Boas histórias descrevem personagens únicos lidando com temas comuns em narrativas repletas de lutas, conquistas, tristezas, alegrias, dores e consolos. Histórias tornam-se ainda melhores com boas tramas, trazendo lições que ampliam nossa percepção da realidade. Mas é também nas histórias excelentes que percebemos outra História — grande e única. O livro 10 anos em 10 dias relata esse tipo de história: excelente, que narra o serviço abnegado de um personagem singular, com suas dores e alegrias. Uma história de serviço que conta a extraordinária trama do evangelho. Você será encorajado ao ler uma narrativa que amplia sua percepção para a maior de todas as histórias: o evangelho.
— Alexandre “Sacha” Mendes, pastor na Igreja Batista Maranata em São José dos Campos, São Paulo
Tive o privilégio de lecionar para o autor e sua esposa, quando se preparavam para ir para o Oriente Médio, e de pregar em seu culto de envio. Tive a oportunidade de acompanhá-los em oração nos seus anos naquele país e nos dias tensos da prisão. Tive a alegria de revê-los de volta ao Brasil e orientá-los na ida para outro campo. Tenho o prazer de supervisioná-los no campo atual e desfrutar sua amizade. Uma família linda e perseverante, com uma bela e desafiadora história. Que o Senhor use esse testemunho para edificar, conscientizar e despertar muitas pessoas.
— Pastor Cácio Silva, executivo operacional da APMT – Agência Presbiteriana de Missões Transculturais; consultor associado da WEC Internacional; PhD em Teologia Missiológica pela North-West University, África do Sul
O drama vivido por alguém que enfrentou os perigos de pregar o evangelho em uma nação hostil à presença de missionários cristãos prende a atenção do leitor do início ao fim. De maneira sábia e criativa, o autor conecta curiosidades da cultura local com sua trajetória pessoal — desde os primeiros sinais de seu emocionante chamado até o desembarque no campo transcultural, passando pelo longo período de preparo. É importante destacar o investimento que Estêvão fez ao dedicar dez anos à sua formação. Isso o capacitou para permanecer firme e evitar o retorno prematuro que tantos missionários enfrentam por falta de preparo adequado. Ainda assim, o monitoramento das atividades ministeriais e a rigidez
das autoridades sempre acompanham aqueles que desejam servir em países que restringem a pregação do evangelho. Com Estêvão, não foi diferente. Chamado por Deus para fazer discípulos de Jesus Cristo em uma nação do Oriente Médio, esse intrépido missionário pagou um alto preço por sua obediência. Preso e separado de sua esposa e filhos, Estêvão passou dez dias em uma solitária, de onde foi solto graças à intervenção divina. O mesmo Deus que o chamou para aquela missão não o abandonou um segundo sequer — nem durante os dez anos em que serviu naquele país, nem durante os dez dias em que esteve preso. Desejo que a leitura desta magnífica obra desperte seu coração a se unir ao que Deus está fazendo em nosso país e em todo o mundo.
— Marcos Grava, pastor sênior da Conexão Primeira Batista de Santo André
10 anos em 10 dias é mais do que um relato: é um testemunho vivo da graça de Deus em meio às dores e esperanças da vida. Estêvão nos conduz por uma jornada intensa, onde cada página revela não apenas experiências humanas, mas também a presença consoladora e transformadora do Senhor.
Com delicadeza e profundidade, o autor nos lembra que o tempo, mesmo breve, pode ser repleto de eternidade quando vivido na confiança em Cristo.
O livro nos inspira a valorizar cada momento, a reconhecer a mão de Deus nas circunstâncias e a encontrar sentido na fé que sustenta e renova.
Ao final da leitura, somos convidados não apenas a refletir sobre nossas próprias histórias, mas também a render graças Àquele que faz da fragilidade humana um espaço de manifestação da Sua força. É uma obra que edifica, consola e desperta piedade, tornando-se um instrumento de bênção para todos que se deixarem alcançar por sua mensagem.
— Rev. Hermisten M. P. Costa, integra a equipe Pastoral da Primeira Igreja Presbiteriana em São Bernardo do Campo, São Paulo
Estêvão, além de ser um homem de Deus, é um exímio contador de histórias. Neste livro, vemos de maneira prática como foi a sua jornada, desde o preparo pré-campo até a sua chegada, sua luta por fazer amigos, conseguir o visto, suas mudanças de cidades e sua perseverança até finalmente enxergar os frutos. Fica claro o amor dessa família pelo Senhor e por sua glória, bem como o
amor deles por aquele país e seu povo, apesar de todas as lutas. Este é um relato honesto e corajoso de um homem que tem medos, dúvidas, dilemas éticos, altos e baixos emocionais, que chora. Uma pessoa comum sendo usada por um Deus extraordinário. Minha oração é que, ao ler este livro, muitas pessoas se joguem de cabeça nas mãos desse Deus maravilhoso e experimentem na pele como vale a pena servir a ele!
— Samir Rocha, diretor da FrontiersBrasil
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Estêvão Júnior
10 anos em 10 dias : o relato de um missionário preso no Oriente Médio / Estêvão Júnior. -- São José dos Campos, SP : Editora Fiel, 2025.
ISBN 978-65-5723-450-1
1. Bíblia 2. Cristianismo 3. Literatura devocional 4. Missão cristã I. Título.
25-324530.1 CDD-242
Elaborado por Eliete Marques da Silva - CRB 8/9380
10 anos em 10 dias: o relato de um missionário preso no Oriente Médio
Todos os direitos em língua portuguesa reservados por Editora Fiel da Missão Evangélica Literária
PROIBIDA A REPRODUÇÃO DESTE
LIVRO POR QUAISQUER MEIOS, SEM A PERMISSÃO ESCRITA DOS EDITORES, SALVO EM BREVES CITAÇÕES, COM INDICAÇÃO DA FONTE.
Os nomes dos envolvidos diretos foram alterados para a preservação das identidades, bem como os nomes dos países e cidades, por motivo de segurança.
Os textos das referências bíblicas foram extraídos da versão Almeida Revista e Atualizada, 2ª ed. (Sociedade Bíblica do Brasil), salvo indicação específica.
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Diretor Executivo: Tiago J. Santos Filho
Editor-chefe: Vinicius Musselman Pimentel
Editor: Renata do Espírito Santo T. Cavalcanti
Coordenação Editorial: Gisele Lemes
Preparação: Shirley Lima
Revisão de Provas: Zípora D. V. de Lima
Diagramação: Caio Duarte
Capa: Caio Duarte
ISBN brochura: 978-65-5723-450-1
ISBN e-book: 978-65-5723-449-5
Caixa Postal, 1601
CEP 12230-971
São José dos Campos-SP PABX.: (12) 3919-9999 www.editorafiel.com.br
Com muito amor, à minha amada esposa, Sarah, companheira de vida e ministério.
AGRADECIMENTOS
Agradeço, em primeiro lugar, ao Autor e Consumador de minha fé, Jesus Cristo, pois, sem Deus em minha vida, eu estaria perdido e morto em meus pecados. Sem ele, a história da minha vida seria como páginas em branco, um vazio sem sentido, sem início, meio ou fim. Toda glória, toda honra e todo louvor sejam dados ao Senhor!
Agradeço à minha querida esposa, Sarah, por me incentivar, apoiar e segurar as cordas para que eu pudesse ter tempo de escrever esta obra. Obrigado por ler cada linha deste livro e por sempre me apoiar.
Agradeço aos meus amigos brasileiros mencionados neste livro, que, além de me ajudarem nos momentos difíceis, colaboraram financeiramente para a produção da primeira edição.
Muito obrigado, meu grande amigo Danilo Lima, por abrir as portas de seu apartamento tantas vezes, oferecendo um refúgio calmo e tranquilo para eu me concentrar e escrever estas linhas.
Agradeço também a todos os meus mantenedores — igrejas e famílias que, mensalmente, ofertam e oram —, possibilitando-me, assim, a oportunidade de viver e escrever sobre esses preciosos anos que fazem parte do cuidado de Deus na minha vida, manifestado por meio de vocês.
