s e r vi ç o s oc i al do c o mé r c i o Administração Regional no Estado de São Paulo Presidente do Conselho Regional Abram Szajman Diretor Regional Danilo Santos de Miranda Conselho editorial Ivan Giannini Joel Naimayer Padula Luiz Deoclécio Massaro Galina Sérgio José Battistelli
Gerente Marcos Lepiscopo Adjunto Évelim Lúcia Moraes Coordenação Editorial Clívia Ramiro Produção Editorial Ana Cristina F. de Pinho, João Cotrim e Juliana Gardim Colaboradores desta Edição Marta Colabone e Cristianne Lameirinha
cidadelas_21set2012.indd 2
créditos institucionais
25/09/12 18:26
Cidadelas da cultura no lazer Uma reflexão em antropologia da imagem sobre o Sesc São Paulo
Yara Schreiber Dines
cidadelas_21set2012.indd 3
página de rosto
25/09/12 18:26
Apresentação
O
dicionário Houaiss define a palavra cidadela como uma “fortaleza situada em lugar estratégico, que domina e protege uma cidade”. Fruto da tese de doutorado, defendida por Yara Schreiber Dines, na puc-sp, em 2007, “Cidadelas da cultura no lazer” propõe um estudo de antropologia da imagem, constituído a partir de parte do acervo fotográfico do Sesc São Paulo. Ao refletir sobre o papel do Sesc como instituição promotora do lazer, em face da dinâmica urbana experimentada pela cidade de São Paulo a partir de meados da década de 1940, a autora firma uma narrativa imagética, cujo caráter extrapola as fronteiras institucionais para explorar expectativas e transformações vividas pelas pessoas no âmbito da cultura e da sociabilidade. É comum observar o vínculo entre antropologia e imagem, visto que, para o antropólogo, o registro da realidade sobre a qual ele se debruça é ferramenta recorrente de trabalho. A fotografia se configura como um instrumento privilegiado de pesquisa, não só para a produção e uso de fontes, mas, sobretudo, pela possibilidade de interpretar imagens, captadas ao longo de uma atividade ou evento social, que permitam a montagem de narrativas visuais. A fotografia fixa o instante e delimita a ação do homem e do tempo sobre determinado objeto. Entretanto, não se pode esquecer que ela é uma construção, estabelecida, inevitavelmente, a partir de um ponto de vista específico, que ganha vida segundo os conceitos e recortes que se lhe aplicam.
a p r e se n ta ç ã o 11
cidadelas_21set2012.indd 11
abertura de capítulo
25/09/12 18:26
Tanto para construir uma representação como para definir narrativas, a fotografia se serve da palavra. Neste estudo, trata-se de ler as imagens e buscar compreendê-las por meio da colaboração de pessoas que vislumbraram e ajudaram a edificar o Sesc que encontramos hoje e do qual tantos podem desfrutar. Dessa forma, lembranças individuais, não raro envolvidas com as demandas de produção, circulação e conservação dessas imagens, veem-se circundadas pelo peso – não necessariamente negativo – da construção coletiva da memória institucional. Mas, enquanto cidadela, qual o significado da fortaleza, constituída e representada pelo Sesc São Paulo, diante da dinâmica da cidade? Em oposição ao conceito de não lugar, concebido pelo antropólogo francês Marc Augé em Não lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade e descrito como local de passagem, marcadamente impessoal, onde não se consegue dar forma alguma à identidade, o termo cidadela, segundo Yara Schreiber Dines, refere-se ao espaço de convivialidade e encontro, proporcionado pelo Sesc São Paulo aos seus usuários. Com a intenção de decifrar a equação espaço-tempo, o Sesc implanta em São Paulo centros de lazer sociocultural e educativo, cuja variada oferta de atividades busca ocupar o tempo livre do trabalhador, o tempo avesso ao trabalho e às obrigações, um tempo que se deseja voltado ao ócio e ao descanso, apropriado ao cultivo de si, ao refinamento do corpo, do olhar e de experiências trocadas entre indivíduos e grupos. Ao observar o Sesc São Paulo sob uma perspectiva histórica, preservada em documentos de arquivo, o estudo destaca as transformações conceituais pelas quais a instituição passou até instituir a promoção da cultura, em sentido antropológico, como o principal eixo de sua ação. Paralelamente, a comparação feita entre o Sesc e órgãos historicamente relevantes para o fomento da cultura em São Paulo, como a Secretaria Municipal de Cultura, na gestão de Mário de Andrade, nos anos 1930; a criação do Parque do Ibirapuera e da Bienal de Arte de São Paulo, na década de 1950; e a revitalização da Pinacoteca do Estado, nos anos 1990, permite refletir sobre a política cultural existente na Capital ao longo do século passado e questionar se, de fato, é possível afirmar que conquistamos uma condição de democratização da cultura na cidade.
