Skip to main content

A leitura, outra revolução

Page 1

A leitura, outra revolução

Dialogando com importantes referências do pensamento intelectual brasileiro, como Antonio Candido e Paulo Freire, María Teresa Andruetto apresenta concepções críticas de leitura – sempre no plural –, reiterando seu caráter coletivo e insurgente. Nos ensaios aqui publicados, ela recupera sua atuação como escritora e mediadora de leitura, convidando à reflexão sobre as relações intrínsecas entre leitura e escrita como experiências radicais que repensam a condição humana.

A leitura, outra revolução maría teresa andruetto

Esta obra reúne textos apresentados em encontros sobre literatura para crianças e jovens e promoção da leitura. Sob uma perspectiva crítica, a premiada escritora María Teresa Andruetto aponta diversos caminhos para refletir sobre o significado da leitura. Em vez de privilegiar a quantidade de livros lidos, ela discorre sobre a qualidade do que lemos. Para isso, afirma que a literatura é um espaço de desacato, capaz de fazer os leitores contornarem riscos e enfrentarem contradições e todo tipo de pergunta. No ato de ler, um livro se converte em ser vivo capaz de nos interrogar, perturbar e ensinar a olhar zonas ainda não compreendidas de nós mesmos. Ler faz com que sejamos capazes de apreender que a única liberdade que se constrói é a liberdade de pensamento. Para a autora, esta é a necessária revolução no terreno da leitura.

a língua em estado de interrogação

maría teresa andruetto 2a edição

A radicalidade na escrita de Andruetto traduz um pensamento genuinamente comprometido com a justiça social. “É nas palavras que se trava o combate […] nesse mar extenso da linguagem social, território de resistência perante o uniforme e o hegemônico”, diz ela, que vive o ato de escrever como uma “trincheira da língua”. Andruetto trabalha com as armas das distorções de sentido, dos rastros que sobrevivem nos interstícios das línguas oficiais e da interpelação aos não saberes do leitor. Vencedora do Prêmio Hans Christian Andersen em 2012, um dos mais importantes prêmios da literatura infantil e juvenil, a autora argentina busca o “palpitar da língua”, entendendo que o literário “não está nas convenções nem em seus estereótipos […], e sim nesse lugar privado, tão íntimo, onde o social se faz carne”. Nesse sentido, são preciosas suas considerações sobre o universal e o particular na literatura, sobre “uma língua única, feita com a língua de todos”. Pode-se dizer o mesmo sobre os questionamentos que faz acerca do comportamento do mercado editorial na produção literária destinada aos públicos infantil e juvenil: de quais crianças e jovens estamos falando? A quem interessa adjetivar a literatura? Além de perguntas tão importantes, Andruetto também traz afirmações contundentes sobre a literatura destinada a esses públicos: “deve-se evitar com toda força […] escrituras servis disfarçadas com novas roupagens”. Se a língua em estado de interrogação permanente é sua matéria-prima, a sorte é nossa, dos leitores que dizem sim aos convites instigantes que ela nos faz. Porque as provocações que a autora lança, sobretudo aos que trabalham com a formação de leitores, são da ordem do elogio à dificuldade, da busca pela singularidade da voz e pelo estranhamento poético, ou seja, formas éticas e estéticas de deslocamento que são muito mais do que pontos de chegada: são pontes. Cristiane Tavares Doutora em Educação e mestre em Literatura e Crítica Literária

a leitura - capa_2 edicao.indd 1

29/11/2024 14:17


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
A leitura, outra revolução by Edições Sesc São Paulo - Issuu