouco tempo depois, todo o seu dinheiro é roubado na pensão onde mora. Trabalha como lavador de pratos num hotel de luxo em Paris.
1931
Publica o ensaio “Um enforcamento”, no qual relata uma execução que testemunhou quando trabalhava como policial na Birmânia. O episódio é um marco importante na visão de mundo do autor.
1933
Publica Na pior em Paris e Londres, um relato sobre os anos em que passou dificuldades financeiras nas capitais francesa e inglesa. É a primeira vez que assina com o pseudônimo que o consagrará, George Orwell. A mudança no nome, escreverá mais tarde, foi uma forma de se livrar do passado pequeno-burguês que ele tanto desprezava.
1934
Publica seu primeiro romance, Dias na Birmânia, uma tentativa de se livrar da culpa dos dias como policial na Birmânia. O romance é um ataque às políticas e práticas imperialistas do Reino Unido na Birmânia.
1936
Casa-se com Eileen O’Shaughnessy. Poucos dias depois do casamento, irrompe a Guerra Civil Espanhola. Orwell e a mulher decidem ir para a Espanha para lutar ao lado do Partido Operário de Unificação Marxista (POUM) contra os fascistas. Passam cerca de seis meses lutando na frente de Aragão.
1937
Em conflito contra os fascistas, em Huesca, na Espanha, Orwell é atingido por um tiro que lhe atravessa a garganta. Os comunistas stalinistas tomam o controle do governo espanhol e
passam a perseguir, além dos fascistas, os socialistas trotskistas, grupo do qual Orwell faz parte. A partir desse momento, a desconfiança que o escritor já nutria em relação aos stalinistas atinge outro patamar. Para ele, o movimento de Stálin desviou-se completamente do socialismo para o totalitarismo. A reprovação ao stalinismo o acompanhará pelo resto da vida, culminando na escrita de A revolução dos bichos. Fugindo do cerco na Espanha, Orwell e a esposa voltam para a Inglaterra.
1938
Orwell é diagnosticado com tuberculose. Seu frágil estado de saúde faz com que seja reprovado no exame clínico de admissão para o Exército, que combaterá a Alemanha nazista no ano seguinte, uma grande frustração para Orwell. Começa a elaborar uma história de fácil compreensão para desmontar o mito soviético. Publica Lutando na Espanha, sobre sua experiência na Guerra Civil Espanhola.
1943
Após observar um garoto no campo chicoteando um cavalo, encontra finalmente a ideia de que precisa para dar forma a sua fábula contra o totalitarismo soviético. Escreve A revolução dos bichos.
1944
Orwell e a esposa Eileen adotam seu único filho, Richard Blair.
1945
Em 29 de março, morre a esposa, Eileen O’Shaughnessy, na mesa de cirurgia. Em 17 de agosto, a primeira versão de A revolução dos bichos é publicada pela editora Secker and Warburg.
1946
Com a saúde debilitada, muda-se com o filho adotivo para Jura, uma ilha isolada e pouco habitada na Escócia. Começa a trabalhar no grande romance de sua vida, 1984. Seu estado de saúde continua a se deteriorar.
1949
É publicada em 8 de junho a primeira edição de 1984, pela Secker and Warburg.
1950
Morre de tuberculose em 21 de janeiro, aos 46 anos de idade.
Quando foi publicado, em 1945, A revolução dos bichos abriu uma clareira instantânea na consciência de milhares de leitores com sua inequívoca advertência de como as relações de poder afetam o nosso destino. Mas, para além dos leitores, fascinou também diferentes criadores do universo pop, como se tivesse aberto um portal entre linguagens.
Nas décadas que se seguiram ao seu lançamento, diversos artistas revisitaram o sentido de denúncia alegórica do livro de George Orwell, atualizando o debate que o autor propôs e valendo-se das formas livres e simples do teatro antropomórfico. Da música ao teatro, do cinema à TV, aquela história esquemática passou a facilitar a materialização estética de um arcabouço de artefatos com brilho de consciência social e política.
Em 1968, no clássico filme distópico Planeta dos Macacos, o orangotango congressista Dr. Zaius (Maurice Evans) pergunta ao humano cativo George Taylor (Charlton Heston): “Diga, por que todos os macacos são criados iguais?”. Com ironia, Taylor responde citando uma das frases estruturantes de A revolução dos bichos: “Alguns macacos, me parece, são mais iguais que outros”.