A última noite se derrama como areia fina, fria, Dos desertos solitários, por entre os dedos;
Se esvairia o sonho, vai-se longe o pensamento, As lágrimas rolam, é o fim… Mas é também recomeço.
Assim como os beduínos migram, nossos sonhos mudam de lugar,
Entre vales e montanhas, é um oásis que sempre queremos encontrar.
O vazio de um sonho inacabado, como o silêncio do deserto, pacato, traiçoeiro, Dilacerando o coração, gosto de fel, sombras na escuridão.
Mas esta noite não é eterna, é fim do inverno, é primavera.
O sol se levanta e seus raios são lenços dourados enxugando a última lágrima.
Pego carona no canto do pássaro azul que me leva ao outro lado do oceano:
É meu retorno!
Estêvão Júnior
SUMÁRIO
PREFÁCIO
Este é um livro que mostra o poder do evangelho, apresentando, de forma clara e cativante, fatos e acontecimentos que evidenciam a transformação de vidas e exaltam o nome de Cristo.
Os eventos se passaram em ambientes de restrição à evangelização e às ações missionárias. O autor pinta, de forma clara e abrangente, as barreiras, necessidades e oportunidades de uma vida cristã missionária em situações adversas. O assunto deste livro, porém, não é o missionário, mas Cristo. Não é o trabalho do missionário, mas o do evangelho. Não é o resultado obtido pelo missionário, mas os frutos promovidos por Deus.
O autor é um missionário experiente, competente e comprometido com o Reino de Deus. Permanece ativamente envolvido na obra do Senhor em regiões nas quais o evangelho enfrenta limitações, juntamente com sua família. Conhece, portanto, não apenas a história contada, mas a vivida, lidando com o ser cristão e o propósito de tornar Cristo conhecido em lugares fechados à mensagem do evangelho. Partilha conosco sua própria vida e seu ministério, lançando um convite firme para crermos mais em Deus e nos envolvermos mais com a obra divina.
Neste livro, o autor narra os fatos em três perspectivas. A primeira é a da escuta, em que observa as perguntas e as vivencia. O contexto, os desafios e os questionamentos são reais e se desenrolam na vida cotidiana e nos relacionamentos, mas também em sua própria trajetória, em que a identidade cristã e missionária é colocada em evidência sob forte pressão. As perguntas de um tenso interrogatório se transformam em memórias da bondade de Deus, como um filme que se revela cena a cena, relembrando que todos os passos foram dirigidos por Deus.
A segunda perspectiva é a do agir de Deus. Como memórias resgatadas em meio a intensos questionamentos e oposições, Deus realiza o que deseja realizar: revela sua graça, atrai pessoas a Cristo, abre portas para a comunicação
do evangelho e transforma vidas. Vivendo um paradoxo — ser interrogado em uma prisão enquanto rememora os feitos de Deus —, o autor destaca o poder do evangelho, que vai além das incertezas do momento e das tempestades mais avassaladoras.
A terceira perspectiva é a do desafio pessoal: já preso, inseguro, vivendo incertezas e sob forte pressão. Nesses dias, o autor experimenta o medo humano e a segurança em Cristo; as pressões humanas e o consolo do Espírito. Sua identidade em Cristo manifesta-se de modo nítido em meio ao sofrimento. O resultado, pela graça de Deus, é um coração fortalecido, uma fé mais viva e vidas edificadas nas mãos daquele que nos chama para a luz, tornando possível todo o processo.
Os dias na prisão são intensos, sofridos e reveladores. A insegurança que invade a alma é vencida pela segurança em Cristo. Oportunidades de viver Cristo e falar de Cristo se relevam e, assim, Deus utiliza o próprio sofrimento para a edificação de muitos.
Este livro nos conduz à compreensão da natureza de Deus, Senhor absoluto sobre tudo e todos. Recorda-nos, ainda, a bondade divina, que nos acompanha em meio aos campos minados. Ressalta o poder de Deus, que se manifesta nos lugares mais áridos e nos dias mais escuros. E apresenta a paz de Deus, que inunda os corações em meio à opressão.
Estou certo de que, por meio deste livro, Deus será glorificado pelo que ele mesmo fez; a igreja brasileira será edificada ao perceber a bondade do Senhor; e os cristãos abraçarão, de forma mais intensa e perseverante, a obra missionária, sobretudo onde Cristo permanece desconhecido.
— Ronaldo Lidório, pastor, teólogo, escritor e missionário
INTRODUÇÃO
Após três meses de férias no Brasil, finalmente retornei ao meu lar. Abri a porta de casa e vi que meus vizinhos gentilmente haviam feito uma pequena limpeza e ainda deixado alguns alimentos em minha geladeira. Mesmo assim, senti algo estranho, porque minha família não estava comigo. Eu estava sozinho. Em menos de dez minutos, já estava morrendo de saudade do sorriso da minha esposa, de ver meu filho mais velho pular no sofá e de escutar o choro melodioso da minha recém-nascida princesa. Mas eu sabia que a decisão de voltar sozinho tinha sido a melhor.
O cheiro da areia fina, trazida pelas tempestades de verão, era forte. Eu caminhava pela casa, mas a sensação era a de estar pisando em uma lixa gigante. As paredes, ainda quentes dos três meses de verão em um lugar onde a temperatura chega perto dos cinquenta graus durante o dia e cai aos quarenta na madrugada, mantinham o calor como uma sanduicheira elétrica esquecida ligada por alguns minutos. Eu tinha sete dias para deixar tudo em ordem para que minha família chegasse bem.
Algo, entretanto, tirava a minha paz. A expectativa de uma possível ligação da polícia secreta perturbou um pouco o meu sono logo na primeira noite após o retorno. No dia seguinte, checava o celular a cada cinco minutos. Queria ter certeza de que o aparelho não estava no modo silencioso e de que eu não perderia, de maneira alguma, uma chamada tão importante.
No início do verão, no começo de maio, convidei meu amigo Arnold para realizar uma distribuição secreta de Bíblias durante a madrugada, como vinha fazendo desde 2011. Era um trabalho extremamente importante: dar aos nuriyahis (o povo de Al-Nuriyah) de pequenas cidades e vilarejos a oportunidade de ler a Palavra de Deus, provavelmente pela primeira vez.
Após muita oração, Arnold e sua esposa, Beth, sentiram a paz do Senhor para realizar o trabalho. Com essa resposta positiva, eu, Sarah (minha esposa), Arnold e Beth passamos a orar juntos, pedindo a orientação do Senhor. Depois de algumas semanas de oração, decidimos quando e onde isso aconteceria. Foi um mês de muito empenho: precisávamos comprar papel de presente em diferentes lojas, embrulhar cada Bíblia sem deixar impressão digital, elaborar as rotas, os bairros e as ruas por onde passaríamos entregando os presentes e, finalmente, realizar a distribuição das Bíblias.
Arnold teve a grande ideia de imprimir um cartão com um versículo da Bíblia e, no verso, colar um cartão de memória com informações sobre a Bíblia e o cristianismo, além de indicar o endereço de um website cristão1 contendo outras orientações. O site funciona principalmente como um canal de comunicação com pastores que respondem a questões e esclarecem dúvidas dos interessados.
No final do mês de maio, enquanto as esposas permaneciam em casa orando por nós, Arnold e eu saímos da minha casa por volta das onze horas da noite em direção a Sahal Al-Rimal, uma pequena cidade com cerca de 170 mil habitantes.
Os quase 170 quilômetros que seriam percorridos em aproximadamente duas horas de viagem foram feitos ao som de louvores, orações e júbilo no coração. Eu podia sentir a adrenalina de Arnold; afinal, a primeira vez é sempre muito emocionante. As expressões de seu rosto revelavam um misto de alegria e temor.
Esse é um trabalho que pouquíssimos missionários fazem, pelo grau de dificuldade — desde entrar com as Bíblias clandestinamente em Al-Nuriyah até o processo de entrega —, pois o risco é altíssimo e o preço a se pagar pode ser alto demais.