12 Dani lo
cidadelas_21set2012.indd 12
Santos de M i r anda
25/09/12 18:26
Ao apreciar o caminho visual e analítico trilhado por Yara S chreiber Dines em Cidadelas da cultura no lazer, estamos certos de que não basta ocupar o tempo livre. Para bem fazê-lo, é preciso difundir e fomentar valores, romper estranhamentos, instaurar novos repertórios e incutir novas formas de viver e conviver em sociedade. Ressalte-se, ainda, que este livro inaugura a Coleção Acadêmica, que visa publicar pesquisas que tenham o Sesc São Paulo, seus programas ou ações como objeto de estudo, tendo como objetivo ampliar a compreensão e propiciar a reflexão sobre as práticas institucionais, seu histórico e desenvolvimento.
Danilo Santos de Miranda Diretor Regional do Sesc São Paulo
a p r e s e n ta ç ã o 13
cidadelas_21set2012.indd 13
25/09/12 18:26
cidadelas_21set2012.indd 14
25/09/12 18:26
cidadelas_21set2012.indd 6
25/09/12 18:26
Prólogo
A memória das coisas intelectuais não tem lugar sem imagem. Aristóteles (384-322 a.C.), Sobre a memória e a reminiscência efletindo sobre uma série de experiências pessoais de participação em práticas sociais e vivências culturais, fui constatando que havia alguns anos elas tinham como referência uma frequência periódica a diferentes espaços do Sesc São Paulo, a partir de atividades e eventos que capturavam minha atenção e despertavam meu interesse por adentrar os portões desses equipamentos de lazer e cultura disseminados pela cidade. Motivada por uma paixão antiga por práticas associadas ao corpo e, naturalmente, interessada pelo universo da cultura, dos anos 1980 para cá tenho participado nesses espaços de atividades como g inástica e dança afro, assistido a diferentes modalidades de performances, espetáculos de dança do Brasil e do exterior, shows de mpb e de música de todo o mundo, frequentado espetáculos de teatro infantil, exposições de artes plásticas e tomado parte em seminários temáticos de grande interesse intelectual, além de realizar pesquisa de observação participante com idosos. Apresentações musicais de Arrigo Barnabé, Ná Ozzeti, Naná Vasconcelos, Itamar Assumpção, dentre tantos n omes
p r ó l o g o 15
cidadelas_21set2012.indd 15
abertura de capítulo
25/09/12 18:26
significativos que frequentam os espaços do Sesc, marcaram a minha percepção da música instrumental e popular brasileira e minha formação musical. A encenação de espetáculos de dança de coreógrafos e bailarinos como Magdhavi Mugdal, Kazuo Ohno ou Ivaldo Bertazzo, trazendo influências diferenciadas de culturas orientais, ampliaram minha percepção e meus sentidos para linguagens desconhecidas. Como frequento com certa constância os equipamentos do Sesc Pompeia, Pinheiros, Vila Mariana e mesmo Belenzinho, tenho bastante familiaridade com eles. Ao entrar nessas unidades sempre registro a impressão do cuidado na preservação da edificação e na conservação dos espaços. Além disso, a circulação e o burburinho do público captam meus sentidos por sua diversidade, decorrente da abrangência das faixas etárias e da multiplicidade da programação cultural e esportiva destinada a esse público, a qual inclui desde espetáculos de vanguarda a apresentações de cultura popular, desde práticas esportivas tradicionais às mais sofisticadas. Vivenciei e continuo vivenciando experiências corporais e culturais as mais variadas nessa rede de equipamentos que oferece lazer e cultura aos seus usuários, incrustada no tecido da metrópole paulistana. Foram essas experiências que levantaram para mim algumas questões. Como se elaboram estas vivências e práticas sociais para os usuários desses equipamentos em diferentes partes desta cidade, com formações e olhares distintos? Como o Sesc São Paulo chegou à sua configuração atual, concentrando em um mesmo equipamento práticas esportivas e culturais tão diversificadas? Eram indagações que se configuravam como problemas antropológicos e mereciam uma investigação. Por outro lado, casualmente, em uma viagem para as montanhas de São José do Barreiro, alguns anos atrás, tomei conhecimento da existência de um livro de caráter histórico e institucional sobre os cinquenta anos da instituição, Sesc São Paulo − Uma ideia original, de Miguel de Almeida. O livro apresenta em seu design fotos antigas e atuais. Em preto e branco, as imagens antigas mostram situações em que se registra como atividade da instituição no seu período inicial o atendimento à família e à criança, em meados dos anos 1940. Também mostra fotos de atividades de recreação e lazer nas décadas
