Skip to main content

UMA HISTÓRIA DAS SEXUALIDADES

Page 1

•miolo_SEXUALIDADES_PROVA.indd 333

08/06/21 14:55


UMA históriA DAs sexuAlidADes

1

•miolo_SEXUALIDADES_PROVA.indd 1

08/06/21 14:55


SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO Administração Regional no Estado de São Paulo Presidente do Conselho Regional Abram Szajman Diretor Regional Danilo Santos de Miranda Conselho Editorial Ivan Giannini Joel Naimayer Padula Luiz Deoclécio Massaro Galina Sérgio José Battistelli Edições Sesc São Paulo Gerente Iã Paulo Ribeiro Gerente adjunta Isabel M. M. Alexandre Coordenação editorial Cristianne Lameirinha, Clívia Ramiro, Francis Manzoni Produção editorial Simone Oliveira Coordenação gráfica Katia Verissimo Produção gráfica Fabio Pinotti, Ricardo Kawazu Coordenação de comunicação Bruna Zarnoviec Daniel

Cet ouvrage, publié dans le cadre du Programme d’Aide à la Publication 2020 Carlos Drummond de Andrade de l’Ambassade de France au Brésil, bénéficie du soutien du Ministère de l'Europe et des Affaires étrangères. Este livro, publicado no âmbito do Programa de Apoio à Publicação 2020 Carlos Drummond de Andrade da Embaixada da França no Brasil, contou com o apoio do Ministério francês da Europa e das Relações Exteriores.

•miolo_SEXUALIDADES_PROVA.indd 2

08/06/21 14:55


UMA históriA DAs sexUALiDAdes organização

Sylvie Steinberg

com contribuições de

Christine Bard Didier Lett Gabrielle Houbre Sandra Boehringer Sylvie Steinberg Tradução

Mariana Echalar

•miolo_SEXUALIDADES_PROVA.indd 3

08/06/21 14:55


Título original: Une histoire des sexualités © Presses Universitaires de France/Humensis, 2018 © Edições Sesc São Paulo, 2021 Todos os direitos reservados

Preparação André Albert Revisão Bibiana Leme, Elba Elisa Capa, projeto gráfico e diagramação Tereza Bettinardi Imagem da capa Leda mit dem Schwan (Leda e o cisne), de Peter Paul Rubens, c. 1598-1602. Óleo sobre carvalho, 122 cm × 182 cm. Coleção Gemäldegalerie Alte Meister, Dresden, Alemanha

Dados Internacionais de Catalogação (CIP) St347

Uma história das sexualidades / Organização de Sylvie Steinberg; tradução de Mariana Echalar. – São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2021. 336 p. Referências ISBN 978-65-86111-23-1

1. História.  2. Demografia histórica.  3. Antropologia cultural. 4. História social.  5. Sexualidade.  6. Poder.  7. Corpo.  8. Procriação. Minorias sexuais.  I. Título.  II. Steinberg, Sylvie.  III. Echalar, Mariana.

CDD-792

Edições Sesc São Paulo Rua Serra da Bocaina, 570 – 11º andar 03174-000 – São Paulo SP Brasil Tel.: 55 11 2607-9400 edicoes@sescsp.org.br sescsp.org.br/edicoes /edicoessescsp 4

•miolo_SEXUALIDADES_PROVA.indd 4

08/06/21 14:55


SUMÁRIO

13

Nota à edição brasileira

15

Introdução  Sylvie Steinberg

parte 1

20 SOCIEDADES ANTIGAS: GRÉCIA E ROMA  Sandra Boehringer

capítulo 1

25

O TRABALHO COM A SEXUALIDADE ANTIGA

25

Que documentos para a sexualidade antiga?

