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Teologia bíblica do Antigo e do Novo Testamento - Thomas R. Schreiner

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Teologia bíblica do Antigo e do Novo Testamento O Rei na sua formosura


“Um relato da teologia bíblica maravilhosamente claro e fiel. Este livro tanto é intelectualmente atrativo quanto honra a Deus, de maneira que merece ser amplamente lido.” — Simon Gathercole (PhD, Universidade de Durham), professor de Novo Testamento e Cristianismo Primitivo, Universidade de Cambridge “Do Jardim do Éden ao jardim do Paraíso, Tom Schreiner conduz o leitor com destreza por toda a narrativa da história da redenção. Dando atenção a cada parte das Escrituras canônicas, Schreiner demonstra como a Bíblia se organiza sob o tema do Reino ou governo de Deus. O resultado é um banquete de insights teológicos, práticos e devocionais. De forma simples, direta e acessível, este livro levará os cristãos a uma nova compreensão e apreciação de toda a Bíblia.” — Donald A. Hagner (PhD, Universidade de Manchester), professor emérito de Novo Testamento que ocupa a cátedra George Eldon Ladd, Fuller Theological Seminary “Combinando sensibilidade exegética e profundo conhecimento bíblico-teológico, Thomas Schreiner nos presenteia com uma análise rica, detalhada e cativante sobre o tema do Reino de Deus ao longo das Escrituras. Sem dúvida, esta edição da obra em língua portuguesa é uma enorme contribuição para o estudo da teologia bíblica em seminários e igrejas locais do contexto brasileiro, bem como de outros países lusófonos. Recomendo com muita alegria esse livro!” — Tiago Abdalla T. Neto, professor de Hebraico e Estudos Bíblicos no Instituto Missionário Palavra da Vida, na Escola Teológica Charles Spurgeon, no Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil e no Seminário Batista Equatorial “Um livro que une maravilhosamente todos os livros da Bíblia. Poucos autores têm o domínio da erudição, o dom do ensino e a devoção a Deus que este volume reflete. Devore este livro para ampliar sua compreensão da Bíblia e para sentir sua alma cativada como nunca pelo Rei na sua formosura.” — Robert W. Yarbrough (PhD, Universidade de Aberdeen), professor de Novo Testamento, Covenant Theological Seminary


Thomas R. Schreiner

Teologia bíblica do Antigo e do Novo Testamento O Rei na sua formosura


Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Schreiner, Thomas R. Teologia bíblica do antigo e do novo testamento : o rei na sua formosura / Thomas R. Schreiner ; tradução Marcelo Siqueira Gonçalves. --São José dos Campos, SP : Editora Fiel, 2026. Título original: The king in his beauty: a biblical theology of the old and new testaments. ISBN 978-65-5723-532-4

1. Bíblia 2. Reino de Deus 3. Teologia bíblica I. Título.

26-371153.0

CDD-220.6 Índices para catálogo sistemático:

1. Bíblia : Teologia

220.6

Eliane de Freitas Leite - Bibliotecária - CRB 8/8415 Teologia bíblica do Antigo e do Novo Testamento: O Rei na sua Formosura Traduzido do original em inglês The King in His Beauty: A Biblical Theology of the Old and New Testaments Copyright © 2013 por Thomas R. Schreiner. Todos os direitos reservados.  Originalmente publicado em inglês por Baker Academic, uma divisão de Baker Publishing Group. Grand Rapids, Michigan, 49516, EUA. Copyright © 2022 Editora Fiel Primeira edição em português: 2026 Todos os direitos em língua portuguesa reservados por Editora Fiel da Missão Evangélica Literária.

Proibida a reprodução deste livro por quaisquer meios sem a permissão escrita dos editores, salvo em breves citações, com indicação da fonte. Os textos das referências bíblicas foram extraídos da versão Almeida Revista e Atualizada, 2ª ed. (Sociedade Bíblica do Brasil), salvo indicação específica.

Diretor: Tiago J. Santos Filho Supervisor editorial: André G. Soares Produtores gráficos: Sérgio Siqueira Moura e Gisele Lemes Tradutor: Marcelo Siqueira Gonçalves Preparador: Gabriel Lago Revisores: Shirley Lima e Vinicius Lima Indexadores: Anna Lopes e Matheus Fernandes Diagramador: Rubner Durais Capista: Rubner Durais ISBN (livro físico): 978-65-5723-532-4 ISBN (livro digital): 978-65-5723-531-7 Caixa Postal 1601 CEP: 12230-971 São José dos Campos, SP PABX: (12) 3919-9999 www.editorafiel.com.br


Para Diane, minha amada esposa e coerdeira no Reino


Sumário Prefácio 13 Prólogo 15 Abreviaturas 21

PARTE 1: Da criação aos limites de Canaã 1. Gênesis 29 2. Êxodo 59 3. Levítico 81 4. Números 103 5. Deuteronômio 119 Interlúdio: Sinopse de Da criação aos limites de Canaã 143 PARTE 2: A história da posse, do exílio e do retorno 6. Josué 149 7. Juízes 161 8. Rute 175 9. 1–2 Samuel 185 10. 1–2 Reis 217 11. 1–2 Crônicas 249 12. Esdras–Neemias 269 13. Ester 283 Interlúdio: Sinopse de A história da posse, do exílio e do retorno 289 PARTE 3: Cânticos e sabedoria de Israel 14. Jó 295 15. Salmos 317


Teologia bíblica do Antigo e do Novo Testamento

16. Provérbios 353 17. Eclesiastes 377 18. Cântico dos Cânticos 393 Interlúdio: Sinopse de Cânticos e sabedoria de Israel

401

PARTE 4: Juízo e salvação nos Profetas 19. Isaías 407 20. Jeremias 433 21. Lamentações 449 22. Ezequiel 457 23. Daniel 475 24. O Livro dos Doze 487 Interlúdio: Sinopse de Juízo e salvação nos Profetas

513

Uma breve retrospectiva da história do Antigo Testamento Prólogo ao Novo Testamento 523

