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Desejos em revolução: homossexualidades e mudanças políticas

Page 1


ORG.

RENAN QUINALHA

JAMES N. GREEN

AUGUSTA

DE OLIVEIRA

Desejos em revolução

HOMOSSEXUALIDADES E MUDANÇAS POLÍTICAS

Na constante corrente dialética entre um passado que passou e não passou, obras como esta são ferramentas indispensáveis a quem deseja compreender não apenas sua trajetória como sujeito político, histórico e social, mas também as disputas em torno de tais sujeitos e trajetórias. Quinalha, Green e Oliveira não pouparam esforços na reunião, contextualização e organização destes escritos que operam como uma “minibiblioteca” das tensões, dos impasses e das transformações que nossas existências como pessoas e grupos “desviantes” geraram à direita e à esquerda do espectro político.

Ao reunir textos clássicos e contemporâneos que analisam a relação entre homossexualidades, regimes políticos e projetos de transformação social ao longo do século 20, Desejos em revolução percorre as experiências das revoluções socialistas, dos fascismos europeus, das ditaduras latino-americanas e dos movimentos de libertação sexual surgidos a partir de 1968. No cruzamento entre história, teoria política e memória dos movimentos, o livro evidencia tanto as alianças quanto as fraturas entre dissidências sexuais e diferentes campos ideológicos. Passado o primeiro quarto do século 21, vemos um acirramento dos discursos a nosso respeito e dos ataques a nossas garantias e nossos direitos civis conquistados a duras penas. Estamos sob ameaça em uma série de países. Com a ascensão de uma nova onda de políticos de extrema direita, fundamentalistas religiosos e demais autoritários, fica evidente a urgência para que estejamos mais bem instrumentalizadas com as lições daqueles e daquelas que resistiram, enfrentaram, esquematizaram e explicaram como fomos subvertidas em “identidades-problema”, a fim de que não permitamos que a história se repita.

Neste cenário de crise permanente em que as minorias sociais e políticas vivem, recebemos constantemente notícias desconcertantes que vão desde os avanços daqueles que nos querem mortas, curadas ou invisibilizadas até o surgimento de grupos no interior de nossos movimentos que tentam desarticular nossas lutas e pautas históricas, bem como reproduzir as lógicas perversas de exclusão e violência entre nossas fileiras. A presente coletânea demonstra que essas disputas não são novas, elas atravessam a história dos movimentos de dissidência sexual e reaparecem tanto em contextos revolucionários quanto em projetos assimilacionistas, moralizantes ou autoritários. Ao expor essas contradições sem apagá-las, este livro convida quem o lê a pensar estrategicamente alianças, limites e possibilidades da ação coletiva.

Mais do que um inventário do passado, Desejos em revolução oferece ferramentas críticas para pensarmos o presente e imaginarmos futuros possíveis, reafirmando o valor político de nossas contribuições para a construção das democracias que ainda estão por vir.

RITA VON HUNTY

Desejos em revolução

HOMOSSEXUALIDADES

E MUDANÇAS POLÍTICAS

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ORG.

RENAN QUINALHA

JAMES N. GREEN

AUGUSTA DE OLIVEIRA

Desejos em revolução

HOMOSSEXUALIDADES E MUDANÇAS POLÍTICAS

© Renan Quinalha, James N. Green e Augusta de Oliveira (org.), 2026

© Edições Sesc São Paulo, 2026

Todos os direitos reservados

Tradução Humberto do Amaral

Preparação Edgar Costa Silva Revisão Sílvia Balderama Nara, Maiara Gouveia Projeto gráfico, capa e diagramação Rafael Simões

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

D451

Desejos em revolução: homossexualidades e mudanças políticas / Organizadores Renan Quinalha, James N. Green e Augusta de Oliveira; tradução de Humberto do Amaral. – São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2026.

392 p.

ISBN 978-85-9493-368-3

1 Homossexualidade. 2 Política sexual. 3 Sistemas políticos.

I Quinalha, Renan. II. Green, James N. III. Oliveira, Augusta de. IV. Amaral, Humberto do. V. Título. VI. Título: Homossexualidades e mudanças políticas.

Ana Cláudia Martins – Bibliotecária CRB-8/8246

Os artigos “Política sexual de esquerda e homossexualidade”, de Hekma, G., Oosterhuis, H. e Steakley, J.; “Debaixo da mesma coberta”, de Worth, H., Jing, J., McMillan, K. et al.; “Policiamento de gênero, homossexualidade e o novo patriarcado da Revolução Cubana, 1965-70”, de Guerra, L.; “Vida privada e moral pública”, de Benadusi, L; e “Que o Todo-Poderoso nos ajude a chegar aonde desejamos”, de Fernández- Galeano, J. foram traduzidos e publicados sob licença da Taylor & Francis Ltd, https://tandfonline.com.

“Governo ditatorial e política sexual na Argentina: o caso da Frente de Liberación Homosexual, 1967-1976”, de Pablo Ben e Santiago Joaquin Insausti, publicado originalmente em Hispanic American Historical Review, vol. 97, nº 2, p. 297–325. Copyright © 2017, Duke University Press. Todos os direitos reservados. Republicado com permissão do titular dos direitos e da editora.

“A existência homossexual e o socialismo real: uma nova luz sobre a repressão da homossexualidade masculina na Rússia de Stálin”, de Dan Healey, publicado originalmente em GLQ, vol. 8, nº 3, p. 349–78. Copyright © 2002, Duke University Press. Todos os direitos reservados. Republicado com permissão do titular dos direitos e da editora.

"Movimentos e memória: a criação do mito de Stonewall", de Elizabeth A. Armstrong e Suzanna M. Crage, American Sociological Review, Vol 71, Nº 5 (outubro de 2006), pp. 724-51. Copyright © 2006 da American Sociological Association. Todos os direitos reservados. Usado mediante permissão.

“Um arco-íris vestido de preto”, de Ronald K. Porter, foi traduzido com permissão do Peter Lang Group AG, de Sexualities in Education, Ronald K. Porter, 2012; permissão concedida por meio do Copyright Clearance Center, Inc.

“A propaganda homofóbica e a delação de homens que desejavam o mesmo sexo durante o NacionalSocialismo”, de Stefan Micheler e Patricia Szobar, foi traduzido a partir do texto publicado no Journal of the History of Sexuality, v. 11, n. 1/2, University of Texas Press, jan.-abr. 2002, pp. 95-130. Copyright © 2002 da University of Texas Press. Todos os direitos reservados. Usado mediante permissão.

“O espírito de Maio de 1968 e as origens do Movimento de Libertação Gay na França”, de Michael Sibalis, publicado em Gender and Sexuality in 1968, © Springer Nature BV, aqui traduzido e reproduzido com permissão da licenciante através da PLS Clear.