27

Breve historiografia da história da sexualidade antiga

29 Identidades, gênero e estatutos 31

Uma história temática

capítulo 2

32 GRÉCIA 32 Eros, o desejo como força 34 Safo e a dimensão “transgênero” do desejo 36 O âmbito conjugal 39 Fora do âmbito conjugal 40 As violências sexuais 41

O trabalho sexual; o concubinato

44

O homoerotismo masculino dos cidadãos

45

“Pederastia”, relações eróticas entre mulheres e

a questão da identidade

47

Normas sociais e constrangimentos sexuais

capítulo 3

50 ROMA 50 O contexto social e cultural 51

Sentimentos amorosos: poesia e representação

53 O casamento romano 55 Relações eróticas fora do casamento 57

Violência e stuprum

59 Onipresença do sexo pago 60 A “pederastia” em questão 62 Condenação moral dos excessos 63 Efeito erótico de uma Grécia imaginária

•miolo_SEXUALIDADES_PROVA.indd 5

08/06/21 14:55


parte 2

66 O OCIDENTE MEDIEVAL  Didier Lett

capítulo 1

71

O ATO SEXUAL E A RELAÇÃO COM O PRAZER

71

Papel ativo e papel passivo

72

O prazer condenado pelo discurso eclesiástico

73

Um esboço de arte erótica no discurso médico

capítulo 2

75

A SEXUALIDADE NO CASAMENTO

75

As regras estritas das práticas sexuais lícitas

77

A posição do missionário: o homem por cima da mulher

78

Respeito às interdições do calendário cristão

79

Valorização da abstinência

80 Contracepção 81

Aborto

capítulo 3

83 AS PRÁTICAS EXTRACONJUGAIS 83 Adultério masculino e adultério feminino 85 Concubinato, um fenômeno comum 87 Adultério ou concubinato?

capítulo 4

89 SEXUALIDADES ENTRE PESSOAS DO MESMO SEXO 89 O “nascimento da sodomia” 90 “Vício sodomita”, um termo polissêmico 91

Sodomia: um ato sexual, não uma orientação sexual

94 A caça aos sodomitas nos séculos XIV e XV 97

A “sodomia feminina”

capítulo 5

100 PROSTITUIÇÃO 100 Uma prática tolerada e confinada nos bordéis públicos 102 Cafetinas, proxenetas e prostitutas

capítulo 6

104 VIOLÊNCIAS SEXUAIS 104 Insultos de caráter sexual 106 Estupro 110 Abusos sexuais contra as crianças

•miolo_SEXUALIDADES_PROVA.indd 6

08/06/21 14:55


parte 3

112 DO RENASCIMENTO AO ILUMINISMO  Sylvie Steinberg

capítulo 1

117 SOBRE O PRAZER SEXUAL 117 Prazer e procriação segundo a medicina antiga 119 Semelhanças e diferenças entre a anatomia feminina e a masculina 121 Por que o prazer sexual foi concedido aos seres humanos? 122 Naturalização dos comportamentos sexuais prescritos pela Igreja 123 Sobre a proibição dos métodos contraceptivos e abortivos 124 A opinião dos médicos sobre a dívida conjugal

e a impotência no casamento

126 Reciprocidade, estupro e consentimento

capítulo 2

129 REPRESENTAÇÕES ARTÍSTICAS NO LIMITE DO PROIBIDO 129 Novas representações artísticas:

o nu e a fecundidade no casamento

130 Representações mitológicas: a figura da castidade

e a figura da amazona

132 Representações e realidade das relações sexuais entre mulheres 133 Representações e realidade das relações sexuais entre homens

capítulo 3

136 REFORMA E CONTRARREFORMA: O DISCURSO ECLESIÁSTICO 136 Uma época de repressão religiosa? A moralização do clero 137 Renovação da pastoral do matrimônio 139 Preocupação com a sexualidade juvenil 140 A prostituição entre a Reforma e a Contrarreforma 142 É possível avaliar as consequências das reformas

religiosas na vida sexual?

capítulo 4

144 SOBRE O CONTROLE DA NATALIDADE 145 Sobre a possibilidade de não procriar 146 “Planejamento familiar” já naquela época? 148 O século dos “vapores” 148 O receio do despovoamento 149 A obsessão do onanismo 151 Banalização da masturbação

•miolo_SEXUALIDADES_PROVA.indd 7

08/06/21 14:55


capítulo 5

153 O SEXO POLITIZADO 153 Crítica à sociedade de artifícios e desejo de naturalidade 154 Ataque anticlerical 156 Grande senhor, homem mau 156 Sexualidade e dessacralização da realeza

capítulo 6

158 A LIBERTINAGEM EM QUESTÕES 158 Uma época em busca do “companheirismo conjugal” 160 As figuras complementares da esposa estéril e da mulher da vida 161 Sobre certos comportamentos masculinos 162 O mercado do prazer masculino 165 Subcultura homossexual e heterossexualidade triunfante 166 Premissas da emancipação sexual?