Também em 1968, a referencial banda inglesa The Kinks lançou o álbum The Kinks are the Village Green Preservation Society, inspirado em uma visita às origens rurais do guitarrista, vocalista e compositor Ray Davies. Entre as faixas do disco, pontificava “Animal Farm”: “Você me mantém longe dos apuros / Você mantém meus problemas longe / Você mantém o demônio longe”.
O baixista, cantor, produtor e compositor Roger Waters, do lendário grupo britânico Pink Floyd, vem se valendo dos enunciados de Orwell no arcabouço de sua obra desde 1977, quando sua célebre banda lançou o álbum Animals, cenográfica e estruturalmente baseado nas conclusões do autor inglês. Tal influência não permaneceu somente nos anos 1970; Waters trouxe seu insight aos dias de hoje, materializando no ex-presidente estadunidense Donald Trump a denúncia simbólica da indistinção ética entre homem e porco, entre porco e homem. Em seus shows, é apoteótica a figura de um porco inflável que voa nos estádios sobre a cabeça dos espectadores, com nomes de flagelos políticos e institucionais grafitados em seu dorso.
Muitos juram que Bob Dylan, lá em 1965, já tinha untado o célebre verso do clássico “Ballad of a Thin Man” (“Do you, Mr. Jones?”) em uma inspiração na leitura de Orwell — Mr. Jones, nome do fazendeiro do romance, seria seu tributo ao autor. Essa referência nunca foi confessada pelo cantor.
Em 1978, a mais politizada banda do punk rock, The Clash, também inglesa, lançou em seu segundo disco a canção “English Civil War”, declaradamente inspirada em Orwell: “Enquanto nós olhamos o discurso de um animal berrando / O novo partido das armas está marchando sobre nossas cabeças”. Grupos de grande relevo na música, como R.E.M. (na canção “Disturbance at the Heron House”) e Radiohead (na faixa “Optimistic”, do seminal disco Kid A), viveram sua rendição ao romance. Bem mais recentemente, o Coldplay, grupo mais pop, também foi seduzido pelo universo orwelliano e fez
um videoclipe da música “Trouble in Town”, no qual um alce sem-teto lê o livro do autor enquanto se aconchega na calçada junto a outros animais homeless.
Nas últimas décadas, é possível achar citações de A revolução dos bichos nos gibis de Robert Crumb — o papa dos quadrinhos underground —, como em Fritz the Cat, e de Gary Larson, em Far Side; em videogames como Nation States, Nancy Drew e Mass Effect; no desenho animado de Johnny Bravo e no canal de culinária Food Network. Sua contundência levou a diversas atualizações, como a de Art Spiegelman na graphic novel Maus, notável exame existencial do pesadelo nazista.
A explicação do fascínio deste livro parece evidente. A revolução dos bichos examina, em um texto de clareza desconcertante e aguda eficácia, o princípio de manipulação das massas, sempre aptas a bradar slogans e a aderir a causas de forma quase automática, mas não a pensar longe das fórmulas prontas dadas por seus dirigentes.
As figuras mais proeminentes do romance, cuja ambiência se dá numa fazenda bucólica, são porcos. Porcos espertos, um dos quais, Napoleão, tem tendência a ser malévolo, paranoico e com certa ânsia pelo poder. Na interpretação clássica, o substrato de tudo é a revolução russa. Napoleão é claramente inspirado em Stálin, assim como seu parceiro, Bola de Neve, seria inspirado na figura de Trótski. O ideal utópico (uma vida livre da exploração), manuseado pelo velho porco sábio Major, serve como a fagulha para a ignição da revolução coletiva.
Há também uma inspiração em A República, de Platão, e no seu insight da estrutura do Estado, de formulações de classes e hierarquias. Os porcos dão as ordens e os cães fazem o papel da milícia que serve para manter o restante sob controle — cavalos, bodes, burros, ovelhas, galinhas. Os bichos, a população, tomam do opressor, os seres humanos, o controle da fazenda. No entanto, progressivamente, o núcleo central do antigo explorado vai se transformando
no explorador humano, os fazendeiros, e os porcos passam a andar sobre duas pernas, a vestir roupas, a dormir em camas e a tomar cerveja, assumindo o papel que pertencia ao antigo déspota. Não há nenhum spoiler aqui, pode acreditar.
