
LÍGIA MORELI
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LÍGIA MORELI

Elza Soares se tornou um ícone brasileiro tanto na música como nos debates políticos de nosso tempo. Como cantora, colecionou 35 discos de carreira até a sua morte, em janeiro de 2022. As músicas “Se acaso você chegasse”, já no disco de estreia, em 1960, e “Beija-me”, do segundo álbum, de 1961, se revelaram sucessos instantâneos em todo o Brasil. Elza poderia, assim, se tornar uma cantora definida pelo cenário artístico daquele início dos anos 1960.
Mas é “A carne”, do disco Do cóccix até o pescoço, de 2002, uma de suas músicas mais representativas e ouvidas (“A carne mais barata do mercado é a carne negra”).
Foi longa e árdua a travessia da cantora: nascida em uma comunidade pobre entre os bairros de Realengo e Padre Miguel, no Rio de Janeiro; caloura do programa de rádio de Ary Barroso; intérprete de Lupicínio Rodrigues, Ataulfo Alves e Cyro Monteiro;

esposa de um dos maiores nomes da história do futebol mundial (Mané Garrincha); resgatada do ostracismo por Caetano Veloso nos anos 1980; e, então, ícone que vocaliza questões sensíveis às mulheres, à população negra e à comunidade LGBTQIA+ a partir dos anos 2000.
É esta a história contada neste ELZA SOARES: INSURREIÇÃO NA GARGANTA , da jornalista
Lígia Moreli. O livro analisa a contínua transformação da carreira de Elza em direção ao posicionamento estético e político consolidado no álbum A mulher do fim do mundo, de 2015, apoiando-se em teorias que abordam feminismo, política, psicanálise, mídia e imagem. A cantora vai se revelando um caso único de sobrevivência artística no país, ao passo que transforma sua arte em um manifesto contra o racismo, o machismo e o etarismo.
“Rosnar, berrar, rasgar o peito pela garganta não foram escolhas calculadas, tampouco foram fruto de uma estética do showbusiness para que a menina nascida na favela Moça Bonita, atual Vila Vintém, na zona oeste do Rio de Janeiro, se tornasse Elza Soares. Arrisco pensar que grunhir, trazendo os graves de uma puíta ou os agudos da cuíca, tenha sido, tal qual ocorre com os grandes felinos na África, um canto para espantar a fome, proteger a si e aos seus das violências cotidianas, espantar o inimigo, comunicar, chamar seus companheiros, clamar aos deuses. Sobreviver para, então, existir. Por outro lado, durante a infância, como a própria Elza relatou, rosnar foi também uma maneira lúdica de experimentar e brincar com a voz, com o timbre. Grunhir como resposta involuntária, quando, ao desafiar as leis da física, o corpo de uma criança equilibra a lata d’água sobre a cabeça, vencendo a gravidade e não sucumbindo ao chão, mantendo a coluna, do cóccix ao pescoço, ereta.”
Do prefácio da cantora e pesquisadora Fabiana Cozza Neste livro, a jornalista Lígia Moreli analisa a contínua transformação da carreira de Elza em direção ao posicionamento estético e político consolidado no álbum A mulher do fim do mundo, de 2015, apoiando-se em teorias que abordam feminismo, política, psicanálise, mídia e imagem.

ISBN 978-85-9493-374-4

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M839e
Moreli, Lígia.
Elza Soares: insurreição na garganta / Lígia Moreli – São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2026. 160 p.
ISBN 978-85-9493-374-4
1. Elza Soares. 2. Cantora brasileira. 3. Música popular brasileira. 4.Biogra a. I. Moreli, Lígia. II. Cozza, Fabiana. III. Título. IV. Título: Insurreição na garganta.
CDD 782.42164092
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Aos meus lhos, Pedro e Liz.
Laroyê ê mojubá, liberdade
Abre os caminhos pra Elza passar
Salve a Mocidade
Essa nega tem poder
É luz que clareia
É samba que corre na veia
“Elza Deusa Soares”, samba-enredo do Grêmio Recreativo Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel, Carnaval 2020