16 ci dadela s
cidadelas_21set2012.indd 16
da c ultur a no laze r
25/09/12 18:26
de 1950 e 1960, além de contar a trajetória da instituição, com seus principais marcos históricos e culturais, até meados dos anos 1990. Foi a partir dessa publicação que descobri, em 2002, naGerência de Estudos e Desenvolvimento do Sesc, um acervo fotográfico não organizado, além de documentos e publicações antigas que poderiam ser pesquisados. Com base nesse conjunto de vivências e experiências sensíveis e no contato com as fotografias localizadas no acervo do Sesc São Paulo, passei a estudar e mapear aspectos do campo do lazer e da cultura na metrópole paulistana, tendo como eixo o olhar de uma instituição que é um marco nesse âmbito, e como propósito a busca do entendimento das formas expressivas que se condensam nessas imagens. Este livro é o fruto desse trabalho.
p r ó l o g o 17
cidadelas_21set2012.indd 17
25/09/12 18:26
cidadelas_21set2012.indd 18
25/09/12 18:26
Introdução
É
em retrospectiva que se percebe a importância insuspeitada que a problemática do lazer veio a adquirir para as sociedades contemporâneas. Já vai longe o tempo em que, no final dos anos 1960 e início dos anos 1970, o lazer começou a encontrar algum espaço em um meio acadêmico relutante em reconhecê-lo como tema relevante de pesquisa. Na atualidade, o lazer vem se tornando tema de destaque em várias áreas de estudo, exigindo um repensar constante de suas implicações ante as transformações drásticas que hoje confrontam o mundo do trabalho na realidade contemporânea (Marcellino, 1999). A questão do lazer tornou-se ícone da sociedade pós-industrial, refletindo mudanças profundas na estrutura produtiva, no perfil do emprego, na ordenação e nos ritmos do trabalho, trazendo à tona elementos que, com seus inesperados desdobramentos sociais, hoje desenham para a investigação social um quadro inteiramente novo, como salientou o sociólogo italiano Domenico De Masi no 5O Congresso Mundial de Lazer, realizado em São Paulo, em 1998 (De Masi, 1997, 2000, 2001). Segundo Magnani (1996: 31), compreendemos o conceito de lazer “dentro do universo do trabalho e em oposição a ele: a dicotomia é, na verdade, entre tempo de trabalho e tempo livre ou liberado, e por lazer entende-se geralmente o conjunto de ocupações que o preenchem”. A questão, como aponta o autor, é que, quando saímos da lógica do capital e nos voltamos para o seu polo oposto, para a lógica do “outro”
i n t r o d u ç ã o 19
cidadelas_21set2012.indd 19
25/09/12 18:26
que supomos usufruir do lazer fora de seu tempo de trabalho, encontramos não um “outro” – o trabalhador abstrato – mas vários “outros”, de acordo com a camada social, a faixa etária e o gênero a que pertencem, e mesmo o estilo de vida que os caracteriza. Assim se descobre uma diversidade de usos do tempo livre e do significado do lazer. Quando se conhecem melhor as regras que ordenam a utilização do tempo livre por meio de diversas formas de lazer, percebe-se que sua dinâmica ultrapassa amplamente a necessidade de descanso do tempo de trabalho, possibilitando meios de aprofundamento e reforço de laços de identificação e lealdade “que garantem a rede básica de sociabilidade” (Magnani, 1996: 31), como sistema de referências que, para indivíduos ou grupos sociais, balizam sua experiência de vida. Este é um fator que, como destaca ainda Magnani, adquire especial significação para uma população cuja inserção social no tecido da cidade limita seu acesso aos bens que a vida urbana oferece, não lhes permitindo usufruir plenamente do seu direito à cidade, ou seja, seus direitos de cidadania. Também Marcellino mostra a possibilidade de “lançarmos múltiplos olhares sobre o lazer na empresa, tendo por base uma concepção que o considere para além da recuperação do trabalho” (1999: 13). Ele amplia o entendimento do conceito de lazer relacionando-o à cultura ao considerar o tempo livre ou liberado como “cultura vivenciada (praticada, fruída ou conhecida) no tempo disponível das obrigações profissionais, escolares, familiares, sociais, combinando os aspectos tempo e