parte 4

170 O SÉCULO XIX  Gabrielle Houbre

capítulo 1

175 CÓDIGOS DO AMOR E APRENDIZAGENS SEXUAIS 175 Modelos culturais e práticas das elites 177 O lado dos meninos 178 O modelo católico da mocinha ingênua 179 A influência protestante e a disseminação do flerte 181 Na França rural 183 Relações pré-nupciais de forte caráter regional 185 Onipresença da comunidade interiorana

capítulo 2

189 A NORMA: PROCRIAR DENTRO DO CASAMENTO 189 Discursos convergentes da Igreja e da medicina 191 O pesadelo do desperdício onanista 192 Os cânones da sexualidade apropriada 195 Adultério, ou o reverso do casamento

capítulo 3

197 PROSTITUIÇÕES: SEXUALIDADES PERIFÉRICAS 197 Surgimento do regulamentarismo 199 Pluralidade da sociedade das prostitutas 201 Prostituição e homossexualidade 203 Fotografia pornográfica: novo suporte, novo mercado

•miolo_SEXUALIDADES_PROVA.indd 8

08/06/21 14:55


capítulo 4

205 AFIRMAÇÃO DA HOMOSSEXUALIDADE 205 Homossexualidade masculina:

entre descriminalização e estigmatização

207 Rumo à medicalização da “inversão” 210 Figuras e sociabilidade homossexuais na virada do século

capítulo 5

213 VIOLÊNCIAS E CRIMES SEXUAIS: ENTRE NEGAÇÃO E CONDENAÇÃO 213 A noção de “atentado aos costumes” 214 Necrofilia e incesto: impunidade em discussão 216 Maior repressão ao estupro 218 Crime conjugal

parte 5

222 SÉCULO XX E INÍCIO DO XXI  Christine Bard

capítulo 1

225 A REVOLUÇÃO SEXUAL COMO PRISMA 226 A herança da revolução sexual dos anos 1880-1930 228 Reflexões sobre a revolução sexual nos “anos 1968” 232 Revolução na pesquisa? 234 Uma revolução cognitiva

capítulo 2

237 O CONTROLE DA FECUNDIDADE 237 Do neomalthusianismo ao planejamento familiar 241 A liberação da contracepção 243 O direito ao aborto 246 IVG: uma “conquista” do feminismo ainda sob ameaça

capítulo 3

250 MUDANÇAS NA HETEROSSEXUALIDADE 251 Diminuição dos tabus e novas normas 253 Os direitos sexuais dos jovens 256 Homens “na sombra” das mulheres

capítulo 4

259 HOMOSSEXUAIS, LÉSBICAS E TRANS* EM REVOLUÇÃO 259 1971: Frente Homossexual de Ação Revolucionária 262 Herança repressiva e explicitação da homofobia 265 Movimentos e culturas LGBT

•miolo_SEXUALIDADES_PROVA.indd 9

08/06/21 14:55


267 A revolução lésbica 270 A revolução trans*

capítulo 5

277 LIBERAÇÃO SEXUAL? 277 Origens culturais da revolução sexual dos anos 1970 280 A “explosão” pornográfica 282 As prostitutas tomam a palavra 285 Quando o estupro começa a ser ouvido 287 Pedofilia e pedocriminalidade 289 Críticas feministas

capítulo 6

292 UMA REVOLUÇÃO CONTROVERTIDA 292 Uma revolução universal? 295 Uma revolução global? 297 Revolução política ou revolução antropológica?

