

DO JARDIM GLÓRIA à
“Com sabedoria e entusiasmo, Courtney Doctor guia habilmente suas leitoras por meio de uma visão geral da Bíblia. Ela entrelaça, com beleza, profundas percepções teológicas e histórias envolventes, de um modo que torna este recurso proveitoso tanto para mulheres que caminham com o Senhor há anos quanto para aquelas que são novas na fé. Se você deseja compreender a história da Bíblia, então Do jardim à glória é para você.”
— Melissa Kruger, autora e vice-presidente do The Gospel Coalition
“Do jardim à glória é um maravilhoso convite para traçar a história abrangente da Bíblia do começo ao fim — e ainda ser transformada por essa história! Quer você seja uma nova cristã ou uma serva experiente, este livro encorajará sua caminhada com Cristo.”
— Ruth Chou Simons, autora de best-seller do Wall Street Journal, artista e fundadora da Grace Laced
“Se você já desejou compreender o panorama da Bíblia, este recurso irá ajudá-la a saber como fazê-lo! Baseado em uma sólida compreensão da Bíblia e da teologia, e repleto de ilustrações práticas, Do jardim à glória conduzirá você pela história abrangente que percorre toda a Escritura, de uma extremidade à outra. Ele o ajudará a conhecer melhor a Bíblia e lhe dará uma maior compreensão de Deus, de seu propósito glorioso para o mundo e de como sua vida se relaciona com esse propósito. É, ao mesmo tempo, útil e esperançoso, e aqueles que o estudarem colherão ricas recompensas!”
— Jay Sklar, professor de Antigo Testamento no Covenant Theological Seminary
“Do jardim à glória ajudará você a compreender melhor a história da Bíblia, para que possa conhecer e amar o Autor por trás de cada palavra. Ao nos inserir na história redentora de Deus, Courtney nos encoraja
amorosamente a valorizar e viver suas verdades. Este é um recurso incrivelmente útil, ao qual recorrerei e recomendarei com frequência.”
— Hunter Beless, fundadora do Journeywomen Ministries; autora de Read it, See it, Say it, Sing it! e Amy Carmichael: The Brown-Eyed Girl Who Learned to Pray

DO JARDIM GLÓRIA à
Como o enredo da Bíblia
transforma a nossa história
COURTNEY DOCTOR
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Doctor, Courtney
Do jardim à glória : como o enredo da Bíblia transforma a nossa história / Courtney Doctor ; tradução Willian Orlandi. -- São José dos Campos, SP : Editora Fiel, 2025.
Título original: From garden to glory.
ISBN 978-65-5723-448-8
1. Bíblia - Estudos 2. Bíblia - Teologia 3. Deus - Ensino bíblico 4. Redenção - Cristianismo I. Título. 25-320903.0
CDD-220.07
Elaborado po Eliete Marques da Silva - CRB-8/9380
Do Jardim à Glória: como o enredo da Bíblia transforma a nossa história
Traduzido do original em inglês
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Copyright © 2024 por Courtney Doctor
Todos os direitos reservados.
• Originalmente publicado em inglês por Harvest House Publishers Eugene, Oregon 97408 www.harvesthousepublishers.com
Copyright © 2025 Editora Fiel Primeira edição em português: 2026
Todos os direitos em língua portuguesa reservados por Editora Fiel da Missão Evangélica Literária.
PROIBIDA A REPRODUÇÃO DESTE LIVRO POR QUAISQUER MEIOS, SEM A PERMISSÃO ESCRITA DOS EDITORES, SALVO EM BREVES CITAÇÕES, COM INDICAÇÃO DA FONTE.
Os textos das referências bíblicas foram extraídos da versão Almeida Revista e Atualizada, 2ª ed. (Sociedade Bíblica do Brasil), salvo indicação específica.
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Diretor: Tiago J. Santos Filho
Editor-chefe: Vinicius Musselman
Editora: Renata Cavalcanti
Coordenação Gráfica: Gisele Lemes
Tradução: Willian Orlandi
Preparação: Gabriel Lagos
Revisão de Provas: Zípora D. V. de Lima
Diagramação: Caio Duarte
Capa: Caio Duarte
ISBN brochura: 978-65-5723-448-8
ISBN e-book: 978-65-5723-447-1
Caixa Postal, 1601 CEP 12230-971
São José dos Campos-SP PABX.: (12) 3919-9999 www.editorafiel.com.br
Para minha mãe, Mary Ellen Randall. Você me mostrou como manter meus olhos no quadro maior e confiar naquele que sustenta toda a história, do começo ao fim.
Eu te amo.
“Porque o Senhor é bom, a sua misericórdia dura para sempre, e, de geração em geração, a sua fidelidade.”
— SalmoS 100.5
AGRADECIMENTOS
Este livro foi originalmente escrito como um estudo publicado em 2016. Eu queria escrever aquele estudo desde a minha primeira aula no Covenant Theological Seminary, no outono de 2010 — Teologia do Pacto. Cinco professores (Drs. C. J. [Jack] Collins, Brad Matthews, Greg Perry, Jay Sklar e Michael Williams) se revezaram em nos mostrar a beleza e a coerência da história bíblica. Minha dívida de gratidão começa com esses homens, mas se estende a todos os meus professores, que me ensinaram a usar o que aprendi naquela primeira aula.
Ao longo do caminho, tive muitos amigos e colaboradores que ofereceram apoio e encorajamento de maneiras extraordinárias, mas nenhum mais do que Bunny Hathaway. Sua perícia, olhos atentos e muitas horas de dedicação resultaram em mais beleza e clareza. Você tem sido uma verdadeira fonte de alegria e encorajamento nesta jornada. Tenho uma imensa dívida de gratidão com as mulheres do estudo bíblico de terça-feira de manhã na Kirk of the Hills — sua disposição em suportar, orar por mim e me encorajar durante este projeto de escrita foi uma verdadeira ajuda e bênção.
Stephen Estock, Karen Hodge e toda a equipe do CDM, obrigada pela disposição e bondade ao publicar primeiro o estudo. Vocês oraram pelo estudo e por mim. Vocês me encorajaram, apoiaram e ajudaram de tantas formas, e sempre serei grata por ter cooperado com vocês na primeira fase deste projeto.
Sou grata a Bob Hawkins e a toda a equipe da Harvest House pela disposição em transformar este estudo em um livro! Foi uma alegria trabalhar com vocês, e aguardo com expectativa nossa parceria no evangelho.