Na metade do caminho, deparamos com a primeira surpresa: perdemos uma entrada na rodovia escura e seguimos, errantes, por cerca de trinta
1 Disponível em: www.maarifa.org.
quilômetros, sem sequer perceber o equívoco. Só nos demos conta quando chegamos a um pequeno vilarejo no qual a estrada terminava.
Olhamos um para o outro, começamos a rir, e eu logo disse que aquilo não era um erro, mas a soberana vontade do Pai em permitir que aquelas pessoas também recebessem uma Bíblia. Oramos, vestimos nossas luvas de látex, cobrimos a placa do carro com fita, colocamos nossos bonés e iniciamos a distribuição.
Esse sempre foi — e sempre será — um momento tenso. A luta espiritual é intensa; é quase possível ouvir o som das espadas dos anjos abrindo caminho frente às legiões do inimigo querendo nos destruir.
Cerca de vinte Bíblias foram deixadas na porta da casa de pessoas escolhidas por Deus para receberem sua Palavra. Meu amigo Arnold chorou de emoção em sua oração ao sair daquele vilarejo, clamando ao Espírito Santo que tocasse nas vidas que encontrariam aqueles presentes na manhã seguinte.
Embora estivéssemos felizes com um início inesperado para nós — mas não para Deus —, o verdadeiro trabalho daquela noite só estava começando. Por volta das duas e meia da madrugada, chegamos ao nosso destino, Sahal Al-Rimal.
A cidade estava adormecida; o céu, completamente estrelado; as ruas, tomadas por areia de uma região seca e desértica. Não se via ninguém do lado de fora. Até mesmo as cabras e os camelos estavam em seus abrigos. Apenas Arnold e eu circulávamos pelas ruas, dirigindo pelo centro até chegar ao primeiro bairro onde a distribuição aconteceria. Lá, oramos mais uma vez, pedindo clareza do Espírito sobre onde deixar as Bíblias, em quais casas e sobre quais carros.
O silêncio da oração era rompido apenas pelo barulho das várias sacolas plásticas com Bíblias dentro. Parecia que estávamos voltando do supermercado com as compras do mês, mas, em vez de comida, era o Pão da Vida que
carregávamos. Já na primeira rua, quatro Bíblias foram deixadas; na segunda, outras três; quando percebemos, já havíamos distribuído metade do material em quase uma hora. Decidimos, então, seguir para o segundo — e último — bairro que visitaríamos naquela cidade.
No caminho, porém, veio a segunda surpresa: uma viatura da polícia fazia ronda e, ao passar por ela, orávamos apenas para que Deus nos tornasse invisíveis. O Senhor nos preservou e chegamos, finalmente, quase às quatro horas da madrugada, ao outro bairro.
A distribuição continuava, e mais Bíblias eram colocadas nas portas das casas. A tensão de dirigir, entregar o material e vigiar o perímetro enquanto Arnold colocava cada Bíblia em seu lugar fazia com que eu sentisse fortíssimas dores no pescoço. Os músculos de minhas pernas já estavam entrando em exaustão; ainda assim, a alegria de trazer as últimas sacolas do banco de trás para a frente era estupenda. A essa altura, já corríamos contra o relógio, pois o sol estava prestes a nascer — e isso seria um grande problema. O baixo ruído produzido pelo motor do carro não era suficiente para acordar alguém, e a baixa velocidade em que andávamos tampouco gerava barulho; o único som que escutamos em mais de duas horas foi o dos livros caindo em frente aos portões das casas.
O estrondo dos alto-falantes das mesquitas, no entanto, rompeu o silêncio ao florescer da aurora naquela manhã: ربكأ الله “Allahu uakbar”, que, traduzida para o português, significa “Deus é o maior”. Era o momento da primeira oração do dia, ao nascer do sol. Em menos de cinco minutos, as ruas estariam cheias de pessoas caminhando até as mesquitas.
“O que fazer com as últimas Bíblias que estão no carro?”, pensei. Eu não queria voltar para Hajran com elas. Então, aumentamos a velocidade do carro e da entrega. Nos cinco minutos seguintes, já seria dia. Não podíamos mais estar nas ruas.
A última Bíblia foi deixada em frente a uma casa de portão azul. Ainda me lembro, como se fosse hoje, do pequeno jardim do lado de fora da casa cercado por um alambrado alto, provavelmente para impedir que as cabras pulassem e comessem as lindas flores que ainda restavam antes de o verão chegar.
Quando Arnold lançou a Bíblia para aquela casa, ela aterrissou de forma precisa, bem embaixo do portão. De repente, aquilo que mais temíamos
aconteceu. O portão azul não se abriu, mas, quando nos afastamos com o carro, vi um homem vindo, a cerca de dez metros, na direção do meu veículo. Imediatamente, fiz uma manobra abrupta para não passarmos diante dele e disparei rua abaixo, levantando uma grande nuvem de poeira. Ao olhar pelo retrovisor, não consegui ver aquela túnica branca, o turbante bege, a barba comprida e o rosto cansado. Isso me trouxe alívio, porque, se eu não o via, ele também não poderia ver os números da placa — cobertos por fita —, nem o modelo e a cor do carro, muito menos nossos rostos.
Durante o retorno para casa, nossa satisfação era enorme. Cantávamos muitas músicas em adoração a Deus, e o volume do som era assustador, mas o lado bom era que isso também nos mantinha acordados na viagem de volta.
Eram quase oito da manhã quando cheguei em casa. Ao entrar, minha esposa me deu um abraço, aliviada por saber que eu estava bem e que tudo tinha transcorrido de maneira perfeita. Era a primeira vez que eu saía para entregar Bíblias e não acontecia nenhum susto grande. Em todas as outras ocasiões, houve situações complicadas — desde perseguições ao meu carro até blitz policial. Mas, em todas elas, Deus me dava livramento, e nunca fui descoberto ou pego.
Naquele dia, fui direto para minha cama e dormi antes mesmo de começar a me lembrar de tudo o que havia acontecido. Perto do meio-dia, o alarme tocou: era hora de almoçar. Cumprimentei algumas mulheres que estavam em minha casa para o “chá de bebê”, que acontecia naquela manhã, e fui para a cozinha. Após o almoço, minha esposa, Sarah, meu filho, Levi, e eu entramos no carro e fomos até Madinat Al-Nur, capital do país, para encontrar uma família de missionários muito querida e também fazer o discipulado com um amigo nuriyahi. Nas duas horas seguintes de viagem, a terceira surpresa aconteceu: mensagens começaram a chegar aos nossos telefones. Uma das pessoas que recebeu uma Bíblia em Sahal Al-Rimal gravou um pequeno vídeo de dez segundos e o divulgou nas redes sociais. O vídeo rapidamente viralizou no WhatsApp. Cerca de oito horas após a distribuição, a página on-line da rede social que recebeu o vídeo já tinha mais de quinhentas mil visualizações — e a legenda dizia: “Várias Bíblias foram distribuídas esta madrugada na cidade de Sahal Al-Rimal. Se você viu algo, pode dar pistas ou contribuir com informações, ligue para a polícia e denuncie”.
Uma semana depois, Arnold e sua família deixaram Al-Nuriyah para as férias de verão e, duas semanas mais tarde, eu e minha família chegávamos ao Brasil para nossas férias e para a chegada do bebê. Nos primeiros dias no Brasil, o assunto ainda me preocupava, mas eu também estava extremamente feliz, porque aquele vídeo terminava com a imagem do endereço do website escrito no cartão. Eu sabia que, em quase um mês, aproximadamente um milhão de pessoas já tinham visualizado aquele vídeo, somando as redes sociais e os aplicativos de mensagens que o divulgaram. O fato é que, entre visitas a médicos, ultrassons e o nascimento da minha filha, esse episódio deixou de ocupar meus pensamentos. Até que, na última semana de setembro, recebi uma mensagem de Arnold. Ele acabara de voltar de férias para Al-Nuriyah com sua família e, nas primeiras 24 horas de retorno ao país, recebeu uma ligação da polícia secreta. Ele estava sendo intimado a comparecer ao quartel-general para responder a algumas perguntas.
