Skip to main content

Educação midiática na prática

Page 1


MIDIÁTICA Educação

NA PRÁTICA

Januária Cristina Alves

Este livro parte de uma constatação simples e incômoda: nunca estivemos tão informados e, ao mesmo tempo, tão desorientados. A abundância de conteúdos, telas e plataformas não ampliou automaticamente nossa capacidade de compreender o mundo. Em muitos casos, produziu o efeito inverso. Confusão, cansaço cognitivo, perda de referências comuns e uma dificuldade crescente de distinguir fatos, opiniões, narrativas e manipulações. Educação midiática na prática, de Januária Cristina Alves, nasce exatamente desse ponto de tensão.

O mérito central da obra está em recusar soluções fáceis. Não há aqui nostalgia analógica, demonização da tecnologia ou promessas ingênuas de que bastaria “desligar as telas” para resolver problemas complexos. O livro assume que a vida contemporânea é inseparável do ambiente digital e que a pergunta relevante não é se devemos ou não usá-lo, mas como habitá-lo de maneira crítica, ética e humana. Educação midiática, neste sentido, não aparece como técnica instrumental nem como disciplina acessória, mas como um processo formativo de longo prazo, profundamente ligado à democracia, à liberdade de expressão e à saúde coletiva.

Ao longo dos textos reunidos, a autora articula temas que costumam ser tratados de forma fragmentada: desinformação, pós-verdade, fake news, discurso de ódio, teorias da conspiração,

infância, juventude, leitura, literatura, censura, inteligência artificial e futuro. O fio condutor é sempre o mesmo: a necessidade de formar leitores do mundo. Leitores capazes de fazer perguntas incômodas, sustentar a dúvida, reconhecer limites do próprio conhecimento e resistir à sedução das respostas rápidas oferecidas por algoritmos. Há também um aspecto decisivo que distingue este livro de muitos debates contemporâneos sobre mídia: Januária escreve a partir da prática. A experiência com escolas, educadores, famílias, crianças e adolescentes atravessa cada capítulo. O texto dialoga com pesquisas, políticas públicas e referências internacionais, mas nunca perde de vista o cotidiano concreto, no qual a educação de fato acontece. Por isso, a obra interessa tanto a professores quanto a pais, gestores, jornalistas e formuladores de políticas públicas.

Em tempos marcados pela erosão da confiança, pela radicalização das narrativas e pela automatização crescente das relações sociais, Educação midiática na prática funciona como um convite à reconquista de algo essencial: a capacidade de pensar junto, de construir sentido coletivo e de exercer a liberdade com responsabilidade. Em suma, um mapa que busca construir a sabedoria para orientar a navegação em um mundo em permanente transformação.

ronaldo lemos é advogado, especialista em tecnologia e apresentador da série Expresso Futuro

Educação MIDIÁTICA

NA PRÁTICA

SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO

Administração Regional no Estado de São Paulo

Presidente do Conselho Regional

Abram Szajman

Diretor Regional

Luiz Deoclecio Massaro Galina

Conselho Editorial

Carla Bertucci Barbieri

Jackson Andrade de Matos

Marta Raquel Colabone

Ricardo Gentil

Rosana Paulo da Cunha

Edições Sesc São Paulo

Gerente Iã Paulo Ribeiro

Gerente Adjunto Francis Manzoni

Editorial Clívia Ramiro

Assistente: Thiago Lins

Produção Gráfica Fabio Pinotti

Assistente: Thais Franco

MIDIÁTICA Educação

NA PRÁTICA

Januária Cristina Alvesibi

Educação midiática na prática

© Edições Sesc São Paulo, 2025

© Januária Cristina Alves, 2025

Todos os direitos reservados

Preparação Silvana Cobucci

Revisão Regina de Sá, Flora Manzione

Projeto gráfico, capa e diagramação Daniel Justi

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Alves, Januária Cristina. Educação midiática na prática / Januária Cristina Alves – São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2025. 192 p.

ISBN 978-85-9493-375-1

1. Educação. 2. Mídia - educação. 3. Mídias sociais. 4. Desinformação. 5. Letramento midiático. I. Alves, Januária Cristina. II. Título.