Com o mais profundo reconhecimento, quero agradecer a cada pessoa que já utilizou este material como estudo (alguns de vocês, várias vezes!).
Muitos entraram em contato com palavras de encorajamento e bondade que significaram muito para mim. Espero que este livro continue servindo bem a vocês.
Por fim, mas de forma alguma menos importante, quero agradecer à minha família. Sou profundamente grata por cada um de vocês e por todas as maneiras maravilhosas com que vocês tão bem demonstram me amar.
O meu cálice transborda!
“Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós, a ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre. Amém!”
— EféSioS 3.20-21
SUMÁRIO
.............................................................................................................15 Por que este livro? ...........................................................................................17
Seu convite para participar do maior drama de todos os tempos .........21
1. CliffsNotes..........................................................................................25
2. Era uma vez ......................................................................................45
3. Mas então uma serpente maligna... .............................................65
4. O coração do nosso Rei .................................................................91
5. Um reino de sacerdotes .................................................................111
6. Uma habitação para o Rei..............................................................133
7. O herói chega ...................................................................................155
8. Os 50 dias mais importantes de toda a história ........................181
9. Esperando o nosso Rei voltar .......................................................203
10. Felizes para sempre .........................................................................227
PREFÁCIO
NANCY GUTHRIE
A voz coletiva do mundo ao nosso redor e a voz instintiva dentro de nós nos ensinam a pensar e dizer: “Minha vida gira em torno de mim — quem eu sou, o que farei, o que realizarei e me tornarei.” Pensamos que isso é fortalecedor e libertador. No entanto, também pode ser desanimador. A verdade é que somos limitadas. Nossa vida é frágil. Nós falhamos. Por isso, é realmente uma boa notícia que nossa vida não seja definida por nossas próprias conquistas ou fracassos, pelo que fizemos acontecer ou pelo que nos aconteceu, pelo que consumimos ou pelo que nos consumiu.
A boa notícia do evangelho é que, se estamos unidas a Cristo, nossa vida é definida por quem Cristo é, pelo que Cristo realizou e ainda realizará no futuro. É a história dele que dá significado, propósito e esperança à nossa história. Isso significa que realmente precisamos conhecer a história dele. Precisamos entender como a sua história se desenvolveu até este ponto da história humana, onde estamos nela e o que ainda está por vir. É isso que Do jardim à glória faz por nós. Ele reúne nossos fragmentos de conhecimento bíblico em uma narrativa coesa que nos ajuda a compreender a Bíblia e a compreender nossa própria vida.
Neste livro, Courtney Doctor fundamenta, com competência, nosso entendimento sobre o que este mundo, ao mesmo tempo belo e caído, realmente é em relação ao que aconteceu no jardim do Éden. Ela ancora a compreensão sobre a nossa necessidade de salvação na salvação de Israel da escravidão no Egito. Ela alimenta nossa esperança de viver em um mundo sob um governo justo e um governante reto no dom de Deus, que providenciou um rei. Ela explica nosso anseio por um futuro, por um lar, pelo relacionamento no futuro lar e pelo relacionamento que Deus estabeleceu
para restaurar o seu povo, depois que este perdeu o lar e a comunhão no primeiro jardim.
Essa história antiga responde a algumas das questões mais significativas de nossa vida. Ela explica para o quê fomos criados e, portanto, por que sentimos tanta alegria quando cumprimos esse propósito. Ela também explica por que experimentamos tanta dor, frustração e tristeza nesta vida, mesmo enquanto direciona nossa esperança para um dia futuro em que essa dor, frustração e tristeza serão coisas do passado.
Toda boa história tem uma crise. E a crise dessa história é o impacto do pecado de Adão sobre toda a humanidade. Toda boa história também chega a um clímax. E, ah, que clímax incrível a história da Bíblia alcança na vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo! Em Do jardim à glória, recebemos mais do que uma noção vaga do que isso significa à medida que Courtney abre a cortina por trás da simples frase “Jesus salva”, permitindo-nos ver de forma específica como Jesus salva. Vemos o que significa para nós ele ser o Segundo Adão. Vemos como, em sua morte e ressurreição, ele nos reconciliou com Deus, nos redimiu da escravidão do pecado, ofereceu-se como sacrifício definitivo pelos pecados e venceu a serpente e o mal.
Ao ver o que Jesus fez para realizar nossa salvação em sua primeira vinda, nosso amor por ele aumenta. E, ao vislumbrar como ele nos trará a plenitude dessa salvação quando retornar, passamos a ansiar por ele! Dizemos: “Vem depressa, Senhor Jesus!”
Essa é uma história que culmina em glória — a glória pela qual ansiamos, a glória para a qual fomos criadas. Espero que você se encante com a maravilha da história que Courtney articula de forma tão clara nas páginas seguintes. Que ela sature seu pensamento sobre sua própria história, para que você veja mais claramente o que significa estar unida ao Senhor pela fé. Que aumente o seu anseio pela glória por vir. Na expectativa do jardim maior e da glória eterna que nos aguardam.
— Nancy Guthrie
POR QUE ESTE LIVRO?
Para muitas de nós, a Bíblia é um livro um tanto misterioso. Olhando para trás, percebo que, quando criança, eu era bastante supersticiosa em relação a ela. Eu tinha uma pequena Bíblia branca de couro, com zíper. Minha avó a trouxe para mim de Israel, o que só aumentava seu mistério. Eu a colocava em uma prateleira especial, sozinha, e certamente nunca punha outros livros sobre ela! Raramente a tirava daquela prateleira; mas, quando o fazia, abria-a com toda a cerimônia e esperava que, de algum modo, o “versículo mágico” aparecesse diante de mim. Eu tinha grande reverência pela Bíblia, mas nenhum amor por ela. Suspeitava que contivesse profundos mistérios e até tesouros, embora não tivesse ideia de seu assunto de fato. Agora, porém, sei que Deus nos deu a sua Palavra não para ser um mistério, e sim para revelar mistério.