517

PARTE 5: O Reino em Mateus, Marcos e Lucas–Atos 25. O Evangelho segundo Mateus 529 26. O Evangelho segundo Marcos 555 27. O Evangelho segundo Lucas e Atos dos Apóstolos 571 Interlúdio: Sinopse de O Reino em Mateus, Marcos e Lucas–Atos 605 PARTE 6: A vida eterna no Evangelho e nas Epístolas de João 28. O Evangelho segundo João e as Epístolas Joaninas 609 Interlúdio: Sinopse de A vida eterna no Evangelho e nas Epístolas de João 649 PARTE 7: A chegada do fim dos tempos segundo o apóstolo Paulo 29. A teologia de Paulo 655 Interlúdio: Sinopse de O fim dos tempos chegou, segundo o apóstolo Paulo 697 10


Sumário

PARTE 8: A vida nos últimos dias, segundo as Epístolas Gerais 30. A Epístola aos Hebreus 701 31. A Epístola de Tiago 717 32. A Epístola de 1 Pedro 723 33. As Epístolas de 2 Pedro e Judas 731 Interlúdio: Sinopse de A vida nos últimos dias, segundo as Epístolas Gerais 737 PARTE 9: O Reino virá 34. O livro de Apocalipse

741

Epílogo 757 Bibliografia 777 Índice de autores 801 Índice de referências bíblicas Índice de assuntos 847

809

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Prefácio Foi uma grande alegria escrever este livro, embora eu esteja profundamente ciente de suas limitações. Mal posso expressar minha dívida para com outros estudiosos que confirmaram, aguçaram e corrigiram o meu pensamento. Também sei que mal arranhei a superfície no que se refere a fontes secundárias. Tentei ler o suficiente para ter uma noção do que a erudição bíblica dizia sobre a teologia dos vários livros examinados. Todavia, não me preocupei em ser exaustivo; cito principalmente fontes que se mostraram úteis na compreensão da teologia bíblica. A minha esperança é que este livro seja compreensível para estudantes universitários, leigos, seminaristas e pastores. Ele não se destina a ser um trabalho técnico para eruditos. Obviamente, em uma obra deste porte, praticamente todos os leitores discordarão de mim em algum ponto sobre alguma coisa, mas espero estimular todos a refletirem sobre a majestade e a beleza da mensagem bíblica. Uma palavra deve ser dita sobre como escrevi este livro. Escrevi o primeiro rascunho indutivamente, sem consultar outras fontes, com base em meu próprio trabalho no texto bíblico. Depois, li amplamente, incorporando muitas perspectivas de outros autores. Com exceção de uma ou duas seções curtas, escrevi a parte do NT sem consultar meus escritos anteriores sobre teologia paulina e neotestamentária. Obviamente, há muitos pontos de contato com o que escrevi antes, já que minhas opiniões sobre a teologia do NT não mudaram substancialmente. Sou especialmente grato tanto ao Southern Baptist Theological Seminary, que me concedeu um ano sabático, quanto ao presidente R. Albert Mohler Jr. e ao vice-presidente e deão Russell Moore, por apoiarem minha bolsa de estudos. Quero expressar a minha gratidão também a Jim Kinney, da Baker Academic, por seu incentivo e apoio a este projeto, e a Brian Bolger, por seu excelente trabalho de edição, que melhorou o resultado. Sou particularmente grato a Joshua Greever, meu aluno de doutorado, e Garrett Fellow, que correu várias vezes até a biblioteca para conferir livros e copiar artigos para mim, além de me ajudar na tarefa sombria de compilar minha bibliografia


Teologia bíblica do Antigo e do Novo Testamento

a partir de minhas notas de rodapé. Joshua também leu o livro com atenção, fazendo uma série de sugestões de melhorias. Ele me foi uma ajuda imensa, e sua disposição e vontade de me auxiliar representaram um grande incentivo para mim. Dedico este livro à minha amada esposa, Diane, que recentemente sobreviveu a um acidente de bicicleta quase fatal. Ela tem sido como Tabita em seu amor e serviço a mim e a muitos outros. E, à semelhança de Tabita, ela foi, por assim dizer, ressuscitada dos mortos (At 9.36-41). Faltam-me palavras para expressar a dádiva que Diane representa na minha vida.

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Prólogo Existe hoje um consenso de que nenhum tema capta adequadamente a mensagem das Escrituras Sagradas.1 Não é minha intenção contestar essa hipótese aqui, pois praticamente qualquer centro escolhido tende a domesticar um tema ou outro.2 Sustento que há uma série de maneiras diferentes de montar o enredo e a teologia das Escrituras que são legítimas. Não devemos insistir, portanto, que um tema capte o todo. De fato, a palavra “centro” é ambígua. Estamos falando do tema central da história ou da razão suprema da história?3 A minha ênfase aqui estará em um dos principais temas da narrativa. Já argumentei em outra obra que a razão e o propósito supremos da narrativa é a glória de Deus, de modo que, neste livro, não me concentrarei na razão da história.4 A minha intenção, aqui, é me concentrar na linha narrativa à medida que ela se desenvolve. O tema perseguido deve ser suficientemente flexível para compreender vários temas diferentes interligados nas Escrituras, a fim de resumir a mensagem fundamental da Bíblia. Pretendo argumentar neste livro que o “Reino de Deus”, se esse termo for definido com flexibilidade suficiente, encaixa-se bem como um tema central de toda a Bíblia.5 Antecipo-me em dizer que tal tese não depende de uma abordagem que leve em conta o estudo das palavras, pois é bastante óbvio que o Reino de Deus não pode 1 Escrever uma teologia bíblica de toda a Bíblia é uma tarefa hercúlea. O objetivo deste livro não é dar uma palavra final, pois isso é impossível. Estou convencido de que uma teologia bíblica da Bíblia completa pode ser escrita a partir de várias perspectivas diferentes e complementares. Fui antecedido e auxiliado por vários estudiosos que escreveram teologias bíblicas da Bíblia completa. Veja Childs, Biblical Theology; Fuller, Unity of the Bible [edição em português: A Unidade da Bíblia]; Scobie, Ways of Our God; VanGemeren, Progress of Redemption [edição em português: O Progresso da Redenção]; Hamilton, God’s Glory in Salvation; Beale, Biblical Theology; Gentry e Wellum, Kingdom through Covenant [edição em português: O Reino de Deus através das Alianças de Deus]. 2 Nesta obra, cito vários autores diferentes, a partir de várias perspectivas. Normalmente cito essas fontes quando mencionam algo interessante, mas isso não significa, obviamente, que o autor citado concorde necessariamente comigo com relação ao quadro maior que apresento. 3 Vern Poythress (“Kinds of Biblical Theology”) argumenta acertadamente que uma variedade de perspectivas pode ser adotada quando se faz uma teologia bíblica. 4 Veja Schreiner, Paul [edição em português: Teologia de Paulo]; idem, New Testament Theology. 5 Concordo com G. K. Beale (Biblical Theology, p. 168-84), segundo quem existe uma linha narrativa coerente nas Escrituras.