Ao chegar lá, foi muito bem tratado e dois policiais conversaram com ele por cerca de uma hora sobre diversos assuntos. Até que, sem hesitar, informaram a Arnold que sabiam que ele e eu havíamos distribuído as Bíblias na cidade de Sahal Al-Rimal em uma SUV azul-marinho, que eu era o condutor e proprietário do veículo e que ele estava sentado no banco do carona. Diante dos detalhes apresentados, Arnold não negou: confirmou que, sim, havia feito aquilo. Respondeu a algumas perguntas e foi informado de que aquela prática não poderia ocorrer, pois se tratava de um crime. Arnold, de maneira sincera e verdadeira, disse que realmente não sabia que aquilo era ilegal e pediu desculpas. Então, os policiais solicitaram que ele assinasse uma confissão, comprometendo-se também que não repetiria aquela ação, e Arnold foi liberado.
Nas horas seguintes, eu já estava sentado diante do computador, ouvindo tudo o que Arnold havia passado e me preparando para enfrentar o mesmo procedimento dali a uma semana, data do meu retorno.
Essa semana foi de muita oração e preparo. Recebi um treinamento sobre como me portar em um interrogatório: como agir, quando sorrir, quando permanecer calado etc.
Quando parti para Al-Nuriyah, nas 15 horas de viagem sobrevoando o Atlântico, a África e o Oriente Médio, pensava no que aconteceria. Eu nada sabia. Porém, minha mente e meu coração, forjados pela Palavra, lembravam-me de que Deus é Emanuel, Deus conosco, e que sua fidelidade vai de geração em geração (Mt 1.23).
Passaram-se três dias desde a minha chegada e meu telefone ainda não havia tocado. Isso gerou em mim muitas dúvidas: “Será que a confissão de Arnold fora suficiente? Será que estou sendo seguido pela polícia sem perceber? Por que não me ligaram?” — eram os questionamentos mais diversos e inquietantes.
Mais dias se passaram e nada havia mudado. No sexto dia, meu coração aguardava ansioso que as portas daquele saguão do aeroporto se abrissem para que eu pudesse avistar minha esposa, meu filho e minha bebezinha. O calor do abraço deles me consumiu mais do que o das areias das dunas do deserto. Meu sogro e minha sogra, que acompanharam minha esposa e os filhos na viagem, se apertavam em um carro abarrotado de malas.
Ao chegarmos em casa, no início da noite, comemos aquilo que é mais tradicional no mundo árabe: um shawarma de dar água na boca — um sanduíche típico em todo o Oriente Médio, de frango ou carne de carneiro, regado a um molho à base de maionese com alho; junto à carne, são adicionados salada, batatas fritas e picles, tudo enrolado em um pão árabe (ou pão sírio, como é conhecido no Brasil).
Após o jantar, em pouco tempo, a casa toda já estava em silêncio. Todos dormiam, exaustos, depois de uma viagem de cerca de trinta horas.
No dia seguinte, meu despertador tocou. Abri os olhos e vi o lindo rosto de minha esposa, dormindo como um anjo. Ela nem se mexia na cama, de tão exausta. Levantei-me e coloquei o uniforme. Era uma segunda-feira e, naquele dia, toda a rotina retornaria: aulas de personal training, escola de futebol, visitas, minha vida, meu ministério.
O barulho do ar-condicionado ainda era a única coisa a se ouvir na casa.
Eram sete da manhã e, como de costume, preparei meu café e, ao me sentar à mesa para começar a comer, um largo sorriso surgiu em meu rosto, pois me lembrei de que uma nova temporada em Al-Nuriyah estava começando.
Porém, de repente, algo rompeu o silêncio daquela casa.
Uma ligação da polícia secreta quebrou o momento de paz em meu coração: مكيلع ملاسلا “Assalam Aaleikum” — “que a paz esteja sobre vós”, expressão de cumprimento muito utilizada por muçulmanos. E uma voz grave, que me pareceu um pouco assustada, perguntou se eu era o Estêvão. Comecei a responder em árabe que “sim” e, então, fui intimado a estar no quartel-general da polícia secreta, a CID, às nove da manhã daquele mesmo dia.
A ligação terminou. Sentei-me no sofá, e um turbilhão de emoções tomou conta do meu corpo. Meu pescoço parecia o novo lugar onde meu coração habitava, pois era ali que eu sentia literalmente a pulsação acelerada. Minha boca ressecou imediatamente. Minhas mãos estavam trêmulas e mal consegui colocar o celular sobre o sofá. Orei. Tentei acalmar meu espírito em oração silenciosa, mas ela não durou muito, porque eu já estava subindo as escadas de casa para acordar minha esposa e contar a ela o que estava acontecendo. Ao entrar no quarto, ela não estava lá. Fui, então, ao quarto de minha filha e vi uma das cenas mais lindas do mundo: minha esposa sentada, amamentando minha princesinha. Ajoelhei-me, tentei dividir o colo de minha esposa com nossa filha, olhei nos olhos dela e sussurrei: “É hoje, é agora”. O semblante dela caiu na mesma hora, mas, em frações de segundo, o sorriso que se formou em seu rosto veio de Cristo, lembrando-me de que ele é o Príncipe da Paz. Oramos juntos e entregamos o futuro nas mãos do Senhor. Levantei-me e disse que traria comida para o almoço de nosso restaurante favorito. Ela sorriu, balbuciou “Deus te abençoe” e então eu saí.
Ao fechar a porta, dei uma última espiada e lembrei-me da impressão de que não as veria mais naquele dia.
Já no corredor, aquele sentimento tomou conta do meu coração e, ao trocar de roupa em meu quarto, escolhi algo confortável e de manga comprida, para não passar frio à noite por conta do ar-condicionado. Liguei para meus clientes da manhã e cancelei minhas aulas, alegando que precisava resolver algumas pendências de última hora. Liguei para Arnold e pedi que orasse por mim, porque a minha hora havia chegado.
Naquele dia, como em todos os outros do ano — de céu azul, calor e uma brisa úmida que vinha do mar naquela época —, entrei em meu carro carregando muitas dúvidas sobre o que aconteceria. A música escolhida foi “Aquieta minh’alma”, do ministério Zoe. Nos vinte minutos seguintes, enquanto dirigia até o quartel da polícia, um único sentimento preenchia meu coração: “Eu, o Senhor teu Deus, é quem coloco as palavras em tua boca” (Lc 21.14-15).
Ao chegar ao quartel, deparei com uma estrutura imensa — a porta de madeira maciça devia ter uns dez metros de altura. Ao abri-la, um hall enorme, com uma mesa bem no centro, onde estavam dois policiais fardados. Eles olharam para mim e perguntaram o que eu fazia ali. Aquele quartel-general era da polícia secreta, a CID. Pouquíssimas pessoas entravam ali. Respondi que haviam me telefonado pedindo que comparecesse às nove. Entreguei minha identificação e eles pediram que eu me sentasse em um pequeno sofá no canto do hall. Ao me sentar, ainda estava impressionado com o tamanho do ambiente, com o contraste assustador entre a mesa à minha frente e o sofá no qual eu aguardava.
O silêncio era devastador, a ansiedade só aumentava e eu tentava lembrar os textos em que Jesus promete estar conosco. A música “Aquieta a minh’alma” ainda ecoava em meus ouvidos e em meu coração. Dez minutos de espera — mas, para mim, pareciam uma eternidade. Então, apareceu um homem com vestimenta árabe, não fardado, que se aproximou e disse: — لاعت Ta’al — “venha”.