303 Índice onomástico 315 Referências bibliográficas 331 Sobre os autores

•miolo_SEXUALIDADES_PROVA.indd 10

08/06/21 14:55


11

•miolo_SEXUALIDADES_PROVA.indd 11

08/06/21 14:55


12

•miolo_SEXUALIDADES_PROVA.indd 12

08/06/21 14:55


notA À ediçÃo brAsileirA

“Como escrever uma história da sexualidade nos dias atuais?”. É com essa pergunta que a historiadora Sylvie Steinberg abre este livro, fundamentado na obra de Michel Foucault e no compromisso com a desnaturalização das relações entre corpo, gênero, cultura, poder e subjetividade. Estruturados na ideia de diversidade e no entendimento da sexualidade como um mosaico firmado em dispositivos de controle que regem as práticas dos sujeitos sociais, os estudos aqui reunidos abrangem a história do Ocidente, que principia na Antiguidade clássica, percorre o catolicismo medieval e o Renascimento, atravessa a sociedade burguesa do século XIX e alcança a crítica ao binarismo e o direito à pansexualidade neste início de milênio. Elemento central à formação identitária, a sexualidade está longe de se estabelecer sob uma perspectiva plana, sendo perpassada por conflitos de ordem moral, religiosa, científica e política, com o intuito de moldar o corpo e o prazer. Diante de sua complexidade, este livro trata da história da sexualidade em diálogo com a demografia histórica, a antropologia cultural e a história social, a fim de também evidenciar como, ao longo do tempo, a documentação histórica foi construída por homens que detinham o conhecimento letrado e, logo, o poder sobre as narrativas. Desse modo, a extensa pesquisa presente nesta obra nos convida a descortinar a história da nossa sexualidade e compreender diacronicamente como temos lidado com a intimidade e o desejo, com vistas a sempre preconizar o direito à liberdade e à diversidade, tão caros à realidade contemporânea e que permanecem exigindo de nós razão e sensibilidade.

13

•miolo_SEXUALIDADES_PROVA.indd 13

08/06/21 14:55


•miolo_SEXUALIDADES_PROVA.indd 14

08/06/21 14:55


InTroduçÃo sylvie steinberg

Como escrever uma história da sexualidade nos dias atuais? A história da sexualidade foi consideravelmente reformulada nos últimos anos por influência de vários fatores. O contexto contemporâneo caracteriza-se por algumas transformações profundas – como a dissociação mental e técnica entre sexualidade e procriação, as reivindicações e as leituras feministas da sexualidade, o olhar para as “minorias” sexuais – que conduzem à renovação da compreensão das sexualidades nas sociedades do passado, tornadas mais claramente “estranhas” a nossos olhos. A narrativa a seguir percorre da Grécia Antiga até o mundo contemporâneo. Breve síntese dos conhecimentos históricos acumulados desde algumas décadas atrás, concentra-se essencialmente na Europa Ocidental, com uma série de panoramas sobre a França, considerada em sua especificidade histórica, mas também em sua exemplaridade. Não se pretende exaustiva, porém desejaria mostrar a riqueza dos estudos históricos tanto do ponto de vista da inventividade da pesquisa documental como da reflexão aplicada. Como campo de pesquisa, a história da sexualidade nasceu nos anos 1970, gestada ao mesmo tempo por um contexto social e político de “revolução sexual” – uma noção que será discutida nas próximas páginas – e por uma corrente de estudos preocupada em reconstituir o movimento das “populações”, a vida cotidiana dos “humildes”, o estado biológico das “massas” ou, ainda, a “vida privada” dos indivíduos. Sob os olhares cruzados da demografia histórica, da antropologia cultural e da história social, surgiu uma história da sexualidade, a apresentar a hipótese de que o comportamento humano ligado à sexualidade – fantasias e representações, práticas eróticas e procriativas, normas e interdições – também tinha uma história, que precisava ser retraçada e não podia ficar isolada dos outros aspectos da história humana. Foi, primeiro, por meio da observação dos números que essa história se construiu pouco a pouco como um campo específico: enquanto os historiadores demógrafos reconstituíam com paciência e eficácia as evoluções da população europeia desde o século xvii, graças à investigação 15