No subtítulo original da história, A Fairy Story, o autor escancara a sua intenção irônica. É na força da escritura, no talento narrativo que os personagens passam a ocupar planos de comparação com a vida real. A interpretação mais constante que se dá ao “conto de fadas” distópico de Orwell é que A revolução dos bichos projeta uma inevitável circularidade política nos grandes atos revolucionários que os impele, inevitavelmente, para o autoritarismo. Assim, seria um romance niilista, pessimista. Não parece adequado, entretanto, confundi-lo com uma obra antirrevolucionária: nele, não existe a famosa “ditadura do proletariado”, mas o perigo dos totalitarismos da cúpula, da representação indigna.
Trata-se de uma narrativa fundadora não apenas pela proposta de um debate sociopolítico, sempre atual, mas pelo desafio que suscita, o que alarga as fronteiras de sua contribuição para os territórios da imagem, da coreografia, da visualidade, da música.
Jotabê Medeiros, escritor e jornalista
George Orwell
O sr. Jones, da Granja da Mansão, havia trancado o galinheiro para a noite, mas estava bêbado demais para se lembrar de fechar as vigias. Com o círculo da luz da lanterna dançando de um lado a outro, atravessou cambaleando o pátio, chutou suas botas na porta dos fundos, tirou do barril da copa um último copo de cerveja e subiu rumo à cama onde a sra. Jones já roncava.
Assim que a luz no quarto se apagou, uma agitação e um adejar percorreram os galpões da granja. Durante o dia correra a notícia de que o velho Major, porco varrão e premiado, havia tido um estranho sonho na noite anterior e queria comunicá-lo aos outros bichos. Haviam combinado de encontrar-se no celeiro grande assim que Jones estivesse fora do caminho. O velho Major — assim era chamado, embora tivesse sido exibido com o nome “Beleza de Willingdon” — era tão respeitado na granja que todos estavam dispostos a perder uma hora de sono para ouvir o que ele tinha a dizer.
Numa ponta do celeiro, sobre uma espécie de plataforma, Major já estava espojado em sua cama de palha, debaixo do lampião pendurado numa viga. Tinha doze anos e nos últimos tempos havia engordado muito, mas era ainda um porco de aspecto majestoso, com ar sábio e benevolente, apesar de suas presas nunca terem sido
cortadas. Não demorou muito e os outros animais começaram a chegar, cada um pondo-se à vontade do seu próprio jeito. Primeiro vieram os três cachorros, Flor, Jesse e Pincher, e em seguida os porcos, que se acomodaram na palha diante da plataforma. As galinhas se empoleiraram nos parapeitos das janelas, os pombos voaram para os altos caibros do telhado, as ovelhas e as vacas se deitaram atrás dos porcos e começaram a ruminar. Os dois cavalos da charrete, Tufão e Formosa, entraram juntos, avançando lentamente e pousando os grandes cascos peludos com muito cuidado para não esmagar animaizinhos escondidos na palha. Formosa era uma égua corpulenta e maternal chegando à meia-idade que, depois do quarto potro, não havia conseguido recuperar seu antigo corpo. Tufão era um bicho enorme, de quase dois metros de altura, forte quanto dois cavalos. Uma lista branca no focinho lhe dava aparência um tanto obtusa e, de fato, não brilhava pela inteligência, mas era respeitado por todos graças à sua firmeza de caráter e à poderosa capacidade de trabalho. Depois dos cavalos, chegaram Margarida, a cabra branca, e Benjamin, o burro. Benjamin era o bicho mais velho da granja e o mais mal-humorado. Falava pouquíssimo e, quando o fazia, era geralmente para lançar algum comentário cínico — para dizer, por exemplo, que Deus havia lhe dado um rabo para espantar as moscas, mas que logo, logo não teria mais nem rabo nem moscas. Era o único dos bichos da granja que nunca ria. Quando lhe perguntavam por quê, dizia que não via nenhum motivo para rir. Entretanto, sem admitir abertamente, era apegado a Tufão; os dois costumavam passar os domingos juntos no pequeno cercado atrás do pomar, pastando lado a lado, sem conversar.
