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ANTONIO ABUJAMRA: rigor e caos

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Antônio Abujamra era um homem do teatro, e foi pelo teatro que nos encontramos: numa pequena turnê da sua performance A voz do provocador. Nossos encontros – que infelizmente não foram muitos, nem por muitos anos – tinham o combustível da provocação e se alimentavam das paixões em comum por Fernando Pessoa, e seus heterônimos, e pela ferocidade da escrita de Thomas Bernhard. Em cada apresentação, fosse em cena aberta ou nas coxias, ele sempre disparava alguma coisa: ideia ou silêncio, às vezes uma pergunta que, inesperada, incendiava o teatro. No fulcro deste livro luzem estas fagulhas: as rubricas de muitos de seus atos, inflamando e provocando, fazendo lembrar dele e principalmente do seu jeito e maestria em saber nos tirar do lugar estabelecido e rodopiar na boca da cena do mundo. Para ele, eu era uma “jaula aberta”, que ele cutucava com vara curta, provocando defeito e qualidade, esperando que eu mostrasse os dentes e rosnasse, saísse da modorra e avançasse com selvageria contra a bobagem e a mesmice envolvente do mundo, que sempre tende ao domesticado. Espero que este livro cutuque e desperte a ferocidade necessária para entrar em cena com Abu: provoquemos e desestabilizemos o mundo fracasso dos dias atuais.

Ricardo Muniz Fernandes é editor da n-1 edições e produtor cultural.

Mudar o mundo! Romper com tudo, absolutamente tudo que pareça abstrato. Um teatro concreto, onde as palavras não deixem dúvidas sobre o que elas querem dizer. E, aí sim, idolatrar a dúvida. Fazer um teatro fundamentalmente marginal – ninguém tira a liberdade do artista. O artista pode dizer o que quiser. Os políticos, não. Assim, seremos muito mais políticos. Ponham a liberdade em ação. Enforquem-se na corda da liberdade. Não é impossível. […] Não deem atenção para as definições boas ou más que abundam sobre vocês. Lembrem-se de João Cabral de Melo Neto: “É preciso não ter calos de vitória. É preciso ser torcedor do América”. Quando Peter Brook esteve no TBC, durante o Projeto Cacilda Becker, falamos muito sobre o teatro elizabetano, e ele dizia sempre do acessível que eram esses espetáculos para todas as pessoas, mesmo sendo de classes diferentes. Falava da grosseria, da maior grosseria, até a ideia mais difícil, mais oculta. E ele já havia escrito que, naquela época, a ideia mais oculta era percebida pela mais popular das ideias. E nosso tempo está exigindo esse popular (palavra já tão gasta), pois estamos numa época em que se perdeu a faculdade de refletir, e a brutalidade está em primeiro plano em quase todos os níveis, incluindo o plano da esperança. [antônio abujamra]

ISBN 978-85-9493-280-8

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O grande Antônio

marcia abujamra [org.]

Antônio Abujamra saiu pronto de Porto Alegre. O Sul deu ao teatro brasileiro, nos anos 1950/60, ele, Walmor Chagas, Maria Della Costa, Itala Nandi, Fernando Peixoto, Lilian Lemmertz, Lineu Dias, Paulo José, Guilherme Corrêa, Gilberto Vigna, Lutero Luis, Paulo Cesar Peréio, e mais. Outros bons continuam chegando. Pessoas de sólida formação cultural, acadêmica ou não. Abu estava pronto, mas queria mais. Foi aprender com inovadores cênicos europeus, sobretudo Jean Vilar, Roger Planchon, na França, e no Berliner Ensemble, de Bertolt Brecht, na Alemanha. Teve a sorte de conquistar a amizade do poeta e diplomata João Cabral de Melo Neto um homem retraído. Gostaram-se e Abujamra aderiu à poesia antisentimental, concreta. Objetividade que levou para sua arte. Correu meio mundo, sem esquecer o Líbano da mãe, e voltou para a linda Cibelia Cibelli, a modelo Belinha. Casados para sempre, chegaram a São Paulo, e Abujamra começou dirigindo Cacilda Becker em Raízes, de Arnold Wesker (1961). Não é preciso se dizer mais nada: os depoimentos e análises deste livro completam o retrato. Esteve no Arena e no Oficina. Criou o grupo Decisão, vital em sua relativa brevidade, reunindo talentos de primeira (Emilio Di Biasi, Sergio Mamberti, Fauzi Arap, e mais e mais); por um período revitalizou o TBC, lutando pelo seu tombamento. Dirigiu teleteatros e a inovadora série de entrevistas, Provocações, na TV Cultura. Na maturidade, impôs seu carisma como ator, a começar por O contrabaixo, de Patrick Süskind; a seguir, papéis fortes em telenovelas. Orgulhava-se das sobrinhas Clarisse, Iara, Marcia, que seguiram o mesmo caminho, como do filho André, idealizador da Banda Karnak, com improvisos teatrais. Não era de falar de si, mas, numa noite insone me escreveu: “Meu pai era mascate. Andava por todos os lados vendendo meias para as moças bonitas, acompanhado por meu irmão João, pai de Clarisse que mascateou bastante também. Família sofrida, mãe com dez filhos”. Acontece que o gaúcho Abu era paulista, meu conterrâneo. Somos de Ourinhos, vale do rio Paranapanema, divisa do Paraná (a Prefeitura está na Travessa Vereador Abrahão Abujamra). Saiu menino para Sorocaba e, só depois, Porto Alegre, onde estudou filosofia e jornalismo na Universidade Católica e se encontrou no teatro, que ele elevou a patamares de alta excelência estética, conteúdo, rendimento do elenco. Abu foi grande.

Jefferson Del Rios é jornalista, crítico de teatro e pesquisador cultural. Autor, entre outros livros, de O teatro de Victor Garcia e Teatro, literatura, pessoas (Edições Sesc).

30/01/2024 11:17


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