atitude” (1999: 15). Desse modo, o autor associa o tempo livre à esfera da cultura no seu sentido mais amplo, o que abrange diversos conteúdos. Para Marcellino, esse tempo apresenta um caráter privilegiado por permitir que nele se vivenciem e se experimentem valores diferenciados do cotidiano que levem ao desenvolvimento pessoal e social. O estudo do lazer, por abarcar um maior domínio de opções e escolhas por parte dos indivíduos, também permite que se entendam atitudes, valores e padrões de comportamento encontrados em diferentes meios sociais. Nesse sentido, a visão de Arantes (1999: 129, 130), de que as atividades do tempo livre podem ser pensadas em sua relação com práticas de consumo e como integrantes de uma mediação dinâmica de vínculos polissêmicos entre pessoas em posições estruturais claras, permite que a organização do tempo livre possa ser interpretada como
20 ci dadela s
cidadelas_21set2012.indd 20
da c ultur a no laze r
25/09/12 18:26
reprodutora ou transformadora do elemento moral das relações sociais, propiciando uma reflexão crítica sobre o significado das atividades que preenchem o tempo de lazer em diferentes circuitos sociais. É desta perspectiva que o lazer se torna um tema relevante de pesquisa antropológica e um foco privilegiado para se compreender a cidade e a dinâmica cultural urbana. Recortar como objeto de estudo a problemática do lazer promovido por uma instituição associada ao mundo do trabalho – o Sesc São Paulo – é o objetivo deste livro. Analisar o processo de mudança e de ressignificação das noções de lazer e de cultura por meio das práticas sociais promovidas pelo Sesc em São Paulo, contextualizando-as dentro do universo do urbano e suas transformações, constitui um recorte significativo de análise, tanto em virtude das mudanças pelas quais passa a atuação da instituição ao longo de seus mais de sessenta anos de existência, como pela especificidade dos locais em que estão situados os seus equipamentos na cidade, e pela ampla abrangência de sua programação para públicos distintos. A pesquisa permitiu apontar os traços da diversidade cultural existente no meio urbano, e a proposta de análise das práticas de lazer e de cultura proporcionadas pelo Sesc propiciou a apreensão de determinados padrões sociais e culturais que orientam sua atuação em relação aos frequentadores de seus equipamentos. Assim, pode-se questionar: qual o sentido das práticas propostas pelo Sesc? Será que elas possuem somente caráter de serviço social prestado aos trabalhadores, ou o resultado das atividades organizadas pela instituição também adquire outros significados específicos na dinâmica cultural da cidade? A partir da relevância desse universo assim definido e adotando um enfoque antropológico, minha proposição de pesquisa partiu da hipótese de que uma análise cuidadosa da documentação da trajetória do Sesc São Paulo, com a inserção da problemática da instituição no seu âmbito específico, contextualizada no âmbito maior da sociedade, possibilitaria o conhecimento das mudanças de significação de suas atividades, e dos novos sentidos adquiridos pelas noções de lazer e cultura introduzidas pelas atividades da entidade. Essas ressemantizações conceituais e seus resultados nas práticas implementadas pela instituição foram analisados no intuito de se responder à questão: qual a lógica nas mudanças dos significados de lazer e cultura e os seus desdobramentos
i n t r o d u ç ã o 21
cidadelas_21set2012.indd 21
25/09/12 18:26
para a instituição e, num âmbito maior, para a metrópole paulistana onde ela se insere? Outro aspecto de relevância considerado são os diferentes modos como se configuram os espaços de lazer do Sesc, que passa por mudanças físicas importantes, relativas a maneiras específicas de se compreender a relação prática-espaço-usuário dos equipamentos, como veículos de expressão e de comunicação de sentido das atividades ali realizadas. Numa outra dimensão, é importante salientar, em relação ao lazer e suas práticas sociais, o componente emocional como ponto de cristalização de outras experiências. Em outras palavras, essas atividades expõem e destacam aspectos simbólicos fundantes do modo de organização social da experiência de vida na metrópole paulistana. Foi por esse conjunto de razões que, para efetuar a análise