CDD 370.070

Ana Cláudia Martins – Bibliotecária CRB-8/8246

Edições Sesc São Paulo

Rua Serra da Bocaina, 570 – 11º andar 03174-000 – São Paulo SP Brasil

Tel.: 55 11 2607-9400 edicoes@sescsp.org.br sescsp.org.br/edicoes /edicoessescsp

A474e

Para Rubens, Pedro e André, tripé de amor que me sustenta no cotidiano.

Para Tia Lola (in memoriam) que publicou meu primeiro texto no Júnior, do Diário de Pernambuco, quando eu tinha 11 anos.

Para Maurício de Sousa que, quarenta anos atrás, me abriu as portas para a publicação do meu primeiro livro com seu Prefácio.

Vocês mudaram a minha vida e me deram a direção.

PREFÁCIO Paula Miraglia

Agência e liberdade: informação como exercício de cidadania 13

INTRODUÇÃO

O que torna a educação midiática tão urgente e necessária? 17

O CONTEXTO EM QUE VIVEMOS

Curadoria de informações: como evitar um “cérebro podre” 26

O tempo da pós-mentira 31

Reflexões de uma adolescente da geração ansiosa 37

O que significa crescer na era digital? 43

A DESINFORMAÇÃO E O MUNDO DA PÓS-VERDADE

Por que a educação é a verdadeira oposição à barbárie? 50

Como a desinformação acelera o relógio do juízo final 55

Educar e proteger na internet e não da internet 60

EDUCAÇÃO MIDIÁTICA: O QUE É E PARA QUE SERVE?

Educação midiática: limites e possibilidades 68

Educação midiática e leitura do mundo: “trouxeste a chave”? 74

Educação digital e midiática: por onde começar? 79

O PROBLEMA DAS FAKE NEWS E A CONFIANÇA NAS NOTÍCIAS

Os nativos digitais são alvos fáceis para as fake news 86

Por que as narrativas importam no contexto em que vivemos 92

As notícias que queremos ler, ouvir, ver e... escrever 98

LIBERDADE DE EXPRESSÃO, CENSURA E TEORIAS DA CONSPIRAÇÃO

Liberdade de expressão, censura e lugar de fala 106

“Cala a boca já morreu, quem manda na minha boca sou eu!” Será? 112

O que aprender (e ensinar) sobre as teorias da conspiração 117

EDUCAÇÃO MIDIÁTICA E EDUCAÇÃO LITERÁRIA: SOMOS TODOS CONTADORES DE HISTÓRIAS

A desinformação e a necessidade de contar histórias 124

O perigo de ver tudo enquadrado (ou em quadrados) 129

Como formar leitores capazes de fazer perguntas inquietas? 135

AS REDES E A SAÚDE MENTAL: DISCURSO DE ÓDIO, CYBERBULLYING E OUTRAS MAZELAS

O discurso de ódio não aceita termos e condições 142

Jovens e violência: como educar para a convivência

pacífica? 148

Uma criança acusada de um crime e o que temos a ver com isso 153

O futuro não é mais como antigamente: futurofobia × imaginação 158

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E O FUTURO DA INTERNET

Somos todos bardos: contar histórias na Era da IA 166

Tudo junto e misturado: nossa vida “on-life” 171

Por que precisamos reaprender a perguntar 176

REFERÊNCIAS 181

PARA SABER MAIS 184

AGRADECIMENTOS 189

SOBRE A AUTORA 190

INTRODUÇÃO

O QUE TORNA A EDUCAÇÃO MIDIÁTICA

TÃO URGENTE E NECESSÁRIA?

ESTE LIVRO NÃO

ESTÁ

PRONTO.

É IMPORTANTE começar com este alerta, caro leitor. Isso porque é uma obra que trata de um conjunto de temas – reunidos sob o guarda-chuva da educação midiática –profundamente imbricados em nossa vida social, cultural, política, econômica e pessoal, de modo tão complexo e abrangente que, muitas vezes, parece impossível compreender toda a sua dimensão. O modo como nos informamos e, a partir daí, construímos nossa forma de ver, pensar, ser e estar no mundo é impactado diariamente pelo poder das mídias, que filtram nossa experiência e aquilo que reconhecemos como “realidade” ou “realidade possível”, seja lá o que isso signifique quando falamos do que acontece conosco e ao nosso redor.