•miolo_SEXUALIDADES_PROVA.indd 15

08/06/21 14:55


metódica dos registros paroquiais, os historiadores da “vida privada”, como Philippe Ariès e Jean-Louis Flandrin, pesquisavam a vida familiar, os sentimentos pelas crianças pequenas, as condições em que ocorriam o parto e o aleitamento, os ritos matrimoniais, as interdições eclesiásticas, a convivência pré-nupcial, o olhar social a respeito do adultério ou da prostituição etc. Observando atentamente curvas e estatísticas, eles contribuíram para a explicação dos dados colhidos: a idade no momento das núpcias, a temporada das bodas, a regularidade das concepções, o intervalo entre os nascimentos, a frequência dos nascimentos ilegítimos, tudo graças a uma completa renovação das fontes históricas, em que se cruzavam provérbios, mandamentos episcopais, manuais de confessores, legislação real, tratados de pedagogia e livros contábeis. E foi com a “invenção” dessas fontes inesperadas que novos temas vieram à luz, em particular o dos “desvios sexuais”, que pouco a pouco foram documentados nos tratados de medicina e nos arquivos judiciais. Se a Idade Moderna (e o grande desafio que a necessidade de compreender e esclarecer o processo da “transição demográfica” do século xviii representava para os historiadores) foi o primeiro laboratório da história da sexualidade, o estudo do século xix tomou vias paralelas: as da história social, da história das sensibilidades, da história das representações e da história das mulheres. Por ter sido o século do romantismo e do aprofundamento dos sentimentos, do romance realista e do decadentismo, da Revolução Industrial e do triunfo da medicina, o século xix deixou para a posteridade um grande número de imagens da sexualidade conjugal, extraconjugal e prostitucional, que historiadores como Alain Corbin ou Anne-Marie Sohn se dedicaram a decifrar, explicar e periodizar. O século xix foi não apenas provedor de representações da vida sexual, mas também inventou novas disciplinas acadêmicas dedicadas ao estudo dessa vida sexual: ciências médicas, do higienismo à sexologia, e ciências da psique, da psiquiatria à psicanálise freudiana. Não podemos esquecer que foi no século xix que a palavra “sexualidade” apareceu, e a “coisa” que durante muito tempo fora inominável começou a ser designada como uma atividade específica e delimitada, pois se elaboraram novas taxonomias que nomearam, uma a uma, as práticas, as “perversões” e os indivíduos que se entregam a elas. Foi a essa constatação da profusão dos discursos sobre o sexo no século xix que Michel Foucault deu destaque em sua História da sexualidade, publicada a partir de 1976, bem como ao paradoxo de uma época na qual a proliferação dos discursos era acompanhada de uma censura moral reiterada, viva e onipresente do sexo. Questionando-se sobre a posteridade contemporânea desse paradoxo – o século xix sensual não teria terminado na década de 1950? –, trazendo à luz os dispositivos de controle (religiosos, científicos, políticos) sobre o corpo e a sexualidade, desvendando o empreendimento científico de categorização da sexua16

•miolo_SEXUALIDADES_PROVA.indd 16

08/06/21 14:55


lidade e valendo-se de uma história da subjetividade, Michel Foucault levou os historiadores da época contemporânea a pistas de reflexão que até hoje são largamente empregadas na França e em outros países. Nos Estados Unidos, os dois volumes dedicados à Antiguidade greco-romana para os quais contribuiu o historiador Paul Veyne foram igualmente objeto de inúmeros comentários e originaram novas pesquisas nesse campo. A atenção de Michel Foucault à “estilização” da sexualidade proposta pelos pensadores da Antiguidade foi substituída por pesquisas sobre o sentido das palavras utilizadas pelos antigos para designar as atividades sexuais, sob uma perspectiva de análise linguística e discursiva, e também sobre as “categorias” de apreensão da sexualidade próprias das sociedades antigas – sociedades essas que se situam “before sexuality”, como diz o título de uma coletânea recente de abordagens desse tipo. O lugar das relações entre pessoas do mesmo sexo nessas sociedades antigas, associado à ausência de terminologia própria para designar tais práticas ou as identidades “homossexuais”, foi objeto de numerosos estudos, que se estenderam até a Alta Idade Média e a época além dela. De certo modo, as sociedades medievais e modernas, ao menos até o século xviii, poderiam ser qualificadas como “before homosexuality”. Na esteira das análises de Michel Foucault sobre a transposição das morais antigas pelos Padres da Igreja, hoje publicadas sob o título As confissões da carne1, os historiadores medievalistas deram destaque às complexas adaptações das normas e dos imaginários antigos do casamento e da sexualidade e à reciclagem de noções jurídicas romanas no direito canônico, sem, de resto, ocultar a importância existencial do pecado e da falta para os medievais. Escrever uma história da sexualidade nos dias atuais consiste, portanto, em escrever, a partir dessas múltiplas heranças, uma história das sexualidades que leve em consideração tanto a diversidade das práticas sexuais, em função de idade, sexo, orientação sexual e legitimidade dos parceiros, como as formas históricas de “estilização” da sexualidade conforme a época. “Fato social total”, a sexualidade encontra-se na intersecção de vários tipos de abordagens históricas: sociais, antropológicas, culturais, linguísticas. Mas não se pode interessar-se hoje pela história da sexualidade sem recordar a recomendação, feita muito tempo atrás por historiadoras e historiadores das mulheres, de que é preciso ter em mente que as fontes disponíveis foram produzidas essencialmente por homens. É antes de tudo sob o olhar seduzido, fascinado, condescendente ou caçoador deles – o riso é um elemento fundamental para se falar ou não de sexo – que as mulheres do passado evoluem e as relações amorosas e as práticas sexuais são repertoriadas.