do tempo de lazer e os seus sentidos no Sesc São Paulo, escolhi como recorte específico o trabalho com imagens. O exercício de observação e leitura de conjuntos de imagens atentou para os diferentes usos do espaço e do corpo ali registrados, para a importância de gestos, vestimentas e formas de realização de práticas sociais que ali são fixadas, pois, estando permeadas de múltiplos significados, constituem expressões de diferentes códigos de produção de sentido. A atuação da entidade enquadra-se na formulação de um tipo de entretenimento, visto como lazer organizado ou institucional e marcado por parâmetros de uma nova realidade social, que vai sendo delinea da, desenvolvida e estruturada ao longo da trajetória da instituição. Concretizada através de uma diversidade de práticas sociais, esportivas e culturais, diferenciadas de acordo com o gênero e a faixa etária, essa ação torna-se palpável na documentação iconográfica produzida pelo Sesc São Paulo, caracterizando uma compreensão muito específica do lazer propiciado aos seus associados e usuários. A instituição registra fotograficamente sua atuação, criando e preservando as imagens e constituindo um acervo significativo com o objetivo específico de manutenção de sua memória, o que permite resgatar sua ação associada à área do lazer e do entretenimento na metrópole dirigida para grupos sociais específicos e refletir sobre ela. A iconografia disponível no Sesc São Paulo apresenta um vasto registro das atividades da instituição, permitindo a abordagem das
22 ci dadela s
cidadelas_21set2012.indd 22
da c ultur a no laze r
25/09/12 18:26
questões anteriormente apontadas por meio do estudo desse documento visual. Acompanhado de depoimentos de funcionários e ex-funcionários da instituição, o trabalho com as imagens, conjugado com a análise desses outros documentos de história oral, possibilita uma interpretação que desvenda os conteúdos subjacentes ao valor documental e imagético do acervo da instituição. Quando posto em confronto com outros acervos de imagens que registram atividades afins, é possível explicitar as relações que essas imagens nos transmitem diretamente do passado ao presente, transitando entre o lazer, a cultura e a metrópole. Contudo, essas não são conclusões a que se possa chegar de modo imediato. O contato mais direto com a iconografia suscita algumas indagações. O que as imagens do acervo do Sesc São Paulo efetivamente expõem da linha de atuação da instituição? O que se pode inferir a partir do suporte fotográfico aliado aos depoimentos dos funcionários da instituição sobre suas ações incentivadoras de determinadas formas de uso do tempo livre? Como se pode utilizar o acervo iconográfico do Sesc São Paulo para compreender o significado das mudanças na concepção dessa instituição a respeito do lazer e da cultura e os seus desdobramentos nas práticas sociais que oferece aos frequentadores? A fotografia constrói representações, gerando e condensando também significados que influenciam a ação humana e seu entendimento do universo vivido (Leite, 1993). Assim, as representações são também reordenadoras de sentido, realocando a vivência e levando a novas experiências e criações. Ou seja, as representações recriam a experiência. Assim, a fotografia, formando um campo imagético que expressa valores, modos de comportamento e ambiguidades da realidade social, atrai para si as atenções das ciências sociais, constituindo uma área fértil de estudo. Para possibilitar o contato com o universo “familiar” das imagens do Sesc São Paulo, partimos de uma compreensão ao estilo de Geertz (1989), de que a iconografia pode ser considerada uma narrativa visual que se expõe como uma etnografia silenciosa e muda, mas passível de ser estudada e interpretada, possibilitando a elaboração do saber antropológico. Também é importante considerar dessa perspectiva a contribuição de Michael Taussig (1993), quando se refere à viabilidade de se
i n t r o d u ç ã o 23
cidadelas_21set2012.indd 23
25/09/12 18:26