Enquanto escrevo esta introdução e você abre este livro, caro leitor, em uma velocidade alucinante, muitos fatos, notícias, informações, desinformações e fake news já terão passado sob nossos olhos e ouvidos, embotando, distraindo nossos sentidos e, por que não, até

nos conscientizando sobre o que se passa neste planeta que habitamos.

Na Era da Pós-Verdade, da (Des)Informação, do Digital ou do Figital (conceito elaborado pelo professor brasileiro Sílvio Meira, que afirma que vivemos em um ambiente híbrido em que o mundo real e o virtual se unem para favorecer as interações), os universos on e offline se misturam e se fundem, de modo que o que acontece em um reverbera e se espelha no outro. E isso provoca incertezas, gera confusão, angústia e a sensação constante de que estamos “derretendo” – ou, como diria o filósofo Zygmunt Bauman, que cunhou o termo “modernidade líquida”, nos liquefazendo – e com o cérebro “apodrecendo”, como explico melhor no artigo intitulado “Curadoria de informações: como evitar um ‘cérebro podre’”, ao falar de brain rot, eleita expressão do ano de 2024 pelo Dicionário Oxford.

Pesquiso educação midiática há quase quarenta anos – quando comecei a estudar o tema, ele era tratado como “leitura crítica da comunicação”, história que conto melhor no artigo “Educação midiática: limites e possibilidades”. Ao longo dos anos, o conceito teve que ser ampliado com o advento da internet, pois a escala e a velocidade desse ambiente, assim como os modos como as informações circulam e a maneira como são estruturadas e disseminadas, transformaram todo o ecossistema informacional global. Por isso, o antigo conceito de que educar para as mídias consistia em possibilitar que crianças e jovens adquirissem as habilidades de acessar, compreender e criar comunicação, na contemporaneidade tornou-se algo mecânico e utilitário, pois reduz o uso das mídias e das

tecnologias ao aspecto funcional. Sabemos que, diante da complexidade das relações entre os seres humanos e as mídias, a educação midiática aborda um fenômeno que se concretiza nas mais variadas práticas sociais, que, por sua vez, se expressam de diversas formas, em diferentes contextos sociais, políticos, culturais, econômicos e individuais.

O QUE É A EDUCAÇÃO MIDIÁTICA

Entendo a educação midiática como um conjunto de competências e habilidades que permitem que as pessoas acessem, interajam, compartilhem e produzam conteúdos na internet e nas mídias digitais e sociais, exercitando o senso crítico, a liberdade de expressão, a empatia e a cidadania digital de forma ética, sustentável e democrática, contribuindo para a criação e a manutenção de um ambiente digital saudável para toda a sociedade. Trata-se, sobretudo, de compreender criticamente que as tecnologias, assim como as mídias, não são neutras. Elas resultam do modelo sociopolítico, econômico e cultural em que vivemos, bem como dos contextos psicológicos e interpessoais. Assim, influenciam o que chamamos de senso de realidade, dão significado a ela e moldam a maneira como nos relacionamos com nós mesmos e com a sociedade. Trata-se de um processo educativo – por isso “educação midiática”, e não letramento ou alfabetização midiática –, pois tem a ver com a ampliação do entendimento e do uso dos recursos educacionais para alcançar a leitura crítica das mídias e, portanto, do contexto em que vivemos. Assim, estamos falando de algo que se

constrói ao longo de anos, de gerações, e cujos resultados não podem ser mensurados a curto prazo.

