Telles
Imaginemos uma reunião que congregue os melhores e mais criativos escritores, gente como Bernhard, Egan, Valéria Rezende, Handke, Sebald, Derrida, Freud, Pessoa, Rancière, Baldwin, Proust, Drummond, Leïla Slimani e vários outros. Nessa reunião se falaria da obra desses autores e de temas atuais, como aspectos da sexualidade, a internet e o Google, as realidades virtuais, o maratonar séries em streaming, os desfiles de moda, o “jogo do copo” que convoca os mortos do além (também chamado de “mesa Ouija” em outros países), a paternidade segundo o jogador Cristiano Ronaldo. E ainda uma reflexão sobre as posições de Bolsonaro, Trump e Agamben a respeito da pandemia de covid-19, acontecimento traumático, que já nos parece tão distante, e que defensivamente quase o “esquecemos”. Pois essa reunião não é apenas uma fantasia e vocês estão todos convidados. Ela constitui este livro e tem Sérgio Telles – psicanalista e escritor – como mestre de cerimônia, circulando por esses temas em textos apurados e densos, que estimulam a visão crítica dos leitores. PSICANÁLISE
Coletânea psicanalítica
É psicanalista e escritor, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae de São Paulo, onde coordena o grupo Psicanálise e Cultura e faz parte do corpo editorial da revista Percurso. Membro fundador da Associação Brasileira de Psicanálise de Casal e Família (ABPCF). Tem artigos publicados em revistas especializadas e escreve na grande imprensa. Autor de vários livros, entre eles O psicanalista vai ao cinema, em quatro volumes, cujas novas edições foram publicadas pela Blucher. Em 2002, foi vencedor do Prêmio APCA de Literatura na categoria Melhor Livro de Contos com a obra Peixe de bicicleta (Tao, 2ª edição, 2022).
“Ao contrário de Proust, que com tanto empenho se dispõe a reconstruir toda a sua vida por meio da escritura, expressando o desejo de reparar, de reconstruir os objetos internos atacados pela inveja . . . Drummond, de mau humor e com ódio, quer tapar o ‘insuportável mau cheiro da memória’.
Sérgio Telles PSICANÁLISE
Sérgio Telles
Coletânea psicanalítica
Por que em Drummond a memória exala um odor fétido e não perfumado como em Proust? Porque está ligada a memórias de ataques destrutivos direcionados à mãe, por ser ligada à pulsão de morte, e não à pulsão de vida, a Eros . . . O ‘o insuportável mau cheiro da memória’ se manifesta na escolha das metáforas usadas na poesia . . . mais ligadas à pulsão de morte, à destruição e à violência. O odor fétido da destruição causada pelo poeta. Culpado, ele se pergunta – terei o direito de ser lembrado depois de ter provocado tamanha destruição? Mereço que fique um pouquinho de mim em algum lugar do mundo?” Excerto de “O insuportável mau cheiro da memória”