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A fábrica do medo feminino

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SERGIO BAARTZES

Uma das mais influentes vozes africanas do feminismo na contemporaneidade, Pumla Dineo Gqola apresenta uma poderosa análise da violência contra as mulheres, que se sustenta na produção do medo e do terror. Num mundo em que a existência das mulheres está cada vez mais em risco, Gqola oferece ferramentas que nos auxiliam no enfrentamento dessa fábrica que não cessa de gerar vítimas e na luta por uma vida sem medo. Tradução de Tatiana Custódio

Edições Sesc São Paulo ISBN 978-85-9493-397-3

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Zahar ISBN 978-65-5979-308-2

a fábrica do medo feminino

PUMLA DINEO GQOLA é professora na Universidade Nelson Mandela e doutora em estudos pós-coloniais pela Universidade Ludwig Maximilian de Munique. Especialista em feminismo africano, literatura, raça, classe e gênero e histórias da escravidão, é autora de diversos livros, entre eles Rape: A South African Nightmare, vencedor do Sunday Times Literary Award em 2016.

“O patriarcado pode nos amedrontar e ser violento conosco, mas não desistiremos da luta. À medida que vamos às ruas, desafiando o medo de maneiras performáticas e aparentemente insignificantes, nós nos defendemos e falamos em nosso próprio nome.”

biblioteca africana

a fábrica do medo feminino

pumla dineo gqola

não apenas como vítimas da violência de gênero, mas, especialmente, como exemplos de uma coragem de viver que não depende da falta de medo. Assim, se as mulheres não estão seguras em lugar algum — sobretudo quando é preciso desmontar a ficção do homem monstruoso e entender que em toda parte a misoginia forma os homens —, Pumla Dineo Gqola nos convoca, por meio de suas análises contundentes, a desaprender o idioma do medo e, coletivamente, lutar por um futuro livre do patriarcado.

a fábrica do medo feminino pumla dineo gqola

Não ande sozinha à noite. Avise onde está. Evite usar roupas curtas. Saiba com quem anda. Não beba. São muitas as lições de sobrevivência que forjam as mulheres, como se, num mundo patriarcal, coubesse a elas garantir a própria segurança. Em A fábrica do medo feminino, a pesquisadora sul-africana Pumla Dineo Gqola nos mostra que esse script habitual, jamais seguro o suficiente, nos prepara para uma vida de medo. Analisando diferentes manifestações da violência contra a mulher no mundo, a autora expõe as engrenagens do que une todos os países: a fábrica do medo, em cuja linha de produção se amontoam corpos de mulheres violentadas, quando não assassinadas, que não levam à interrupção do maquinário misógino, mas sim à ampliação do terror de ser a próxima vítima. Para Gqola, o medo de ser violentada se torna um idioma que exige uma perversa fluência das mulheres, que se veem forçadas a conduzir a vida a partir de um cálculo vigilante, como se viver e evitar a violência fossem sinônimos. Não à toa, ela se pergunta: quem seríamos e o que faríamos se não tivéssemos que nos preocupar em nos manter vivas num momento em que abundam casos de feminicídio? Comprometida com o feminismo, ela escolhe apresentar histórias de mulheres que, mesmo sem deixarem de temer, escolheram sustentar seus desejos. Lupita Nyong’o e Marielle Franco aparecem, ao lado de mulheres comuns,

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Uma das mais influentes vozes africanas do feminismo na contemporaneidade, Pumla Dineo Gqola apresenta uma poderosa análise da violência contra as mulheres, que se sustenta na produção do medo e do terror. Num mundo em que a existência das mulheres está cada vez mais em risco, Gqola oferece ferramentas que nos auxiliam no enfrentamento dessa fábrica que não cessa de gerar vítimas e na luta por uma vida sem medo. Tradução de Tatiana Custódio

Edições Sesc São Paulo ISBN 978-85-9493-397-3

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Zahar ISBN 978-65-5979-308-2

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PUMLA DINEO GQOLA é professora na Universidade Nelson Mandela e doutora em estudos pós-coloniais pela Universidade Ludwig Maximilian de Munique. Especialista em feminismo africano, literatura, raça, classe e gênero e histórias da escravidão, é autora de diversos livros, entre eles Rape: A South African Nightmare, vencedor do Sunday Times Literary Award em 2016.

