LUCIANO PONTES
TRÊS CONTOS, TRÊS CRIANÇAS, TRÊS VIDAS E UM DESTINO: TRABALHAR PARA AJUDAR NO SUSTENTO DE SUAS FAMÍLIAS.
LUCIANO PONTES
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A TERRA ENSACADA E OUTRAS HISTÓRIAS
Bem, e houve outro tempo em que as pessoas, imitando as aves de arribação, migravam em busca de dias melhores. Houve ou ainda há? “A terra ensacada” é um conto alegórico cuja base parece ser o velho mito da terra devastada, base para histórias como a do Santo Graal. O menino Antoniel, que consumia seus dias a trabalhar e trabalhar, em sua jornada severina, deixa a terra natal para melhor compreendê-la ou, valendo-nos da bela metáfora de José Saramago, precisou “sair da ilha para ver a ilha”. Luciano Pontes, que saiu muitas vezes da ilha, lança um olhar poético sobre as infâncias e nos convida a refletir sobre o trabalho infantil em três contextos distintos, trazendo para perto de nós três crianças que precisam vencer seus medos, situação com a qual todos nos defrontamos – ou defrontaremos – em algum momento de nossas vidas.
rês crianças que não aceitam perder a infância para a dureza da vida. Alvinho é o garoto que vende coentro na feira e gosta de brincar com pipas. Aurora é a menina que planta e colhe no canavial e gosta de cantar. Antoniel cuida da terra, mas se fecha para as belezas do mundo, até ser convidado a sair da cidade e labutar em uma construção. Conheça essas histórias que tocam em assuntos urgentes e difíceis da dura realidade de muitas infâncias.
LEITURA COMPARTILHADA: a partir dos 7 ANOS LEITURA INDEPENDENTE: a partir dos 9 ANOS
Marco Haurélio Escritor, editor, dramaturgo e folclorista
E OUTRAS HISTÓRIAS
ISBN ISBN978-65-5539-192-3 978-65-5539-192-3
ouve um tempo em que as feiras do interior e, por vezes, também as das capitais eram repletas de vida, como evoca Luciano Pontes no conto que abre este livro, “O cemitério das pipas”. Além das frutas da estação, eram comercializados cestos, balaios, selas, arreios, sacos de farinha, de feijão ou de milho, queijo, manteiga de garrafa, mel de engenho, cordas de várias espessuras, panelas de barro, moringas e alguidares, ao tempo em que se celebrava a arte do encontro. Cheiros os mais diversos, do pequi colhido recentemente ao requeijão servido com tijolo (doce em barras), impregnavam ambientes hoje vivos apenas em muitas lembranças. É nesse cenário que a voz do menino Alvinho, com seu balaio de coentro, ecoará em pregões, dizendo que a saudade tem cheiro sim, e ele é verde. Ou azul, se a lembrança alçar voo ao desenrolar lento do carretel da memória. Também houve um tempo em que as crianças entoavam loas aprendidas com as avós. Tempo em que o dia era dia e a noite era noite. Aurora, a protagonista da segunda história, como o seu nome indica, traz em si o arquétipo da deusa do amanhecer, como sugere Luciano em sua prosa poética: “Quando o céu estrelado da noite se deitava, Aurora surgia pelos caminhos de avelós como um clarão”. A menina que canta e acorda o dia incomoda aos mais velhos, a exemplo de tia Jurema, que lhe alerta sobre a Velha Cachimbeira, espécie de assombro noturno, personificação da noite: personagem ambivalente a ser evitado ou símbolo da velha sábia detentora de saberes possíveis somente aos que alcançam a sua idade veneranda? ...