“Capitalismo e identidade gay”, de John D’Emilio”, foi publicado originalmente em Powers of Desire: The Politics of Sexuality, org. Ann Snitow, Christine Stansell e Sharon Thompson, Nova York: Monthly Review Press, 1983. Reproduzido aqui mediante permissão.

Introdução

RENAN QUINALHA, JAMES N. GREEN

E AUGUSTA DE OLIVEIRA

15

PARTE 1 Marxismos e homossexualidades

22 Política sexual de esquerda e homossexualidade: um panorama histórico

GERT HEKMA, HARRY OOSTERHUIS

E JAMES STEAKLEY

56 Capitalismo e identidade gay

JOHN D’EMILIO

70 PARTE 2 Desejos e revoluções

77

A existência homossexual e o socialismo real: uma nova luz sobre a repressão da homossexualidade masculina na Rússia de Stálin

DAN HEALEY

106

“Debaixo da mesma coberta”: os paradoxos do sexo entre homens na Revolução Cultural

HEATHER WORTH, JUN JING, KAREN MCMILLAN, CHUNYAN SU, XIAOXING FU, ZHANG YUPING, RUI ZHAO, JIA CUI, ANGELA KELLY-HANKU E ZHANG YOUCHUN

123

Policiamento de gênero, homossexualidade e o novo patriarcado da Revolução Cubana, 1965-70

LILLIAN GUERRA

PARTE 3

Desejos e contrarrevoluções

159 Homossexualidade e fascismo

KLAUS MANN

165 A propaganda homofóbica e a delação de homens que desejavam o mesmo sexo durante o Nacional-Socialismo

STEFAN MICHELER

203

Vida privada e moral pública: o fascismo e o “problema” da homossexualidade

LORENZO BENADUSI

234

“Que o Todo-Poderoso nos ajude a chegar aonde desejamos”: homossexualidade e catolicismo na Espanha de Franco (1954-70)

JAVIER FERNÁNDEZ-GALEANO

256

PARTE 4

Desejos em 1968 e depois

263 Movimentos e memória: a criação do mito de Stonewall

ELIZABETH A. ARMSTRONG

E SUZANNA M. CRAGE

318

Um arco-íris vestido de preto: política gay e o Partido dos Panteras Negras

RONALD K. PORTER

337

O espírito de Maio de 1968 e as origens do Movimento de Libertação Gay na França

MICHAEL SIBALIS

357

Governo ditatorial e política sexual na Argentina: o caso da Frente de Liberación Homosexual, 1967-76

PABLO BEN E SANTIAGO JOAQUIN INSAUSTI

390

SOBRE OS ORGANIZADORES

Introdução

Qual é a história das pessoas com orientação sexual e/ou identidade de gênero não hegemônicas sob diferentes regimes políticos, tanto de esquerda quanto de direita? Qual era a situação de gays, lésbicas e outras dissidências de gênero após as principais revoluções de inspiração marxista ao longo do século 20? Como o movimento fascista, que chegou ao poder na Europa nas décadas de 1920 e 1930, via as sexualidades e identidades não normativas? Como tanto stalinistas quanto fascistas apontaram uns para os outros, acusando seus inimigos declarados de defensores da homossexualidade, quando ambos os regimes criminalizaram a sexualidade entre pessoas do mesmo sexo e os comportamentos de gênero dissidentes? Durante a radicalização da juventude ao redor do mundo na década de 1960, qual era a relação entre os movimentos LGBTI+ emergentes e a Nova Esquerda nos Estados Unidos, na Europa e na América Latina?

Os organizadores deste volume, que são pesquisadores de tópicos LGBTI+ e ativistas ligados ao movimento brasileiro de diferentes maneiras, perceberam que, embora tenha havido um rico debate sobre essas questões em publicações acadêmicas internacionais nos últimos quarenta anos, brasileiros interessados em tais temas tiveram pouco acesso a esse material. Daí o objetivo principal deste volume: reunir ensaios e textos já clássicos sobre a temática e que, agora, chegam ao nosso país traduzidos e com introduções escritas pelos organizadores para permitir melhor contextualização e compreensão das discussões aqui sistematizadas.

Selecionar o conteúdo deste livro não foi uma tarefa fácil. Os organizadores tinham à disposição mais de 150 excelentes artigos acadêmicos que poderiam compor este volume. O limite de espaço e a dificuldade de licenciar alguns artigos, diante das complexas negociações com as editoras estrangeiras detentoras dos respectivos direitos autorais, impuseram a exclusão de diversos textos. Infelizmente, como o leitor notará, ainda há um viés acadêmico distinto nesta bibliografia, que favorece estudos de homens cisgêneros gays em detrimento de mulheres e de pessoas trans. Sempre que possível, procuramos artigos que tentavam abordar as questões de lésbicas e pessoas trans ou que traziam perspectivas mais amplas e interseccionais das homossexualidades masculinas, mas estávamos conscientes do desequilíbrio em nossas seleções. Embora, historicamente, a maioria das restrições legais à sexualidade dissidente, tanto no papel quanto na aplicação prática, sinalizasse a homossexualidade masculina, reconhecemos que muito mais pesquisas precisam

ser feitas no Brasil e internacionalmente sobre as experiências únicas de lésbicas e pessoas trans. Além disso, há também um olhar nosso mais ocidentalizado (exceção do caso chinês), mas que se justifica pela maior acessibilidade das fontes e pela quantidade de estudos neste hemisfério. Mesmo diante dessas lacunas aqui apontadas, sustentamos que tais textos merecem ser conhecidos e discutidos, sendo esta coletânea também um diagnóstico sobre a história e o atual estado da arte da produção acadêmica sobre regimes políticos e diversidade sexual e de gênero.

Este projeto teve início ainda antes da pandemia de covid-19, quando os organizadores, que já atuam em outros projetos comuns, identificaram uma necessidade de ampliar os debates sobre a relação entre o ativismo LGBTI+ e as esquerdas, tanto de um ponto de vista histórico quanto da perspectiva da conjuntura brasileira mais recente, caracterizada por um crescimento da extrema-direita e pela ascensão do bolsonarismo como força política relevante. Essa necessidade, a nosso ver, se acentuou com as críticas difundidas entre setores das esquerdas ao espantalho do “identitarismo”. Soma-se a isso o fato de que, nos últimos dez anos, grupos e governos de extrema direita foram crescendo no mundo todo, colocando também o desafio de pensar como o desejo é enfrentado por regimes que reivindicam um extremo do espectro ideológico.