Deus é misterioso, mas ele nos deu a sua Palavra para se revelar — para se dar a conhecer a nós. Ele não simplesmente faz uma lista de seus atributos para que soubéssemos a seu respeito (isto é: Eu sou santo, eterno, poderoso, bom, amoroso, etc.). Em vez disso, ele registrou uma história que tanto nos diz quem ele é quanto nos mostra como ele é. Por exemplo, ele nos diz que é “compassivo e misericordioso, tardio em irar-se e cheio de amor leal e fidelidade” (Êx 34.6, NVI), e então nos mostra, ao longo da história, que ele é compassivo, misericordioso amoroso e tardio em irar-se com os israelitas rebeldes — e, em última análise, conosco — ao enviar Jesus!
A Bíblia inteira é uma história sobre Deus, e ela nos foi dada para que pudéssemos conhecê-lo — não apenas saber sobre ele, mas conhecê-lo pessoalmente. A Bíblia é um livro feito para ser lido, compreendido, amado e aplicado. À medida que aprendemos sobre Deus, também aprendemos sobre nós. Descobrimos quem somos, quem fomos criadas para ser
e como devemos viver. Aprendemos que Deus é santo e nós não; que ele é onipotente e nós somos dependentes; que ele é o Redentor e nós somos aqueles que precisam de redenção. E aprendemos que, por termos sido criadas à sua imagem e por termos sido feitas para multiplicar essa imagem pelo mundo, temos significado, propósito e relevância. Ao lermos essa história, estamos aprendendo não apenas sobre Deus, mas também sobre nós mesmas, sobre o nosso propósito e até mesmo sobre o nosso destino final.
Ainda assim, quando se trata de ler a Bíblia, nem sempre é fácil saber por onde começar. Se não devemos simplesmente abri-la e esperar que o versículo perfeito apareça diante de nossos olhos, então como devemos nos aproximar dela? Minha esperança é que este livro nos ajude a responder a essa pergunta. Este é um panorama da história completa que a Bíblia conta — uma história que começa em um jardim e termina em glória. É uma visão panorâmica, de “30 mil pés de altura”, sobre o grande enredo da redenção. Vamos “sobrevoar” a história de tal forma que possamos contemplá-la em sua totalidade, do início ao fim.
Cada capítulo traz uma passagem bíblica para você memorizar. Há, no final do livro, uma página na qual você terá a oportunidade de escrever cada passagem de memória. Memorizar esses versículos ajudará você a esconder a Palavra de Deus no coração, além de capacitá-la a lembrar e compartilhar mais facilmente com outros a história redentora de Deus.
Ao olharmos para a história sob essa perspectiva panorâmica de 30 mil pés, oro para que quatro coisas aconteçam. Primeiro, que a Bíblia se torne menos misteriosa e mais amada à medida que aprendemos a lê-la como a história que de fato é. As partes individuais só farão sentido quando forem lidas à luz da história inteira. Segundo, que sua fome pela Palavra de Deus cresça conforme você descobre como essa história é surpreendente e brilhante. Veremos como ela começou, como termina e como as partes entre um ponto e outro se encaixam. Espero que você experimente uma
centelha que acenda uma paixão pelo estudo da Palavra de Deus, além de receber uma ferramenta que a capacite nesse estudo. Terceiro, oro para que você chegue a uma compreensão maior do seu próprio valor e significado, enquanto cresce no reconhecimento de como sua vida está envolvida nessa história. O Autor convida você a conhecer essa grande história, a entrar nela e compartilhá-la com outros, porque essa história também é a sua. Essa história existe para transformar a sua. E, em quarto lugar, oro para que o Deus da Bíblia — Pai, Filho e Espírito Santo — seja exaltado, proclamado e adorado por causa do nosso tempo juntos em sua Palavra.
SEU CONVITE PARA
PARTICIPAR DO MAIOR DRAMA
DE
TODOS OS TEMPOS
Se você já assistiu ao filme A paixão de Cristo, sabe que ele desperta fortes emoções e conta a história das últimas 24 horas brutais que cercaram a crucificação de Jesus. Quando foi lançado, a maioria das pessoas ficou tão impactada pela representação dos sofrimentos de Cristo que deixou o cinema em silêncio ou em lágrimas — ou ambos. Alguns disseram que não conseguiram (ou não puderam) conversar com ninguém até o dia seguinte. Mas nem todos reagiram assim. Um jovem, ao ser entrevistado sobre sua impressão do filme, refletiu sinceramente e declarou: “Acho que foi bom, mas não tinha muita trama.” À primeira vista, isso pode parecer engraçado para alguns de nós, mas, quando deixamos o comentário assentar, soa trágico. E, de certa forma, ele tem razão.
Se você cresceu na igreja ou frequentou a escola dominical quando criança, ao assistir ao filme A paixão de Cristo, já entrou no cinema sabendo que ele estava retomando uma narrativa que vinha de muito antes. Você conhecia boa parte da história de fundo. Todavia, para aquele jovem, foi como assistir a Enrolados (a versão da Disney da história de Rapunzel) e ver apenas a parte em que Rapunzel é resgatada da torre. Se você não soubesse por que ela estava na torre desde o início ou o que aconteceria com ela depois de sair de lá, sua compreensão ficaria empobrecida. Ou seria como assistir a O Senhor dos Anéis e ver apenas a cena em que Frodo e Sam sobem com dificuldade a montanha para lançar o anel na fornalha de fogo. Por certo, você ficaria se perguntando por que a luta era tão árdua e por que destruir o anel era tão necessário.
Talvez você não tenha crescido ouvindo aquilo que Paul Harvey chamava de “o resto da história” e, assim como aquele jovem espectador, se pergunte que diferença pode fazer para você a morte horrível e brutal de um homem numa cruz há mais de dois mil anos. Bem, se esse é o seu caso, eu tenho uma história para contar!
Entretanto, para aquelas de nós que cresceram ouvindo a história completa, antes de rirmos ou revirarmos os olhos diante do comentário desse jovem, precisamos parar e pensar em como, tantas vezes, explicamos nossa fé cristã aos outros de um modo que perpetua essa versão reduzida da história. Se você é como eu, provavelmente foi ensinada a compartilhar sua fé dizendo: “Jesus morreu na cruz para nos perdoar dos pecados e nos levar para viver com ele no céu por toda a eternidade.” E isso é verdade. Mas está longe de ser tudo! Estamos vivendo no meio do maior drama de todos os tempos, e a Bíblia é o registro de como essa grande história começou — e de como ela terminará.
