A escrita científica é um processo que, como o psicanalítico, nos faz primeiro circular por entre as fendas de nossas vivências e tirar do que nos movimenta a energia necessária que será matéria-prima do trabalho a ser realizado. Os mecanismos psíquicos e as configurações internas que se põem em cena são tão diferentes como intensos, porque a escrita psicanalítica não se limita a descrever, transcrever, copiar ou relatar. Ela é em si, uma vivência e, como tal, não poderia deixar de pôr em movimento intensos mecanismos para fazer frente a tudo o que será remexido em nossa estável estruturação psíquica. Assim, podemos descobrir a escrita psicanalítica, acima de tudo, como criação, invenção, descoberta e realização; e descobrirmo-nos como autores capazes de pensar, escrever o que pensamos e assumir essa escrita. E aí deixar ganhar o mundo.
A escrita científica no divã
Escrever é percorrer um longo caminho por entre dúvidas, questões abertas, vagas ideias. Curiosidade, interesse e desejo, até algo que se chama um trabalho. A partir da descoberta de que não repete, não imita, não copia, uma escrita que se constrói internamente ganha liberdade de circular dentro de nós e audácia para apresentar-se fora de nós. Na escrita psicanalítica, mostraremos – mais do que aquilo que pensamos – aquilo que sentimos, vivenciamos e percebemos. Nela, não perdemos a riqueza do encontro com nosso analisando na clínica, não diminuímos a intensidade do que passamos no contato íntimo da sessão, não desperdiçamos as impressões sobre o que os autores enunciaram a respeito de um tema que nos mobiliza, não escondemos aquilo que elaboramos na privacidade da mente. Esta haverá de ser a melhor escolha. Difícil, mas melhor. Mais rica e mais viva.
PSICANÁLISE
Meira
Ana Cláudia dos Santos Meira
Ana Cláudia dos Santos Meira
A escrita científica no divã Entre as possibilidades e as dificuldades para com o escrever
PSICANÁLISE
3ª edição
Psicóloga e Psicanalista, fez formação em Psicoterapia pelo ESIPP, têm Formação Analítica pelo CEPdePA e está fazendo sua segunda Formação Analítica na SBPdePA, na qual é membro do Instituto. Mestre e doutora em Psicologia pela PUCRS, é autora do livro Histórias de captura: investimentos mortíferos nas relações mãe e filha, também editado pela Blucher. Atende há mais de 30 anos em clínica privada, é supervisora clínica e se ocupa da transmissão da psicanálise em seminários, grupos em instituições e de forma independente. Dedica-se à escrita psicanalítica, é autora de inúmeros artigos e capítulos de livros sobre esta temática tão presente e, muitas vezes, tão angustiante em nossa trajetória.