Decidimos organizar o volume em quatro partes distintas. A primeira parte oferece um olhar geral sobre as atitudes das esquerdas marxistas em relação às homossexualidades, com o texto “Política sexual de esquerda e homossexualidade: um panorama histórico”, artigo referencial que surgiu em uma edição especial do Journal of Homosexuality, publicado nos Estados Unidos. Segue-se um artigo analítico já clássico sobre homossexualidade e capitalismo escrito por John D’Emilio, um dos primeiros historiadores a elaborar sua tese de doutorado sobre um tópico LGBTI+ nos Estados Unidos e, em seguida, receber uma posição permanente em uma universidade americana.

A segunda parte examina aspectos da história das homossexualidades na União Soviética, na China e em Cuba. Enquanto o novo governo soviético retirou a criminalização da homossexualidade de seus novos códigos legais na década de 1920, séculos de preconceitos religiosos e sociais conservadores permearam as culturas desses três países, com muito mais continuidade em relação ao passado do que qualquer mudança significativa.

A terceira parte examina a realidade das pessoas LGBTI+ sob os fascismos e o nazismo e as maneiras pelas quais esses regimes confundiram homossexualidades com comunismo. A quarta parte considera o ativismo LGBTI+ nas décadas de 1960 e 1970 nos Estados Unidos, na França e na Argentina, enquanto uma nova onda internacional de ideias revolucionárias varria o mundo, o que, em parte, inspirou a organização política de gays, lésbicas e pessoas trans.

Política sexual de esquerda e homossexualidade: um panorama histórico

JAMES STEAKLEY1

Nos anos pós-Segunda Guerra Mundial, grupos de direitos homossexuais renasceram ou passaram a existir pela primeira vez por todo o mundo ocidental – nos Estados Unidos, na Holanda, na Alemanha, na França e nos países escandinavos2. Frequentemente designadas como “homófilas” para diferenciá-las dos desenvolvimentos pós-Stonewall, essas organizações dos anos 1950 eram em grande medida politicamente neutras, ainda que seus contextos fossem na realidade bastante diversos: as organizações estadunidenses e holandesas, Mattachine e COC, haviam se originado da esquerda, enquanto o círculo da Arcadie francesa saiu da direita3. A neutralidade delas surgiu da necessidade de navegação de um terreno político inóspito, já que a reconstrução da Europa Ocidental e a Guerra Fria deram origem a governos que continuaram e até mesmo fortaleceram o ethos erotofóbico das décadas imediatamente anteriores4. Na Europa, os gays enfrentavam uma atmosfera arrepiante de opróbio e ostracismo. Na Alemanha, a constitucionalidade do estatuto da sodomia de 1935, promulgado pelos nazistas, foi reconhecida pela mais alta corte da Alemanha Ocidental em 1957, e todo e qualquer tipo de reparação foi categoricamente negado aos gays que haviam sobrevivido aos campos de concentração5. Na França, o regime pró-nazista de Vichy havia elevado a idade de

1 Gerhardus “Gert” Hekma (1951-2022) foi um antropólogo e lecionou na Universidade de Amsterdã entre 1984 e 2017.

Harry Oosterhuis (1958) é historiador e professor emérito na Universidade de Maastricht. James Steakley é professor emérito na Universidade de Wisconsin-Madison.

2 Para um panorama internacional sobre o movimento homófilo em meados dos anos 1950, cf. Marvin Cutler (isto é, W. Dorr Legg) (org.), Homosexuals Today: A Handbook of Organizations and Publications, Los Angeles: Publication Division of One, Inc., 1956.

3 Sobre o início radical da Mattachine, cf. John D’Emilio, Sexual Politics, Sexual Communities: The Making of a Homosexual Minority in the United States, 1940-1970, Chicago: University of Chicago Press, 1983, pp. 57-74. Sobre as origens da COC, cf. Hans Warmerdam e Pieter Koenders, Cultuur en ontspanning: Het COC 1946-1966, Utrecht: NVIH, COC & Interfacultaire Werkgroep Homostudies, Rijksuniversiteit Utrecht, 1987, p. 58. Entre os fundadores da Arcadie, André Baudry era moderado, enquanto Jacques de Ricaumont e Roger Peyrefitte eram conservadores. Cf. Jacques Girard, Le Mouvement homosexuel en France 1945-1980, Paris: Syros, 1981, pp. 39-73, sobretudo pp. 56 e 71.

4 Para uma coleção interessante de memórias e outros textos que documentam o senso subjetivo de continuidade nas décadas intermediárias do século, cf. Keine Zeit für gute Freunde: Homosexuelle in Deutschland 1933-1969, Joachim S. Hohmann (org.), Berlim: Foerster, 1982.

5 Cf. Robert G. Moeller, “The Homosexual Man Is a ‘Man,’ the Homosexual Woman is a ‘Woman’: Sex, Society, and the Law in Postwar West Germany”, Journal of the History of Sexuality, Austin: 1993-94, v. 4, pp. 395-429. A decisão da Corte Constitucional Federal de 1957 foi ratificada pela totalidade do Bundestag da

consentimento para as relações homossexuais de 13 para 21 anos, e essa lei permaneceu inalterada até 1978. Na Holanda do pós-guerra imediato, os democratas cristãos forçaram seus colegas de coalizão social-democratas a despedirem um de seus ministros de gabinete por ser gay6. Na Grã-Bretanha, a deserção de Guy Burgess para Moscou em 1951 foi usada como prova de que os homossexuais eram traidores, parte de uma “Homintern”7 obscura; e Alan Turing – cujo trabalho de contrainteligência na Segunda Guerra Mundial ajudou a Inglaterra tanto quanto Blunt a havia prejudicado8 – foi levado ao suicídio tanto pela perseguição que sofreu em 1952 por ser homossexual quanto pelas injeções de hormônios a que foi condenado em um processo judicial9. Nos Estados Unidos, o macarthismo consistiu em uma caça às bruxas tanto contra comunistas quanto contra homossexuais, ainda que houvesse boatos de que Joseph McCarthy e Roy Cohn, os principais agentes do expurgo, fossem eles mesmos gays10 Foi só nos anos 1960 que uma onda mais ampla de libertação e mudança permitiu que uma nova geração de gays e lésbicas jovens se livrasse das amarras das organizações homófilas do pós-guerra – com relação às quais, na realidade, esses jovens frequentemente estavam alegremente alheios – e traçasse um novo trajeto rumo à liberdade sexual11. A maioria dos grupos de libertação gay e lésbica que surgiram no rescaldo da Revolta de Stonewall de 1969 era radical, de esquerda e utópica.

Alemanha Ocidental em 1986; cf. ibid., p. 427. Cf. também Michael Sartorius e Christian Schulz, Paragraph 175. (abgewickelt) / Wider Gutmachung, Hamburgo: Männerschwarm Skript, 1994.

6 Sobre a demissão do economista Hein Vos, cf. Rob Tielman, Homoseksualiteit in Nederland: Studie van een emancipatiebeweging, Amsterdã/Meppel : Boom, 1982, pp. 162-63.