1 Ed. bras.: Michel Foucault, História da sexualidade 4: As confissões da carne, Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra, 2020. [n.t.] 17

•miolo_SEXUALIDADES_PROVA.indd 17

08/06/21 14:55


A história das sexualidades do início do século xxi também não poderia prescindir das ferramentas criadas no campo da história do gênero. As duas áreas têm em comum a “desconstrução” das categorias contemporâneas de senso comum para exumar aquelas utilizadas pelas atrizes e pelos atores do passado, o questionamento das categorias de análise úteis para abordar os objetos históricos, bem como a evidenciação do caráter cultural de fatos aparentemente naturais – na realidade, amplamente naturalizados. Do mesmo modo, a problemática das relações e dos dispositivos de poder é comum aos dois campos de pesquisa. Os estudos das violências sexuais, escravidão e exploração sexual, e da repressão das práticas sexuais minoritárias ou consideradas “pervertidas” estão evidentemente ligados a essa problemática. Mas todo tipo de sexualidade ou relação estabelecida no terreno da sexualidade também pode ser visto como uma relação de poder, dependente, por sua vez, de outros tipos de relações de poder – econômico ou político, material ou simbólico. Que a sexualidade esteja no fundamento dessas relações de poder, ou simplesmente reflita outros modos de dominação social, é sem dúvida uma questão que encontrará respostas diferentes conforme o contexto histórico ou, ao menos, suscitará questionamentos historiográficos. Em todo caso, a história das sexualidades também se escreve hoje com as palavras da política. Hierarquia, dominação, discriminação, desigualdade e igualdade, liberdade, liberação, revolução, utopia, democracia são noções que, relacionadas à sexualidade das mulheres e dos homens do passado, encontrarão elucidações nas páginas a seguir – sem que o desejo e o prazer (da leitura) sejam esquecidos.

18

•miolo_SEXUALIDADES_PROVA.indd 18

08/06/21 14:55


•miolo_SEXUALIDADES_PROVA.indd 19

08/06/21 14:55


SOBRE OS AUTORES

Sylvie Steinberg é orientadora na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), especializada em Idade Moderna. Em 2001, publicou, pela Fayard, La Confusion des sexes: Le travestissement de la Renaissance à la Révolution [Confusão dos sexos: o travestimento, do Renascimento à Revolução]. Seu livro Une Tache au front: La bâtardise aux xvie et xviie siècles [Marcado na testa: a bastardia nos séculos xvi e xvii] (Paris: Albin Michel, 2016) estuda o passado do direito e do imaginário da filiação franceses. É membro do comitê de redação da revista Clio: Femmes, Genre, Histoire [Clio: Mulheres, Gênero, História], para a qual coorganizou o número Érotiques (2010). Christine Bard é professora de História Contemporânea na Universidade de Angers e membro honorário do Instituto Universitário da França. Publicou, depois de sua tese Les Filles de Marianne [As filhas de Marianne] (Paris: Fayard, 1995), Les Garçonnes: Modes et fantasmes des Années Folles [As garçonnes: modas e fantasias dos Anos Loucos] (Paris: Flammarion, 1998), Les Femmes dans la société française au xxe siècle [As mulheres na sociedade francesa do século xx] (Paris: Armand Colin, 2003), Une Histoire politique du pantalon [Uma história política da calça] (Paris: Seuil, 2010), Ce que soulève la jupe [O que levanta a saia] (Paris: Autrement, 2010), Le Féminisme au-delà des idées reçues [O feminismo para além das ideias recebidas] (Paris: Le Cavalier Bleu, 2012), Les Insoumises: La révolution féministe, une Anthologie [As insubmissas: a revolução feminista, uma antologia] (org., Paris: Le Monde, 2013), Histoire des femmes dans la France des xixe et xxe siècles [História das mulheres na França nos séculos xix e xx] (com Frédérique El Amrani e Bibia Pavard, Paris: Ellipses, 2013). Recentemente coorganizou o Dictionnaire des féministes: France xviiie-xxie siècle [Dicionário de feministas: França, séculos xviii-xxi] (Paris: PUF, 2017). Foi cientista responsável pelo programa de pesquisa interdisciplinar Gedi (Gênero e Discriminações Sexistas e Homofóbicas), preside a associação Archives du Féminisme, dirige a coleção de mesmo nome na Presses Universitaires de Rennes e coordena o museu virtual de história das mulheres e do gênero, o Musea (Universidade de Angers). 331