Levantei-me imediatamente e o acompanhei. Ele não parava de andar, e eu o seguia por cada corredor. Se tivesse de fugir dali, provavelmente demoraria mais de um mês apenas para encontrar a saída daquele labirinto de corredores. Subimos muitas escadas e, a cada corredor que passava, eu percebia que não havia ninguém naquele prédio — todas as salas estavam vazias, e um completo silêncio ecoava por todos os lados. Até que ele abriu uma porta e pediu que eu entrasse e me sentasse em uma cadeira. Quando estava me sentando, sorri e disse que realmente precisava descansar depois da longa caminhada, tentando quebrar o gelo. Mas ele não entrou na sala nem viu meu sorriso. Só escutei o barulho da porta fechando atrás de mim. Senti, pela primeira vez, um frio na espinha por estar em um lugar onde eu realmente não tinha controle algum da situação. Comecei a observar a sala em que me encontrava. Era pequena, com uns quinze metros quadrados, sem janelas. Havia uma mesa pequena com duas cadeiras atrás e, bem à frente dela, a cadeira onde eu estava sentado. “Onde estava a parede de vidro atrás da qual os policiais costumam se esconder? Onde estavam as câmeras de vigilância? E o microfone para registrar meu depoimento?”, pensei. Algo estava estranho, e aquilo não me parecia nada bom.
Minha mente começou a imaginar o que fariam comigo ali, sem câmeras, sem registros, sem testemunhas. Na mesma hora, clamei ao Senhor, pedi que me livrasse de todo o mal e que apenas o seu nome fosse glorificado em tudo aquilo.
A espera, mais uma vez, se prolongou. Creio ter ficado sentado ali por mais de uma hora, imóvel, olhando para frente, sem ouvir passos, telefones ou portas. Estava totalmente isolado, sem saber o que aconteceria e o que estava se passando.
Até que a porta se abriu. Dois homens entraram agitados, parecendo estar com pressa, abriram uma pasta e começaram a retirar muitas folhas de dentro.
Olhei para eles e sorri — um sorriso muito largo. Eles perceberam meu sorriso, mas continuaram a retirar as folhas lá de dentro.
— Você quer ter esta conversa em árabe ou em inglês? — foram as primeiras palavras daquele homem, em árabe.
— Em inglês, por favor.
Todo aquele cenário — as palavras, as ações — não combinava com o que havia acontecido com Arnold algumas semanas antes. Eu sabia que algo terrível poderia acontecer. Sabia que estava entrando em um campo de batalha. Sentia-me como Davi: pequeno, sem recursos, assustado, ainda que corajoso; olhando para um gigante que respirava ameaças de morte, mas entendendo que o Todo-Poderoso é quem lutava por mim. Era ele quem colocaria as palavras certas na minha boca.
O que eu perceberia nos próximos dez dias é que isso não isenta o sofrer, a dor e a angústia. Porém, eu sabia que “ele é o meu Pastor e nada me faltará, mesmo que eu ande pelo vale da sombra da morte”. (Sl 23.1-4)
PARTE 1
ENTRE PERGUNTAS E RESPOSTAS
Capítulo 1
A ESCUTA DE CADA UM
“Você é um missionário?”
Essa é a pergunta que nenhum missionário quer ouvir em um país fechado ao evangelho, em que falar de Cristo é crime — ainda mais se ela vier de policiais em um interrogatório.
Sem hesitar, respondi com outra pergunta:
— O que o senhor entende sobre ser um missionário?
Com frequência, em nossa vida, discutimos com pessoas que têm ideias e opiniões baseadas em parâmetros diferentes dos nossos, e isso gera muito desgaste e até mesmo confusão, porque partimos de conceitos diferentes sobre o mesmo assunto.
Quando olhamos para a igreja evangélica brasileira, por exemplo, vemos divergências discrepantes em alguns assuntos, muitas vezes por simples falta de entendimento das verdades bíblicas.
Um olhar míope sobre as Escrituras resulta em uma igreja doente.
Cresci em uma igreja que sempre me ensinou verdades bíblicas extremamente importantes desde a infância. A EBD, a Escola Bíblica Dominical, nos proporcionava estudar diferentes temas à luz da Palavra de Deus, com material de qualidade e professores capacitados.
Tive a graça de Deus de ter pais comprometidos com a Palavra, que me levavam semanalmente à igreja para aprender, desde pequeno, conceitos
bíblicos tão importantes para a vida. Ali, eu já aprendia doutrinas como a do pecado original, o plano da redenção e o sacrifício de Cristo por mim.
Tenho até hoje, em minha memória, o dia em que Cristo me chamou para sua maravilhosa luz. Ouvir uma lição sobre o plano da salvação, na qual a professora usou o livro sem palavras: um livro gigante, com cinco cores e sem palavra alguma, sendo cada cor um símbolo — o pecado, o sangue, o perdão, o céu e a esperança da volta de Cristo.
Eu tinha sete anos de idade quando ouvi essa lição. Ao chegar à minha casa, abracei uma almofada gigante, verde-musgo, que ficava em nossa sala sobre o tapete, e comecei a orar. Clamava a Deus que perdoasse meus pecados e fosse o Salvador da minha vida. Comecei a chorar e percebi que aquele choro era diferente de todos os outros que eu já havia experimentado até aquele momento em minha breve vida.
Era um choro de alegria e de satisfação por conhecer um Deus que me ama. Contei aos meus pais, e isso foi motivo de grande júbilo.
Algumas semanas depois, algo terrível aconteceu. Minha vida quase foi abreviada por um desejo enorme de estar com Deus. Após uma lição sobre o céu, aprendi sobre o Paraíso, sobre estar com Deus em um lugar perfeito, onde não há dor, nem choro, nem lágrimas, onde a enfermidade não existe e todos adorarão ao Cordeiro de Deus para todo o sempre.
Ao voltar da igreja, após o almoço, minha irmã brincava de boneca em seu quarto e meus pais descansavam. Fui até a cozinha, peguei a maior faca que encontrei e, decididamente, sem hesitar, impulsionei com toda a força aquela faca na direção de minha barriga. Eu queria muito estar com Deus. Eu não queria mais desobedecer, sentir dor; pelo contrário, desejava muito estar com o meu Salvador. Porém, aquela faca não perfurou minha barriga. Eu não entendia como, mas, toda vez que eu tentava encravá-la, uma força contrária muito forte a segurava próxima à minha pele. Tentei várias e várias vezes. Fui vencido pelo cansaço. Não entendia nada do que estava acontecendo.
Hoje sei que a boa mão do Senhor, o seu Anjo, segurava aquela faca cada vez que ela se aproximava da minha barriga. Ainda não era a minha hora. Deus tinha um plano para minha vida.
Nunca permiti que alguém — inimigo ou quem quer que fosse — me dissesse que não valho nada ou que não sou, de alguma maneira, especial. Deus tem um relacionamento pessoal comigo, conosco. Esse Deus, Criador de todo este universo, soberano, onipresente e onisciente, conhece o meu e o seu nome, a minha e a sua história, as minhas e as suas dores e temores. Ao orar a Deus, sempre me lembro de que milhões de pessoas que realmente acreditam em Jesus estão orando ao mesmo tempo e que Deus, em seu poder, escuta cada oração. É isso que faz dele um Deus pessoal.
Esse é um dos motivos de sermos especiais. Fomos criados por Deus. Ele tem a nossa história guardada em suas mãos. Ele olha para cada um de nós neste exato momento. Ele me contempla enquanto escrevo este livro. Ele sabe que você, agora mesmo, está passando os olhos sobre estas linhas, sobre estas palavras. Claro que, com apenas sete anos de idade, eu ainda não sabia de tudo isso — mas já sabia, mesmo com tão pouca experiência, que algo especial havia acontecido naquela cozinha.
Na chamada UCP (União de Crianças Presbiterianas), o aprendizado e a comunhão continuavam. Ali, muitas histórias bíblicas eram ensinadas de diversas maneiras — teatros, musicais, acampamentos —, e a melhor parte disso tudo era ser ensinado por minha mãe. Isso mesmo: a responsável pela UCP durante mais de vinte anos em minha igreja foi minha mãe, a famosa tia Marlene.
Ela foi — e ainda é — uma grande referência na vida de centenas de crianças. Hoje, muitas delas são pastores e missionários(as), presbíteros, líderes em suas igrejas e, acima de tudo, discípulos de Cristo. Minha mãe foi minha grande mentora e meu principal exemplo.
Ver a paixão e o prazer com que minha mãe falava de Jesus Cristo na igreja, em escolas, em praças, em escolas bíblicas de férias, em acampamentos e tantos outros lugares fazia meu coração vibrar de emoção.