7 Jogo de palavras com a junção de “homossexual” e “Comintern”, abreviação para a Terceira Internacional Comunista, um movimento internacional fundado em 1919 por Lênin e pelo Partido Comunista da União Soviética para reunir os partidos comunistas de vários países a fim de estabelecer uma espécie de unidade político-ideológica e formar quadros dirigentes. [N.T.]

8 Referência a Anthony Blunt, professor de história da arte na Universidade de Londres, diretor do Instituto de Arte Courtauld, Inspetor dos Retratos da Rainha e espião soviético. Blunt, que integrou um grupo de outros quatro espiões formados em Cambridge, trabalhou para os soviéticos entre os anos 1930 e 1950. Particularmente ativo durante a guerra, acredita-se que tenha transmitido mais de 1,7 mil documentos sigilosos para a União Soviética. [N.T.]

9 Sobre Turing, cf. Andrew Hodges, Alan Turing: The Enigma, Nova York: Simon & Schuster, 1985, pp. 456-527. 10 Sobre macarthismo e homossexualidade, cf. John D’Emilio, “The Homosexual Menace: The Politics of Sexuality in Cold War America”, em: Making Trouble: Essays on Gay History, Politics, and the University, i Nova York: Routledge, 1992, pp. 57-73; também Kathy Peiss e Christina Simmons (org.) com Robert A. Padgug, Passion and Power: Sexuality in History , Filadélfia: Temple University Press, 1989, pp. 226-40. Para uma reunião de documentos pertinentes, cf. Jonathan Katz, Gay American History: Lesbians and Gay Men in the USA, Nova York: Thomas Y. Crowell, 1976, pp. 91-105. Na p. 101, Katz relata que “em 14, 16 e 21 de janeiro de 1952, o diário do jornalista Drew Pearson se refere a rumores não comprovados que circulavam em meio a congressistas, membros do FBI e da Casa Branca sobre o senador Joseph McCarthy estar envolvido em atividades homossexuais” e cita como fonte Drew Pearson, Diaries, 1949-1959, Tyler Abell (org.), Nova York: Holt, Rinehart and Winston, 1974, pp. 188-89, 190, 192. Sobre Roy Cohn, cf. Nicholas von Hoffman, Citizen Cohn, Nova York: Doubleday, 1988.

11 Cf. Dennis Altman, Homosexuality: Oppression and Liberation, Nova York: Outerbridge and Dienstfrey, 1971; e Bob Cant e Susan Hemmings (org.), Radical Records: Thirty Years of Lesbian and Gay History, Londres: Routledge, 1988.

HISTÓRIAS ORAIS DA HOMOSSEXUALIDADE EM QUATRO CIDADES DA CHINA –

1949-2010

Este artigo surgiu de pesquisas em colaboração entre o International HIV Research Group da Universidade de New South Wales e o Departamento de Sociologia da Universidade Tsinghua. Com o uso do método da história oral, essas pesquisas se voltaram à coleta das memórias de homens chineses a respeito de mudanças na vida social e sexual de homossexuais em quatro cidades da China a partir da fundação da República Popular, com o mapeamento de suas experiências em contraposição aos elementos-chave da história recente do país. Isso incluiu, claro, o período da Revolução Cultural. A história oral foi escolhida porque permite a coleta e a preservação sistemáticas dos testemunhos de pessoas vivas sobre suas próprias vivências – uma revisão da história. Na história oral, um indivíduo aborda suas próprias experiências e sentimentos em forma narrativa, como um “depoimento testemunhal”. A história oral fala do passado ou de indivíduos não em abstrato, mas nos contextos vividos. Neste estudo, membros de uma população extremamente marginalizada (homens homossexuais chineses), que até agora não tinham dado voz a suas experiências, narram suas vidas. Como afirmado por Gao Mobo:

Como é verdade também no caso de outras histórias, a história da Revolução

Cultural está “na forma como ela é contada”. Mas quem a está contando? Quem se lembra do quê? Quem é autorizado a falar sobre suas memórias? Quem pode contá-las, seja de forma oral ou impressa? Quais canais e espaços de memória são proporcionais por quem, e para quem?20

Lynn Abrams discutiu a história oral como uma “história de recuperação”, uma história que oferece evidências sobre eventos que não podem ser reacessados com as fontes convencionais – histórias que estão escondidas. Ainda que tais histórias sejam contingentes e fluidas, argumenta Abrams, isso “de modo algum prejudica sua veracidade e utilidade”21. Em nosso caso, em que há uma escassez de registros sobre o destino de homens homossexuais durante a Revolução Cultural, as narrativas daqueles que estavam lá são tremendamente importantes, particularmente se considerarmos que, mesmo que a opinião comum sobre as experiências dos homossexuais seja a de que eles sofreram terrivelmente, não era assim que nossos participantes pensavam.

20 M. C. Gao, “Debating the Cultural Revolution: Do We Only Know What We Believe?”, Critical Asian Studies, Londres: 2002, v. 34, p. 431, DOI: 10.1080/1467271022000008956.

21 L. Abrams, Oral History Theory, Londres: Routledge, 2010, p. 5. Cf. também R. J. Grele, “Oral History as Evidence”, em: E. Jeffreys (org.), History of Oral History: Foundations and Methodology, Lanham: Rowman Altamira, 2007, pp. 33-91.

“Debaixo

A China tem uma longa tradição em história oral. A primeira história oral registrada foi produzida 3 mil anos atrás pelos escribas da dinastia Zhou, que transcreviam as falas das pessoas para uso dos historiadores da corte. Houve um novo interesse na história oral após a libertação da China. Em 1958, a “nova história popular” foi uma tentativa de escrever a história dos vilarejos, das famílias, das fábricas e das comunas. O Comitê Literário e Histórico do Comitê Central do Partido Comunista é o órgão oficial de história oral na China. Já em meados dos anos 1990, esse grupo havia reunido mais de 11,6 mil volumes da série Literatura e Materiais Históricos, que representavam 4,4 mil tópicos diferentes. Esses materiais abarcam relatos biográficos sobre diversos tópicos – incluindo eventos políticos, militares, diplomáticos, econômicos, culturais e sociais – com a contribuição dos testemunhos de mais de 300 mil pessoas. Segundo Song-hui Zheng e Jun-hua Chen, no entanto, até muito recentemente a história oral contemporânea havia se tornado menos aceita na China; foram poucas as histórias orais produzidas desde aqueles primeiros anos, e a confiabilidade do método como fonte vem sendo questionada22

Este estudo foi conduzido em 2011. As entrevistas com 31 homens homossexuais chineses (de idades entre 58 e 83 anos) foram realizadas por pesquisadores chineses do Departamento de Sociologia da Universidade Tsinghua, do Instituto para Antropologia Cultural da Universidade Popular Chinesa e da Universidade Juvenil de Estudos Políticos da China. As entrevistas consistiram em narrativas cronológicas oferecidas pelos homens e foram relacionadas a eventos históricos na China (a Revolução Cultural, a repressão dos anos 1980 contra o vandalismo e contra os homens homossexuais e a abertura da China). As transcrições foram apresentadas aos entrevistados para revisão. Quando eles concordaram com o teor delas, os textos foram traduzidos para o inglês. Este trabalho foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa Humana da Universidade de New South Wales e pela Câmara de Revisão Interna da Universidade Tsinghua.