•miolo_SEXUALIDADES_PROVA.indd 331

08/06/21 14:55


Didier Lett é professor de História Medieval na Universidade Paris-Diderot (Paris vii) e membro sênior do Instituto Universitário da França. Especialista em infância, família, parentesco e gênero, é autor, em especial, de Hommes et femmes au Moyen Âge: Histoire du genre (xiie-xve siècle) [Homens e mulheres na Idade Média: história do gênero (séculos xii-xv)] (Paris: Armand Colin, 2013, col. Cursus), Famille et parenté dans l’Occident médiéval (ve-xve siècle) [Família e parentesco no Ocidente medieval (séculos v-xv)] (Paris: Hachette, 2000, col. Carré Histoire) e L’Enfant des miracles: Enfance et société au Moyen Âge (xiie-xiiie siècle) [Filho dos milagres: infância e sociedade na Idade Média (séculos xii-xiii)] (Paris: Aubier, 1997). Gabrielle Houbre é historiadora na Universidade Paris-Diderot (USPC), membro do Centre d’Études et de Recherches Interdisciplinaires en Lettres Arts Cinéma (Cerilac) e membro honorário do Instituto Universitário da França. É autora, em especial, de La Discipline de l’amour: L’éducation sentimentale des filles et des garçons à l’âge du romantisme [A disciplina do amor: a educação sentimental de meninas e meninos na época do romantismo] (Paris: Plon, 1997), Histoire de la grandeur et de la décadence de Marie Isabelle, modiste, dresseuse de chevaux, femme d’affaires, etc. [História da grandeza e da decadência de Maria Isabelle, modista, equitadora, mulher de negócios etc.] (Paris: Perrin, 2003), Histoire des mères et filles [História de mães e filhas] (Paris: La Martinière, 2006), Le Livre des courtisanes: Archives secrètes de la police des moeurs [O livro das cortesãs: arquivos secretos da polícia de costumes] (Paris: Tallandier, 2006), e coorganizou Prostitutions: Des représentations aveuglantes [Prostituições: representações fulgurantes] (Paris: Musée d’Orsay/Flammarion, 2015). Sandra Boehringer é professora de História Grega na Universidade de Estrasburgo e membro do laboratório Archimède (UMR 7044). Autora de L’Homosexualité féminine dans l’Antiquité grecque et romaine [A homossexualidade feminina na Antiguidade grega e romana] (Paris: Les Belles Lettres, 2007), coorganizou, com Violaine Sebillotte Cuchet, Hommes et femmes dans l’Antiquité. Le Genre: méthode et documents [Homens e mulheres na Antiguidade. O gênero: método e documentos] (Paris: Armand Colin, 2011) e, com Daniele Lorenzini, Foucault, la sexualité, l'Antiquité [Foucault, a sexualidade, a Antiguidade] (Paris: Kimé, 2016). Com Claude Calame e Florence Dupont, ministra na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS) o seminário “Tomando os antigos ao pé da letra: o que a Antiguidade faz à modernidade”.

332

•miolo_SEXUALIDADES_PROVA.indd 332

08/06/21 14:55


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
UMA HISTÓRIA DAS SEXUALIDADES by Edições Sesc São Paulo - Issuu