“O patriarcado pode nos amedrontar e ser violento conosco, mas não desistiremos da luta. À medida que vamos às ruas, desafiando o medo de maneiras performáticas e aparentemente insignificantes, nós nos defendemos e falamos em nosso próprio nome.”

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pumla dineo gqola

não apenas como vítimas da violência de gênero, mas, especialmente, como exemplos de uma coragem de viver que não depende da falta de medo. Assim, se as mulheres não estão seguras em lugar algum — sobretudo quando é preciso desmontar a ficção do homem monstruoso e entender que em toda parte a misoginia forma os homens —, Pumla Dineo Gqola nos convoca, por meio de suas análises contundentes, a desaprender o idioma do medo e, coletivamente, lutar por um futuro livre do patriarcado.

a fábrica do medo feminino pumla dineo gqola

Não ande sozinha à noite. Avise onde está. Evite usar roupas curtas. Saiba com quem anda. Não beba. São muitas as lições de sobrevivência que forjam as mulheres, como se, num mundo patriarcal, coubesse a elas garantir a própria segurança. Em A fábrica do medo feminino, a pesquisadora sul-africana Pumla Dineo Gqola nos mostra que esse script habitual, jamais seguro o suficiente, nos prepara para uma vida de medo. Analisando diferentes manifestações da violência contra a mulher no mundo, a autora expõe as engrenagens do que une todos os países: a fábrica do medo, em cuja linha de produção se amontoam corpos de mulheres violentadas, quando não assassinadas, que não levam à interrupção do maquinário misógino, mas sim à ampliação do terror de ser a próxima vítima. Para Gqola, o medo de ser violentada se torna um idioma que exige uma perversa fluência das mulheres, que se veem forçadas a conduzir a vida a partir de um cálculo vigilante, como se viver e evitar a violência fossem sinônimos. Não à toa, ela se pergunta: quem seríamos e o que faríamos se não tivéssemos que nos preocupar em nos manter vivas num momento em que abundam casos de feminicídio? Comprometida com o feminismo, ela escolhe apresentar histórias de mulheres que, mesmo sem deixarem de temer, escolheram sustentar seus desejos. Lupita Nyong’o e Marielle Franco aparecem, ao lado de mulheres comuns,

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Uma das mais influentes vozes africanas do feminismo na contemporaneidade, Pumla Dineo Gqola apresenta uma poderosa análise da violência contra as mulheres, que se sustenta na produção do medo e do terror. Num mundo em que a existência das mulheres está cada vez mais em risco, Gqola oferece ferramentas que nos auxiliam no enfrentamento dessa fábrica que não cessa de gerar vítimas e na luta por uma vida sem medo. Tradução de Tatiana Custódio

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PUMLA DINEO GQOLA é professora na Universidade Nelson Mandela e doutora em estudos pós-coloniais pela Universidade Ludwig Maximilian de Munique. Especialista em feminismo africano, literatura, raça, classe e gênero e histórias da escravidão, é autora de diversos livros, entre eles Rape: A South African Nightmare, vencedor do Sunday Times Literary Award em 2016.

“O patriarcado pode nos amedrontar e ser violento conosco, mas não desistiremos da luta. À medida que vamos às ruas, desafiando o medo de maneiras performáticas e aparentemente insignificantes, nós nos defendemos e falamos em nosso próprio nome.”

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não apenas como vítimas da violência de gênero, mas, especialmente, como exemplos de uma coragem de viver que não depende da falta de medo. Assim, se as mulheres não estão seguras em lugar algum — sobretudo quando é preciso desmontar a ficção do homem monstruoso e entender que em toda parte a misoginia forma os homens —, Pumla Dineo Gqola nos convoca, por meio de suas análises contundentes, a desaprender o idioma do medo e, coletivamente, lutar por um futuro livre do patriarcado.