Os dois cavalos tinham acabado de se deitar quando uma ninhada de patinhos, perdidos da mãe, desfilou no celeiro, piando baixinho e indo de um lado a outro em busca de algum lugar onde não fossem pisoteados. Formosa fez ao redor deles uma espécie de
parede com a longa pata dianteira, os patinhos se aninharam dentro dela e logo adormeceram. No último momento, Mocinha, a égua branca, fútil e graciosa, que puxava a aranha do sr. Jones, entrou com passo ondulante e afetado, chupando um torrão de açúcar. Escolheu um lugar perto da frente e começou a namorar sua crina branca, esperando chamar atenção para as fitas vermelhas com que estava trançada. Por último chegou a gata que, como sempre, olhou ao redor em busca do lugar mais quente e, afinal, se espremeu entre Tufão e Formosa; e ali ronronou satisfeita enquanto Major discursava, sem ouvir uma palavra do que ele dizia.
Agora, todos os bichos estavam presentes, menos Moisés, o corvo domesticado que dormia num poleiro atrás da porta dos fundos. Quando Major viu que todos estavam confortáveis e esperavam atentos, limpou a garganta e começou:
— Companheiros, vocês já ouviram algo do estranho sonho que tive a noite passada. Voltarei a ele mais tarde. Antes, tenho algo mais a dizer. Não creio, companheiros, que estarei ainda com vocês por muitos meses e, antes de morrer, acho que é meu dever transmitir a sabedoria que adquiri. Tive uma vida longa, e muito tempo para pensar deitado sozinho no meu chiqueiro. Penso poder afirmar que compreendo a essência da vida nesta terra tanto quanto qualquer animal vivo. É disso que desejo falar com vocês.
“Então, companheiros, qual é a essência desta nossa vida? Vamos encarar: nossas vidas são miseráveis, laboriosas e curtas. Nascemos, recebemos somente o tanto de comida necessária para nos manter vivos, e aqueles dentre nós que aguentam são forçados a trabalhar até o último resíduo de suas forças; e, assim que nossa utilidade acaba, somos trucidados com abominável crueldade. A partir de um ano de idade, nenhum bicho na Inglaterra sabe o que significam felicidade e lazer. Nenhum bicho na Inglaterra é livre. A vida de um bicho é sofrimento e escravidão; esta é a verdade verdadeira.
“Mas será isso simplesmente a ordem natural das coisas? Será essa nossa terra tão pobre que não pode oferecer uma vida decente aos que nela vivem? Não, companheiros, mil vezes não! O chão da Inglaterra é fértil, seu clima é bom, ela pode fornecer comida em abundância para um número de animais imensamente superior aos que agora a habitam. Esta simples granja nossa sustentaria uma dúzia de cavalos, vinte vacas, centenas de ovelhas, todos eles vivendo com um conforto e uma dignidade que agora nos parecem difíceis de imaginar. Por que, então, continuamos nessa situação miserável? Porque quase todo o produto do nosso trabalho nos é roubado pelos seres humanos. Essa, companheiros, é a razão de todos os nossos problemas. Tudo se reduz a uma única palavra, Homem. O Homem é nosso único verdadeiro inimigo. Retire-se o Homem de cena e a causa da fome e do trabalho excessivo desaparecerá para sempre.
“O Homem é o único ser que consome sem produzir. Não dá leite, não põe ovos, é fraco demais para puxar o arado, não consegue correr a uma velocidade que dê para caçar coelhos. No entanto, é o senhor de todos os animais. Ele os bota para trabalhar, lhes devolve o mínimo sem o qual morreriam de fome, e o resto guarda para si mesmo. Nosso trabalho ara o solo, nosso esterco o fertiliza, ainda assim, nenhum de nós possui mais do que a própria pele. Vocês, vacas que vejo à minha frente, quantas centenas de litros de leite produziram no ano passado? E o que foi feito desse leite com que vocês alimentariam seus robustos bezerros? Gota a gota desceu pela goela dos nossos inimigos. E vocês, galinhas, quantos ovos puseram este ano, e quantos desses ovos chocaram e deram pintos? Todo o resto foi mandado ao mercado para dar dinheiro a Jones e seus homens. E você, Formosa, cadê os quatro potros que pariu e que seriam sustento e alegria da sua velhice? Foram vendidos ao completar um ano de idade, você nunca verá de novo nenhum deles. Em troca dos seus quatro partos e de todo seu trabalho no campo, o que você recebeu além da magra ração e de uma cocheira?