Herman Bavinck, teólogo holandês do século XIX, resumiu assim: “A essência da religião cristã é esta: a criação do Pai, devastada pelo pecado, é restaurada pela morte do Filho de Deus e recriada pelo Espírito Santo no reino de Deus.”1 Percebe o que Bavinck fez? Ele começou com a criação e terminou com o reino de Deus consumado; começou no jardim e terminou na glória. Ele estava dizendo que essa grande história envolve Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo. Mostrou que a criação original era muito boa, e a recriação final será muito, muito boa — mas que algo, a saber, o pecado, devastou aquela boa criação. Podemos ver que algo precisava acontecer para resgatar e restaurar aquela criação original. E essa é a
1 Herman Bavinck, Reformed Dogmatics, Volume 1 (Grand Rapids: Baker, 2008), p. 112. [Edição em português: Herman Bavinck, Dogmática reformada (São Paulo: Cultura Cristã, 2019).]
história da redenção — Deus agindo por meio de eventos reais e pessoas reais para a salvação de seu povo!
Antes de começarmos, deixe-me dar uma palavra de advertência: por favor, não pense que, ao chamar isso de uma história, estou dizendo que não é verdade. Às vezes, a palavra história é usada para se referir a algo inventado ou fantasioso. Outras vezes, é usada para significar uma mentira (“Você acabou de inventar uma história?”). Mas história também pode ser usada para significar um relato fiel de algo que realmente aconteceu (“Já lhe contei a história das nossas férias malucas de verão?”). É nesse último sentido que chamo o grande drama da redenção de uma história — não apenas uma história, mas a história, aquela na qual nossas próprias vidas estão ancoradas.
No entanto, nem por um instante pense que você pode simplesmente sentar-se e apreciar o espetáculo. Este drama a convida a entrar, chama você para o palco e a transforma em um de seus inúmeros participantes. Então, sem mais demora, que as luzes se apaguem e a cortina se levante. Prepare-se para o maior drama de todos os tempos.
CAPÍTU lo 1
CLIFFSNOTES
Memorização das Escrituras
“Porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens [santos] falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo.” (2Pe 1.21)
Oração
“Invoca-me, e te responderei; anunciar-te-ei coisas grandes e ocultas, que não sabes” (Jr 33.3). Pai, abre meu coração e meus olhos para as maravilhas da tua Palavra e para as glórias da tua obra.
Quando eu era criança, as férias em família eram ótimas. Mas o processo de sair de casa para começar a viagem não era tão bom assim. Normalmente, meu irmão e eu ficávamos animados, ansiosos para partir. Meu pai ficava focado no objetivo: colocar todo mundo no carro e pegar a estrada. Minha mãe corria pela casa certificando-se de que a cafeteira estava desligada, as janelas, trancadas, o aspirador, guardado e as almofadas, arrumadas. Por fim, chegava o momento em que todos estávamos no carro, prontos para partir! Ou, pelo menos, era o que pensávamos. Inevitavelmente, antes mesmo de sairmos da garagem, meu pai parava e olhava o mapa (isso foi muito antes do GPS) mais uma vez, para ter certeza de que sabia exatamente para onde estávamos indo.
Este primeiro capítulo é um pouco assim. Você está aqui, pronta para começar. Porém, antes de “pegarmos a estrada” (no Capítulo 2), vamos parar e ter certeza de que estamos devidamente orientadas. Precisamos “olhar o mapa” antes de seguir viagem.
Quando você estava no ensino médio, chegou a usar o CliffsNotes (aqueles resumos práticos de obras literárias feitos para estudantes) para ajudá-la a passar em alguma aula de inglês? Se você era como eu, provavelmente os usava pelas razões erradas — principalmente para não precisar ler de fato o livro que havia sido designado. Mas o fato de talvez termos utilizado essa ferramenta de forma errada não significa que ela não tinha um propósito útil.
Os CliffsNotes eram escritos para fornecer um quadro de referência que ajudasse a compreender um livro. Costumavam começar com alguns elementos fundamentais — informações sobre o autor, o contexto, o gênero, os principais temas e o propósito da obra — e depois faziam um resumo dos capítulos. É exatamente assim que vamos começar este estudo.
O Capítulo 1 é como ler um guia CliffsNotes para a Bíblia. Vamos considerar o Autor (e autores), o contexto, o gênero, os resumos da trama e o propósito da Bíblia, a fim de termos uma estrutura que nos ajude a entender melhor a história que ela conta.
Autor(es)
Você já teve a sensação, ao ler um livro, de quase conseguir ouvir a voz do autor? Ou talvez isso tenha acontecido quando você recebeu uma carta de um amigo querido. Enquanto lia, parecia ouvir a própria voz de quem a escreveu.
Quando leio um livro, se não conheço pessoalmente o autor, gosto de saber algo sobre ele. Se estou lendo um livro de teologia, quero saber no
que o autor crê ou talvez um pouco sobre sua vida. Conhecer algo sobre o autor influencia a forma como lemos sua obra.
O mesmo acontece com a Bíblia. Mas isso pode ser um pouco mais complicado, porque, quando falamos do autor das Escrituras, podemos nos referir tanto ao Autor divino (Deus) quanto aos homens que colocaram as palavras no papel (Moisés, Davi, Paulo, Pedro etc.). Na qualidade de Palavra viva de Deus, a Bíblia é diferente de qualquer outro livro que lemos. Ela não é apenas obra de um ser humano ou mesmo de um grupo de seres humanos. A Bíblia foi inspirada por Deus (isto é, o próprio Deus falou essas palavras). Em 2 Timóteo 3.16, lemos que “toda Escritura é inspirada por Deus”. Mas ela foi escrita por diversos homens ao longo de mais de mil anos. Em 2 Pedro 1.21, o apóstolo escreveu: “Porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens [santos] falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo.”
Esses homens, porém, fizeram muito mais do que simplesmente transcrever mecanicamente as palavras de Deus. Parte do milagre e do mistério da Bíblia é que Deus usou homens comuns — suas personalidades individuais, experiências de vida únicas e diferentes contextos culturais — para registrar seus próprios pensamentos e palavras. Deus sempre permitiu que seu povo participasse de seus propósitos.
Enquanto estamos ainda em nossa garagem imaginária, orientando-nos para a jornada, essa é uma verdade fundamental que precisamos conhecer. Ela moldará nossa compreensão sobre o que exatamente estamos lendo, como devemos ler e como devemos responder. Conforme disse Moisés: “Porque esta palavra não é para vós outros coisa vã; antes, é a vossa vida” (Dt 32.47). E por quê? Porque são as palavras do próprio Deus!