Durante toda a minha infância, eu já sabia que deveria contar a todos os meus amiguinhos da escola, da rua e do futebol que Cristo era meu Salvador. Músicas como “Posso ser um missionariozinho se falar de Cristo ao companheirinho”, “Minha pequena luz vou deixar brilhar” e tantas outras ecoavam diariamente em meu coração.
Quando adolescente, fui recebendo alimento mais sólido e aprendendo, nas Escrituras, o que é ser um discípulo de Jesus: sal da terra, luz do mundo, exalar o perfume de Cristo, ser uma carta viva, ser um embaixador — e tantos outros exemplos sobre o papel do discípulo. Essa semente germinava e crescia dia após dia em meu coração.
Comecei a me envolver cada vez mais nos trabalhos da igreja. Era sempre um prazer participar de campanhas de evangelismo, distribuir folhetos, ir às praças ajudar nos cultos evangelísticos, participar do coral de adolescentes e cantar no Natal em shoppings e hospitais. Tudo isso dava um sentido diferente à minha vida. Estar com meus amigos da igreja nos fins de semana era mais do que um encontro social: era o cumprimento da Palavra em minha vida, na condição de servo. Tudo isso moldava o meu caráter, a minha história e a minha vida.
Missões já era uma palavra que fazia parte do meu vocabulário — e estava entre aquelas que eu mais utilizava.
Quando um missionário era convidado a vir à minha igreja, eu nem piscava durante o culto. Aquelas saídas para ir ao banheiro ou tomar água não aconteciam nesses dias. Cada testemunho, cada foto projetada na parede, cada história contada, tudo isso regava meus olhos com as mais sinceras lágrimas de compaixão por vidas. Eu lia na Palavra: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações” (Mt 28.19) e via, no exemplo dos missionários, maneiras tão criativas e maravilhosas de levar o evangelho a lugares tão diferentes, como tribos indígenas ou vilarejos na África, e ficava fascinado por tudo aquilo.
“O que você vai ser quando crescer?” A essa pergunta, aos 15 anos, já não cabia a resposta “jogador de futebol”, como diria a maioria das crianças nascidas nos anos 1980. Eu estava no Ensino Médio e, em breve, teria de enfrentar um vestibular e ingressar em uma universidade. Porém, algo incomodava meu coração.
Eu não queria ter uma vida “normal”, como as pessoas têm. Eu não queria aquela vida de acordar, bater o cartão na empresa, trabalhar, voltar para casa e servir a Deus no domingo — uma vida que não é errada, mas que não era o que eu desejava para mim.
Eu queria viver de forma intensa e exclusiva para o Senhor. Só que não sabia como.
Ainda novo, eu já entendia de maneira clara — fruto do conhecimento bíblico aprendido ao longo dos anos — que deveria sempre proclamar as verdades bíblicas a outras pessoas. Eu, como discípulo de Cristo, queria ser como meu Mestre. Já na adolescência, comecei a trabalhar na igreja, ajudando nos ministérios com as crianças, em acampamentos, em escolas bíblicas de férias, em teatros, musicais e nas aulas dominicais.
Eu tinha grande prazer em servir e fazer discípulos. Sem perceber, fui me envolvendo cada vez mais na obra do Senhor e sentia uma tremenda alegria em servir ao meu Salvador. Porém, alguns conflitos internos me tiravam a paz. Uma tristeza profunda acometia meu coração. Eu não conseguia mais servir ao Senhor com a mesma alegria. Minha família passava por grandes problemas. Meu pai estava afastado do Senhor e começou a se envolver com coisas que não eram corretas. Por várias vezes, durante os anos de minha adolescência, vi minha mãe chorar por saber que ele estava literalmente preso. Saber que meu pai estava encarcerado — física e espiritualmente — me machucava demais. Não ter um pai presente nessa fase tão importante da vida me trouxe grandes prejuízos.
Eu não entendia por que tudo aquilo estava acontecendo. Minha mãe era uma mulher incrível, serva do Deus altíssimo, que trabalhava exaustivamente pelo Reino. Como Deus permitia tamanha dor ao seu coração? Por que ela tinha de sofrer tanto?
Sem que eu percebesse, na soberania e na graça do Pai, ele já estava forjando o meu coração. Ele estava me ensinando que o servo de Deus passa por problemas e dificuldades. Que, ao servir, o servo não está em uma posição “intocável”. Que o trabalho na seara não exclui o sofrimento e a dor.
Tenho certeza de que caminhar por esse deserto, por essa escola do Senhor, durante minha adolescência, fez com que eu estivesse mais preparado para enfrentar o sofrimento de estar perante aqueles interrogadores.
Nós não sabemos o percurso por onde o Senhor nos levará, mas sabemos que o Caminho é perfeito, mesmo quando não enxergamos dessa forma — afinal de contas, nossos olhos ainda estão presos a esta natureza carnal, pecadora, na qual caminhar pela fé nem sempre é fácil.
No outono do ano 2000, eu estava no meu primeiro ano do curso de Educação Física. Em oração, tive um desejo enorme de expandir o serviço, de trabalhar além das fronteiras brasileiras, e organizei uma viagem missionária ao Paraguai. Convidei alguns dos meus melhores amigos para um trabalho de trinta dias em um campo missionário na cidade de Santa Rita, durante as férias de inverno.
Eu, André, Israel, Ricardo e Túlio nos preparamos durante três meses. Muitos ensaios de teatro e de coreografias, muito trabalho na preparação do material para a escola bíblica de férias, das lições para adolescentes — tudo feito com muita alegria, adrenalina e um pouco de medo por ter de liderar esse pequeno grupo até o Paraguai. Em julho do ano 2000, eu partia para minha primeira experiência transcultural.
Essa viagem foi muito especial. Não só pelas risadas dentro de um ônibus por mais de 12 horas com meus melhores amigos fazendo muita bagunça, mas, principalmente, por ver a realidade de outro povo e vivenciar uma cultura nova, diferente. Foi especial também porque o pastor Eulogio, da Igreja Presbiteriana de Santa Rita, é meu tio, casado com minha tia Maristela. Poder ajudá-los durante aquele mês trouxe grande alegria tanto para mim como para eles.
Durante aqueles dias, o desejo de falar de Jesus aumentava ainda mais. Em um de nossos primeiros dias ali, já fomos fazer um trabalho em uma escola pública. O diretor da escola, que não tinha mais esperança para aqueles adolescentes, abriu as portas para nós por saber que falaríamos da Palavra de Deus. Nem sei se ele era cristão. Talvez o desespero em tentar algo que pudesse ajudá-lo na rotina da escola o tenha levado a nos receber de maneira tão fácil.
O momento chegou. O turno era o da noite. Quando as aulas foram interrompidas e todos levados para a quadra da escola, eu ouvia gritos de alegria por parte dos alunos. Eles não teriam de escutar seus professores, não estariam mais dentro de uma sala de aula, mas assistiriam a uma “apresentação”. Estávamos muito nervosos e nos perguntávamos se daríamos conta da expectativa que estava sobre nós. Eu olhava para meus amigos e não sabia se tremiam tanto por medo ou pelo frio que fazia naquela noite.
A apresentação então começou. Fizemos algumas coreografias, encenamos uma peça teatral, cantamos uma música com letra bem evangelística. Eu conseguia ler nos olhos daqueles adolescentes o pensamento: “O que estes caras estão fazendo? Que sorriso é esse ao cantar esta música?”.
Por mais que alguns fossem rebeldes, usuários de drogas, com famílias quebradas, revoltados com o mundo, a Palavra de Deus os tocou de maneira profunda. O pastor Maurício, que estava cooperando naquela igreja com o pastor Eulogio, contou seu testemunho de vida e de transformação em Jesus. No final, ao orar, eu não conseguia contar o número de adolescentes que choravam ao saber que eram amados por Cristo Jesus e que encontrariam o verdadeiro amor somente nele.
Naquela noite, saímos totalmente impactados daquela escola. Sabíamos do poder transformador de Cristo, mas, ao ver na prática a ação poderosa de Deus — principalmente em um local onde não havia esperança alguma por parte dos homens —, tivemos a certeza de que ele é o Senhor e quer ser adorado por pessoas de todas as tribos, povos, línguas e nações.