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Não ande sozinha à noite. Avise onde está. Evite usar roupas curtas. Saiba com quem anda. Não beba. São muitas as lições de sobrevivência que forjam as mulheres, como se, num mundo patriarcal, coubesse a elas garantir a própria segurança. Em A fábrica do medo feminino, a pesquisadora sul-africana Pumla Dineo Gqola nos mostra que esse script habitual, jamais seguro o suficiente, nos prepara para uma vida de medo. Analisando diferentes manifestações da violência contra a mulher no mundo, a autora expõe as engrenagens do que une todos os países: a fábrica do medo, em cuja linha de produção se amontoam corpos de mulheres violentadas, quando não assassinadas, que não levam à interrupção do maquinário misógino, mas sim à ampliação do terror de ser a próxima vítima. Para Gqola, o medo de ser violentada se torna um idioma que exige uma perversa fluência das mulheres, que se veem forçadas a conduzir a vida a partir de um cálculo vigilante, como se viver e evitar a violência fossem sinônimos. Não à toa, ela se pergunta: quem seríamos e o que faríamos se não tivéssemos que nos preocupar em nos manter vivas num momento em que abundam casos de feminicídio? Comprometida com o feminismo, ela escolhe apresentar histórias de mulheres que, mesmo sem deixarem de temer, escolheram sustentar seus desejos. Lupita Nyong’o e Marielle Franco aparecem, ao lado de mulheres comuns,

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Biblioteca Africana Conselho de orientação: Kabengele Munanga Edson Lopes Cardoso Sueli Carneiro Luciane Ramos-Silva Tiganá Santana

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Pumla Dineo Gqola

A fábrica do medo feminino Tradução:

Tatiana Custódio

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Sumário

Apresentação — O global não é universal, por Fernanda K. Martins 9 Prefácio 29 Introdução — A gênese de uma ideia 37 1. Fabricando o medo feminino

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2. Medo, fluência e controle 105 3. Ficções perigosas 131 4. Mitificando a misoginia 149 5. A falsa promessa de segurança 167 6. A intimidade feminicida 185 7. Corpos de provas

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8. Conhecidos estrangeiros

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9. Feministas que temem 255 10. Segurança, nacionalismo e covid-19 269 Saídas: Recusando a prisão do medo — Um diário

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Agradecimentos 295 Referências bibliográficas

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2. Medo, fluência e controle

O tempo todo eu estava pensando: Eu deveria colocar uma faca debaixo do meu travesseiro? Era um período de medo, mas algumas pessoas conseguem superar o medo e algumas conseguem lutar contra ele. Malala Yousafzai

Aparentemente, espera-se que as mulheres tenham medo. Caroline Paul

Quando a escritora e ex-bombeira Caroline Paul se viu várias vezes confrontada com perguntas que questionavam se seu trabalho a amedrontava, ela nunca se confundiu com a diferença entre o modo como ela é confrontada com essas perguntas e o modo bastante diferente como seus colegas — que são homens — são questionados sobre o trabalho que exercem. Neste capítulo, eu apoio a afirmação dela de que “espera-se que as mulheres tenham medo”, reconhecendo isso como um sentimento que será familiar para mulheres de todo o mundo. Além de concordar, porém, estou interessada em como essa expectativa — que é um teste de fluência na fábrica do medo feminino — é estabelecida. Para tanto, é importante parar e refletir sobre a fluência, seus significados, seus processos e suas expectativas. O idioma é, ao mesmo tempo, o aspecto mais comum e mais complicado da vida humana. Sendo assim, então, a fluência é 105

