Ieda de Oliveira
As cores da escravidão

Ilustrações de Rogério Borges

Ieda de Oliveira
As cores da escravidão
Ilustrações de Rogério Borges
1a. edição
Porto Alegre – 2022
Copyright © Ieda de Oliveira, 2022
Todos os direitos reservados à
Editora Mediação Distribuidora e Livraria LTDA
Rua Ramiro Barcelos, no 344, sala 2
Bairro Floresta – Porto Alegre – RS
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Tel.: (51) 3204-8100
Editor assistente Bruno Salerno Rodrigues Revisoras Lívia Perran e Marina Nogueira
Ieda de Oliveira é escritora, compositora e pesquisadora. Sua obra literária e musical é voltada para o público infantil e juvenil. É doutora em Estudos
Comparados de Literaturas em Língua Portuguesa, mestre em Literatura Brasileira e especialista em Literatura Infantil e Juvenil.
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Oliveira, Ieda de As cores da escravidão / Ieda de Oliveira; ilustrações de Rogério Borges. – 1. ed. – Porto Alegre, RS: Mediação, 2022.
ISBN 978-65-5538-046-0 (Livro do Estudante Impresso)
1. Literatura infantojuvenil I. Borges, Rogério. II. Título.
22-122029
Índices para catálogo sistemático:
1. Literatura infantojuvenil 028.5
2. Literatura juvenil 028.5
CDD-028.5
Eliete Marques da Silva – Bibliotecária – CRB-8/9380
A meu filho Diego, pelo material que disponibilizou para pesquisa, pelos longos papos sem hora de acabar, pelo amor, pela partilha.
Apresentação
É preciso ter muitos talentos para escrever uma história como a que Ieda de Oliveira conta neste livro. Não é para qualquer um a capacidade de perceber, no meio do descaso e dos descuidos do mundo, um episódio que pede com tanta urgência para ser narrado – e que trata de um tema doloroso, muitas vezes varrido para baixo do tapete: escravidão no Brasil. Mas a escravidão no Brasil não foi abolida faz mais de um século? Não, as coisas não são bem como pensamos. Como gostaríamos de pensar.
Soma-se a isso a sensibilidade da narradora, a mão firme com que amarra suas páginas e a nós nelas, como se usasse de mágica, de modo que a gente já não sabe mais se está acompanhando a história ou se a história nos está acompanhando. E é o que faz As cores da escravidão permanecer conosco muito depois de finda a última página.
Seguindo a vida de um pequeno herói que sonha, inocente, com o Gato de Botas, e encontra em vez dele um tal Gato Barbosa – um gato que chega na cidade “pra ajudar todo mundo a ficar rico” e leva em-
bora sonhos, leva embora infâncias (literalmente) –, Ieda não escreveu um livro qualquer. Tenho certeza de que, mesmo entre sua vasta e premiada obra, As cores da escravidão vai sempre ocupar um lugar especial. Trata-se de uma pequena grande aventura, costurada em angústia, esperança e alegria. Olhar o mundo nos olhos é a verdadeira postura dos heróis. Aqui, o que se pede de nós é que, ombro a ombro com o herói do livro, sustentemos a vista firme diante da feia visão daquilo que nós, seres humanos, cometemos contra nosso semelhante, e com isso compartilhemos, do fundo da alma, a urgência de dizer: não mais! Daremos conta do recado?
AdriAnA LisboA
Adriana Lisboa é autora de romances, contos e livros de poesia, além de obras para crianças e jovens. Recebeu, entre outros prêmios, o José Saramago (por Sinfonia em branco), o Moinho Santista (pelo conjunto da obra), o de Autor Revelação da FNLIJ (por Língua de trapos) e a menção honrosa do Casa de Las Américas (por Pequena música). Seus livros foram traduzidos em treze países.
“Eu, Sebastião Luiz Paulo, sou brasileiro, com 17 anos, sem documento, residente em Colinas, Tocantins, no poder da minha bisavó, que mora na rua 18 de Setembro s/n, em Colinas (TO). Sou filho de pai falecido, Sr. Valdir, e Dª Zenaide, que convive com Raimundo Soares e trabalha na fazenda Volkswagen, entre Redenção e Santana do Araguaia. [...]
Ele estava oferecendo uma boa remuneração por alqueires de serviço em uma fazenda do Sul do Pará, no município de Xinguara, e eu e mais 22 peões, incluindo dois menores, entramos em uma carreta de transportar gado e fomos até a fazenda Lagoa das Antas, no município de Xinguara, do fazendeiro Luiz Pires. Quando chegamos lá, encontramos o Gato Fogoió, que é o contabilista do Gato João Moaramas, que nos levou à fazenda Flor da Mata do fazendeiro Luiz Pires, a 300 km da fazenda em que estávamos. Fomos transportados de avião.
[...]
Depois de ter feito um alqueire e meio de juquirão e 20 km de aceiros, eu vi uma cena perigosa de um companheiro menor com idade mais ou menos 10 anos, que andava mais eu: em uma sexta-feira ele tomou uma bota emprestada para ir ao trabalho, pois não queria comprar uma por preço de 20,00 reais, tinha medo de ficar devendo e não poder mais ir embora, depois disseram que ele tinha roubado a bota, então o Gato Fogoió levou ele para o mesmo barracão abandonado que ficamos quando chegamos na fazenda Flor da Mata, e bateram nele de facão, depois pegaram uma arma de calibre 38, apontaram para ele e mandaram ele correr sem olhar para trás, e ele correu, entrou na mata e eu não vi mais.
[...]
Por ser verdade, assino a presente declaração (impressão digital) Tucumã, 15.8.97...” (*)
* COMISSÃO Pastoral da Terra (CPT). Trabalho escravo no Brasil contemporâneo. São Paulo: Loyola, 1999. p. 26-9.