Eu caminhava voltando para casa, por aquelas ruas de terra, olhando para um céu tão estrelado, com meu coração queimando de maneira que eu nunca havia experimentado.
Eu não conseguia parar de sorrir e dizia a Deus: “Eu não quero parar de fazer isso. Eu quero isso todos os dias da minha vida”.
Essa viagem marcou a minha história. Deus estava me chamando para ser um missionário, ao me ensinar, em sua Palavra — durante as aulas de Escola Bíblica Dominical, na UCP, nos cultos e em minhas devocionais —, que eu deveria ser uma testemunha da sua graça na vida do meu próximo. Tudo isso era um processo. E esse processo continuou durante essa viagem. Entretanto, ele usou também algo extraordinário para me mostrar a necessidade de trabalhadores em sua seara.
Em uma segunda-feira, enquanto estávamos jantando, a televisão estava ligada. Tínhamos acesso ao sinal de alguns canais brasileiros, e o Jornal Nacional, da Rede Globo, começava com uma reportagem especial sobre o Afeganistão. Essa reportagem seria exibida em cinco episódios, de segunda a sexta-feira daquela semana.
Naquele primeiro dia, foi mostrada a situação política do país. O regime Talibã era o detentor do poder e assolava o povo afegão. Tanques de guerra nas ruas, levantes civis contra o regime, muitos tiros, muitas mortes.
Eu assistia àquilo chocado e mal conseguia comer. Ao terminar a reportagem, sem que ninguém percebesse, saí da mesa, entrei no quarto, fechei a porta, me ajoelhei e clamei a Deus por misericórdia sobre aquelas vidas. Clamava por paz e justiça naquela nação. Como poderia assistir a tudo aquilo e não me importar com aquelas pessoas? Eu tinha de fazer algo por eles. Naquele momento, o que eu podia fazer era orar. E orava com fé, porque sabia que o Todo-Poderoso estava me escutando e que ele podia agir em favor daquela nação.
Na terça-feira, durante o trabalho com as crianças na escola bíblica de férias, eu mal conseguia me concentrar nas atividades, porque queria muito que chegasse a noite para assistir ao próximo episódio da reportagem. A hora do jantar chegou, liguei a televisão e coloquei o volume bem alto. O tema daquele dia era a vida das mulheres afegãs. Quando vi como elas tinham de se vestir, com aquela “burca”, que não podiam frequentar escolas, não tinham voz
na política, eram maltratadas e sofriam vários tipos de abusos, meu coração se despedaçou e quase comecei a chorar ali mesmo à mesa.
Ao terminar minha refeição, fui para o quarto, fechei a porta, me ajoelhei e clamei a Deus por libertação na vida daquelas mulheres. Lembrei-me da compaixão de Cristo ao encontrar mulheres que eram rejeitadas pela sociedade de seus dias e de como ele as amou e acolheu, dispensando perdão e transformando vidas. Era exatamente isso que eu pedia ao Senhor para a vida daquelas mulheres que vi na reportagem.
Na quarta e na quinta-feira, tudo se repetiu: eu assistia atentamente à reportagem e, após o término do episódio, entrava em meu quarto e orava a Deus, suplicando a ele suas bênçãos sobre aquela nação.
No último dia de reportagem, sexta-feira, o episódio tratou da religião do país, o islamismo. Ao assistir, compreendi — ainda que superficialmente — no que crê um muçulmano e como essa religião influenciava a vida daquelas pessoas.
Aos prantos, entrei novamente em meu quarto e supliquei a Deus que abrisse os olhos espirituais daquele povo para Cristo Jesus, o único e suficiente Salvador. Eu clamava para que Deus enviasse missionários àquele país, para anunciar àquele povo a graça de Cristo Jesus, que traz vida em abundância e faz todas as coisas novas.
Fiquei muito tempo ali, molhando os lençóis com lágrimas. Muitas lágrimas. Eu não conseguia parar de orar por aquele povo.
Queria de todo o meu coração que eles conhecessem a libertação, não política, não territorial, mas espiritual.
Naquele momento, comecei a ouvir o Espírito Santo falando ao meu coração: “Por que não você? Você pode ir!”. Eu nunca tinha ouvido a voz de Deus em meu coração de maneira tão direta, tão forte e tão evidente. Eu não tinha dúvida de que era o Senhor falando comigo. Aquilo me soou um pouco estranho — uma mistura de alegria e medo ao mesmo tempo.
Nos dias seguintes, orei muito a Deus para que me desse sabedoria e entendimento sobre o que ele queria para minha vida — quais eram os planos dele para meu presente e futuro. Eu já havia compreendido, por intermédio do meio ordinário de sua comunicação na Palavra revelada, as Sagradas Escrituras, que eu deveria “fazer discípulos de todas as nações”, uma ordem clara aos seus discípulos sobre missões transculturais.
Mas, agora, eu estava recebendo algo pelo meio extraordinário de sua comunicação — e queria ter certeza de como seria isso. Porém, mesmo sem entender direito tudo aquilo, eu sentia paz. Principalmente paz, por saber que o meio extraordinário não contradizia nem se sobrepunha ao meio ordinário de Deus.
Nos últimos dias daquela viagem, eu trabalhava e servia sempre pensando naquelas palavras. Vivenciei experiências incríveis — coisas que eu nem imaginava presenciar. Vi milagres acontecerem naqueles dias: curas físicas, libertação espiritual, transformação de famílias — e, em tudo, eu tinha o prazer de estar sendo usado por Deus nesse processo. Nem aos anjos foi dado esse privilégio de pregar o evangelho de Jesus Cristo (1Pe 1.12). Eu agradeci muito a Deus por me permitir ser usado naqueles dias e naquele lugar.
A viagem terminou, e eu tinha a certeza de que Deus me levara até o Paraguai não só para falar das boas-novas de salvação às pessoas, mas também para ouvir, de maneira bem específica, a sua voz chamando meu coração, fazendo-me lembrar de tudo o que eu já havia aprendido em sua Palavra: que eu era um discípulo de Cristo, um missionário.
Voltei ao Brasil tranquilo e certo de que o trabalho no Paraguai edificou vidas e transformou histórias — não só as dos paraguaios, mas a minha também.
Ao chegar ao Brasil, já na semana seguinte, minha mãe me disse que, na Igreja Batista do Povo, que ficava perto de nossa casa, aconteceria uma conferência missionária. Eu sabia que aquela igreja se destacava por ser uma igreja missionária. Sem pensar duas vezes, aceitei o convite, e fomos juntos aprender mais do Senhor.
Ao entrar no templo, deparei com um banner gigante, que ia de uma extremidade a outra da igreja. Nele, estava escrito o tema da conferência missionária daquele ano: “Dê de beber ao filho da escrava”1. Durante três dias, ouvi mensagens bíblicas maravilhosas sobre o “Ide” de Cristo, testemunhos lindos de missionários e os desafios na seara.
Comecei a entender melhor o que é um povo não alcançado, onde ele está, suas necessidades, seus desafios... e o que mais me tocava era o fato de ainda existirem tantos povos sem nenhuma presença missionária. Partia meu coração saber que havia povos que ainda não tinham a Bíblia traduzida para sua língua, que professar a fé em Cristo Jesus poderia lhes custar a vida e que a igreja poderia fazer mais do que estava fazendo.
Ao término da última mensagem, no domingo à noite, o pastor que transmitia a Palavra do Senhor ao seu povo falava sobre a disposição da igreja em ir e desafiava que a igreja despertasse e fosse. Quando ele terminou, sem hesitar, desafiou as pessoas ali presentes a firmarem um compromisso com Cristo de serem missionários transculturais entre os povos não alcançados.
Eu orava muito enquanto ele fazia o desafio, não continha minhas lágrimas e só me lembrava daquela voz, naquele quarto no Paraguai, que me dizia: “Por que não você? Você pode ir!”. Quando me dei conta, eu já estava à frente daquele púlpito, ajoelhado, aos prantos, dizendo “sim” ao convite do Senhor para dedicar minha vida à seara de Cristo.