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tão familiar quanto perigosa. Inicialmente, quando descrevi o estupro como um idioma e a fluência como parte integral de como o medo é reproduzido e normalizado, imaginei estar dizendo algo muito claro. Vivo numa parte do mundo onde falar vários idiomas de diferentes famílias linguísticas é a regra. É uma experiência que divido com pessoas de muitas — ainda que não todas — outras sociedades que vivem à sombra do colonialismo. Falar várias línguas traz em si a consciência de que o idioma não é apenas um portador de significados e valores, mas também um acesso a campos de possibilidade muito específicos. Não é uma questão de palavras e conceitos. Quando eu falo as palavras “família” e “lar” em inglês ou em alemão, quero expressar algo radicalmente diferente do que quero transmitir quando falo a palavra linguisticamente equivalente na língua xhosa. Essa diferença é muito mais do que as gradações facilmente disponíveis de família nuclear e estendida, biológica, conjugal ou escolhida. Apesar de a tradução ser sempre possível, um poliglota compreende que o que é repassado pode ter uma abrangência global, mas o que é perdido é tão profundo quanto os oceanos. Incompletude não é impossibilidade. É a área de lazer da imaginação para aqueles que habitam multiversos linguísticos. Na África do Sul, gasta-se uma quantidade de tempo excessiva, em privado ou no discurso público, com as diversas maneiras pelas quais a língua é política: contestando o que as coisas significam, discutindo formas adequadas e inadequadas de fazer uso da língua e do sotaque (como ênfase, como um modo de posicionar o falante socialmente ou as duas coisas). Entendemos que a fluência não é um local de

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Medo, fluência e controle

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chegada, mas um conjunto de lugares. Ainda criança, eu ria quando assistia a filmes norte-americanos sobre agentes infiltrados que aprendiam um idioma em poucos meses, viajavam para a União Soviética e convenciam falantes nativos de que eles também eram soviéticos. Mesmo adulta, cada vez que encontro isso num filme, minha suspensão voluntária da descrença é interrompida, e fico consciente de que isso é fruto da imaginação de alguém que fala uma ou duas línguas. Poliglotas sabem que a fluência não gera um sotaque de língua materna. Como lar não é um “endereço imutável para sempre”, usando a maravilhosa frase de Pier Paolo Frassinelli, há muitas formas de se sentir “em casa” num idioma. Sentir-se em casa num idioma é alcançar a fluência, mas essa fluência é um continuum. Vou retornar a esse ponto brevemente, a seguir. É importante notar que não é simplesmente o fato biográfico de eu ser capaz de estabelecer um lar em diferentes lares que favoreceu a fluência como uma estrutura para explicar as características da fábrica do medo feminino. Meu conhecimento formal de linguística como uma disciplina é mínimo. A combinação de formação em teoria literária e fluência em cinco idiomas, conhecimento básico de conversação numa sexta língua e a incapacidade de aprender um sétimo idioma, apesar de atacá-lo com vontade por dois anos, significam que tenho experiências complexas de fluência. É precisamente essa perspectiva migratória de fluência que esclarece como, no início, o estupro e, agora, a fábrica do medo feminino fazem sentido como um idioma. Nas sociedades patriarcais, somos socializados na fábrica do medo feminino de formas semelhantes àquelas como nos tornamos fluentes numa língua.

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5. A falsa promessa de segurança

O patriarcado funciona com base no medo: o medo de ser estranho, o medo de sofrer violência e o medo de ser muito exagerado, muito inadequado, muito expressivo ou muito diferente. Evitar ser estranho numa sociedade patriarcal exige bastante trabalho, porque se trata de um sistema que se apoia, de maneira intercambiável, na simplificação excessiva e no exagero na construção das categorias sexuais e de gênero. Por isso, na melhor das hipóteses, as categorias não se encaixam bem, e, na pior, elas sufocam. Porém, o custo de ser “muito diferente” do que é imposto pela prisão do seu próprio gênero é sofrer violência. Desviar-se muito do que se entende como feminino ou masculino, e/ou da heterossexualidade compulsória, vem com um preço que varia da vergonha e do ostracismo até a morte. O medo patriarcal é tão generalizado que ele molda escolhas aparentemente banais que fazemos sobre a estética de nossos corpos, nossas rotas de caminhada, quando estamos em público e onde nos sentimos à vontade para ir sozinhas. Isso acontece porque o medo é uma forma excelente de manter as pessoas sob controle, já que ele nos força a nos policiar, com a falsa promessa de que seremos capazes de nos manter seguras. Em “South African Women Live with the Burden of ‘Constant Vigilance’” [As mulheres sul-africanas vivem com o 167

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fardo da “vigilância constante”], Koketso Moeti relembra seu próprio medo numa ocasião em que teve que permitir que homens fossem consertar uma falha de energia em sua casa e, quando eles foram embora, sentiu remorso. Ela escreve: Discretamente, peguei uma faca e a mantive comigo. Por fim, eles resolveram o problema e eu me senti mal por suspeitar que os técnicos queriam me machucar. E, mesmo assim, como grande parte das mulheres sabe, meus medos não eram infundados. Os dados mais recentes indicam que uma mulher é morta a cada três horas na África do Sul, taxa que é quase cinco vezes maior que a média global. Somada a isso, há a realidade cruel das estatísticas policiais recentes que mostram um aumento de 4,6% nas denúncias de crimes sexuais, que incluem estupro e agressão sexual, e sei que minha reação é justificável.