Ao longo de toda a minha trajetória profissional, tenho escrito artigos para os mais diversos veículos de comunicação e educação, além de produzir vídeos, dar aulas, palestras e workshops sobre educação midiática e literária – uma vez que entendo que ambas são indissociáveis, por tratarem da formação de leitores críticos do mundo – para os mais diversos públicos: pais, cuidadores, educadores, crianças, adolescentes e estudantes universitários. Essas experiências têm fortalecido não apenas a minha crença, mas também as evidências de que, embora não seja a solução para uma questão do porte e da complexidade que é a relação dos seres humanos com a comunicação e, em especial, com as mídias – até porque não acredito em soluções fáceis para problemas intrincados –, a educação midiática é um dos caminhos mais seguros e sustentáveis para lidarmos com todos os desafios e oportunidades que esse tema nos traz.

Os artigos organizados por temas neste livro têm como objetivo não apenas propiciar ao leitor um conhecimento um pouco mais aprofundado do universo da educação midiática, mas também provocar reflexões e questionamentos. Como afirmei na abertura deste texto, esse tema está em constante transformação, e compreendê-lo requer a formação de um leitor atento, curioso e criterioso para a construção de uma curadoria de informações íntegras e confiáveis sobre ele.

A maioria dos artigos selecionados foram publicados no Nexo Jornal, um dos mais importantes jornais digitais brasileiros, que, à frente de outras publicações do gênero,

abriu espaço para a discussão qualificada de um assunto até então (em 2021) pouco abordado na grande imprensa. Os outros foram divulgados em publicações de referência em suas respectivas áreas, o que muito me honra e confere credibilidade à leitura crítica que procuro fazer sobre as nuances da educação midiática. A todos esses veículos, o meu mais sincero obrigada.

UM GUARDA-CHUVA QUE NÃO PARA DE CRESCER

Desinformação, fake news, economia da atenção, capitalismo de vigilância, discurso de ódio, cyberbullying, algoritmos, liberdade de expressão, censura, economia de dados, regulação das plataformas, teorias da conspiração, bolhas, inteligência artificial... todos esses temas se abrigam sob o guarda-chuva da educação midiática. E muitos outros continuam a se somar a eles, já que o uso constante dos artefatos digitais impacta a vida em escala global.

São fenômenos que, se não são novos, apresentam-se nesse contexto acelerado e multifacetado da internet, e acabam por refletir nas decisões que temos de tomar a cada instante. Por isso, a educação para as mídias tornou-se tão urgente e necessária para o enfrentamento das questões do nosso tempo. Ela não é a única via, mas todas as outras possibilidades de enfrentamento dos problemas aqui apresentados passam por ela, pois não se lida com o que não se conhece. Assim, o objetivo maior da educação é formar seres capazes de produzir conhecimento e, com e por meio dele, transformar o ambiente em que vivem. Até porque é só por meio da educação que poderemos

descobrir os usos possíveis, éticos, equilibrados e construtivos das tecnologias, sejam elas digitais ou não.

A educação é o recurso primeiro que nos ensina a transformar o medo e o tédio em criatividade e curiosidade, levando-nos a ir além das definições simples “do que é” para avançar em direção ao “por que é”. Assim, conseguimos relacionar nossas experiências ao conhecimento construído em sociedade e encontrar as chaves necessárias para ler o mundo e imaginar os muitos futuros possíveis. Por meio da educação, podemos, de fato, construir conexões significativas, exercitando nossa autonomia, protagonismo e liberdade de expressão, ferramentas necessárias para que continuemos a buscar respostas que talvez não existam, mas cuja busca pode ser o que nos impele a dar sentido à nossa existência.

JANUÁRIA CRISTINA ALVESIBI

Outubro de 2025

CURADORIA DE INFORMAÇÕES: COMO EVITAR

UM “CÉREBRO PODRE”1

AO LONGO DE 2024, MAIS DE 130 MIL PESSOAS buscaram o significado da expressão  brain rot (cérebro podre, em tradução livre), eleito o termo do ano. Segundo um dos mais respeitados dicionários do mundo, o Oxford, a expressão significa uma provável deterioração cerebral causada pelo excesso de consumo de conteúdos superficiais, sobretudo os que circulam nas redes sociais. O dicionário registrou um aumento de mais de 230% na pesquisa do termo, o que indica uma certa preocupação das pessoas com a abundância de informações que circulam na internet e com os efeitos que isso causa, como a sensação de ter a “cabeça sempre cheia”, sem, no entanto, conseguir pensar direito devido à exaustão.