elaborar uma análise interpretativa numa situação em que o estudioso se coloque através da relação com o seu objeto. Na análise do universo das imagens do Sesc São Paulo e de outras instituições com produção afim, tomamos a iconografia como uma narrativa visual que tem um significado cultural a ser estudado e interpretado dentro e a partir da sociedade que a produziu. Em relação à produção das imagens, é importante destacar que são as relações firmadas no interior de um conjunto que atribuem significado aos elementos que dele fazem parte. Em outras palavras, enfatiza-se a importância do modo de olhar as práticas registradas em dado universo imagético para se desvendar seu significado cultural, e também a relevância do contexto no estudo dos modos de expressão e manifestação da cultura, considerando que o contexto exerce um papel fundamental para compreender como as imagens são construídas e elaboradas. Além disso, podemos entender que a cultura e a arte materializam um modo de vida e expressam uma maneira singular de pensar em relação ao universo dos objetos, tornando-o palpável ou concreto. Assim, neste livro, a análise da iconografia do Sesc São Paulo e de outros acervos afins é sustentada pela contextualização de sua produção para fundamentar sua compreensão. Partindo de um exercício de leitura de imagem, concentrei-me nessa produção, procurando apreender cognitivamente o que esses acervos transmitem por meio de sua linguagem. Apesar de existirem limites neste exercício cognitivo, ele se inicia com a percepção, buscando efetivar um diálogo entre pesquisador e produção iconográfica. O estudo do suporte fotográfico pressupõe um primeiro contato com as imagens através das quais somos levados, por emoções, impressões e associações, a estabelecer relações. Isso significa que partimos das imagens, deixando-as falar. Portanto, essas informações podem gerar hipóteses que são verificadas ou não no decorrer do processo de análise. O levantamento iconográfico realizado contém em si as imagens localizadas na Gerência de Estudos e Desenvolvimento do Sesc São Paulo, em documentos e obras publicadas da instituição, subsidiado pelo levantamento complementar em alguns arquivos públicos, de órgãos de imprensa e de entidades culturais afins. As publicações do Sesc foram examinadas para referenciar o sentido do conjunto de imagens
24 ci dadela s
cidadelas_21set2012.indd 24
da c ultur a no laze r
25/09/12 18:26
selecionadas, buscando-se entender seu perfil, o modo de apresentação, a linguagem utilizada e o público a que foram destinadas. Complementando e integrando o trabalho com as imagens, foram gravados depoimentos de pessoas significativas que trabalharam e outras que ainda atuam nessa instituição, conhecendo-a profundamente. Funcionários do setor administrativo em cargos de direção e planejamento, assim como técnicos que organizam a implantação das diversas práticas sociais e professores nela envolvidos tiveram seus depoimentos registrados, pois acompanham o fazer da instituição, permitindo o seu conhecimento e crítica. Esses testemunhos constituem material fundamental para o trabalho de análise iconográfica efetuado, representando uma ancoragem e uma memória viva a ser interpretada em conjunto com as imagens fotográficas. Pois o estudo e a análise de imagens não prescindem da palavra, como destacam W. J. T. Mitchell (1986) e Miriam Moreira Leite (1993: 16). Margaret Mead, no seu trabalho fotográfico Balinese character: a photographic analysis, mostra que as imagens necessitam ser descritas por palavras para serem integradas à pesquisa científica. Destaca que “não é possível utilizar apenas o texto não verbal, cuja ambiguidade, de um lado, e mutismo, de outro, abrem demais as questões apresentadas, deixando-as indefinidas e inadequadas a uma sistematização científica” (Leite, 1993: 153). Leite também afirma que, no trabalho com imagens e depoimentos, a coleta destes permitiu construir séries diferentes de dados referentes à produção das fotos, aos períodos em que foram tiradas, às circunstâncias da produção e conservação das fotos e às ocasiões e interesse de contemplação das fotografias. Em alguns casos, os depoimentos revelaram os fotógrafos, os recursos técnicos utilizados, além de situações ou personagens que não eram retratadas. (Leite, 1993: 22)
Por outro lado, os depoimentos, apesar de apresentarem sua própria especificidade, no que se refere a produção e tratamento conjuntamente com as imagens, possibilitaram um trabalho de exegese e de remontagem da captura das imagens, permitindo desvendar o sentido das práticas ali registradas.