Uma das verdades mais confortadoras sobre saber que Deus é o Autor divino de cada palavra das Escrituras está em Isaías 46.9-10, onde Deus declarou:
Eu sou Deus, e não há outro, eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim; que desde o princípio anuncio o que há de acontecer e desde a antiguidade, as coisas que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade.
Somente o autor de uma história pode saber para onde a narrativa caminha antes mesmo de começar a escrevê-la. É a vontade e a intenção do autor que conduzem a história do começo ao fim. O Autor desse livro maravilhoso está em seu trono a cada página e em cada momento de cada dia. Deus sabe para onde a história caminha, e cumprirá todos os seus propósitos. Isso é verdade não apenas em relação à grande história da redenção (Deus conhecia o fim antes de começar), mas também em relação às nossas vidas individuais. Ele está tecendo uma grande história de redenção para todos os seus filhos, e também está tecendo uma grande história de sua graça para você. Deus sabe para onde a sua história caminha e pretende fazer com que todas as coisas cooperem para o seu bem (Rm 8.28-39), como só um Autor divino poderia fazer.
Cenário
Tenho um amigo que é arqueólogo. Ele é como um Indiana Jones dos dias atuais e já passou bastante tempo em diferentes partes do mundo escavando em busca de artefatos. Se ele encontrasse uma moeda romana durante uma escavação, quais fatores influenciariam as conclusões que poderia tirar sobre essa moeda?
Para começar, a localização geográfica teria importância. Uma moeda romana encontrada no Egito significa algo diferente de uma moeda romana encontrada no Texas. Além disso, a camada da escavação também faria diferença. Se ele encontrasse a moeda em uma camada onde tudo ao redor fosse do século XIX, suas conclusões seriam diferentes das que teria
se a moeda estivesse em uma camada do primeiro século. O contexto geográfico de sua descoberta moldaria sua compreensão dela.
A realidade histórica também importa. Se meu amigo dissesse que encontrou os restos de um unicórnio, o que você pensaria? A maioria de nós diria: “Espere um minuto. Um unicórnio?” Pensaríamos que ele tinha perdido a razão! Por quê? Porque sabemos que unicórnios são mitológicos e que, em uma escavação arqueológica, ele só poderia encontrar coisas que foram reais em determinado tempo e lugar. Um arqueólogo só pode desenterrar restos de coisas que de fato existiram em certo lugar e época. Portanto, a realidade histórica também é uma chave essencial para suas descobertas.
Assim como acontece com meu amigo em suas escavações, várias coisas são importantes para nós conforme estudamos para compreender Deus e sua Palavra. Uma delas é a realidade histórica da Bíblia — Deus age em pessoas reais, em lugares reais, em tempos reais, em cenários reais!
Como afirmou Michael Williams em uma aula que frequentei: “Os autores bíblicos […] sabiam que fé sem fatos históricos e reais não é fé, mas mera superstição.”1
É importante ter isso em mente, porque precisamos saber que a revelação de Deus para nós está enraizada em acontecimentos que realmente ocorreram! Podemos ser salvas porque um homem real realmente nasceu, realmente morreu e realmente ressuscitou. Paulo nos lembrou disso ao dizer: “E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã, a vossa fé” (1Co 15.14). Paulo estava afirmando que, se a crucificação e a ressurreição não tivessem de fato acontecido com um homem real (Jesus), em um momento real da história (por volta do ano 33 d.C.), em
1 Conforme Michael D. Williams. Esta citação é registrada aqui da melhor forma que consigo me recordar.
um lugar real (fora da cidade de Jerusalém), então a nossa fé seria inútil. Isso mostra o quanto o cenário histórico da Bíblia é algo essencial!
Se não dedicarmos algum tempo para ancorar a história das “obras de Deus em nosso mundo” em cenários de tempo e lugares reais, então iremos ler a Bíblia como uma coleção de histórias moralistas que podem ou não ter acontecido. Ou como mitologia, que nada mais faz do que ilustrar as consequências de comportamentos bons ou maus. Em histórias assim, sem ancoragem, Deus e suas ações em nosso favor podem se tornar como aquele unicórnio — uma ideia divertida, mas nada que precisemos levar a sério. No entanto, louvado seja Deus, os eventos narrados na Bíblia realmente aconteceram em locais que podemos visitar. Isso significa que, ao lermos a Bíblia, não estamos apenas lendo boas ideias sobre como devemos viver, mas estamos lendo sobre um Deus vivo que age e trabalha por seu povo. E esse mesmo Deus continua a agir e a trabalhar por seu povo em nosso mundo real, hoje.
Na Introdução, eu disse que a história da redenção poderia ser resumida como Deus agindo por meio de eventos reais e pessoas reais para a salvação do seu povo. O Deus que criou todas as coisas não permanece distante, apenas lançando ideias moralistas sobre nós; pelo contrário, ele se envolve e entra em sua criação — ele age em nosso favor no tempo e no espaço reais!
Ao ler as Escrituras, você perceberá que Deus faz questão de mostrar aos seus leitores que o que está contando não é um mito. Ele nos fornece datas, nomes e fatos que ancoram sua Palavra em cenários históricos. Pense em como Deus orientou Moisés a começar o livro de Deuteronômio:
São estas as palavras que Moisés falou a todo o Israel, dalém do Jordão, no deserto, na Arabá, defronte do mar de Sufe, entre Parã, Tofel, Labã, Hazerote e Di-Zaabe. Jornada de onze dias há desde Horebe, pelo caminho da montanha de Seir, até
Cades-Barneia. Sucedeu que, no ano quadragésimo, no primeiro dia do undécimo mês, falou Moisés aos filhos de Israel, segundo tudo o que o Senhor lhe mandara a respeito deles, depois que feriu a Seom, rei dos amorreus, que habitava em Hesbom, e a Ogue, rei de Basã, que habitava em Astarote, em Edrei. (Dt 1.1-4)
Observe todos os detalhes que nos dão o cenário histórico: locais exatos, datas exatas e referências a outros eventos históricos. Dessa forma, Deus garante que saibamos que essa história está fundamentada na realidade. Ezequiel começa dizendo: “Aconteceu no trigésimo ano, no quinto dia do quarto mês, que, estando eu no meio dos exilados, junto ao rio Quebar, se abriram os céus, e eu tive visões de Deus” (Ez 1.1). Deus fez questão de nos situar tanto geograficamente quanto temporalmente antes de nos dar, por meio de Ezequiel, as grandes visões que revelou. Quando você lê a Bíblia e se depara com trechos que fornecem muitos detalhes específicos, pergunte a si mesma por que esses detalhes estão ali. Deus quer que saibamos que aquilo que foi registrado realmente aconteceu. É por isso que, no Evangelho de Lucas, antes de lermos sobre o nascimento de Jesus, encontramos:
Naqueles dias, foi publicado um decreto de César Augusto, convocando toda a população do império para recensear-se. Este, o primeiro recenseamento, foi feito quando Quirino era governador da Síria. (Lc 2.1-2)
Precisamos compreender que Deus age por meio e no meio dos acontecimentos humanos; o miraculoso acontece em meio ao corriqueiro — tanto no passado como ainda hoje.