O canal de notícias americano CNN publicou uma matéria revelando que uma empresa de saúde já oferece tratamento para o tal brain rot, identificando-o como “neblina mental, letargia, redução da capacidade de atenção e declínio cognitivo”. Ou seja, o brain rot ainda não é considerado doença, pois não há indícios de que o cérebro realmente “apodreça”, mas os sintomas do 1 “Brain Rot”, Revista E, Sesc São Paulo, abr. 2025, p. 62-3.

“apodrecimento do cérebro” são um fenômeno que tem sido objeto de pesquisas. O Newport Institute, organização estadunidense que reúne diversas instituições que estudam a saúde mental, afirma que essa sensação está ligada à sobrecarga de informações com as quais lidamos em nosso cotidiano, e que isso tem causado dificuldade de concentração, déficit de produtividade no trabalho, ansiedade e até depressão.

Se a sensação de letargia que nos assola diante do feed infinito das nossas redes não é uma doença, há evidências de que a velocidade do fluxo dos nossos pensamentos fica muito longe da conexão online. Publicado em dezembro de 2024 na revista científica  Neuron, um estudo realizado pelos cientistas Markus Meister e Jieyu Zheng, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, comparou a velocidade do pensamento humano em relação à rede mundial de computadores, e os achados revelaram que o mundo hiperconectado em que vivemos e a profusão de informações com que temos de lidar deixaram o nosso cérebro, de fato, mais lento.

E se o processamento desse órgão já é vagaroso quando comparado a outros sistemas do corpo humano, provocando uma reação em que boa parte das informações que recebemos é “jogada fora” porque não consegue ser processada, com relação ao fluxo de informações que nos chegam não é diferente. Ou seja, a percepção de que não damos conta de assimilar tudo o que se coloca à nossa frente é verdadeira, visto que absorvemos apenas aquilo que entendemos ser importante para nós. E é aí que temos um dos grandes problemas do nosso tempo: a sobrecarga de informações está nos deixando incapazes

de selecionar aquelas que são fundamentais para a nossa sobrevivência e, sobretudo, as que nos ajudam a tomar decisões importantes para a nossa vida individual e coletiva. Sob pressão, somos incapazes de selecionar o que nos interessa e, sobretudo, discriminar o que sabemos e o que desejamos saber, competência decisiva para a tomada de decisões funcionais em todas as áreas da nossa vida, bem como para a manutenção da nossa saúde mental.

Usar a internet hoje em dia já não é mais uma escolha, mas uma necessidade. A maior parte de nós usa a rede para trabalhar, obter informações, para entretenimento e tantas outras funcionalidades. Aqueles que não têm acesso a uma conectividade significativa estão excluídos, tanto do ponto de vista pessoal quanto profissional e econômico. Diante desse cenário, a pergunta que fica é: como é possível evitar um “cérebro podre”? O que fazer para conseguir lidar com as redes de modo equilibrado e inteligente? Como usar um cérebro “analógico” em um meio cem por cento digital?

A resposta mais imediata é sempre: faça um “detox digital!”. Diminua as horas passadas diante das telas, durma longe delas, pratique exercícios físicos e aumente as horas ao ar livre. Ou seja, o foco da solução está vinculado ao dispositivo, mas, na verdade, trata-se de algo mais complexo. Manter o cérebro saudável e criativo nesse contexto tem mais a ver com desenvolver o pensamento crítico e fazer uma curadoria de informações do que apenas controlar o uso dos aparelhos. É preciso ir além do celular e refletir sobre o modo como acessamos e organizamos os conteúdos que nos chegam indiscriminadamente pelas redes.