Teologia bíblica do Antigo e do Novo Testamento

ser um tema central se contarmos quantas vezes as palavras “rei”, “reino”, “governar” ou “reinar” aparecem, visto que, em muitos livros da Bíblia, elas não aparecem de forma alguma.6 Em vez disso, o argumento aqui é que a expressão “Reino de Deus” capta tematicamente, do ponto de vista da teologia bíblica, a mensagem das Escrituras. Agora eu acrescentaria imediatamente que Deus traz o Reino para a glória e louvor do seu nome. As Escrituras descortinam a história do Reino, e a glória de Deus é a razão dessa narrativa.7 Neste livro, eu me concentro em um dos temas centrais do enredo. Talvez ajude se eu esboçar o que quero dizer com “o Reino de Deus”. Em primeiro lugar, ele designa o domínio de Deus. Em certo sentido, Deus é sempre o Rei dos reis e o Senhor dos senhores, reinando sobre tudo o que acontece. Contudo, em outro sentido, o domínio de Deus tem sido desrespeitado desde a queda da humanidade, e as Escrituras contam a história da retomada desse Reino. A objeção a ver o Reino como central é que ele não parece se encaixar nos Escritos da Bíblia Hebraica — por exemplo, o livro de Provérbios. Argumentarei oportunamente que Provérbios (e os outros livros dentre os Escritos no AT) se encaixa em tal noção, embora o termo “reino” esteja praticamente ausente nesse livro. Demonstrarei que a literatura sapiencial apresenta a supremacia de Deus na vida cotidiana, mostrando que ele governa sobre as particularidades de nossa existência. Veremos que Provérbios, Jó e Eclesiastes ensinam que o temor de Yahweh é o princípio da sabedoria. Temer ao Senhor é viver sob o seu senhorio. A ênfase em Deus como Rei é evidente no refrão regular encontrado nas Escrituras, particularmente no AT, no qual Deus é identificado como o Senhor. Como Senhor, ele é o soberano, o criador de todos, aquele que merece louvor e obediência. Em outras palavras, a afirmação de que o tema da Escritura é o reinado de Deus é confirmada e reiterada pelo refrão constante de que Deus é o Senhor.8 A ênfase em Deus como Rei abstrato, à parte dos seres humanos, não faz justiça à amplitude encontrada nas Escrituras;9 pois a mensagem central da Escritura também inclui os seres humanos — a coroa da criação —, os quais foram criados à Nesta questão, veja Goldingay, Israel’s Faith, p. 59-60. Tentei esmiuçar essa razão fundamental em duas obras anteriores: Schreiner, Paul; idem, New Testament Theology. Veja também Hamilton, God’s Glory in Salvation. 8 Sobre a centralidade do senhorio nas Escrituras, veja Frame, A Doutrina de Deus. 9 Veja Goldingay, Israel’s Faith, p. 59-83. 6 7

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Prólogo

imagem de Deus.10 E, já que Deus é Rei e Senhor, é seu propósito e desígnio que ele seja glorificado em todas as coisas e por todas as pessoas. Alguns reclamaram que tal Deus é narcisista, mas essa objeção perde o sentido; visto que Deus, como Rei, glorifica a si mesmo, entregando-se aos seus seres humanos em amor. Deus é honrado como Rei quando os seres humanos recebem seu amor, dependem dele e experimentam a sua salvação. A glória de Deus e o amor de Deus não devem ser colocados em dois compartimentos separados. Pelo contrário, Deus é glorificado como Senhor em seu amor pelos seres humanos.11 A soberania de Deus e o seu reinado acontecem na história, na narrativa contada nas Escrituras, revelada supremamente no ministério e na pessoa de Jesus Cristo. Existe uma relação estreita entre o Reino de Deus e sua aliança.12 Na verdade, as alianças divinas são os meios pelos quais o governo de Deus é estabelecido.13 O senhorio de Deus torna-se realidade quando ele habita com o seu povo, quando o seu povo experimenta a sua presença graciosa.14 Isso se encaixa na observação de Desmond Alexander de que “o tema da presença de Deus na terra é especialmente significativo para a compreensão da meta-história bíblica”.15 O amor de Deus pelos seres humanos manifesta-se nas suas alianças com eles, já que, na aliança, Deus promete que realizará a salvação para o seu povo e será o seu Deus. O senhorio de Deus, no entanto, não pode se limitar ao amor de Deus, pois as Escrituras chamam a atenção para outra dimensão da narrativa. Deus expressa o seu reinado também ao punir seus inimigos, ao julgar aqueles que resistem às suas demonstrações de amor.16 Alguns súditos de Deus se rebelam contra o seu governo 10 Outros autores já argumentaram acertadamente que um dos principais temas das Escrituras diz respeito ao povo de Deus. Veja Scobie, Ways of Our God, p. 469-651; Martens, “People of God”. 11 Veja a articulação cautelosa entre a soberania divina e a relação de Deus com o mundo em Childs, Biblical Theology, p. 356-58. 12 Uma aliança, ou pacto, significa um relacionamento no qual existem obrigações feitas sob juramento. Para uma definição do termo, veja Gentry e Wellum, Kingdom through Covenant, p. 132-33. 13 Meredith Kline diz que “as alianças funcionam como instrumentos administrativos do governo real de Deus” (Kingdom Prologue, p. 3). Veja também Gentry e Wellum, Kingdom through Covenant; Dumbrell, Covenant and Creation, p. 42. Para ter acesso a uma pesquisa sobre as alianças nas Escrituras segundo a sua própria proposta, veja Hahn, Kinship by Covenant. 14 Com propriedade, Martens, “People of God”, p. 230. Veja também Terrien, Elusive Presence. 15 Alexander, Eden to the New Jerusalem, p. 14-15. 16 Veja Hamilton, God’s Glory in Salvation, p. 37-65. Ele defende a noção de que a glória de Deus é expressa “na salvação por meio do juízo”.