RESULTADOS

Afirma-se de modo geral que a Revolução Cultural foi a época de maior repressão contra homens homossexuais23, que eram perseguidos e punidos com trabalhos exaustivos ou o aprisionamento. Contudo, nossas entrevistas indicam que, ainda que alguns dos participantes, jovens naquela época, tenham passado por dificuldades

22 S.-h. Zheng e J.-h Chen, “Study on the Ethical Problems of Oral History Work in Library”, Journal of the Library Science Society of Sichuan, 2009, v. 4, p. 19.

23 Cf. E. Jeffreys, “Sex and Sexuality in China”, The China Quarterly, Cambridge: 2007, v. 189, pp. 187-228.

Policiamento de gênero, homossexualidade e

o novo patriarcado da Revolução Cubana, 1965-70

De meados ao final dos anos 1960, as notícias sobre o internamento e a “reeducação” de homossexuais pelo governo cubano em campos de trabalho forçado escandalizaram a esquerda – muita da qual denunciou esses abusos em âmbito internacional2. Eufemisticamente chamadas “Unidades Militares de Ayuda a la Producción” (UMAP) e localizadas nos canaviais isolados da província de Camagüey, esses campos aprisionavam milhares de homossexuais assumidos, no armário ou presumidos por até três anos sem acusações formais3. Detidos ao lado deles por proselitismo estavam testemunhas de Jeová, adventistas do sétimo dia, padres católicos e pregadores protestantes convencionais, assim como artistas, intelectuais e jovens camponeses que resistiam à coletivização. Assim como os homossexuais, esses prisioneiros eram rotulados como “antisociales” por supostamente promoverem crenças e práticas que subvertiam os valores oficiais da revolução4. Já em 1968, denúncias dos campos feitas em privado por figuras fundacionais da revolução, como Haydée Santamaría e Carlos Franqui, finalmente forçaram Fidel Castro a encerrá-los5. Ainda que as autoridades cubanas nunca tenham reconhecido oficialmente os campos, os legados políticos que eles originaram deixam pouca margem para dúvida quanto à sua existência ou à sua centralidade para as políticas cada vez mais autoritárias do Estado comunista cubano.

A lógica política que justificava os campos foi institucionalizada no início dos anos

1 Lilian Guerra (1971) é professora de história cubana e caribenha na Universidade da Flórida (EUA).

2 Allen Young, “The Cuban Revolution and Gay Liberation” e “On the Venceremos Brigade: A Forum”, em: Karla Jay e Allen Young (org.), Out of the Closets: Voices of Gay Liberation, 2. ed., Nova York: New York University Press, 1992, pp. 206-44; Allen Young, Gays under the Cuban Revolution, São Francisco: Grey Fox Press, 1981, pp. 19-22; Marvin Leiner, Sexual Politics in Cuba: Machismo, Homosexuality and Aids. Boulder: Westview, 1994, p. 28.

3 Ian Lumsden, Machos, Maricones and Gays: Cuba and Homosexuality, Filadélfia: Temple University Press, 1996, pp. 65-71; Allen Young, Gays under the Cuban Revolution, op. cit., pp. 43-8; Emilio Bejel, Gay Cuban Nation, Chicago: University of Chicago Press, 2001, pp. 95-104; Jorge Ronet, La Mueca de la Paloma Negra, Madri: Editorial Playor, 1986. Norberto Fuentes, um informante de longa data do G2, o serviço de inteligência doméstica cubano, e membro do círculo mais próximo de Fidel e Raúl Castro, estima que entre 30 mil e 40 mil jovens foram internados, dos quais 72 morreram de tortura e abusos, 180 cometeram suicídio e 507 foram hospitalizados com traumas psiquiátricos. Cf. N. Fuentes, Dulces guerreros Cubanos. Barcelona: Planeta Pub, 1999, pp. 300-3.

4 “Acerca de los problemas religiosos em Cuba”, El Militante Comunista, out. 1971, pp. 30-41.

5 Jorge Dominguez, Cuba: Order and Revolution, Cambridge, MA: The Belknap Press of Harvard University Press, 1978, 357, p. 32; Guillermo Cabrera Infante, Mea Cuba, Barcelona: Plaza & Janés, 1992, pp. 86-91, 96-104; Carlos Franqui, Retrato de familia con Fidel, Barcelona: Editorial Seix Barral, 1981, pp. 138-41; entrevista filmada com Carlos Franqui, 4 out. 2008, Glenn Gebhard Collection, Yale University Manuscripts and Archives; Robin D. Moore, Music and Revolution: Cultural Change in Socialist Cuba. Berkeley: University of California Press, 2006, pp. 151-2.

1970. Por quase duas décadas, o governo manteve em vigor tanto uma proibição de 1971 contra a contratação de gays para trabalhos nos quais pudessem exercer influência sobre a juventude cubana quanto uma lei de 1974 que proscrevia qualquer tipo de “ostentação pública” da identidade homossexual, a que considerava ofensiva à moralidade socialista, sob a rubrica de “peligrosidad social” [periculosidade social]6. Essas políticas não só alienaram muitos revolucionários que seriam leais em todos os outros aspectos, mas também os forçou ao exílio – e alguns deles sob estímulo explícito do Estado durante o Êxodo de Mariel7.

Mesmo assim, ainda que os testemunhos dramáticos das vítimas das Umaps (como aqueles documentados no filme Conducta impropria [Conduta imprópria], de 1983) indubitavelmente inspirassem questionamentos mais complexos quanto à vida sob a revolução durante e após esse período, a maioria das análises acadêmicas também tratou o policiamento de gênero pelo Estado de forma isolada das políticas sociais e econômicas mais amplas de época, sobretudo daquelas que afetavam a juventude cubana. Um exame mais cuidadoso do discurso e das atividades das organizações apoiadas pelo governo revela que as UMAPS e a demonização da homossexualidade como condição inerentemente contrarrevolucionária formaram apenas uma pequena parte de um esforço mais amplo de disciplina da juventude cubana e de descrédito de todo e qualquer desejo de expressar uma identidade revolucionária autônoma e autoproclamada por parte dos cidadãos de modo mais geral. De fato, as formas estatais de policiamento de gênero e de escrutínio ideológico do pensamento intelectual e da expressão artística foram aspectos integrais dos planos das autoridades cubanas para remodelar a economia nacional com base em uma força de trabalho obediente e voluntária e para legitimar politicamente ideais autoritários em meio às gerações de cidadãos que foram criadas na revolução.