“E mesmo as vidas miseráveis que levamos não podem alcançar sua duração natural. Quanto a mim, não me queixo, pois sou dos mais afortunados. Estou com doze anos e tive mais de quatrocentos filhos. É a vida natural de um porco. Mas, no fim, nenhum bicho escapa do cutelo. Vocês, jovens porcos sentados à minha frente, dentro de um ano, cada um se esvairá entre gritos entregando a vida sobre o cepo. Todos nós estamos destinados a este horror, vacas, porcos, galinhas, ovelhas, todos. Até cavalos e cachorros não têm melhor destino. Você, Tufão, no dia em que seus músculos poderosos perderem a força, será mandado por Jones ao matador de cavalos, que cortará a sua garganta e o cozerá para alimentar cães de caça. Quanto aos cachorros, quando envelhecem e perdem os dentes, Jones amarra um tijolo no pescoço deles e os afoga no laguinho mais próximo.
“Não é claro, então, companheiros, que todo o mal desta nossa vida se deve à tirania dos seres humanos? Basta nos livrarmos do Homem e o produto do nosso trabalho nos pertencerá. Quase de um dia para o outro poderíamos nos tornar ricos e livres. O que, então, temos que fazer? Trabalhar noite e dia, de corpo e alma, para derrubar a raça humana! Esta é a minha mensagem para vocês, companheiros: Revolução! Não sei quando esta Revolução acontecerá, pode ser daqui a uma semana ou daqui a cem anos, mas eu sei, assim como vejo esta palha debaixo dos meus pés, que mais cedo ou mais tarde a justiça será feita. Concentrem-se nisso, companheiros, pelo restante de sua curta vida!
E, acima de tudo, passem esta minha mensagem aos que vierem depois de vocês, para que as gerações futuras levem a luta adiante, até a vitória.
“E lembrem-se, companheiros, essa determinação não pode fraquejar nunca. Nenhum argumento deverá desviá-los. Não ouçam quando disserem que o Homem e os animais têm interesses comuns, que a prosperidade de um é a prosperidade dos outros. É tudo mentira. O Homem só cuida dos próprios interesses e dos de mais ninguém. E entre nós, bichos, só deve haver perfeito acordo, perfeita
camaradagem na luta. Todos os homens são inimigos. Todos os bichos são companheiros.”
Nesse momento houve um grande tumulto. Enquanto Major falava, quatro grandes ratos haviam saído das tocas e estavam sentados sobre as patas traseiras ouvindo-o. De repente, os cães perceberam sua presença e foi graças a um rápido salto nas tocas que os ratos salvaram suas vidas. Major ergueu a pata pedindo silêncio. — Companheiros — disse —, há um ponto que precisamos decidir. As criaturas selvagens, como ratos e coelhos, são nossos amigos ou nossos inimigos? Vamos submeter à votação. Proponho esta pergunta à assembleia: os ratos são nossos companheiros?
A votação realizou-se imediatamente e a enorme maioria concordou que os ratos eram companheiros. Houve só quatro dissidências, os três cães e a gata, que, descobriu-se mais tarde, havia votado para ambos os lados. Major continuou:
— Tenho pouco mais a dizer. Apenas repito, lembrem-se sempre do nosso dever de inimizade em relação ao Homem e a todos os seus expedientes. Tudo o que anda sobre duas pernas é inimigo. Tudo o que anda sobre quatro patas ou tem asas é amigo. E lembrem-se também de que, na luta contra o Homem, não devemos nos tornar semelhantes a ele. Mesmo quando o tiverem dominado, não adotem seus vícios. Nenhum bicho deverá jamais morar numa casa, ou dormir numa cama, ou usar roupas, ou beber álcool, ou fumar tabaco, ou pegar em dinheiro, ou fazer comércio. Todos os hábitos do Homem são malignos. E, acima de tudo, nenhum bicho deverá tiranizar seus semelhantes. Fracos ou fortes, inteligentes ou ingênuos, somos todos irmãos. Nenhum bicho deverá, jamais, matar outro bicho. Todos os bichos são iguais.