Esse trecho é revelador numa variedade de formas. A consciência de Moeti em relação ao perigo em que ela poderia estar é transmitida pela experiência de viver como uma mulher num país com altos índices de todos os tipos de violência de gênero. A faca que ela mantém consigo enquanto os técnicos investigam a causa da falta de energia em sua casa é o compromisso que ela assume de se defender caso se torne necessário. Depois, ela se sente culpada porque os homens resolvem o problema dela e deixam sua casa sem incidente algum. Entretanto, mesmo quando sente remorso por suspeitar que aqueles homens poderiam atacá-la, ela sabe quão compreensível é sua sensação de insegurança. A despeito dos mitos que estigmatizam certos grupos de homens como mais

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propensos a ser violentos, os índices elevados deixam claro que, apesar de nem todo homem escolher agredir uma mulher, não há sinais confiáveis que permitam que as mulheres diferenciem os homens violentos daqueles que não o são. Além disso, num país com as estatísticas que tem a África do Sul, as mulheres vivem nesse estado de “vigilância constante” que Moeti demonstra de forma tão clara aqui e em outras partes de seu texto. Tal vigilância acentuada requer que as mulheres pensem em como elas vão reagir, ou modificar seu comportamento, para tentar e conseguir permanecer seguras. Muitas mulheres adotam uma combinação dessas estratégias em seu dia a dia. Para se agarrarem à segurança, muitas vezes recorrem a um conjunto de roteiros que oferecem a falsa expectativa e a falsa promessa de segurança. No entanto, até mesmo essa falsa expectativa de segurança é uma enganação. Trata-se de uma expectativa que nos é oferecida algumas vezes como uma promessa, se obedecermos aos roteiros de gênero patriarcais e encenarmos os papéis esperados, permanecendo em nosso devido lugar. Ser feminino já é sempre um excesso, razão por que o medo feminino precisa ser fabricado de forma teatral e comum para nos manter no lugar. Mas os sistemas opressores não são nada sem a mitologia. Somos ensinadas a imaginar que conseguimos escapar. Essa falsa expectativa ou promessa de segurança — e, portanto, de liberdade — está tatuada em nossa própria pele e em nossa psique ao sermos ensinadas a viver as identidades de gênero patriarcais. A promessa de segurança exige autopoliciamento. Exige o que bell hooks chamou de “uma relação antagônica con-

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sigo mesma” quando você é uma mulher. Para as mulheres na África do Sul, assim como em outros lugares, fica cada vez mais claro que os roteiros que herdamos sobre como diminuir a probabilidade de sermos alvo de violência são uma farsa. Não existe segurança, apenas a fraca consciência do adiamento eterno da possibilidade de segurança. Desde a infância, as meninas são ensinadas a carregar o fardo da responsabilidade por um sistema projetado para, no mínimo, nos diminuir individualmente, ou, no pior cenário, destruir todas nós. Os roteiros são, repetidas vezes, dados a nós como parte de uma encenação de falsa promessa de segurança. Esses roteiros, como muitos instrumentos do patriarcado, parecem se referir à garantia de nossa segurança e à diminuição de nossos riscos, considerando-se que foram projetados para conseguir algo bem distante disso. A promessa deles não é apenas falsa. Ela é ameaçadora de três modos que se inter-relacionam. Primeiro, esses roteiros nos são apresentados como se nossa própria existência como mulheres dependesse deles. Se nos afastamos deles, nos colocamos em perigo, e, então, quando adquirimos fluência neles, passamos a nos policiar, a limitar nossas próprias liberdades para nos agarrar àquela segurança inatingível e efêmera. Quando cedemos aos nossos desejos por liberdade e improvisamos, e, se nesse processo de deixar de lado o que está no roteiro, alguém nos agride, é o nosso desvio que é responsabilizado. A fluência necessária significa que é nossa culpa sermos espancadas, sequestradas, traficadas, apalpadas, estupradas, mutiladas e assassinadas. Todos os sistemas jurídicos e religiosos se dedicam a estabelecer com precisão os fatos de nosso desvio — e de nossa culpa.

