uma breve imersão
A coleção Uma breve imersão é dirigida a todas as pessoas que desejam começar a entender ou se aprofundar em temas atuais sobre ciência, filosofia, humanidades e ciências políticas e sociais. São livros que combinam rigor científico com linguagem acessível a diversos tipos de público.
uma breve imersão FELICIDADE
SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO
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Edições Sesc São Paulo
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Editorial Clívia Ramiro
Assistente: Thiago Lins
Produção Gráfica Fabio Pinotti
Assistente: Thais Franco
uma breve imersão
FELICIDADE
amitava krishna dutt
e benjamin radcliff tradução
ellen maria vasconcellos
Título original: Felicidad: Una Inmersión Rápida
Publicado mediante acordo com a Tibidabo Publishing, Inc.
© Tibidabo Publishing, Inc., 2021
© Edições Sesc São Paulo, 2025
Todos os direitos reservados
PreParação Flora Manzione
revisão Regina de Sá, Silvana Cobucci
Projeto gráfico e caPa Estúdio Daó
(Giovani Castelucci e Guilherme Vieira)
Diagramação Camila Catto
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
D979f Dutt, Amitava Krishna. Felicidade / Amitava Krishna Dutt, Benjamin Radcliff; tradução de Ellen Maria Vasconcellos – São Paulo: Edições Sesc, 2025. 212 p. (Coleção Uma Breve Imersão)
Título original: Felicidad: una inmersión rápida ISBN 978-85-9493-369-0
1 Felicidade. 2 Filosofia. 3 Psicologia. 4 Política. 5 Economia. I Radcliff, Benjamin. II Vasconcellos, Ellen Maria.
CDD 152.42
Ana Cláudia Martins – Bibliotecária CRB-8/8246
Edições Sesc São Paulo
Rua Serra da Bocaina, 570 – 11º andar 03174-000 – São Paulo SP Brasil
Tel.: 55 11 2607-9400 edicoes@sescsp.org.br sescsp.org.br/edicoes /edicoessescsp
nota à edição brasileira
A coleção Uma breve imersão é dirigida a todas as pessoas que desejam começar a entender ou se aprofundar em temas atuais sobre ciência, filosofia, humanidades e ciências políticas e sociais. São livros de pequeno porte, que combinam rigor científico com linguagem acessível a diversos tipos de público.
Propor uma breve imersão na felicidade parece, à primeira vista, uma contradição. Afinal, como mergulhar em algo tão vasto e intrincado em poucas páginas? Há séculos, filósofos, cientistas, religiosos e economistas tentam defini-la, cada qual moldando um fragmento desse mosaico. Um economista e um cientista político, autores desta publicação, reconhecem essa complexidade e sugerem um percurso que, embora curto, é um convite para uma reflexão maior.
O livro aborda a felicidade como fenômeno individual e coletivo, atravessando dimensões sociais, econômicas e o entorno que constrói a felicidade, desde as amizades à qualidade do ar que respiramos, pois o bem-estar não surge apenas de escolhas pessoais, mas de condições estruturais: políticas públicas, redes de apoio, segurança social e um ambiente saudável.
Nesse sentido, as Edições Sesc propõem que cada leitor ou leitora enxergue a felicidade como um caminho possível, apesar de complexo. Com a obra, o Sesc procura trazer questões que extrapolam o efêmero e o inalcançável em torno do tema. Breve, talvez, seja apenas o convite à leitura: a verdadeira imersão é longa, profunda e contínua, tão extensa quanto o desejo humano de encontrar a felicidade individual e coletiva.
Para Harolyn, Arnav e Didi. Para Amy Louise, com amor e gratidão.
200 leituras recomendadas
INTRODUÇÃO
Parece indiscutível que a felicidade sempre foi o único objetivo (ou, pelo menos, o mais importante) ou a força motriz para a maioria dos seres humanos. Muito já foi escrito sobre o significado da felicidade e sobre como alcançá-la. Essas questões atraíram a atenção de religiões e filósofos, devido à preocupação destes com o significado da vida e sobre como ela deveria ser vivida. Diferentes tradições religiosas e filosóficas do mundo todo têm procurado entender o conceito de felicidade e guiar as pessoas na busca por ela, seja por meio da fé ou da ética. Algumas disciplinas, entre as quais se incluem a psicologia, a economia e a política, também sempre se interessaram pela felicidade, abordando-a, principalmente, em debates sobre saúde mental e bem-estar e sobre o papel dos indivíduos e das sociedades como um todo. Nos últimos anos, surgiu um novo campo de pesquisa: a chamada ciência da felicidade. Esse campo se propõe a examinar a ideia de felicidade utilizando conceitos quantificáveis e mensuráveis e tenta analisar seus determinantes empregando as ferramentas empíricas e teóricas das ciências sociais e biológicas. Além disso, existem diversos livros populares de autoajuda que oferecem conselhos aos leitores para que sejam mais felizes.