Mato, mato, mato, eco de verde e medo. Os galhos cortando o rosto seco. Apenas sangue. Seus pés descalços de menino correm desamparados rumo ao escuro de uma floresta desconhecida. Onde está a esperança que estava aqui?
O Gato comeu. Em algum tempo tinha ouvido histórias da boca murcha da vó Tonha. Era incrível, mas nem a fome conseguia silenciar seu jeito de olhar as coisas. Via verde na terra seca, comida em prato vazio, flores em galhos secos. O povo dizia que era caduca, mas todo mundo adorava ficar perto ouvindo
suas histórias de tudo. E foi por causa de uma dessas histórias que quis seguir naquele comboio pra fazenda onde seria muito feliz.
Sentada na pedra, a vó Tonha contava e recontava minha história preferida. Era uma vez um peão que tinha três filhos. Tudo que ele tinha na vida era um pedaço de roçado, um burro e um gato. Quando ele viu que a hora da morte tinha chegado, chamou os três filhos e deu para o mais velho o roçado, pro do meio o burro e pro mais novo deu o gato. O filho mais novo ficou muito aborrecido, porque aquele gato não prestava pra nada, mas o gato falou pra ele que, se ele comprasse um par de botas e um saco, ele ia provar que era mais útil que o roçado e o burro. Dito e feito e o esperto do gato conseguiu fazer seu dono virar marquês, ficar rico, casar com a filha do rei e ser feliz pra sempre.
Cresci escutando a história da vó Tonha, com a certeza de que eu, apesar de ser o mais velho dos irmãos, era o Marquês de Marabá e que só o gato, que eu não tinha, sabia disso. Meu pai no mundo desapareceu. Minha mãe com mais um na barriga
foi demais pra ele. E ela ficou só com a gente, nós, seus seis filhos e meio.
Escola ainda não tinha. Amigo sim. O João. Adorava ele. Às vezes ele me ensinava as coisas, às vezes eu ensinava a ele. Coisas que a gente ia descobrindo sozinho, mas nada de leitura, que ele também não tinha. Fui eu que o ensinei a fazer lamparina de vaga-lume e foi ele que me ensinou a pegar mosca no ar, fui eu que o ensinei a defender bola no gol, foi ele que me ensinou a rezar.
João era o único que sabia que eu era o Marquês de Marabá. Ele e o gato que eu não tinha. Combinei que, assim que minha herança chegasse, eu levava ele pra morar nas minhas terras. A princesa, minha mulher, também ia ter uma amiga princesa, que também casaria com o João, que também seria rico e que também seria feliz pra sempre.