“CALA A BOCA JÁ MORREU, QUEM MANDA

NA MINHA BOCA SOU EU!” SERÁ?1

“CALA A BOCA JÁ MORREU, QUEM MANDA NA minha boca sou eu!” Este ditado popular, tão comum entre as crianças – especialmente para aquelas que viveram nos “anos de chumbo” deste nosso Brasil –, nunca esteve tão em voga quanto nos dias de hoje. Seja na boca da ministra do Supremo Tribunal da Justiça Cármen Lúcia, ou na do eterno roqueiro Lulu Santos. A censura “voltou à moda” no mundo inteiro e, desafortunadamente, ao nosso cotidiano também, travestida de muitas formas: no banimento dos livros nas salas de aula, no corte profundo daqueles que falam, supostamente, sem ter “lugar de fala”, no cancelamento dos que discordam de nós e no acolhimento cego daqueles que dizem o que queremos ouvir. “Pai, afasta de mim esse cálice!”, cantava Chico Buarque de Hollanda em “Cálice”, canção escrita em 1974, no auge da censura, e lançada somente em 1978, cheia de metáforas e duplos sentidos, que se tornou um hino de denúncia, protesto e resistência ao que acontecia nos porões da ditadura militar brasileira. Nada mais atual no contexto em que vivemos.

1 Publicado em Nexo Jornal, 12 maio 2023.

O DISCURSO DE ÓDIO NÃO ACEITA

TERMOS E CONDIÇÕES1

TALVEZ MUITOS LEITORES TENHAM SENTIDO na pele o que significa o discurso de ódio. Nem sempre é discurso, muitas vezes é agressão física, ou é um silêncio, ou ainda a invisibilidade, que também agride e machuca. De acordo com o professor e psicanalista Christian Dunker:

É possível que se passe com a noção de discurso de ódio algo análogo ao que Santo Agostinho dizia do tempo, ou seja: “quando não me perguntam o que é o tempo eu sei o que ele é, mas quando me perguntam o que é o tempo eu já não sei dizer o que ele é”. Em outras palavras, todos aqueles que já foram ultrajados, vilipendiados ou humilhados por falas coletivas [sabem].2

Difícil conceituar com precisão, mas impossível não identificar quando nos deparamos com ele.

O ódio, por si só, é um sentimento cujas razões são quase sempre injustificáveis, os efeitos, nefastos, tanto

1 Publicado em Nexo Jornal, 6 jul. 2023.

2 Christian Dunker, “Como entender nosso ‘relógio de afetos’ ajuda a combater o discurso de ódio”, Blog do Dunker, 14 mar. 2023.

Durante três meses, tive o privilégio e a honra de acompanhar as reuniões do Grupo de Trabalho para recomendações de estratégias de enfrentamento ao discurso de ódio e ao extremismo, instituído pelo então ministro dos Direitos Humanos e da Cidadania, Silvio Almeida, para debater o assunto e propor políticas públicas

3 Cetic Brasil, TIC Kids Online Brasil 2019: principais resultados, São Paulo: Unesco/Cetic, 2020.

143 para quem sente como para quem é alvo deles. É uma força poderosa, um motor de destruição. Em tempos em que os afetos se misturam com os likes das redes sociais, temos visto os celulares, tablets e computadores “pegarem fogo” como se fossem uma mata seca na qual alguém jogou uma bituca de cigarro. Como estamos percebendo no universo offline, esse fogo é cada vez mais difícil de debelar, uma vez que ainda não temos bombeiros para dar conta dos algoritmos das plataformas digitais, por exemplo. Fato é que é quase certo que todos nós já fomos vítimas do discurso de ódio pelo menos uma vez na vida, ou já vimos alguém próximo de nós sê-lo. E isso acontece cada vez mais cedo. Um levantamento feito em 2019 pelo CGI.BR/NIC.BR/Centro Regional de Estudos do Desenvolvimento da Sociedade da Informação revela que 43% das crianças e jovens brasileiros, entre 9 e 17 anos, já viram alguém ser discriminado na internet e 7% já se sentiram discriminados.3 Da discriminação, do preconceito, da violência verbal ou mesmo da invisibilização proposital sempre excludente, parece que é impossível alguém escapar neste mundo em que vivemos.