Gênero
Se você já leu O Senhor dos Anéis, de Tolkien, duvido que tenha ficado frustrada por não conseguir encontrar a Terra-média no Google Maps. Provavelmente até sentiu medo quando Laracna (a aranha gigante) estava prestes a devorar Frodo (um hobbit) — mesmo sabendo que nenhum desses seres realmente existia. Por quê? Porque você sabia qual gênero estava lendo. O Senhor dos Anéis não é um livro histórico; é uma narrativa inventada, com personagens míticos e mágicos que encantam e capturam nossa imaginação. Saber o que você está lendo é uma parte importante de saber como ler.
Mas será que a Bíblia é como O Senhor dos Anéis — uma fantasia?
Não! Já vimos que nas Escrituras nos é fornecido um registro de eventos reais, pessoas reais e um Deus real falando, agindo e intervindo em tempo e lugares reais.
Então, qual é o gênero das Escrituras? Essa não é uma pergunta fácil de responder, porque a Bíblia contém diferentes gêneros. Os Salmos são poesia, o Novo Testamento contém cartas pessoais (epístolas), e os Provérbios são, bem… provérbios. Mas isso significa que a Bíblia é formada por partes fragmentadas e talvez até desconexas? Não!
O gênero abrangente das Escrituras, o gênero que mantém tudo unido como uma obra literária coerente, é a narrativa. A Bíblia é uma história — não uma história fictícia, mas ainda assim uma história —, uma só história, escrita ao longo de muitos séculos. Dentro dessa grande narrativa encontramos registros históricos (como 1 e 2 Crônicas), poesia (como os Salmos), narrativa histórica (como Êxodo) e vários outros tipos de literatura, porém o gênero abrangente é o narrativo.
Um dos meus livros favoritos, Uma misericórdia severa, de Sheldon Vanauken, é uma narrativa autobiográfica sobre o casamento do autor. Dentro da história, ele compartilha cartas que recebeu de seu grande
amigo, C. S. Lewis. Quando chego a essas cartas, não fico confusa, mesmo que o gênero tenha mudado. Entendo que devo lê-las dentro do enredo maior. E as cartas fazem muito mais sentido dentro da grande história que está sendo contada.
O mesmo acontece conosco quando encontramos diferentes gêneros dentro da grande narrativa da Bíblia. Eles fazem mais sentido quando os lemos como parte do todo. As cartas de Paulo não são documentos aleatórios e independentes. São cartas inseridas em uma história maior — e fazem mais sentido dentro dessa história. Os salmos de Davi não são canções arbitrárias. Eles contribuem para a história que está sendo narrada.
Deus poderia simplesmente ter documentado os fatos: que ele criou tudo bom, nós estragamos, e agora ele está consertando de novo. Mas ele não fez isso. Como mencionei na Introdução, Deus não apenas nos diz quem ele é; Deus nos mostra quem ele é por meio do que faz na história. Vou repetir: Deus não apenas nos diz quem ele é; também nos mostra quem ele é por meio do que faz. Ele tanto nos diz que é fiel quanto nos mostra a sua fidelidade por meio das histórias de homens e mulheres a quem ele perdoou, promessas que cumpriu e planos que levou à realização.
As histórias são poderosas. Todas nós somos mais impactadas por uma boa história do que por uma lista de fatos feita apenas para nos informar. Ao usar a narrativa, Deus nos mostra que seu objetivo principal não é meramente nos informar, mas nos transformar e nos convidar a participar da sua história. Não devemos conhecê-lo apenas de forma intelectual, mas de forma relacional — e, como resultado, devemos amá-lo de todo o coração, de toda a alma, de todo o entendimento e com todas as forças. A história nos ajuda a fazer isso.
Ao estudarmos essa grande história da redenção, minha oração é que possamos enxergar como as histórias de nossas vidas fazem parte da história maior de Deus. Você e sua vida estão longe de ser insignificantes
— você faz parte de algo grandioso e glorioso! À medida que vemos como a história prossegue de geração em geração, de pessoa em pessoa e de lugar em lugar, também veremos como ela continua a incluir a minha vida e a sua, hoje.
Resumos do enredo
Sua professora de redação já pediu para você escrever resumos de enredos? A minha já pediu, e eu era péssima nisso. Eu tinha muita dificuldade em decidir quais detalhes deveriam ser incluídos. Quais eventos do enredo eram cruciais? Quais não eram? No entanto, sem falhar, sempre que eu fazia o trabalho de escrever um resumo, acabava compreendendo melhor a história. Escrever um resumo significava que eu precisava conhecer o enredo principal e ser capaz de perceber como o autor cumpria seu propósito por meio do desenvolvimento da trama. Quando terminava, eu descobria que estava mais apta a explicar sobre o que era o livro.
Se alguém lhe perguntasse:
“Sobre o que é a Bíblia?”, o que você responderia? “Jesus” é sempre uma boa resposta, mas o que isso significaria para alguém que não sabe nada sobre ele? Lembre-se do homem de quem falei na Introdução — aquele que achou que A paixão de Cristo não tinha muito enredo. O que você poderia dizer a ele que o ajudaria a perceber que os eventos retratados no filme fazem parte de uma história muito maior? O filme mostra o ponto culminante da história, porém não é um resumo da história inteira. Ele narra uma semana específica no tempo, mas essa semana foi o clímax de milhares de anos de promessas e expectativas.
Você e sua vida estão
longe de ser insignificantes — você faz parte de algo grandioso e glorioso!