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Teologia bíblica do Antigo e do Novo Testamento

real e seu amor soberano. Em última análise, a recalcitrância e a rebelião deles não terão sucesso. Nas Escrituras, o enredo indica que o mal será destruído e pacificado. Os súditos que se recusarem a dobrar o joelho serão julgados, e tanto o domínio de Deus sobre todas as coisas como a sua glória também se manifestarão no juízo. Devemos tomar cuidado com outra abstração na compreensão do senhorio de Deus. O Reino de Deus certamente consiste em seu governo sobre anjos e seres humanos, porém a ênfase no governo não deve nos cegar para a verdade de que também existe um lugar. A história não se passa numa esfera etérea. Deus criou todo o universo, e o senhorio de Deus bem como a sua relação com os seres humanos ocorrem na terra. O lugar importa nessa história. Deus é Rei sobre o mundo e sobre o universo, mas a história levanta questões acerca do seu senhorio sobre este mundo. A incursão do mal representa um reino rebelde, que ameaça a soberania de Deus e procura desfazer o seu amor. Este mundo, com toda a sua beleza, está maculado pelo pecado. O drama de Deus, enquanto Rei, e dos seres humanos, enquanto seus súditos, desenvolve-se na história e em determinado lugar. A história das Escrituras não é apenas a relação entre Deus e os seres humanos, mas também diz respeito ao universo. Qual é o destino do mundo que Deus fez? As Escrituras prometem que haverá um novo céu e uma nova terra — uma nova criação, onde a glória de Deus iluminará o cosmos. Assim, o Reino de Deus tem uma tríplice dimensão, concentrando-se em Deus como Rei, nos seres humanos como súditos do Rei e no universo como o lugar onde o seu reinado acontece. Um comentário final deve ser feito sobre a abordagem deste livro. Não é meu propósito interagir com reconstruções críticas da história ou da literatura de Israel. O mesmo poderia ser dito em relação à história do NT. A interação cuidadosa com tais reconstruções é uma parte significativa do esforço acadêmico, mas nenhum livro pode realizar tudo.17 Também é um fato histórico que determinados livros foram reconhecidos e aceitos como canônicos, embora eu sustente também que a Igreja foi providencialmente levada por Deus a reconhecer quais escritos pertenciam às Escrituras 17 Concordo com os evangélicos mais conservadores na crença de que os relatos das Escrituras são históricos, quer falemos de Gênesis, quer dos Evangelhos. A minha posição aparecerá neste livro, mas não é minha intenção defendê-la. O objetivo deste livro é apresentar a teologia da Bíblia no seu formato final e canônico.

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Prólogo

autorizadas.18 Portanto, o meu objetivo neste livro é analisar os escritos canônicos em sua forma final.19 Ainda estamos diante de uma decisão importante em relação ao AT. O cânon deve ser explorado segundo sua ordem hebraica ou segundo a ordem cristã?20 Alguns consideram essa questão de grande importância, mas a sua relevância é exagerada.21 Na minha opinião, os temas centrais da teologia do AT não são afetados dramaticamente se alguém segue a ordem hebraica ou a ordem usada nas traduções para o inglês. Suponho aqui que o leitor comum — que nem sequer conhece a ordem hebraica — não está em desvantagem ao tentar entender a teologia do AT. Logo, neste livro, sigo a ordem da Bíblia protestante, conforme a tradição inglesa. Devo também observar que a minha abordagem de vários livros é diferente. Alguns livros são examinados cronologicamente; outros, tematicamente; já nos Salmos, a ordem canônica dos livros é explorada. Não estou sugerindo, em nenhum caso específico, que a abordagem aqui adotada seja a correta. Eu simplesmente sustentaria que é uma maneira produtiva de examinarmos a mensagem das Escrituras.

Veja Kruger, Canon Revisited, para ter acesso a uma obra importante sobre este tópico. A abordagem canônica é bem conhecida pela obra pioneira de Brevard Childs. Para ter acesso a uma abordagem similar, veja Rendtorff, Canonical Hebrew Bible. Para conhecer uma interpretação bem diferente, veja Brueggemann, Theology of the Old Testament [edição em português: Teologia do Antigo Testamento]. Brueggemann adota uma abordagem pós-moderna, na qual a interpretação cristã não é privilegiada. Obviamente, este livro segue uma direção muito diferente. Muito embora Brueggemann alardeie seguir o pós-modernismo, sua obra apresenta uma série de afirmações positivistas, dogmáticas e modernistas, não deixando de apresentar muitas ideias interessantes. Não nego que a posição pós-moderna tenha descoberto muitos problemas na agenda modernista. Minha sugestão é que o caminho a ser seguido seja o pressuposto da verdade da cosmovisão cristã e a autoridade, bem como a total veracidade das Escrituras. Para ter acesso a uma exposição completa dessa posição, veja Frame, A Doutrina do Conhecimento de Deus; idem, A Doutrina da Palavra de Deus. A minha obra se assemelha à de Brueggemann no sentido de que não procuro aqui investigar a verdade histórica do AT, muito embora eu creia que o AT seja historicamente confiável. 20 A tendência é examinar o AT na ordem do hebraico. Para ter acesso a uma defesa robusta, veja Seitz, Fellowship of the Prophets. Veja também Hamilton, God’s Glory in Salvation, p. 59-63; Gentry e Wellum, Kingdom through Covenant, p. 95n308. O fato de os Escritos não estarem na mesma ordem em todas as listas indica que a ordem não é tão crucial quanto muitos alegam. 21 Childs afirma: “Na minha opinião, existem vários pressupostos não confirmados neste argumento para que ele seja levado muito a sério. Uma linha mais produtiva de investigação seria explorar o efeito da uma ordenação canônica sobre a leitura dos livros e as diferentes teologias envolvidas na disposição canônica das Bíblias grega e hebraica” (Old Testament as Scripture, p. 564). 18 19

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Abreviaturas Gerais cap(s). cf. e.g. esp. ibid. idem i.e. par(s). p. rev. v.

capítulo(s) comparar por exemplo especialmente na mesma fonte pelo mesmo autor isto é paralelo(s) página(s) revisado/revisto versículo(s)