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9. Feministas que temem

Para nós, mulheres, a luta é diária… Marielle Franco

As conexões entre duas ou mais mulheres são as mais temidas, as mais problemáticas, e a força mais potencialmente transformadora do planeta. Adrienne Rich

A saudosa e grandiosa romancista zimbabuana e acadêmica Yvonne Vera escreve ao mesmo tempo de maneira assombrosa e bela sobre como os corpos são treinados ao longo das gerações para encenar padrões de medo e de posse. Para Vera, a construção do medo coletivo é uma das formas como o corpo e a mente são disciplinados, punidos e preparados para o controle opressor. Em seu romance, Butterfly Burning [Borboleta em chamas], ela retorna a essas conexões com frequência. Vou mencionar apenas duas, porque elas ilustram aspectos diferentes das relações entre medo e espaço público, conexões que também são vistas na fábrica do medo feminino. Ao escrever uma cena do linchamento coletivo de diversos homens enforcados em árvores na Rodésia, ela evoca uma visão que remete à memória, ao mesmo tempo que indica 255

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o que os mestres coloniais conseguiram ao deixar os corpos expostos daquela maneira. Aqui, esses corpos à vista são uma agressão de várias formas: às pessoas que foram tratadas assim, mas também àqueles que passam por ali casualmente, o trabalhador, a estudante a caminho da escola, o vizinho que pode reconhecer alguém por um determinado contorno. Em outras palavras, o medo está nos detalhes. O medo também está em testemunhar e na lição de que poderia ser você ou algum dos seus. Para aqueles que reconhecem um dos corpos dos homens enforcados, a urgência da ameaça é comunicada num piscar de olhos. Para quem passa por ali, o conhecimento de sua própria insegurança é apresentado de forma eficaz, e então ela começa a pensar (inutilmente) em como poderia evitar ser considerada o que Billie Holiday chama de “fruta estranha” [Strange Fruit],* porque esse idioma do medo, da raça, da violência como espetáculo era bem conhecido em sua região também. Você não está segura. Poderia ser você. Lição aprendida. O segundo exemplo de Vera é retirado de como ela escreve sobre os corpos negros que se movimentam nas cidades do Zimbábue. Bem depois de leis que proibiam os nativos de andar na calçada, muitas de suas personagens se movem — de forma desafiadora, alegre, estilosa e barulhenta pela cidade —, mas para um homem/uma mulher o corpo conserva * “Strange Fruit” é o título de uma música gravada em 1939 e que ficou

popular na interpretação de Billie Holiday. A canção é uma denúncia contra a violência racial e os linchamentos de afro-americanos nos Estados Unidos. O título faz referência ao corpo de pessoas negras que eram enforcadas e penduradas em árvores. (N. T.)

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uma memória intergeracional. As pessoas administram essa fuga coreografada da calçada e de outros espaços semelhantes remanescentes de um período — para alguns — anterior ao seu nascimento, transmitidos a elas inconscientemente e a contragosto. Assim, Vera nos ensina que o medo não está presente apenas quando o reconhecemos dessa forma, um lembrete essencial para a fábrica do medo feminino e sua fluência. Algumas vezes ele também está presente em culturas que se opõem às fontes do mesmo medo. Nenhum de nós está fora da história e das condições de nossa destruição. Considerando que a masculinidade heroica supõe que transcender ou superar o medo é o significado de coragem, quero sugerir que existem outras respostas interessantes ao medo. Nenhuma delas deixa de ter consequências, mas talvez elas nos ensinem alguma coisa, apesar disso. Eu me volto para a vida de feministas que estão simultaneamente em posições diferentes e semelhantes e para suas respostas à exposição explícita de encenações generalizadas da fábrica do medo feminino porque elas são feministas e, portanto, se colocam em oposição ao controle patriarcal. Quando a jornalista Mona Eltahawy foi presa no Cairo, a polícia lhe disse que eles sabiam quem ela era. Eles a estavam punindo não apenas pelo fato de ela se achar no meio de um protesto, mas por ser ela, por outro problema que havia causado antes. Enquanto ela estava detida, eles quebraram seus braços e a agrediram sexualmente. Como eles não sabiam bem como detê-la, ela encontrou uma maneira de pegar um celular emprestado na prisão por segundos suficientes para acessar sua conta no X e postar que