Da mesma forma, os efeitos contínuos daquela única semana mudaram o curso da história para sempre — incluindo nossa vida hoje. Se nos pedissem para escrever um resumo da história, não poderíamos começar com um bebê em uma manjedoura. Teríamos de começar em Gênesis 1, porque, como na maioria das histórias, os primeiros capítulos de um livro contêm informações-chave, como o cenário, os personagens e até o conflito.
No fim deste capítulo, vou pedir que você reserve um minuto para anotar o que pensa serem alguns dos principais eventos na narrativa bíblica. Pedirei que faça isso novamente no final do livro, para que tenha a oportunidade de comparar as duas respostas. Contudo, por ora, escolha alguns eventos da Bíblia e considere se eles poderiam ser momentos cruciais na narrativa. Se a história começa com Deus criando todas as coisas boas, qual poderia ser o próximo grande evento?
A própria Bíblia nos dá múltiplos resumos do enredo que nos ajudam a ver quais eventos o Autor considera momentos-chave. E é importante conhecer esses momentos principais não apenas a fim de que possamos resumir a história das Escrituras para nossa própria compreensão e para a compreensão dos outros, mas também para que saibamos tudo o que Deus fez — e respondamos a ele com fidelidade.
Em Josué 24, Deus relembrou ao povo, por meio de Josué, a sua história coletiva até aquele momento. Preste atenção ao que Deus considerou como momentos-chave, bem como à resposta que ele desejava deles:
Depois, reuniu Josué todas as tribos de Israel em Siquém e chamou os anciãos de Israel, os seus cabeças, os seus juízes e os seus oficiais; e eles se apresentaram diante de Deus. Então, Josué disse a todo o povo: Assim diz o Senhor, Deus de Israel: Antigamente, vossos pais, Tera , pai de Abraão e de Naor, habitaram dalém do Eufrates e
serviram a outros deuses. Eu, porém, tomei Abraão, vosso pai, dalém do rio e o fiz percorrer toda a terra de Canaã; também lhe multipliquei a descendência e lhe dei Isaque. A Isaque dei Jacó e Esaú e a Esaú dei em possessão as montanhas de Seir; porém Jacó e seus filhos desceram para o Egito. Então, enviei Moisés e Arão e feri o Egito com o que fiz no meio dele; e, depois, vos tirei de lá. Tirando eu vossos pais do Egito, viestes ao mar; os egípcios perseguiram vossos pais, com carros e com cavaleiros, até ao mar Vermelho. E, clamando vossos pais, o Senhor pôs escuridão entre vós e os egípcios, e trouxe o mar sobre estes, e o mar os cobriu; e os vossos olhos viram o que eu fiz no Egito. Então, habitastes no deserto por muito tempo. Daí eu vos trouxe à terra dos amorreus, que habitavam dalém do Jordão, os quais pelejaram contra vós outros; porém os entreguei nas vossas mãos, e possuístes a sua terra; e os destruí diante de vós. Levantou-se, também, o rei de Moabe, Balaque, filho de Zipor, e pelejou contra Israel; mandou chamar Balaão, filho de Beor, para que vos amaldiçoasse. Porém eu não quis ouvir Balaão; e ele teve de vos abençoar; e, assim, vos livrei da sua mão. Passando vós o Jordão e vindo a Jericó, os habitantes de Jericó pelejaram contra vós outros e também os amorreus, os ferezeus, os cananeus, os heteus, os girgaseus, os heveus e os jebuseus; porém os entreguei nas vossas mãos. Enviei vespões adiante de vós, que os expulsaram da vossa presença, bem como os dois reis dos amorreus, e isso não com a tua espada, nem com o teu arco. Dei-vos a terra em que não trabalhastes e cidades que não edificastes, e habitais nelas; comeis das vinhas e dos olivais que não plantastes. Agora, pois, temei ao Senhor e servi-o com integridade e com fidelidade; deitai fora os deuses
aos quais serviram vossos pais dalém do Eufrates e no Egito e servi ao Senhor. (Js 24.1-14)
Você percebeu a resposta que Deus queria de seu povo por causa de tudo o que ele havia feito? Vamos falar mais sobre isso em outros capítulos, mas a verdade é que realmente importa como respondemos a Deus e a tudo o que ele fez.
Um dos meus desejos é que, ao terminar este livro, você esteja mais apta a resumir e articular sobre o que é essa história. Conforme compreendemos melhor quais são os eventos-chave da narrativa, nós, assim como Moisés, Josué e Lucas, estaremos mais preparados não apenas para responder com fidelidade, mas também para contar a outros sobre o nosso Deus e seu glorioso plano de salvação.
Propósito do autor
Quando eu e meu marido, Craig, começamos a namorar, ele morava no Colorado, e eu em Oklahoma. Isso foi antes dos celulares, e nossas contas telefônicas eram altíssimas! Mas estávamos apaixonados — e o que é dinheiro quando se está apaixonado? Conversávamos por horas, apenas nos conhecendo melhor. Craig adora contar a história de uma noite em que estava ao telefone comigo, em pé no corredor, quando seus amigos passaram por ele, prestes a sair. Zombaram dele por não ir junto. Ele apenas sorriu e continuou ao telefone. Porém, quando eles voltaram para a república muitas horas depois e nós ainda estávamos conversando, caíram na gargalhada! Até hoje ele não ouviu o fim dessa história. Durante esse tempo, eu escrevia longas cartas contando a Craig sobre mim, meus dias, minha vida. Estávamos nos conhecendo. Mas eu precisava decidir o que contar e o que não contar. Se eu tivesse mantido algo em segredo, Craig não teria sabido. Ele só poderia me conhecer à medida que eu estivesse disposta a me revelar a ele. Entretanto, como estávamos tão
ansiosos para nos conhecer, compartilhávamos prontamente muitas coisas sobre nós mesmos: nossas esperanças, sonhos, medos, pensamentos, aspirações — tudo o que pudesse ajudar o outro a nos conhecer melhor. Queríamos conhecer e ser conhecidos.
A Bíblia é o meio pelo qual Deus escolheu se revelar a nós. A única razão pela qual sabemos qualquer coisa sobre Deus é porque ele deseja que o conheçamos. Não descobrimos Deus; é Deus quem se revela a nós. Ele escolheu dar-se a conhecer! Será que ele nos contou tudo o que há para saber sobre si? De forma alguma! Porém, conforme Pedro nos diz em 2 Pedro 1.3: “pelo seu divino poder, nos têm sido doadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade, pelo conhecimento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude” (ênfase acrescentada).