Divisões do cânon NT Novo Testamento AT Antigo Testamento Versões antigas LXX Septuaginta TM Texto Massorético Versões modernas A21 Almeida Século 21 ACF Almeida Corrigida e Fiel ARC Almeida Revista e Corrigida BJ Bíblia de Jerusalém ESV English Standard Version NAA Nova Almeida Atualizada NVI Nova Versão Internacional


Teologia bíblica do Antigo e do Novo Testamento

Bíblia Hebraica / Antigo Testamento Gn Gênesis Êx Êxodo Lv Levítico Nm Números Dt Deuteronômio Js Josué Jz Juízes Rt Rute 1–2Sm 1–2 Samuel 1–2Rs 1–2 Reis 1–2Cr 1–2 Crônicas Ed Esdras Ne Neemias Et Ester Jó Jó Sl Salmo(s) Pv Provérbios Ec Eclesiastes Ct Cântico dos Cânticos Is Isaías Jr Jeremias Lm Lamentações Ez Ezequiel Dn Daniel Os Oseias Jl Joel Am Amós Ob Obadias Jn Jonas Mq Miqueias Na Naum 22


Abreviaturas

Hc Sf Ag Zc Ml

Habacuque Sofonias Ageu Zacarias Malaquias

Novo Testamento Mt Mateus Mc Marcos Lc Lucas Jo João At Atos Rm Romanos 1–2Co 1–2 Coríntios Gl Gálatas Ef Efésios Fp Filipenses Cl Colossenses 1–2Ts 1–2 Tessalonicenses 1–2Tm 1–2 Timóteo Tt Tito Fm Filemom Hb Hebreus Tg Tiago 1–2Pe 1–2 Pedro 1–3Jo 1–3 João Jd Judas Ap Apocalipse Apócrifos e Septuaginta 1–4Mac. 1–4 Macabeus Sir. Sirácida ou Eclesiástico Sab. Sabedoria de Salomão 23


Teologia bíblica do Antigo e do Novo Testamento

Pseudepígrafos do Antigo Testamento Sl. Sal. Salmos de Salomão Mishná e Talmude m. Mishná ’Abot ‘Abot Sukkah Sukkah Fontes secundárias AB Anchor Bible AUMSR Andrews University Monographs: Studies in Religion BibJudS Biblical and Judaic Studies BibOr Biblica et orientalia BibSem Biblical Seminar BST The Bible Speaks Today BTB Biblical Theology Bulletin BTCP Biblical Theology for Christian Proclamation BTNT Biblical Theology of the New Testament BZAW Beihefte zur Zeitschrift für die alttestamentliche Wissenschaft CAT Comentários do Antigo Testamento CBQ Catholic Biblical Quarterly CC Continental Commentaries CEP Contemporary Evangelical Perspectives ConBNT Coniectanea biblica: New Testament Series ETBAT Estudos sobre a Teologia Bíblica do Antigo Testamento ExpTim Expository Times FBBS Facet Books: Biblical Series FFNT Foundation and Facets: New Testament GDNES Gorgias Dissertations: Near East Series GTJ Grace Theological Journal HBSt Herders biblische Studien HS Hebrew Studies HSM Harvard Semitic Monographs 24


Abreviaturas

IBC Interpretation: A Bible Commentary for Teaching and Preaching Int Interpretation ITC International Theological Commentary JBL Journal of Biblical Literature JETS Journal of the Evangelical Theological Society JPSTC JPS Torah Commentary JPTSup Journal of Pentecostal Theology: Supplement Series JRH Journal of Religious History JSNTSup Journal for the Study of the New Testament: Supplement Series JSOT Journal for the Study of the Old Testament JSOTSup Journal for the Study of the Old Testament: Supplement Series LS Louvain Studies NAC New American Commentary NICNT New International Commentary on the New Testament NICOT New International Commentary on the Old Testament NIVAC NIV Application Commentary NovT Novum Testamentum NovTSup Novum Testamentum Supplements NSBT New Studies in Biblical Theology NTS New Testament Studies NTT New Testament Theology NVBS New Voices in Biblical Studies OBT Overtures to Biblical Theology OTL Old Testament Library PBM Paternoster Biblical Monographs RB Revue biblique SBJT Southern Baptist Journal of Theology SBLAB Society of Biblical Literature Academia Biblica SBLDS Society of Biblical Literature Dissertation Series SBLSymS Society of Biblical Literature Symposium Series SBT Studies in Biblical Theology SCB Série Cultura Bíblica SJT Scottish Journal of Theology 25


Teologia bíblica do Antigo e do Novo Testamento

SNTSMS Society for New Testament Studies Monograph Series SNTW Studies of the New Testament and Its World TJ Trinity Journal TOTC Tyndale Old Testament Commentaries TynBul Tyndale Bulletin VT Vetus Testamentum VTSup Supplements to Vetus Testamentum WBC Word Biblical Commentary WTJ Westminster Theological Journal WUNT Wissenschaftliche Untersuchungen zum Neuen Testament ZECNT Zondervan Exegetical Commentary: New Testament

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Parte 1

Da criação aos limites de Canaã


Capítulo 1

Gênesis

A criação A história inicia onde começa o livro de Gênesis, com a criação dos céus e da terra (1.1).1 Não há reflexão sobre o que Deus fazia antes da criação, nem o autor relata a criação dos anjos. Questões especulativas não interessam ao autor de Gênesis.2 O primeiro relato da criação (1.1–2.3) anuncia a majestade e o poder de Deus, pois com a sua palavra ele cria e ordena o mundo em seis dias. Umberto Cassuto resume a mensagem da criação do mundo por Deus: Não muitos deuses, mas um só Deus; não teogonia, pois um deus não tem árvore genealógica, nem guerras, nem contendas, nem choque de vontades, mas apenas Uma Vontade, a qual governa tudo, sem a menor restrição ou impedimento; não uma divindade associada à natureza e identificada com ela total ou parcialmente, mas um Deus que está absolutamente acima da natureza e fora dela, e a natureza e todos os seus elementos constituintes, até mesmo o Sol e todas as outras entidades, jamais devem ser sobremaneira exaltados, pois não passam de suas criaturas, feitas de acordo com a sua vontade.3