CARNE NEGRA
Luiz Deoclecio Massaro GalinaFabiana Cozza 15 17
INTRODUÇÃO 27

O álbum lhe rendeu prêmios e indicações:
• Associação Paulista de Críticos de Arte (2015) – Melhor Álbum
• Revista Rolling Stone Brasil (2015) – Melhor Música por “Maria da Vila Matilde”
• Prêmio da Música Brasileira 2016 – Melhor Álbum (no mesmo prêmio a cantora foi indicada na categoria Melhor Cantora e Melhor Música com a faixa “Mulher do m do mundo”)
• Grammy Latino 2016 – Melhor Álbum de Música Popular Brasileira
O show homônimo estreou logo na sequência do lançamento do álbum, em outubro de 2015, com apresentações no Auditório Ibirapuera, em São Paulo. Ao longo de pouco mais de dois anos, Elza percorreu dezenas de cidades brasileiras e fez duas turnês internacionais, passando por importantes teatros e festivais na Alemanha, Inglaterra, Portugal, Holanda, Dinamarca, Espanha e Estados Unidos. A biogra a Elza destaca, como pontos altos da turnê, as apresentações inaugurais no Auditório Ibirapuera, a performance no Teatro Oi Casa Grande, no Rio de Janeiro, em dezembro de 2015, e a participação no Brasil Summerfest 2017, quando Elza cantou o repertório do álbum no Central Park, em Nova York.
Com direção de arte da designer Anna Turra, conhecida por sua atuação na concepção visual de shows, exposições, montagens teatrais e de dança, o show teve como cenário um trono metálico no topo de sete degraus, em meio a centenas de sacos plásticos de lixo que se estendem a partir da saia de Elza – a própria saia era um item cenográ co do gurino. Todos os músicos cavam em volta desse trono onde a cantora se apresentava sentada, já que os problemas em sua coluna a impediam de performar em pé. Ao fundo, havia uma pirâmide invertida manufaturada de sacos de lixo pretos, que, a partir de projeções em vídeo e jogos de luz, ia se transformando em ouro, prata e cor de carne.
E pros hospitais psiquiátricos
A carne mais barata do mercado é a carne negra (Dizem por aí)
A canção, tomada como uma espécie de hino antirracista, em que Elza denuncia as entranhas da violência contra pessoas negras encoberta pelo discurso da democracia racial, já havia ganhado uma versão atualizada no disco Planeta Fome, escrita por Rafael Mike, em que a artista canta que “a carne mais barata do mercado não tá mais de graça”. Uma letra que revela que o racismo continua, já que a carne negra ainda é barata, mas assinala que a desumanização de toda uma comunidade “que fez e faz esse país no braço” ao menos não tem mais cado sem resposta. Aos poucos, a violência racial começa a ser desnaturalizada, como na própria reação ao crime ocorrido no hipermercado. Aqui se mostra claramente o agenciamento engendrado por Elza e que se expande na coletividade, fazendo com que mais pessoas se apropriem do discurso antirracista, o mesmo que hoje leva a acalorado debate sobre atos considerados racistas na TV, entre celebridades e até mesmo entre o grande público, nas ruas, nos transportes coletivos e nas redes sociais.
A forma como Elza interpretou canções como “A carne” pode ser pensada a partir do que a lósofa norte-americana
Judith Butler chamou de performatividade discursiva. Segundo a pensadora, as palavras abrem possibilidades de agenciamento, sendo capazes de se desligar das intencionalidades com que foram proferidas para se recontextualizar: “Entender a performatividade como uma ação renovável sem origem nem ns claros implica que a linguagem não se vê restrita nem por seu falante especí co, nem por seu contexto originário. Essa linguagem não só vem de nida por seu contexto social, também está marcada por sua capacidade de romper com esse contexto”83.
83 Judith Butler, Lenguaje, poder e identidad, Madrid: Sintesis, 1997, p. 71.
Quando a cantora cantou “A coisa tá preta” com MC Rebecca em 2021, ela desconstruiu e ressigni cou termos negativos atribuídos a tudo que é adjetivado como sendo negro, preto e escuro. Em um país que tem o racismo em seu alicerce econômico e social, a língua que falamos não passou ilesa à desumanização e deterioração da imagem que se tem do povo negro. Invertendo os sinais, Elza e Rebecca cantaram que a “a coisa tá preta” num contexto em que a expressão ganha contornos positivos e enaltece a beleza e a força da negritude.
Por que que a fome é negra
Se negra é a beleza?
Se todo mundo canta e tá feliz
É que a coisa tá preta
Mesmo que em várias fases de sua vida a cantora não se reconhecesse como ativista, ou dissesse não levantar bandeiras, a forma como viveu seu papel de mulher e artista negra na sociedade e até mesmo a forma como viveu o seu relacionamento com o jogador Garrincha denotam que tudo nela ganhava contornos políticos, por vezes não no sentido macro, mas sempre no sentido micropolítico.
No documentário Elza & Mané, uma das últimas produções da artista antes de seu falecimento, o jornalista esportivo Juca Kfouri conta como ela atuou de forma incisiva junto ao time de futebol Botafogo, impondo-se em um ambiente extremamente masculino e preconceituoso para tentar negociar a carreira de seu companheiro, algo totalmente impensável para o comportamento de uma mulher na época: “Aí vem uma mulher, negra, do showbiz, e diz ‘olha, está pagando pouco pro Mané, é o maior jogador do mundo, tá ali com o Rei Pelé!’ Ah, que arrogante, que petulante, quem que ela pensa que é!”84.
84 Elza & Mané, op. cit.
O mesmo documentário, de 2022, dá conta de que Elza cantou em eventos políticos relacionados ao ex-presidente João Goulart, entre eles o famoso comício da Central do Brasil, que teria sido a gota d’água para a explosão do golpe militar de 1964. Mas o que ca evidente é que Elza não estava ali necessariamente por um apoio direto a este ou aquele partido, ou que estivesse a serviço do comunismo, grande temor da época – e ainda da atualidade –, embora nunca tenhamos passado nem perto de termos esse regime no Brasil. A cantora chegou a ser chada pelos serviços de inteligência da ditadura militar, porém não tanto por um possível posicionamento crítico em relação ao governo da época. O que causava perseguição à sua persona era seu modo de viver, de estar presente, sempre desconstruindo e desa ando o que era estabelecido moral e socialmente no país. Elza sempre foi muito identi cada com as camadas populares, com a negritude, sempre se comportando de forma considerada arrojada, o que causava muito incômodo.