Eu dizia ao meu Salvador: “Eis-me aqui, envia-me a mim”. Naquela noite, tive a certeza de que seria um missionário entre os povos não alcançados.
Quando pensava em ir para o campo missionário, eu queria ir com a bênção de meus pais. Isso era um fator inegociável para mim. A bênção deles seria muito importante para minha vida e para meu ministério. Por parte de minha mãe, eu sabia que seria tranquilo. Ela já era uma missionária em nossa
1 O tema se refere ao povo árabe (e aos muçulmanos), já que são os descendentes do filho da escrava Agar, chamado Ismael. (Gn 21.8-21)
cidade — na igreja, nas escolas públicas e em tantos outros lugares. Eu sabia que ela me abençoaria, que se sentiria realizada em mim. Mas e quanto ao meu pai? Ele ainda estava distante do Senhor. O que ele pensaria e, mais do que isso, qual seria sua reação ao ouvir que eu desejava ser um missionário entre povos não alcançados? Esse era um desafio que eu teria de enfrentar.
Eu estava orando muito por aquela conversa. Eu o via somente nos fins de semana, quando ele estava em casa. Muitas vezes, quando ia iniciar o assunto, o medo era maior do que o desejo de me abrir com ele; por isso, a conversa demorou meses para acontecer. Até que, em um domingo pela manhã, quando voltava da igreja, decidi que, na hora do almoço, conversaria com ele sobre meu desejo. No meio do almoço, criei coragem e disse que Deus estava me chamando para ser missionário entre os povos não alcançados. Ele terminou de mastigar a comida, engoliu e disse que eu só iria por cima do cadáver dele.
Essas palavras fizeram meu coração sangrar. A lógica que eu construía era simples: se Deus queria me usar no campo transcultural e eu não desejava ir sem a bênção de meu pai, Deus teria dois caminhos possíveis: 1) mudar o coração dele; ou 2) chamá-lo para a eternidade — afinal, como ele mesmo dissera: “Somente por cima do meu cadáver”.
É claro que eu não queria perder meu pai. Pedia incessantemente pela graça de Deus sobre a vida dele. Naqueles anos, ele estava longe dos caminhos do Senhor. Orava sempre para que Deus o restaurasse e o trouxesse de volta.
A cena da parábola do filho pródigo — o abraço do pai no filho arrependido — era a imagem que eu almejava ver um dia na vida de meu pai.
Enquanto esse dia não chegava, eu orava. Aprendi a perseverar na oração.
Mais uma vez, Deus ia moldando meu caráter de discípulo, fortalecendo minha fé e me ensinando que paciência e perseverança são fundamentais na missão.
Alguns anos mais tarde, exatamente em um domingo, após o culto da manhã, à mesma mesa, durante o almoço, meu pai rompeu o silêncio e disse que, se eu quisesse ir para o campo missionário, ele permitiria, concedendo-me, assim, sua bênção.
Quando Deus nos chama para ser missionários transculturais, ele não o faz pela metade. Ele providencia tudo de que precisamos para servi-lo, desde o momento do chamado e ao longo de toda a jornada. Ele não nos abandona em nenhuma circunstância. Quando agimos em obediência ao Senhor, fazendo discípulos de todas as nações e batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, encontramos descanso em sua promessa: “[Ele está conosco] todos os dias até à consumação do século” (Mt 28.20).
Ao escutar aquela pergunta dos policiais, eu sabia que ali também meu Mestre estava comigo. E ele me deu sabedoria para lidar com aquela questão. Ao responder à pergunta com outra pergunta, fiz isso de maneira retórica. Quando o policial olhou bem nos meus olhos, sem saber ao certo o que responder, eu disse:
— Na Bíblia, a Palavra de Deus, aprendi em várias passagens que a pessoa que nasce de novo e experimenta o perdão dos pecados por meio do sangue de Cristo deve compartilhar o evangelho, as boas-novas da salvação.
Completei ainda, dizendo:
— Está escrito que nós somos nação santa e povo de propriedade exclusiva de Deus para um único propósito: “proclamar as virtudes daquele que [nos] chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1Pe 2.9). Dessa maneira, assim como todo cristão genuíno que mora neste país...
Sim, é claro que eu sou um missionário.
Aqueles policiais não escutaram de mim a resposta que esperavam escutar. A tentativa de usar aquela pergunta como parte de um processo incriminatório caiu por terra, pois o conceito que tinham de “missionário” não correspondia à verdadeira definição encontrada na Palavra de Deus. Eles olharam um para o outro e, sem poder fazer nada, prosseguiram com o interrogatório.
Pude, então, respirar aliviado — ao menos por alguns minutos.
MUNDO ÁRABE
CURIOSIDADE RELIGIOSA
“E, quando orardes, não sereis como os hipócritas; porque gostam de orar em pé nas sinagogas e nos cantos das praças, para serem vistos dos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará. E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios; porque presumem que pelo seu muito falar serão ouvidos. Não vos assemelheis, pois, a eles; porque Deus, o vosso Pai, sabe o de que tendes necessidade, antes que lho peçais.” (Mt 6.5-8)
O povo nuriyahi, assim como todos os muçulmanos do mundo, deve orar cinco vezes ao dia. Essas orações são determinadas de acordo com o período do dia: ao nascer do sol, próximo ao horário do almoço, no meio da tarde, ao pôr do sol e no início da noite. Elas são memorizadas ainda na infância. Em momentos específicos do dia, eles se dirigem às mesquitas para cumprir esse ritual tão importante dentro de seu entendimento de obediência a Deus.
Um dos desafios para muitos muçulmanos é não transformar esse momento em algo mecânico. Ao repetir as mesmas palavras todos os dias, nos mesmos horários, realizando os mesmos movimentos corporais — ajoelhar-se, prostrar-se, levantar-se —, corre-se o risco de que o que deveria ser relacionamento com Deus se torne puro ritualismo. Quantas vezes vi meus amigos interromperem o que estavam fazendo ao ouvir o chamado das mesquitas para a oração, apenas para cumprir o ritual. Eu lhes perguntava: “Mas e se você orar vinte minutos antes ou vinte minutos depois?”. Eles respondiam que o horário estipulado era o que deveria ser cumprido.
Deus nos chama a ter um relacionamento pessoal com ele, e a oração é parte desse processo. Esse momento não deveria ser um peso, uma obrigatoriedade ou um mero ritual em nossas vidas. Por isso, entre no seu quarto, feche a porta e derrame o seu coração na presença de Deus: “em tudo, porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graças” (Fp 4.6).
Jesus nos ensinou muito sobre a oração. Quantas vezes lemos nas Escrituras que ele se retirou para buscar o Pai em oração? Precisamos seguir o exemplo de nosso Mestre e nos dedicar, de coração, e não por obrigação, a esse maravilhoso exercício espiritual de comunhão com o Senhor.
Somos missionários; portanto, que nossos joelhos se assemelhem aos dos camelos, ao nos prostrarmos diariamente aos pés de nosso Salvador.
CURIOSIDADE CULTURAL
Em Al-Nuriyah, assim como no Afeganistão, as mulheres têm de cobrir a cabeça. Muitos acreditam que esse gesto é apenas cultural — mas não é. Trata-se de uma exigência religiosa baseada nos preceitos do Corão, o livro sagrado dos muçulmanos. Portanto, não podemos olhar para uma mulher coberta e concluir que ela é árabe, pois ela pode pertencer a qualquer nacionalidade. A mulher só pode mostrar o cabelo a homens com os quais não possa contrair matrimônio — seu pai, por exemplo. Qualquer homem que, legalmente, possa casar-se com ela não tem o direito de ver seus cabelos. No contexto árabe, até mesmo os primos devem ser preservados dessa visão, já que o casamento entre pessoas com esse grau de parentesco é permitido e relativamente comum.
Nem tudo o que nos parece apenas um elemento cultural realmente o é para os povos aos quais somos enviados. Por isso, um missionário precisa aprender a ouvir — ouvir cada povo, cada contexto, cada indivíduo — em todos os aspectos.