Este breve livro busca aprofundar-se no conceito de felicidade a partir da pesquisa acadêmica que contém. Algumas das perguntas às quais se dedicará são: qual é o significado da felicidade? É possível entender a felicidade em termos gerais, por exemplo, distinguindo entre seus diferentes significados, ou ela precisa de uma definição individual criada pela pessoa ao buscar ser feliz? É possível medir a felicidade e suas diferentes concepções? Se for assim, como? Do que depende a felicidade?
As pessoas muitas vezes podem parecer ou se sentir felizes, embora às vezes, principalmente quando estão sozinhas, possam se sentir profundamente perturbadas e infelizes e agir dessa maneira. Além de outros tipos de estado emocional, a felicidade também pode incluir a virtude (caso contrário, uma pessoa reflexiva não poderia ficar sozinha nem dormir à noite), um significado profundo da vida e um propósito vital (sem os quais a vida pode parecer vazia).
Quer se aceitem ou não essas distinções precisas ou se prefira a abordagem do estado emocional, o fato é que essa pesquisa mostra que a felicidade tem muitos aspectos e que não pode ser capturada de maneira significativa em um único conceito.
Aprovação
Compromisso
Felicidade
Estado emocional Hedonismo
Satisfação com a vida
Vitalidade
Fluxo
Tranquilidade, calma interior, paz mental
Confiança, sentir-se bem no próprio corpo
Expansão
CONCLUSÕES
A discussão percorreu diversas concepções de felicidade ao revisar as abordagens filosóficas e religiosas e as opiniões de economistas e psicólogos, e uma breve análise de distinções filosóficas recentes. A principal conclusão a que se pode chegar é que a felicidade é um conceito complexo e multifacetado que desafia uma definição única e simples. A seguir, abordaremos com mais profundidade os fatores determinantes da felicidade, mas, ao fazê-lo, nos concentraremos principalmente no que poderíamos chamar de abordagem científica da felicidade, na qual ela pode ser conceituada, medida e analisada com relativa facilidade. Esse enfoque é o que na psicologia se chamou de felicidade de nível dois, ou o que também tem sido denominado de utilidade recordada ou bem-estar subjetivo. Alguns acadêmicos se entusiasmam com essa abordagem, enquanto outros a consideram útil, apesar de também verem muitos problemas em confiar nela como uma medida única da felicidade. Nossa principal razão para nos concentrarmos nesse enfoque é a existência de inúmeras pesquisas acadêmicas que o utilizam, sobretudo pela crescente disponibilidade de dados. No entanto, devemos lembrar que se trata apenas de uma conceitualização e medida da felicidade – embora seja útil e significativa – e que não captura outras dimensões da felicidade. Para corrigir esse problema, em alguns momentos também iremos nos referir a essas dimensões.
Um segundo enfoque da teoria da felicidade centra-se na natureza das necessidades humanas e em como elas podem ser satisfeitas. Um dos esforços mais respeitados e influentes para enumerar as necessidades humanas é o oferecido pelo psicólogo norte-americano
Abraham Maslow (1943). Maslow distingue cinco tipos de necessidades básicas que motivam as pessoas à ação (ver Figura 2). As necessidades fisiológicas referem-se àquelas como a fome e a sede. As necessidades de segurança dizem respeito à necessidade de se sentir em segurança e protegido contra a violência, o crime, as temperaturas extremas, as doenças, o desemprego e os problemas financeiros. As necessidades de amor incluem aquelas baseadas no afeto e no pertencimento, satisfeitas por familiares e amigos. As necessidades de estima referem-se ao desejo de uma avaliação estável, com base firme e (geralmente) alta de si mesmos, da sua autoestima e da estima dos outros, incluindo ainda dois fatores: primeiro, o desejo por força, realização, suficiência, confiança no mundo e independência e liberdade; e segundo, o desejo por reputação ou prestígio (definindo-o como respeito ou estima de outras pessoas, reconhecimento, atenção, importância ou apreciação).