i n t r o d u ç ã o 25
cidadelas_21set2012.indd 25
25/09/12 18:26
Destaca-se a importância dos depoimentos realizados, associados ou não a imagens, no sentido de captar e ter acesso a manifestações intangíveis, a aspectos do etos da instituição abordada, que remetem da lembrança individual à construção coletiva da memória. A partir do processo de trabalho conjunto de leitura e edição de imagem, produção de depoimentos associados a imagens, reflexão com e por meio desses suportes e com apoio na bibliografia selecionada, foi possível realizar a leitura desses conjuntos de diferentes linguagens que registram a materialidade das intervenções sociais estudadas, da memória e do imaginário manifestos nos depoimentos. Assim, as fotografias e os depoimentos versando sobre as práticas sociais e culturais do lazer e o uso do tempo livre na sociedade contemporânea são passíveis de interpretação, pois, como qualquer outro artefato cultural, possuem a capacidade de condensar significados e evidenciar valores, explicitando publicamente sentidos que cabe ao pesquisador decifrar (Geertz, 1989). Logo, imagens também são “boas para pensar”, pois, em sua dinâmica de significação e ressignificação, permitem o exercício interpretativo dessa linguagem carregada de expressão. Por outro lado, é necessário lembrar que, em se tratando de um estudo das imagens de uma instituição voltada para práticas de lazer e cultura, se explicita sempre sua relação com a cidade como um universo mais amplo, pois as práticas do Sesc São Paulo dialogam com as de outras entidades afins e inserem-se numa dinâmica cultural mais abrangente (Durham, 2004), que é a da vida da própria cidade. Daí por que fazer dialogar as imagens do Sesc com outros registros visuais sobre o lazer, como da Seção Arquivo de Negativos do Departamento do Patrimônio da Secretaria Municipal de Cultura e de outras instituições culturais de São Paulo. Pois a cidade é o suporte e o local onde se estabelecem as relações e as interações sociais entre os indivíduos, cenário mais amplo em relação ao qual será possível dimensionar os significados do lazer aqui estudados. É importante frisar que no começo de cada capítulo são apresentados conjuntos de imagens formando um caderno iconográfico, analisado no decorrer do texto, no sentido de valorizar o papel da imagem criando uma narrativa, e que também possui sentido como série visual, pois se trata de estudo e reflexão com o olhar da antropologia da imagem.
26 ci dadela s
cidadelas_21set2012.indd 26
da c ultur a no laze r
25/09/12 18:26
O livro é divido em quatro capítulos, cada um dos quais, seguindo a ordem cronológica da atuação do Sesc São Paulo, procura focalizar um aspecto específico da problemática mais ampla de que se ocupa o texto em seu conjunto. Assim, o primeiro capítulo, intitulado “Os primeiros passos d0 lazer organizado em São Paulo”, aborda as práticas sociais iniciais direcionadas para o lazer dos trabalhadores pela entidade, para estudar a sua orientação e o tipo de atividades implementadas. O recorte temporal definido (1946-1966) corresponde ao surgimento da instituição e ao período inicial em que ela firma sua atuação na metrópole paulistana, o que permite refletir sobre os momentos iniciais do lazer organizado em São Paulo. Tal como outras instituições públicas e privadas que se preocupam com o lazer e a cultura em São Paulo nesse período, a atuação do Sesc relaciona-se a um processo de modernização em curso na cidade, situado no contexto do pós-guerra e do processo de redemocratização do país que tem lugar após o fim do Estado Novo. O capítulo ii, “Imagens do lazer do Sesc São Paulo”, compõe o panorama de um período em que se dá a criação de órgãos públicos e de instituições privadas cujas formas de atuação se desenvolvem no campo do lazer. Essa é a época em que o lazer começa a ser considerado como uma linha de ação social, que se firma como foco de atuação específica do Sesc São Paulo. O capítulo analisa o período que se abre a partir do final dos anos 1960, quando ocorre o seminário “Lazer – Perspectivas para uma cidade que trabalha”, promovido pelo Sesc São Paulo, o que estimula e amplia as discussões em relação ao lazer, levando inclusive à conquista de um amplo espaço nos projetos da administração pública, quando esta problemática passa a ser considerada de forma institucional. O capítulo iii, “A virada do Sesc São Paulo nos anos 1980: a dimensão da cultura na rede urbana paulistana”, mostra como as práticas sociais da instituição se modificam, passando de uma visão fundamentada na noção de lazer a uma compreensão mais ampla de cultura, abarcando o conhecimento e a educação, mas também abrangendo a ideia de criação simbólica e de formação de cidadania. Busca-se explicitar a ênfase atribuída ao âmbito da cultura como matriz geradora de sua linha de ação social.