A simplicidade e a profundidade do poder criador de Deus são evidentes porque todas as coisas vêm à existência pela sua palavra.4 Como declara o Salmo 33.6: “Os 1 Em defesa desta interpretação de Gênesis 1.1, veja Cassuto, From Adam to Noah, p. 20; Wenham, Genesis 1–15, p. 11-15. Veja também Von Rad, Genesis, p. 48-49. Von Rad afirma: “É impressionante observarmos a firmeza com que o pequeno Israel se demarcou a partir de um ambiente hostil de mitos cosmológicos e teogônicos” (p. 49). 2 Está claro que Deus criou o mundo meticulosamente e com sabedoria (Pv 8.22-31). Veja Goldingay, Israel’s Gospel, p. 43-49. 3 Cassuto, From Adam to Noah, p. 8. 4 Von Rad afirma: “Gênesis 1 apresenta as consequências da reflexão teológica e cosmológica concentradas em um linguajar que é conciso e sempre completamente direto na sua forma de expressão” (Israel’s Historical Traditions, p. 141). Veja também os comentários na p. 142.


Da criação aos limites de Canaã

céus por sua palavra se fizeram, e, pelo sopro de sua boca, o exército deles.”5 A criação por Deus de todo o universo comunica a sua soberania e senhorio, pois o Criador de todos é também o Senhor de todos. O relato da criação em Gênesis também difere dos relatos da criação nas culturas circundantes do Antigo Oriente Próximo, já que o único Deus é o Criador de todas as coisas.6 Ao criar o mundo, Yahweh mostra a sua soberania sobre todas as outras potestades e deuses (Sl 74.12-14; 89.5-13).7 A implicação da criação, como afirma Paul House, é que “Deus não tem rivais. Deus tem jurisdição sobre todas as pessoas e coisas criadas”.8 Como declarou Jeremias: “Os deuses que não fizeram os céus e a terra desaparecerão da terra e de debaixo destes céus” (Jr 10.11). O Salmo 96.5 ecoa o mesmo tema: “Porque todos os deuses dos povos não passam de ídolos; o Senhor, porém, fez os céus.” O criador de todos é também o Rei de todos, e seu senhorio se estende por um lugar — um reino. Como afirma Gerhard von Rad: “Se o mundo foi chamado a existir pelo livre-arbítrio de Deus, é sua própria posse, e Deus é seu Senhor.”9 Ele é o Rei do cosmos criado. Portanto, a criação do universo demonstra que Deus é o Senhor de todo o mundo, e que seu senhorio não se limitará a Israel.10 Como Deus é o Criador, segue-se que “a criação existe para o louvor e a glória de seu Deus Criador”.11 “A terra está cheia da glória de Deus [cf. Sl 24.1] porque o que enche a terra constitui a sua glória.”12 Em outras palavras, vemos a glória de Deus quando nos deleitamos no mundo que ele criou, refletimos sobre ele e o desfrutamos.13 O poder criador de Deus corrobora a noção de que “Gênesis descreve a obra de Deus em termos régios, mesmo Sobre o poder da palavra de Deus, veja Goldingay, Israel’s Gospel, p. 49-52. House, Old Testament Theology, p. 60 [edição em português: Teologia do Antigo Testamento]. Para ter acesso a uma análise desta questão, veja Waltke, Old Testament Theology, p. 197-203 [edição em português: Teologia do Antigo Testamento]. Veja também Collins, Genesis 1–4. Contrário a Brueggemann (Theology of the Old Testament, p. 158-59), que defende a criação por Deus ex nihilo. 7 Veja Goldingay, Israel’s Gospel, p. 64-75. 8 House, Old Testament Theology. 9 Von Rad, Israel’s Historical Traditions, p. 143. 10 Veja Childs, Old Testament as Scripture, p. 155. 11 C. Wright, Old Testament Ethics, p. 114. 12 Ibid., p. 115. 13 “Mas a criação não somente declara a glória de Deus (Sl 19.1); a plenitude da criação também é parte essencial dessa glória” (ibid., p. 116). 5 6

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sem usar a palavra ‘rei’”.14 A sabedoria, o poder e a bondade de Deus ao criar o mundo demonstram a sua soberania sobre todas as coisas (veja Sl 145). Ao ler o relato da criação, como devemos interpretar o “façamos” de Gênesis 1.26? Alguns argumentaram que se trata de um pluralis majestatis (plural majestático), ou que o termo inclui os anjos ou a assembleia celestial.15 É duvidoso que o autor tenha pensado especificamente na Trindade ao usar essa expressão, ou que os primeiros leitores israelitas tenham lido o texto dessa maneira, pois a Trindade só é claramente revelada no NT. Desenvolvimentos recentes na hermenêutica, no entanto, corrigiram corretamente uma ênfase excessiva na intenção autoral.16 Os intérpretes das Sagradas Escrituras devem também considerar a forma canônica das Escrituras como um todo, o que significa que devemos levar em conta também o seu autor divino.17 O apelo a um autor divino também não abre porta à arbitrariedade ou à subjetividade, pois o significado do autor divino é comunicado por meio das palavras e do cânon das Escrituras. Não é produto da criatividade humana, mas está textualmente localizado e circunscrito. Uma abordagem canônica sustenta uma leitura trinitária, sugerida pelas palavras reais do texto e confirmada por todo o cânon.18 O papel do Espírito na criação é representado pelo seu “pairar sobre a face das águas” (Gn 1.2).19 O Salmo 33.6, citado acima, provavelmente alude à obra do Espírito, pois a palavra “sopro” é a mesma usada para “Espírito” (rûaḥ), de modo que é por isso que, nesse texto, o escritor atribui a criação do mundo ao Espírito.20 À luz da revelação do NT sobre a divindade do Espírito, há fundamento em ver o Espírito como Criador. O papel do Filho como Criador é ainda mais claro do ponto de vista canônico. O Evangelho de João começa assim: “No princípio” (Jo 1.1), uma alusão inconfundível a Gênesis 1.1. Outra alusão a Gênesis surge imediatamente, pois João 1.3 fala do papel do “Verbo” no início, afirmando que Ibid., p. 121. Sobre as opções, veja Waltke, Old Testament Theology, p. 212-15. Em apoio à ideia de que a assembleia celestial é compreendida aqui, veja Gentry, “Kingdom through Covenant”. 16 Veja, e.g., Hays, Echoes of Scripture. 17 Veja Poythress, God-Centered Biblical Interpretation. 18 Hermeneuticamente, estou sugerindo que o sentido do texto também deve ser investigado de forma canônica. Em outras palavras, nem Moisés nem os leitores originais conseguiam compreender por completo o significado do que é dito aqui. 19 Contra Von Rad, Genesis, p. 49; Goldingay, Israel’s Gospel, p. 82. 20 Mais uma vez, estou defendendo esta interpretação à luz da totalidade do cânon da Escritura. 14 15