A artista foi ressigni cando os entendimentos sobre seu próprio corpo em diálogo com os diferentes contextos históricos que atravessou. Em incontáveis momentos de sua carreira, lendo suas biogra as, críticas ao seu trabalho, bem como em suas próprias entrevistas – a exemplo da já citada entrevista no Roda Viva de 2002 –, Elza se revelou uma mulher vaidosa, que sempre se achou muito bonita, procurou cuidar de seu corpo com ginástica, plásticas e boa alimentação, e soube fazer uso de sua sensualidade em suas apresentações. O samba no pé, no miudinho, as roupas justas ou transparentes mostrando a exuberância e as curvas de seu corpo negro foram por muitos anos uma de suas marcas, diversas vezes tomando a frente da qualidade de sua música na leitura feita por uma crítica que era branca e masculina. Na tese Deslocamentos entre o samba e a fé: um olhar para gênero, raça, cor, corpo e religiosidade na produção das diferenças, a cientista social Kelly Adriano de Oliveira tratou das ambiguidades da gura da “mulata”, tão evocada na cultura brasileira
e que por muitas vezes foi incorporada por Elza Soares, procurando olhar para o termo a partir da articulação dos marcadores de diferenciação social de gênero, raça e classe. Trazendo para o debate a socióloga ugandense-britânica Avtar Brah, a autora assinalou que “mulata, mais do que um termo meramente descritivo, é um código colonial para uma relação de dominação e subordinação entre o colonizador e o colonizado”85. Problematizando essa categorização, Oliveira insere o termo “mulata” nas discussões de “mestiçagem”, assinalando que tal conceituação traz as marcas da chamada “cor da brasilidade”, que, em interseção com as marcas de gênero, ganha contornos morais, fazendo com que esse corpo carregue ressigni cações como a de uma sensibilidade à or da pele86.
[...] a questão da cor da pele e da aparência se insere nas relações que têm como base marcadores de diferença corporal socialmente atribuídos, e diferenças fenotípicas socialmente construídas, levantando questões sobre o lugar do corpo na formulação das representações sociais associadas às mulheres negras no Brasil, formulações essas que pensam esse corpo sem historicidade, padronizado, único, igual, por conta de um discurso permanentemente produzido como aparato que traz uma materialidade xada na linguagem, como sistema de produção de sentidos. 87
Ao mesmo tempo que não negava sua sensualidade, Elza nunca se circunscreveu ao lugar de mulata “que passa com graça, fazendo pirraça, ngindo inocente, tirando o sossego da gente”,
85 Avtar Brah apud Kelly Adriano Oliveira, Deslocamentos entre o samba e a fé: um olhar para gênero, raça, cor, corpo e religiosidade na produção de diferenças, tese de doutorado em Ciências Sociais, Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2009, p. 71.
86 Kelly Adriano Oliveira, op. cit., p. 73.
87 Ibidem, p. 64.
como no samba composto por Ataulfo Alves88 em 1956. Se usou desse lugar para se fazer visível, principalmente no início de sua carreira, logo tratou de estabelecer seus limites, a exemplo de quando se negou a receber rosas do compositor Lupicínio Rodrigues, autor de seu primeiro grande sucesso “Se acaso você chegasse”, quando estava trabalhando na boate Texas Bar, com a preocupação de sempre dizer que pode ser sensual, sim, mas não a gura de mulher fácil, feita somente para o sexo e destruidora de lares, que mais tarde, quando de seu relacionamento com Mané Garrincha, a sociedade e a mídia conservadora brasileira da década de 1960 lhe imputaram. Ao que tudo indica, Lupi, como ela mais tarde viria a chamar carinhosamente o compositor, não estava com “segundas intenções”, mas a reação de Elza era fruto de uma rígida educação que se fazia ainda mais in exível dada a forma como historicamente são lidas as mulheres negras na sociedade brasileira, símbolo da “sensualidade à or da pele” de que acabamos de falar.
Se cedeu ao estereótipo de mulata para entrar no sistema do mercado fonográ co e do show business, também o usou a seu favor para desconstruir a imagem que as mulheres negras e o povo preto tinham de si, a começar pelo tempo da “menina cheia de graça que vem e que passa no doce balanço a caminho do mar” e que era branca como a socialite Heloísa Pinheiro, homenageada por Tom Jobim em “Garota de Ipanema”, no auge da bossa nova, uma verdadeira ode à modernidade.
O movimento musical nascido no seio da classe média branca carioca, e que tinha na tríade Tom Jobim, Vinicius de Moares e João Gilberto seus representantes mais famosos, teve seu pontapé inicial o cial em 1959, com o disco Canção do amor demais, lançado por Elizeth Cardoso. Nesse tempo, Elza estava iniciando sua carreira, não cantava baixinho como a turma do
88 Versos da canção “Mulata assanhada”, de Ataulfo Alves, que foi gravada por Elza Soares em 1960.
Livros
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ELZA Soares e Renegado: Onda negra – Virada Cultural 2020 Disponível em: <https://www.youtube.com/ watch?v=mPH6KxWNkL4>. Acesso em: abr. 2025.
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O SOM do Vinil. Elza Soares: Deus é mulher. Canal Brasil, 19 nov. 2019. Disponível em: <https://youtu.be/w68h2FKFgCQ>. Acesso em: abr. 2025.
RODA Viva. TV Cultura. 2 set. 2002. Disponível em: <https://youtu. be/8ko447IATMk>. Acesso em: abr. 2025.
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Nilton Silva / Acervo Sesc São Paulo
pp. 10-1 e 34
Alex Ribeiro / Acervo Sesc São Paulo
pp. 26, 72-3 e 142
Alexandre Nunis / Acervo Sesc São Paulo
pp. 71, 150 e 158
Matheus José Maria / Acervo Sesc São Paulo
p. 149
Evelson de Freitas / Acervo Sesc São Paulo

