Espírito da intimidade: caminhos ancestrais para se relacionar
Sobonfu Somé nos faz um convite encantador e urgente: e se existissem outras formas de amar além do romance idealizado e dos amores líquidos que nos são vendidos como únicas alternativas? Eis a questão: “felizes para sempre”, do amor romântico, ou “seja eterno enquanto dure”, de múltiplas e simultâneas paixões?
Bem distante de uma receita pronta que funcione para todas as pessoas, Somé enfatiza o papel do ritual. Um relacionamento amoroso não se reduz a dilemas como intensidade ou liberdade. Mas pode ser revelado em cerimônias que não deixem, por exemplo, um casal sozinho em sua jornada.
Uma das mais belas e poéticas imagens diz que uma história de amor não deve começar no topo da montanha, mas deve ser escalada calmamente, aprendendo-se a cada passo que nada será como antes, mas que o presente estará cheio de passado, grávido de futuro. O livro adverte que a força de amar não deve ser extraída apenas da própria alma. Tampouco um casal deve se fechar, tentando saciar toda a sua fome emocional somente no seu relacionamento. Onde ficam familiares e gente amiga? O amor é uma jornada que não se faz sem companhia, incluindo uma comunidade – de pessoas em quem confiamos, que nos amam e que nos apoiam.
A filósofa argumenta que toda pessoa nasce com um propósito, e o uso adequado de seus talentos, interesses e saberes enriquece espiritualmente a comunidade e a si mesma. O propósito de Somé sempre foi divulgar o sistema de pensamento ancestral do povo Dagara, para que mais gente possa reencontrar ou descobrir caminhos ancestrais para se
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SOBONFU SOMÉ
Tradução de Jess Oliveira
Título original: The Spirit of Intimacy: Ancient African Teachings in the Ways of Relationships
Não tenho essa discussão sobre relacionamentos completamente sistematizada e organizada.
O que há são diferentes imagens e ideias que aparecem e desaparecem, como estrelas momentâneas.
Cabe a você conectar esses fragmentos e extrair o sentido que emerge deles.
O fundamental é compreender que a intimidade deve ser vista como uma prática orientada e sancionada pelo espírito, realizada por pessoas conscientes de que, sozinhas, não podem atingir o propósito para o qual foram chamadas.
No continente africano, ao menos nas aldeias Dagara, as construções são destinadas principalmente para dormir, para a realização de rituais e para armazenar alimentos. A vida real da aldeia acontece do lado de fora. Não há um lugar específico aonde ir para trocar uma fralda, por exemplo. Isso aconteceria do lado de fora. Tomamos banho no rio, nos vestimos e nos arrumamos ao ar livre. Vamos ao banheiro do lado de fora e usamos as folhas da árvore mais próxima para nos limpar. Imagine o choque cultural para aqueles que desprezam os costumes antigos!
Na vida na aldeia, é preciso desacelerar, experimentar o agora e comungar com a terra e com a natureza. A paciência é essencial. Ninguém parece compreender o significado de “se apresse”.
Na aldeia, temos as pessoas a quem nos referimos como mais velhas; são elas que tomam as decisões da aldeia. Quando há alguma situação urgente, as mais velhas e os mais velhos se reúnem e resolvem o que deve ser feito. Não temos polícia ou algo parecido. Para questões de justiça, dependemos principalmente do espírito e das pessoas mais velhas.
Entre as pessoas mais velhas, há um conselho de dez indivíduos que cuidam dos rituais e de outros assuntos da aldeia. Esse conselho é uma espécie de comitê dentro do grupo maior das pessoas mais velhas. É preciso pontuar que elas não se sentem exatamente atraídas por fazer parte desse conselho, porque isso envolve muito trabalho. Trabalha-se para toda a comunidade; não é como se fosse um indivíduo ou um grupo no poder decidindo tudo. Qualquer um de nós pode chegar a qualquer hora do dia para pedir sua ajuda. A pessoa mais velha pode estar dormindo e alguém bater à porta, e então ela precisará trabalhar. Não há escolha.