Lançada em 1965, essa campanha se distinguia de uma operação anterior de 1961 contra supostos “pederastas, prostitutas e cafetões” em função de uma unidade de polícia secreta, “El Escuadrón la Escoria” [o Esquadrão Escória], de sua longevidade e aplicação a todos os setores da sociedade e de sua confiança na cumplicidade popular para que fosse bem-sucedida8. Durante o período de 1965 a 1970, a juventude cubana foi regularmente perseguida por adotar as músicas, modas e “atitudes” definidoras

6 “Sobre la sexualidad”, em: Ministerio de Educación, Memorias del Congreso Nacional de Educación y Cultura, Havana, 1971, pp. 202-3; Ministerio de Justicia, artigos 483 e 488 da Sección Cuarta; “Escándalo Público”, em: Código de Defensa Social, Havana, 1973, pp. 348, 350.

7 Ainda que Reinaldo Arenas seja, sem dúvida, o mais célebre desses exilados, documentaristas oferecem os testemunhos de muitos outros. Cf. Reinaldo Arenas, Before the Night Falls: A Memoir, trad. Dolores Koch, Nova York: Penguin, 1993 [ed. bras.: Antes que anoiteça, trad. Irene Cubric, Rio de Janeiro: BestBolso, 2009]; Conducta impropria, Nelson Almendros e Orlando Jiménez Leal, Cuba: Les Films du Losange, 1984, 105 min.; e Más allá del mar, Lisandro Pérez Rey, Cuba/Estados Unidos: Cinema Tropical, 2003, 80 min.

8 Carlos Franqui, Retrato de familia con Fidel, Barcelona: Editorial Seix Barral, 1981, pp. 280-6; Guillermo Cabrera Infante, Mea Cuba, Barcelona: Plaza & Janés, 1992, pp. 86-7.

do sex appeal de uma mulher com penteados e coisas do tipo servia para inspirar uma maior produtividade e um maior comprometimento revolucionário nos companheiros delas. Essas mulheres supostamente inspirariam os corpos masculinos a produzirem os hormônios certos e a canalizarem suas energias para o “trabajo productivo” em prol da revolução.

Adequadamente, a idealização da revolucionária da revista humorística Pa’lante era uma Barbie em estilo cubano carregada de livros, uma vassoura, brinquedos, um rifle e um facão, que preferia o campo à cama (cf. Figura 1)67. As representações da FMC para as mulheres como maternas, camaradas sexies, mas conscientemente assexuadas, que “se mantinham firmes ao lado” de um Fidel viril e (ao que parecia) igualmente comedido, refletiam a base da masculinidade revolucionária: ao negar a necessidade instintiva mais profunda de buscar o alívio sexual (ou mesmo de se reproduzir), tanto homens como mulheres entregavam seu corpo à tarefa coletiva da construção do comunismo e galvanizavam suas vontades em direção aos sacrifícios exigidos pela revolução68

A resistência contra as interpretações oficiais da experiência, do papel e das atitudes das mulheres durante a revolução assumiu várias formas. Na vida real, a fantasia de uma mulher cubana que não reclamava e sempre obedecia provavelmente ressoava pouco com a forma como a maioria das mulheres se sentia. Como Ruth Lewis descobriu em 1969-70, a “libertação” não queria dizer “independência do lar e das crianças e incorporação à força de trabalho e às organizações de massa para as mulheres nos cortiços. A ‘libertação’ significa[va] ser dispensada do trabalho externo, tomar conta da casa e ter tempo para passar com as crianças”69. De acordo com pesquisas conduzidas pela FMC nessa época, a maioria das mulheres não via o trabalho fora de casa como libertação, mas como fardo. Ainda que 59% delas citassem a falta de estabelecimentos para a educação das crianças ou obrigações familiares como motivos para não trabalhar fora, a quantia considerável de 41% daquelas que recusavam trabalho não tinham uma razão evidente para fazê-lo70.

67 Wilson, Pa’lante, 27 fev. 1969, v. 19, p. 2; e Wilson, “Criollitas”, Pa’lante, 6 mar. 1969, v. 20, p. 4.

68 Cartazes icônicos da FMC com as palavras “La mujer firme y decidida junto a Fidel” [A mulher firme e decidida junto a Fidel] mostravam um Fidel solitário, expectante e jovem. Cf. Mujeres, Havana: 8, ago. 1970, v. 10, p. 5.

69 Ruth Lewis, “Introduction”, em: idem, Four Women: Living the Revolution , Champaign: University of Illinois Press, 1977, p. 15

70 José A. Moreno, “From Traditional to Modern Values”, em: Revolutionary Change in Cuba, Carmelo MesaLago (org.), Pittsburgh: University of Pittsburgh Press, 1971, pp. 480-1; Ruth Lewis, “Introduction”, op. cit., p. 19.

O grau em que a centralização e o racionamento comunistas aumentavam o trabalho no lar era similarmente silenciado no discurso governamental. A Pa’lante oferece um documento raro disso em um desenho que sugere que as mulheres não se “dessexualizaram” conscientemente a serviço da revolução. Em vez disso, as condições econômicas e políticas do momento tornaram impossível que elas encontrassem tempo para tarefas não essenciais, incluindo o jogo erótico. Ao ilustrar a rotina hora a hora de uma personagem chamada “Cusa”, a Pa’lante argumentava que a dona de casa cubana típica havia passado o primeiro Dia Internacional das

FIGURA 1. LUIS FELIPE WILSON VALERA, “CRIOLLITAS”, PA’LANTE 20, 6 MAR. 1969, P. 4.