“E agora, companheiros, vou contar a vocês meu sonho da noite passada. Não posso descrever esse sonho. Era um sonho de como será a Terra depois que o Homem desaparecer. Mas me lembrou de
algo que há muito tempo havia esquecido. Faz muitos anos, quando eu era ainda um leitãozinho, minha mãe e as outras porcas costumavam cantar uma velha canção da qual só conheciam a melodia e as três primeiras palavras. Eu sabia aquela melodia na infância, mas há muito havia se apagado da minha memória. Na noite passada, entretanto, voltou em meu sonho. E mais, as palavras da canção também voltaram — palavras, tenho certeza, que foram cantadas pelos bichos da antiguidade e depois esquecidas por muitas gerações. Agora, companheiros, vou cantar para vocês essa canção. Eu estou velho e minha voz ficou rouca, mas depois que eu lhes ensinar a canção, poderão cantá-la melhor para vocês mesmos. Chama-se ‘Bichos da Inglaterra’.”
O velho Major limpou a garganta e começou a cantar. Como ele mesmo havia dito, sua voz estava rouca, mas cantava bem e a canção era surpreendente, algo entre “Clementine” e “La cucaracha”. A letra dizia:
Bichos da Inglaterra, bichos da Irlanda, bichos de toda terra e todo clima, ouçam minha notícia feliz, que tempos dourados prediz. Cedo ou tarde o dia virá, da derrota dos humanos e só bichos pisarão nos ricos campos ingleses. Sem argolas no nariz, sem arreios na cerviz, livres de freios e esporas, livres, enfim, do chicote. Ricos mais que o imaginável, milho, cevada, aveia e feijão, trevo, trigo e beterraba, neste dia, nossos serão.
Brilharão campos ingleses refrescados de água pura, mais doce será a brisa no dia da libertação. Este dia demanda luta, mesmo se morrermos antes; gansos, perus, cavalos e vacas, todos hão de mourejar em favor da liberdade. Bichos da Inglaterra, bichos da Irlanda, bichos de cada terra e país, ouçam e espalhem a mensagem de um tempo dourado e feliz.
A canção provocou nos bichos a maior emoção. Antes mesmo de Major chegar ao fim, haviam começado a cantá-la. Até os mais bobos haviam pegado a melodia e memorizado algumas palavras, quanto aos mais inteligentes, como porcos e cachorros, em poucos minutos decoraram a canção inteira. Então, depois de algumas tentativas preliminares, toda a granja entoou “Bichos da Inglaterra” em uníssono. As vacas a mugiram, os cachorros a ganiram, as ovelhas a baliram, os cavalos a relincharam, os patos a grasnaram. Estavam tão encantados com a canção que a cantaram cinco vezes seguidas, e teriam continuado a cantá-la a noite inteira se não tivessem sido interrompidos. Infelizmente, o tumulto acordou Jones, que saltou da cama pronto para verificar se havia uma raposa no pátio. Pegou a espingarda, sempre disponível a um canto do quarto, e disparou seis tiros na escuridão. As balas se cravaram na parede do celeiro e a reunião foi desfeita às pressas. Cada um correu para seu canto. As aves pularam para os poleiros, os bichos se deitaram na palha e, em um minuto, toda a granja estava dormindo.
Em 1937, o jornalista inglês George Orwell voltou da Guerra Civil Espanhola decidido a escrever um livro que denunciasse os regimes totalitários. Orwell queria contar uma história de fácil compreensão, em uma linguagem direta, e passou anos tentando pensar numa trama. Até que um dia, ao ver um garoto no campo chicoteando um cavalo, imaginou que, se os animais tivessem consciência de sua força, jamais aceitariam o tratamento que recebem. Assim nascia A revolução dos bichos.
Esta história dos animais de fazenda que se organizam politicamente é uma das mais conhecidas críticas ao poder exercido com autoritarismo, manipulação e violência.