Um dia a gente estava jogando bola no campinho, quando começou a ver um mundo de gente passar com pressa. Fomos atrás. Tinha um homem falando alto e dizendo coisas muito boas. Que ele sabia onde tinha serviço bom pra todo mundo e que dava pra ganhar muito dinheiro. Olhei bem pra ele. Era grande, quase gordo, chapéu na cabeça, bigode fino e uns cabelos caídos nos ombros. Nas pernas, grandes botas. Era o Gato Barbosa. Estava ali pra ajudar todo mundo a ficar rico.
Falei pro João que a gente tinha de ir com ele naquela carreta de qualquer jeito. Ele ficou com
medo e, mesmo quando lembrei a história do marquês, ele continuou com medo. Chamei ele de cagão. Então, falei que ia falar com a minha mãe e com a dele e ia pedir a elas que conversassem com o Gato Barbosa. Falei, e minha mãe ficou sabendo que tinha serviço bom pra nós na fazenda. Eu tinha certeza de que voltava rico.
O pai do João tinha ido trabalhar numa fazenda longe, lá pros lados do Pará, que ninguém sabia onde. Dizia o João que ele falava que, se tivesse terra pra plantar, não ia não, mas, como não era pessoa bem estudada, precisava de ir é pro machado mesmo. A mãe, que ficou com os filhos e seus trançados de palha pra vender, só fazia esperar por ele. O dinheiro, quase nada, não dava pro muito pouco. O João era o filho do meio de cinco irmãos. Acho que por isso ela não ligou de ele ir. Menos um na conta da fome. E também o Gato Barbosa deu de presente pra ela e pra minha mãe um dinheiro pra ajudar. Daí ela só fez foi abençoar o seu João Evangelista, conformado, e arrumar um pouco de farinha e de açúcar para a viagem sem lágrimas.
Eu não tinha nada pra levar a não ser meu sapato de ponta cortada com a faca por causa do meu pé que cresceu, uma calça e minha camisa. Comida nenhuma, não deu pra arrumar, só água.
Na mãe e na vó Tonha, um beijo. Estava tão feliz que, quando a carreta chegou, fui logo sorrindo pro Gato Barbosa, que eu começava a ter.