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fora presa e o local onde estava. Ela não diz isso, mas devia saber que poderia ter desaparecido sem deixar rastros, ou ter sido assassinada, ou as duas coisas. Como as mulheres que enviam sua rota de corrida ou detalhes do táxi em que estão a alguém que amam, ela estava garantindo que havia um lugar para começar a busca por ela caso desaparecesse. Mulheres desaparecem. Ativistas são detidas pela polícia e desaparecem em todo o mundo. Isso também acontece com pessoas comuns todos os dias em algumas partes do mundo. A polícia egípcia não prendeu apenas Eltahawy na praça Tahrir. Naquela manifestação, muitas outras mulheres foram espancadas, humilhadas, sofreram agressão sexual por parte de policiais e soldados, assim como por parte de homens que supostamente eram companheiros das mulheres. Não há lugares seguros para as mulheres; a história nos ensinou que até mesmo nos movimentos políticos radicais existem estupradores. É importante lembrar que a fábrica do medo feminino reivindica espaço nas revoluções. Muitos estudos feministas se dedicam a nos ensinar essa lição. Quando Eltahawy enviou aquele tuíte, ela agiu de maneira tão errada quanto ao participar daquele protesto, dando continuidade a um padrão de mau comportamento, fosse o que fosse que tivesse feito, a ponto de irritar os policiais e impeli-los a colocar a jornalista no lugar dela, mostrando-lhe quem realmente estava no comando. Longe de argumentar que Eltahawy provocou a brutalidade deles, ela os aterrorizou, e, como agentes centrais do patriarcado, eles reagiram com extrema violência, tal qual o patriarcado costuma reagir ao ser desafiado. As meninas são ensinadas a nunca irritar um homem, como mencionado no segundo capítulo deste livro.

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Eltahawy renegou essa lição, e reivindicou a “ira” como um dos pecados necessários em seu livro The Seven Necessary Sins for Women and Girls [Os sete pecados necessários para mulheres e meninas]. A ira é parte do arsenal de que precisamos para desaprender as fluências da fábrica do medo feminino. Ela tuitou e por fim foi liberada. Não muito tempo depois disso, Eltahawy conseguiu ser detida no outro país do qual tem cidadania, os Estados Unidos. Dessa vez, ela foi presa por ter pichado e estragado um cartaz no metrô de Nova York que era, ao mesmo tempo, racista e islamofóbico. Esses são dois eventos de violência institucionalizada cujo objetivo era ensiná-la a como se comportar, uma lição de obediência, de submissão à fábrica do medo feminino. Tanto o medo quanto a violência são necessários para o controle. Como mulheres, supostamente devemos trabalhar até morrer, evitando o medo e a violência, mesmo que seja inútil, porque não podemos evitá-los, como mostro no capítulo 5 com a falsa promessa de segurança. O medo é exaustivo. Mulheres exaustas podem não ter energia suficiente para se revoltar. Em seu artigo “Terrified by Voice of the People” [Aterrorizada pela voz das pessoas], Isabella Matambanadzo nos ensina que não apenas os estados autocráticos são “aterrorizados pela voz das pessoas”, mas também os sistemas nos quais eles se apoiam para se manter no poder. É por isso que o patriarcado e a supremacia branca e todas as hierarquias violentas utilizam a inversão. Então, seguindo Matambanadzo, primeiramente a inversão marca de maneira cruel aquilo que nos viola, assim, uma das formas de lutarmos é aterrorizar o patriarcado conscientemente. As feministas já são mulheres

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Biblioteca Africana Próximos lançamentos

Análise de alguns tipos de resistência Amílcar Cabral Identité et transcendance* Marcien Towa

* Título em português a definir.