Esse conselho é selecionado por todos que já passaram pela iniciação de pessoa mais velha. A seleção de integrantes do conselho é feita segundo a compreensão Dagara das forças elementares que formam o universo. Temos cinco elementos diferentes: terra, água, mineral, fogo e natureza. Cada um desses elementos é representado, no conselho, por uma mulher e um homem. O conselho é composto, portanto, de cinco anciãs femininas e cinco anciãos masculinos.
Vejo muitos relacionamentos românticos no Ocidente movidos pelo ego e pelo controle. Para trazer de volta a saúde a tais relacionamentos, as pessoas devem começar a ver que é o espírito que está por trás dessas uniões e a deixar o controle e o ego de lado.
Se você está lendo este livro, eu diria que, no mínimo, não apagou completamente o espírito de sua existência.
Isso significa que ainda há um ouvido atento. O espírito continua agindo. E para aquelas pessoas que ainda têm esse canal para o espírito aberto dentro de si, existe algo como uma força magnética, que as atrai.
A primeira coisa a fazer então é dizer: “Eu ouvi você, espírito. Posso ainda não saber o que fazer, mas sei que acabei de ouvi-lo”. A partir daí, é preciso começar a liberar o controle e o ego presentes em seus relacionamentos; trazer o espírito à tona, tirá-lo daquele canto escuro onde ele não tem tido utilidade.
Se as partes envolvidas em um relacionamento conseguirem começar a se abrir para o espírito dessa maneira,
o relacionamento deve começar a evoluir no sentido do que realmente deve ser. Seja um relacionamento amoroso, um relacionamento familiar, seja uma amizade, ele fluirá a partir do reconhecimento de que é o espírito – e não o ego ou o controle – o principal motor.
Este não é o tipo de livro que diz a você: “Se você tiver brigado com seu marido, vá para a página 100 ou 300, e tudo será resolvido assim ou assado”. É muito fácil para as pessoas cair novamente na armadilha do controle quando estão sendo alimentadas com esse tipo de informação –“primeiro faça isso, depois faça aquilo”. É muito fácil voltar para aquele estado controlador, em vez de reconhecer que nossos relacionamentos são baseados no espírito. O que precisamos dizer é: “Tudo bem, espírito, finalmente consegui ouvi-lo. E agora, qual é o próximo passo?”.
A separação do espírito, como vemos aqui no Ocidente, tem como consequência fazer as pessoas darem demasiada
ênfase ao amor romântico. Essa separação cria um vórtice de desejo por outra pessoa, por outra forma de conexão. No entanto, o amor romântico é apenas uma maneira de encontrar aquela outra conexão, que é com o espírito, aquela que de fato estamos buscando.
A união de dois espíritos dá origem a um novo espírito. Podemos chamá-lo de espírito do relacionamento ou espírito da intimidade. Ele é muito importante, porque atua como um barômetro do relacionamento e deve ser nutrido e mantido vivo. Se esse espírito morre, o relacionamento morre.
Na aldeia, são executados rituais para esse espírito. Um deles é feito uma vez por ano para consertar o que quer que tenha acontecido com esse espírito e trazê-lo de volta à vida, no caso de ter havido uma desconexão. Eu gosto de chamar esse ritual de união de duas almas. As pessoas no Ocidente podem não gostar disso, mas esse ritual envolve sacrifício.
RENOVAÇÃO CONTÍNUA
periodicamente, é necessário limpar o relacionamento com nosso par. Sempre há algo no eu que está exagerando, fingindo, cedendo ou forçando mais do que o necessário. A única maneira de compreender e transformar isso é por meio de um ritual.