Mulheres da mesma forma que ela: à espera da volta da família do trabalho e da escola, correndo de uma fila de racionamento para outra e inventando modos de cozinhar, lavar pratos e roupas enquanto o Estado cortava o gás e a água da casa bem na hora em que eram mais necessários. Em acréscimo a essas tarefas “revolucionárias” pós-1959, Cusa também tinha que preparar o jantar, aquecer a água para o banho do marido, cuidar do bebê e ficar bonita71. Contudo, ao fim de um longo dia, Cusa rejeitava o convite do marido para fazer amor: em vez disso, ela colocava o casaco e corria para fazer sua ronda no CDR local! Caso quisessem saber como Cusa vivia em qualquer outro dia do ano, declaravam os editores, bastaria aos leitores voltar para o começo do desenho e começar tudo de novo72. Assim como a denúncia crua que Cusa proporcionava quanto à vida de mulheres reais, o uso frequente de desenhos misóginos pela Pa’lante pode ser lido como um protesto, e não uma confirmação da promoção estatal da austeridade sexual tanto para homens como para mulheres. Muitos dos desenhos eram propensos a múltiplas leituras. Um deles, por exemplo, mostrava cortadores de cana voluntários imaginando um carregamento de cana-de-açúcar colhida como o corpo de uma mulher, enquanto outro mostrava figuras masculinas sem nome brincando e torcendo os mamilos de mulheres peitudas73. Além disso, ainda que o Estado exaltasse o casamento como um dos tijolos da ordem moral da revolução, mulheres e homens tendiam mais a ver o divórcio como uma rota para a liberdade. Ainda que nunca discutidas publicamente, as estatísticas do governo revelam que o índice de divórcios subiu quase duas vezes mais que o índice de casamentos entre 1958 e 196874. Para o período específico de 1965-70, o número de divórcios quase dobrou, de 8.937 para 15.35775. Em acréscimo a isso, o acesso das mulheres à contracepção e o isolamento delas em ambientes homossociais no campo claramente garantiram taxas de natalidade menores. Após manter uma taxa anual de aumento populacional de mais de 2-2,5% do início dos anos 1950 até meados dos anos 1960, esse número encolheu no final da década para 1,7%76. Assim, mesmo que o Estado negasse sua autonomia de vários modos, as mulheres se tornaram mais autônomas em relação aos homens em sua vida pessoal. Em termos estruturais, o trabalho que o Estado esperava das mulheres aumentou após

71 “Casos y cosas de Cusa”, Pa’lante, 6 mar. 1969, v. 20, da capa à p. 7.

72 Ibid., p. 7.

73 “Una tonga de gusto”, Pa’lante, 10 abr. 1969, v. 25, capa; desenho de página inteira sem título, Pa’lante, 4 jun. 1970, v. 33, p. 2; Aristide, “El Machismo”, Pa’lante, 30 jan. 1969, v. 15, p. 2; e desenhos sem título em Pa’lante, 6 mar. 1969, v. 20, p. 3.

74 Com base em números de Junta Central de Planificación, p. 5.

75 Ibid.

76 Ibid., p. 3.

1959, apesar da ausência de um aumento na representação política feminina. Dos cem assentos no Comitê Central do Partido Comunista, apenas seis eram ocupados por mulheres77. O tokenismo78 no Comitê Nacional da Juventude Comunista era ainda mais pronunciado: dos 27 membros, apenas um era mulher e apenas um era não branco – isto é, um homem negro79.

Em termos discursivos, as imagens femininas triunfalistas negavam as próprias transformações trazidas pela revolução que pretendiam ilustrar. Assim como as mulheres simbólicas do Estado, a imagem de Fidel como um “garanhão” independente que colocava a vida familiar e o sexo de lado em prol da revolução realçava o paradoxo subjacente à abordagem estatal para a definição da liberdade coletiva como uma função do sacrifício individual. Ainda que a abnegação do cidadão devesse vir à tona de modo voluntário, a negação da liberdade pessoal era mais frequentemente resultado das circunstâncias criadas pelo Estado ou pela força, e não por escolha. Sara Gómez, a primeira mulher diretora de cinema de Cuba, atestou isso quando inadvertidamente ecoou a posição da Pa’lante de que as mulheres não escolhiam praticar a austeridade sexual mais do que escolhiam trabalhar em três empregos – em casa, “na rua” e nas tarefas políticas estabelecidas pelo Estado. Gómez chegou ao ponto de rotular a recusa das mulheres frente a seus próprios “universos eróticos” como uma “doença coletiva da qual sequer temos consciência”80. Assim, Gómez corajosamente inverteu a definição desenvolvida pelo Estado para a libertação feminina e rejeitou a teoria de que a doença que mais precisava ser combatida pelas mulheres era aquela contra a qual supostamente eram imunes: a homossexualidade e a infecção secundária que comumente a acompanhava, a intelectualidade. Apesar disso, em suas “batalhas” contra ambas as doenças, o patriarcado revolucionário de Fidel não só alistou mulheres, mas objetificou seus corpos de modos singularmente interesseiros.

77 Ruth Lewis "Introduction" em: Four Women: Living the Revolution, Champaign: University of Illinois Press, 1977, p. XX

78 Derivado da palavra inglesa “token” (símbolo), o termo “tokenismo” designa a prática de inclusão simbólica de pessoas de grupos minoritários em posições de visibilidade com o objetivo de transmitir uma imagem de inclusão, diversidade e representatividade em organizações ou manifestações culturais, mas sem a adoção de medidas efetivamente voltadas à promoção de mudanças estruturais. [N.T.]

79 Comité Nacional de la UJC, “Buró Ejecutivo”, Juventud Rebelde, Havana: 10 jan. 1967, p. 7.

80 Sara Gómez Yera, resposta editorial sem título a Margaret Randall, Alma Mater, dez. 1970, v. 118, sem paginação; e Ariel Barreras, “Objeto u sujeto sexual”, na mesma edição.

1. ANVERSO DO SANTINHO. ARQUIVO

454/1959. CORTESIA ARXIU TERRITORIAL DE LA CIUTAT DE LA JUSTÍCIA DE BARCELONA.

FIGURA 2. REVERSO DO SANTINHO. ARQUIVO

454/1959. CORTESIA ARXIU TERRITORIAL DE LA CIUTAT DE LA JUSTÍCIA DE BARCELONA.

Dois anos antes, Pelayo havia expressado em uma carta a Vicente quão preciosa sua intimidade era para ele: “[N]ão posso ficar um minuto longe de você em minha imaginação […] você é meu único amigo, ou, melhor dizendo, é mais que meus irmãos, pois conto contigo quando tenho alguma preocupação, me descamo”31. Com essa linguagem ambivalente, Pelayo imagina um mundo em que sua “amizade” com Vicente poderia ser totalmente reconhecida como uma forma de parentesco. Do mesmo modo, as fotografias em seu arquivo preservam uma intimidade agradável e um parentesco não normativo entre Pelayo, Vicente e a família deste último. Uma fotografia contém uma dedicatória de Pelayo em inglês. Ele inicialmente escreveu: “to my good friend [Vicente], for always you [Pelayo]” (Para meu bom amigo Vicente, para sempre você [Pelayo]). Ele provavelmente quis dizer “always yours” [sempre seu], mas, ciente de que essa forma romântica revelava demais, riscou o próprio nome e escreveu “friends” [amigos] em cima dele, de modo a escrever “for always friends” [para sempre amigos]32. Nesse contexto, a amizade tanto sugeria quanto explicitava, o que ilustra as estratégias do silêncio e do duplo sentido que perpassavam esses relacionamentos.