voltadas às questões que vão desde violência nas escolas, atos antidemocráticos, racismo, xenofobia, homofobia e misoginia, até a criação de uma portaria específica para a instituição de um fórum permanente de enfrentamento ao discurso de ódio e ao extremismo, com o objetivo de participar, acompanhar e articular projetos e ações de combate aos diversos problemas relacionados a essa temática. Fui convidada pela presidente do GT, a ex-deputada federal e mestra em políticas públicas Manuela d’Ávila, a atuar como participante externa para contribuições na área de educação midiática, e foi um dos períodos mais ricos em aprendizado para mim. Foi-me dada a oportunidade de não apenas ouvir os maiores e mais experientes especialistas nesse tema no nosso país, mas também de constatar o teor e o resultado que o discurso de ódio tem produzido em nossa sociedade. Complexo de explicar, quase impossível mensurar. Em 18 de junho de 2023, Dia Internacional de Combate ao Discurso de Ódio, o secretário-geral da Organização das Nações

Unidas (ONU), António Guterres, declarou:

O discurso de ódio é usado para alimentar o medo e a polarização, frequentemente para ganhos políticos e com um custo imenso para as comunidades e as sociedades. Incita a violência, exacerba as tensões e impede os esforços para promover a mediação e o diálogo. É um dos sinais de alerta de genocídio e de outros crimes atrozes. O discurso de ódio é frequentemente dirigido a grupos vulneráveis, reforçando a discriminação, o estigma e a marginalização.

Minorias, mulheres, refugiados, migrantes e pessoas de diversas orientações sexuais e identidades de gênero são

No relatório5 – de leitura obrigatória para todos os cidadãos brasileiros –, essa realidade descrita por Guterres é constatada e documentada com detalhes e muitas referências. Na cerimônia de entrega oficial do trabalho ao ministro de Direitos Humanos, o próprio Silvio Almeida deixou clara a urgência e a necessidade de se implementar ações para o combate ao discurso de ódio e ao extremismo em nosso país. Pela primeira vez, veem-se diretrizes claras e bem definidas para enfrentar, na prática, as manifestações de ódio e de extremismo que mais atingem a nossa população, listadas com detalhes no documento: misoginia e violência contra as mulheres; racismo contra pessoas negras e indígenas; ódio e violência contra a população LGBTQIA+; xenofobia e violência contra estrangeiros e nacionais das regiões Norte e Nordeste; ódio e violência contra as pessoas e comunidades pobres; intolerância, ódio e violência contra as comunidades e

4 António Guterres, “O discurso de ódio ‘é um dos sinais de alerta de genocídio e de outros crimes atrozes’”, Nações Unidas Brasil, 16 jun. 2023. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/236831-o-discurso-de%C3%B3dio-%C3%A9-um-dos-sinais-de-alerta-de-genoc%C3%ADdio-ede-outros-crimes-atrozes-alerta. Acesso em: 31 jul. 2025.

5 Christian Ingo Lenz Dunker, Débora Diniz Rodrigues, Esther Solano, Relatório de recomendações para o enfrentamento do discurso de ódio e o extremismo no Brasil, Brasília: Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/ mdh/pt-br/assuntos/noticias/2023/julho/mdhc-entrega-relatorio-compropostas-para-enfrentar-o-discurso-de-odio-e-o-extremismo-no-brasil/ RelatrioGTdioeExtremismosDigital_30.06.23.pdf. Acesso em: 31 jul. 2025.

145 alvos frequentes. As plataformas de mídia social podem amplificar e espalhar o discurso de ódio à velocidade da luz.4

AGRADECIMENTOS

À Edições Sesc São Paulo, que embarcou comigo nessa jornada literária, buscando traduzir a Educação Midiática para todos.

Ao Nexo Jornal, que teve a visão e ousadia de publicar, em 2021, uma coluna sobre Educação Midiática e Literária quando o assunto nem era um dos trending topics. Obrigada em especial aos meus editores Paula Miraglia, Conrado Corsalette, Marina Menezes, Aline Pellegrini e Antonio Mammi pela parceria construída por meio dos textos que cuidadosamente editaram.