i n t r o d u ç ã o 27
cidadelas_21set2012.indd 27
25/09/12 18:26
Já o capítulo iv, “Observando à distância uma narrativa visual: o Sesc São Paulo e a metrópole paulistana”, destaca o jogo de espelhos na construção da imagem do Sesc, que interage com as práticas sociais de outras instituições de cultura na cidade, e que aqui são focalizadas para estabelecer um diálogo entre imagens de diferentes acervos iconográficos de instituições com produções semelhantes. A proposta é analisar a produção imagética do Sesc com um olhar distanciado – ou seja, as formas de intervenção social estudadas dialogam com as de outras instituições sociais na metrópole nos diferentes períodos abordados –, pois as imagens localizadas em acervos de outras instituições de caráter social e cultural mostram proximidade com práticas sociais implantadas pelo Sesc São Paulo. O foco do capítulo é a questão do modo como as intervenções sociais são pensadas e posteriormente traduzidas em realizações concretas pelo Sesc São Paulo e por algumas instituições culturais na metrópole, dotando-as de significados diversos. “A luz das cidadelas da cultura no lazer” traz as considerações finais, enquadrando a temática abordada sob outras lentes ao analisar o trabalho de edição de imagens, assim como sua relação com outros tipos de suporte, como a oralidade e o texto na construção da narrativa elaborada ao longo do livro. Reflete-se aí sobre o significado mais amplo da atuação da instituição, como construção de “cidadelas de liberdade” encravadas na cidade, com um projeto “iluminista” que se busca deslindar em seus múltiplos significados. Finalmente, é abordada a questão da democratização da cultura para a qual apontam as práticas sociais implementadas pelo Sesc São Paulo, procurando-se aprofundar o seu significado a partir da perspectiva de um olhar “de dentro” da instituição estudada.
28 ci da delas
cidadelas_21set2012.indd 28
da c ultur a no laze r
25/09/12 18:26
Capítul0 i
Os primeiros passos do lazer organizado em São Paulo
Concurso de robustez infantil. Década de 1940
o s p r i me i r o s pa ss o s d o l a z e r o r g a n i z a d o e m sã o pa u l o 29
cidadelas_21set2012.indd 29
abertura de parte
25/09/12 18:26
Clínica Central de Serviços Especializados Gastão Vidigal, à rua Florêncio de Abreu, 305. Seção de Controle de Visitas. 1947-1948
30 ci da delas
cidadelas_21set2012.indd 30
da c ultur a no laze r
abertura com foto
25/09/12 18:26
Centro Social Horácio de Mello, à rua Fausto Ferraz, 131, Bela Vista. Década de 1940
Centro Social Bento Pires de Campos, instalado na avenida Celso Garcia, 2.424. 1947-1948
Centro Social Mário França de Azevedo, à rua Voluntários da Pátria, 68. 1947-1948
cidadelas_21set2012.indd 31
25/09/12 18:26
Participação do Sesc na parada do dia 7 de Setembro. 1956
38 ci dadela s
cidadelas_21set2012.indd 38
da c ultur a no laze r
25/09/12 18:27
Biblioteca Central. 1956
o s p r i me i r o s pa s so s d o l a z e r o r g a n i z a d o e m s ã o pa u l o  39
cidadelas_21set2012.indd 39
25/09/12 18:27
Convescote [piquenique] nos arredores da cidade de São Paulo. Década de 1950
página ao lado
Chegada de comerciários a São Caetano do Sul. 1953
40 ci da delas
cidadelas_21set2012.indd 40
da c ultur a no laze r
25/09/12 18:27
o s p r i me i r o s pa ss o s d o l a z e r o r g a n i z a d o e m sã o pa u l o  41
cidadelas_21set2012.indd 41
25/09/12 18:27
42  ci dadela s
cidadelas_21set2012.indd 42
da c ultur a no laze r
25/09/12 18:27
págiana anterior
Conjunto de gaitas amador. Década de 1950 Conjunto de violões amador. Década de 1950
A Sapateira Prodigiosa. Festival de Teatro Amador. 1957
Teatro Íntimo Nicette Bruno. Sérgio Cardoso em Week End. 1954
o s p r i me i r o s pa s so s d o l a z e r o r g a n i z a d o e m s ã o pa u l o 43
cidadelas_21set2012.indd 43
25/09/12 18:27
Torneio Início de Futebol de Botão entre dependentes de comerciários. 1965
Campeonato de Xadrez. 1964
44 ci dadela s
cidadelas_21set2012.indd 44
da c ultur a no laze r
25/09/12 18:27
Centro Social João de Vasconcellos. Competição no ginásio de esportes. 1966
o s p r i me i r o s pa s so s d o l a z e r o r g a n i z a d o e m s ã o pa u l o 45
cidadelas_21set2012.indd 45
25/09/12 18:27
Centro Social HorĂĄcio de Mello. Bandeirantismo. DĂŠcada de 1960
46  ci da delas
cidadelas_21set2012.indd 46
da c ultur a no laze r
25/09/12 18:27
Parque do Ibirapuera. Acampamento demonstrativo de escoteiros e bandeirantes em comemoração ao 20o aniversário do Sesc. 1966
o s p r i me i r o s pa s so s d o l a z e r o r g a n i z a d o e m s ã o pa u l o 47
cidadelas_21set2012.indd 47
25/09/12 18:27