31 Ibid.

32 Ibid.

FIGURA

No fim, o juiz decidiu que tanto Vicente quanto Pelayo eram perigos para a sociedade e sentenciou cada um deles às penas-padrão de aprisionamento e depois exílio. A discriminação de classe no âmago do regime Franco ficou evidente quando essa segunda medida foi suspensa no caso de Pelayo, para que pudesse voltar a cuidar de seus negócios, enquanto Vicente foi forçado a deixar a cidade e a trabalhar no campo33. A história dos dois demonstra que, mesmo que ideais reacionários permeassem a vida diária sob o regime de Franco, alguns homens conseguiam inscrever suas intimidades no interior de suas vidas familiar e religiosa compartilhadas.

Outro arquivo judicial iniciado em Barcelona em 1968 também revela o papel da amizade entre pessoas do mesmo sexo para lidar com as expectativas familiares e confrontá-las, assim como as formas pelas quais as intervenções médicas e estatais restringiam essas amizades. Um estudante foi preso e acusado de homossexualidade supostamente após ter abordado sexualmente um estranho que havia permitido que ele dormisse em sua casa34. O estudante admitiu que tivera um relacionamento com outro jovem até que este último fosse internado pela família em um manicômio. Segundo a ficha clínica, o rapaz havia sido diagnosticado com transtorno de personalidade psicótica e tratado com eletrochoque e medicações antipsicóticas35. Em uma das fotografias tiradas antes de ser internado no manicômio e incluídas no arquivo clínico, o paciente aparece vestido apenas com roupas de baixo e deitado em uma cama enquanto acende um cigarro, casualmente exibindo seu corpo para quem quer que tenha tirado a foto (talvez o estudante preso?). Contudo, a internação psiquiátrica desse homem, assim como a prisão de seu ex-amante, significava que eles possivelmente foram forçados a seguir caminhos diferentes. A ficha criminal do estudante observa que ele tinha uma cópia do livro As amizades particulares, de Roger Peyrefitte, quando foi preso.

Na próxima seção, explorarei como os romances dos anos 1940 e 1950 (como As amizades particulares) consolaram homens gays criados como católicos, como no caso do paciente hospitalizado. Eles não os incentivavam a superar a vergonha por meio da visibilidade (como o movimento de libertação viria a fazer mais tarde)36.

33 Arxiu Central dels Jutjats de la Ciutat de la Justícia, Juzgado de Vagos y Maleantes, arquivos 447 e 454/1.959, Barcelona, Espanha.

34 De acordo com a história que o estudante contou às autoridades, ao se sentir cansado, percebeu que a porta de uma casa estava aberta e decidiu passar a noite ali. O proprietário declarou que, quando chegou em casa e viu o estudante dormindo, decidiu deixá-lo ficar, porque o rapaz não parecia “sospechoso” [suspeito]. Mas, então, no meio da noite, o estudante tentou tocar as genitálias de seu anfitrião. Este último o chamou de maricón e o delatou às autoridades, ainda que o estudante tenha negado as acusações e tenha explicado que havia simplesmente tentado acordar o anfitrião para pedir uma aspirina. Arxiu Central dels Jutjats de la Ciutat de la Justícia, Juzgado de Vagos y Maleantes, arquivo 906/1968, Barcelona, Espanha.

35 Arxiu Municipal del Districte de les Corts, Hospital Frenopático: arquivo clínico 7132, Barcelona, Espanha.

36 Sobre a visão negativa dos ativistas da libertação sobre a vergonha, cf. Regina Kunzel, “Queer History, Mad History, and the Politics of Health”, American Quarterly, Baltimore: 2017, v. 69, n. 2, pp. 315-9.

SOBRE OS ORGANIZADORES

RENAN QUINALHA é advogado e professor de direito da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), onde coordena oNúcleo TransUnifesp. Autor dos livros Contra a moral e os bons costumes: a ditatura e a repressão à comunidade LGBT (Companhia das Letras, 2021), Movimento LGBTI+: uma breve história do século 19 aos nossos dias (Autêntica, 2022), vencedor do Prêmio Cidadania e Diversidade da Parada LGBT de São Paulo e finalista do Prêmio Jabuti em 2023, e Direitos LGBTI+ no Brasil (Edições Sesc, 2024). Colunista da revista Quatro Cinco Um e presidente do Grupo de Trabalho de Memória e Verdade LGBTQIA+ do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, além de Conselheiro da Comissão de Anistia.

JAMES N. GREEN é professor emérito de história e cultura brasileira na Brown University e autor ou coorganizador de 12 monografias e coleções editadas, com várias obras publicadas no Brasil, incluindo Além do Carnaval: a homossexualidade masculina no Brasil do século XX (Editora da Unesp, 2022); Revolucionário e gay: a vida extraordinária de Herbert Daniel (Civilização Brasileira, 2018) e Escritos de um viado vermelho: política, sexualidade e solidariedade (Editora da Unesp, 2024).

AUGUSTA DA SILVEIRA DE OLIVEIRA é doutoranda em história na Brown University e mestra e licenciada em história pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atualmente, pesquisa a história social da vida lésbica no Brasil ao longo do século 20, examinando os discursos e as experiências que moldaram o surgimento de uma identidade lésbica politizada. Publicou artigos em coletâneas como Novas fronteiras das histórias LGBTI+ no Brasil (Elefante, 2023) e em periódicos como Sexualidad, Salud y Sociedad –Revista Latinoamericana. É uma das cofundadoras do Arquivo Lésbico Brasileiro, onde é diretora financeira.

Fonte Karmina e Vinila Compressed

Papel Capa em papel Colorplus Verona 240 g/m2

Miolo em Pólen Natural 80 g/m2

Impressão Maistype

Data Fevereiro 2026

Desejos em revolução: homossexualidades e mudanças políticas investiga as complexas relações entre política, poder e orientação sexual ao longo do século 20, revelando como ela foi ora reprimida, ora instrumentalizada por regimes autoritários e até por movimentos revolucionários. Da descriminalização inicial na União Soviética ao violento retrocesso stalinista; dos paradoxos da Revolução Cultural chinesa às perseguições em Cuba; do nazismo e do fascismo europeu às ditaduras latino-americanas, a homofobia emerge como ferramenta política recorrente. Esta coletânea de textos clássicos destaca experiências decisivas e faz uma reflexão histórica e crítica sobre o ativismo LGBTI+ e as esquerdas, dialogando com a conjuntura mundial recente, marcada pela ascensão da extrema direita. Ao preservar a memória desses embates, a obra ilumina os conflitos, os preconceitos e as conquistas que moldaram a luta por direitos, contribuindo para pensar horizontes mais democráticos e igualitários para pessoas LGBTI+.

ISBN 978-85-9493-368-3

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