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“todas as coisas foram feitas” por aquele que é o “Verbo”. Assim, o “Verbo” que levou a criação à existência (Gn 1.3, 6, 9, 11, 14, 20, 24, 26) é identificado como o Filho de Deus — Jesus, o Cristo (Jo 1.14). Logo, de uma perspectiva canônica, o “façamos” de Gênesis 1.26 deve ser entendido como uma referência à Trindade.21 A outra característica da criação em Gênesis 1.1–2.3 que deve ser considerada é a criação do homem e da mulher à imagem e semelhança de Deus (1.26-27). Claramente, este é o clímax da Criação, e os dias anteriores prenunciam a criação dos seres humanos no sexto dia.22 O que é particularmente impressionante é que o “homem” (ʾādām) é criado como macho e fêmea à imagem de Deus (1.27). Os teólogos há muito refletem sobre o significado e a importância da criação dos seres humanos à imagem de Deus. Se prestarmos atenção ao texto, a ênfase está nos seres humanos como vice-regentes da criação. Lemos o mandamento para os seres humanos em 1.28: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra.” Os seres humanos são feitos à imagem de Deus, na medida em que devem governar o mundo para Deus. A natureza régia dessa imagem é confirmada pelo uso de imagens do Antigo Oriente Próximo, onde “a imagem de um governante era colocada em partes distantes de seu reino para indicar que sua autoridade chegava lá”.23 Sem dúvida, outros elementos da imagem divina estão implícitos na ordem para governar.24 Mas o texto bíblico chama a atenção para os seres humanos como aqueles que têm a responsabilidade e o privilégio de subjugar o mundo por Deus. De acordo com Stephen Dempster: “O homem e a mulher, como rei e rainha da criação, devem exercer a regência sobre o seu domínio, cuja extensão é toda a terra.”25 Peter Gentry argumenta, com propriedade, em um estudo detalhado, que a imagem de Deus não é Veja House, Old Testament Theology, p. 61-62. Mas C. Wright (Old Testament Ethics, p. 126-27) adverte acertadamente que isto é malcompreendido caso os seres humanos pensem em si mesmos, e não em Deus, como o centro da criação. Ele também observa que existe um sentido no qual o descanso sabático é o clímax da obra criativa de Deus. 23 Alexander, Eden to the New Jerusalem, p. 78. Veja também Mathews, “Genesis”, p. 142; Dumbrell, Covenant and Creation, p. 34. 24 Veja Gentry e Wellum, Kingdom through Covenant, p. 613-16 [edição em português: O Reino de Deus através das Alianças de Deus]. 25 Dempster, Dominion and Dynasty, p. 59. C. Wright afirma: “O domínio humano sobre o restante da criação deve ser um exercício de realeza que reflita a realeza do próprio Deus” (Old Testament Ethics, p. 121). Posição similar pode também ser vista em Levenson, Persistence of Evil, p. 112-17. 21

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funcional aqui, mas ontológica, pois os seres humanos existem à imagem e semelhança de Deus porque são reis-servos e filhos de Deus; além disso, como consequência de terem sido criados à imagem de Deus, governam o mundo para Deus.26 A importância de os seres humanos serem criados à imagem de Deus não pode ser exagerada. De fato, os três temas centrais deste livro aparecem aqui mesmo. Deus é o Criador soberano que estende o seu reinado sobre o mundo. Todavia, ele estende seu governo por meio dos seres humanos; pois, como portadores da imagem de Deus, devem governar o mundo para a honra e a glória dele. Como Von Rad observa: “Deus colocou o homem no mundo como o sinal de sua própria autoridade soberana, para que o homem defendesse e fizesse valer as suas reivindicações — de Deus — como Senhor.”27 E seu domínio não é abstrato, pois o Reino de Deus deve ser implementado no mundo do espaço e do tempo, sobre a boa criação que Deus fez. Dempster une corretamente os temas de Gênesis 1: “Outra maneira de descrever essa ênfase no domínio e na dinastia humana seria a simples expressão ‘o Reino de Deus’”.28 De fato, há indícios de que os seres humanos atuavam como sacerdotes-reis.29 Adão recebe o mandamento de “cultivar e guardar” a terra (2.15). Esses dois verbos são frequentemente usados para descrever os sacerdotes e as suas tarefas no tabernáculo/templo (Nm 3.7-8; 8.25-26; 18.5-6; 1Cr 23.32; Ez 44.14). Adão deveria começar governando o jardim para Deus e, presumivelmente, estender o reinado de Deus sobre toda a terra.30 O sétimo dia da criação (Gn 2.1-3) se destaca porque nele Deus não cria, mas descansa, já que completou a sua obra criadora.31 O descanso de Deus desempenha um papel tematicamente importante no enredo da Bíblia. O descanso de Deus indica que “ele agora reinava sobre a criação para o bem de seu povo”.32 Segundo Josué, Israel goza de descanso de seus inimigos quando possui a terra que lhe foi prometida (Js 23.1). A observância do sábado de Israel também replica o descanso do Senhor no sétimo dia (Dt 5.12-15). O tema do descanso aponta para o refrigério e a alegria Gentry, “Kingdom through Covenant”, p. 22-33. Von Rad, Israel’s Historical Traditions, p. 146; cf. Von Rad, Genesis, p. 59-60. 28 Dempster, Dominion and Dynasty, p. 62. 29 Veja Beale, Church’s Mission, p. 66-70 [edição em português: O Templo e a Missão da Igreja]. 30 Ibid., p. 82-83. 31 O Senhor descansou porque havia terminado a sua obra (Goldingay, Israel’s Gospel, p. 127). 32 Hafemann, “Covenant Relationship”, p. 40. Veja também Kline, Kingdom Prologue, p. 23. 26 27

