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MITO, LITERATURA E O MUNDO AFRICANO

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WOLE SOYINKA nasceu em Abeokuta, na Nigéria, em 1934. De origem iorubá, foi o primeiro escritor africano o receber o prêmio Nobel de literatura, em 1986. Sua obra é vasta, abrangendo ficção literária, poesia, teatro, memórias e ensaios. Professor emérito da Universidade Obafemi Awolowo, em Ifé, lecionou também em universidades como Cambridge, Sheffield e Yale.

Edições Sesc São Paulo ISBN 978-85-9493-313-3

9 788594 933133

Zahar ISBN 978-65-5979-196-5

Tradução de Karen de Andrade

biblioteca africana

Wole Soyinka apresentou os ensaios brilhantes coletados neste livro seminal em uma série de palestras proferidas no ano acadêmico de 1973-4, na Universidade de Cambridge. Junto de quase todos os estudantes negros que ali se formavam, eu assistia a todas as palestras e absorvia com avidez cada palavra. Nosso entusiasmo era palpável. Desde o primeiro dia, tivemos a impressão de estar vivenciando um momento único: uma redefinição sísmica da natureza e da função da mitologia iorubá e, por extensão, da África negra. Geralmente tratados por cientistas sociais como artefatos implorando por uma interpretação antropológica, os deuses iorubás foram explicados por Soyinka como figurações simbólicas da linguagem, atos de literatura, metáforas e alegorias, à maneira como entendemos os deuses gregos. Em outras palavras, ele mudou o jogo: revelando a extraordinária riqueza do panteão iorubá, permitiu que esse fosse o ângulo a partir do qual poderíamos enxergar a literatura europeia clássica. Em sua última palestra, saudada por uma ovação de pé, ficou claro para cada um dos membros da audiência que havíamos testemunhado um evento intelectual histórico. Henry Louis Gates Jr.

mito, literatura e o mundo africano

ACERVO DO AUTOR

mito, literatura e o mundo africano

wole soyinka

o que chama de “autoapreensão do mundo africano”. O resultado é uma obra-prima, que nos exibe a mitologia africana — tal qual a grega ou a romana — como um complexo sistema de pensamento e de valores civilizatórios, e sobretudo como um horizonte normativo (ético, moral e estético) que orienta a vida em comunidade. É tempo de reposicionarmos as visões de mundo oriundas de África em todas as dimensões da vida social — um de nossos maiores desafios como nação. É tempo de transformar Obatalá, Xangô e Ogum em palavra, imagem, ideia e sentimento de uso comum nosso.

mito, literatura e o mundo africano wole soyinka

Cronos é o deus grego do tempo; “cronômetro” e “cronologia” são palavras nossas de uso comum. Os planetas do sistema solar são quase todos nomeados em homenagem a deuses romanos ou gregos. Há quem aspire a viver num “Olimpo”, detenha o “voto de Minerva” ou veja segredos recônditos de sua alma expostos à luz do “complexo de Édipo”, o herói mitológico grego que matou o pai e desposou a mãe. Freud explica. Esses exemplos poderiam ser facilmente multiplicados. Seja nas ciências, na literatura, nas artes, na letra da lei e das instituições ou no linguajar cotidiano, a mitologia grega e romana é presença constante, orgânica. Opera como um sistema por meio do qual o real ganha novos sentidos. E não há coletividade humana que viva sem seus mitos. Ao longo de quase quatro séculos, o Brasil recebeu milhões e milhões de africanos escravizados. Iorubás, bantos, hauçás, malinqués… Onde foram parar os mitos e deuses desses povos? Habitam as manifestações estéticas, artísticas e musicais vinculadas às religiões de matriz africana. Desde sempre perseguidas e estigmatizadas, há todo um universo de pessoas que vivem e respiram essa atmosfera. Mito, literatura e o mundo africano é um livro fundamental para iluminar o nexo entre essas visões de mundo vividas no Brasil e em África, ontem e hoje. Wole Soyinka analisa a interconexão entre história, literatura, teatro, mito e ritual na cultura iorubá e elabora

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