Antes de podermos nos comunicar em níveis mais profundos de intimidade, devemos lidar com pequenas atitudes do nosso parceiro que nos desagradam. Por uma espécie de regra de gentileza, tendemos a não responder a essas situações, e elas acabam se acumulando. Nossos pensamentos nos levam a lugares de incerteza e ao adiamento dos confrontos, e então nos tornamos passivos demais. Ser uma pessoa educada é algo bom, mas onde poderemos expressar nossas frustrações e decepções?
No ritual, essa educação pode ser deixada de lado. Depois que desenhamos uma linha marcando o espaço
sagrado e invocamos o espírito, não há mais mentiras, não há fingimento. Nesse espaço, às vezes, é até melhor gritar suas frustrações, pois o que expressamos ali é real.
Em nossa aldeia, a cada cinco dias há uma oportunidade de renovação do relacionamento, em um dia escolhido pelo casal. Todas as coisas ruins que o casal acumulou são expurgadas. Geralmente, a mulher senta-se de frente para o norte, de costas para o homem, que se senta de frente para o sul, em um círculo de cinzas. O ritual começa com uma invocação ao espírito. Em seguida, as duas pessoas começam a contar em voz alta ao espírito suas frustrações. À medida que falam, a dor vai crescendo até explodir. Cada um está tão concentrado em expressar sua própria dor que não presta atenção ao que as outras pessoas estão dizendo. Algumas sussurram, algumas gritam, outras preferem formas diferentes de comunicação. Cabe a cada um dos envolvidos decidir o que é melhor para si, desde que os métodos escolhidos permitam liberar todos os sentimentos. Em nossa aldeia, geralmente há muita gesticulação, para permitir que o corpo fale. Isso, porém, não deve ser confundido com uma oportunidade para iniciar uma briga.
CONFLITO: DÁDIVA DO ESPÍRITO
conflitos surgem dos desafios trazidos pelo espírito. São dádivas destinadas a nos ajudar a avançar. É por meio dos conflitos que adquirimos autoconhecimento e aprendemos novas maneiras de utilizar nossos dons.
O conflito é um chamado para o despertar, enviado pelo espírito para nos lembrar do propósito que viemos cumprir. Em um contexto indígena, o conflito é visto como uma bênção. Isso não significa que ele deva ser alimentado, mas ouvido: devemos tomar medidas adequadas para lidar com o espírito por trás do conflito.
Dois seres humanos juntos estarão sempre propensos e vulneráveis a algum tipo de conflito. Sem conflito algum, a vida parecerá bastante entediante. Contudo, viver constantemente em conflito tornará tudo muito amargo. Existe, portanto, uma necessidade de equilíbrio constante, e o ingrediente principal para alcançá-lo é o ritual.
O ritual reconhece que o relacionamento de duas pessoas gera uma energia maior do que a simples soma de ambas. É algo tão grande que nem o intelecto nem a destreza podem, sozinhos, lidar com as crises que surgem sem a intervenção de algo ritualisticamente fundamentado.
Quando o conflito surge, podemos pensar que a melhor maneira de lidar com ele é adotar uma postura antagônica em relação à outra pessoa. Mas, na verdade, é melhor que as duas se unam e digam ao espírito: “Ouvimos as palavras que você nos enviou. Talvez não saibamos o que fazer com elas, pois são muito difíceis e dolorosas para nós. Mas entendemos que é por meio deste obstáculo que encontraremos nossos dons e nossa sabedoria. Da próxima vez, se for possível, nos envie palavras menos duras, porque este conflito teve um grande impacto em nosso relacionamento.
Sobre o símbolo Adinkra usado nesta edição
Eban, um dos símbolos Adinkra.
embora os símbolos Adinkra sejam originários da cultura Akan – predominante em países como Gana e Costa do Marfim, na África Ocidental –, eles encapsulam saberes ancestrais que dialogam com outras culturas africanas, como a Dagara, de Burkina Faso, terra da autora Sobonfu Somé.