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encontrados na presença de Deus, pois o sétimo dia nunca termina.33 O descanso sabático de Deus, segundo os hebreus, encontra seu cumprimento na nova criação, na qual os crentes desfrutarão de um descanso celestial e eterno durante o eschaton (Hb 4.1-11). Meredith Kline observa que o descanso final ocorrerá após a vitória do Senhor sobre seus inimigos satânicos (Ap 19–20).34 Então, os seres humanos desfrutarão de comunhão com Deus e verão o Rei na sua formosura. O segundo relato da criação (Gn 2.4-25) complementa o primeiro, concentrando-se na criação do homem e da mulher e em sua responsabilidade única. O amor pactual especial de Deus pelos seres humanos é enfatizado pelo uso do termo “Yahweh”, enquanto o primeiro relato da criação, ao relatar a criação do cosmos, usava regularmente a palavra “Deus” (ʾĕlōhîm). O cuidado do Senhor para com os seres humanos é transmitido pelos termos usados em referência à criação do homem e da mulher. O Senhor “formou” o homem do pó e “soprou” vida nele (2.7). Além disso, moldou a mulher a partir da costela do homem (2.21-22). De acordo com Gênesis 1, o homem e a mulher, como aqueles que representam Deus, devem exibir sua imagem enquanto governam o mundo para Deus. Em Gênesis 2, esse governo começa no jardim que o Senhor plantara. O jardim é, conforme declara Dempster, “a sala do trono […] do reino”.35 O homem e a mulher devem “cultivá-lo e guardá-lo” (2.15). O jardim, como outros observaram, prefigura o tabernáculo (Êx 25–31) e, portanto, “era o lugar onde os seres humanos podiam desfrutar da comunhão e da presença de Deus”.36 “O paraíso era um santuário, um templo-jardim.”37 Desmond Alexander observa uma série de paralelos entre o tabernáculo/templo e o jardim:38 (1) o Senhor anda em ambos (Gn 3.8; Lv 26.12); (2) Dumbrell, Faith of Israel, p. 40. Kline, Kingdom Prologue, p. 23. 35 Dempster, Dominion and Dynasty, p. 62. 36 Sailhamer, Pentateuch as Narrative, p. 98. Veja Ezequiel 28.13. 37 Kline, Kingdom Prologue, p. 31. Ele prossegue afirmando: “O Jardim do Éden era uma versão terrena microcósmica do tempo cósmico, bem como o lugar de uma projeção local visível do templo celestial” (p. 32). 38 Alexander, Paradise to the Promised Land, p. 21-23 [edição em português: Do Paraíso à Terra Prometida]; idem, Eden to the New Jerusalem, p. 21-23. Veja também Beale, Church’s Mission, p. 66-80; Dumbrell, Faith of Israel, p. 19-20; Waltke, Genesis, p. 57-75 [edição em português: Gênesis]; Gentry e Wellum, Kingdom through Covenant, p. 211-16; Levenson, Sinai and Zion, p. 129. Levenson afirma que “o templo era concebido como um microcosmo, um mundo em miniatura”, e “o mundo […] como um macrotemplo” era “o palácio de Deus, no qual todos eram obedientes aos seus comandos” (Persistence of Evil, p. 86). 33 34

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tanto o Éden quanto o tabernáculo são guardados por querubins e acessados a partir do leste; (3) o candelabro pode simbolizar a árvore da vida (Gn 2.9; 3.22; Êx 25.3135);39 (4) os verbos usados em Gênesis 2.15 também são usados quanto à obra dos levitas no santuário (Nm 3.7-8; 18.5-6); (5) um rio vem do Éden e também flui do templo de Ezequiel (Gn 2.10; Ez 47.1-12); (6) as pedras encontradas no Éden também estão no tabernáculo (Gn 2.11-12; Êx 25.7, 11, 17, 31); (7) ambos estão em uma montanha, que é terra sagrada no Antigo Oriente Próximo. As imagens do templo indicam que “Deus tem o propósito de que o mundo se torne sua morada”.40 O homem e a mulher, no entanto, não exercem seu governo de forma autônoma. Estão sempre sujeitos à vontade de Deus.41 O Senhor derrama sobre eles a sua bondade, colocando-os num jardim idílico com árvores verdejantes das quais se alimentam. Ao mesmo tempo, o homem e a mulher revelariam sua submissão ao senhorio de Deus, recusando-se a comer da “árvore do conhecimento do bem e do mal” (Gn 2.17). De fato, participar dessa árvore trará a morte. A “árvore da vida” (Gn 2.9; 3.22, 24) prenuncia a alegria final dos seres humanos que conhecem o Senhor (Ap 22.2, 14, 19). O chamado à obediência prefigura a aliança mosaica, na qual o povo de Deus é convocado a guardar seus mandamentos, mostrando, assim, sua devoção a ele.42 A aliança de Deus está integralmente relacionada ao seu governo sobre o seu povo, pois a aliança de Deus com o seu povo envolve sempre uma relação.43 Além disso, um dos refrões da Escritura diz respeito à aliança, em que Deus promete: “serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo”, o que mostra que a aliança e o governo de Deus são pessoais.44 Jenson, Graded Holiness, p. 112. Alexander, Eden to the New Jerusalem, p. 26. 41 “Por um lado, o Rei soberano delega à humanidade a autoridade de governar debaixo dele. Por outro, a emissão de um mandamento por parte de Deus presume que o homem tem a capacidade moral de escolher livremente se obedecerá ou desobedecerá a Deus” (Waltke, Old Testament Theology, p. 259). 42 Os estudiosos há muito debatem se o relacionamento entre Deus e Adão e Eva era regido por uma aliança. Parece-me que os argumentos em defesa da ideia da aliança são mais convincentes. Veja Gentry, “Kingdom through Covenant”, p. 19-22; Gentry e Wellum, Kingdom through Covenant, p. 177-221; Dumbrell, Covenant and Creation, p. 15-26. Para ter acesso à posição contrária, veja Williamson, Sealed with an Oath, p. 52-58, 69-67 [edição em português: Selado com Juramento]. 43 Normalmente se reconhece que o relacionamento em uma aliança envolve a família. Veja Hahn, Kinship by Covenant, p. 59-67. 44 Veja Martens, “People of God”, p. 225. 39 40

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