Finalmente, a necessidade de autorrealização é o desejo de se tornar cada vez mais o que se é, de se tornar tudo o que se é capaz de ser, que vai desde basear-se em impulsos criativos até o desejo de ser um pai (ou uma mãe) ideal. Com base nas observações clínicas, essas necessidades estão organizadas hierarquicamente, o que significa que as pessoas atendem primeiro às de ordem inferior e que buscam as de ordem superior apenas quando as mais baixas são satisfeitas, pelo menos até certo ponto. Portanto, as necessidades fisiológicas são
as mais potentes de todas as necessidades, e devem ser satisfeitas, ou pelo menos atendidas em certa medida, antes de outras necessidades, como a de segurança e a de amor.
REALIZAÇÃO
PESSOAL
moral, criatividade, espontaneidade, aceitação, propósito de experiência, significado e potencial interno
AUTOESTIMA
confiança, conquistas, respeito dos demais e necessidade de se sentir um indivíduo único e insubstituível
AMOR E PERTENCIMENTO
amizade, família, intimidade e sentido de conexão
SEGURANÇA E PROTEÇÃO
saúde, emprego, propriedade, família e habilidade social
NECESSIDADES FISIOLÓGICAS
ar, comida, água, moradia, roupa e sono
FIGURA 2: Hierarquia de necessidades de Maslow
Maslow (1943) não fornece uma teoria rígida e mecânica, mas observa muitos avisos e nuances. Primeiro, admite que há pessoas cujas necessidades podem não estar organizadas exatamente nessa ordem hierárquica, mas aponta que em geral essa ordem prevalece. Em segundo lugar, não argumenta que as necessidades
relacionamento satisfatório com um companheiro ou companheira de vida. A lista pode incluir elementos como nível de estresse, ansiedade ou preocupação (especialmente em relação a finanças e emprego), assim como outros aspectos da sociedade em que vivemos, como a prevalência da injustiça e da pobreza, e as patologias sociais, como a criminalidade, que acompanham a injustiça e a pobreza.
Como veremos mais adiante, o grau em que uma sociedade é habitável é determinado principalmente pelo resultado da luta de classes democrática. Para entender por que isso é verdade, devemos começar com a especificação dessas necessidades. Em “O estudo científico da felicidade”, discutimos a abordagem de Maslow e a hierarquia de necessidades. Ao usar Maslow como modelo, é possível estabelecer conexões entre as políticas públicas de esquerda e de direita e a provisão bem-sucedida de necessidades. De fato, a discussão anterior já nos deu grande parte da resposta, que revisaremos aqui apenas em termos mais sucintos. É óbvio que, de acordo com Maslow, as políticas da esquerda deveriam ter conexões positivas com as necessidades humanas, particularmente com aquelas que se encontram na base da pirâmide, que são duas vezes mais importantes, já que devem ser alcançadas até certo ponto antes de ser alcançadas totalmente. São objetivos de ordem superior. O Estado de bem-estar (como, novamente, os programas de manutenção de renda, o acesso universal à atenção
médica, a habitação pública, as oportunidades educacionais e as aposentadorias) claramente ajuda a garantir que todas as pessoas tenham atendidas suas necessidades fisiológicas de alimentos, roupas e abrigo. O Estado de bem-estar também ajuda a proporcionar segurança: reduz a enorme carga emocional que os desempregados devem enfrentar (a incapacidade de se sustentar e de cuidar de sua família) e, mais importante, o eterno medo do desemprego (ou subemprego) que assola todos os trabalhadores, independentemente de sua escolaridade ou nível econômico.
O mesmo pode ser dito sobre os sindicatos, que deveriam, segundo seus defensores, contribuir para o maior bem-estar material de mais pessoas, assim como mais segurança, e de duas maneiras diferentes: protegendo seus membros por meio de acordos de negociação coletiva e, mais importante, ajudando indiretamente a proteger todos os trabalhadores por intermédio de apoio político na busca de iniciativas públicas que beneficiem todos. Os sindicatos também podem contribuir para a felicidade dos não membros por meio de apoio político às regulamentações do mercado de trabalho que, novamente, se aplicam a todos. Alguns exemplos são um salário-mínimo mais alto, que aumenta a base salarial em toda a economia, bem como leis que promovem a segurança empregatícia e a segurança no local de trabalho.