Lígia Moreli é jornalista pela PUC-Campinas e mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Atua como gestora de comunicação no Sesc São Paulo desde 2023. Sua trajetória na instituição, onde também foi gerente adjunta das unidades de Sorocaba e Pinheiros, é marcada pelo desenvolvimento de projetos culturais, com ênfase na música.
Este livro foi composto com as famílias tipográ cas
Neue Haas Grotesk e Utopia e impresso em papel Pólen Soft 80g/m2 no miolo e em Supremo Alta Alvura 250g/m2 na capa, na grá ca Pi erprint, em abril de 2026.
Quando, em 19 de dezembro de 2021, no último show de sua vida, subiu ao palco em Belém do Pará, tendo seu nome bradado por uma multidão, Elza Soares estava no auge de uma trajetória que durou décadas e pode ser vista como a travessia de uma menina preta que nunca se conformou com o papel que lhe deram na sociedade e que terminou a vida como um exemplo para outras tantas meninas e mulheres pretas.
2019. Elza recebe o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e discursa: “A minha bisavó Henriqueta foi uma escrava. A minha avó foi uma escrava.
A minha mãe, Rosária, pegou o nalzinho da escravatura e estou aqui representando elas, Dona Henriqueta, bisavó, Dona Cristina, minha avó, Dona Rosária, minha mãe, e eu estou aqui, Elza!”.