Era muita gente lá em cima da carreta. Apressada, ela ia cortando a estrada. O João, quieto, ia encolhido. Podia jurar que estava rezando, mas não perguntei. Depois fui ver é que ele estava ficando é enjoado e acabou foi vomitando em cima de mim. Acho que foi o cheiro de bosta de gado que tinha lá em cima e mais aquele sacudimento sem fim. Pensei que seria bom dar um pouco de água pra ele e conversar bastante. Como o barulho do motor era forte, eu tinha mesmo é que gritar. Aí gritei algumas histórias que eu tinha aprendido com a vó Tonha. Outras, eu inventei. Deu certo. O João ficou com a cara menos branca e os olhos verdes normais.
Achava engraçado isso nele. Parecia uma onça-pintada. O cabelo meio vermelho, um monte de pintas cor de barro pela cara e olhos que mudavam de cor. Com medo, cinza. Com fome, amarelos. Com histórias, verdes. E, com raiva, nunca vi.
Eu era bem maior e acho que mais velho, mas, de algum jeito, achava o João melhor que eu. E eu falo é de coisa simples mesmo. Quer ver como era? Se eu não tivesse com vontade de jogar bola, não jogava. Mas ele não. Era capaz de jogar sem vontade só para não dizer não. E isso era com todo mundo.
A viagem era de um demorado sem fim. Quando a primeira fome chegou, o João me deu um pouco de seu açúcar e farinha, que durou pouco pra nós. Depois de mais tempo demais, chegamos a uma fazenda muito grande, de um nome que não lembro direito. Aí aconteceu uma surpresa tão boa, que fiquei ainda mais feliz. Fomos recebidos por outro gato de nome Faísca, que nos levou pra mais perto do sonho, e de avião.
Senti um medo muito alegre. Sempre tinha sonhado em viajar de avião, mas sabia que era coisa
de muito rico e é claro que aquilo já era o sinal do que esperava por nós. Os olhos do João cinzamarelaram. Eu vi, mas fingi que não. Ele falou baixo pra mim: “Tonho, tô com medo, não quero andar nisso não”. Falei pra ele que tinha de se acostumar a ser rico, que rico anda de avião. E, além do mais, ele ia ver tudo lá do céu, que nem passarinho. Que devia de ser lindo de tudo. Falei que era que nem o tapete voador da história. Aí ele disse que tapete voador não caía e eu procurei acalmar o João de dentro do meu medo. Ele olhou pra mim suplicante: “Tonho, acho que não quero ser rico não”.
Levei um bom tempo falando ao João das maravilhas de voar. O tempo de me convencer. Não adiantou nada, e ele só de cinza me olhou, quando entramos no avião. Palavra nenhuma trocamos. O meu medo era tanto, que a garganta ficou seca e muda. Era assim, sempre que estava em agonia. Não olhei pela janela, nem me mexi. O avião saiu do chão.
Vi que o João rezava baixinho “Pai nosso, que estais no Céu...” e eu pensava bem quieto: “Nós também... nós também”. Era tudo que eu sabia.
Não conseguia pensar em outra coisa que não fosse na vó Tonha. Nela, em seu Santo Antônio de cabeceira e na visão. Foi numa noite de tempestade. Minha mãe, na agonia de parir. Minha vó, entre as pernas dela, com as mãos estendidas, esperando o neto que não vinha. Minha mãe gritava, suava, respirava e sangrava. Neto nenhum. “O menino tá virado, fica calma, minha filha. Isso não é nada. É um pau por um oiro.”
O menino, nada. Minha vó viu a filha perdendo as forças e a vida. Neto nenhum. Foi aí que veio o clarão e o silêncio.
Parou a chuva, parou o vento, parou tudo. Na beira da cama, Santo Antônio sorria para minha mãe, que não o via. Mas vó Tonha conta que viu e que até falou com ele e prometeu que aquele neto virado se chamaria Antônio. Foi assim que fiquei sendo.
Nunca me vali do santo meu xará. Nunca houve precisão. Mas avião é coisa de céu e aí é diferente. E a minha cabeça só fazia repetir “Antonho, Antonho, Antonho... santinho da minha vó, não deixa a gente cair”.
Fiquei assim num tempo de perder no esquecimento. Tempo de coragem de olhar pela janela e ver tudo pequeno e verde embaixo de nós. Falei pro João olhar também e ficamos então passarinhando juntos, sem medo, o resto da viagem.
Achei aí que foi rápido de tudo. Até passarinhava mais, mas o avião chegou no chão e nos mandaram descer, que o destino tinha chegado.


Uma história sobre inocência roubada, sonhos invadidos, infância escravizada. Mas também sobre esperança, compaixão, amizade e amor.

“Olhar o mundo nos olhos é a verdadeira postura dos heróis. Aqui, o que se pede de nós é que, ombro a ombro com o herói do livro, sustentemos a vista firme diante da feia visão daquilo que nós, seres humanos, cometemos contra nosso semelhante, e com isso compartilhemos, do fundo da alma, a urgência de dizer: não mais! Daremos conta do recado?”
AdriAnA LisboA