As instituições de desmercantilização também ajudam as pessoas a encontrar e manter bons empregos, trabalhos que não só pagam o justo, mas que também podem ser mais gratificantes. É fácil saber a razão: o Estado de bem-estar reduz a necessidade de se aceitar um trabalho, qualquer trabalho, apenas para evitar a ruína
OUTRAS CONSEQUÊNCIAS
DO “GRANDE GOVERNO”
As conclusões anteriores baseiam-se em medidas de desmercantilização no sentido específico de proteger as pessoas contra o desemprego, a doença, a deficiência ou a velhice. É possível encontrar evidências adicionais a favor da contenção básica da esquerda ou da abordagem progressista da política de que quanto mais o Estado intervém na economia para ajudar a proteger seus cidadãos, mais felizes as pessoas tendem a ser. A pesquisa sugere várias evidências, mas consideraremos apenas duas.
A primeira é a carga fiscal: a pesquisa confirma que um nível mais alto de impostos (como parte da economia) está associado a maior satisfação com a vida, levando em consideração outros fatores. Evidentemente, ninguém gosta de pagar impostos, porém “dói menos” quando se sabe que as cargas tributárias mais altas (e especialmente progressivas) tendem a promover a felicidade em razão do que podem e irão oferecer: mais serviços governamentais, incluindo, para citar alguns exemplos, acesso à habitação, educação e saúde universal; apoio para famílias e crianças (como creches); a provisão e manutenção de infraestrutura pública (por exemplo, estradas, aeroportos, transporte público, comunicações); e segurança pública (não apenas contra crimes comuns, mas também contra locais de trabalho inseguros, ar, água e alimentos insalubres). A direita pode se opor aos impostos como uma questão de gosto político, mas, empiricamente, continua sendo verdade que impostos mais altos podem significar uma vida melhor para mais pessoas, já que quanto mais recursos
o governo tem, mais ele pode fornecer à população os inúmeros bens públicos citados. Cabe esclarecer que isso se demonstra verdadeiro apenas no contexto que estamos estudando, de governos eleitos democraticamente que são obrigados a governar de forma honesta pelo aparato administrativo profissional e relativamente livre de corrupção que se presume existir nas democracias funcionais. Afinal, a relação poderia ser previsivelmente diferente se essas proteções não existissem, como em países autoritários ou em transição para a democracia, para não falar de semidemocracias corruptas e clientelistas.
Chegamos precisamente à mesma conclusão ao considerar o efeito do consumo governamental na satisfação com a vida. Ele é definido como a proporção da economia que o governo consome, ou seja, gasta ou aloca, em todas as atividades – exceto as transferências, ou seja, deixando de lado os pagamentos diretos às pessoas, como as aposentadorias ou o seguro-desemprego. Quanto maior a proporção da economia que nossos governos (eleitos democraticamente) controlam, mais pessoas terão uma vida melhor. Essa evidência sugere novamente a superioridade das políticas de esquerda em relação às de direita, na medida em que usamos a felicidade humana quantificada pelas classificações reportadas como nossa métrica de avaliação. Certamente, alguém ainda pode estar contra o “grande governo” por razões ideológicas, mas não por piorar a vida da pessoa comum, o que claramente não acontece.
Sobre os autores
Amitava Krishna Dutt é professor de Economia e Ciência Política na Universidade de Notre Dame. É autor de diversos livros e inúmeros artigos sobre felicidade, crescimento econômico, desigualdade e desenvolvimento em periódicos acadêmicos. É coeditor dos periódicos Review of Social Economy e Metroeconomica.
Benjamin Radcliff é professor de ciência política na Universidade de Notre Dame. É autor de The Political Economy of Human Happiness, além de inúmeros artigos sobre felicidade em periódicos acadêmicos. Atualmente, é coeditor de Political Behavior e editor associado do Review of Social Economy.
Fontes Lineal da Velvetyne e Elza e Silva da BlackLetra
Fonte Capa em Supremo Alta Alvura 250 g/m²
Miolo em Pólen Natural 80 g/m²
Impressão Maistype
Data Dezembro de 2025
Este livro oferece uma breve introdução ao conceito de felicidade, a partir de estudos acadêmicos. Entre as questões exploradas, estão: O que significa felicidade? É um conceito a ser compreendido em termos gerais, ou é melhor deixar que cada pessoa o defina à sua maneira, em sua busca pela felicidade? A felicidade e seus diferentes significados podem ser mensurados e, em caso afirmativo, como? De que depende a felicidade? A felicidade de uma pessoa depende de sua predisposição e circunstâncias individuais, ou depende em parte de como a sociedade está organizada e do que as autoridades públicas fazem? O dinheiro pode comprar a felicidade? Quais fatores políticos, econômicos, sociais e ambientais podem tornar as pessoas e as sociedades mais felizes? Por fim, o que as pessoas, individual ou coletivamente, podem fazer para serem mais felizes?
ISBN 978-85-9493-369-0