O símbolo Adinkra Eban, que significa “cerca ou casa cercada”,1 representa, para o povo Akan, o ideal de lar protegido. A cerca simboliza abrigo e segurança, delimitando um espaço de cuidado e preservação da família. O símbolo também é diretamente associado à proteção e ao acolhimento encontrados no amor.2
1 Elisa Larkin Nascimento e Luiz Carlos Gá, Adinkra: sabedoria em símbolos africanos, 2. ed., São Paulo: Cobogó/Ipeafro, 2022, p. 66.
2 Cf. W. Bruce Willis, The Adinkra Dictionary: A Visual Primer on the Language of Adinkra, Washington, D.C.: Pyramid Complex, 1998.
S obre a autora
sobonfu somé (c. 1965-2017) foi uma filósofa, escritora e professora burquinense de origem Dagara. Reconhecida internacionalmente, dedicou sua vida a difundir a sabedoria ancestral de seu povo no Ocidente, com ênfase na coletividade, nas conexões humanas e na importância dos rituais no cotidiano.
Na década de 1990, estabeleceu-se nos Estados Unidos, onde fundou organizações, ministrou workshops e fomentou diversos diálogos interculturais, sempre com o intuito de preservar ensinamentos tradicionais e valorizar o senso de comunidade.
Autora de obras como este Espírito da intimidade e Falling Out of Grace (2003), a filósofa se dedicou a mostrar como a busca por sentido em um mundo fragmentado começa no reconhecimento de que “nós somos porque os outros são” – um convite à reflexão sobre os laços invisíveis que nos unem.
Fontes Crimson Text e SuperBlue
Papel Supremo Alta Alvura 250 g/m2 (capa), Pólen Bold 90 g/m2 (miolo)
Impressão Pifferprint
Data Fevereiro de 2026
relacionar. Ora, ter uma companhia amorosa é um elemento importante para que possamos encontrar o nosso propósito. Afinal, uma pessoa solitária pode se perder mais facilmente do seu propósito, seja pela falta de alguém ou pelo excesso de si.
A autora transita entre as fronteiras da antropologia, mitologia, espiritualidade, filosofia e psicologia, atravessadas por uma coerência performática (quando o que é dito é vivido), que fez de sua própria trajetória uma grande referência. Em vez de ser um exemplo (algo a ser copiado), ela é uma inspiração.
Sobonfu Somé se casou e se divorciou. Fez os rituais necessários para se desintoxicar. Ela trilhou seu próprio caminho, inspirando cada um de nós a amar e recomeçar sempre que for preciso – seja dizendo “sim” para a mesma pessoa por décadas ou para outra recém-chegada nas encruzilhadas da nossa jornada. Em uma entrevista concedida após o divórcio e antes de ancestralizar, em 2017, ela disse: “Onde está a ferida é também onde está o presente”. Faço votos para que esta leitura seja tanto alimento quanto bálsamo para todos os corações, principalmente os famintos e os feridos.
Renato Noguera
Griot*, filósofo, escritor e celebrante de uniões amorosas.
*Após anos de pesquisas documentais e análises genéticas, durante uma viagem à África Ocidental, foi reconhecido por griots das famílias Ndiaye e Seck – uma confirmação viva das histórias que seu avô materno lhe contava sobre a linhagem ancestral a que pertence.
Neste livro, a filósofa burquinense Sobonfu Somé compartilha saberes ancestrais do povo Dagara, da África Ocidental, e nos conduz a uma jornada que vincula os relacionamentos humanos ao espírito, à natureza e à ancestralidade, revelando que a intimidade não é uma busca privada por felicidade, mas uma prática que serve ao bem comum.
Ao desafiar as noções ocidentais de amor romântico e individualismo, a autora nos propõe um caminho de equilíbrio e propósito compartilhado, fazendo-nos redescobrir o poder da comunidade e do senso de pertencimento. Em um mundo que anseia cada vez mais por conexões profundas e genuínas, esta obra nos traz ensinamentos sobre a importância da vulnerabilidade, o cultivo da reciprocidade e a necessidade de vivermos segundo uma ética do cuidado.