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GABRIEL ABRANTES: Coleção Arte, Trabalho e Ideal

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dos, do futebol à psicanálise, da poesia visual à ironia. Interessado em “lugares onde formas contemporâneas de vida estão a ser inventadas”, filmou em Angola, no Haiti, em Sri Lanka e no Brasil, e recriou paisagens afegãs e ira-

O triângulo “arte, trabalho e ideal”

quianas em estúdio, compondo especulações narrativas

abrange o gesto artístico. O pensa-

que exploram o atrito sutil entre eixos de poder tradicio-

mento crítico o acompanha, e as

nais e emergentes. O frescor de seu olhar libertário, que

técnicas o tornam possível. Esse

mira a forma como a cultura global está sendo transforma-

gesto define a fabulosa complexi-

da pela ascensão de novos atores – e os impactos dessas

dade da relação com o mundo e a

identidades em culturas antes hegemônicas –, chamou

insaciável necessidade que o artis-

atenção em um festival que, em 2015, abria sua convoca-

ta tem de questioná-la, mensurá-la

tória a artistas portugueses, incluindo o país no desenho

e inventá-la. Investigar esse univer-

simbólico do Sul do mundo.

so é o intuito desta coleção.

Desde 2015, ano em que também participou da 56ª Bienal de Veneza, Gabriel Abrantes fez seu primeiro longa-metragem, premiado em Cannes, entre outros trabalhos que reafirmam o caráter dissonante e visionário do olhar que lança às mudanças em nosso mundo. O mergulho aprofundado em sua obra que este livro empreende, da perspectiva da articulação entre arte, trabalho e ideal, é oportuno e inspirador: mais que cenários, nos apresenta os lugares internos onde o contemporâneo está sendo inventado.

Gabriel Abrantes é artista multidisciplinar, cineasta e professor. Sua obra transita por um vasto universo temático, permeável às mais diversificadas referências. No processo de criação, considera os aspectos experimentais, valorizando a dimensão lúdica da arte, com apurada visão crítica dos meios e modos de produção. Seus

Solange Farkas Curadora, fundadora da Bienal de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil e presidente da Associação Cultural Videobrasil.

filmes e vídeos exploram procedimentos artesanais e a estética do cinema popular, forjando uma filmografia situada na fronteira entre realidade e ficção.

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cultura clássica aos gêneros hollywoodianos padroniza-

gabriel abrantes arte, org. fabiana de barros michel favre marcia zoladz

trabalho e ideal

Pouco antes de participar da primeira mostra abrangente de seu trabalho realizada no Brasil, como um dos artistas convidados do 19º Festival de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil, em 2015, Gabriel Abrantes falou, em entrevista, de seu espanto diante de um mundo que resiste a reconhecer e a incorporar suas próprias e óbvias transformações, em especial no que diz respeito à sacrossanta instituição das identidades culturais nacionais. “Surpreende-me o tom nacionalista ainda dominante na organização e no consumo da cultura”, disse, em fala registrada no catálogo do festival. “Como é persistente e forte a negação do hibridismo cultural, mesmo após quinhentos anos de migrações de populações inteiras.” Longe de deter-se no incômodo expresso nesse comentário – que soa quase como um desabafo –, o corpo da obra de Abrantes já nasce em um lugar situado bem além dele. Ou, como ele mesmo concluía: “Todos os meus filmes parecem se comprazer com um pouco de hibridismo e ambiguidade. Não me interessa tanto ‘criar’ híbridos, mas sublinhar o fato de que as coisas já são híbridas; identidades padronizadas e imutáveis são uma ficção.” Filho de mãe angolana e pai zairense, nascido no estado norte-americano da Carolina do Norte e formado em arte e linguagens audiovisuais entre Nova York, Tourcoing e Paris, Gabriel Abrantes aporta à grande onda pós-colonial – ou, no melhor dos casos, descolonial – na cultura de uma perspectiva particularíssima, de uma contemporaneidade que ultrapassa seu tempo. Seu conceito flexível de geografia e seu gosto pelo artifício refletem uma visão iconoclasta da história, da geopolítica, da arte e do cinema; em seu universo pessoal de campos utilizáveis, cabem da

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