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esta obra foi composta por mari taboada em dante pro e impressa em ofsete pela gráfica paym sobre papel pólen natural da suzano s.a. para a editora schwarcz em agosto de 2026

A marca fsc ® é a garantia de que a madeira utilizada na fabricação do papel deste livro provém de florestas que foram gerenciadas de maneira ambientalmente correta, socialmente justa e economicamente viável, além de outras fontes de origem controlada.

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SERGIO BAARTZES

Uma das mais influentes vozes africanas do feminismo na contemporaneidade, Pumla Dineo Gqola apresenta uma poderosa análise da violência contra as mulheres, que se sustenta na produção do medo e do terror. Num mundo em que a existência das mulheres está cada vez mais em risco, Gqola oferece ferramentas que nos auxiliam no enfrentamento dessa fábrica que não cessa de gerar vítimas e na luta por uma vida sem medo. Tradução de Tatiana Custódio

Edições Sesc São Paulo ISBN 978-85-9493-397-3

9 788594 933973

Zahar ISBN 978-65-5979-308-2

a fábrica do medo feminino

PUMLA DINEO GQOLA é professora na Universidade Nelson Mandela e doutora em estudos pós-coloniais pela Universidade Ludwig Maximilian de Munique. Especialista em feminismo africano, literatura, raça, classe e gênero e histórias da escravidão, é autora de diversos livros, entre eles Rape: A South African Nightmare, vencedor do Sunday Times Literary Award em 2016.

“O patriarcado pode nos amedrontar e ser violento conosco, mas não desistiremos da luta. À medida que vamos às ruas, desafiando o medo de maneiras performáticas e aparentemente insignificantes, nós nos defendemos e falamos em nosso próprio nome.”

biblioteca africana

a fábrica do medo feminino

pumla dineo gqola

não apenas como vítimas da violência de gênero, mas, especialmente, como exemplos de uma coragem de viver que não depende da falta de medo. Assim, se as mulheres não estão seguras em lugar algum — sobretudo quando é preciso desmontar a ficção do homem monstruoso e entender que em toda parte a misoginia forma os homens —, Pumla Dineo Gqola nos convoca, por meio de suas análises contundentes, a desaprender o idioma do medo e, coletivamente, lutar por um futuro livre do patriarcado.

a fábrica do medo feminino pumla dineo gqola

Não ande sozinha à noite. Avise onde está. Evite usar roupas curtas. Saiba com quem anda. Não beba. São muitas as lições de sobrevivência que forjam as mulheres, como se, num mundo patriarcal, coubesse a elas garantir a própria segurança. Em A fábrica do medo feminino, a pesquisadora sul-africana Pumla Dineo Gqola nos mostra que esse script habitual, jamais seguro o suficiente, nos prepara para uma vida de medo. Analisando diferentes manifestações da violência contra a mulher no mundo, a autora expõe as engrenagens do que une todos os países: a fábrica do medo, em cuja linha de produção se amontoam corpos de mulheres violentadas, quando não assassinadas, que não levam à interrupção do maquinário misógino, mas sim à ampliação do terror de ser a próxima vítima. Para Gqola, o medo de ser violentada se torna um idioma que exige uma perversa fluência das mulheres, que se veem forçadas a conduzir a vida a partir de um cálculo vigilante, como se viver e evitar a violência fossem sinônimos. Não à toa, ela se pergunta: quem seríamos e o que faríamos se não tivéssemos que nos preocupar em nos manter vivas num momento em que abundam casos de feminicídio? Comprometida com o feminismo, ela escolhe apresentar histórias de mulheres que, mesmo sem deixarem de temer, escolheram sustentar seus desejos. Lupita Nyong’o e Marielle Franco aparecem, ao lado de mulheres comuns,

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ZH93082 - A fábrica do medo feminino - 100726.indd 1-5

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A fábrica do medo feminino by Edições Sesc São Paulo - Issuu