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isbn 978-85-7480-727-0
9 788574 807270 Ateliê Editorial
Sobrecapa Santa Rosa final.indd 1
isbn 978-85-69298-59-5
9 788569 298595
Luís Bueno
Ubi rata n M ac ha d o
capas d e sa n ta rosa
No início da década de 1930, em Maceió, um jovem funcionário do Banco do Brasil, autor de um livro de contabilidade, começa a se revelar um artista, e um desses a quem absolutamente tudo no campo da cultura parece interessar: publica poemas na revista Novidade, ensaia uma carreira de cantor nas rádios locais, expõe quadros no Instituto Histórico e Geográfico. Logo, a carreira de bancário ficaria para trás, trocada de vez pela de artista plástico, assim como Maceió, trocada pelo Rio de Janeiro, a capital da República. O que nunca ficaria para trás era o interesse onívoro pelas várias artes. A decisão de dedicar-se à pintura não representou para ele jamais uma abdicação. Por isso mesmo, o atrairiam as relações que poderia estabelecer, a partir da pintura, com outras atividades. É assim que se colocaria na linha de frente da criação do moderno teatro brasileiro, criando cenários e figurinos, como para a revolucionária montagem dirigida por Ziembinski do Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, em 1943. Desenhou enfeites de rua para o carnaval. Foi professor de pintura e escreveu sobre arte nos jornais. A arte do livro foi, no entanto, sua paixão mais constante. Desde a chegada ao Rio até a morte, foram 23 anos fazendo projetos gráficos, criando ilustrações e desenhando capas, mais de trezentas, nas quais ficaria patente a fusão do artista sensível com o leitor atento. Este livro traz a mais ampla coletânea das capas criadas por Santa Rosa já reunida. Por meio delas é possível não apenas acompanhar a trajetória de um artista múltiplo, mas também a de uma literatura e de uma indústria editorial.
Artes do Livro
na qual o artista gráfico Santa Rosa pôs o máximo de si mesmo. Nada disso é novidade. Essa história já foi contada em livros, ensaios e artigos de imprensa, mas faltava alguém com paciência de Jó e gosto pela pesquisa para levantar as trezentas e tantas capas desenhadas e diagramadas pelo mestre paraibano, analisá-las, virá-las pelo avesso, colocá-las em sequência cronológica, mostrando as muitas singularidades do artista e sua evolução em sintonia com o momento editorial, literário e social escaldante então vivido pelo Brasil. Esta é a novidade deste Capas de Santa Rosa, de Luís Bueno, fruto de dez anos de trabalho persistente. Com paixão, isenção e aguçado olho crítico, Bueno acompanha a trajetória do capista e sua intensa atividade, movida a eletricidade, como observamos. Capaz de sondar o espírito de uma obra e representá-lo em uma ilustração no espaço de uma noite. E... bem, não vamos adiantar mais nada. O melhor é o leitor acompanhar o próprio texto do autor. É fácil. Basta abrir o livro e pular para dentro de suas páginas, enriquecidas com a reprodução de centenas de capas de Santa Rosa e de alguns contemporâneos. Essa é a melhor homenagem que se pode prestar ao artista, nos sessenta anos de sua morte.
capas de
Luís Bueno
Em 2016 o Brasil comemora sessenta anos da morte de Tomás Santa Rosa, ocorrida na Índia. Foi uma espécie de sarcasmo do destino, o homem pacato e jovem (ainda não tinha 50 anos) e o artista brasileiríssimo morrer longe, muito longe, da terra e das criaturas que seu desenho fixou com angústia, simpatia pelos humildes, dramaticidade, comoção, uma certa carga elétrica de poesia. Eletricidade. Talvez seja essa a palavra-chave para definir o homem e o artista, os vários homens e artistas que coabitavam sob a sua pele de nordestino arretado. Pois Santa Rosa, como todo criador autêntico, foi muitos. Talvez, não tenha chegado a ser trezentos ou trezentos e cinquenta como admitia Mário de Andrade, cheio de espanto, ao olhar para si mesmo. Talvez. Mas foi múltiplo, sobretudo em sua atividade profissional. Pintor, diagramador, cenógrafo, ilustrador de revistas e livros, escritor que gostava de derramar o leite da ternura humana no coração e na mente da criançada (vejam o seu delicioso O Circo, vencedor do concurso de obras infantis do Ministério da Educação), decorador, figurinista, crítico de arte e mais uma meia dúzia de atividades menores. Mas, tudo pesado, ele vai ficar mesmo como o grande responsável pelo fiat lux que iluminou e modernizou o livro brasileiro. Quando ingressa na editora José Olympio, em 1934, Santa Rosa passa a atuar como paginador, diagramador, ilustrador, capista. Só o texto não era dele. No mais, executava tudo quanto a musa canta a respeito. Essa atividade, com crises periódicas de autorrenovação, durou mais de vinte anos. Durante esse período, as edições da Casa (como se dizia então da José Olympio) ganham corpo e cara próprias, e, por tabela, renovam o livro nacional, dando-lhe aspecto e espírito brasileiro. Por “cara”, entenda-se a capa do livro, atividade
Edições Sesc São Paulo
1/20/16 5:33 PM