Deus nos revelou tudo o que precisamos saber; ele nos disse tanto quem é quanto o que fez. Mas nem toda revelação é do mesmo tipo. As Escrituras nos dizem que os céus e a terra revelam a existência, o poder e a glória de Deus. O Salmo 19.1 declara: “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos.” O Salmo 50.6 afirma: “Os céus anunciam a sua justiça, porque é o próprio Deus que julga.” E Romanos 1.19-20 nos lembra:
Porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis.
Isso é chamado de revelação geral de Deus. Ele se revela de forma geral a todas as pessoas que já viveram. Mas será que essa é toda a revelação de que precisamos? Será que a revelação geral de Deus fornece informação
suficiente para conhecermos “todas as coisas que conduzem à vida e à piedade”? Não. Contudo, há pessoas que parecem pensar assim. Dizem que não precisam da igreja ou da Bíblia; que podem simplesmente “adorar a Deus na natureza”. Uma das razões pelas quais a revelação geral de Deus não é suficiente é porque não compreendemos nem interpretamos corretamente essa revelação. Consoante afirmou Michael Williams: “O pecado mastigou os fios do rádio. Deus continua transmitindo, mas nós não ouvimos com clareza.”2 Precisamos de ajuda para entender o que Deus revelou!
Graças a Deus, ele não apenas se revelou de forma geral, mas também de forma especial. A Bíblia é parte da revelação especial de Deus para nós. E parte do que Deus faz, ao se revelar nas Escrituras, é explicar o que vemos mas não entendemos. É por isso que observar a natureza não basta. Precisamos que o Autor de toda a criação comente a respeito da sua obra. Não é à toa que a palavra autor está na raiz de autoridade — quem originou a ideia tem a maior autoridade para explicá-la. Precisamos que Deus explique a sua revelação para nós. Não obstante, ainda precisamos de algo mais.
Em João 17.3, Jesus disse: “E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste.” Saber coisas sobre Deus é maravilhoso, porém a salvação não se encontra em conhecer sobre ele, e sim em conhecê-lo pessoalmente por meio de sua revelação suprema — seu Filho, Jesus. Deus se revelou plenamente em seu Filho, Jesus. O próprio Jesus declarou: “Quem me vê a mim vê o Pai” (Jo 14.9), e nos é dito em Colossenses 1.15 que “Este é a imagem do Deus invisível”. Deus escolheu se revelar a nós para que o conhecêssemos. Contudo, o conhecimento dele não é o objetivo final. A razão pela qual Deus se revelou é para a nossa salvação e para o adorarmos. A revelação geral mostra que
2 Michael D. Williams, Covenant Theology, Covenant Theological Seminary, outono de 2010.
Deus existe, e a revelação especial mostra como podemos ser salvos. Precisamos responder ao que Deus nos disse sobre si mesmo. Ele registrou essa grande história de tudo o que fez não simplesmente para que soubéssemos sobre ele, mas para que o conhecêssemos, nele crêssemos, fôssemos salvos por ele e o adorássemos para sempre.
Ele registrou essa grande história de tudo o que fez não simplesmente para que soubéssemos sobre ele, mas para que o conhecêssemos, nele crêssemos, fôssemos salvos por ele e o adorássemos para sempre.
Pontos para lembrar do Capítulo 1
• Deus é o Autor supremo das Escrituras — aquele que conhece o fim desde o princípio.
• Os eventos das Escrituras estão ancorados na história — tempo real, lugares reais, pessoas reais.
• A Bíblia é um relato narrativo de Deus e de sua obra em nosso mundo, no qual ele nos diz e nos mostra quem ele é.
• A história ainda está em andamento, o que significa que nós fazemos parte dela!
• Deus, o Autor da nossa história, escolheu se revelar porque deseja que o conheçamos!
• Deus se revela por meio da sua criação, porém ainda mais plenamente por meio de sua Palavra — tanto a Palavra escrita quanto a Palavra que se fez carne e habitou entre nós.
Perguntas para discussão
1. Leia Atos 4.24-25. De que “boca” Deus se utilizou? Quem foi o verdadeiro autor? Qual o nome do homem que escreveu esse versículo?
2. Leia Atos 3.15 e Hebreus 12.2 (“autor” pode ser traduzido como “príncipe” ou “fundador”). Do que mais Deus é Autor?
3. De que maneiras o fato de que Deus, o Autor da sua história, conhece o fim antes mesmo de começar muda a forma como você enxerga suas circunstâncias atuais, desafios, sofrimentos e provações?
4. Leia Lucas 2.1-5. O que você aprende sobre o cenário (tempo e lugar)? Como isso é um exemplo do miraculoso acontecendo em meio ao comum?
5. Pense nas circunstâncias muito reais da sua vida hoje — as alegrias e as lutas. Deus age em pessoas reais, em tempo real e em lugares reais — hoje assim como no ano 33 d.C. De que maneira Deus está agindo nos lugares comuns e difíceis da sua vida?
6. Leia 2 Samuel 12.1-7. Como Deus usa uma história para revelar a verdade e também convidar a uma resposta na vida de Davi?
7. Leia 1 João 5.11-12. Onde está a vida eterna?
8. Leia João 17.3. Qual conhecimento é necessário para a vida eterna?
9. Escreva abaixo ou compartilhe com o seu grupo um ponto, uma verdade ou uma lição que desafiou ou encorajou você neste capítulo.
Para estudo adicional
1. Leia Atos 9.1-9. Por que a configuração histórica (a realidade) dessa cena é importante? O que é miraculoso e o que é comum?
2. Leia os resumos em Neemias 9.6-37 e Salmo 105. Quais eventos são registrados em ambas as passagens, e quais são mencionados apenas em Neemias? Quais seriam algumas razões possíveis para essa diferença?
3. Leia Apocalipse 22.18-19. O que isso nos diz sobre a revelação de Deus por meio de sua Palavra escrita?
4. Leia Filipenses 2.9-11. Qual será a resposta final de toda pessoa?
5. Reserve um tempo para escrever um resumo da Bíblia — anote o que você considera como alguns dos principais eventos no enredo das Escrituras. Você terá a oportunidade de fazer isso novamente ao terminar este livro e, então, comparar suas duas respostas.