Obrigada aos renomados veículos de comunicação que publicaram meus artigos ao longo dos últimos anos, cedendo seu espaço para a disseminação de conceitos que são tão caros à formação de leitores críticos:

Revista Emília, Revista Educação, Blog da Letrinhas (da Companhia da Letras), Revista E! e Instituto Tecnologia e Sociedade (ITS - newsletter), dentre outros.

#juntospelamesmacausa

SOBRE A AUTORA

Jornalista, mestre em Comunicação Social pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) com uma tese sobre o uso do jornal em sala de aula, especialista em Infoeducação, Educomunicação e em Produção Cultural para Crianças e Jovens pela mesma universidade, escritora, com mais de sessenta obras publicadas para crianças e jovens. Foi duas vezes vencedora do Prêmio Jabuti de Literatura Brasileira e também agraciada com um Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos e um Prêmio Abril de Jornalismo. Especialista em Educação Midiática e Desinformação, é membro da Associação Brasileira de Pesquisadores e Profissionais em Educomunicação (ABPEducom) e da Aliança Global para Parcerias em Alfabetização Midiática e Informacional da Unesco (GAPMIL), uma organização composta por mais de setecentas organizações, governos e cidadãos nos cinco continentes. Também é membro do grupo Jornalismo, Direito e Liberdade (JDL), da ECA-USP, criado em parceria com o Instituto de Estudos Avançados (IEA) da mesma instituição. É colunista do Nexo Jornal, da Revista Educação, da Revista Emília, do Portal Lunetas e do Blog da Letrinhas (da Companhia das Letras), entre outras publicações.

É pesquisadora e especialista em cultura popular brasileira e suas tradições folclóricas e autora do livro

Abecedário de personagens do folclore brasileiro, publicado pela FTD Educação e Edições Sesc, finalista do Prêmio Jabuti de Literatura Brasileira em 2018, e referência para a série Cidade invisível, da Netflix, da qual foi consultora, e também de Heróis e heroínas do cordel (Companhia das Letrinhas), além de outros livros que abordam essa temática.

Desenvolve projetos de educação midiática e literária em parceria com o Redes Cordiais, Instituto Felipe Neto, Instituto de Tecnologia e Sociedade, Instituto Itaú Social e Árvore Educação. Atua como consultora para diversas empresas e instituições em programas focados em educação e cultura e em editoras como consultora editorial e editora associada. Ministra cursos, workshops e oficinas destinados a pais, educadores, crianças e jovens sobre educação midiática, educação literária, escrita criativa e storytelling.

Para saber mais acesse: www.entrepalavras.com.br (site oficial).

Facebook

https://www.facebook.com/januaria.alves.1

Instagram

https://www.instagram.com/janu_alves/

LinkedIn

linkedin.com/in/januária-cristina-alves-82a42a11

Fonte GT Super Texto e Tablet Gothic

Papel Capa: Supremo Alta Alvura 250 g/m2

Miolo: Pólen Soft 80 g/m2

Impressão Pifferprint

Data Dezembro de 2025

Nos últimos anos, a educação midiática tem sido reconhecida como uma resposta valiosa aos problemas de “desordem informacional” – fake news, desinformação, teorias da conspiração, discurso de ódio, entre outros. Contudo, a educação midiática não se limita à informação: trata-se também de cultura, representação e identidade. Refere-se ao modo como compreendemos o mundo, como nos relacionamos com ele (e com as pessoas) e como participamos da sociedade – processos que são agora inevitavelmente mediados. Aprender a pensar criticamente sobre essas questões é fundamental para a cidadania nos dias de hoje. Como especialista em educação e comunicação, jornalista e educadora premiada, Januária Cristina Alves desempenhou um papel importante ao apresentar essas questões a um público mais amplo no Brasil. Ela torna a educação midiática acessível sem torná-la simplista ou apresentá-la como uma solução fácil. Possui uma visão abrangente, e sua fala reflete muitos anos de experiência. Esta coletânea de textos reúne diversas áreas de interesse, e seu apelo se estende a especialistas em educação e comunicação, a agentes de políticas públicas, bem como ao público em geral.

david buckingham

Professor da University College London e da Loughborough University (UK), autor de Manifesto pela educação midiática.

Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook