PNLD 2024 - Objeto 3 - A cor da ternura

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A COR DATERNURA

3.ª  edição São Paulo – 2022

Copyright © Geni Guimarães, 2001, 2017, 2022

Todos os direitos reservados à QUINTETO EDITORIAL LTDA.

Rua Rui Barbosa, 156, 1.o andar

São Paulo – sp – cep 01326-010

Tel. (0-xx-11) 3598-6000

Editor assistente bruno salerno rodrigues

Revisoras lívia perran e marina nogueira

Geni Mariano Guimarães é professora e escritora. Nasceu em São Manuel (SP) em 1947 e desde 1979 escreve contos, novelas, romances e poemas que expõem sua visão crítica das questões étnicas e de gênero. Algumas de suas obras de destaque são Leite do peito (contos) e Da flor o afeto, da pedra o protesto (poesia). Em 2021, foi a escritora homenageada da 7 a Olimpíada de Língua Portuguesa.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Guimarães, Geni

A cor da ternura / Geni Guimarães. – 3. ed. –São Paulo, SP: Quinteto, 2022.

isbn: 978-85-8392-209-4 (Livro do Estudante Impresso)

1. Literatura infantojuvenil I. Título.

22-122014

Índices para catálogo sistemático:

1. Literatura infantojuvenil 028.5

2. Literatura juvenil 028.5

CDD-028.5

Eliete Marques da Silva - Bibliotecária - CRB-8/9380

Para os amigos Johannes e Moema Parente Augel, que no afeto singular do acolhimento tão bem agasalharam a timidez da minha nação interna.

Viagens

lembranças

PRIMEIRAS LEMBRANÇAS

Minha mãe sentava-se numa cadeira, tirava o avental e eu ia. Colocava-me entre suas pernas, enfiava as mãos no decote do seu vestido, arrancava dele os seios e eu mamava em pé.

Ela aproveitava o tempo, catando piolhos da minha cabeça ou trançando-me os cabelos. Conversávamos, às vezes:

— Mãe, a senhora gosta de mim?

— Ué, claro que gosto, filha.

— Que tamanho? — perguntava eu.

Ela então soltava minha cabeça, estendia os braços e respondia sorrindo:

— Assim.

Eu voltava ao peito, fechava os olhos e mamava feliz.

Era o tanto certo do amor que precisava, porque eu nunca podia imaginar um amor além da extensão dos seus braços.

Outras vezes, no meio da mamada, eu parava e começava:

— Cadê o toicinho daqui?

— Gato comeu.

— Cadê o gato?

— Foi caçar rato.

— Cadê o rato?

— Foi no mato.

— Cadê o mato?

— Fogo queimou.

— Cadê o fogo?

— Água apagou.

Eu interrompia as perguntas da brincadeira para saber coisas além dela. Uma vez foi assim:

— Quem fez o fogo e a água?

— Deus, é claro. Quem haveria de ser?

— E se pegar fogo no mundo?

— Ele faz a água virar chuva e apaga o fogo do mundo.

— Mãe, se chover água de Deus, será que sai a minha tinta?

— Credo em cruz! Tinta de gente não sai. Se saísse, mas se saísse mesmo, sabe o que ia acontecer? —

Pegou-me e, fazendo cócegas na barriga, foi dizendo:

— Você ficava branca e eu preta, você ficava branca e eu preta, você branca e eu preta...

Repentinamente paramos o riso e a brincadeira. Pairou entre nós um silêncio esquisito.

Achei que ela estava triste, então falei:

— Mentira, boba. Vou ficar com essa tinta mesmo. Acha que eu ia deixar você sozinha? Eu não. Nunca, nunquinha mesmo, tá?

Daí ela fingiu umas palmadas na minha bunda, saiu correndo pelo quintal afora.

— Quem chegar por último vira sapo da lagoa.

Corri também, dando largas passadas, tentando pisar no rastro dela.

Mas as coisas começaram a mudar. Era só eu querer mamar, ela se esquivava.

— Cecília — dizia ela —, traga a garapa da menina.

Outras vezes, era só eu botar a mão no decote do seu vestido, vinha a saída: uma bolacha caseira, uma goiaba, uma laranja ou qualquer outra guloseima para me tapear.

Um dia emburrei. Joguei fora tudo o que me oferecera. Recusei-me a comer qualquer coisa. Foi quando ela resolveu explicar-me:

— É que o leite da mãe está podre.

— Quem que apodreceu ele? — perguntei inocentemente.

— O gato da Maria Polaca fez caca no meu peito.

— Por que você deixou ele entrar aí, mãe?

Ela não me respondeu. Chamou a Cecília e disse:

— Leva ela pra ver os porquinhos. — E mais baixo:

— Não vai deixar ela ver os bichinhos mamando que ela pode se “aguar”.

Saímos. Eu soluçava baixinho e limpava o rosto com as costas das mãos. Nisso passou um gato rajado diante de nós e eu me lembrei de uma coisa.

— Cecília, de que lado fica a porta da teta da mãe?

Minha irmã olhou dos lados, viu uma pedra na margem da estrada. Sentou-se nela e carinhosamente foi me falando:

— Vem cá. Vou te explicar direitinho. É que a mãe encomendou um nenezinho pra nós. Você já é mocinha, tem dente, pode comer de tudo, não é? Agora, nenê não. Daí a mãe tem que guardar o leite pra ele. Entendeu?

— Ah, é por isso que a mãe foi na cidade outro dia... Cecília, como é que vai ser o... como vai ser ele?

— Vai ser gordinho, bonito e chorão — respondeu-me rindo.

Baixei a cabeça e com o dedão do pé comecei a fazer buraquinhos no chão.

A Cecília levantou-se, pegou-me no colo e se pôs a caminhar.

Comecei a sentir muito sono, mas ainda pedi:

— Se ele chegar de noite, você me chama...

Deitei-me no seu ombro e adormeci.

Ela era linda. Nunca me cansei de olhá-la.

O dia todo arrastava os chinelos pela casa. Ia e vinha.

Eu também ia, eu também vinha.

Quando me pegava no flagra, bebendo seus gestos, esboçava um riso calmo, curto. Meu coração saltava feliz dentro do peito.

Eu baixava a cabeça e fechava os olhos. Revivia o riso dela mil vezes e à noite deitava-me mais cedo para pensar no doce cheiro de terra e mãe.

Um dia, quando venerava seus pés, vi que estavam inchados.

Fui devagarinho subindo a vista: as pernas estavam exageradamente grossas. A barriga parecia a barrica onde ela guardava a água de beber. Mãos, braços, rosto, tudo inchado.

Comecei a tremer e ficar impaciente.

Que doença seria aquela? E se minha mãe explodisse?

Desesperei-me.

Precisava achar alguém para saber se ela estava para morrer.

Precisava saber se, quando mãe morre, a gente pelo menos pode morrer também.

Saí correndo quintal afora. Então, vi a Cema, minha irmã mais velha. Corri para ela. Sacudi-a fortemente. Perguntei, chorei, insisti, mas a Cema continuou comendo torrões e soltando a baba lamacenta pelos cantos da boca. No desespero, havia esquecido que ela tinha deficiência intelectual, meu poema bobo. Com meu vestido de florezinhas azuis, limpei sua boca e, agarrada a suas mãos, esperei impacientemente alguém chegar.

Não demorou muito, vi a Arminda surgir lá na curva do caminho.

Ela tinha ido levar o almoço para meu pai e os outros irmãos que trabalhavam na colheita do café.

Soltei as mãozinhas da Cema e fui encontrá-la.

— Arminda — disse eu —, acho que a mãe vai morrer. Por favor, leva ela para dona Chica Espanhola benzer. Ela está deste tamanho. — Estiquei os braços

para os lados e depois fiz um círculo querendo mostrar o tamanho da barriga dela. — Arminda — continuei —, me pega no colo que eu estou com frio. Por favor, leva ela...

Pegou-me carinhosamente e começou a acariciar-me.

Disse:

— A mãe não está doente, bobinha. Lembra que a Cecília te contou que ela tinha encomendado nenê?

Então. Ele está guardado na barriga dela, por isso que a mãe está gordona. Você não está dormindo comigo?

Pois é pra não machucar o nenê.

Resmunguei:

— Arminda, eu gosto de você, mas eu queria dormir com a mãe, porque a orelha dela é mole e esquenta até a minha mão. Você também é boazinha, mas a sua orelha...

Chorei novamente, baixo e calmo.

Chegando em casa, minha mãe cerzia uma camisa xadrez, em pé, encostada no fogão apagado.

A Arminda piscou disfarçadamente e falou para ela:

— Tem gente querendo colo. Dá aqui a roupa que eu acabo de remendar.

Minha mãe entregou a roupa para a Arminda e sentou-se numa cadeira feita de palhas trançadas.

Estendeu os braços e eu fui como se caminhasse para

o céu. Fiquei toda torta, escorregava e não conseguia pousar a cabeça no seio tão e sempre amigo.

No entanto, não disse nada. Não agradeci. Não reclamei. Apenas respirei fundo para recolher o eterno cheiro de terra e mãe.

Um dia, ao acordar, não ouvi nenhum barulho nem senti o cheiro agradável de café novo vindo da cozinha. Estava só, na cama.

Já me preparava para ir ver o que estava acontecendo, quando a Iraci entrou no quarto dizendo:

— Você tem que ficar aqui quietinha. Não pode se levantar ainda.

Notei-a carinhosa, mas preocupada. Fiz mil perguntas, todas de uma só vez:

— Por que não posso? Cadê a Arminda? Onde está a mãe?

Já gaguejava engolindo lágrimas de medo e incertezas, quando a Iraci apressou-se explicando:

— A Arminda foi trabalhar e eu fiquei no lugar dela. Não precisa se assustar. O pai foi buscar a dona Chica Espanhola. A mãe está deitada.

— A dona Chica Espanhola?! — perguntei apavorada.

— Não é nada de mau, bobinha. Ela vai ajudar o nosso nenê a nascer.

Saiu.

Nesse mesmo instante, comecei a ouvir minha mãe gemer baixinho.

Gemia, gemia, gemia...

Tapei os ouvidos com o travesseiro e só deixei os olhos a descoberto, que, marejados de lágrimas, acompanharam a chegada de meu pai e dona Chica, que vinha dando ordens:

— Alguém põe água pra esquentar. Faça um chá bem quente de hortelã com pimenta-do-reino.

Minha mãe gemia, gemia...

O dia se arrastava e eu ali, esquecida.

Ninguém lembrou que eu poderia sentir fome ou sede. Nem eu.

O sol entrava com seus raios já cansados na fresta da janela, quando, sem poder fazer mais nada, levantei-me, ajoelhei-me aos pés da cama e comecei a rezar:

— Minha nossa Senhora do oratório da minha mãe, faça que ela não chore, que eu nunca mais vou xingar o nenê de diabo e cocô no meu coração. Se ela parar de gemer, daqui pra frente vou só falar Jesus e doce de leite pra ele. Amém.

Fiz o sinal da cruz e, quando me encaminhava para a cama novamente, para dali continuar a vigília, os gemidos pararam.

Um choro forte de bebê abriu espaços e entrou no quarto abruptamente.

Jesus nascia.

No dia seguinte minha mãe começou a receber visitas. O pessoal da redondeza vinha conhecer a criança trazendo presentes. Aproveitavam a ocasião para agradecer minha mãe por ter, com benzimentos e remédios caseiros, curado seus filhos de lombriga, bucho virado ou mesmo quebranto. Traziam galinhas gordas, amarelas, brancas e rajadas. Não davam galinhas pretas, explicou dona Jandira para a Iraci, um dia, porque eram duras e só serviam mesmo para despachos.

Todo dia, desde cedo, a mulherada aparecia.

Traziam sabonete, talco e metros de pano para as roupinhas do nenê.

Eu nem ligava para elas. Ficava sentada num degrau da escada na porta da sala, indiferente. Mas elas tinham sempre alguma coisa para me dizer. “Xi! Perdeu o colo”, diziam umas. “Vou levar ele pra mim”, diziam outras.

“Que enfie no...”, pensava eu. Logo me arrependia e fazia o sinal da cruz.

Minha mãe às vezes acompanhava as visitas até a porta. Nessas ocasiões segurava minha mão e dizia:

— Vamos lá no quarto ver o seu irmãozinho. A mãe não pode trazer ele aqui enquanto não passarem sete dias. Ele pode pegar o mal de sete dias. Isso não tem cura. Vamos lá, filha, vamos...

Eu não ia. Que ficasse lá, ocupando meu lugar. Não ia.

Só pude conhecê-lo no oitavo dia, quando, passado o perigo da doença, minha mãe tirou-o do quarto.

Não achei bonito nem feio.

Apenas senti um grande alívio quando me vi descompromissada de chamá-lo de Menino Jesus.

Era negro.

Geni é a penúltima filha de uma família de oito irmãos. De origem negra e pobre, percebe muito cedo o peso da cor e da condição social. Negritude se apaga? Com essa vontade, ela esfrega na perna tijolo triturado, mistura certa para retirar carvão do fundo das panelas. O sangue jorra quente, vermelho da cor da vida, da liberdade e da consciência da desigualdade. Crescer negra num lugar onde o branco substitui o preconceito pelo paternalismo. O tamanho certo da vontade de lutar pode ser medido pela extensão dos braços da mãe?

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